Salmos 97
Argumento
Este salmo trata do mesmo assunto e segue a mesma melodia que o salmo anterior. Cristo é o Alfa e o Ômega de ambos; ambos foram escritos e devem ser cantados para sua honra. Nada tiramos deles se, ao cantá-los, não entoamos de coração uma melodia ao Senhor Jesus.
É ele quem reina, para alegria de toda a humanidade (v. 1). Seu governo anuncia: I. Terror para seus inimigos, pois ele é um príncipe de justiça inflexível e poder irresistível, vv. 2-7.
II. Consolo para seus amigos e súditos leais, proveniente de seu domínio soberano, do zelo que tem com seu povo e da provisão que faz para ele, vv. 8-12.
Ao cantar este salmo, devemos deixar-nos tocar pela glória do Redentor exaltado, temer a sorte de seus inimigos e nos considerar felizes se estivermos entre os que “beijam o Filho”.
Versículos 1 a 7
A Justiça e a Glória do Governo Divino; O Estabelecimento do Reino de Cristo.
O que se devia dizer entre os gentios no salmo anterior (v. 10) é dito aqui novamente (v. 1) e se torna o assunto deste salmo e do salmo 99. “O Senhor reina”: esta é a grande verdade aqui apresentada. O Senhor Jeová reina; aquele que fez o mundo o governa.
Aquele que deu existência dá movimento e poder, dá lei e comissão, dá êxito e desfecho. O juízo de cada pessoa procede do Senhor, de seu conselho e de sua providência; em todos os assuntos, tanto públicos quanto particulares, ele realiza aquilo que ele próprio designou.
O Senhor Jesus reina; o reino providencial está entrelaçado com o reino mediador, e a administração de ambos está na mão de Cristo, que, portanto, é tanto o cabeça da igreja quanto o cabeça sobre todas as coisas em favor da igreja. O reino de Cristo está constituído de tal modo que:
I. Pode ser motivo de alegria para todos; e assim será, se não for por culpa deles mesmos. “Alegre-se a terra”, pois assim ela é estabelecida (Salmos 96:10); ela é honrada e enriquecida e, em parte, resgatada da vaidade à qual o pecado a sujeitou.
Não só se alegre nele o povo de Israel, como Rei dos judeus, e a filha de Sião, como seu Rei; mas alegre-se toda a terra com sua exaltação, pois os reinos do mundo se tornarão seus reinos, em maior ou menor medida, mais cedo ou mais tarde: “Alegre-se com isso a multidão das ilhas”, as muitas ou grandes ilhas.
Isso se aplica ao nosso país, que é uma grande ilha e ao qual pertencem muitas outras; ao menos, traz consolo aos gentios em geral, cujas terras são chamadas ilhas dos gentios, Gênesis 10:5. Há em Cristo motivo suficiente para que a multidão das ilhas se alegre; pois, embora muitos tenham sido feitos felizes nele, ainda assim continua havendo lugar.
Todos têm motivo para se alegrar com o governo de Cristo. 1. Com a equidade dele. Há justiça incontestável em todos os atos de seu governo, tanto legislativos quanto judiciais. De fato, às vezes nuvens e escuridão o cercam; suas disposições são inteiramente inexplicáveis; seu caminho está no mar e sua vereda, nas grandes águas.
Não sabemos qual é seu desígnio nem aonde quer chegar; tampouco convém que tenhamos acesso aos segredos de seu governo. Há profundidade em seus conselhos que não devemos alegar sondar. Mas continuamente a justiça e o juízo são a habitação de seu trono; um fio de ouro de justiça atravessa toda a trama de sua administração.
Nisso ele habita, pois é sua morada. Nisso ele governa, pois é a habitação de seu trono. Seus mandamentos são e serão todos justos. A justiça e o juízo são a base de seu trono (assim entende o dr. Hammond); por isso seu trono dura para todo o sempre, porque seu cetro é um cetro reto, Salmos 45:6.
O trono está estabelecido em justiça. Até os céus declaram sua justiça (v. 6); ela é tão manifesta e ilustre quanto os próprios céus. Os anjos do céu a declararão, pois são empregados como mensageiros na administração de seu governo e, portanto, sabem mais a respeito dela do que qualquer de suas criaturas.
Sua justiça é incontestável: quem pode contradizer ou discutir o que os céus declaram? Salmos 50:6. 2. Com a extensão de seu governo nos mundos superior e inferior. (1.) Todos os homens na terra estão sob seu governo; ou ele é servido por eles, ou se serve deles. Todos os povos veem sua glória, ou podem vê-la.
A glória de Deus, na face de Cristo, foi feita resplandecer em terras distantes, entre muitos povos, em maior ou menor medida entre todos os povos; o evangelho foi pregado, até onde sabemos, em todas as línguas, Atos 2:5, 11. Milagres foram realizados em todas as nações, e assim todos os povos viram sua glória. “Porventura não ouviram?” Romanos 10:18.
(2.) Todos os anjos no céu também estão sob seu governo. Talvez não tivéssemos encontrado esta verdade nas palavras (v. 7) “Adorai-o, todos vós, deuses”, se não fôssemos guiados a ela pelo apóstolo inspirado. Partindo da versão da Septuaginta dessas palavras, ele apresenta o Messias ao mundo superior, na ascensão, com esta ordem (Hebreus 1:6): “Adorem-no todos os anjos de Deus”.
Isso nos dá a chave de todo este salmo e mostra que ele deve ser aplicado ao Redentor exaltado, que foi para o céu e está à direita de Deus, o que indica que todo o poder lhe foi dado tanto no céu quanto na terra, estando-lhe sujeitos anjos, autoridades e poderes, 1 Pedro 3:22.
Isso mostra a honra de Cristo, por ter tais adoradores, e a honra de todos os bons cristãos, por terem tais companheiros de adoração.
II. O governo de Cristo, embora possa ser motivo de alegria para todos, ainda assim será motivo de terror para alguns, e a culpa por isso é deles mesmos, vv. 3-5, 7. Observe:
- Quando o reino de Cristo fosse estabelecido no mundo, depois de sua ascensão, encontraria muitos inimigos e muita oposição. Aquele que reina para a alegria de toda a terra, ainda assim, assim como tem seus súditos, assim tem seus inimigos (v. 3). Estes não só não querem que ele reine sobre eles, mas não quereriam que reinasse de modo algum.
Não só não querem eles mesmos entrar no reino dos céus, como fazem tudo o que podem para impedir os que estão entrando, Mateus 23:13. Isso se cumpriu na inimizade dos judeus incrédulos contra o evangelho de Cristo e na violenta perseguição que eles suscitaram em toda parte contra seus pregadores e os que o professavam.
Esses inimigos são chamados montes (v. 5), por sua altura, força e obstinação irremovível. Foram os príncipes deste mundo que crucificaram o Senhor da glória, 1 Coríntios 2:8; Salmos 2:2.
- A oposição dos judeus ao estabelecimento do reino de Cristo resultou em sua própria ruína. Ao perseguirem os apóstolos e os proibirem de falar aos gentios, completaram a medida de seu pecado e fizeram a cólera alcançá-los até o extremo, 1 Tessalonicenses 2:15, 16. Essa cólera é comparada:
(1.) Ao fogo consumidor, que vai adiante dele e devora seus inimigos, os quais se tornaram como palha e restolho e puseram sarças e espinhos diante dele em batalha, Isaías 27:4. Esse fogo da cólera divina não queimará apenas os detritos sobre os montes, mas até derreterá como cera os próprios montes, v. 5.
Quando nosso Deus aparece como fogo consumidor, até as rochas se tornam cera diante dele. A oposição mais decidida e ousada será frustrada na presença do Senhor. Sua simples presença basta para envergonhá-la e fazê-la ruir, pois ele é o Senhor de toda a terra, por quem todos os filhos dos homens podem ser governados e a quem devem prestar contas.
Os homens odeiam e perseguem o povo de Deus porque pensam que ele está ausente, que o Senhor abandonou a terra; mas, quando ele manifesta sua presença, eles se derretem. (2.) A relâmpagos assombrosos (v. 4), que infundem terror em muitos.
Os juízos que Deus trouxe sobre os inimigos do reino de Cristo foram tais que o mundo inteiro os percebeu com terror: “A terra viu e tremeu”, e os ouvidos de todos os que ouviram ficaram a tinir. Isso se cumpriu na destruição de Jerusalém e da nação judaica pelos romanos, cerca de quarenta anos depois da ressurreição de Cristo.
Como fogo, ela destruiu completamente aquele povo; como relâmpago, espantou todos os seus vizinhos (Deuteronômio 29:24). Mas os céus declaram a justiça de Deus nesse acontecimento, e todos os povos, até hoje, veem sua glória naqueles monumentos duradouros de sua justiça: os judeus dispersos.
- Os idólatras também seriam desconcertados pelo estabelecimento do reino de Cristo (v. 7): Sejam desconcertados todos os que servem às imagens de escultura, o mundo gentílico, que servia àqueles que por natureza não são deuses (Gálatas 4:8) e se gloriava dos ídolos como seus protetores e benfeitores.
Se os que serviam aos ídolos se gloriavam neles, os servos do Deus vivo desconfiariam dele ou se envergonhariam dele? Envergonhem-se os que servem às imagens de escultura. (1.) Esta é uma oração pela conversão dos gentios:
Que aqueles que por tanto tempo serviram a ídolos mudos sejam convencidos de seu erro, envergonhados de sua insensatez e que, pelo poder do evangelho de Cristo, sejam levados a servir ao único Deus vivo e verdadeiro e sintam de seus ídolos tanta vergonha quanto antes tinham orgulho deles. Veja Isaías 2:20, 21.
(2.) Esta é uma profecia da ruína daqueles que não quisessem ser reformados nem recuperados de sua idolatria. Serão desconcertados pela destruição do paganismo no Império Romano, que ocorreu cerca de trezentos anos depois de Cristo.
Isso causou tamanho terror aos idólatras que alguns pensam ter sido a revolução sob Constantino que levou até os poderosos a dizer às rochas: “Caí sobre nós e escondei-nos”, Apocalipse 6:15, 16.
Essa oração e profecia continuam em vigor contra os idólatras anticristãos, que aqui podem ler sua condenação: Sejam desconcertados todos os que adoram imagens de escultura, v. 7. Veja Jeremias 48:13.
Versículos 8 a 12
Sião se Alegra no Reinado de Cristo.
O reino do Messias, como a coluna de nuvem e fogo, assim como tem um lado escuro voltado para os egípcios, assim tem um lado luminoso voltado para o Israel de Deus.
É estabelecido apesar da oposição; então “a terra viu e tremeu” (v. 4), mas Sião ouviu e se alegrou, alegrou-se muito ao ouvir da conversão de uns e do desconcerto de outros, isto é, da conquista de todos os que resistiram a Cristo.
Alegre-se grandemente, ó filha de Sião! Pois eis que seu rei vem até você, Zacarias 9:9. Não foi só Sião, onde estava o templo, que se alegrou, mas também as filhas de Judá; o povo comum, os habitantes das aldeias, triunfarão com as vitórias de Cristo.
A ordem (v. 1) é: “Alegre-se a terra”; mas são apenas os filhos de Sião e as filhas de Judá que se alegram. Todos deveriam acolher o reino do Messias, mas poucos o fazem. Observe agora:
I. As razões apresentadas para a alegria de Sião no governo do Redentor. Os servos fiéis de Deus podem, com razão, exultar e alegrar-se: 1. Porque Deus é glorificado, e tudo o que resulta em honra para ele dá grande prazer ao seu povo.
Eles se alegram por causa dos seus juízos, ó Senhor! Esses juízos podem abranger tanto os juízos de sua boca quanto os de sua mão: a palavra de seu evangelho e suas obras realizadas para propagá-lo, milagres e providências maravilhosas. Pois, nisso, devemos reconhecer: “Tu, Senhor, és elevado sobre toda a terra” (v. 9).
“Tu manifestaste tua soberania no reino da natureza, teu comando sobre todas as suas forças e teu domínio sobre todas as nações, sobre todos os corações; tu és exaltado muito acima de todos os deuses” — todos os deuses delegados, isto é, príncipes; todos os falsos deuses, isto é, ídolos.
A exaltação de Cristo e, por meio dela, o avanço da glória de Deus entre os homens são motivo de alegria para todos os santos. 2. Porque há zelo pela segurança deles. Os que prestam lealdade a Cristo como um Rei podem ter certeza de sua proteção.
Os príncipes são os escudos da terra; Cristo é assim para seus súditos. Eles podem confiar à sombra dele e nela se alegrar, pois (v. 10) ele preserva as almas dos santos.
Preserva-lhes a vida enquanto tiver alguma obra para eles realizarem e muitas vezes os livra maravilhosamente das mãos dos perversos, seus perseguidores sedentos de seu sangue; pois preciosa aos olhos do Senhor é a morte de seus santos.
Mas isso significa algo mais que a vida deles: os que quiserem ser seus discípulos devem estar dispostos a entregar a própria vida, sem estipular como condição a preservação dela. É a alma imortal que Cristo preserva, o homem interior, que pode ser renovado cada vez mais quando o homem exterior se consome.
Ele preservará as almas de seus santos do pecado, da apostasia e do desespero em suas maiores provações. Ele os livrará das mãos do maligno que procura devorá-los e os preservará em segurança para seu reino celestial, 2 Timóteo 4:18. Portanto, eles têm motivo para se alegrar, estando assim seguros.
- Porque se faz provisão para seu consolo. Os que se alegram em Cristo Jesus e em sua exaltação têm fontes de alegria reservadas para eles, que se abrirão mais cedo ou mais tarde (v. 11): “A luz é semeada para o justo”, isto é, “júbilo para os retos de coração”.
Aos súditos do reino de Cristo se diz que esperem tribulações no mundo. Devem sofrer por causa da maldade do mundo e não participar de seus divertimentos; contudo, saibam, para seu consolo, que a luz é semeada para eles: é destinada e preparada para eles.
O que se semeia tornará a brotar no devido tempo. Embora, como uma semeadura de inverno, possa ficar por muito tempo debaixo dos torrões, parecendo perdido e enterrado, ainda assim voltará com uma produção rica e abundante. A bondade de Deus certamente terá uma colheita nas semanas designadas.
Os que semeiam em lágrimas, sem falta colherão com alegria, Salmos 126:5, 6. Cristo disse aos discípulos, ao se despedir (João 16:20): “Vós estareis tristes, mas vossa tristeza se converterá em alegria”. O júbilo é certo para os retos de coração, somente para os que são sinceros na religião.
A alegria do hipócrita dura apenas um momento. Não há serenidade sem sinceridade duradoura.
II. As regras apresentadas para a alegria de Sião. 1. Que seja uma alegria pura e santa. “Vocês, que amam o Senhor Jesus, que amam sua manifestação e seu reino, que amam sua palavra e sua exaltação, cuidem de odiar o mal, o mal do pecado, tudo o que o ofende e os afastará de seu favor.”
Repare: O verdadeiro amor a Deus se mostrará em ódio real a todo pecado, aquela coisa abominável que ele odeia. A alegria dos santos também deve confirmar sua aversão ao pecado, e os consolos divinos devem tirar de sua boca o gosto pelos prazeres sensuais.
Que a alegria tenha seu fim em Deus (v. 12): “Alegrai-vos no Senhor, justos”. Que todas as correntes de consolo que fluem até nós pelo canal do reino de Cristo nos conduzam à fonte e nos levem a nos alegrar no Senhor. Todas as linhas de alegria devem encontrar-se nele como no centro. Veja Filipenses 3:3; 4:4.
Que ela se expresse em louvor e ações de graças: “Dai graças ao lembrar-vos da sua santidade”. Tudo o que é motivo de nossa alegria deve ser motivo de nossas ações de graças, particularmente a santidade de Deus.
Os que odeiam o pecado em si mesmos se alegram porque Deus também o odeia, na esperança de que, por isso, ele não permitirá que o pecado os domine. Repare:
(1.) Devemos lembrar-nos muitas vezes da santidade de Deus, da pureza, retidão e perfeição infinitas da natureza divina. Devemos ter sempre presente sua santa aliança, que ele confirmou com um juramento por sua santidade.
(2.) Devemos dar graças ao lembrar-nos de sua santidade: não só atribuir-lhe a glória por ela, como honra que lhe pertence, mas agradecer-lhe por ela, como favor concedido a nós. E será um favor indescritível se, pela graça, participarmos de sua santidade.
É a santidade de Deus que, mais do que todos os seus atributos, os anjos celebram. Isaías 6:3: “Santo, santo, santo”. Os pecadores tremem, mas os santos se alegram, ao lembrar-se da santidade de Deus, Salmos 30:4.