Matthew Henry

Salmos 96

Argumento

Este salmo faz parte daquele que foi entregue na mão de Asafe e de seus irmãos (1 Crônicas 16:7). Isso mostra tanto que Davi o escreveu quanto que ele se refere ao transporte da arca para a cidade de Davi.

Não se sabe ao certo se o salmo longo foi composto primeiro e este foi depois extraído dele, ou se este veio primeiro e, mais tarde, foi aproveitado na composição daquele.

Mas o que é certo é que, embora tenha sido cantado na transladação da arca, ainda assim aponta mais longe, para o reino de Cristo, e se destina a celebrar as glórias desse reino, especialmente a entrada dos gentios nele.

Aqui temos: I. Um chamado a todos os povos para louvar e adorar a Deus e dar-lhe glória, como Deus grande e glorioso, vv. 1-9. II. Um anúncio a todos os povos do governo e do julgamento universais de Deus, que devem ser motivo de alegria universal, vv. 10-13.

Ao cantar este salmo, devemos ter o coração cheio de pensamentos grandiosos e elevados sobre a glória de Deus e a graça do evangelho, bem como plena satisfação com o domínio soberano de Cristo e com a expectativa do juízo futuro.

Versículos 1 a 9

Convite ao Louvor e à Honra de Deus; Chamado para Glorificá-lo.

Estes versículos serão melhor expostos por sentimentos piedosos e devotos que atuem em nossa alma para com Deus, com profunda reverência por sua majestade e excelência incomparável.

O chamado que recebemos aqui para louvar a Deus é muito vivo; as expressões são elevadas e repetidas, e o eco de um coração agradecido deve responder adequadamente a todas elas.

I. Aqui somos chamados a honrar a Deus:

  1. Com cânticos, v. 1, 2. Três vezes somos chamados a cantar ao Senhor: cantar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como era no princípio, quando as estrelas da manhã cantavam juntas, como é agora, na igreja militante, e como sempre será, na igreja triunfante.

Temos razões para fazê-lo muitas vezes e precisamos ser lembrados e estimulados a isso com frequência.

Cantar ao Senhor significa: “Bendizei seu nome, falai bem dele, para que leveis outros a pensar bem dele.” (1.) Cantem um cântico novo, um cântico excelente, fruto de novos sentimentos revestidos de novas expressões.

Não falamos de nada mais desprezível que “uma velha canção”, mas a novidade recomenda uma canção, pois nela esperamos algo surpreendente.

Um cântico novo celebra novos favores e as compaixões que se renovam a cada manhã. É um cântico do Novo Testamento, de louvor pela nova aliança e os preciosos privilégios dessa aliança. É um cântico que sempre será novo, nunca envelhecerá nem desaparecerá; é um cântico eterno, que nunca se tornará antiquado ou ultrapassado.

(2.) Que toda a terra cante esse cântico, não apenas os judeus, aos quais até então se limitara o serviço de Deus. Eles não podiam cantar o cântico do Senhor em terra estrangeira, ou não queriam cantá-lo a uma terra estrangeira.

Mas que toda a terra, todos os redimidos da terra, aprendam e cantem esse novo cântico, Apocalipse 14:3. Esta é uma profecia do chamado dos gentios: toda a terra receberá esse cântico novo em sua boca e terá tanto motivo quanto convite para cantá-lo.

(3.) Que o tema desse cântico seja a salvação de Deus, a grande salvação que seria realizada pelo Senhor Jesus; ela deve ser anunciada como a causa dessa alegria e desse louvor.

(4.) Que esse cântico seja cantado continuamente, não apenas nos tempos designados para as festas solenes, mas dia após dia. É um tema inesgotável. Que um dia transmita ao outro essa mensagem, para que, sob a influência da devoção do evangelho, exemplifiquemos diariamente uma conduta conforme o evangelho.

  1. Com sermões (v. 3): “Anunciai entre as nações a sua glória”, até “entre todos os povos, as suas maravilhas”.

(1.) A salvação por Cristo é apresentada aqui como uma obra maravilhosa, na qual a glória de Deus brilha intensamente. Ao anunciar essa salvação, proclamamos a glória de Deus tal como ela resplandece no rosto de Cristo.

(2.) Nos tempos do Antigo Testamento, essa salvação era, como hoje é a felicidade do céu, uma glória ainda por revelar. Mas, na plenitude dos tempos, ela foi anunciada, e foi plenamente revelado, até às criancinhas, aquilo que profetas e reis desejavam e ansiavam ver, mas não puderam.

(3.) Aquilo que foi então revelado só era anunciado entre os judeus, mas agora é proclamado entre as nações e todos os povos. As nações que por muito tempo estiveram nas trevas agora veem essa grande luz.

Deste chamado foi copiada a comissão dos apóstolos para pregar o evangelho a toda criatura: “Anunciai entre as nações a sua glória.”

  1. Com serviços religiosos, vv. 7-9. Até então, embora pessoas de todas as nações que temessem a Deus e praticassem a justiça fossem aceitas por ele, ainda assim as ordenanças instituídas eram próprias da religião judaica.

Mas, nos tempos do evangelho, as famílias dos povos serão convidadas e admitidas no serviço de Deus e serão tão bem-vindas quanto sempre foram os judeus.

O átrio dos gentios deixará de ser um átrio exterior e será posto em comum com o átrio de Israel. Toda a terra é convocada aqui a temer diante do Senhor e a adorá-lo conforme sua designação. Em todo lugar se oferecerá incenso ao seu nome, Malaquias 1:11; Zacarias 14:17; Isaías 66:23.

Isso de fato implicava humilhação para os judeus, mas também oferecia a perspectiva de algo que redundaria muito para a glória de Deus e a felicidade da humanidade. Observe agora como são descritos os atos de devoção a Deus.

(1.) Devemos dar ao Senhor. Não porque Deus precise de alguma coisa ou possa receber de nós ou de qualquer criatura algo que já não fosse seu, muito menos obter benefício com isso.

Devemos, porém, por meio de nossos melhores sentimentos, adoração e serviço, devolver-lhe o que dele recebemos e fazê-lo livremente, como uma dádiva, pois Deus ama quem dá com alegria.

É dívida, aluguel e tributo, algo que deve ser pago e que, se não o for, será cobrado. Ainda assim, quando procede do santo amor, Deus tem prazer em aceitá-lo como presente.

(2.) Devemos reconhecer Deus como Senhor soberano e prestar-lhe a devida homenagem (v. 7): “Dai ao Senhor glória e força”; segundo alguns, glória e império, ou domínio. Como um rei, ele veste mantos de glória e cinge o cinto do poder, e devemos reconhecer ambos.

O reino é seu e, portanto, também lhe pertencem o poder e a glória. “Dai a glória a Deus; não a tomeis para vós nem a deis a nenhuma criatura.”

(3.) Devemos “dar ao Senhor a glória devida ao seu nome”, isto é, à revelação que ele teve por bem fazer de si aos filhos dos homens. Em todos os atos do culto religioso, devemos buscar honrar a Deus e prestar-lhe parte da reverência que lhe devemos como o melhor dos seres e a fonte da nossa existência.

(4.) Devemos levar uma oferta aos seus átrios. Em primeiro lugar, devemos oferecer a nós mesmos: a oferta dos gentios, Romanos 15:16. Devemos oferecer continuamente sacrifícios de louvor (Hebreus 13:15), comparecer com frequência diante de Deus no culto público e nunca comparecer de mãos vazias.

(5.) Devemos adorá-lo “na beleza da santidade”, na assembleia solene onde as instituições divinas são observadas com reverência. A beleza delas é sua santidade, isto é, sua conformidade com a regra.

Devemos adorá-lo com corações santos, santificados pela graça de Deus, dedicados à sua glória e purificados das impurezas do pecado.

(6.) Devemos temer diante dele. Todos os atos de culto devem nascer de um princípio de temor de Deus e ser realizados com temor santo e reverência.

II. Em meio a esses chamados para louvar a Deus e dar-lhe glória, dizem-se coisas gloriosas a seu respeito, tanto como motivos quanto como matéria de louvor: “Grande é o Senhor” e, por isso, “digno de muito louvor” (v. 4) e de temor; grande e digno de honra para os que o servem, grande e terrível para os adversários.

Até o cântico novo proclama que Deus é grande, além de bom, pois sua bondade é sua glória. Quando o evangelho eterno é pregado, sua mensagem é esta: “Temei a Deus e dai-lhe glória”, Apocalipse 14:6, 7.

  1. Ele é grande em sua soberania sobre todos os que alegam ser divindades. Ninguém ousa rivalizar com ele: Ele deve ser temido acima de todos os deuses, todos os príncipes, muitas vezes divinizados depois da morte e adorados como pequenos deuses ainda em vida; ou, antes, todos os ídolos, os deuses das nações (v. 5).

Como toda a terra é chamada a cantar o cântico novo, todos devem convencer-se de que o Senhor Jeová, a quem esse cântico deve honrar, é o único Deus vivo e verdadeiro, infinitamente acima de todos os rivais e os que alegam ser deuses.

Ele é grande, e eles, pequenos; ele é tudo, e eles, nada. É isso que significa a palavra usada para ídolos, pois sabemos que “o ídolo nada é no mundo”, 1 Coríntios 8:4.

  1. Ele é grande em seu direito até sobre a parte mais nobre da criação, pois ela é sua própria obra e dele recebe a existência: “O Senhor fez os céus” e todos os seus exércitos. Eles são obra de seus dedos (Salmos 8:3), feitos com tamanha delicadeza, de modo tão primoroso.

Todos os deuses das nações foram feitos: eram deuses criados pela imaginação humana. Nosso Deus, porém, é o Criador do sol, da lua e das estrelas, as luzes do céu que eles imaginavam ser deuses e adoravam como tais.

  1. Ele é grande na manifestação de sua glória, tanto no mundo superior quanto no inferior, entre seus anjos no céu e seus santos na terra (v. 6): Esplendor e majestade estão diante dele, em sua presença imediata nas alturas, onde os anjos cobrem o rosto, incapazes de suportar o fulgor deslumbrante de sua glória.

“Força e beleza estão no seu santuário”, tanto no de cima quanto neste de baixo. Em Deus há tudo que inspira temor e, ainda assim, tudo que é amável.

Se comparecermos diante dele em seu santuário, contemplaremos sua beleza, pois Deus é amor, e experimentaremos sua força, pois ele é nossa rocha. Portanto, saiamos em sua força, encantados por sua beleza.

Versículos 10 a 13

O Reino de Cristo.

Temos aqui instruções sobre o que pregar, dirigidas aos que anunciariam o evangelho às nações, ou sobre o que dizer aos vizinhos, dirigidas aos que já haviam recebido o evangelho: o que dizer entre os gentios.

É uma ilustre profecia do estabelecimento do reino de Cristo sobre as ruínas do reino do diabo, obra que começou imediatamente após sua ascensão e continuará até que o mistério de Deus se complete.

I. Que se anuncie que o Senhor reina, que o Senhor Cristo reina, aquele Rei a quem Deus determinou estabelecer sobre seu santo monte Sião. Veja como isso foi anunciado pela primeira vez entre os gentios por Pedro, Atos 10:42.

Alguns antigos acrescentaram a essa passagem uma glosa que, pouco a pouco, se infiltrou no texto: “O Senhor reina desde a árvore” (assim a citam Justino Mártir, Agostinho e outros), querendo dizer a cruz, quando ele teve sobre si o título escrito: “O Rei dos Judeus”.

Foi por ter-se tornado obediente até a morte, até morte de cruz, que Deus o exaltou e lhe deu um nome acima de todo nome, um trono acima de todo trono.

Alguns gentios vieram cedo perguntar por aquele que nascera Rei dos Judeus, Mateus 2:2. Que agora saibam que ele veio e que seu reino foi estabelecido.

II. Que se anuncie que o governo de Cristo dará ao mundo uma condição feliz e estável. O mundo também será firmado, de modo que não será abalado. O mundo natural será firmado. A permanência do mundo e sua estabilidade devem-se à mediação de Cristo.

O pecado o abalara e continuamente o ameaça, mas Cristo, como Redentor, sustenta todas as coisas e preserva o curso da natureza. O mundo da humanidade será firmado, será preservado até que todos os pertencentes à eleição da graça sejam chamados, embora seja um mundo culpado que provoca a Deus.

A religião cristã, na medida em que é acolhida, firmará Estados e reinos e preservará a boa ordem entre as pessoas.

A igreja no mundo será firmada, segundo alguns, de modo que não será abalada, pois está edificada sobre uma rocha, e as portas do inferno jamais conseguirão o intento contra ela. É um reino que não pode ser abalado.

III. Que se anuncie que o governo de Cristo será incontestavelmente justo e reto: “Julgará os povos com retidão” (v. 10), julgará o mundo com justiça e com sua verdade, v. 13. Aqui, julgar significa governar.

Embora isso também possa estender-se ao juízo geral do mundo no último dia, que se fará com justiça (Atos 17:31), ainda assim, refere-se mais diretamente à primeira vinda de Cristo e ao estabelecimento de seu reino no mundo pelo evangelho.

Ele próprio diz: “Para juízo vim a este mundo” (João 9:39; 12:31), e declara que todo o julgamento lhe foi entregue, João 5:22, 27. Governar e julgar com justiça e verdade significa:

  1. Que todas as leis e ordenanças de seu reino estarão de acordo com as regras e os princípios da verdade e da equidade eternas, isto é, com a retidão e a pureza da natureza e da vontade divinas.

  2. Que todos os atos de sua administração serão justos, fiéis e conformes ao que ele disse.

  3. Que governará o coração e a consciência das pessoas pelo poder imperioso da verdade e pelo Espírito de justiça e santificação.

Quando Pilatos perguntou ao nosso Salvador: “És tu rei?”, ele respondeu: “Para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade” (João 18:37). Ele governa pela verdade e dirige a vontade das pessoas ao formar corretamente seu juízo.

IV. Que se anuncie que sua vinda se aproxima, que esse Rei, esse Juiz, está à porta: pois ele vem, pois ele vem. Enoque, o sétimo depois de Adão, disse isso: “Eis que o Senhor vem”, Judas 1:14.

Entre essa declaração e sua primeira vinda transcorreram muitas eras; contudo, ele veio no tempo determinado. Sua segunda vinda será igualmente certa, embora agora faça muito tempo que se disse: Eis que ele vem nas nuvens (Apocalipse 1:7), e ele ainda não veio. Veja 2 Pedro 3:4, etc.

V. Que todos sejam chamados a alegrar-se pela honra concedida ao Messias e pela grande responsabilidade que será confiada à sua mão (v. 11, 12): que se alegrem o céu e a terra, o mar, o campo e todas as árvores da floresta. A linguagem aqui é poética. Seu significado é:

  1. Que os dias do Messias serão dias alegres e, na medida em que as pessoas se sujeitarem a sua graça e seu governo, trarão alegria consigo.

É justo anunciar alegria ao lugar e à alma que recebem Cristo. Veja um exemplo de ambos em Atos 8.

Quando Samaria recebeu o evangelho, houve grande alegria naquela cidade (v. 8); quando o eunuco foi batizado, seguiu seu caminho alegre, v. 39.

  1. Que é dever de cada um de nós acolher a Cristo e seu reino. Pois, embora venha vencendo e para vencer, ainda assim ele vem em paz.

“Hosana! Bendito o que vem”; e novamente: “Hosana! Bendito seja o reino de nosso pai Davi” (Marcos 11:9, 10). Não apenas a filha de Sião deve alegrar-se porque seu Rei vem (Zacarias 9:9); todos devem alegrar-se.

  1. Que toda a criação terá motivo para alegrar-se com o estabelecimento do reino de Cristo, até o mar e o campo.

Assim como pelo pecado do primeiro Adão toda a criação foi sujeita à vaidade, assim pela graça do segundo Adão, de um modo ou de outro, mais cedo ou mais tarde, será liberta da escravidão da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus, Romanos 8:20, 21.

  1. Que haverá, antes de tudo, alegria no céu, na presença dos anjos de Deus. Quando o Primogênito foi introduzido no mundo, eles cantaram hinos em seu louvor, Lucas 2:14.

  2. Que Deus aceitará bondosamente a santa alegria e os louvores de todos os que de coração desejam o bem do reino de Cristo, por menor que seja sua capacidade.

O mar só pode rugir, e não sei como as árvores da floresta podem mostrar que se alegram. Mas aquele que sonda o coração sabe qual é a mente do Espírito e entende a linguagem, a linguagem imperfeita, dos mais fracos.


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