Matthew Henry

Zacarias 4

Argumento

Neste capítulo temos outra visão consoladora. Segundo a explicação dada ao profeta, ela continha muito que animava o povo de Deus em suas dificuldades presentes, tão grandes que julgavam sua situação sem solução e pensavam que o templo nunca poderia ser reconstruído nem a cidade repovoada.

Por isso, o propósito da visão é mostrar que Deus, por seu próprio poder, completaria a obra, por mais fraca que fosse a ajuda de seus amigos e por mais forte que fosse a resistência de seus inimigos. Aqui está:

I. O despertar do profeta para observar a visão, v. 1.

II. A visão em si: um castiçal com sete lâmpadas, que recebiam azeite e eram mantidas acesas diretamente por duas oliveiras que cresciam ao lado dele, uma de cada lado, v. 2, 3.

III. O ânimo geral que, por meio dessa visão, se pretendia dar aos construtores do templo para prosseguirem naquela boa obra, assegurando-lhes que, por fim, ela seria concluída, vv. 4-10.

IV. A explicação específica da visão para esclarecer essas garantias, vv. 11-14.

A Visão do Castiçal de Ouro; Incentivo à Construção do Templo. (a.C. 520.)

Versículos 1 a 10

Aqui está: I. O profeta preparado para receber a revelação que lhe seria feita. O anjo que falava com ele veio e o despertou, v. 1. Ao que parece, embora conversasse com um anjo sobre assuntos de grande interesse público, ele se entorpeceu e adormeceu enquanto o anjo ainda falava com ele.

Assim também os discípulos ficaram vencidos pelo sono ao ver Cristo transfigurado, Lucas 9:32. Sem dúvida, o espírito do profeta estava disposto a prestar atenção ao que veria e ouviria, mas a carne era fraca. Seu corpo não conseguia acompanhar a alma nas contemplações divinas.

Talvez o caráter extraordinário das visões o tenha deixado atônito e dominado pelo sono; ou talvez a doçura delas o tenha acalmado e até embalado para dormir. Daniel estava em sono profundo quando ouviu a voz das palavras do anjo, Daniel 10:9.

Nunca estaremos aptos a ter comunhão com seres espirituais enquanto não nos livrarmos destes corpos de carne. Parece que o anjo permitiu que o profeta adormecesse por um momento, para que estivesse renovado ao receber novas revelações; depois o despertou, para sua surpresa, como se desperta um homem do sono.

Repare: precisamos do Espírito de Deus não apenas para nos revelar as coisas divinas, mas também para nos fazer prestar atenção nelas. “Ele desperta manhã após manhã, desperta-me o ouvido”, Isaías 50:4. Devemos pedir a Deus que, sempre que falar conosco, nos desperte; então devemos nos animar.

II. A revelação feita a ele depois de assim preparado. O anjo lhe perguntou: “Que vês?”, v. 2. Talvez, mesmo desperto, não tivesse reparado no que se apresentava a seus olhos se não fosse estimulado desse modo a olhar ao redor.

Ao observar, viu um castiçal de ouro como o que antes havia no templo; no devido tempo, este templo também receberia um semelhante. A igreja é um castiçal posto para iluminar este mundo escuro e apresentar-lhe a luz da revelação divina.

A vela pertence a Deus; a igreja é apenas o castiçal, mas todo de ouro, indicando o grande valor e a excelência da igreja de Deus. Desse castiçal de ouro saíam sete lâmpadas, em sete suportes, cada uma com uma luz que ardia e brilhava.

A igreja judaica era uma só. Embora os judeus dispersos provavelmente tivessem sinagogas em outros países, elas eram apenas outras tantas lâmpadas de um único castiçal; mas agora, sob o evangelho, Cristo é o centro da unidade, e não Jerusalém ou qualquer outro lugar.

Por isso, sete igrejas distintas são representadas não por sete lâmpadas, mas por sete castiçais de ouro separados, Apocalipse 1:20.

Esse castiçal tinha no alto uma única vasilha, ou reservatório comum, no qual o azeite caía continuamente. Dali, por sete tubos ou canais ocultos, distribuía-se às sete lâmpadas. Assim, sem precisar de mais cuidado, elas recebiam azeite à medida que o consumiam, como nos chamados tinteiros ou canetas de alimentação contínua.

Nunca lhes faltava azeite nem recebiam em excesso; por isso, ardiam sempre com chama clara. A vasilha também era abastecida continuamente, sem qualquer cuidado ou assistência humana.

Isso porque o profeta viu duas oliveiras, v. 3, uma de cada lado do castiçal, tão vigorosas e frutíferas que, por si mesmas, derramavam continuamente azeite em abundância na vasilha. Dela, o azeite passava por dois tubos maiores (v. 12) para os menores e, então, para as lâmpadas.

Assim, ninguém precisava cuidar do castiçal nem abastecê-lo de azeite: ele não aguardava o homem nem esperava pelos filhos dos homens. O propósito disso é mostrar que Deus pode facilmente realizar, e muitas vezes realiza, seus bondosos propósitos para a igreja por sua própria sabedoria e poder, sem arte nem trabalho humanos.

Embora às vezes use instrumentos, Deus não precisa deles nem está limitado a eles. Pode realizar sua obra sem eles e preferirá fazê-lo a deixá-la por fazer.

III. A pergunta do profeta sobre o significado da visão e a branda repreensão recebida por sua lentidão, v. 4: “Respondi e falei ao anjo, dizendo: Que são estas coisas, meu senhor?” Observe como fala respeitosamente ao anjo: chama-o de “meu senhor”.

Quem deseja aprender deve honrar seus mestres. O profeta via o que eram aquelas coisas, mas perguntava o que significavam. Repare: é muito desejável conhecer o sentido das manifestações que Deus faz de si e de sua vontade, tanto em sua palavra quanto por suas ordenanças e providências.

“Que quereis dizer com estes serviços, com estes sinais?” Quem deseja compreender a vontade de Deus deve fazer perguntas. Conheceremos se prosseguirmos em conhecê-lo: não apenas ouvindo, mas, como Cristo, fazendo perguntas sobre o que ouvimos, Lucas 2:46.

O anjo lhe respondeu com outra pergunta: “Não sabes o que são estas coisas?” Com isso, indicava que, se o profeta tivesse refletido e comparado coisas espirituais com espirituais, poderia ter adivinhado o significado da visão.

Isso porque ele sabia que havia no tabernáculo um castiçal de ouro, que os sacerdotes tinham o dever constante de abastecer de azeite e manter aceso para uso do tabernáculo.

Portanto, ao ver em visão um castiçal semelhante, com as lâmpadas sempre acesas, mas sem sacerdotes que o cuidassem e sem necessidade deles, poderia perceber que Deus, embora houvesse restabelecido o sacerdócio, era capaz de continuar sua obra em seu povo e em favor dele sem esses sacerdotes.

Repare: temos motivo para nos envergonhar de não compreender mais prontamente o sentido das revelações divinas. O anjo fez essa pergunta ao profeta para levá-lo a reconhecer a própria lentidão, obscuridade e dificuldade de compreensão, e recebeu de imediato essa confissão: “Eu disse: Não, meu senhor; não sei o que são estas coisas.”

As visões tinham significado, mas muitas vezes eram obscuras e difíceis de entender; nem sempre os próprios profetas o percebiam de início.

Quem deseja ser ensinado por Deus deve reconhecer a própria ignorância e a necessidade de instrução, e pedir ensino a Deus. Àquele que nos deu o cofre devemos pedir a chave para abri-lo. Deus ensinará os mansos e humildes, não os que confiam em si mesmos e se apoiam na cana quebrada do próprio entendimento.

IV. O propósito geral da visão. Sem analisar minuciosamente cada detalhe, ela pretende assegurar ao profeta e, por meio dele, ao povo, que essa boa obra da construção do templo chegaria a um resultado feliz pelo cuidado especial da Providência divina e pela influência direta da graça divina.

Isso aconteceria embora seus inimigos fossem muitos e poderosos, e seus amigos e colaboradores, poucos e fracos. Repare: ao explicar visões e parábolas, devemos buscar seu propósito principal e contentar-nos com ele quando estiver claro, mesmo que não possamos explicar cada detalhe nem adaptá-lo ao nosso propósito.

O anjo informa ao profeta, em termos gerais, que a visão ilustrava uma palavra que o Senhor tinha para Zorobabel, a fim de animá-lo a prosseguir com a construção do templo. Que ele saiba que coopera com Deus nessa obra e que Deus a reconhecerá e a coroará.

  1. Deus prosseguirá com esta obra e a concluirá, assim como iniciara a libertação da Babilônia: não pela força exterior, mas por operações secretas e influências interiores sobre a mente das pessoas.

Quem diz isso é o Senhor dos Exércitos, que poderia fazê-lo vi et armis — pela força, pois tem legiões sob seu comando. Contudo, ele o fará não pelo vigor nem pelo poder humanos, mas por seu próprio Espírito. O que se faz por seu Espírito se faz com vigor e poder, embora em oposição à força visível.

Israel foi tirado do Egito e levado a Canaã com vigor e poder; em ambas essas obras maravilhosas houve grande mortandade. Da Babilônia, porém, o povo foi tirado e levado a Canaã pela segunda vez por meio do Espírito do Senhor dos Exércitos.

Esse Espírito agiu no espírito de Ciro, levando-o a proclamar liberdade aos judeus, e nos espíritos dos cativos, levando-os a aceitar a liberdade oferecida. Foi também o Espírito do Senhor dos Exércitos que despertou e animou o povo a construir o templo.

Por isso se diz que foram ajudados pelos profetas de Deus, pois estes, como porta-vozes do Espírito, falavam ao coração deles, Esdras 5:2.

Pelo mesmo Espírito, o coração de Dario se inclinou a favorecer e promover essa boa obra, enquanto os inimigos declarados dela foram confundidos em seus conselhos e não puderam impedi-la como pretendiam.

Repare: a obra de Deus muitas vezes avança com grande êxito embora avance silenciosamente e sem o auxílio da força humana. O templo do evangelho é edificado não pelo vigor nem pelo poder, pois as armas de nossa guerra não são carnais, mas pelo Espírito do Senhor dos Exércitos.

A ação do Espírito na consciência das pessoas é poderosa para derrubar fortalezas; assim, a excelência do poder provém de Deus, não do homem. Portanto, quando os instrumentos falham, deixemos que Deus faça sua obra por si mesmo, mediante seu próprio Espírito.

  1. Todas as dificuldades e oposições que estão no caminho serão superadas e removidas, até mesmo as que parecem insuperáveis, v. 7: “Quem és tu, ó grande monte? Diante de Zorobabel te tornarás uma planície.”

Veja aqui: (1.) Como a dificuldade é representada. É um grande monte, intransponível e imóvel, um amontoado de entulho como uma enorme montanha, que precisa ser removido para que a obra prossiga.

Os inimigos dos judeus são orgulhosos e duros como grandes montes. Contudo, quando Deus tem uma obra a realizar, os montes que se erguem em seu caminho se reduzirão a montículos de toupeira. Veja aqui: (2.) Como essas dificuldades são desprezadas.

“Quem és tu, ó grande monte, para te colocares no caminho de Deus e imaginares que podes impedir o avanço de sua obra? Quem és tu, que pareces tão imponente, ameaças tanto e causas tanto medo?

Diante de Zorobabel, quando ele atua por Deus, te tornarás uma planície. Todas as dificuldades desaparecerão, e todas as objeções serão vencidas. Todo monte e colina serão rebaixados quando se preparar o caminho do Senhor”, Isaías 40:4.

A fé removerá montes e os transformará em planícies. Cristo é nosso Zorobabel: montes de dificuldades se erguiam no caminho de sua obra, mas todos foram nivelados diante dele. Nada é difícil demais para sua graça.

  1. A mesma mão que começou esta boa obra a concluirá: “Ele trará a pedra de remate”, v. 7. E, de novo, v. 9: “As mãos de Zorobabel lançaram os fundamentos desta casa”, o que se diz para sua honra; talvez ele próprio tenha colocado a primeira pedra com as mãos.

Embora a construção tenha sido retardada por muito tempo e ainda enfrente muita oposição, por fim será concluída. Zorobabel viverá para vê-la pronta; mais que isso, suas mãos também a concluirão.

Nisso ele é figura de Cristo, tanto autor quanto consumador de nossa fé. O fato de Cristo ser o autor nos assegura de que será também o consumador, pois a obra de Deus é perfeita. Tendo ele começado, não a levará ao fim?

O próprio Zorobabel trará a pedra de remate em meio a gritos e grandes aclamações de alegria dos espectadores. As aclamações não serão vivas comuns, mas “Graça, graça!”: este será o refrão dos cânticos triunfais da igreja.

Pode-se entender isso (1.) como exaltação da graça gratuita, à qual se atribui toda a glória pelo que foi feito. Quando a obra estiver concluída, devemos reconhecer com gratidão que não foi levada à perfeição por alguma estratégia ou poder nosso, mas pela graça: a boa vontade de Deus para conosco e sua boa obra em nós e em nosso favor.

“Graça, graça!” deve ser proclamado não apenas à pedra de remate, mas também à pedra fundamental, à pedra angular e, na verdade, a cada pedra do edifício de Deus. Do início ao fim, nada procede das obras: tudo é graça, e todas as nossas coroas devem ser lançadas aos pés da graça gratuita. “Não a nós, ó Senhor, não a nós!”

(2.) Como expressão de dependência da graça gratuita e desejo de que ela continue para o que ainda falta fazer. “Graça, graça!” é linguagem de oração e de louvor. Agora que o edifício está concluído, que toda felicidade o acompanhe!

Haja paz dentro de seus muros e, para isso, graça. Seja sobre ele a beleza do Senhor nosso Deus! Repare: aquilo que vem da graça de Deus pode, com fé e bons motivos, ser confiado à graça de Deus, pois ele não abandonará a obra das próprias mãos.

  1. Isso confirmará plenamente as profecias anteriores sobre o retorno dos judeus e seu novo estabelecimento. Quando o templo for concluído, “saberás que o Senhor dos Exércitos me enviou a vós”.

Repare: o cumprimento exato das profecias das Escrituras é prova convincente de sua origem divina. Assim Deus confirma a palavra de seu servo, dizendo a Jerusalém: “Serás edificada”, Isaías 44:26.

Nenhuma palavra de Deus cairá por terra, nem faltará um jota ou um til dela. As profecias de Zacarias sobre a proximidade do dia em que a igreja seria libertada logo se revelariam divinas pelo seu cumprimento.

  1. Isso calará de modo eficaz aqueles que desprezavam o início da obra, v. 10. Quem é e onde está agora aquele que desprezou o dia das pequenas coisas e pensou que essa obra nunca chegaria a lugar algum?

Os próprios judeus desprezaram o fundamento do segundo templo porque ele parecia destinado a ser muito inferior ao primeiro, Esdras 3:12. Seus inimigos desprezaram o muro enquanto era construído, Neemias 2:19; 4:2, 3. Que não o façam, porém.

Repare: na obra de Deus, não se deve desprezar o dia das pequenas coisas. Embora os instrumentos sejam fracos e pareçam inadequados, muitas vezes Deus escolhe justamente esses para realizar grandes coisas.

Assim como um grande monte se torna uma planície diante dele quando lhe agrada, uma pequena pedra cortada de um monte sem mãos humanas chega a encher a terra, Daniel 2:35.

Embora os começos sejam pequenos, Deus pode fazer crescer muito o resultado final; um grão de mostarda pode tornar-se uma grande árvore. Que a luz da aurora não seja desprezada, pois brilhará cada vez mais até o dia perfeito. O dia das pequenas coisas é dia de coisas preciosas e será dia de grandes coisas.

  1. Isso satisfará plenamente todos os que desejam sinceramente o bem dos interesses de Deus e ficarão contentes ao ver que se enganaram quando desprezaram o dia das pequenas coisas.

Os que perderam a esperança de ver a obra concluída se alegrarão ao ver o prumo na mão de Zorobabel, ao vê-lo ocupado entre os construtores, dando ordens e instruções sobre o que fazer e cuidando para que a obra seja executada com grande precisão, bela e firme.

Repare: para todas as pessoas piedosas é motivo de grande alegria ver os governantes cuidadosos e ativos na edificação da casa de Deus. É bom ver o prumo nas mãos daqueles que podem fazer muito, se ao menos tiverem o coração disposto para isso.

Não vemos Zorobabel com a colher de pedreiro na mão, pois essa fica para os trabalhadores, os ministros. Vemo-lo, porém, com o prumo na mão, o que não o diminui, antes o honra. Os governantes devem supervisionar o trabalho dos ministros e falar de modo consolador aos levitas que cumprem seu dever.

  1. Isso exaltará muito a sabedoria e o cuidado da providência de Deus, sempre empregados para o bem de sua igreja. Zorobabel faz sua parte, faz tudo o que um homem pode para promover a obra, mas o faz sob aqueles sete olhos, os sete olhos do Senhor mencionados em Zacarias 3:9.

Ele nada poderia fazer se a providência vigilante, poderosa e bondosa de Deus não o precedesse e acompanhasse. Se o Senhor não tivesse edificado esta casa, Zorobabel e os demais teriam trabalhado em vão, Salmos 127:1.

Esses olhos do Senhor percorrem toda a terra, tomando conhecimento de todas as criaturas e de todos os seus atos (2 Crônicas 16:9) e inspirando e dirigindo tudo segundo os conselhos divinos.

Repare: não devemos pensar que Deus se ocupa tanto dos assuntos de sua igreja que negligencia o mundo. No entanto, consola-nos saber que a mesma Providência, toda sábia e todo-poderosa, que governa as nações da terra cuida de modo especial da igreja.

Aqueles sete olhos que percorrem a terra estão todos voltados para a pedra que Zorobabel assenta com precisão usando o prumo, para ver se está bem assentada.

Quem tem o prumo na mão deve levantar o olhar para aqueles olhos do Senhor, considerar continuamente a Providência divina e agir em dependência de sua direção e submissão àquilo que ela determinar.

Versículos 11 a 14

A Visão das Oliveiras. (a.C. 520.)

Já foi dito a Zacarias o suficiente para animá-lo e capacitá-lo a animar outros quanto à boa obra da construção do templo, na qual agora se empenhavam. Esse era o propósito principal da visão que ele tivera.

Ainda assim, o profeta procura conhecer os detalhes. Atribuímos essa busca não à curiosidade vã, mas ao valor que dava às revelações divinas e ao prazer que tinha em conhecê-las. Quem conhece muito das coisas de Deus não pode deixar de desejar humildemente conhecer mais. Observe agora:

I. Qual foi sua pergunta. Ele compreendeu o significado do castiçal e de suas lâmpadas: representam Jerusalém, o templo e a salvação deles, que sairia como uma lâmpada acesa. Mas deseja saber o que são as duas oliveiras, v. 11, e os dois ramos de oliveira, v. 12. Observe aqui:

  1. Ele perguntou. Repare: quem deseja conhecer as coisas de Deus precisa fazer perguntas sobre elas. Pergunte, e receberá resposta.

  2. Perguntou duas vezes, pois sua primeira pergunta não recebera resposta. Repare: se nossas perguntas e súplicas não recebem logo respostas satisfatórias, devemos renová-las, repeti-las e persistir nelas com insistência e perseverança. Por fim, a visão falará e não mentirá.

  3. Sua segunda pergunta diferia um pouco da primeira. Primeiro, perguntou: “O que são estas duas oliveiras?” Depois: “O que são estes dois ramos de oliveira?” Referia-se aos ramos pendentes sobre a vasilha, que nela destilavam azeite.

Ao perguntarmos sobre a graça de Deus, devemos considerá-la antes como nos é comunicada pelos ramos frutíferos da palavra e das ordenanças, pois isso pertence às coisas reveladas, que cabem a nós e a nossos filhos.

Não devemos concentrar-nos tanto em como a graça reside na boa oliveira, da qual vêm todas as nossas fontes, pois isso pertence às coisas secretas, que não nos cabem.

  1. Na pergunta, mencionou o que observara na visão. Reparou não apenas no que era evidente à primeira vista, que as duas oliveiras cresciam uma à direita e outra à esquerda do castiçal, tão próxima e pronta a ajudar a igreja é a graça divina.

Observou também, após olhar mais de perto, que os dois ramos pelos quais o castiçal recebia da raiz e da seiva da oliveira, como diz o apóstolo a respeito da igreja (Romanos 11:17), derramavam de si o azeite dourado pelos dois tubos de ouro.

Era um azeite claro e brilhante, o melhor de sua espécie e de grande valor, como se fosse aurum potabile — ouro líquido.

Ou, como diz a leitura à margem, os ramos, pela mão dos dois tubos de ouro, derramam de si o azeite no ouro, isto é, na vasilha de ouro que ficava no alto do castiçal. Nosso Senhor Jesus esvaziou-se para nos encher; seu sangue precioso é o azeite dourado que nos supre de tudo quanto precisamos.

II. A resposta dada à sua pergunta. Mais uma vez, antes de informá-lo, o anjo o levou expressamente a reconhecer a própria ignorância, v. 13: “Não sabes o que são estas coisas? Se sabes que a igreja é o castiçal, como podes pensar que as oliveiras que o abastecem de azeite sejam outra coisa senão a graça de Deus?”

O profeta, porém, reconheceu que não compreendera plenamente ou que temia não ter compreendido corretamente: “Eu disse: Não, meu senhor. Como poderia, a menos que alguém me guie?”

Então o anjo lhe disse, v. 14: “Estes são os dois filhos do azeite”, como está no original; “os dois ungidos”, como lemos; ou, mais precisamente, os dois cheios de azeite.

O que em Isaías 5:1 lemos como “uma colina muito fértil” aparece no original como “o chifre do filho do azeite”, um solo rico e fértil.

  1. Se entendermos o castiçal como a igreja visível, particularmente a dos judeus daquela época, a quem se destinava primeiramente o consolo, esses filhos do azeite, que estão diante do Senhor de toda a terra, são as duas grandes instituições e funções do governo civil e do ministério religioso.

Naquele tempo, elas estavam confiadas a dois homens grandes e bons: Zorobabel e Josué. Reis e sacerdotes eram ungidos; esse príncipe e esse sacerdote eram homens cheios de azeite, dotados dos dons e das graças do Espírito de Deus para a obra a que foram chamados.

Eles estavam diante do Senhor de toda a terra para servi-lo e receber orientação dele; exerciam grande influência nos assuntos da igreja naquela época.

Sua sabedoria, coragem e zelo derramavam-se continuamente na vasilha de ouro para manter as lâmpadas acesas. Quando partissem, outros seriam levantados para prosseguir com a mesma obra: Israel não ficaria mais sem príncipe e sacerdote.

Bons governantes e bons ministros, ungidos com a graça de Deus e postos ao lado do Senhor de toda a terra como fiéis defensores de sua causa, contribuem muito para manter e promover a religião e fazer brilhar a palavra da vida.

  1. Se entendermos o castiçal como a igreja dos primogênitos, dos verdadeiros crentes, esses filhos do azeite podem representar Cristo e o Espírito, o Redentor e o Consolador.

Cristo não é apenas o Messias, o próprio Ungido, mas também a boa oliveira de sua igreja; e de sua plenitude recebemos, João 1:16. O Espírito Santo é a unção, ou o ungimento, que recebemos, 1 João 2:20, 27.

De Cristo, a oliveira, por meio do Espírito, o ramo da oliveira, comunica-se aos crentes todo o azeite dourado da graça. Ele mantém acesas as lâmpadas deles, que logo se apagariam sem um suprimento constante.

Eles estão ao lado do Senhor de toda a terra, que é, de maneira especial, Senhor da igreja; pois o Filho seria enviado pelo Pai, assim como o Espírito Santo, no tempo designado, e ambos estão junto dele, prontos para ser enviados.


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