Zacarias 12
Argumento
O apóstolo (Gálatas 4:25, 26) distingue entre “a Jerusalém que agora existe e está em servidão com seus filhos”, a carcaça remanescente da igreja judaica que rejeitou Cristo, e a Jerusalém do alto, livre e mãe de todos nós: a igreja cristã, a Jerusalém espiritual, que Deus escolheu para ali estabelecer seu nome.
No capítulo anterior, lemos a condenação da primeira e deixamos aquela carcaça como presa das águias que se reuniriam em torno dela. Agora, neste capítulo, temos as bênçãos da segunda, muitas promessas preciosas feitas à Jerusalém do evangelho por aquele que declara seu poder de cumpri-las (v. 1).
Promete-se: I. Que as investidas dos inimigos da igreja contra ela resultarão na ruína deles próprios; descobrirão que a prejudicam por sua conta e risco (vv. 2-4, 6).
II. Que os esforços dos amigos e protetores da igreja em favor dela serão piedosos, ordenados e bem-sucedidos (v. 5).
III. Que Deus protegerá e fortalecerá os mais humildes e fracos dentre os que pertencem à sua igreja e realizará salvação em favor deles (v. 7, 8).
IV. Que, como preparação e garantia de toda essa misericórdia, derramará sobre eles um espírito de oração e arrependimento, cujo efeito será universal e, ao mesmo tempo, muito particular (vv. 9-14).
Essas promessas foram úteis então aos judeus piedosos que viveram nos tempos difíceis sob Antíoco e outros perseguidores e opressores; continuam a ser aproveitadas em todas as épocas para orientar nossas orações e animar nossas esperanças em relação à igreja do evangelho.
A Segurança da Igreja; O Castigo dos Inimigos da Igreja; Promessas a Judá. (a.C. 500.)
Versículos 1 a 8
Aqui está: I. O título desta carta de promessas feita ao Israel de Deus. É o peso da palavra do Senhor, uma predição divina. Tem peso ao ser anunciada, deve ser inculcada ao povo e será muito incisiva ao cumprir-se; é um peso, um fardo pesado para todos os inimigos da igreja, como aquele talento de chumbo (Zacarias 5:7, 8).
Mas é para Israel, para seu consolo e benefício. Assim como a “lei de fogo” (Deuteronômio 33:2), também as profecias de fogo e as providências de fogo que vêm da mão direita de Deus vêm em favor deles.
A palavra que anuncia terror aos inimigos anuncia paz a Israel, como a coluna de nuvem e fogo, que voltava seu lado luminoso para os israelitas, a fim de guiá-los e animá-los, e seu lado escuro para os egípcios, a fim de aterrorizá-los e desalentá-los.
Felizes os que têm em seu favor até mesmo os pesos da palavra de Deus, assim como suas bênçãos.
II. O título daquele que concede essa carta. Ele vem antes dela para mostrar que Deus tem tanto autoridade para fazer essas promessas quanto capacidade para cumpri-las: é o Criador do mundo e nosso Criador, e por isso possui um domínio incontestável e irresistível.
- Ele estende os céus. Não o fez apenas no princípio, quando disse: “Haja firmamento”, e o fez; continua a fazê-lo. Mantém os céus estendidos como uma cortina, impede que se fechem e continuará assim até o fim, quando serão enrolados como um pergaminho.
Não se pode impor limites ao poder daquele que estende os céus, nem há coisa árdua demais para ele.
- Ele lança os fundamentos da terra e a mantém firme e fixa em sua própria base, ou, melhor, em seu próprio eixo, embora ela esteja fundada sobre os mares (Salmos 24:1, 2); ou melhor, embora esteja suspensa sobre o nada (Jó 26:7).
Quem fundou a terra sem dúvida a governa e nela julga. Enganam-se os que dizem: “O Senhor abandonou a terra”, pois, se ele a tivesse abandonado, ela teria afundado: foi ele quem não apenas lançou seus fundamentos no princípio, mas ainda os mantém e sustenta.
- Ele forma o espírito do homem em seu interior. Foi ele quem fez nossas almas (Jeremias 38:16). Não soprou apenas no primeiro homem: ainda sopra em cada pessoa o fôlego da vida. O corpo procede dos pais de nossa carne, mas a alma é infundida pelo Pai dos espíritos (Hebreus 12:9).
Ele forma os corações humanos, que estão em suas mãos; dirige-os como cursos de água e os molda como lhe agrada, para que sirvam a seus próprios propósitos. Pode, portanto, salvar sua igreja ao dar ânimo a seus amigos e desalentar seus inimigos; salvará eternamente todos os seus escolhidos ao formar de novo o espírito deles.
III. As próprias promessas aqui feitas a eles, pelas quais a igreja será protegida e nas quais todos os seus amigos poderão desfrutar de santa segurança:
- Promete-se que quaisquer ataques dos inimigos contra a pureza ou a paz da igreja certamente resultarão na confusão deles próprios. Os inimigos de Deus e de seu reino nutrem muita malícia e hostilidade contra Jerusalém e formam desígnios para sua destruição; no fim, porém, se verá que apenas preparam sua própria ruína.
Jerusalém está segura; todo o perigo recai sobre os que lutam contra ela. Três comparações ilustram isso:
(1.) Jerusalém será “um cálice de tremor” para todos os que a cercarem (v. 2). Os inimigos prometem a si mesmos que ela será para eles um cálice de vinho, fácil e prazeroso de beber até o fim. Têm sede de seus despojos; ou melhor, de seu sangue, como de um cálice assim.
Ela, porém, será para eles um cálice de torpor, ou melhor, de veneno. Quando a tiverem nas mãos e julgarem que lhes pertence por inteiro, não conseguirão esvaziá-la: suas emanações já lhes bastarão.
Quando os reis se reuniram contra ela e viram que Deus era conhecido em seus palácios como refúgio, tremeram e fugiram às pressas; o medo se apoderou deles, como lemos em Salmos 48:3-6.
Assim Alexandre, o Grande, ficou atônito ao encontrar Jaddus, o sumo sacerdote, e por isso foi impedido de cometer qualquer violência contra Jerusalém. Quando Senaqueribe sitiou Judá e Jerusalém, encontrou neles um cálice de vinho entorpecente que fez adormecer todos os seus homens valentes (Salmos 76:5, 6).
Alguns leem: “Farei de Jerusalém um poste de contusão ou fratura”. Os que tentam atacá-la apenas batem a cabeça num poste que não conseguem mover e certamente se machucam.
“O sopro dos terríveis é como tempestade contra a parede” (Isaías 25:4): a parede o quebra, mas não é abalada por ele. A igreja de Deus é cálice de consolação para todos os seus amigos (Isaías 66:11), mas cálice de tremor para todos os que querem corrompê-la com erros e corrupções ou destruí-la com guerras e perseguições (veja Isaías 51:22, 23).
(2.) Jerusalém será “uma pedra pesada” para todos os que tentarem removê-la ou carregá-la (v. 3). Supõe-se aqui que todos os povos da terra se reúnam contra ela, uns numa época, outros em outra. De geração em geração, sucederam-se inimigos fazendo guerra à igreja.
Mas, mesmo que todos se aliassem contra ela de uma só vez e decidissem apagar o nome de Israel para que não fosse mais lembrado (Salmos 83:4), descobririam que essa tarefa é árdua demais.
Os que desejam manter e promover o reino do pecado no mundo veem Jerusalém, a própria igreja de Deus, como o grande obstáculo a seus desígnios e precisam tirá-la do caminho. Descobrirão, porém, que ela é mais pesada do que imaginam, de modo que:
[1.] Não podem removê-la. Deus manterá uma igreja no mundo apesar deles. Ela está construída sobre uma rocha e é como o monte Sião, que permanece para sempre (Salmos 125:1).
Essa pedra, cortada do monte sem auxílio de mãos, não apenas conservará seu lugar, mas encherá a terra (Daniel 2:35). Ou melhor:
[2.] Quebrará em pedaços todos os que se sobrecarregarem tentando erguê-la, assim como a pedra atingiu a estátua (Daniel 2:45). Todos os que se julgam capazes de enfrentá-la serão despedaçados por ela.
Alguns pensam que se trata de uma alusão a uma brincadeira que, segundo Jerônimo ao comentar esta passagem, era praticada entre os judeus, assim como entre nós. Os jovens punham sua força à prova e disputavam a vitória levantando grandes pedras; se fossem pesadas demais, caíam sobre eles e os machucavam.
Os que fazem da religião motivo de riso e zombam das coisas sagradas descobrirão que elas são uma pedra pesada: não se brinca impunemente com ferramentas de gume. Embora façam pouco caso delas, dizendo “Não estou brincando?”, atraem sobre si uma carga de culpa insuportável que os fará afundar.
Nosso Salvador parece aludir a essas palavras quando fala de si como pedra pesada para os que não o querem como pedra fundamental: ela cairá sobre eles e os reduzirá a pó (Mateus 21:44).
(3.) Os governadores de Judá serão, entre seus inimigos, “como um braseiro de fogo entre a lenha e como uma tocha de fogo num feixe” (v. 6). Isso não quer dizer que suas próprias paixões os tornem incendiários e tochas ardentes contra todos à sua volta.
Não: o Rei de Sião é manso e humilde, e todos os governantes subordinados devem ser como ele. A justiça de Deus, porém, fará deles vingadores da causa de Deus e da causa deles contra seus inimigos.
Os que contenderem com eles descobrirão que isso se parece com a oposição de espinheiros e abrolhos a um fogo consumidor (Isaías 27:4). O fogo passará por entre eles e os queimará juntos. É a cólera de Deus, não a deles, que constitui o fogo que devora os adversários.
Diz-se que o fogo de Deus está em Sião e sua fornalha, em Jerusalém (Isaías 31:9). Os inimigos pensavam ser água para esse fogo, capaz de apagá-lo por completo. Deus, porém, fará deles lenha ou, melhor ainda, um feixe de cereal, mais inflamável, para esse fogo: não apenas serão consumidos, mas farão que ele arda com mais força.
Quando Deus quis que Abimeleque e os homens de Siquém destruíssem uns aos outros, disse-se que um fogo saiu de um para devorar o outro (Juízes 9:20). Assim também aqui: Sairá fogo dos governadores de Judá para devorar todos os povos ao redor, como sai da boca das testemunhas de Deus para consumir quem tenta feri-las (Apocalipse 11:5).
Os perseguidores da igreja primitiva viram isso cumprir-se, como testemunham a história de Lactâncio sobre os juízos de Deus contra eles e, por fim, a confissão de Juliano, o Apóstata: “Tu me venceste, ó Galileu!”
O lema da igreja pode ser Nemo me impune lacesset — Quem me ataca o faz por sua conta e risco. “Se você está cansado de viver, persiga os cristãos” já foi um provérbio.
- Promete-se que Deus confundirá os conselhos e enfraquecerá a coragem dos inimigos da igreja (v. 4): “Naquele dia, quando os povos da terra se reunirem contra Jerusalém, ferirei todo cavalo de espanto e seu cavaleiro de loucura”. E outra vez: “Ferirei de cegueira todo cavalo dos povos”, de modo que não lhes sirva para nada; cegar os cavalos será tão ruim quanto cortar-lhes os jarretes.
Tanto os cavalos quanto os cavaleiros esquecerão o treinamento militar que receberam. Em vez de manter as fileiras e obedecer às regras de sua disciplina, enlouquecerão e causarão sua própria ruína.
A infantaria da igreja será forte demais para a cavalaria inimiga. Os que foram repreendidos por confiar em cavalos serão frustrados por aqueles a quem se proibiu multiplicá-los.
- Promete-se que Jerusalém voltará a ser povoada e ficará repleta de habitantes (v. 6): “Jerusalém será habitada outra vez em seu próprio lugar, em Jerusalém”.
Seus habitantes não formarão uma colônia em outra terra, nem construirão ali uma cidade, nem a chamarão de Jerusalém, nem verão nela o cumprimento das promessas, como os colonos da Nova Inglaterra deram a suas cidades nomes de cidades da Velha Inglaterra.
Não: terão uma nova Jerusalém sobre o mesmo fundamento e no mesmo lugar da antiga. Assim aconteceu após a volta do cativeiro; mas a promessa se cumpriria plenamente na igreja do evangelho, uma Jerusalém habitada em seu próprio lugar, pois, como o evangelho será pregado em todo o mundo, ela pode chamar de seu qualquer lugar.
- Promete-se que os habitantes de Jerusalém poderão defender-se e, ainda assim, ficarão sob a proteção divina (v. 8). Veja como Deus protege sua igreja e os que lhe pertencem das portas do inferno até as portas do céu e através delas:
(1.) Ele próprio os protege: “Naquele dia o Senhor defenderá os habitantes de Jerusalém”. Guardará não só a cidade contra a conquista e a destruição, mas cada um de seus habitantes de qualquer dano.
Deus não será apenas uma muralha de fogo em torno da cidade para fortificá-la: cercará cada pessoa com seu favor como com um escudo, para que nenhuma flecha dos sitiantes a atinja.
(2.) Ele faz isso ao dar-lhes força e coragem para ajudarem a si mesmos. O que Deus realiza em seu povo por sua graça contribui mais para sua preservação e defesa do que aquilo que realiza em favor deles mediante sua providência.
O Deus de Israel dá força e poder a seu povo para que façam sua parte; então ele não deixará de fazer a dele. Deus mostra sua glória ao fortalecer os fracos, que mais precisam de sua ajuda, veem e reconhecem essa necessidade e serão os mais agradecidos por ela.
[1.] Naquele dia, o mais fraco dos habitantes de Jerusalém será como Davi. Serão homens de guerra, tão ousados e corajosos, tão hábeis e fortes quanto o próprio Davi; tentarão e realizarão grandes coisas como ele.
Serão tão úteis a Jerusalém para guardá-la quanto o próprio Davi foi para fundá-la e tão temíveis para seus inimigos quanto ele. Veja o que a graça divina faz: transforma crianças não apenas em homens, mas em campeões, e santos fracos não apenas em bons soldados, mas em grandes soldados, como Davi.
Veja também como Deus muitas vezes realiza sua própria obra com a mesma facilidade e eficácia, e para maior glória sua, por meio de instrumentos fracos e obscuros do que pelos mais ilustres.
[2.] A casa de Davi será “como Deus”, isto é, “como o anjo do Senhor”, diante deles. Zorobabel era então o ramo principal da casa de Davi; receberá sabedoria e graça para o serviço a que foi chamado e irá adiante do povo como um anjo.
Segundo alguns, será como aquele anjo que ia diante de Israel pelo deserto, o próprio Deus (Êxodo 23:20). Deus aumentará os dons e as capacidades tanto do povo quanto dos príncipes na medida dos serviços a que cada grupo foi destinado.
Dizia-se de Davi que ele era como um anjo de Deus para discernir o bem e o mal (2 Samuel 14:17). Assim será agora a casa de Davi. Os habitantes de Jerusalém serão tão fortes e aptos para agir quanto Davi era por natureza; seus magistrados, tão sábios e aptos para aconselhar quanto ele se tornou pela graça.
Essa promessa, porém, se cumpriria plenamente em Cristo. A casa de Davi então parecia pequena e humilde, e sua glória estava eclipsada; em Cristo, resplandeceu mais intensamente que nunca, e sua aparência foi como a de um anjo. Nele, tornou-se mais abençoada e uma bênção maior do que jamais havia sido.
- Promete-se que haverá ótima compreensão entre a cidade e o campo e que o equilíbrio entre ambos será mantido. Não haverá inveja nem ciúme mútuos; não sustentarão interesses separados, mas se unirão de coração em seus conselhos e agirão de comum acordo para o bem comum.
Essa feliz harmonia entre cidade e campo, cabeça e corpo, é muito necessária à saúde, ao bem-estar e à segurança de qualquer nação.
(1.) Os governadores de Judá, magistrados e pessoas influentes do campo, terão boa opinião dos cidadãos de Jerusalém, comerciantes e artesãos. Não os depreciarão nem maquinarão maneiras de mantê-los subjugados.
Dirão em seu coração, não por formalidade, mas com sinceridade: “Os habitantes de Jerusalém serão minha força”, a força de minha terra e de minha família, “no Senhor dos Exércitos, seu Deus” (v. 5).
Por isso, em todas as ocasiões tratarão Jerusalém com respeito e deferência como cidade-mãe, cidade que governa e que deve ser servida primeiro. Veem nela o baluarte da nação e sua fortificação mais forte nos tempos de perigo e aflição pública; todos viriam ajudá-la e buscar sua proteção.
Isso não se deve tanto à riqueza da cidade, pois o dinheiro é o nervo da guerra; nem à sua população numerosa, capaz de pôr mais homens em campo; nem ao fato de que seus habitantes sejam em geral os mais engenhosos e ativos, os melhores soldados e comandantes, pois de Sião se dirá que este e aquele homem valente nasceram ali.
Deve-se sobretudo ao fato de ela ser cidade santa: nela estão a casa e a família de Deus, o templo e os sacerdotes; ali se preserva o culto divino e se celebram suas festas. Ela também será, mais do que nunca, uma cidade de oração, pois Deus derramará sobre seus habitantes um espírito de súplica (v. 10).
Por isso os governadores de Judá dirão: “Estes são minha força”. São-no em razão de sua relação com o Senhor dos Exércitos, seu Deus, da parte que têm nele e da comunhão com ele. O Senhor dos Exércitos é seu Deus de modo especial, pois em Salém está seu tabernáculo e em Sião sua morada; por isso, serão minha força.
Repare: vai bem um reino quando seus grandes homens sabem valorizar os homens bons; quando os governantes veem na religião e nos religiosos sua força, julgam ser de seu interesse sustentá-los e aprendem a chamar o povo piedoso que ora, e os ministros hábeis e fiéis, de carros e cavaleiros de Israel, como Joás chamou Eliseu. Não os chamarão de perturbadores da terra, como Acabe chamou Elias.
(2.) A corte e a cidade não desprezarão os habitantes do campo nem olharão com desdém para eles, nem mesmo para os mais humildes, muito menos para os governadores de Judá. Deus dará honra notável a Judá e assim os livrará do desprezo de seus irmãos.
Assim como Jerusalém foi honrada por ordenanças especiais, Judá será honrado por providências especiais. Deus diz: “Abrirei meus olhos sobre a casa de Judá” (v. 4), sobre o povo pobre do campo. Homens orgulhosos não lhes dão atenção, por desprezo; o grande Deus, porém, olhará bondosamente para eles e cuidará deles.
Ou melhor: “O Senhor salvará primeiro as tendas de Judá” (v. 7). Os que moram em tendas ficam mais expostos; Deus, contudo, os protegerá e livrará de modo notável antes dos habitantes de Jerusalém. Ele manifestará sua glória no que fizer pelos moradores de suas aldeias em Israel (Juízes 5:11).
Assim, no corpo místico, Deus concede honra mais abundante à parte que dela carecia, para que não haja divisão no corpo (veja 1 Coríntios 12:22-25). Esse é o motivo aqui apresentado para que a glória da casa de Davi, que tem grande poder, e a glória dos habitantes de Jerusalém, que têm grandes riquezas, não se exaltem contra Judá e suas tendas.
Ambos vivem em grande pompa e prazer, enquanto os moradores das tendas de Judá trabalham arduamente, vivem com dificuldades e talvez não tenham sido tão bem educados. Repare: cortesãos e cidadãos não devem desprezar o povo do campo nem olhar com desdém para aqueles sobre quem Deus abre os olhos e a quem salva primeiro.
Afinal, é difícil para os ricos e poderosos entrar no reino de Deus. Se Deus, por sua graça, honrou os moradores das tendas de Judá ao escolher as coisas fracas e loucas do mundo e empregá-las, nós o afrontamos quando os desprezamos ou nos exaltamos contra eles (Tiago 2:5, 6).
Essa promessa também aponta para a igreja do evangelho, na qual não haverá distinção entre grandes e humildes, ricos e pobres, escravos e livres, circuncisos e incircuncisos; todos serão igualmente bem-vindos a Cristo e participarão de seus benefícios (Colossenses 3:11). Então Jerusalém não será considerada mais santa do que as outras partes da terra de Israel, como antes era.
Versículos 9 a 14
Promessas a Judá; Predições Evangélicas. (a.C. 500.)
O dia de que se fala aqui é o dia da defesa e libertação de Jerusalém, o dia glorioso em que Deus aparecerá para salvar seu povo. Ainda que se refira às vitórias dos judeus sobre seus inimigos no tempo dos Macabeus, certamente aponta além delas, para o dia do evangelho, para as vitórias de Cristo sobre as forças das trevas e para a grande salvação que realizou em favor de seus escolhidos.
Temos aqui o relato de duas obras notáveis cujo desígnio é realizá-las naquele dia.
I. Uma obra gloriosa de Deus que será realizada em favor de seu povo: “Procurarei destruir todas as nações que vierem contra Jerusalém” (v. 9). Muitas nações vêm contra Jerusalém, e são poderosas; todas, porém, serão destruídas. Seu poder será quebrado, suas investidas frustradas, e o dano que pretendem causar recairá sobre a cabeça delas.
Deus procurará destruí-las, não por lhe faltarem meios de fazê-lo — a Sabedoria Infinita jamais ficou sem saída —, mas porque esse procurar mostra que ele se empenha com grande zelo e atenção. Tem grande zelo por Sião e traz no coração o dia da vingança.
Também mostra que ele se sobrepõe aos meios e instrumentos e a todos os movimentos e operações das causas secundárias para esse fim. Está preparando o mal contra essas nações; quando parece elevá-las, procura destruí-las.
Na primeira vinda de Cristo, Deus procurou destruir aquele que tinha o poder da morte e de fato o destruiu. Esmagou a cabeça da serpente e quebrou todas as forças das trevas que lutavam contra o reino de Deus entre os homens e contra os amigos e súditos fiéis desse reino; despojou-as e as expôs publicamente.
Na segunda vinda de Cristo, completará sua destruição, quando derrubar todo domínio, principado e poder que se lhe opõe, e a própria morte será tragada pela vitória. A morte será o último inimigo destruído entre todos os que lutaram contra Jerusalém.
II. Uma obra graciosa de Deus que será realizada em seu povo como preparação para a obra que fará em favor deles. Ao procurar destruir seus inimigos, derramará sobre o povo o Espírito de graça e súplicas.
Repare: quando Deus pretende conceder grande misericórdia a seu povo, a primeira coisa que faz é levá-lo a orar. Assim procura destruir seus inimigos, despertando o povo para que lhe peça que o faça em seu favor.
Embora Deus tenha proposto e prometido fazê-lo, e isso seja para sua própria glória, ainda assim exigirá que a casa de Israel o consulte a respeito (Ezequiel 36:37). “Pedi, e vos será dado.” Reservará essa honra para si e também honrará a oração e os que oram.
Quando seu povo é despertado para clamar com vigor por libertação, isso é um feliz presságio para a igreja aflita de que a libertação se aproxima; é, por assim dizer, o alvorecer daquele dia.
Essa promessa, porém, se refere também às graças do Espírito dadas a todos os fiéis e nelas se cumpre, como em Isaías 44:3: “Derramarei meu Espírito sobre tua descendência”. Isso se cumpriu quando Jesus foi glorificado (João 7:39).
É uma promessa do Espírito e, com ele, de todas as bênçãos espirituais nas coisas celestiais por meio de Cristo. Observe aqui:
- Sobre quem essas bênçãos são derramadas:
(1.) Sobre a casa de Davi, os grandes homens; pois não são mais nem melhores do que a graça de Deus os torna. Prometeu-se que a casa de Davi seria como o anjo do Senhor (v. 8). Para isso, o Espírito de graça é derramado sobre eles: quanto mais os santos têm desse Espírito, mais se parecem com os santos anjos.
Quando Deus estava prestes a manifestar-se em favor da terra, derramou seu Espírito de graça sobre a casa de Davi, os principais homens da nação. É bom sinal para um povo quando príncipes e grandes homens vão à frente dos demais no bem, como em 2 Crônicas 20:5.
Toda a casa de Davi se resume em Jesus Cristo, o Filho de Davi. Sobre ele, como cabeça, o Espírito de graça é derramado, para espalhar-se dele a todos os seus membros; de sua plenitude recebemos, e graça por graça.
(2.) Sobre os habitantes de Jerusalém, as pessoas comuns; as ações do Espírito sobre os cristãos humildes e fracos são as mesmas que sobre os fortes e mais maduros. Os habitantes de Jerusalém não podem influenciar os assuntos públicos por seu poder e sua sagacidade como os grandes homens da casa de Davi.
Ainda assim, podem prestar bom serviço por meio de suas orações, e por isso o Espírito será derramado sobre eles. A igreja é Jerusalém, a Jerusalém celestial; todos os verdadeiros fiéis cuja conduta pertence ao céu são habitantes dessa Jerusalém, e a eles se destina essa promessa.
Deus derramará seu Espírito sobre eles. Esse é o penhor que todos os que creem em Cristo receberão; assim são santificados e selados.
- Que bênçãos são essas: Derramarei sobre eles o Espírito. Isso inclui todas as coisas boas, pois nos torna aptos para o favor de Deus e todos os seus outros dons. Ele derramará o Espírito:
(1.) Como Espírito de graça, para santificar-nos e fazer-nos cheios de graça.
(2.) Como Espírito de súplicas, que nos inclina, instrui e ajuda no dever da oração. Repare: onde o Espírito é dado como Espírito de graça, também é dado como Espírito de santificação. Onde é Espírito de adoção, ensina a clamar: “Aba, Pai!”
Logo que Paulo se converteu, disse-se: “Eis que ele ora” (Atos 9:11). Seria tão fácil encontrar um homem vivo sem respirar quanto um santo vivo sem orar. Hoje, sob o evangelho, há um derramamento mais abundante do Espírito de oração do que havia sob a lei.
Quanto mais avança em nós a obra da santificação, melhor se desenvolve por nós a obra da súplica.
- Qual será o efeito dessas bênçãos: Derramarei sobre eles o Espírito de graça. Poderíamos pensar que se seguiria: “E olharão para aquele em quem creram e se alegrarão”. É verdade que essa alegria é um dos frutos do derramamento do Espírito, razão pela qual lemos sobre a alegria do Espírito Santo.
Segue-se, porém: “Prantearão”. Há um pranto santo, fruto do derramamento do Espírito, um pranto pelo pecado que ajuda a avivar a fé em Cristo e nos prepara para a alegria em Deus.
Aqui se promete que eles prantearão, pois existe um pranto que terminará em alegria e ao qual está ligada uma bênção. Esse pranto é fruto do Espírito de graça, evidência de uma obra da graça na alma e companheiro do Espírito de súplica, pois expressa afetos vivos em ação na oração.
Por isso orações e lágrimas aparecem muitas vezes juntas (2 Reis 20:5). Jacó, que lutou com Deus, chorou e fez súplicas. Aqui, porém, trata-se do pranto pelo pecado que resulta do derramamento do Espírito.
(1.) É um pranto fundamentado na contemplação de Cristo: “Olharão para mim, a quem traspassaram, e prantearão por ele”. Aqui está:
[1.] Prediz-se que Cristo seria traspassado. Essa passagem é citada como cumprida quando seu lado foi traspassado na cruz (veja João 19:37).
[2.] Fala-se dele como alguém a quem nós traspassamos. Isso se refere primeiramente aos judeus que o perseguiram até a morte; aqueles que o traspassaram são distintos das outras famílias da terra que se lamentarão por causa dele (Apocalipse 1:7).
Contudo, isso também é verdade a respeito de todos nós como pecadores. Traspassamos Cristo porque nossos pecados causaram sua morte: ele foi ferido por nossas transgressões, e elas são a dor de sua alma; ele é quebrantado pelo coração adúltero dos pecadores. Por isso se diz que eles o crucificam de novo e o expõem à vergonha pública.
[3.] Os que, na verdade, se arrependem do pecado olham para Cristo como aquele a quem traspassaram: foi traspassado por seus pecados e é traspassado por eles. Isso os leva a olhar para ele como pessoas que se importam profundamente com ele.
[4.] Eis o efeito de olharem para Cristo: eles pranteiam. Cumpriu-se de modo especial nos ouvintes a quem Pedro pregou Cristo crucificado. Quando ouviram, os que haviam participado de seu traspassamento sentiram o coração ferido e clamaram: “Que faremos?”
Cumpre-se em todos os que se entristecem pelo pecado de maneira piedosa: olham para Cristo e pranteiam por ele, não tanto por seus sofrimentos quanto por seus próprios pecados que os causaram.
Repare: as tristezas autênticas de uma alma arrependida brotam da visão de fé de um Salvador traspassado. Contemplar com fé a cruz de Cristo nos levará a prantear pelo pecado de maneira piedosa.
(2.) É um grande pranto:
[1.] É como o pranto de um pai ou de uma mãe pela morte de um filho amado. Prantearão pelo pecado como se pranteia por um filho único, em cujo túmulo estão enterradas as esperanças de sua família. Sentirão amargura interior como quem a sente por seu primogênito, como os egípcios quando se ouviu um clamor em toda a sua terra pela morte de seus primogênitos.
A dor dos filhos pela morte dos pais às vezes é fingida; muitas vezes é pequena, logo passa e é esquecida. A dor dos pais por um filho, por um filho homem, por um filho único, por um primogênito, porém, é natural, sincera, espontânea e sem afetação, íntima e duradoura.
Assim são as dores do verdadeiro arrependido, que brotam puramente do amor a Cristo acima de qualquer outro.
[2.] É como o pranto de um povo pela morte de um príncipe sábio e bom. Será como “o pranto de Hadade-Rimom no vale de Megido”, onde foi abatido o bom rei Josias, por quem houve lamento geral (v. 11).
Talvez o lamento tenha sido maior porque lhes disseram que seus pecados haviam levado Deus a privá-los de bênção tão grande. Por isso clamaram: “A coroa caiu de nossa cabeça. Ai de nós, pois pecamos!” (Lamentações 5:16). Cristo é nosso Rei; nossos pecados causaram sua morte e, por essa razão, devem causar nossa dor.
(3.) É um pranto geral e universal (v. 12): “A terra pranteará”. A própria terra se cobriu de luto quando Cristo morreu, pois houve trevas sobre toda ela e a terra tremeu. Essa, porém, é uma promessa de que, ao considerar a morte de Cristo, multidões serão efetivamente levadas a entristecer-se pelo pecado e a voltar-se para Deus.
Será um pranto da graça tão universal quanto houve quando “toda a casa de Israel lamentou após o Senhor” (1 Samuel 7:2). Alguns pensam que essa promessa ainda terá seu cumprimento pleno na conversão geral da nação judaica.
(4.) É também um pranto particular e privado. Não haverá somente o pranto da terra por seus representantes numa assembleia geral, como em Juízes 2:5, quando o lugar recebeu o nome de Boquim, isto é, Lugar dos que choram. Esse pranto se espalhará por todos os cantos da terra: Cada família à parte pranteará (v. 12), todas as famílias restantes (v. 14).
Todos participaram da culpa; por isso, todos participarão da dor. Repare: as famílias devem praticar os exercícios de devoção em particular, além de participar dos cultos em assembleias públicas. Os jejuns nacionais devem ser observados não apenas em nossas sinagogas, mas também em nossas casas.
No pranto aqui predito, as esposas pranteiam separadamente em seus aposentos, como Ester e suas servas. Alguns entendem que isso sugere a renúncia até mesmo a prazeres legítimos num tempo de humilhação geral (1 Coríntios 7:5).
Quatro famílias distintas são aqui citadas como exemplos para as demais nesse pranto:
[1.] Duas são famílias reais: a casa de Davi, em Salomão, e a casa de Natã, outro filho de Davi e irmão de Salomão, de quem Zorobabel descendia, como mostra a genealogia de Cristo (Lucas 3:27-31).
A casa de Davi, especialmente a de Natã, que agora é o ramo principal daquela casa, irá à frente nessa boa obra. Os maiores príncipes não devem julgar-se isentos da lei do arrependimento; antes, estão ainda mais obrigados a expressá-lo solenemente para despertar os outros.
Assim Ezequias se humilhou (2 Crônicas 32:26), bem como os príncipes e o rei (2 Crônicas 12:6) e o rei de Nínive (Jonas 3:6).
[2.] Duas são famílias sagradas (v. 13): a família da casa de Levi, a tribo de Deus, e especialmente nela a família de Simei, ramo da tribo de Levi (1 Crônicas 6:17). Provavelmente alguns de seus descendentes se destacavam então como pregadores do povo ou ministros do altar.
Assim como os príncipes devem prantear pelos pecados da magistratura, os sacerdotes devem prantear pela iniquidade das coisas sagradas. Em tempos de tribulação e humilhação gerais, cabe aos ministros do Senhor chorar “entre o pórtico e o altar” (Joel 2:17).
E não apenas ali, mas também em suas casas, separadamente. Afinal, em que famílias se esperaria encontrar a piedade, tanto sua forma quanto seu poder, senão nas famílias dos ministros?