Zacarias 8
Argumento
O trabalho dos ministros é dividir corretamente a palavra da verdade e dar a cada um a sua porção. É isso que o profeta é instruído a fazer aqui, na resposta adicional que dá à questão de consciência proposta sobre a continuação dos jejuns públicos.
Sua resposta, no capítulo anterior, é uma repreensão aos que eram desobedientes e não queriam obedecer à verdade. Aqui, porém, ele recebe a ordem de mudar o tom e falar para animar os dispostos e obedientes.
Aqui há duas palavras da parte do Senhor dos Exércitos, ambas boas e consoladoras. Na primeira dessas mensagens (v. 1), Deus promete que Jerusalém será restaurada, reformada e repovoada (vv. 2-8); que o país será rico e os assuntos da nação prosperarão, que sua reputação será recuperada e sua condição será, em todos os aspectos, o oposto do que fora por muitos anos (vv. 9-15).
Em seguida, exorta-os a corrigir o que havia de errado entre eles, para que estivessem prontos para os favores que lhes destinava (vv. 16-17). Na segunda mensagem (v. 18), promete que o retorno da misericórdia tornará desnecessários seus jejuns (v. 19) e que, em consequência, eles serão repovoados, enriquecidos e fortalecidos pela adesão de estrangeiros, vv. 20-23.
Versículos 1 a 8
Perspectivas Animadoras. (a.C. 517.)
Nos discursos anteriores, o profeta deixara seus ouvintes sob uma grave acusação de culpa e um profundo sentimento da cólera divina. Deixara-os diante da visão triste das devastações de sua terra aprazível, efeito da desobediência de seus pais.
Contudo, como pretendia levá-los ao arrependimento, e não ao desespero, apresenta-lhes aqui as grandes coisas que Deus lhes reservava.
Desse modo, anima-os a esperar que sua questão de consciência logo se resolvesse por si mesma e que a providência de Deus os chamasse à alegria e ao contentamento tão claramente quanto antes os chamara ao jejum e ao pranto. Aqui se promete:
I. Que Deus se manifestará em favor de Jerusalém e abraçará e defenderá sua causa:
- Ele se vingará dos inimigos de Sião (v. 2): “Eu tinha zelo por Sião, ou zelo de Sião; isto é, ultimamente tenho me preocupado de coração com sua honra e seus interesses, com grande zelo. A grande cólera que havia contra ela (Zacarias 7:12) agora se volta contra seus adversários.”
“Agora tenho zelo por ela com grande fúria. Assim como não podia suportar que ela me afrontasse com suas provocações, não posso suportar que a maltratem em suas aflições.”
Ele já havia dito isso (Zacarias 1:14, 15), para que esperassem do poder de sua ira, quando voltada em favor deles, tanto quanto haviam sentido dela quando era contra eles.
Os pecados de Sião eram seus piores inimigos e haviam causado a ela o maior dano. Por isso Deus, em seu zelo pela honra e pelo consolo dela, removerá seus pecados; então, quaisquer outros inimigos que a prejudiquem o farão por sua conta e risco.
- Ele habitará nos palácios de Sião (v. 3): “Voltei a Sião, depois de ter parecido ficar distante por tanto tempo, e habitarei outra vez no meio de Jerusalém, como antes.” Isso lhes assegura os sinais de sua presença em suas ordenanças e as manifestações de seu favor em suas providências.
II. Que haverá em Jerusalém uma maravilhosa reforma, e a religião, em seu poder, prevalecerá e florescerá ali.
“Jerusalém, que agiu traiçoeiramente tanto com Deus quanto com os homens, ficará tão conhecida por sua fidelidade e honestidade que será chamada e reconhecida como cidade da verdade, e seus habitantes serão chamados de filhos que não mentem.”
“A cidade fiel tornou-se prostituta (Isaías 1:21), mas agora voltará a ser uma cidade fiel, fiel ao Deus de Israel e somente ao seu culto.” Isso se cumpriu; pois os judeus, após o cativeiro, embora houvesse muito de errado entre eles, nunca foram culpados de idolatria.
Jerusalém será chamada de monte do Senhor dos Exércitos, reconhecendo-o e sendo reconhecida por ele; será, portanto, o monte santo, livre de ídolos e consagrado a Deus, e não, como fora antes, o monte da corrupção, 2 Reis 23:13.
Repare: a cidade de Deus deve ser uma cidade da verdade, e o monte do Senhor dos Exércitos, um monte santo. Os que professam a religião e uma relação com Deus devem empenhar-se em adornar sua profissão com toda sorte de piedade e honestidade.
III. Que haverá em Jerusalém um grande aumento da população e todos os sinais e indícios de uma profunda tranquilidade. Quando ela se tornar uma cidade da verdade e um monte de santidade, será pacífica e próspera, e tudo nela parecerá claro e agradável.
- Vocês poderão olhar com prazer para a geração que está deixando a cena e vê-la sair tranquilamente no curso comum da natureza, em vez de ser expulsa pela guerra, pela fome ou pela peste (v. 4).
Nas ruas de Jerusalém, antes cheias dos corpos dos mortos ou abandonadas e desertas, habitarão velhos e velhas que não foram eliminados por mortes prematuras, quer por sua própria intemperança, quer pela vingança de Deus. O fio de seus dias será fiado de maneira uniforme até alcançar todo o seu comprimento.
Não sentirão outra enfermidade senão o declínio natural e irão para a sepultura em idade avançada, como um feixe de trigo em sua estação. Cada um terá um bordão na mão por causa da idade muito avançada, para se apoiar, como Jacó, que adorou encostado na ponta do seu bordão, Hebreus 11:21.
A velhice precisa de apoio e não deve envergonhar-se de usá-lo; deve, porém, prover-se das graças divinas, que serão a força do coração e um apoio melhor que o bordão na mão.
Repare: assim como a cabeça grisalha é uma coroa de glória para quem a tem, também o é para os lugares em que essas pessoas vivem. É belo ver numa cidade grande número de idosos. Isso indica não só que o ar é saudável, mas também que a virtude prevalece e que são reprimidos e afastados muitos vícios que abreviam os meses da vida humana.
Indica não só que o clima é temperado, mas também que o povo o é. 2. Vocês poderão olhar com igual prazer para a geração que se ergue no lugar deles (v. 5): “As ruas da cidade ficarão cheias de meninos e meninas brincando nelas.” Isso indica:
(1.) Que serão abençoados com muitos filhos; suas famílias crescerão, se multiplicarão e povoarão a cidade, o que foi um dos primeiros frutos da bênção divina, Gênesis 1:28. Feliz o homem, feliz a nação, cuja aljava está cheia dessas flechas!
Terão crianças de ambos os sexos, meninos e meninas, por meio dos quais suas famílias depois se unirão e surgirá outra geração.
(2.) Que seus filhos serão saudáveis, fortes e ativos. Os meninos e as meninas não ficarão doentes na cama nem definharão sentados num canto; antes, para alegria dos pais, serão vigorosos e alegres e brincarão nas ruas. É a agradável idade das brincadeiras; não lhes neguemos isso. Que lhes faça muito bem e nenhum mal.
Os dias maus chegarão cedo o bastante, bem como os anos dos quais dirão não ter neles prazer. Por isso, devem cuidar para não gastar todo o tempo em brincadeiras, mas se lembrar de seu Criador.
(3.) Que terão grande abundância, alimento suficiente para todas as bocas. Em tempo de fome, vemos as crianças desmaiarem como os feridos nas ruas da cidade, Lamentações 2:11, 12. Se brincam nas ruas, é bom sinal de que nada lhes falta.
(4.) Que não serão aterrorizados pelos alarmes da guerra, mas desfrutarão de segurança completa. Não haverá invasores entrando, nem desertores saindo, nem queixas nas ruas (Salmos 144:14); pois, quando há brincadeiras nas ruas, é sinal de que ali há pouca preocupação ou medo.
Houve um tempo em que o inimigo perseguia tão de perto seus passos que não podiam andar pelas ruas (Lamentações 4:18); agora, porém, brincarão nelas sem temer mal algum.
(5.) Que haverá amor e paz entre eles. Os meninos e as meninas não brigarão nas ruas, como acontece às vezes nas cidades divididas em facções e partidos, onde os filhos logo absorvem e expressam os ressentimentos mútuos dos pais. Antes, brincarão nas ruas com inocência e afeto, divertindo uns aos outros, em vez de se devorarem.
(6.) Que os jogos e divertimentos praticados serão todos inofensivos e sem ofensa. Meninos e meninas não terão outra brincadeira senão aquela que não se importam que as pessoas vejam nas ruas.
Não haverá brincadeira que procure os cantos, nem atitudes tolas ou lascivas, pois é o monte do Senhor, o monte santo; haverá, porém, recreações honestas e modestas, das quais não têm motivo para se envergonhar.
(7.) Que os jogos próprios da infância e da juventude ficarão restritos a essas fases da vida. É agradável ver meninos e meninas brincando nas ruas, mas é desagradável ver homens e mulheres brincando ali, quando deveriam ocupar o tempo com trabalho e afazeres.
É aceitável que crianças fiquem sentadas na praça, trocando perguntas (Mateus 11:16, 17); de modo algum, porém, convém que homens aptos a trabalhar na vinha fiquem ali o dia inteiro ociosos, Mateus 20:3.
IV. Que os israelitas dispersos serão reunidos novamente de todas as partes para onde foram espalhados (v. 7): “Salvarei meu povo da terra do oriente e da terra do ocidente. Salvá-los-ei de se perderem, ou de perderem a si mesmos, na Babilônia, no Egito ou em qualquer outra terra para onde foram expulsos.”
As nações entre as quais peregrinam não os reterão, nem eles se incorporarão a essas nações. “Eu os salvarei, os separarei e os trarei outra vez à sua terra; pela prosperidade dela, os convidarei a voltar e, ao mesmo tempo, inclinarei seu coração a regressar.”
“Habitarão no meio de Jerusalém e escolherão morar ali por ser a cidade santa, embora, sob muitos outros aspectos, fosse mais desejável morar no campo.” Por isso lemos que o povo abençoou todos os homens que voluntariamente se ofereceram para morar em Jerusalém (Neemias 11:2).
V. Que Deus renovaria sua aliança com eles, seria fiel a eles e os faria fiéis a si: “Eles serão meu povo, e eu serei o Deus deles.” Esse é o fundamento e a coroa de todas essas promessas e abrange toda a felicidade. Eles obedecerão às leis de Deus, e Deus protegerá e promoverá todos os seus interesses.
Esse pacto será feito, será feito de novo, em verdade e em justiça. Alguns pensam que a primeira expressão indica a parte de Deus na aliança: ele será o Deus deles em verdade, cumprirá todas as suas promessas de favor a eles.
A segunda expressão indicaria a parte do homem na aliança: eles serão seu povo em justiça, serão um povo justo e abundarão nos frutos da justiça; não agirão traiçoeira e injustamente para com seu Deus, como fizeram antes. Veja Oseias 2:19, 20.
Deus nunca os deixará nem os abandonará no caminho da misericórdia, conforme lhes prometeu; e eles nunca o deixarão nem o abandonarão no caminho do dever, conforme prometeram a ele.
Essas promessas se cumpriram na condição florescente da igreja judaica durante alguns séculos entre o cativeiro e a época de Cristo. Teriam cumprimento ulterior e mais pleno na igreja do evangelho, aquela Jerusalém celestial que é de cima, é livre e é a mãe de todos nós; mas o cumprimento mais pleno de todas elas virá no estado futuro.
Todas essas preciosas promessas são aqui confirmadas, e as dúvidas do povo de Deus são silenciadas por esta pergunta (v. 6): “Se isso é maravilhoso aos olhos deste povo, deveria ser maravilhoso aos meus olhos? Se lhes parece improvável que Jerusalém seja restaurada e repovoada desse modo, será por isso impossível para Deus?”
O remanescente desse povo, sendo pequeno e fraco, considerava todas essas notícias boas demais para ser verdade, sobretudo nestes dias difíceis, nublados e sombrios. E o povo de Deus neste mundo é apenas um remanescente.
Considerando quão ruins são os tempos, é altamente improvável, moralmente impossível, que algum dia se tornem tão bons quanto diz o profeta. Como pode ser isso? Como podem viver ossos secos? Mas deveria parecer assim aos olhos de Deus?
Repare: fazemos grande injustiça tanto a Deus quanto a nós mesmos quando pensamos que, por estarmos perplexos, ele também está, e que não pode vencer dificuldades que nos parecem insuperáveis. Para os homens isso é impossível; para Deus, porém, todas as coisas são possíveis. Tão acima dos nossos estão os pensamentos e os caminhos de Deus.
Versículos 9 a 17
Perspectivas Animadoras. (a.C. 517.)
Deus, por meio do profeta, dá aqui mais garantias da misericórdia que reservava para Judá e Jerusalém. Aqui há linha após linha para o consolo deles, assim como antes houve para convencê-los. Esses versículos contêm fortes estímulos diante das dificuldades sob as quais agora trabalhavam. Podemos observar:
I. A quem pertenciam esses estímulos: àqueles que, obedecendo ao chamado de Deus por seus profetas, se aplicavam com seriedade à construção do templo (v. 9):
“Sejam fortes as mãos de vocês, que estão ocupadas no trabalho para Deus. Vocês, que nestes dias ouvem estas palavras da boca dos profetas, não lhes desobedecem como seus pais desobedeceram, nos dias anteriores, às palavras dos profetas que lhes foram enviados.”
“Vocês, que obedeceram aos preceitos dados no dia em que foram lançados os alicerces da casa do Senhor, podem receber o consolo das promessas e terão os benefícios delas. Naquele dia lhes foi dito que, tendo começado a obra, deviam prosseguir para que o templo fosse construído.”
“Deus lhes disse que deviam continuar, e vocês trabalharam arduamente nela por algum tempo, em obediência à visão celestial. Agora são vocês cujas mãos precisam ser fortalecidas e cujos corações precisam ser consolados com essas preciosas promessas. É a vocês que foi enviada a palavra deste consolo.”
Repare: aqueles, e somente aqueles, que trabalham para Deus podem esperar ser animados por ele. Os que põem as mãos no arado do dever terão as mãos fortalecidas pelas promessas de misericórdia. E os que evitam os erros de seus pais não só rompem a transmissão da maldição, mas também a veem transformada em bênção.
II. Quais eram os desânimos sob os quais haviam trabalhado até então, v. 10. São mencionados como contraste com as bênçãos que Deus estava prestes a lhes conceder, para que parecessem tanto mais extraordinárias, para a glória de Deus, e tanto mais doces, para o consolo deles.
A verdade é que, por muito tempo, os tempos haviam sido muito ruins, e suas calamidades e dificuldades eram muitas e grandes. 1. O comércio estava paralisado; nada havia a fazer e, por isso, nada a ganhar. Antes do início desses dias de reforma, não havia salário para o homem nem pagamento para os animais.
Os frutos da terra eram escassos e pobres, embora a terra tivesse ficado muito tempo em pousio e, por isso, ao que se pensaria, devesse estar mais fértil.
Por isso, o lavrador não tinha motivo para contratar trabalhadores para colher seus grãos nem equipes de animais para levá-los para casa, pois mal se podia dizer que tivesse colheita alguma.
Os mercadores não tinham mercadorias para importar ou exportar e, portanto, não precisavam contratar homens nem animais. Desse modo, os pobres, que viviam do trabalho, não tinham como obter pão para si e para suas famílias.
- Viajar era perigoso, de modo que todo o comércio por mar e por terra foi interrompido. Ou melhor, ninguém ousava sequer sair para visitar os amigos, pois não havia paz para quem saía ou entrava, por causa da aflição.
Os samaritanos, os amonitas e seus outros vizinhos hostis os atacavam em pequenos grupos e tomavam tudo de que conseguiam se apoderar. As estradas estavam infestadas de salteadores, e tanto a cidade como o campo, de ladrões que invadiam casas; assim, nem as pessoas nem seus bens estavam seguros em casa ou fora dela.
- Não havia amizade nem boa vizinhança entre eles: “Pus cada homem contra seu próximo.” Havia nisso muito pecado, pois essas guerras e lutas provinham das paixões dos homens, e Deus não era seu autor. Mas havia também muita miséria, e assim Deus era nisso o justo vingador da desobediência deles para com ele.
Como tinham um espírito mau para com Deus, um espírito de contradição às suas leis, Deus enviou entre eles um espírito mau para torná-los hostis uns aos outros. Os que rejeitam o amor de Deus perdem o consolo do amor fraternal.
III. Que ânimo terão agora para prosseguir na boa obra a que se dedicam e para esperar que tudo ainda lhes vá bem:
“Assim e assim vocês foram afligidos e atribulados, mas agora Deus mudará seu modo de agir para com vocês, v. 11. Agora que voltam ao seu dever, Deus os consolará na medida do tempo em que os afligiu; a maré que vazou voltará a subir.”
- Deus não continuará sua contenda com eles: “Não serei para eles como nos dias anteriores.” Repare: vamos bem ou mal conforme Deus se mostra a nós; pois toda criatura se torna para nós aquilo que ele faz com que seja.
Se não andarmos em oposição a Deus como nos dias anteriores, ele não andará em oposição a nós como nos dias anteriores; pois é somente com os obstinados que ele contenderá.
- Terão grande fartura e abundância de toda sorte de coisas boas (v. 12): a semente lançada prosperará e produzirá grande aumento; a videira dará seu fruto, que alegra o coração, e a terra dará seus produtos, que fortalecem o coração. Terão tudo o que puderem desejar, não só para suas necessidades, mas também para beleza e prazer.
Os céus darão o seu orvalho, sem o qual a terra não produziria seu fruto. Isso nos recorda constantemente a beneficência do Deus do céu para com os homens da terra e a dependência deles em relação a ele.
Diz-se que uma chuva devastadora não deixa alimento (Provérbios 28:3); aqui, porém, o orvalho suave rega a terra para que ela dê semente ao semeador e pão ao que come. Desse modo, Deus fará o remanescente desse povo possuir todas essas coisas.
Eles são apenas um remanescente, um pequeno resto, tão poucos que, ao que parece, mal valeriam a atenção. Agora, porém, que trabalham para Deus, ele cuidará para que não lhes falte nada do que lhes convém. Isso confirma o que o colega do profeta dissera pouco antes (Ageu 2:16, 19): “Desde este dia eu os abençoarei.”
Repare: o povo de Deus, que o serve fielmente, possui grandes bens. “Tudo é de vocês, pois vocês são de Cristo.” 3. Recuperarão seu bom nome entre os vizinhos (v. 13): “Vocês eram uma maldição entre os pagãos.” Todos os censuravam e condenavam, falavam mal deles e lhes desejavam o mal por causa da grande desonra sob a qual se encontravam.
Alguns pensam que se tornaram uma fórmula de maldição; assim, se alguém quisesse lançar sobre seu inimigo a mais pesada maldição, diria: “Que Deus faça de ti um judeu!”
“Agora, porém, eu os salvarei, e vocês serão uma bênção. Sua restauração será tão notada para sua honra quanto antes sua devastação e dispersão o foram para sua vergonha. Serão aplaudidos e admirados tanto quanto foram difamados e desprezados; serão procurados e acolhidos com carinho tanto quanto foram menosprezados e abandonados.”
A maioria das pessoas sorri ou fecha a cara para os vizinhos conforme a Providência sorri ou fecha a cara para eles. Nós, porém, devemos respeitar e tratar com bondade aqueles a quem Deus claramente abençoa como seus, favorece e honra. Os abençoados do Senhor são a bênção da terra e assim devem ser considerados por nós.
Isso é prometido aqui tanto à casa de Israel quanto à de Judá, pois muitos das dez tribos voltaram do cativeiro com as duas tribos e partilharam dessas bênçãos. É provável que, além dos que vieram no início, muitos, muitíssimos, tenham se juntado a eles depois, ao verem seus assuntos tomar esse rumo.
- O próprio Deus decidirá fazer-lhes o bem, vv. 14-15. Todos os seus consolos nascem dos pensamentos de amor que Deus tinha por eles, Jeremias 29:11. Compare essas promessas com as ameaças anteriores.
(1.) Quando o provocaram à ira com seus pecados, ele disse que os castigaria, e assim fez. Seu propósito declarado era trazer juízos destruidores sobre eles; e, porque não se arrependeram de sua rebelião contra ele, Deus não voltou atrás em suas ameaças, mas deixou a sentença da lei seguir seu curso.
Repare: o castigo que Deus inflige aos pecadores nunca resulta de uma decisão súbita e apressada; é sempre fruto de reflexão, e há deliberação nessa parte da vontade de Deus. Se o pecador não se voltar, Deus não se voltará.
(2.) Agora que lhe agradavam com seu serviço, ele disse que lhes faria o bem. Não será tão fiel às promessas quanto foi às ameaças? Sem dúvida será: “Assim, novamente decidi fazer o bem a Jerusalém naqueles dias, quando vocês começarem a ouvir a voz de Deus falando por seus profetas; e esses pensamentos também se realizarão.”
IV. O uso que devem fazer desses estímulos:
- Recebam o consolo que essas promessas lhes dão: “Não temam” (v. 15); “sejam fortes as mãos de vocês” (v. 9); e as duas coisas juntas (v. 13): “Não temam, mas sejam fortes as mãos de vocês.”
(1.) As dificuldades que encontravam no trabalho não deveriam afastá-los dele nem fazê-los prosseguir sem ânimo, pois o resultado seria bom e a recompensa, grande. Portanto, que isso os anime a continuar com vigor e alegria.
(2.) Os perigos a que estavam expostos por causa dos inimigos não deveriam aterrorizá-los; aqueles que têm Deus a seu favor, empenhado em lhes fazer o bem, não precisam temer o que o homem lhes possa fazer.
- Cumpram o dever a que essas promessas os chamam, vv. 16-17. Os mesmos deveres que os profetas anteriores exigiam de seus pais em vista da cólera anunciada (Zacarias 7:9, 10), este profeta exige deles em vista da misericórdia prometida:
“Deixem a Deus a tarefa de realizar para vocês o que prometeu, segundo seu modo e seu tempo, mas com a condição de que cumpram seu dever conscienciosamente.”
“Estas, portanto, são as coisas que vocês farão; esta é sua parte na aliança. Estes são os artigos que vocês devem praticar, cumprir e guardar, para não pôr uma barreira à sua própria porta e interromper a corrente dos favores de Deus.”
(1.) “Nunca digam uma mentira, mas falem sempre como pensam e como os fatos são, segundo o melhor de seu conhecimento. Cada um diga a verdade ao seu próximo, tanto nos negócios como na conversa comum; temam toda palavra que tenha aparência de mentira.”
O apóstolo cita esse preceito (Efésios 4:25) e o apoia com esta razão: “Somos membros uns dos outros.”
(2.) Os que recebem a incumbência de administrar a justiça pública devem cuidar não só para que ninguém seja prejudicado por ela, mas também para que os prejudicados obtenham reparação: “Executem juízo de verdade e de paz em suas portas.”
Que os juízes assentados às portas tenham em vista, em todos os seus procedimentos judiciais, tanto a verdade quanto a paz. Cuidem de fazer justiça, de resolver as diferenças e de evitar processos vexatórios.
O juízo deve ser de verdade para produzir a paz e reconciliar os que estavam em desavença; e deve ser um juízo de paz até onde isso for compatível com a verdade, e não além disso.
(3.) Ninguém deve guardar rancor do próximo por motivo algum; é o mesmo que vimos em Zacarias 7:10. Não devemos apenas impedir nossas mãos de praticar o mal, mas vigiar nosso coração para que não imagine mal algum contra o próximo, Provérbios 3:29. A injúria e o dano devem ser esmagados ainda no pensamento, no embrião.
(4.) É preciso ter grande reverência pelo juramento e tratá-lo como questão de consciência: “Nunca façam juramento falso; ou melhor, nem amem o juramento falso. Isto é, odeiem-no, temam-no, mantenham distância dele.”
“Não gostem de impor juramentos aos outros, para que não jurem falsamente. Não desejem que alguém faça juramento falso em benefício de vocês e cometa perjúrio para lhes fazer um favor.”
Uma razão muito boa é acrescentada contra todas essas práticas corruptas e perversas: “Pois todas essas são coisas que eu odeio e, portanto, vocês devem odiá-las se esperam ter Deus como amigo.” Todas as coisas aqui proibidas estão entre as sete coisas que o Senhor odeia, Provérbios 6:16-19.
Repare: devemos nos abster do pecado não apenas porque Deus se ira contra ele e, portanto, ele é perigoso para nós, mas porque Deus o odeia e, portanto, ele não nos convém e é um ato de grande ingratidão.
Versículos 18 a 23
Perspectivas Animadoras. (a.C. 517.)
Esses versículos contêm duas promessas preciosas para animar ainda mais os judeus piedosos que se dedicavam de coração à construção do templo.
I. Que seus jejuns teriam um fim feliz e não haveria mais motivo para eles; seriam transformados em dias de ação de graças, v. 19. Essa é uma resposta direta à pergunta sobre os jejuns, Zacarias 7:3.
Os que jejuavam com hipocrisia receberam sua condenação no capítulo anterior. Aqueles, porém, que se humilhavam sinceramente diante de Deus e buscavam sua face recebem aqui a consoladora garantia de uma ampla participação nos tempos felizes que se aproximavam.
Os quatro jejuns anuais que haviam observado religiosamente se tornariam, para a casa de Judá, alegria, contentamento e festas solenes, e festas alegres. Repare: tempos alegres virão para a igreja depois dos tempos difíceis.
Se o choro durar mais de uma noite e a alegria não chegar na manhã seguinte, ainda assim virá a manhã que, por fim, a trará.
Quando Deus se aproxima de nós por caminhos de misericórdia, devemos recebê-lo com alegria e gratidão. Quando Deus transforma juízos em misericórdias, devemos transformar jejuns em festas e assim seguir o Senhor.
Os que semeiam em lágrimas com Sião colherão com ela em alegria. Os que se submetem às restrições dos jejuns solenes dela, enquanto durarem, participarão dos triunfos de suas festas alegres quando chegarem, Isaías 66:10.
A consequência dessa promessa é: “Portanto, amem a verdade e a paz; sejam fiéis e honestos em todas as suas relações e tenham prazer em sê-lo, embora com isso renunciem aos lucros que veem outros obter desonestamente.”
“Na medida do possível, vivam em paz com todos e sintam-se à vontade quando estiverem em espírito de amor. Que as verdades de Deus governem sua mente e a paz de Deus governe seu coração.”
II. Que a igreja receberia uma grande adesão pela conversão de muitos estrangeiros, vv. 20-23:
Isso se cumpriu apenas em parte quando, no período final da igreja judaica, houve muitos prosélitos dos países vizinhos e alguns de países muito distantes, que vinham anualmente adorar em Jerusalém.
Isso aumentou muito tanto a grandeza quanto a riqueza da cidade e contribuiu bastante para torná-la tão importante quanto veio a ser antes da época de nosso Salvador, embora agora ela mal começasse a emergir de suas ruínas.
Contudo, a promessa teria cumprimento muito mais pleno na conversão dos gentios à fé em Cristo e em sua incorporação, com os judeus crentes, em um só grande corpo sob Cristo, a cabeça. Esse é um mistério manifestado pelas Escrituras dos profetas (Romanos 16:26), inclusive por esta passagem.
Isso torna estranho o fato de que, quando a promessa se cumpriu, ela tenha sido tão grande surpresa e pedra de tropeço para os judeus. Observe:
- Quem será acrescentado à igreja: povos e habitantes de muitas cidades (v. 20). Não serão apenas alguns camponeses sem instrução, fáceis de iludir, nem alguns ociosos sem mais nada a fazer.
Cidadãos inteligentes e interessados em saber, homens de negócios e conhecedores do mundo, abraçarão o evangelho de Cristo; mais ainda, muitos povos e nações poderosas (v. 22), pessoas de todas as línguas, v. 23.
Isso mostra que são trazidos à igreja não pela persuasão humana, pois falam línguas diferentes, nem pela força externa, pois são nações poderosas, capazes de se manter firmes caso fossem atacadas dessa maneira, mas exclusivamente pela ação eficaz da verdade e da graça divinas.
Repare: Deus tem seu remanescente em todas as partes. Na assembleia geral da igreja dos primogênitos, haverá pessoas de todas as nações e tribos, Apocalipse 7:9.
- Como se descreve sua adesão à igreja: “Virão para orar diante do Senhor e buscar o Senhor dos Exércitos” (v. 21). Para mostrar que esse é o ponto principal de sua conversão, repete-se (v. 22): “Virão buscar o Senhor dos Exércitos em Jerusalém e orar diante do Senhor.”
Não se menciona a oferta de sacrifícios, não só porque isso não se esperava dos prosélitos da porta, mas também porque, quando os gentios fossem recebidos, o sacrifício e a oferta seriam inteiramente abolidos.
Veja quem deve ser considerado convertido a Deus e membro da igreja; e todos os que se convertem a Deus são membros da igreja:
(1.) São os que buscam o Senhor dos Exércitos, perguntam por Deus, seu Criador, anseiam por seu favor e o procuram, desejam sinceramente conhecer seus pensamentos e sua vontade e se dedicam de coração à sua honra e glória. Essa é a geração dos que o buscam.
(2.) São os que oram diante do Senhor, que tratam a oração como questão de consciência e como ocupação séria. São os que não ousariam nem quereriam viver sem ela por nada neste mundo; os que, por meio da oração, prestam homenagem a Deus, reconhecem sua dependência dele, mantêm comunhão com ele e dele recebem misericórdia e graça.
(3.) São os que, nisso, levam em conta a revelação e a instituição divinas, como indica o fato de fazerem isso em Jerusalém. Era o lugar que Deus escolhera, onde estavam sua palavra e seu templo, que era um tipo de Cristo e de sua mediação. Todos os adoradores fiéis olharão para Cristo e sua mediação com fé.
- Quão unânimes serão em sua adesão à igreja e quão zelosos para animar uns aos outros a se unir a ela (v. 21): os habitantes de uma cidade irão a outra, como antes faziam quando vinham de todas as partes do país para adorar nas festas anuais. Dirão: “Vamos depressa orar diante do Senhor; eu também irei.” Isso indica:
(1.) Que aqueles que chegam a conhecer Cristo devem fazer tudo o que puderem para levar outros a conhecê-lo; foi assim que André convidou Pedro a ir a Cristo e Filipe convidou Natanael. A verdadeira graça detesta monopólios.
(2.) Que aqueles que têm a devida consciência de sua necessidade de Cristo e do favor de Deus por meio dele animarão a si mesmos e aos outros, sem demora, a correr para ele: “Vamos depressa orar; é por nossa vida e pela vida de nossa alma que devemos suplicar. Portanto, não podemos perder tempo; em assunto de tamanha importância, a demora é perigosa.”
(3.) Que nossa comunhão com Deus é muito auxiliada e promovida pela comunhão dos santos. É agradável ir à casa de Deus em companhia (Salmos 55:14), com a multidão (Salmos 42:4). É útil para os que fazem isso animar uns aos outros a ir depressa e não perder tempo; devemos nos alegrar quando nos dizem: “Vamos”, Salmos 122:1.
Assim como o ferro afia o ferro, os homens bons podem avivar o semblante e o ânimo uns dos outros naquilo que é bom.
(4.) Que os que animam outros a fazer o bem devem tomar cuidado para não se afastarem, cansarem ou retrocederem. Aquele que diz “Vamos” também diz “Eu irei”. Devemos cuidar de fazer nós mesmos o bem a que estimulamos outros; caso contrário, seremos julgados por nossa própria boca.
Não se trata de dizer: “Vocês vão, e eu fico em casa”, mas: “Vocês vão, e eu vou com vocês.” “Um exemplo singular”, diz o sr. Pemble, “de caridade zelosa, que não deixa os outros para trás nem os empurra à frente de si.”
- Por que motivo se juntarão à igreja: não por causa da própria igreja, mas daquele que nela habita (v. 23). Dez homens de diferentes nações e línguas agarrarão a orla da veste de um judeu e lhe pedirão que não vá sem eles, mas os leve consigo.
Isso indica a grande honra em que têm um judeu, como alguém do povo escolhido de Deus e, portanto, muito digno de sua companhia. Não podem todos chegar a apertar-lhe a mão ou abraçá-lo, mas ambicionam agarrar a orla de sua veste, tocar a borda de sua roupa, dizendo: “Iremos contigo, pois ouvimos que Deus está contigo.”
O evangelho foi pregado primeiro aos judeus, pois dessa nação eram os apóstolos, e por meio deles foi levado aos gentios. São Paulo era um judeu de cuja veste muitos agarraram a orla quando o receberam como um anjo de Deus e lhe pediram que os levasse consigo até Cristo.
Da mesma maneira, os gregos agarraram a orla da veste de Filipe, dizendo: “Senhor, queremos ver Jesus”, João 12:21.
Repare: é privilégio dos santos ter Deus consigo, tê-lo entre eles, com o conhecimento, o temor e o culto a ele. Eles têm seu favor e sua presença graciosa, e isso deve nos convidar à comunhão com eles.
É bom estar com aqueles que têm Deus consigo. Os que se unem ao Senhor devem unir-se a seus discípulos. Se tomamos Deus por nosso Deus, devemos tomar seu povo por nosso povo, lançar nossa sorte entre eles e estar dispostos a compartilhar a sorte deles.