Zacarias 7
Argumento
Terminamos com as visões, mas não com as revelações deste livro. O profeta já não vê sinais como os anteriores; contudo, “a palavra do Senhor veio a ele”. Neste capítulo temos:
I. Uma questão de consciência apresentada ao profeta pelos filhos do cativeiro acerca do jejum: deveriam continuar os jejuns solenes que haviam observado religiosamente durante os setenta anos de cativeiro, vv. 1-3.
II. A resposta a essa pergunta, dada neste capítulo e no seguinte. Não veio toda de uma vez, mas por partes e, ao que parece, em ocasiões distintas.
Há quatro discursos referentes à questão, cada um introduzido por “a palavra do Senhor veio”, vv. 4-8 e Zacarias 8:1, 18. Sua sequência merece muita atenção. Neste capítulo:
O profeta os repreende severamente pela maneira errada como praticavam os jejuns, vv. 4-7.
Ele os exorta a mudar de vida, o que seria a melhor maneira de jejuar, e a tomar cuidado com os pecados que trouxeram sobre eles os juízos em cuja memória observavam esses jejuns, vv. 8-14.
No capítulo seguinte, depois de examinar a ferida, ele a enfaixa e cura com bondosas garantias de grandes misericórdias que Deus ainda lhes reservava e pelas quais transformaria seus jejuns em festas.
Versículos 1 a 6
Uma Consulta Sobre o Jejum; Hipocrisia Repreendida. (a.C. 520.)
Este sermão ocasional, que o profeta pregou e que está registrado neste capítulo e no seguinte, ocorreu mais de dois anos depois do anterior, no qual ele relatou suas visões. Isso fica claro pela comparação entre a data deste sermão (v. 1), no nono mês do quarto ano de Dario, e a daquele (Zacarias 1:1), no oitavo mês do segundo ano de Dario.
Isso não significa que Zacarias tenha ficado ocioso durante todo esse tempo. Diz-se expressamente que ele e Ageu continuaram a profetizar até o templo ser concluído, no sexto ano de Dario, Esdras 6:14, 15. Apenas não pregou nesse período nenhum sermão que depois fosse publicado e deixado por escrito, como este.
Deus pode ser honrado, sua obra realizada e seus interesses servidos tanto pela palavra falada quanto pela escrita; e tanto pela repetição e insistência no que já foi ensinado quanto pela apresentação de algo novo. Temos aqui:
I. Uma questão proposta acerca do jejum. Algumas pessoas foram enviadas para perguntar aos sacerdotes e profetas se deveriam continuar a observar seus jejuns anuais, especialmente o do quinto mês, como vinham fazendo.
Não se sabe se a questão foi apresentada pelos que ainda permaneciam na Babilônia. Privados das festas solenes que a ordenança de Deus lhes prescrevera, eles supriam essa falta com os jejuns solenes aos quais as providências de Deus os haviam chamado.
Outra possibilidade é que tenha sido apresentada pelos que já tinham voltado, mas moravam no interior. Alguns se inclinam mais a essa hipótese, pois eles são chamados de povo da terra, v. 5. Seja como for, a resposta dada aos mensageiros dos judeus cativos podia dirigir-se não só a eles, mas a todo o povo. Observe:
- Quem veio fazer a consulta: Sarezer e Regém-Meleque, pessoas de certa posição e importância, pois vieram com seus homens. Não julgaram indigno ou desonroso serem enviados nessa missão; ao contrário, consideraram uma honra adicional ser:
(1.) Servidores na casa de Deus, para ali cumprir seu dever e receber instruções. Os maiores entre os homens são menores que a menor das ordenanças de Jesus Cristo.
(2.) Representantes do povo de Deus, para tratar de seus assuntos. Pessoas de posses, com mais tempo livre que as ocupadas com negócios, devem empregar seu tempo no serviço público. Fazendo o bem, tornam-se verdadeiramente grandes; os mensageiros das igrejas eram a glória de Cristo, 2 Coríntios 8:23.
- Qual era a missão que os trouxe. Talvez não tenham sido enviados com ouro e prata, como aqueles de Zacarias 6:10, 11; ou, se o foram, isso não é mencionado. Vieram, porém, nas duas grandes missões que devem levar todos nós à casa de Deus:
(1.) Interceder junto a Deus por sua misericórdia. Foram enviados para orar diante do Senhor e, segundo alguns, oferecer sacrifícios, como era costume então, apresentando com eles suas orações.
No cativeiro, os judeus oravam voltados para o templo, como se vê em Daniel 6:10. Agora, porém, que havia boas perspectivas de reconstruí-lo, enviaram representantes para orar nele, lembrando que Deus dissera que sua casa seria chamada de “casa de oração para todos os povos”, Isaías 56:7.
Ao orar, devemos colocar-nos como diante do Senhor, perceber seu olhar sobre nós e erguer o nosso até ele.
(2.) Consultar a Deus sobre sua vontade. Repare: ao apresentar nossas súplicas a Deus, devemos estar dispostos a receber suas instruções. Pois, se desviamos os ouvidos de sua lei, não podemos esperar que ele aceite nossas orações.
Devemos, portanto, desejar habitar na casa do Senhor todos os dias da vida para ali consultá-lo (Salmos 27:4), perguntando não apenas: “Senhor, o que farás por mim?”, mas também: “Senhor, o que queres que eu faça?”
- A quem consultaram. Falaram com os sacerdotes que estavam na casa do Senhor e com os profetas. Os primeiros eram uma fonte de orientação para casos comuns; os segundos, para os extraordinários. Tinham o benefício de ambos e verificariam se algum deles poderia revelar-lhes a vontade de Deus nessa questão.
Repare: Deus deu aos homens diferentes dons, todos para proveito comum; por isso, devemos recorrer a todos quando houver ocasião. Não estavam tão apegados aos sacerdotes, seus ministros regulares, a ponto de desconfiar dos profetas, que, pelos dons recebidos, se mostravam bem qualificados para servir à igreja.
Tampouco eram tão fascinados pelos profetas a ponto de desprezar os sacerdotes. Falaram com ambos e, ao consultar os dois, deram glória ao Deus de Israel e ao único Espírito que opera tudo em todos.
Deus podia falar-lhes pelo Urim ou pelos profetas (1 Samuel 28:6); por isso, não desprezariam nenhum dos dois. Os sacerdotes e os profetas não tinham ciúmes uns dos outros nem divergências entre si. Portanto, que o povo não criasse divisões entre eles, mas agradecesse a Deus por ter ambos.
Os profetas de fato censuravam os erros dos sacerdotes, mas, ao mesmo tempo, diziam ao povo que os lábios do sacerdote deveriam guardar o conhecimento, e que deviam buscar a lei de sua boca, pois ele é o mensageiro do Senhor dos Exércitos, Malaquias 2:7.
Repare: quem deseja conhecer a vontade de Deus deve consultar seus ministros e, nos casos duvidosos, pedir conselho àqueles cujo ofício especial é examinar as Escrituras.
- Qual era a questão sobre a qual desejavam esclarecimento, v. 3: “Devo chorar no quinto mês, separando-me, como tenho feito há tantos anos?” Observe:
(1.) Sua prática passada, não só durante os setenta anos do cativeiro, mas até aquele momento, vinte anos depois de lhes ter sido proclamada a liberdade. Mantinham jejuns solenes e regulares para humilhação e oração, observados religiosamente conforme suas oportunidades, em particular, em família ou nas assembleias de culto de que dispunham.
Na consulta, mencionam apenas um, o do quinto mês. Mas Zacarias 8:19 mostra que observavam quatro jejuns anuais: um no quarto mês (17 de junho), em memória da abertura de uma brecha no muro de Jerusalém (Jeremias 52:6).
Outro era no quinto mês (4 de julho), em memória do incêndio do templo (Jeremias 52:12, 13); outro, no sétimo mês (3 de setembro), em memória da morte de Gedalias, que completou sua dispersão; e outro, no décimo mês (10 de dezembro), em memória do início do cerco de Jerusalém, 2 Reis 25:1.
Era muito louvável que observassem esses jejuns: humilhavam-se sob as providências humilhantes pelas quais Deus os chamava ao choro e ao luto, ajustavam-se às suas aflições e se preparavam para a libertação.
Isso também ajudaria a incutir desde cedo nos filhos a devida consciência de que a mão do Senhor se voltara contra eles.
(2.) Sua dúvida atual: deveriam continuar esses jejuns ou não? A questão é apresentada como se viesse de uma só pessoa: “Devo chorar?” Mas era a dúvida de muitos, e a resposta dada a um serviria aos demais.
Ou talvez muitos tivessem abandonado a prática, mas quem perguntava não se deixaria determinar pelo comportamento dos outros. Se Deus quisesse que continuasse a jejuar, ele continuaria, não importava o que os demais fizessem.
Seu jejum é descrito pelo choro e pela separação. Um jejum religioso deve ser observado não apenas pela abstinência, chamada aqui de separar-se dos confortos comuns e legítimos da vida, mas também pela tristeza segundo Deus por causa do pecado, expressa aqui pelo choro.
“Devo continuar a observar esses dias de afligir a alma, como fiz há tantos anos?” Diz-se que foram setenta anos, v. 5, contados desde o último cativeiro, como antes em Zacarias 1:12. A pergunta sugere disposição de continuar se Deus assim ordenar, embora isso mortifique a carne.
[1.] Há razões para manter esses jejuns. Jejuar e orar são boas obras em qualquer tempo e produzem bons frutos; temos sempre motivos e necessidade suficientes para nos humilhar diante de Deus.
Abandonar esses jejuns seria prova de que estavam acomodados demais e os deixaria ainda mais acomodados. Continuavam aflitos e sob sinais do desagrado de Deus; é imprudente que o doente interrompa seu tratamento enquanto ainda percebe sintomas de sua enfermidade.
[2.] Há também razões para deixar de observar esses jejuns. Deus havia mudado o modo de agir de sua providência para com eles e voltara a tratá-los com misericórdia. Não deveriam, então, mudar também a forma de cumprir seus deveres?
Agora que o noivo havia voltado, por que os convidados das bodas jejuariam? Tudo é belo em seu tempo. Quanto ao jejum do quinto mês, sobre o qual perguntavam em particular, parecia que deveria ser abandonado antes dos demais.
Afinal, era observado em memória do incêndio do templo, e agora havia boas perspectivas de reconstruí-lo. Contudo, por terem mantido esse jejum por tanto tempo, não o abandonariam sem conselho, sem perguntar e conhecer a vontade de Deus na questão.
Repare: um bom modo de praticar os serviços religiosos que tenha beneficiado a nós e a outros não deve ser alterado sem uma boa razão e, portanto, sem cuidadosa reflexão.
II. A resposta dada à questão. Ao que parece, embora a pergunta soasse bastante razoável, aqueles que a apresentaram não agiam por consciência. Preocupavam-se mais com a cerimônia do que com a essência; pareciam orgulhar-se de seus jejuns e censurar o Deus Todo-Poderoso por não haver voltado antes a eles com misericórdia.
Diziam: “Pois temos feito isso há tantos anos.” Eram como os de Isaías 58:3: “Por que jejuamos, e tu não vês?” Alguns pensam que a incredulidade e a desconfiança das promessas de Deus estavam na raiz da pergunta.
Afinal, se tivessem dado a essas promessas o crédito devido, não precisariam duvidar de que seus jejuns deveriam ser abandonados, agora que cessara a causa deles.
Por isso, a primeira resposta à consulta é uma repreensão severa da hipocrisia deles, dirigida não apenas ao povo da terra, mas também aos sacerdotes, que haviam instituído esses jejuns. Talvez alguns sacerdotes desejassem mantê-los por interesse próprio.
Que todos saibam que estavam muito enganados ao pensar que, por esses jejuns, Deus se tornara grande devedor deles. Os jejuns não lhe eram aceitáveis, a menos que fossem observados de maneira melhor e com propósito melhor.
- O bem que faziam não era feito corretamente, v. 5: “Jejuastes e chorastes.” Não se podia acusá-los de omitir ou negligenciar o dever, embora fosse penoso para o corpo (seus jejuns estavam continuamente diante de mim, Salmos 50:8); o problema era a maneira como o cumpriam.
Repare: quem vem perguntar sobre seu dever deve primeiro estar disposto a ouvir falar de seus erros. Os que parecem zelosos pela parte exterior de um dever devem examinar honestamente se dão a devida atenção à parte interior.
(1.) Ao jejuar, não tinham Deus em vista: “Jejuastes de fato para mim, sim, para mim?” Deus apela à consciência deles, que testemunharia contra sua falta de sinceridade, quanto mais ele, que é maior que o coração e conhece todas as coisas.
“Sabeis muito bem que não jejuastes para mim de modo algum. Ao jejuar, jejuastes para mim?” Havia o corpo e a forma do dever, mas nada de sua vida, alma e poder.
“Era para mim, sim, para mim?” A repetição mostra quanto peso recai sobre essa questão, o ponto principal desse e de outros exercícios santos: que sejam feitos para Deus, para ele mesmo, com atenção à sua palavra como regra e à sua glória como finalidade.
Devemos procurar agradá-lo e alcançar seu favor, esforçando-nos para ser aprovados por ele mediante a sinceridade de nossa intenção. Sem isso, todo jejum não passava de zombaria.
Jejuar sem jejuar para Deus era zombar dele e provocá-lo, e não podia agradá-lo. Quem faz do jejum um disfarce para o pecado, como no jejum de Jezabel, ou um meio de conquistar o aplauso das pessoas, como os fariseus, jejua para Deus, para ele mesmo?
E quem, como Acabe, se contenta com expressões exteriores de humilhação enquanto o coração permanece sem se humilhar, jejua para Deus? “É este o jejum que Deus escolheu?”, Isaías 58:5.
Se as solenidades de nosso jejum, por mais frequentes, longas e rigorosas que sejam, não servem para intensificar as afeições devotas, dar novo vigor à oração, aumentar a tristeza segundo Deus e mudar para melhor nossa disposição e nosso modo de viver, não cumprem de maneira alguma seu propósito. Deus não as aceitará como feitas para ele, para ele mesmo.
(2.) Ao jejuar, tinham em vista a si mesmos tanto quanto ao comer e beber, v. 6: “Quando comíeis e bebíeis em outros dias (ou melhor, talvez até nos dias de jejum, em cuja observância às vezes julgáveis poder dispensar a regra e tomar a liberdade de comer e beber), não comíeis e bebíeis para vós mesmos?”
“Não tendes agido sempre conforme vossa própria vontade? Por que, então, agora alegais querer conhecer a vontade de Deus?”
“Nas festas religiosas e ações de graças, não tivestes Deus mais em vista do que nos jejuns.”
Ou, melhor, a referência é às refeições comuns. Ao jejuar e orar, não pretendiam honrar a Deus mais do que ao comer e beber; o próprio eu continuava sendo o centro para o qual convergiam todas as linhas de suas ações naturais, civis e religiosas.
Não precisavam preocupar-se tanto com a continuidade dos jejuns, a menos que os tivessem observado melhor. Repare: perdemos de vista nossa finalidade ao comer e beber quando o fazemos para nós mesmos.
Deveríamos comer e beber para a glória de Deus (1 Coríntios 10:31), a fim de que o corpo esteja apto a servir à alma no serviço dele.
- O principal bem que deveriam ter feito ficou por fazer, v. 7: “Não deveríeis ouvir as palavras que o Senhor proclamou pelos antigos profetas? Sim, era isso que deveríeis ter feito nos dias de jejum.”
“Não bastava chorar e separar-vos nesses dias como sinal de tristeza pelos juízos que sofrestes. Deveríeis ter examinado as Escrituras dos profetas para conhecer a causa da contenda de Deus com vossos pais e aprender com as desgraças deles a não seguir os passos de suas iniquidades.”
“Perguntais: Continuaremos a fazer como antes, jejuando? Não: deveis fazer o que ainda não fizestes; deveis arrepender-vos dos pecados e mudar de vida. É a isso que vos chamamos agora, e foi a isso que os antigos profetas chamaram vossos pais.”
Para impressioná-los mais com o mal que o pecado lhes causara e levá-los ao arrependimento, o profeta lhes recorda a antiga prosperidade do país. Jerusalém era habitada e próspera, mas agora está desolada e aflita.
As cidades ao redor, hoje em ruínas, também eram então habitadas e viviam em paz. O interior igualmente era muito povoado: os homens habitavam o sul da planície, que não tinha fortificações e onde ainda assim viviam seguros, e que era fértil, de modo que viviam com fartura.
Naquela época, porém, Deus lhes clamava pelos profetas, com seriedade e insistência, para que corrigissem seus caminhos e atos, senão a prosperidade logo terminaria.
“Agora”, diz o profeta, “deveríeis ter prestado atenção nisso e concluído que aquilo que se exigia deles para prevenir os juízos, mas que eles não fizeram, exige-se de vós para remover os juízos.”
“Se não o fizerdes, de nada valerão todos os vossos jejuns e choros.” Repare: as palavras dos profetas posteriores concordam com as dos anteriores. Tanto na prosperidade quanto na adversidade, o povo precisa ser chamado a abandonar os pecados e cumprir o dever. Essa deve continuar a ser a mensagem de todo cântico.
Versículos 8 a 14
A Desobediência Deliberada de Israel; Consequências da Desobediência. (a.C. 520.)
O que se disse no v. 7, que deveriam ter ouvido as palavras dos antigos profetas, é desenvolvido aqui como aviso aos que faziam a consulta com hipocrisia. Eles persistiam em seus pecados enquanto perguntavam com grande rigor se deveriam continuar seus jejuns.
O profeta já lhes havia recordado a desobediência de seus pais aos chamados dos profetas e suas consequências (Zacarias 1:4-6), e agora o faz de novo, pois os prejuízos sofridos por outros devem servir-nos de aviso.
Os juízos de Deus sobre o antigo Israel por seus pecados foram escritos para advertir a nós, cristãos (1 Coríntios 10:11), e devemos tirar a mesma lição das providências semelhantes de nossos dias.
I. O profeta repete aqui os temas principais dos sermões que os antigos profetas pregaram aos pais deles, v. 9, 10, porque exatamente as mesmas coisas eram agora exigidas deles. “Assim fala o Senhor dos Exércitos agora a vós, e assim falou a vossos pais: Executai o juízo verdadeiro.”
Os deveres exigidos aqui teriam prolongado a tranquilidade de seus pais e agora deveriam restaurar a tranquilidade deles. Não são guardar jejuns e oferecer sacrifícios, mas praticar a justiça e amar a misericórdia.
A luz e a lei da natureza os obrigavam a esses deveres, mesmo que nenhum profeta tivesse sido enviado para insistir neles. Tais deveres promoviam diretamente o bem-estar e a paz públicos, e quem ganharia com eles seriam os próprios homens, não Deus.
Os governantes devem administrar a justiça com imparcialidade, segundo os princípios da lei e os méritos da causa, sem favorecer pessoas: “Julgai conforme a verdade e executai o juízo depois de o proferir.”
Os vizinhos devem ter terno cuidado uns pelos outros. Não basta que não se façam mal; devem estar prontos a prestar mutuamente todos os bons serviços ao seu alcance. Cada um deve mostrar misericórdia e compaixão por seu irmão conforme a necessidade.
As fraquezas dos outros, assim como suas calamidades, devem ser vistas com compaixão. Hanc veniam petimusque damusque vicissim — essa bondade pedimos e praticamos reciprocamente.
- Não devem ser duros com aqueles sobre quem têm vantagem e que, como sabem, não podem defender-se. Nem no comércio nem nos tribunais devem oprimir a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre, v. 10.
Os mais fracos não devem ser encurralados justamente por serem os mais fracos. Não há mérito em reconhecer o direito daqueles que têm condições de exigi-lo e recuperá-lo.
Contudo, devemos dar o que pertence a quem não tem poder para arrancá-lo de nós, não apenas por medo do castigo, mas também por dever de consciência.
Ou isso sugere que aquilo que é mero rigor com outras pessoas se torna extorsão contra viúvas e órfãos. Mais que isso: deixar de socorrê-los e ajudá-los como devemos é, na prática, oprimi-los.
- Não basta que deixem de fazer mal aos outros: não devem sequer desejá-lo ou pensar nele. “Nenhum de vós planeje o mal contra seu irmão no coração. Não o projeteis; não o desejeis; nem mesmo vos agradeis em imaginá-lo.”
A lei de Deus restringe o coração e proíbe acolher, até mesmo admitir, um pensamento malicioso, rancoroso ou cruel. Deuteronômio 15:9 adverte a tomar cuidado para que não haja um pensamento contra o irmão no coração de Belial.
II. Ele descreve a desobediência obstinada dos pais deles, que persistiram em toda espécie de maldade e injustiça, apesar das exortações e advertências frequentemente dirigidas a eles em nome de Deus.
Várias expressões com esse sentido se acumulam aqui, v. 11, 12, mostrando a teimosia da mente carnal que é inimiga de Deus, não se sujeita à sua lei e nem pode fazê-lo. Eram obstinados e rebeldes, persistindo em transgredir a lei simplesmente por espírito de oposição a ela.
Se pudessem evitar, não se aproximariam o suficiente para ouvir os profetas, mas ficavam à distância. Ou, se não podiam deixar de ouvir, decidiam não prestar atenção: recusavam-se a escutar e olhavam para outro lado, como se ninguém lhes houvesse falado.
Se ouviam o que lhes era dito e, a princípio, pareciam inclinados a obedecer, afastavam-se quando chegava a hora de agir. Como um novilho desacostumado ao jugo, retiravam o ombro e não se submetiam ao jugo suave e ao fardo leve dos mandamentos de Deus.
Davam um ombro que se retirava, como diz a palavra. Pareciam pôr o ombro na obra, mas logo o retiravam, como os de Jeremias 34:10, 11. Eram como um arco enganoso ou como aquele filho que disse: “Eu vou, senhor”, mas não foi.
- Encheram a própria mente de preconceitos contra a palavra de Deus. Tinham sempre pronta alguma objeção com que se defender de cada sermão ouvido. Tapavam os ouvidos para não ouvir, como a víbora surda (Salmos 58:4).
Ninguém é tão surdo quanto quem não quer ouvir e torna pesados os próprios ouvidos, conforme a expressão original.
- Decidiram que nada do que lhes fosse dito para reforçar essas ordens produziria neles qualquer efeito. Tornaram o coração como pedra de adamante, como o diamante, a mais difícil de trabalhar, ou como a pederneira, que o pedreiro não consegue talhar como as demais pedras da pedreira.
Nada é tão duro, tão impossível de moldar, tão inflexível quanto o coração de um pecador presunçoso. Quem tem o coração duro deve responsabilizar a si mesmo: endureceu-o por vontade própria, e é justo que Deus o entregue à mente reprovada, à dureza e à falta de arrependimento de seu próprio coração.
Esses pecadores obstinados endureceram deliberadamente o coração para não ouvir o que Deus lhes dizia pela palavra escrita, pela lei de Moisés e pelas palavras dos profetas que lhes pregavam.
Tinham Moisés e os profetas, mas decidiram não ouvir nenhum dos dois; nem seriam persuadidos se alguém lhes fosse enviado dentre os mortos.
Desprezavam as palavras dos profetas, embora fossem palavras que o Senhor dos Exércitos lhes enviara e dirigira, e que lhes enviara diretamente por seu Espírito nos profetas. Ao desprezá-las, afrontavam o próprio Deus e resistiam ao Espírito Santo.
Repare: os homens não são bons porque não querem sê-lo. Não querem refletir nem obedecer; portanto, se alguém escarnecer, ele sozinho sofrerá as consequências.
III. Ele mostra as consequências fatais dessa conduta para seus pais: por isso veio grande cólera da parte do Senhor dos Exércitos. Deus estava profundamente descontente com eles, e com justiça. Só lhes exigira o que era razoável em si mesmo e benéfico para eles; ainda assim, recusaram, e de maneira extremamente insolente.
Que senhor suportaria tamanha afronta de seu próprio servo? Uma inimizade implacável contra o evangelho, como essa que eles mostraram contra a lei e os profetas, trouxe a cólera até o limite sobre a última geração da igreja judaica, 1 Tessalonicenses 2:16.
Grandes pecados contra o Senhor dos Exércitos, cuja autoridade é incontestável, trazem grande cólera da parte do Senhor dos Exércitos, cujo poder é irresistível. Eis o resultado:
- Assim como eles fecharam os ouvidos à palavra de Deus, Deus fechou os ouvidos às suas orações, v. 13. Na prosperidade, ele lhes clamava que abandonassem os pecados, mas não o escutavam e persistiam na iniquidade.
No dia da aflição, eles lhe clamaram que removesse seus juízos, mas ele não os ouviu e prolongou suas calamidades. Aqueles que desafiam a Deus no auge do orgulho clamam a ele quando chegam as dores. “Senhor, na angústia te visitaram.”
Deus, porém, já disse e manterá sua palavra: “Quem desvia os ouvidos de ouvir a lei, até sua oração será abominável”, Provérbios 28:9; 1:24, etc. A iniquidade acolhida no coração certamente impedirá que a oração seja atendida, Salmos 66:18.
Assim como se afastaram do dever e da lealdade a Deus, com espírito inconstante e inquieto, Deus os dispersou e lançou de um lado para outro como palha diante de um redemoinho. Espalhou-os entre nações que não conheciam e das quais, por isso, não podiam esperar bondade alguma, v. 14.
Assim como violaram todas as leis de sua terra, Deus lhe tirou todas as glórias: a terra ficou desolada depois deles, e ninguém passava nem voltava por ela.
Todo o território do reino das duas tribos ficou completamente desabitado após a dispersão dos judeus restantes, depois da morte de Gedalias. Não restou ali homem, mulher nem criança até os judeus voltarem ao fim dos setenta anos de cativeiro.
Mais que isso, ao que parece, até as estradas que atravessavam o país foram abandonadas: ninguém passava nem tornava a passar. Havia nisso um indício de misericórdia, pois, embora tivessem sido expulsos, a terra permaneceu vazia para seu retorno.
Por ora, porém, isso tornava o juízo ainda mais sombrio: que deserto terrível se tornou uma terra desabitada por tantos anos! A culpa era deles mesmos; por sua maldade, tornaram desolada a terra agradável.
Não foram tanto os caldeus que fizeram isso. Não: fizeram-no eles próprios. A desolação de uma terra decorre da maldade de seus habitantes, Salmos 107:34.
Tudo veio da desobediência deliberada deles à lei de Deus. A geração presente via como o pecado tornara desolada aquela terra agradável e, ainda assim, não aceitava o aviso.