Matthew Henry

Zacarias 11

Argumento

O profeta de Deus, que nos capítulos anteriores era um embaixador enviado para prometer paz, é aqui um arauto enviado para declarar guerra. A nação judaica recuperará a prosperidade, florescerá por algum tempo e se tornará importante.

Por fim, será muito feliz com a vinda do Messias longamente esperado, com a pregação do evangelho dele e com o levantamento de seu estandarte entre eles. Mas, quando por esses meios o remanescente eleito dentre eles for eficazmente chamado e unido a Cristo, o conjunto da nação, persistindo na incredulidade, será inteiramente abandonado e entregue à ruína por rejeitar Cristo.

É isso que se prediz neste capítulo: os judeus rejeitarão Cristo, pecado com que completarão a medida de suas iniquidades, e a cólera que, por causa desse pecado, cairá sobre eles até o extremo. Aqui está: I. Uma predição da própria destruição que virá sobre a nação judaica, vv. 1-3. II. Sua entrega às mãos do Messias.

  1. Ele recebe o encargo de cuidar desse rebanho, vv. 4-6. 2. Aceita o encargo e o governa, vv. 7-8. 3. Ao considerá-lo perverso, entrega-o à própria sorte (v. 9), quebra seu cajado de pastor (vv. 10-11), ressente-se das indignidades que lhe fizeram e do desprezo que lhe demonstraram (vv. 12-13) e então quebra seu outro cajado, v. 14.

  2. Ele os entrega nas mãos de pastores insensatos que, em vez de impedir sua ruína, a completarão; tanto os guias cegos quanto os seguidores cegos cairão juntos na vala, vv. 15-17. Isso é anunciado aos pobres do rebanho antes de acontecer, para que, quando acontecer, não se escandalizem.

Versículos 1 a 3

A Destruição do Estado Judaico. (a.C. 510.)

Em expressões obscuras e figuradas, como é comum nas predições bíblicas de acontecimentos muito distantes, anuncia-se aqui a destruição de Jerusalém e da igreja e nação judaicas, que nosso Senhor Jesus, quando o tempo se aproximou, profetizou de modo muito claro e expresso. Temos aqui:

  1. Os preparativos para essa destruição (v. 1): “Abre as tuas portas, ó Líbano! Não quiseste abri-las para deixar entrar teu rei: ele veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Agora tens de abri-las para deixar entrar tua ruína. Que se abram as portas da floresta e todas as vias de acesso a ela, e que o fogo entre e devore sua glória.”

Alguns entendem por Líbano o templo, construído com cedros do Líbano, cujas pedras eram brancas como a neve do Líbano. Ele foi incendiado pelos romanos, e suas portas foram arrombadas pela fúria dos soldados.

Para confirmar isso, contam que, quarenta anos antes da destruição do segundo templo, suas portas se abriram por si mesmas. Diante desse prodígio, o rabino Joanã fez esta observação, segundo consta em um dos autores judeus: “Agora sei”, disse ele, “que a destruição do templo está próxima, conforme a profecia de Zacarias: ‘Abre as tuas portas, ó Líbano, para que o fogo devore teus cedros'.”

Outros entendem que se trata de Jerusalém, ou, antes, de toda a terra de Canaã, à qual o Líbano dava acesso pelo norte. Tudo ficará aberto ao invasor, e os cedros, isto é, os homens poderosos e ilustres, serão devorados, o que necessariamente alarmará os de posição inferior, v. 2.

Se os cedros caíram, se todos os poderosos foram despojados e arruinados, que o pinheiro uive. Como os frágeis pinheiros poderão permanecer de pé se os majestosos cedros caem? Se os cedros são devorados pelo fogo, é hora de os pinheiros uivarem, pois nenhuma madeira é tão combustível quanto a do pinheiro.

Que também uivem os carvalhos de Basã, expostos a toda injúria, pois caiu a floresta da vindima, ou a vinha florescente, que costumava receber proteção especial. Ou, conforme alguns leem, uivem quando caírem as florestas protegidas, como era o Líbano.

Repare: as quedas dos sábios e bons em pecado, e as quedas dos ricos e poderosos em tribulação, são alarmes sonoros para que os que lhes são inferiores em todos os aspectos não se sintam seguros.

  1. A lamentação por causa da destruição (v. 3): “Ouve-se uma voz de uivo.” Os que caíram uivam de dor e vergonha, e os que veem aproximar-se sua vez uivam de medo. Mas os grandes, em particular, recebem o alarme com a maior confusão.

Os que rugiam nos dias de suas festas desenfreadas e de seus triunfos uivam no dia de seus terrores, pois agora sofrem mais do que os outros. Pelo cargo que ocupavam, esses grandes homens eram pastores e, como tais, deviam proteger o rebanho de Deus entregue aos seus cuidados; esse é o dever tanto dos príncipes quanto dos sacerdotes.

Eram, porém, como leõezinhos: com seu rugido, aterrorizavam o rebanho e, com suas garras, faziam dele sua presa. Repare: é triste a situação de um povo quando aqueles que deveriam ser seus pastores agem como leõezinhos para com ele.

Qual é, porém, o resultado? Os pastores uivam, pois sua glória foi destruída. Seus pastos e os rebanhos que os cobriam, que eram a glória dos pastores, foram devastados. Os leõezinhos uivam, pois a soberba do Jordão foi destruída.

A soberba do Jordão eram os bosques cerrados de suas margens, nos quais os leões repousavam. Por isso, quando o rio transbordou e os destruiu, os leões saíram de lá (como lemos em Jeremias 49:19), rugindo ao sair.

Repare: quando aqueles que têm poder abusam dele com arrogância e, em vez de serem pastores, agem como leõezinhos, podem esperar que o Deus justo humilhe sua soberba e quebre seu poder.

Versículos 4 a 14

Juízos Preditos e Prefigurados. (a.C. 510.)

O profeta torna-se aqui um tipo de Cristo, como o profeta Isaías às vezes foi. O propósito destes versículos é mostrar que Cristo veio a este mundo para juízo (João 9:39), para julgar a igreja e a nação judaicas, que, por volta de sua vinda, estavam lamentavelmente corrompidas e degeneradas pelo mundanismo e pela hipocrisia de seus governantes.

Cristo os teria curado, mas eles não quiseram ser curados; por isso, são deixados desolados e abandonados à ruína. Observe aqui:

I. A situação desesperadora da igreja judaica sob a tirania de seus próprios governantes. A escravidão em sua própria terra os tornou tão miseráveis quanto o cativeiro em países estrangeiros: “Os que os possuem os matam e os vendem”, v. 5.

No tempo de Zacarias, vemos os governantes e os nobres serem justamente censurados por cobrarem juros de seus irmãos; e os governadores, até por meio de seus servos, oprimiam o povo, Neemias 5:7, 15.

No tempo de Cristo, os principais sacerdotes e os anciãos, possuidores do rebanho, tornaram-se verdadeiros tiranos por meio de suas tradições, dos mandamentos de homens e dos fardos impostos à consciência do povo. Devoravam as casas das pessoas, concentravam em suas mãos a riqueza delas e tosquiavam o rebanho em vez de alimentá-lo.

Os saduceus, que eram deístas, corrompiam o discernimento do povo. Os fariseus, fanáticos pela superstição, corrompiam sua moral ao anular os mandamentos de Deus, Mateus 15:6. Assim matavam as ovelhas do rebanho; assim as vendiam.

Não lhes importava o que acontecesse às ovelhas, contanto que conseguissem seus próprios fins e servissem seus interesses. E: 1. Nisso se justificavam: “Matam-nas e não se consideram culpados.” Julgam que não há mal nisso e que o Pastor supremo nunca lhes pedirá contas.

Era como se seu poder lhes tivesse sido dado para destruir, quando se destinava apenas à edificação; e como se, por se assentarem na cadeira de Moisés, não estivessem sujeitos à lei de Moisés, mas pudessem dispensá-la e dispensar a si mesmos de obedecê-la, violando-a como bem entendessem.

Repare: têm a mente terrivelmente cega os que fazem o mal e se justificam por fazê-lo; mas Deus não considerará inocentes os que assim se consideram.

  1. Nisso afrontavam a Deus, dando-lhe graças pelo lucro de sua opressão: “Dizem: Bendito seja o Senhor, porque me enriqueci.” Era como se o fato de prosperarem em sua perversidade, ganharem dinheiro com ela e acumularem patrimônio significasse que Deus se tornara patrono de suas práticas injustas e que a Providência se fizera particeps criminis, associada de sua culpa.

Devemos agradecer a Deus pelo que obtemos honestamente e bendizer aquele cuja bênção enriquece sem acrescentar tristeza. Mas com que cara podemos ir a Deus pedir bênção sobre os meios ilícitos de enriquecer ou agradecer-lhe pelo sucesso que tivemos com eles?

Em vez de zombar dele considerando os lucros do pecado uma dádiva de Deus, deveriam ter ido a Deus confessar o pecado, envergonhar-se dele e prometer restituição. Deus odeia o roubo apresentado como holocausto e não se considera louvado por uma ação de graças se é desonrado no modo de obter ou de usar aquilo pelo qual lhe damos graças.

  1. Nisso desprezavam o povo de Deus, como se não fosse digno de sua atenção ou de sua compaixão: “Seus próprios pastores não têm piedade deles.” Tornam-nos miseráveis e depois não se compadecem de sua miséria.

Cristo teve compaixão da multidão porque ela estava abatida e dispersa, como ovelhas sem pastor, embora, na verdade, tivesse pastores piores do que nenhum. Seus próprios pastores, porém, não tiveram piedade dela nem demonstraram preocupação com ela.

Repare: vai mal uma igreja quando seus pastores não têm ternura nem compaixão pelas almas preciosas, quando conseguem olhar para os ignorantes, os tolos, os perversos e os fracos sem piedade.

II. A sentença da cólera de Deus proferida contra eles por sua falta de discernimento e sua estupidez nessa situação. Havia entre eles um declínio geral da religião, ou melhor, sua destruição, e isso lhes era indiferente; não se importavam. “Meu povo gosta de que seja assim”, Jeremias 5:31.

Embora fossem oprimidos e esmagados em juízo, ainda assim andavam voluntariamente após o mandamento, Oseias 5:11. E, assim como seus pastores não se compadeciam deles, eles também não lamentavam a própria condição. Por isso Deus diz (v. 6): “Não terei mais piedade dos habitantes desta terra.” Buscaram a própria destruição; seja, pois, essa a sua condenação.

Verdadeiramente miseráveis são aqueles de quem o próprio Deus da misericórdia não terá mais compaixão. Os que aceitam de bom grado que sua consciência seja oprimida por aqueles que ensinam como doutrinas os mandamentos de homens são muitas vezes castigados com a opressão de seus interesses civis.

Assim fizeram os judeus, que chamavam de “Rabi, Rabi” os que agiam dessa maneira, Mateus 15:9; 23:7. E o castigo é justo, pois perdem seus próprios direitos aqueles que mansamente entregam os direitos de Deus. Os judeus fizeram isso; os papistas também fazem. Quem terá pena deles se forem governados com rigor?

Deus os ameaça aqui: 1. Ele os entregará nas mãos de opressores, cada um nas mãos de seu próximo, de modo que se tratarão barbaramente. Os diversos partidos em Jerusalém agiram assim; os zelotes, chamados sediciosos, cometeram atrocidades maiores do que o inimigo comum, segundo Josefo relata em sua história das guerras judaicas.

Cada um será entregue às mãos de seu rei, isto é, do imperador romano, a quem preferiram se submeter em vez de se submeterem a Cristo, dizendo: “Não temos rei, senão César.” Assim esperavam cair nas boas graças de seus senhores e governantes.

Por causa disso, porém, Deus trouxe os romanos contra eles, e estes lhes tiraram o lugar e a nação. 2. Deus não os livrará das mãos deles: “Ferirão a terra, toda a terra, e das mãos deles não os livrarei.” Se o Senhor não os ajudar, ninguém mais poderá fazê-lo, nem poderão ajudar a si mesmos.

III. Uma tentativa ainda feita para verificar se a ruína deles poderia ser evitada mediante o envio de Cristo como pastor. Deus enviara em vão seus servos a eles, mas, por último, enviou-lhes seu Filho, dizendo: “Respeitarão meu Filho”, Mateus 21:37.

Diversos profetas haviam falado dele como o Pastor de Israel, Isaías 40:11; Ezequiel 34:23. Ele próprio disse aos fariseus que era o Pastor das ovelhas e que os que alegavam ser pastores eram ladrões e salteadores (João 10:1, 2, 11), aparentemente se referindo a esta passagem. Nela temos:

  1. O encargo que recebeu do Pai para experimentar o que se poderia fazer com esse rebanho (v. 4): “Assim diz o Senhor meu Deus: Apascenta o rebanho da matança.” Cristo chamou seu Pai de seu Deus porque agiu em conformidade com a vontade dele e em vista de sua glória em toda a sua missão.

Os judeus eram o rebanho de Deus, mas eram o rebanho da matança, pois seus inimigos os matavam o dia inteiro e os consideravam como ovelhas destinadas ao abate. Seus próprios possuidores os matavam, e o próprio Deus os condenara à matança.

Ainda assim: “Apascenta-os mediante repreensão, instrução e consolo; fornece alimento saudável aos que há tanto tempo foram azedados pelo fermento dos escribas e fariseus.” Cristo tinha outras ovelhas que não pertenciam a esse aprisco e que depois deveriam ser trazidas; primeiro, porém, foi enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel, Mateus 15:24.

  1. Sua aceitação desse encargo e o trabalho que assumiu em consequência dele, v. 7. É como se dissesse: “Eis que venho fazer a tua vontade, ó meu Deus! E, já que essa é a tua vontade, é também a minha: apascentarei o rebanho da matança.”

Cristo cuidará dessas ovelhas perdidas; andará entre elas, ensinando e curando até mesmo vocês, ó pobres do rebanho! Cristo não negligenciou os mais humildes nem os ignorou por causa de sua condição humilde.

Os pastores que faziam deles sua presa não davam atenção aos pobres; conviviam apenas com aqueles de quem podiam obter lucro. Cristo, porém, pregou seu evangelho aos pobres, Mateus 11:5. Foi uma manifestação de sua humilhação que convivesse principalmente com as pessoas de condição inferior; seus discípulos, acompanhantes constantes, eram dos pobres do rebanho.

  1. Sua preparação com instrumentos adequados ao encargo que assumira: “Tomei para mim dois cajados”, cajados de pastor. Outros pastores têm apenas um cajado, mas Cristo tinha dois, indicando o duplo cuidado que dispensava ao rebanho e o que fazia tanto pelas almas quanto pelos corpos dos homens.

Davi fala da vara e do cajado de Deus (Salmos 23:4), uma vara de correção e um cajado de apoio. Um desses cajados se chamava Beleza, indicando o templo, chamado de beleza da santidade e que tinha uma porta chamada Formosa.

Cristo chamou o templo de casa de seu Pai e demonstrou grande zelo por ele quando o purificou, expulsando os compradores e os vendedores. Ao outro cajado chamou Laços, indicando a condição civil dos judeus e a sociedade organizada daquela nação, da qual Cristo também cuidou ao pregar entre eles o amor e a paz.

Com seu evangelho e em tudo o que fez entre eles, Cristo olhava pelo progresso tanto dos interesses civis quanto dos sagrados. 4. O exercício de seu ofício como Pastor supremo: apascentou o rebanho (v. 7) e destituiu os pastores subordinados que haviam traído a confiança recebida (v. 8): “Eliminei três pastores em um mês.”

Devido às lacunas e incertezas da história da igreja judaica em seus últimos séculos, não sabemos em que acontecimento particular isso se cumpriu. Em geral, parece ser um ato de poder e justiça para punir os pastores pecadores e reparar os agravos sofridos pelo rebanho maltratado.

Alguns entendem que se refere às três ordens de príncipes, sacerdotes e escribas ou profetas, que, após Cristo terminar sua obra, foram afastadas por sua infidelidade. Outros entendem que se refere às três seitas entre os judeus, fariseus, saduceus e herodianos, a todos os quais Cristo calou numa discussão (Mateus 22) e, pouco depois, eliminou, todos em pouco tempo.

IV. Sua inimizade contra Cristo e o fato de se tornarem odiosos para ele. Ele veio para os que eram seus, as ovelhas de seu próprio pasto. Seria de esperar que houvesse pleno afeto entre eles e Cristo, como entre o pastor e suas ovelhas.

Eles, porém, se comportaram tão mal que a alma dele sentiu repulsa por eles, ficou constrangida em relação a eles, como também se pode ler. Cristo pretendia fazer-lhes o bem, mas não pôde fazer-lhes o bem que pretendia por causa da incredulidade deles, Mateus 13:58.

Ele se decepcionou com eles, desanimou a respeito deles, entristeceu-se por eles; não só pelos pastores que eliminou, mas pelo povo, para o qual muitas vezes olhou com dor no coração e lágrimas nos olhos. Suas provocações esgotaram até a paciência dele, e ele se cansou daquela geração infiel e perversa.

“A alma deles também me detestou”; por isso a alma dele sentiu repulsa por eles. Pois qualquer afastamento entre Deus e o homem começa do lado humano. Os pastores judeus rejeitaram esse Pastor supremo, assim como os construtores judeus rejeitaram essa pedra angular principal.

Indignavam-se com a doutrina e os milagres de Cristo e com sua influência sobre o povo, diante do qual fizeram tudo o que podiam para torná-lo odioso, assim como haviam tornado a si mesmos odiosos para ele.

Repare: há inimizade mútua entre Deus e os perversos; eles são odiosos a Deus e odeiam a Deus. Nada revela mais a pecaminosidade e a miséria de uma condição não regenerada do que isso.

A mente carnal e a amizade com o mundo são inimizade contra Deus, e Deus odeia todos os que praticam a iniquidade. É fácil prever como isso terminará se a desavença não for resolvida a tempo, Isaías 27:4, 5.

V. A rejeição deles por Cristo como incuráveis e o abandono de sua casa à desolação, Mateus 23:38. As coisas que lhes trariam paz estão agora ocultas aos seus olhos, porque não conheceram o dia de sua visitação. Aqui temos:

  1. A sentença de rejeição proferida (v. 9): “Então eu disse: Não apascentarei vocês. Não cuidarei mais de vocês; não me verão outra vez. Sigam seu próprio caminho. Assim como não os apascentarei, também não os curarei.”

“O que morrer, morra”, pois o Pastor nada fará para salvar sua vida perdida. “O que estiver destinado a ser eliminado, seja eliminado. O que se entregar como presa ao lobo, que seja presa; e que os restantes esqueçam tanto sua natureza mansa e dócil que comam a carne uns dos outros. Que essas ovelhas briguem como cães.”

Os que rejeitam a Cristo serão certamente e justamente rejeitados por ele e então, naturalmente, serão miseráveis.

  1. Um sinal dessa rejeição (v. 10): “Tomei meu cajado, a Beleza, e o quebrei”, sinal de que Cristo não seria mais pastor deles. Da mesma forma, o administrador supremo encerra seu mandato ao quebrar seu bastão branco, e Moisés, ao quebrar as tábuas da lei, interrompeu por algum tempo o trato entre Deus e Israel.

A quebra desse cajado significava a ruptura da aliança que Deus fizera com todo o povo, a aliança especial feita com todas as tribos de Israel e com os demais povos que, ao se tornarem prosélitos de sua religião, foram incorporados à nação.

A igreja judaica foi então despojada de toda a sua glória; sua coroa foi profanada e lançada ao chão, e toda a sua honra foi posta no pó. Deus se afastou dela e não mais a reconheceria como sua.

Quando Cristo lhes disse claramente que o reino de Deus lhes seria tirado e dado a outro povo, quebrou o cajado chamado Beleza, Mateus 21:43. Ele foi quebrado naquele dia. Embora Jerusalém e a nação judaica tenham subsistido por mais quarenta anos, ainda assim podemos considerar o cajado Beleza quebrado desde aquele dia, v. 11.

Os grandes homens, embora não tivessem entendido, ou não quisessem entender, aquilo como uma sentença divina, pensaram afastá-la com um frio “Deus não permita!” (Lucas 20:16).

Os pobres do rebanho, porém, os discípulos de Cristo que o acompanhavam, compreendiam com que autoridade ele falava e sabiam distinguir a voz de seu Pastor da voz de um estranho. Reconheceram que aquela era a palavra do Senhor, tremeram diante dela e tinham certeza de que ela não deixaria de se cumprir.

Repare: os pobres do rebanho acompanham Cristo; ele os escolheu para estar consigo, ser seus alunos e ser suas testemunhas. Os pobres receberam Cristo e seu evangelho, enquanto os que possuíam grandes riquezas lhe voltaram as costas.

Os que acompanham Cristo, sentados aos seus pés para ouvir e receber suas palavras, saberão se a doutrina vem de Deus, João 7:17.

  1. Outra razão apresentada para a rejeição deles. Disse-se antes que a alma deles o aborrecia; aqui temos um exemplo disso: compraram-no e venderam-no por trinta moedas de prata, que seriam trinta denários romanos ou, mais provavelmente, trinta siclos judeus.

Isso é predito aqui em expressões um tanto obscuras, como convém que profecias tão específicas sejam apresentadas; de outro modo, a clareza da profecia poderia impedir seu cumprimento. Temos aqui:

(1.) O Pastor lhes pede seu salário (v. 12): “Se acham bom, deem-me o meu preço. Vocês estão cansados de mim; paguem-me e dispensem-me. Se não, deixem estar. Se quiserem conservar-me por mais tempo a seu serviço, continuarei; ou, se quiserem me dispensar sem salário, estou satisfeito.”

Cristo não era um mercenário, mas o trabalhador é digno de seu salário. Compare isso com o que Cristo disse a Judas quando este estava prestes a vendê-lo: “O que fazes, faze depressa” (João 13:27); isto é, que resolvesse logo a questão com os principais sacerdotes, para que aceitassem ou rejeitassem o negócio. Os que traem Cristo não são obrigados a fazê-lo; poderiam ter escolhido outra coisa.

(2.) Eles o avaliam em trinta moedas de prata. Ele lhes prestara muitos anos de serviço como Pastor; contudo, isso é tudo o que lhe oferecem agora para dispensá-lo: “Um belo preço pelo qual, com todo o meu cuidado e esforço, fui avaliado por eles.”

Se Judas fixou essa quantia ao fazer sua exigência, é digno de nota que seu nome, Judas, corresponda a Judá, nome dado ao conjunto do povo, pois esse foi um ato nacional.

Ou, se foram os principais sacerdotes que propuseram essa quantia, como parece mais provável, eles eram os representantes do povo. Era parte do ofício sacerdotal atribuir valor às coisas consagradas (Levítico 27:8); foi assim que avaliaram o Senhor Jesus. Era o preço comum de um escravo, Êxodo 21:32.

Fazer pouco caso de Cristo e subestimar o amor desse grande e bom Pastor causa, com toda a justiça, a ruína de multidões.

(3.) Como a prata de modo algum correspondia ao seu valor, foi atirada ao oleiro com desprezo: “Que a tome para comprar barro ou para qualquer uso que uma pequena quantia de dinheiro possa ter, pois não vale a pena guardá-la. Pode ser suficiente para o capital de um oleiro, mas não para pagar tal Pastor, muito menos para comprá-lo.”

Assim o profeta lançou as trinta moedas de prata ao oleiro, na casa do Senhor: “Que ele as tome e faça com elas o que quiser.” Encontramos um cumprimento específico disso na história dos sofrimentos de Cristo, que faz referência a esta profecia, Mateus 27:9, 10.

Trinta moedas de prata foi exatamente a quantia pela qual Cristo foi vendido aos principais sacerdotes. Quando Judas não quis ficar com o dinheiro e os sacerdotes não quiseram recebê-lo de volta, ele foi usado na compra do campo do oleiro.

Até aquela decisão repentina dos principais sacerdotes estava de acordo com uma antiga profecia e com o conselho e a presciência de Deus, ainda mais antigos.

  1. A consumação da rejeição deles com a quebra do outro cajado, v. 14. O primeiro representava a ruína de sua igreja pela ruptura da aliança entre Deus e eles; isso desfigurou sua beleza. O segundo representa a ruína de seu Estado, pela ruptura da fraternidade entre Judá e Israel.

Isso reacende entre eles animosidades e disputas como as que antigamente havia entre Judá e Israel. Escrevê-los como um só pedaço de madeira na mão do Senhor fora uma das bênçãos prometidas após sua volta do cativeiro, Ezequiel 37:19.

Agora, porém, essa união será desfeita. Eles se fragmentarão em partidos e facções, enfurecidos uns contra os outros; e seu reino, assim dividido, será levado à desolação.

(1.) Nada arruína um povo de maneira tão certa e inevitável quanto quebrar o cajado chamado Laços e enfraquecer a fraternidade entre seus membros, pois assim se tornam presa fácil do inimigo comum.

(2.) Isso decorre da dissolução da aliança entre Deus e eles e do declínio da religião entre eles. Quando a iniquidade se multiplica, o amor esfria. Não surpreende que briguem entre si aqueles que provocaram uma desavença entre Deus e eles.

Quando o cajado Beleza se quebra, o cajado Laços não resiste por muito tempo. Um povo sem igreja logo será um povo arruinado.

Versículos 15 a 17

Juízos Preditos e Prefigurados. (a.C. 510.)

Depois de mostrar a miséria desse povo por ter sido justamente abandonado pelo bom Pastor, Deus mostra aqui sua miséria ainda maior por ser vergonhosamente maltratado por um pastor insensato.

O próprio profeta deve personificar e representar esse pretenso pastor (v. 15): “Toma para ti os instrumentos”, ou os apetrechos, “de um pastor insensato”, de modo algum apropriados para o trabalho: o manto, a bolsa e o cajado com que um pastor insensato se apresentaria.

Pois um pastor assim será colocado sobre eles (v. 16); em vez de protegê-los, os oprimirá e lhes causará dano. 1. Ficarão sob a supervisão de ministros infiéis. Seus escribas, sacerdotes e doutores da lei lhes imporão fardos pesados e difíceis de suportar.

Com suas tradições impostas ao povo, farão da lei cerimonial um jugo muito mais pesado do que Deus a fizera. A descrição aqui apresentada do pastor insensato corresponde muito bem ao retrato que Cristo faz dos escribas e fariseus, Mateus 23:2.

Ficarão sob a tirania de príncipes sem misericórdia, que os governarão com rigor e tornarão sua própria terra uma casa de servidão tão opressiva quanto o Egito ou a Babilônia jamais foram. Quando rejeitaram aquele por meio de quem os príncipes decretam justiça, era justo que fossem entregues àqueles que decretam leis injustas.

  1. Serão iludidos e enganados por falsos cristos e falsos profetas, como nosso Salvador predisse, Mateus 24:5. Houve muitos desses que, com suas práticas sediciosas, provocaram os romanos e apressaram a ruína da nação judaica.

É digno de nota, porém, que nunca foram enganados por um messias falso antes de se recusarem a receber o verdadeiro Messias e o rejeitarem. Observe agora:

I. Que maldição esse pastor insensato será para o povo, v. 16. Deus, para puni-los, levantará um pastor insensato que não cumprirá o dever de pastor. Ele não visitará as ovelhas apartadas, nem irá atrás das que se extraviam, nem procurará as desaparecidas para encontrá-las e trazê-las para casa, como faz o bom pastor, Mateus 18:12, 13.

Seus pastores não cuidam dos filhotes, que precisam desse cuidado e bem o merecem, como Cristo cuida, Isaías 40:11. Não curam a ovelha ferida, atacada e dilacerada, mas a deixam morrer dos ferimentos, quando uma pequena intervenção oportuna a teria salvado.

Não alimentam as que, por fraqueza, ficam paradas, prestes a desfalecer, sem conseguir avançar. Deixam-nas para trás e permitem que qualquer um as recolha; não carregam a que fica parada, conforme alguns leem. Nunca fazem nada para amparar os fracos e consolar os desanimados. Pelo contrário:

  1. Eles próprios vivem no luxo: “Comem a carne das gordas.” Reservam o melhor para si; e, como o servo perverso que disse “Meu senhor demora a vir”, comem e bebem com os bêbados e servem ao próprio ventre.

  2. São cruéis com o rebanho. Dominam suas paixões tão mal quanto seus apetites, pois, quando se enfurecem contra qualquer ovelha do rebanho, ao forçá-la excessivamente, chegam a arrancar-lhe as próprias unhas. Ferem-lhe os cascos; golpeiam seus conservos. “Ai de ti, ó terra, quando teu rei é uma criança assim!”

II. Que maldição esse pastor insensato trará sobre si mesmo (v. 17): “Ai do pastor ídolo”, que, como um ídolo, tem olhos e não vê; que, como um ídolo, recebe do povo muita consideração e homenagem e o melhor de suas ofertas, mas não pode nem quer fazer-lhe bem algum.

Ele abandona o rebanho quando este mais precisa de seu cuidado, deixa-o desamparado e foge porque é mercenário. Sua condenação é que a espada da justiça de Deus cairá sobre seu braço e seu olho direito, de modo que perderá por completo o uso de ambos.

Seu braço definhará e secará, de modo que aquele que não quis ajudar seus amigos quando necessário não saberá ajudar a si mesmo. Seu olho direito ficará inteiramente escurecido, de modo que ele não perceberá o perigo em que se encontra seu rebanho nem saberá para onde olhar em busca de socorro.

Isso se cumpriu quando Cristo disse aos fariseus: “Vim para que os que veem se tornem cegos”, João 9:39.

Os que têm dons que os capacitam a fazer o bem, se não fizerem o bem com eles, serão privados desses dons. Os que deveriam ter sido trabalhadores, mas foram preguiçosos e nada quiseram fazer, justamente terão o braço ressecado. Os que deveriam ter sido vigias, mas estavam sonolentos e nunca olharam ao redor, justamente terão o olho cegado.


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