Matthew Henry

Zacarias 3

Argumento

A visão do capítulo anterior deu garantias de que os interesses civis da nação judaica seriam restabelecidos, e as promessas a esse respeito culminavam em Cristo.

Agora, a visão deste capítulo diz respeito à condição da igreja e aos interesses eclesiásticos dos judeus, assegurando-lhes que voltarão a uma boa situação. Também estas promessas têm em vista Cristo, que não é apenas nosso príncipe, mas o sumo sacerdote da nossa profissão de fé, de quem Josué era figura. Aqui está:

I. Uma visão referente a Josué, representante da igreja em seu tempo, que mostra as dificuldades enfrentadas por ele e, nele, pelo povo, bem como a reparação das aflições de ambos:

  1. Satanás o acusa, mas Cristo o livra, v. 1, 2.

  2. Ele aparece com vestes imundas, mas elas são trocadas, vv. 3-5.

  3. Recebe a garantia de que será estabelecido em seu ofício se proceder bem, v. 6, 7.

II. Um sermão referente a Cristo, aqui chamado de “o Renovo”. Ele será dotado de todas as perfeições necessárias à sua obra, será conduzido triunfalmente através dela, e por meio dele teremos perdão e paz, vv. 8-10.

Josué Combatido e Sustentado; Josué Purificado da Impureza; Josué Restabelecido em Seu Ofício. (a.C. 520.)

Versículos 1 a 7

Houve um Josué que teve papel principal no primeiro estabelecimento de Israel em Canaã; aqui está outro com o mesmo nome, muito ativo no segundo estabelecimento do povo ali depois do cativeiro. Jesus é o mesmo nome e significa Salvador; ambos eram figuras daquele que haveria de vir, nosso comandante supremo e nosso sumo sacerdote.

O anjo que falava com Zacarias lhe mostrou o sumo sacerdote Josué. É provável que o profeta o visse com frequência, conversasse com ele e tivesse grande intimidade com ele. Mas, quando o via normalmente, só enxergava como Josué aparecia diante dos homens.

Se o profeta precisava saber como Josué se apresentava diante do Senhor, isso teria de lhe ser mostrado numa visão; e assim aconteceu. As pessoas são, na verdade, aquilo que são diante de Deus, não aquilo que parecem aos olhos do mundo.

Josué estava diante do anjo do Senhor, isto é, diante de Cristo, o Senhor dos anjos, a quem até os próprios sumos sacerdotes da ordem de Arão deviam prestar contas. Estava diante do anjo do Senhor para exercer seu ofício e ministrar a Deus sob a inspeção dos anjos. Estava ali para consultar o oráculo em favor de Israel, de quem era representante como sumo sacerdote.

A culpa e a corrupção são nossos dois grandes motivos de desânimo quando nos apresentamos diante de Deus. Pela culpa dos pecados que cometemos, ficamos sujeitos à justiça de Deus; pelo poder do pecado que habita em nós, tornamo-nos detestáveis à sua santidade. Todo o Israel de Deus corre perigo por esses dois motivos.

Assim acontecia com Josué, pois a lei constituía sacerdotes homens sujeitos a fraquezas, Hebreus 7:28. Quanto a ambos os males, encontramos socorro em Jesus Cristo, que Deus fez para nós tanto justiça quanto santificação.

I. Josué é acusado como criminoso, mas é justificado. 1. Há uma violenta oposição contra ele. Satanás está à sua direita para resistir-lhe, para ser seu Satanás, um adversário judicial. Ele ocupa a direita, como o acusador ou a testemunha à direita do réu.

Repare: o diabo é o acusador dos irmãos, que os acusa diante de Deus dia e noite, Apocalipse 12:10. Alguns pensam que o sumo sacerdote era acusado pelo pecado de muitos sacerdotes inferiores, que se casaram com mulheres estrangeiras, coisa de que muitos eram culpados depois do retorno do cativeiro, Esdras 9:1, 2; Neemias 13:28.

Quando Deus está prestes a restabelecer o sacerdócio, Satanás apresenta os pecados encontrados entre os sacerdotes como razão para considerá-los indignos da honra que lhes era destinada.

É por nossa própria insensatez que damos vantagem a Satanás contra nós e lhe fornecemos matéria para descrédito e acusação. E, se houver algo errado, especialmente entre os sacerdotes, Satanás certamente o agravará e o apresentará da pior maneira possível.

Ele estava ali para resistir a Josué, isto é, para opor-se ao serviço que este prestava ao bem público. Postou-se à sua direita, a mão da ação, para desanimá-lo e levantar dificuldades em seu caminho.

Repare: quando estamos diante de Deus para ministrar-lhe, ou nos levantamos em defesa de seus interesses, devemos esperar toda a resistência que a astúcia e a maldade de Satanás possam nos opor. Resistamos, então, àquele que nos resiste, e ele fugirá de nós.

  1. Faz-se uma defesa vitoriosa em favor dele, v. 2: o Senhor, isto é, o Senhor Cristo, disse a Satanás: “O Senhor te repreenda”. Repare: a felicidade dos santos está em ter o Juiz como amigo; aquele diante de quem são acusados é também seu patrono, protetor e advogado, e certamente os livrará.

(1.) Satanás é aqui contido por alguém que tem autoridade, que já o venceu e muitas vezes o fez calar. O acusador dos irmãos, dos ministros e do ministério, é expulso; suas acusações formais são anuladas, e suas insinuações contra eles, assim como as que lhes dirige, revelam-se maliciosas, frívolas e perturbadoras.

“O Senhor te repreenda, ó Satanás!” O Senhor que falou, isto é, o Senhor nosso Redentor, disse: “O Senhor te repreenda”, isto é, o Senhor Criador. O poder de Deus se empenha para tornar eficaz a graça de Cristo.

“Que o Senhor contenha tua fúria maliciosa, rejeite tua acusação maliciosa e te castigue pela tua inimizade contra um servo seu.” Repare: aqueles que pertencem a Cristo o têm pronto para agir vigorosamente em favor deles quando Satanás se levanta contra eles com mais veemência.

Cristo não discute com Satanás, mas lhe cala a boca imediatamente com esta severa repreensão: “O Senhor te repreenda, ó Satanás!” Essa é a melhor forma de lidar com esse inimigo furioso. “Vai para trás de mim, Satanás.”

(2.) Apresentam-se razões contra Satanás. Ele resiste ao sacerdote, mas deve saber que sua resistência [1.] será inútil. De nada adiantará tentar algo contra Jerusalém, pois o Senhor a escolheu e permanecerá fiel à sua escolha.

Seja o que for que se alegue contra o povo de Deus, Deus já o viu: previu tudo quando o escolheu e, ainda assim, o escolheu. Portanto, isso não poderá levá-lo agora a rejeitá-lo. Deus conhecia o que havia de pior nele quando o escolheu, e sua eleição prevalecerá.

[2.] É descabida, pois “não é este um tição tirado do fogo?” Josué o é, assim como o sacerdócio e o povo que ele representa. Cristo não apresenta em favor deles algo pelo qual devam ser louvados, mas algo pelo qual devam ser compadecidos.

Repare: Cristo está pronto para interpretar da melhor maneira a situação de seu povo e leva em conta tudo que se possa alegar como desculpa para suas fraquezas. Ele está muito longe de ser rigoroso ao apontar o que fazem de errado.

Estiveram há pouco no fogo; não admira que estejam escurecidos pela fumaça e com cheiro de queimado. Por isso, porém, devem ser desculpados, não acusados. Não se pode esperar outra coisa daqueles que ainda outro dia eram cativos na Babilônia senão uma aparência muito humilde e desprezível.

Acabam de sair de uma grande aflição; seria Satanás tão bárbaro a ponto de desejar que fossem lançados de novo nela? Foram maravilhosamente livrados do fogo para que Deus fosse glorificado neles. Será que, depois disso, Deus os rejeitará e abandonará?

Não: ele não apagará o pavio que fumega, o tição fumegante. Tirou-o do fogo porque pretendia usá-lo. Repare: escapar por pouco de um perigo iminente é um feliz prenúncio e uma forte razão para esperar favores ainda maiores.

Uma alma convertida é um tição tirado do fogo por um milagre da graça gratuita e, por isso, não será deixada como presa de Satanás.

II. Josué aparece contaminado, mas é purificado, pois representa o Israel de Deus, cujos membros são todos como uma coisa impura até serem lavados e santificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito de nosso Deus. Observe aqui: 1. A impureza com que Josué apareceu, v. 3.

Ele vestia roupas não apenas grosseiras, mas imundas, que em nada condiziam com a dignidade de seu ofício e a santidade de seu serviço. Pela lei de Moisés, as vestes do sumo sacerdote deveriam ser “para glória e para beleza”, Êxodo 28:2.

As roupas de Josué, porém, eram motivo de vergonha e descrédito para ele. Ainda assim, foi com elas que se apresentou diante do anjo do Senhor: não tinha linho limpo com que ministrar e cumprir os deveres de seu cargo.

Isso indica não apenas que o sacerdócio era pobre, desprezado e carregado de desonra, mas também que muita iniquidade se apegava às coisas santas. Os judeus que voltaram estavam tão ocupados com seus problemas que julgavam não precisar lamentar seus pecados.

Não percebiam que esses pecados eram os grandes obstáculos ao progresso da obra de Deus entre eles. Como estavam livres da idolatria, pensavam que nenhuma iniquidade lhes poderia ser atribuída.

Deus, porém, lhes mostrou que havia neles muitas coisas erradas que retardavam o avanço de seus favores para com eles. Inimigos espirituais guerreavam contra eles e eram mais perigosos do que qualquer das nações vizinhas.

A paráfrase caldaica diz que Josué tinha filhos que tomaram por esposas mulheres com quem os sacerdotes não podiam se casar; e descobrimos que foi assim, Esdras 10:18. Sem dúvida, havia outras coisas erradas no sacerdócio, Malaquias 2:1.

Ainda assim, permitiu-se que Josué permanecesse diante do anjo do Senhor. Embora seus filhos não agissem como deviam, a aliança do sacerdócio não foi rompida. Repare: Cristo suporta seu povo de coração reto para com ele e o admite à comunhão consigo apesar de suas muitas fraquezas.

  1. A providência tomada para purificá-lo. Cristo ordenou aos anjos que o acompanhavam e estavam prontos a cumprir sua vontade que pusessem Josué em melhor condição. Josué se apresentou diante do Senhor com as vestes imundas, como objeto de sua compaixão.

Cristo olhou para ele bondosamente, com compaixão, e não com indignação, como teria todo o direito de fazer. Repugnava-lhe a imundície das roupas de Josué; ainda assim, não o afastou, mas afastou as roupas.

É assim que Deus age por sua graça com os que escolhe para serem seus sacerdotes: separa-os de seus pecados e, desse modo, impede que os pecados os separem de seu Deus. Ele se reconcilia com o pecador, mas não com o pecado.

Duas coisas são feitas aqui por Josué, representando uma obra dupla da graça divina realizada nos crentes e em favor deles: (1.) Suas vestes imundas lhe são tiradas, v. 4. O sentido disso nos é dado no que Cristo disse, falando como quem tem autoridade: “Eis que fiz passar de ti a tua iniquidade”.

A culpa do pecado é removida pela misericórdia que perdoa; seu mau cheiro e sua mancha, pela paz anunciada à consciência; seu poder é quebrado pela graça que renova.

Quando Deus perdoa nossos pecados, faz nossa iniquidade passar de nós para que não se apresente contra nós e nos condene. Ela se afasta de nós tanto quanto o oriente dista do ocidente.

Quando santifica nossa natureza, Deus nos capacita a despir o velho homem e a lançar fora os trapos imundos de nossos afetos e desejos corruptos, como coisas com as quais não queremos ter mais nada a ver, que nunca mais cingiremos ao corpo nem usaremos.

Assim, Cristo lava de seus pecados, em seu próprio sangue, aqueles que faz reis e sacerdotes para nosso Deus, Apocalipse 1:5, 6. Ou somos purificados da contaminação do pecado, ou seremos, como impuros, excluídos do sacerdócio, Esdras 2:62.

(2.) Ele recebe vestes novas: não apenas lhe é tirada a vergonha de sua imundície, mas também é coberta a vergonha de sua nudez. “Vestir-te-ei com outras vestes.” Josué não possuía linho limpo, mas Cristo o proverá, pois não permitirá que se perca um sacerdócio que ele mesmo instituiu.

Tampouco permitirá que esse sacerdócio seja desprezível diante dos homens ou inaceitável diante de Deus. As outras vestes aqui são roupas ricas e caras, como as que se usam em dias solenes. Josué parecerá tão agradável quanto antes parecera repugnante.

Aqueles que ministram nas coisas santas não apenas deixarão de fazer o mal, mas aprenderão a fazer o bem. Deus os tornará sábios, humildes, diligentes e fiéis, exemplos de tudo o que é bom; então Josué estará vestido com outras roupas.

Assim, aqueles a quem Cristo faz sacerdotes espirituais são vestidos com o manto sem mancha de sua justiça e nele aparecem diante de Deus, adornados também com as graças do seu Espírito.

A justiça dos santos, tanto a que lhes é imputada quanto a que neles é implantada, é o linho fino, limpo e branco, com que se veste a noiva, esposa do Cordeiro, Apocalipse 19:8.

III. Josué corre o risco de ser afastado do ofício; em vez disso, porém, é reintegrado e confirmado nele. Não apenas tem os pecados perdoados e recebe graça suficiente para si, mas, como rectus in curia — absolvido em juízo, é restituído às suas antigas honras e responsabilidades.

  1. A coroa do sacerdócio é posta sobre ele, v. 5. Isso foi feito a pedido especial do profeta: “Eu disse: Ponham-lhe uma bela mitra na cabeça, como sinal de seu ofício. Agora que está limpo, que também pareça honrado; que seja vestido com todas as roupas do sumo sacerdote.”

Repare: quando Deus se propõe a restaurar ou reavivar a religião, desperta seus profetas e seu povo para orar por isso e o realiza em resposta às orações deles.

Zacarias orou para que os anjos recebessem a ordem de colocar a mitra na cabeça de Josué. Eles o fizeram imediatamente e o vestiram com as roupas sacerdotais, pois ninguém tomava para si essa honra: só a recebia quem era chamado por Deus.

O anjo do Senhor estava presente, supervisionando a obra realizada pelos anjos criados. Estava ali porque se agradava dela, decidido a sustentar as ordens que dera para sua execução e a manter sua presença junto àquele sacerdócio.

  1. A aliança do sacerdócio é renovada com ele; chama-se a aliança de paz de Deus, Números 25:12. O sr. Pemble a chama de documento de nomeação para o ofício, que aqui lhe é declarado e entregue diante de testemunhas, v. 6, 7.

O anjo do Senhor, depois de cuidar para que Josué estivesse apto ao ofício (e Deus sempre encontra apto ou torna apto aquele a quem chama para algum ofício), investe-o nele.

Embora não seja feito sacerdote mediante juramento (essa honra está reservada àquele que é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, Hebreus 7:21), Josué, por ser figura dele, é empossado mediante solene declaração das condições sob as quais exerceria o ofício.

O anjo do Senhor declarou solenemente a Josué que, se ele cumprisse fielmente os deveres de sua posição, desfrutaria da dignidade e da recompensa dela. Vejamos agora: (1.) Quais são as condições sob as quais ele assume o ofício.

Saiba que sua permanência depende de boa conduta: deve andar nos caminhos de Deus, isto é, levar uma vida boa e ser santo em toda a sua conduta. Deve ir à frente do povo pelos caminhos dos mandamentos de Deus e andar com prudência.

Deve também guardar o encargo que Deus lhe confiou, cumprir cuidadosamente todos os serviços do sacerdócio e cuidar para que os sacerdotes inferiores cumpram os deveres de sua posição com decoro e ordem.

Deve cuidar de si mesmo e de todo o rebanho, Atos 20:28. Repare: bons ministros devem ser bons cristãos; contudo, isso não basta. Foi-lhes confiada uma responsabilidade, da qual foram encarregados, e devem guardá-la com todo o cuidado possível para que prestem contas dela com alegria, 1 Timóteo 6:14.

(2.) Quais são os privilégios que podemos esperar e dos quais podemos estar certos quando ele cumpre devidamente seu ofício. Seu documento diz: Quamdiu se bene gesserit — enquanto mantiver boa conduta. Se ele cumprir sua parte, Deus o reconhecerá.

[1.] “Julgarás a minha casa; presidirás aos assuntos do templo, e os sacerdotes inferiores estarão sob tua direção.” Repare: o poder da igreja e de seus governantes não é legislativo, mas apenas judicial.

O sumo sacerdote não podia fazer novas leis para a casa de Deus nem ordenar outros ritos de culto além dos que Deus ordenara. Devia, porém, julgar a casa de Deus: zelar pela observância rigorosa das leis e ordenanças divinas, proteger e animar aqueles que as observassem, investigar suas violações e puni-las.

[2.] “Também guardarás os meus átrios; supervisionarás o que se faz em todos os átrios do templo e os manterás puros e em boa ordem para o culto que neles se realizará.”

Repare: os ministros são administradores de Deus e devem guardar seus átrios para honrar aquele que é o Senhor supremo e preservar a justiça e a boa ordem entre seus arrendatários.

[3.] “Dar-te-ei lugares por onde andar entre os que aqui estão”, entre estes anjos que inspecionam e auxiliam nesta investidura. Eles estarão junto de Josué enquanto ele trabalhar para Deus e lhe servirão de guarda; ou Josué será grandemente honrado e respeitado como um anjo de Deus, Gálatas 4:14.

Os ministros são chamados de anjos, Apocalipse 1:20. Pode-se dizer que aqueles que andam nos caminhos de Deus andam entre os próprios anjos, pois fazem a vontade de Deus como a fazem os anjos no céu e são seus conservos, Apocalipse 19:10.

Alguns entendem isso como uma promessa de vida eterna e recompensa por sua fidelidade na vida futura. O céu não é apenas um palácio, lugar de repouso, mas um paraíso, um jardim, lugar onde passear; ali há caminhos entre os anjos, em convívio com aquela companhia santa e gloriosa. Veja Ezequiel 28:14.

Versículos 8 a 10

A Vinda de Cristo Predita; Predição Referente a Cristo. (a.C. 520.)

Assim como as promessas feitas a Davi muitas vezes passam quase imperceptivelmente a promessas referentes ao Messias, de cujo reino o de Davi era figura, também as promessas feitas aqui a Josué logo se elevam e se estendem até Cristo, de cujo sacerdócio o de Josué era agora uma sombra.

Isso se dava não apenas em geral, por manter a linhagem do sacerdócio de Arão, mas especialmente porque reavivava aquela feliz forma de comunicação entre o céu e a terra, que a iniquidade e o cativeiro de Israel haviam interrompido gravemente.

Cristo é sumo sacerdote, como Josué, em favor de pecadores e aflitos, para mediar por aqueles que estiveram sob culpa e cólera. Convinha que Josué compreendesse o sacerdócio de Cristo, pois toda a eficácia de seu próprio sacerdócio, seu valor e sua utilidade para a igreja, dependiam do sacerdócio de Cristo e dele procediam. Veja:

I. A quem esta promessa acerca de Cristo é dirigida, v. 8: “Ouve agora, ó Josué! Ouviste com prazer o que diz respeito a ti mesmo; mas eis que está próximo alguém maior que Josué.”

“Ouve agora a respeito dele, tu e os demais sacerdotes, teus companheiros, que se sentam diante de ti, a teus pés, como aprendizes, mas que deves considerar teus companheiros, pois todos vós sois irmãos.”

“Que o sumo sacerdote e todos os sacerdotes inferiores prestem atenção a isso, pois são homens que causam espanto.” Eles foram postos como sinais, como tipos e figuras do sacerdócio de Cristo.

O que Deus então fez por Josué e seus companheiros era um feliz prenúncio da vinda do Messias prometido; assim o entenderiam, com agradável admiração, todos os que compreendessem aqueles tempos.

Ou eles são homens que causam espanto por sua singularidade, vaiados como gente estranha porque não correm com outros para o mesmo excesso de devassidão (1 Pedro 4:4); ou por suas aflições incomuns e seu surpreendente livramento delas, como em Salmos 71:7: “Sou como um prodígio para muitos”.

São homens extraordinários: surpreendem a si mesmos, maravilhados ao pensar em como sua condição mudou para melhor. O povo e os ministros de Deus causam espanto por muitas razões.

O sumo sacerdote e seus companheiros aqui, assim como o profeta e seus filhos em Isaías 8:18, são sinais e prodígios. Mas o espanto dos homens diante deles cessará quando vier o Messias, assim como as estrelas são ofuscadas pela luz do sol, pois seu nome será chamado Maravilhoso.

II. A promessa em si compõe-se de várias partes, todas destinadas a consolar e animar Josué e seus amigos na grande e boa obra da construção do templo, em que agora se empenhavam.

Olhar para Cristo e confiar pela fé nas promessas referentes a ele e a seu reino os levaria a superar as dificuldades que encontrassem nessa obra e nos demais serviços. 1. O Messias virá: “Eis que farei vir o meu servo, o Renovo”.

Ele esteve escondido por muito tempo, mas aproxima-se a plenitude dos tempos, quando será trazido ao mundo, trazido para o meio de seu povo Israel. O próprio Deus se encarrega de fazê-lo vir; portanto, sem dúvida, o reconhecerá e o sustentará.

Ele é o servo de Deus, empregado em sua obra, obediente à sua vontade e inteiramente dedicado à sua honra e glória. É o Renovo; assim foi chamado em Isaías 4:2: “O Renovo do Senhor”; em Isaías 11:1: “Um renovo das raízes de Jessé”; em Jeremias 23:5: “Um Renovo justo”; e em Jeremias 33:15: “O Renovo da justiça”.

Seu começo foi pequeno, como o de um renovo tenro, mas com o tempo se tornaria uma grande árvore e encheria a terra, Isaías 53:2. Ele é o Renovo do qual devemos colher todo o nosso fruto.

  1. Muitos olhos estarão sobre ele. Ele é a pedra posta diante de Josué, numa alusão à pedra fundamental ou principal pedra angular do templo, que provavelmente foi assentada com grande solenidade na presença de Josué.

Cristo não é apenas o Renovo, início de uma árvore, mas também o fundamento, início de um edifício; quando ele for trazido à luz, “sete olhos estarão sobre ele”.

O olhar de seu Pai estava sobre ele para cuidar dele e protegê-lo, sobretudo em seus sofrimentos. Quando foi sepultado, como as pedras do fundamento sob a terra, os olhos do Céu continuavam sobre ele: oculto aos olhos dos homens, mas não aos de Deus.

Os olhos de todos os profetas e santos do Antigo Testamento estavam sobre essa única pedra. Abraão alegrou-se por ver o dia de Cristo: viu-o e se alegrou. Os olhos de todos os crentes estão sobre ele: olham para ele e são salvos, como os israelitas picados olhavam para a serpente de bronze.

Alguns entendem que essa única pedra possuía sete olhos, como as rodas da visão de Ezequiel, e julgam que isso indica a perfeição da sabedoria e do conhecimento de que Jesus Cristo foi dotado para o bem de sua igreja. Seus olhos percorrem toda a terra.

  1. O próprio Deus o embelezará e lhe conferirá honra: “Gravarei a sua gravura, diz o Senhor dos Exércitos”. Os construtores rejeitaram essa pedra por ser bruta e desagradável à vista; Deus, porém, se encarrega de alisá-la e poli-la.

Mais que isso, ele a lavrará para que se torne a pedra principal da esquina, a mais bela de toda a construção. Cristo era obra de Deus, e a concepção de nossa redenção revela muita sabedoria divina, que se manifestará quando a gravura estiver concluída.

Essa pedra é preciosa, embora assentada como fundamento. Sua gravura parece aludir às pedras preciosas do peitoral do sumo sacerdote, nas quais estavam gravados os nomes das tribos como a gravação de um selo, Êxodo 28:21, 22.

Naquele peitoral, havia doze pedras postas diante de Arão e, ao que parece, elas se perderam. Mas uma pedra que vale por todas será posta diante de Josué: o próprio Cristo.

Essa pedra preciosa brilhará como se tivesse sete olhos. Manifestar-se-á uma sabedoria e prudência perfeitas nos oráculos que procedem do peitoral do juízo.

Deus gravará sua gravura: confiará a Cristo todos os seus eleitos, e Cristo se apresentará como representante deles, agindo em favor deles, assim como fazia o sumo sacerdote ao entrar diante do Senhor com os nomes de todo o Israel gravados nas pedras preciosas de seu peitoral.

Quando Deus deu a Cristo um remanescente para ser conduzido pela graça à glória, gravou então a gravura dessa pedra preciosa.

  1. Por meio dele, o pecado será removido, tanto sua culpa quanto seu domínio: “Removerei a iniquidade daquela terra num só dia”. Quando o sumo sacerdote trazia os nomes de Israel gravados nas pedras preciosas que o adornavam, dizia-se que levava a iniquidade das coisas santas (Êxodo 28:38).

A lei, porém, não tornou coisa alguma perfeita, Hebreus 10:1. O sumo sacerdote levava a iniquidade da terra como figura de Cristo, mas não podia removê-la. Essa obra estava reservada a Cristo, o bendito Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Ele o fez em um só dia, aquele em que sofreu e morreu. O sacrifício oferecido nesse dia realizou o que não puderam realizar os sacrifícios de todas as eras anteriores, nem mesmo todos os dias de expiação celebrados anualmente desde Moisés até Cristo.

Isso concorda com a predição do anjo (Daniel 9:24): “Ele dará fim à transgressão e acabará com o pecado”. Alguns entendem que as gravuras feitas por Deus em Cristo representam as feridas e os açoites infligidos a seu corpo bendito, que ele suportou por nossa transgressão e nossa iniquidade e pelos quais somos curados.

  1. O resultado de tudo isso será o doce contentamento que todos os crentes terão em si mesmos e a doce comunhão que terão uns com os outros, v. 10: “Naquele dia, cada um chamará o seu próximo para debaixo da videira e da figueira”. Elas dão frutos muito agradáveis, e suas folhas oferecem sombra refrescante para caramanchões.

Quando a iniquidade é removida, (1.) colhemos benefícios e privilégios preciosos de nossa justificação, mais preciosos que os produtos da videira ou da figueira, Romanos 5:1.

(2.) Descansamos em doce tranquilidade, livres do medo do mal. Que poderia nos aterrorizar quando a iniquidade é removida, quando nada nos pode ferir? Sentamo-nos com prazer à sombra de Cristo, que nos abriga do calor abrasador da maldição da lei.

Vivemos como Israel no reinado pacífico de Salomão (1 Reis 4:24, 25), pois Cristo é o príncipe da paz.

(3.) Devemos convidar outros a desfrutar esses privilégios conosco: cada um deve chamar seu próximo para vir sentar-se com ele sob a videira e a figueira, a fim de terem comunhão e compartilharem os frutos que o cercam.

Na medida em que chega com poder, a graça do evangelho torna as pessoas amistosas com seus próximos. Aqueles que desfrutam o consolo de conhecer Cristo e da comunhão com Deus por meio dele estarão prontos a atrair outros para essa comunhão. “Vamos à casa do Senhor.”


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra