Salmos 88
Argumento
Este salmo é uma lamentação, um dos mais melancólicos de todos os salmos. Ele não termina, como costumam terminar os salmos melancólicos, com a menor indicação de consolo ou alegria; mas, do começo ao fim, só há luto e aflição.
O salmista não se queixa aqui por uma questão pública (não há menção às aflições da igreja), mas apenas por uma questão pessoal, especialmente a perturbação da mente e a dor impressa em seu espírito tanto pelas aflições externas quanto pela lembrança de seus pecados e pelo temor da cólera de Deus.
Ele é contado entre os salmos penitenciais. É bom quando nossos temores são assim dirigidos ao canal certo e aproveitamos nossas queixas deste mundo como ocasião para nos entristecermos segundo Deus. Neste salmo temos:
I. A grande opressão de espírito sob a qual estava o salmista, vv. 3-6. II. A cólera de Deus, causa dessa opressão, v. 7, 15-17. III. A perversidade dos amigos dele, v. 8, 18. IV. O modo como recorreu a Deus pela oração, v. 1, 2, 9, 13. V. Suas humildes interpelações e seus apelos a Deus, v. 10, 12, 14.
Os que estão perturbados na mente podem cantar este salmo com sentimento. Os que não estão devem cantá-lo com gratidão, bendizendo a Deus porque esse não é o seu caso.
Queixas Tristes; Queixando-se a Deus.
Cântico ou salmo para os filhos de Corá, ao Músico-Mor, sobre Mahalath Leannoth; Masquil de Hemã, o ezraíta.
Versículos 1 a 9
Ao que parece, pelos títulos deste salmo e do seguinte, Hemã escreveu um e Etã escreveu o outro. Havia dois homens com esses nomes que eram filhos de Zerá, filho de Judá, 1 Crônicas 2:4, 6.
Havia outros dois famosos por sua sabedoria, 1 Reis 4:31, passagem em que, para engrandecer a sabedoria de Salomão, se diz que ele era mais sábio que Hemã e Etã.
Não sabemos se os levitas Hemã e Etã, dirigentes dos cânticos de Sião, eram os mesmos, nem qual desses homens, ou se algum deles, escreveu estes salmos.
Havia um Hemã entre os principais cantores, chamado vidente do rei, ou profeta, nas palavras de Deus (1 Crônicas 25:5). É provável que este também fosse vidente e, ainda assim, não visse consolo para si mesmo: instrutor e consolador de outros, mas que, ainda assim, afastava de si próprio o consolo.
As primeiras palavras do salmo são as únicas palavras de consolo e amparo em todo ele. Ao seu redor só há nuvens e trevas. Mas, antes de começar sua queixa, ele chama Deus de Deus de sua salvação.
Isso indica tanto que esperava a salvação, por ruins que estivessem as coisas, quanto que buscava a Deus para recebê-la e dependia dele como seu autor. Agora temos aqui o salmista:
I. Um homem de oração, que se dedicava a orar em todos os momentos, mas especialmente agora que estava aflito; pois há alguém aflito? Que ore. Consola-o o fato de ter orado; queixa-se de que, apesar de sua oração, ainda estava aflito. Ele era:
Muito fervoroso na oração: “Tenho clamado a ti (v. 1) e estendido minhas mãos a ti (v. 9), como alguém que quisesse agarrar-se a ti e até alcançar a misericórdia, com santo temor de não a atingir e perdê-la.”
Ele orava com muita frequência e constância: “A ti tenho clamado diariamente” (v. 9); ou melhor, dia e noite, v. 1. Pois assim os homens devem orar sempre e não desfalecer. Os eleitos de Deus clamam a ele dia e noite.
Eles não apenas oram pela manhã e à noite, começando cada dia e cada noite com oração, mas passam o dia e a noite em oração. Isso é de fato orar sempre; e nossas orações terão bom êxito quando perseverarmos nelas com zelo.
- Ele dirigia sua oração a Deus e dele esperava e desejava uma resposta (v. 2): “Chegue à tua presença a minha oração, para que seja aceita por ti, e não diante dos homens, para que seja vista por eles, como as orações dos fariseus.”
Ele não deseja que os homens as ouçam, mas pede: “Senhor, inclina teu ouvido ao meu clamor, pois a isso me entrego; dá a resposta que te agradar.”
II. Ele era um homem de dores; por isso, alguns fazem dele, neste salmo, um tipo de Cristo, cujas queixas na cruz, e às vezes antes dela, tinham muito do mesmo teor das deste salmo.
Ele exclama (v. 3): “Minha alma está cheia de tribulações”. Assim disse Cristo: “Agora a minha alma está perturbada”. E, em sua agonia: “Minha alma está profundamente triste até à morte”, como a do salmista aqui, pois este afirma: “Minha vida se aproxima da sepultura”.
Hemã era muito sábio e muito bom, um homem de Deus e também um cantor. Poderíamos, portanto, supor que fosse um homem de espírito alegre. Contudo, agora era um homem de espírito entristecido, perturbado na mente e à beira do desespero.
A tribulação interior é a mais dolorosa tribulação. Às vezes, os melhores santos e servos de Deus têm sido duramente provados por ela. O espírito humano, até mesmo dos maiores homens, nem sempre suportará sua enfermidade, mas se abaterá e sucumbirá sob ela. Quem, então, pode suportar um espírito ferido?
III. Ele se via como um homem à morte, cujo coração estava prestes a se romper de tristeza (v. 5): “Livre entre os mortos (um dos membros daquela corporação medonha), como os abatidos que jazem na sepultura, em cujo apodrecimento e perecimento ninguém repara nem se interessa.”
“Ou melhor, deles já não te lembras para proteger os corpos mortos ou prover suas necessidades; mas tornam-se presa fácil da corrupção e dos vermes. Estão cortados da tua mão, que costumava sustentá-los e estender-se a eles.”
“Mas, agora que já não há ocasião para isso, foram cortados dela e por ela” (pois Deus não estenderá sua mão à sepultura, Jó 30:24). “Puseste-me na cova mais profunda, tão fundo quanto possível; minha condição é baixa, meu ânimo é baixo, nas trevas, nas profundezas (v. 6).”
“Estou afundando sem ver nenhum caminho aberto para escapar, levado ao último extremo e pronto a dar tudo por perdido.” Assim podem os homens bons ser profundamente afligidos e ter percepções tão sombrias de suas aflições.
Pelo poder da melancolia e pela fraqueza da fé, às vezes também podem estar prestes a tirar conclusões igualmente sombrias sobre o desfecho delas.
IV. Ele se queixava sobretudo do desagrado de Deus para com ele, que infundia absinto e fel na aflição e na miséria (v. 7): “A tua cólera pesa duramente sobre mim”.
Se ele pudesse ter percebido o favor e o amor de Deus em sua aflição, ela teria pesado pouco sobre ele. Mas pesava muito, muitíssimo, a ponto de ele estar prestes a afundar e desfalecer sob seu peso.
As impressões dessa cólera em seu espírito eram as ondas de Deus com que este o afligia: elas rolavam sobre ele, uma após a outra, de modo que mal se recuperava de um pensamento sombrio antes de ser oprimido por outro.
Essas ondas o golpeavam com estrondo e fúria. Não algumas, mas todas as ondas de Deus eram empregadas para afligi-lo e abatê-lo. Até os filhos do amor de Deus podem às vezes considerar-se filhos da cólera; nenhuma tribulação externa pode pesar tanto sobre eles quanto essa percepção.
V. A aflição se agravava porque os amigos o abandonavam e se tornavam estranhos para ele. Quando estamos em tribulação, ter ao redor pessoas que nos amam e se compadecem de nós traz algum consolo.
Mas esse homem bom não tinha ninguém assim. Isso lhe dá ocasião não para acusá-los de traição, ingratidão e desumanidade, mas para se queixar a Deus, vendo a mão dele nessa parte da aflição (v. 8): “Afastaste de mim os meus conhecidos”.
A Providência os afastara, ou os tornara incapazes de lhe prestar ajuda, ou desviara dele o afeto deles; pois cada criatura é para nós aquilo que Deus faz que seja, e nada mais.
Se antigos conhecidos se mostram reservados conosco e se aqueles de quem esperamos bondade se revelam sem bondade, devemos suportar isso com a mesma submissão paciente à vontade divina com que suportamos as demais aflições, Jó 19:13.
Ou melhor, seus amigos não apenas se tornaram estranhos para ele, mas até o odiavam porque era pobre e estava em angústia: “Fizeste-me uma abominação para eles; não apenas me evitam, mas sentem repulsa de mim e sou visto por eles não apenas com desprezo, mas com horror.”
Ninguém considere estranha uma provação como essa, pois Hemã, tão famoso por sua sabedoria, foi, contudo, negligenciado quando o mundo lhe franziu o rosto, como um vaso do qual ninguém se agrada.
VI. Ele considerava seu caso sem socorro e deplorável: “Estou encerrado e não posso sair, um prisioneiro confinado sob a custódia da cólera divina, sem nenhum caminho aberto para escapar.”
Por isso, deita-se e sucumbe sob suas tribulações, porque não vê nenhuma possibilidade de sair delas. Pois assim ele se lamenta (v. 9): “Meu olho pranteia por causa da aflição”. Às vezes, dar vazão à dor pelo choro traz algum alívio a um espírito perturbado.
Ainda assim, o choro não deve impedir a oração; devemos semear com lágrimas: “Meu olho pranteia”, mas “a ti tenho clamado diariamente”. Que orações e lágrimas andem juntas, e juntas serão aceitas. Ouvi suas orações; vi suas lágrimas.
Versículos 10 a 18
Apelo a Deus.
Nestes versículos:
I. O salmista interpela a Deus a respeito da condição deplorável em que agora se encontrava (vv. 10-12): “Farás uma obra milagrosa em favor dos mortos e os trarás de volta à vida?” “Os mortos e sepultados se levantarão para louvar-te?”
“Não: deixam aos filhos o encargo de levantar-se em seu lugar para louvar a Deus; ninguém espera que eles próprios o façam. E por que se levantariam, por que viveriam, senão para louvar a Deus? A vida para a qual nascemos no princípio e aquela para a qual esperamos ressuscitar no fim devem ser empregadas dessa maneira.”
“Mas tua benignidade para com teu povo será declarada na sepultura, ou pelos que ali jazem ou a eles?” “E tua fidelidade à tua promessa, será anunciada na perdição?”
“Serão tuas maravilhas realizadas nas trevas ou conhecidas ali, e tua justiça na sepultura, terra do esquecimento, onde os homens nada recordam nem são eles próprios recordados?”
“As almas dos que partiram podem, de fato, conhecer as maravilhas de Deus e anunciar sua fidelidade, justiça e benignidade; os corpos dos que morreram, porém, não podem. Eles não podem receber os favores de Deus como consolo nem corresponder a eles com louvor.”
Agora, não suporemos que essas interpelações sejam a linguagem do desespero, como se ele julgasse que Deus não pudesse ajudá-lo ou não quisesse fazê-lo; muito menos implicam qualquer descrença na ressurreição dos mortos no último dia.
Ele, porém, apela assim a Deus por socorro rápido: “Senhor, tu és bom, tu és fiel, tu és justo.” “Esses teus atributos se tornarão conhecidos em meu livramento.”
“Mas, se ele não for apressado, chegará tarde demais, pois em breve estarei morto e além de qualquer socorro, morto e incapaz de receber consolo algum”. Jó muitas vezes apelou assim, Jó 7:8; 10:21.
II. Ele resolve perseverar com insistência na oração, tanto mais porque o livramento tardava (v. 13). “A ti tenho clamado muitas vezes e encontrado consolo nisso; portanto, continuarei a fazê-lo; pela manhã minha oração te precederá.”
Repare: embora nossas orações não recebam resposta imediata, ainda assim não devemos por isso deixar de orar, porque a visão está reservada para um tempo determinado e, no fim, falará e não mentirá. Deus demora a resposta para provar nossa paciência e perseverança na oração.
Ele resolve buscar a Deus cedo, pela manhã, quando seu espírito estava vigoroso e antes que os afazeres do dia começassem a se acumular. Pela manhã, depois de ter sido agitado por preocupações e pensamentos tristes no silêncio e na solidão da noite. Mas como poderia dizer: “Minha oração te precederá”?
Não como se pudesse acordar para orar antes que Deus acordasse para ouvir e responder, pois Deus não cochila nem dorme. Isso indica que ele se levantaria mais cedo que de costume para orar: precederia, isto é, se adiantaria à sua hora habitual de oração.
Quanto maiores forem nossas aflições, mais ansiosos e sérios devemos ser na oração. “Minha oração se apresentará diante de ti e chegará cedo a ti; não esperará pelo ânimo trazido pelo começo da misericórdia, mas se estenderá em direção a ela com fé e expectativa antes mesmo de raiar o dia.”
Deus muitas vezes precede nossas orações e expectativas com suas misericórdias; precedamos nós suas misericórdias com nossas orações e expectativas.
III. Ele expõe o que dirá a Deus em oração:
- Raciocinará humildemente com Deus sobre a condição abatida e afligida em que se encontrava (v. 14): “Senhor, por que rejeitas a minha alma?” “O que te provoca a tratar-me como alguém abandonado?” “Mostra-me por que contendes comigo.”
Ele expressa sua admiração por Deus rejeitar um antigo servo, que estava resolvido a não rejeitá-lo: “Não é de admirar que os homens me rejeitem; mas por que tu, Senhor, cujos dons e chamados não se revogam, me rejeitas?”
“Por que escondes a tua face, como alguém irado comigo, que ou não tem favor por mim ou não quer que eu saiba que o tem?”
Nada entristece tanto um filho de Deus quanto Deus esconder-lhe o rosto; nada ele teme tanto quanto a possibilidade de Deus rejeitar sua alma. Se o sol for encoberto pelas nuvens, a terra escurecerá. Mas, se o sol abandonasse a terra e a rejeitasse por completo, que masmorra ela se tornaria!
- Ele repetirá humildemente as mesmas queixas já apresentadas, até que Deus tenha misericórdia dele. Apresenta a Deus duas coisas como motivos de sua dor:
(1.) Que Deus era motivo de terror para ele: “Sofro os teus terrores”, v. 15. Ele tinha continuamente percepções assustadoras da cólera de Deus contra si por seus pecados e das consequências dessa cólera. Pensar em Deus o aterrorizava: cair nas mãos dele e apresentar-se diante dele para receber sua condenação.
Ele suava e tremia ao pensar no desagrado de Deus contra si e no terror de sua majestade. Repare: até aqueles a quem os favores de Deus são destinados podem, por algum tempo, sofrer seus terrores. O espírito de adoção é primeiro um espírito de escravidão ao medo.
O pobre Jó queixou-se dos terrores de Deus que se punham em ordem de batalha contra ele, Jó 6:4. Aqui o salmista explica o que entende por terrores de Deus: sua cólera feroz. Vejamos que impressões terríveis esses terrores lhe causaram e quão profundamente o feriram.
[1.] Quase lhe tiraram a vida: “Estou tão afligido por eles que estou prestes a morrer e” (como diz a palavra) “a entregar o espírito.” “Os teus terrores me cortaram”, v. 16.
Que é o inferno, essa exclusão eterna pela qual os pecadores condenados ficam para sempre apartados de Deus e de toda felicidade, senão os terrores de Deus se fixando na consciência culpada deles e devorando-a?
[2.] Quase lhe tiraram o uso da razão: quando sofria os terrores de Deus, ficava fora de si.
Esse efeito triste os terrores do Senhor tiveram sobre muitos, inclusive sobre alguns homens bons, que por eles perderam por completo o domínio da própria alma. É um caso profundamente lastimável, que deve ser considerado com grande compaixão.
[3.] Isso vinha acontecendo havia muito tempo: desde a juventude ele sofria os terrores de Deus. Desde a infância, era afligido pela melancolia e fora criado na dor, sob a disciplina dessa escola.
Se começamos nossos dias com tribulação e se os dias de nosso luto se prolongaram por muito tempo, não consideremos isso estranho; deixemos, porém, que a tribulação produza paciência.
É digno de nota que Hemã, que se tornou notavelmente sábio e bom, era afligido e estava prestes a morrer, sofrendo os terrores de Deus desde a juventude.
Assim, muitos descobriram que lhes fez bem carregar o jugo na juventude e que a tristeza lhes foi muito melhor do que teria sido o riso.
Tendo sido muito afligidos e muitas vezes estado à beira da morte quando jovens, adquiriram, pela graça de Deus, uma seriedade habitual e um desapego do mundo de grande utilidade por todos os seus dias.
Às vezes, Deus prepara por meio de exercícios desse tipo aqueles que destina a serviços notáveis.
[4.] Sua aflição era agora extrema e pior do que nunca. Os terrores de Deus agora o cercavam, de modo que era atacado de todos os lados por diversas tribulações, sem que de nenhum ponto da bússola viesse uma brisa consoladora.
Eles irrompiam sobre ele todos juntos, como uma inundação de água; e isso diariamente, durante o dia inteiro. Assim, ele não tinha descanso nem trégua, nem o menor instante para respirar, nem intervalos de lucidez, nem qualquer raio de esperança.
Esse era o estado calamitoso de um homem muito sábio e bom. Estava tão cercado de terrores que não achava lugar de abrigo nem podia proteger-se do vento em parte alguma.
(2.) Que nenhum amigo que ele tinha no mundo era um consolo para ele (v. 18): “Amado e amigo afastaste de mim”. Alguns haviam morrido, outros estavam distantes e talvez muitos não lhe mostrassem bondade.
Depois dos consolos da religião, vêm os da amizade e do convívio. Por isso, não ter amigos é, nesta vida, quase não ter consolo; e, para os que tiveram amigos mas os perderam, a calamidade é ainda mais dolorosa.
Com isso o salmista encerra sua queixa, como se fosse o que completava sua desgraça e dava o último golpe nesse quadro melancólico.
Se nossos amigos são afastados de nós por providências que nos dispersam, ou melhor, se, pela morte, nossos conhecidos são removidos para as trevas, temos motivo para considerar isso uma grave aflição. Devemos, porém, reconhecer a mão de Deus nisso e submeter-nos a ela.