Matthew Henry

Zacarias 9

Argumento

Neste capítulo começa outro sermão, que prossegue até o fim de Zacarias 11. Chama-se “O peso da palavra do Senhor”, pois toda palavra de Deus tem peso para quem a considera e será um peso esmagador, um peso morto, para quem não a considera.

Aqui está: I. Uma profecia contra os vizinhos injustos dos judeus — sírios, tírios, filisteus e outros (vv. 1-6), com indicação de misericórdia para alguns deles em sua conversão (v. 7) e promessa de misericórdia ao povo de Deus em sua proteção (v. 8).

II. Uma profecia de seu Rei justo, o Messias, e de sua vinda, com uma descrição dele (v. 9) e de seu reino, sua natureza e extensão (v. 10).

III. Um relato da obrigação que os judeus tinham para com Cristo por sua libertação do cativeiro na Babilônia (v. 11, 12).

IV. Uma profecia das vitórias e dos êxitos que Deus concederia aos judeus sobre seus inimigos, como tipos de nossa grande libertação por Cristo (vv. 13-15).

V. Uma promessa de grande fartura, alegria e honra que Deus reservava para seu povo (v. 16, 17), escrita para animá-lo.

Profecia contra a Síria; Profecia contra os Inimigos de Israel; Juízos e Misericórdias. (a.C. 510.)

Versículos 1 a 8

Depois das preciosas promessas de favor ao povo de Deus no capítulo anterior, chega a vez de acertar contas com seus perseguidores, que o odiavam, especialmente os que faziam fronteira com ele.

I. Os sírios haviam sido maus vizinhos de Israel, e Deus tinha uma contenda com eles. A palavra do Senhor será um peso na terra de Hadrac, isto é, na Síria, embora não esteja claro por que ela era chamada assim.

É evidente que se trata desse reino, pois se diz que Damasco, sua capital, será o lugar onde esse peso repousará; isto é, os juízos aqui ameaçados cairão e permanecerão sobre aquela cidade.

São miseráveis aqueles sobre quem repousa o peso da palavra do Senhor, aqueles sobre quem permanece a cólera de Deus (João 3:36), pois é um peso que não conseguem nem sacudir de si nem suportar. Há pessoas sobre quem Deus faz repousar sua fúria.

Aqueles que a cólera de Deus toma por alvo ela certamente atingirá; aqueles em quem ela repousa certamente afundarão sob ela. E o motivo de esse peso repousar sobre Damasco é que “os olhos do homem, como os de todas as tribos de Israel”, ou, melhor, até os de todas as tribos de Israel, “estão voltados para o Senhor”.

O povo de Deus olha para ele com fé e oração em busca de socorro e alívio, e depende dele para que tome seu partido contra seus inimigos. Repare: é sinal de que Deus está prestes a manifestar-se de modo notável por seu povo quando desperta nele a expectativa confiante e a dependência dele, e quando, por sua graça, o faz voltar dos ídolos para si.

“Naquele dia o homem olhará para seu Criador” (Isaías 17:7, 8). Também se pode ler assim: “Pois o Senhor tem os olhos postos no homem e em todas as tribos de Israel”. Ele é Rei das nações, assim como Rei dos santos; governa o mundo, assim como a igreja, e por isso punirá os pecados dos outros povos, assim como os de seu próprio povo.

Deus é Juiz de todos; portanto, todos devem prestar-lhe contas de si mesmos. Quando São Paulo se converteu em Damasco, ali pregou e discutiu com os judeus, pôde-se dizer que a palavra do Senhor repousava naquela cidade. Então os olhos dos homens, inclusive dos que não pertenciam às tribos de Israel, começaram a voltar-se para o Senhor (veja Atos 9:22).

Hamate, terra ao norte de Damasco, de que lemos muitas vezes, fará fronteira com ela (v. 2). É contígua à Síria e participará do peso da palavra do Senhor que repousa sobre Damasco. Os judeus têm um provérbio: “Ai do homem perverso e ai de seu vizinho”, que corre o perigo de participar dos pecados e dos castigos dele. Ai da terra de Hadrac e ai de Hamate, sua vizinha.

II. Tiro e Sidom são as próximas a ser chamadas a prestar contas aqui, como em outras profecias (vv. 2-4). Observe aqui:

  1. Tiro floresce, considera-se muito segura e se dispõe não apenas a tratar os juízos de Deus como distantes, mas também a desafiá-los:

(1.) Ela é muito sábia. Isso se diz com ironia: ela se julga muito sábia, capaz até de superar a sabedoria de Deus. Admite-se que seu rei é um grande político e que seus conselheiros também o são (Ezequiel 28:3).

Mas, com toda a sua inteligência e sagacidade, não conseguirão escapar dos juízos de Deus quando estes vierem com autorização; não há sabedoria nem conselho contra o Senhor. Ou melhor: é honra dele apanhar os sábios na própria astúcia.

(2.) Ela é muito forte, bem fortificada pela natureza e pela engenhosidade humana: Tiro construiu para si uma fortaleza que julgava impossível de derrubar ou transpor.

(3.) Ela é muito rica. “O dinheiro é uma defesa” (Eclesiastes 7:12); é o nervo da guerra. Por seu vasto comércio, acumulou prata como o pó e ouro fino como a lama das ruas; isto é, possui-os em abundância, montes de prata tão comuns quanto montes de areia (Jó 27:16).

Salomão tornou a prata em Jerusalém tão comum quanto as pedras das ruas; Tiro, porém, foi além e tornou o ouro fino tão comum quanto a lama das ruas. Seria bom se todos aprendêssemos a considerá-lo assim em comparação com o comércio da sabedoria e da graça e com os ganhos que elas proporcionam.

  1. Tiro cai, apesar de tudo. Sua sabedoria, riqueza e força não poderão protegê-la (v. 4): “O Senhor a expulsará” da fortaleza em que se entrincheirou. Segundo outra leitura, ele a empobrecerá; há exemplos de pessoas que caíram do auge da fartura às profundezas da pobreza, e grandes riquezas se reduziram a nada.

Deus atingirá seu poder no mar. Estar cercada de água não a protegerá: ela será devorada pelo fogo e queimada até o chão. Por situar-se no meio das águas, Tiro parecia correr o risco de um dia ser inundada ou arrastada por elas; contudo, Deus escolhe destruí-la pelo elemento oposto.

Às vezes ele causa a ruína de seus inimigos pelos meios de que menos suspeitam. Havia bastante água perto para apagar as chamas de Tiro, e ainda assim elas a devorarão; pois quem pode apagar o fogo que o sopro do Todo-Poderoso atiça?

III. Em seguida, Deus contende com os filisteus, com suas grandes cidades e seus grandes senhores, vizinhos de Israel ao sul.

  1. Eles serão alarmados e aterrorizados pela palavra do Senhor que cai e repousa sobre Damasco (v. 5). Muitas vezes as desgraças de Israel haviam sido anunciadas nas ruas de Ascalom, e os filisteus haviam triunfado com elas; agora, porém, Ascalom verá a ruína de seus amigos e aliados e terá medo.

Gaza também a verá e ficará profundamente triste. Ecrom também a verá e se entristecerá, concluindo que sua vez vem em seguida, agora que o cálice do tremor passa de mão em mão. Que será de sua casa quando a do vizinho estiver em chamas?

Eles consideravam Tiro e Sidom uma barreira para sua terra; quando, porém, essas cidades fortes forem arruinadas, suas expectativas nelas serão frustradas, como, no fim, será frustrada nossa expectativa em todas as criaturas.

  1. Eles próprios serão arruinados e devastados:

(1.) O governo será dissolvido: “O rei perecerá de Gaza”. Não apenas o rei atual será eliminado; também não haverá sucessão nem sucessor.

(2.) As cidades perderão sua população: “Ascalom não será habitada”; seus legítimos moradores serão expulsos, mortos ou levados cativos.

(3.) Estrangeiros tomarão posse de sua terra e dominarão todas as suas riquezas (v. 6): “Um bastardo habitará em Asdode”. Uma descendência espúria de estrangeiros se apossará das heranças dos naturais da terra, às quais não tem mais direito do que um bastardo aos bens dos filhos legítimos.

Assim Deus eliminará o orgulho dos filisteus, toda a força e riqueza de que se orgulhavam e nas quais baseavam sua confiança em si mesmos e seu desprezo pelo Israel de Deus.

Essa profecia da destruição dos filisteus, de Damasco e de Tiro se cumpriu pouco tempo depois por meio de Alexandre, o Grande, que devastou todas essas terras com seu exército vitorioso, conquistou as cidades e nelas estabeleceu colônias. Quinto Cúrcio relata esses fatos em detalhes na história das conquistas de Alexandre.

Alguns entendem que Alexandre é o bastardo que habitará em Asdode, pois sua mãe, Olímpia, admitia tê-lo concebido em adultério, embora alegasse que o pai era Júpiter.

Mais tarde, os judeus ganharam terreno contra os filisteus, os sírios e outros vizinhos. Tomaram algumas de suas cidades e ocuparam suas terras, como mostram as histórias de Josefo e dos Macabeus. Isso fora anunciado antes (Sofonias 2:4, etc.; Obadias 1:20).

  1. Alguns dentre eles se converterão e serão trazidos de volta a Deus pelo evangelho e pela graça dele. Assim alguns entendem o v. 7 como uma promessa:

(1.) Deus retiraria os pecados dessas nações: seu sangue e suas abominações, suas crueldades e idolatrias. Ele as separará desses pecados, que elas têm revirado sob a língua como um bocado doce e dos quais relutam tanto em se desfazer quanto os homens relutam em tirar a comida da boca; mantêm-nos firmes entre os dentes. Nada é difícil demais para a graça de Deus.

(2.) Deus aceitaria para si um remanescente dentre elas: “O que restar será para o nosso Deus”. Preservaria um remanescente até mesmo dessas nações, que seriam monumentos de sua misericórdia e graça e separados para ele.

As desvantagens de seu nascimento não impediriam que Deus os aceitasse. Um filisteu seria tão aceitável a Deus, nos termos do evangelho, quanto alguém de Judá; ou melhor, quanto um governador ou pessoa importante em Judá. Um homem de Ecrom seria como um jebuseu ou um homem de Jerusalém, como um jebuseu convertido, como Araúna, o jebuseu (2 Samuel 24:16).

Em Cristo Jesus não há distinção de nações: todos são um nele, e todos são igualmente bem-vindos a ele.

IV. Em tudo isso Deus tem em vista a misericórdia para Israel; é por bondade para com seu povo que tratará assim as nações vizinhas, para vingar a causa deles pelos males passados e protegê-los no futuro.

  1. Alguns, portanto, entendem o sétimo versículo como indicação de que:

(1.) Deus livraria seu povo dos adversários sanguinários, que o odiavam e para quem ele era uma abominação, quando já estavam prestes a devorá-lo e fazer dele sua presa: “Tirarei seu sangue”, isto é, o sangue de Israel, “da boca dos filisteus e de entre seus dentes” (Amós 3:12), quando, movidos pelo ódio e pela inimizade, o devoravam avidamente.

(2.) Deus lhes daria vitória e domínio sobre esses inimigos: “E o que restar”, isto é, o remanescente de Israel, “será para o nosso Deus”, será acolhido no favor dele, reconhecerá Deus e será reconhecido por ele, “e será como um governador em Judá”.

Embora os judeus tenham vivido muito tempo em servidão, recuperarão sua antiga dignidade e serão vitoriosos, como foram Davi e outros governadores de Judá. Ecrom, isto é, os filisteus, será como os jebuseus e as demais nações votadas à destruição, que foram submetidas aos judeus.

  1. Seja como for, este é claramente o sentido do v. 8: Deus colocará seu povo sob proteção especial e, por isso, enfraquecerá seus vizinhos, de modo que não possam causar-lhe dano: “Acamparei ao redor de minha casa por causa do exército”. Repare: a casa de Deus fica no meio do território inimigo, e sua igreja é como um lírio entre espinhos.

Por isso devemos observar o poder e a bondade de Deus em preservá-la especialmente. O acampamento dos santos é um pequeno rebanho diante dos numerosos exércitos das forças das trevas que o cercam; certamente seria engolido se os anjos de Deus não acampassem ao seu redor, como fizeram em torno de Eliseu, para livrá-lo (Apocalipse 20:9; Salmos 34:7).

Quando os tempos são extraordinariamente perigosos, os exércitos marcham e contramarcham, e todos nutrem hostilidade contra Sião, a Providência, por assim dizer, dobra sua guarda em torno da igreja de Deus “por causa do que passa e do que torna a passar”. Assim, volte ele vencedor ou vencido, não poderá causar-lhe dano.

Assim como nenhum dos que passam lhes fará mal, nenhum opressor voltará a passar por entre eles. Não terão entre si inimigo algum que os governe com rigor e lhes amargue a vida com dura servidão, como aconteceu antigamente no Egito.

Isso se cumpriu quando, por algum tempo após as lutas dos Macabeus, a Judeia foi um Estado livre e próspero. Ou talvez tenha ocorrido quando Alexandre, o Grande, tomado de reverência por Jadua, o sumo sacerdote, favoreceu os judeus e os colocou sob sua proteção, ao mesmo tempo que devastava as terras vizinhas.

O motivo dado para tudo isso é: “Pois agora vi com meus olhos; agora distingui cuidadosamente entre meu povo e os outros povos, com os quais antes parecia compartilhar a mesma sorte, e mostrei que conheço os que são meus”. Isso concorda com Salmos 34:15: “Os olhos do Senhor estão sobre os justos”.

Agora seus olhos, que percorrem toda a terra, se fixarão neles, para que ele se mostre terno para com eles e forte em seu favor (2 Crônicas 16:9).

Versículos 9 a 11

Predições Relativas ao Messias. (a.C. 510.)

É claro que aqui começa uma profecia do Messias e de seu reino, pois o nono versículo se cumpriu literalmente na entrada triunfal de Cristo em Jerusalém e foi expressamente aplicado a ela (Mateus 21:5; João 12:15).

I. Anuncia-se aqui a aproximação do Messias prometido, motivo de grande alegria para a igreja do Antigo Testamento: “Eis que teu rei vem a ti”. Cristo é rei, investido de poderes e prerrogativas reais, príncipe soberano, monarca absoluto, com todo o poder tanto no céu quanto na terra.

Ele é o rei de Sião. Deus o estabeleceu sobre seu santo monte de Sião (Salmos 2:6). Em Sião resplandece sua glória de rei; dali saiu sua lei, a própria palavra do Senhor.

Na igreja do evangelho se administra seu reino espiritual: é por ele que as ordenanças da igreja são instituídas e seus oficiais recebem sua comissão. Ela também é colocada sob sua proteção; como seu rei, ele trava as batalhas da igreja e protege seus interesses.

“Esse Rei demorou muito a vir, mas agora, eis que vem; está à porta. Restam poucas eras para se completar, e aquele que há de vir virá.” “Ele vem a ti: em breve a Palavra se fará carne e habitará dentro de tuas fronteiras; virá para o que é seu.”

“Portanto, alegra-te, alegra-te muito e grita de alegria; recebe isso como boa notícia e tem certeza de que é verdade.”

“Deleita-te em pensar que ele vem, que está a caminho de ti, e prepara-te para sair ao seu encontro com aclamações de alegria, como quem não consegue escondê-la, tão grande é ela, nem se envergonha de expressá-la, tão justa é; clama-lhe Hosana.” As aproximações de Cristo devem provocar os aplausos da igreja.

II. Ele é descrito aqui de modo a tornar-se muito amável aos olhos de todos os súditos que o amam, e sua vinda, muito bem-vinda a eles.

  1. É um governante justo: todos os atos de seu governo seguirão exatamente as regras da equidade, pois ele é justo.

  2. É um protetor poderoso para todos os que lhe dedicam fé e lealdade verdadeira, pois tem salvação; ela está em seu poder, e pode concedê-la a todos os seus súditos. Ele é o Deus da salvação; nele há tesouros de salvação. É servatus — salva a si mesmo, segundo alguns — ao ressuscitar da sepultura por seu próprio poder, tornando-se assim apto a ser nosso Salvador.

(3.) É um Pai manso, humilde e terno para todos os seus súditos, que são seus filhos; é humilde, pobre e aflito, como também significa a palavra, indicando a humildade de sua condição. Tendo-se esvaziado, foi desprezado e rejeitado pelos homens.

O evangelista, porém, traduz a palavra de modo a expressar sua disposição de espírito: ele é manso. Não se reveste de pompa nem guarda ressentimento pelas injúrias, mas se humilha do começo ao fim, condescende com os humildes e se compadece dos miseráveis.

Essa era uma qualidade brilhante e excelente dele como profeta: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mateus 11:29); não o era menos como rei.

Prova disso é que, ao entrar publicamente em sua própria cidade, no único episódio de sua vida com algo de magnífico aos olhos do mundo, escolheu montar não num cavalo imponente nem num carro, como costumavam fazer os grandes homens, mas num jumento.

O jumento é, de fato, um animal de serviço, mas pobre, tolo e desprezado, pequeno e lento, e naqueles dias montado apenas pelas pessoas de condição inferior. Nem sequer era um jumento preparado para uso, mas um jumentinho, animalzinho tolo e difícil de conduzir, mais propenso a envergonhar seu cavaleiro do que a lhe dar prestígio.

E nem esse jumentinho era seu, tampouco foi favorecido por bons arreios, como às vezes acontece com um cavalo ruim: não tinha sela, manta, enfeites nem aparato, apenas as roupas dos discípulos lançadas sobre ele. Pois, ao nos visitar com grande humildade, ele renunciou a toda reputação.

III. Apresenta-se aqui a glória de seu reino. Esse rei tem e terá um reino, não deste mundo, mas espiritual: o reino dos céus.

  1. Esse reino não será estabelecido e promovido pela força exterior, pelo braço humano ou por armas carnais. Não: ele eliminará o carro de Efraim e os cavalos de Jerusalém (v. 10), pois não precisará deles enquanto ele próprio monta num jumento.

Por bondade para com seu povo, eliminará seus cavalos e carros, para que não se afastem de Deus ao depositar neles a confiança que devem depositar somente no poder divino. Ele próprio assumirá sua proteção, será uma muralha de fogo ao redor de Jerusalém e dará ordens a seus anjos a respeito dela, aqueles carros e cavalos de fogo.

Então os carros e cavalos que tinham a seu serviço serão dispensados e eliminados, por serem completamente desnecessários.

  1. O reino será propagado e estabelecido pela pregação do evangelho, pelo anúncio de paz aos gentios; pois Cristo veio e pregou paz aos que estavam longe e aos que estavam perto. Assim estabeleceu seu reino, proclamando na terra paz e boa vontade para com os homens.

  2. Seu reino, à medida que prevalecer na mente das pessoas e as governar, as tornará pacíficas e eliminará todas as inimizades; eliminará o arco de guerra e transformará espadas em relhas de arado. Não apenas ordenará a paz, mas também criará o fruto dos lábios: paz.

  3. Seu reino se estenderá a todas as partes do mundo, apesar da oposição que lhe fizerem. “O carro e o cavalo que vierem contra Efraim e Jerusalém para impedir o avanço do Rei de Sião serão eliminados. Seu evangelho será pregado ao mundo e recebido entre os gentios, de modo que seu domínio irá de mar a mar e desde o rio até os confins da terra”, como Davi predisse (Salmos 72:8).

Os pregadores do evangelho o levarão de um país, de uma ilha, a outro, até que alguns dos recantos mais distantes do mundo sejam iluminados e submetidos por ele.

IV. Apresenta-se aqui o grande benefício que o Messias conquistou para a humanidade: a redenção de uma miséria extrema, simbolizada pela libertação dos judeus do cativeiro na Babilônia (v. 11):

“Quanto a ti também (ó filha de Jerusalém, ou ó Messias, o Príncipe), pelo sangue de tua aliança, pela força e eficácia da aliança com Abraão, selada com o sangue da circuncisão, e da aliança com Israel no monte Sinai, selada com o sangue dos sacrifícios, em cumprimento dela, há pouco libertei teus prisioneiros, teus cativos da Babilônia, lugar muito penoso para eles, como uma cova sem água.”

Fazia parte da aliança que, se na terra de seu cativeiro buscassem o Senhor, ele seria encontrado por eles (Levítico 26:42, 44, 45; Deuteronômio 30:4). Foi pelo sangue dessa aliança, que simbolizava o sangue de Cristo, em quem todas as alianças de Deus com os homens são sim e amém, que eles foram libertados do cativeiro.

E isso era apenas uma sombra da grande salvação realizada por seu Rei, ó filha de Sião! Repare: o estado de pecado é um estado de servidão; é uma prisão espiritual, uma cova ou masmorra sem água, onde não há consolo algum.

Por natureza, todos somos prisioneiros nessa cova. A Escritura nos encerrou a todos debaixo do pecado e nos sujeitou à justiça de Deus. Deus tem por bem tratar esses prisioneiros em novos termos, firmando com eles outra aliança.

O sangue de Cristo é o sangue dessa aliança: conquistou-a para nós, com todos os seus benefícios. Por esse sangue se fez provisão eficaz para libertar os prisioneiros em condições brandas e honrosas e se proclamou liberdade aos cativos e abertura da prisão aos presos.

Assim se deu com a proclamação de Ciro aos judeus da Babilônia: todos aqueles cujo espírito Deus despertar virão aproveitar-se dela.

Versículos 12 a 17

Convites do Evangelho; Promessas do Favor de Deus a Israel. (a.C. 510.)

O profeta ensinou aos que voltaram do cativeiro a atribuir sua libertação ao sangue da aliança e à promessa do Messias, pois receberam ajuda tão maravilhosa porque aquela bênção estava neles, ainda no ventre de sua nação.

Agora ele os anima com a perspectiva de um estabelecimento alegre e feliz e de tempos gloriosos à sua frente. De fato, por algum tempo desfrutaram dessa felicidade em boa medida; mas essas promessas se cumprem plenamente nas bênçãos espirituais do evangelho, que recebemos por Jesus Cristo.

I. São convidados a olhar para Cristo e fugir para ele como sua cidade de refúgio (v. 12): “Voltai à fortaleza, ó prisioneiros da esperança”. Os judeus que haviam voltado do cativeiro à própria terra ainda eram, na prática, apenas prisioneiros: “Hoje somos servos” (Neemias 9:36).

Mesmo assim, eram prisioneiros da esperança, ou da expectativa, pois Deus lhes dera um pequeno revigoramento em sua servidão (Esdras 9:8, 9). Aqueles que ainda permaneciam na Babilônia, retidos ali por seus negócios, também viviam na esperança de um dia rever sua terra.

Ambos os grupos são, então, orientados a voltar os olhos para o Messias, apresentado na promessa como sua fortaleza; devem abrigar-se nele e apoiar-se nele, para que seja completada a misericórdia iniciada de forma tão gloriosa por sua graça e por sua causa. Olhem para ele e sejam salvos (Isaías 45:22).

A promessa do Messias foi a fortaleza dos fiéis muito antes de sua vinda. Eles viram de longe seu dia e se alegraram; por muito tempo, a expectativa crente da redenção em Jerusalém foi o sustento e o consolo de Israel (Lucas 2:25, 38).

Em seus perigos e aflições, estavam prontos a voltar-se para esta ou aquela criatura em busca de alívio; os profetas, porém, sempre os orientavam a voltar-se para Cristo e a consolar-se com a alegria de seu rei que lhes vinha trazer salvação.

Mas, assim como a libertação deles simbolizava nossa redenção por Cristo (v. 11), esse convite à fortaleza também fala a linguagem do chamado do evangelho. Os pecadores são prisioneiros, mas prisioneiros da esperança: sua situação é triste, mas não desesperadora; ainda há esperança em Israel para eles.

Cristo é para eles uma fortaleza, uma torre forte, onde podem estar seguros e tranquilos, sem temer a cólera de Deus, a maldição da lei nem os ataques de seus inimigos espirituais. Devem voltar-se para ele com fé viva, fugir para ele e confiar em seu nome.

II. Recebem a garantia do favor de Deus:

“Ainda hoje declaro, quando as coisas estão no pior estado e vocês julgam sua situação deplorável ao extremo, que, ainda assim, lhes prometo solenemente: eu vos restituirei em dobro, a ti, ó Jerusalém, a cada um de vós, prisioneiros da esperança.”

“Darei a vocês consolos em dobro das dores que sentiram, ou bênçãos em dobro daquelas que concedi a seus pais quando sua condição era a melhor possível. A glória de seu estado posterior, assim como a de sua última casa, será maior, duas vezes maior do que a anterior.”

Isso aconteceu somente pela vinda do Messias, pela pregação de seu evangelho e pelo estabelecimento de seu reino. Essas bênçãos espirituais nas regiões celestiais foram o dobro das que haviam desfrutado no período de maior prosperidade.

Como garantia disso, Deus promete aqui aos judeus, na plenitude dos tempos, vitória, fartura e alegria em sua própria terra; tudo isso, porém, seria apenas tipo e sombra de vitórias, riquezas e alegrias mais gloriosas no reino de Cristo.

  1. Eles triunfarão sobre seus inimigos. Após o retorno, os judeus estavam cercados de inimigos por todos os lados. Eram como uma ave malhada contra a qual se voltavam todas as aves do campo.

Sua terra ficava entre os dois poderosos reinos da Síria e do Egito, ramos da monarquia grega. Daniel 11 havia predito os perigos frequentes que enfrentariam entre eles. Mas aqui se promete que o Senhor os livraria de todos esses perigos.

Essa promessa se cumpriu primeiro nos tempos dos Macabeus, quando os judeus enfrentaram os inimigos, conseguiram manter-se à tona e, depois de muitas lutas e dificuldades, passaram a dominá-los. Promete-se:

(1.) Que serão instrumentos nas mãos de Deus para derrotar e frustrar seus perseguidores: “Curvei Judá para mim, como meu arco de aço; enchi esse arco com Efraim, como minhas flechas, e o estiquei até o limite, até a flecha chegar à ponta”. Alguns entendem que isso é o que significa a expressão encher o arco.

As expressões são muito belas, e as figuras, vivas. Judá havia aprendido a usar o arco (2 Samuel 1:18), e Efraim era famoso por seu uso (Salmos 78:9).

Que não pensem, porém, que alcançam êxito por meio do próprio arco: eles mesmos não passam do arco e das flechas de Deus, instrumentos em suas mãos, que ele usa e maneja como quer, segurando-os como seu arco e apontando-os ao alvo como suas flechas.

Os melhores e mais valentes homens são apenas o que Deus os torna e não prestam mais serviço do que aquele que ele os capacita a prestar. Os pregadores do evangelho foram o arco nas mãos de Cristo; com ele, saiu e prosseguiu “conquistando e para conquistar” (Apocalipse 6:2).

As palavras seguintes explicam isso: “Despertei e animei teus filhos, ó Sião, contra teus filhos, ó Grécia!” Cumpriu-se quando, contra Antíoco, um dos reis da monarquia grega, o povo que conhecia seu Deus se fortaleceu e realizou feitos notáveis (Daniel 11:32).

Nas mãos do Deus todo-poderoso, tornaram-se como a espada de um homem poderoso, à qual ninguém pode resistir. Diz-se que os perversos são a espada de Deus (Salmos 17:13); às vezes, ele também faz dos bons sua espada, pois emprega uns e outros como quer.

(2.) Que Deus será o capitão e comandante supremo deles em cada expedição e combate (v. 14): “O Senhor será visto sobre eles”; mostrará que preside seus assuntos e dirige todos os seus movimentos. Será tão evidente quanto foi quando apareceu sobre Israel na coluna de nuvem e fogo ao conduzi-lo pelo deserto, embora não seja tão perceptível aos sentidos.

[1.] É preciso levantar o exército, reuni-lo e levá-lo ao campo? “O Senhor tocará a trombeta” para reunir as forças, proclamar a guerra, dar o alarme e indicar por onde marchar e mover-se. Se Deus tocar a trombeta, seu som não será incerto nem fraco e ineficaz.

[2.] O exército entra em campo e começa a agir? Qualquer que seja a iniciativa que abra a campanha, Deus sairá à frente das tropas com os redemoinhos do sul, de velocidade e violência incríveis; diante desses redemoinhos, teus filhos, ó Grécia, serão como palha.

[3.] O exército está de fato em combate? As flechas de Deus sairão como relâmpagos, tão fortes, súbitas e irresistíveis; seus relâmpagos sairão como flechas e dispersarão os inimigos: ele lançou seus relâmpagos e os confundiu.

Isso lembra o que Deus fez antigamente por Israel ao tirá-lo do Egito e levá-lo a Canaã. Cumpriu-se em parte nos êxitos maravilhosos dos judeus contra os vizinhos que os atacaram nos tempos dos Macabeus, mediante manifestações especiais da divina Providência em seu favor.

Cumpriu-se plenamente nas gloriosas vitórias da cruz de Cristo e da pregação da cruz sobre Satanás e todas as forças das trevas, pelas quais nos tornamos mais que vencedores.

[4.] Estão em perigo de ser dominados pelo inimigo? “O Senhor dos Exércitos os defenderá” (v. 15); “O Senhor seu Deus os salvará” (v. 16). Portanto, seus inimigos não prevalecerão contra eles nem farão deles sua presa.

Deus será para eles tanto defesa quanto ataque, o escudo de sua ajuda e a espada de sua excelência. Será assim como Senhor dos Exércitos, que tem poder para defendê-los, e como seu Deus, comprometido por promessa a defendê-los e pelo direito que tem sobre eles.

Ele os salvará naquele dia decisivo e perigoso, como rebanho de seu povo, com o mesmo cuidado e ternura com que o pastor protege suas ovelhas. Estão seguros aqueles a quem Deus salva.

[5.] Os inimigos esperavam engoli-los? A situação se inverterá: os judeus devorarão os inimigos e, na falta de armas melhores, dominarão com pedras de funda os que vierem contra eles. Quando Deus quer, as pedras do riacho fazem tanto estrago quanto a melhor bateria de artilharia, pois as estrelas em suas órbitas lutarão do mesmo lado.

Golias foi derrotado por uma pedra de funda. Depois da vitória, eles devorarão os inimigos e, por assim dizer, beberão seu sangue. Como fazem os vencedores, soltarão gritos como sob o efeito do vinho.

Os vencedores costumam glorificar-se em suas vitórias e anunciá-las com altos brados e aclamações. Lemos sobre os que gritam pela vitória e sobre o grito de um rei entre o povo de Deus.

Eles se encherão de sangue e despojos, como as taças e bacias do templo, ou os cantos do altar, costumavam encher-se do sangue dos sacrifícios; pois seus inimigos cairão como vítimas da justiça divina.

  1. Eles triunfarão em seu Deus. Receberão o consolo de seus êxitos e darão a Deus a glória por eles. Assim alguns leem o v. 15: “Comerão”, isto é, desfrutarão tranquilamente o que conquistaram. Deus lhes dará condições de comer após terem dominado os que atiravam pedras de funda, seus inimigos.

“Beberão e farão ruído”, ruído de alegria, diante do Senhor, seu criador e protetor, “como sob o efeito do vinho”, como homens alegres num banquete regado a vinho. Não ficarão embriagados de vinho, em que há excesso, mas cheios do Espírito.

Falarão consigo mesmos e uns com os outros por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais, assim como os embriagados fazem com canções vãs e tolas (Efésios 5:18, 19).

Na plenitude de sua alegria, oferecerão muitos sacrifícios em honra de Deus, enchendo tanto as taças quanto os cantos do altar com a gordura e o sangue de suas ofertas. E, ao triunfarem assim por seus êxitos, sua alegria culminará em Deus, seu Deus, o Deus de sua salvação. Eles triunfarão:

(1.) No amor que ele tem por eles e no vínculo que os une a ele: são o rebanho de seu povo e ele é seu Pastor; são para ele como as pedras de uma coroa, muito preciosas e valiosas, guardadas sob forte proteção.

Nunca houve rei tão satisfeito com as joias de sua coroa quanto Deus está, e estará, com seu povo, que lhe é próximo e querido e em quem se gloria. São uma coroa de glória e um diadema real em sua mão (Isaías 62:2, 3). “E serão meus, diz o Senhor, naquele dia em que eu fizer minhas joias” (Malaquias 3:17).

Serão levantados como estandarte sobre sua terra, assim como o estandarte real é desfraldado como sinal de triunfo e alegria. O povo de Deus é sua glória; assim ele tem por bem torná-lo e considerá-lo.

Ele o ergue como bandeira sobre sua própria terra ao travar guerra contra os que o odeiam. Para estes, ela é bandeira de desafio; para todos os que o amam, é centro de união, inclusive para os filhos de Deus dispersos, convidados a vir alistar-se sob ela (Isaías 11:10, 12).

(2.) Na provisão que ele lhes faz (v. 15). Esse é o motivo de seu triunfo (v. 17): “Pois quão grande é sua bondade e quão grande é sua beleza!” Esse é o conteúdo, o tema, das canções com que farão ruído diante do Senhor. Aqui aprendemos:

[1.] A admirar e louvar a beleza do ser de Deus: “Quão grande é sua beleza!” Todas as perfeições de sua natureza se unem para torná-lo infinitamente amável aos olhos de todos os que o conhecem. Eles são para Deus como as pedras de uma coroa; mas o que Deus é para eles?

Nossa ocupação no templo é contemplar a beleza do Senhor (Salmos 27:4), e como é grande essa beleza! Quanto ela supera todas as outras, especialmente a beleza de sua santidade! Isso pode referir-se ao Messias, o Rei de Sião que vem.

Contemplem esse rei em sua beleza (Isaías 33:17): ele é mais belo que os filhos dos homens, o mais belo entre dez mil, inteiramente amável. Embora aos olhos do mundo não tivesse forma nem formosura, aos olhos da fé quão grande é sua beleza!

[2.] A admirar e agradecer as dádivas do favor e da graça de Deus, sua generosidade assim como sua beleza: “Pois quão grande é sua bondade!” Como é rico em misericórdia! Como são profundas e cheias suas fontes! Como são variadas, abundantes e preciosas suas correntes!

Quanto bem Deus faz! Como é rico em misericórdia! Eis um exemplo de sua bondade para com seu povo: “O trigo alegrará os jovens, e o vinho novo, as moças”; isto é, Deus abençoará seu povo com fartura dos frutos da terra.

Eles haviam sofrido tanta escassez que jovens e moças estavam prestes a desfalecer e cair de fome e sede (Lamentações 2:12, 21; 4:7, 8; 5:10). Agora terão pão em abundância, não apenas água, mas também vinho, vinho novo, que fará os jovens crescerem e ficarem alegres.

Além disso, como alguns observaram ser efeito da fartura e do baixo preço do trigo, os pobres serão animados a casar-se e repovoar a terra quando tiverem com que sustentar a família. Repare: com os bons dons que Deus nos concede, devemos servi-lo alegremente.

Precisamos seguir as correntes de volta até a fonte e, ao ser revigorados pelo trigo e pelo vinho, dizer: “Quão grande é sua bondade!”


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