Matthew Henry

Salmos 85

Argumento

Os intérpretes geralmente são da opinião de que este salmo foi escrito depois que os judeus voltaram do cativeiro na Babilônia, quando ainda permaneciam sob alguns sinais do desagrado de Deus e aqui oram para que sejam removidos. Nada indica o contrário: ele pode ter sido escrito então, assim como Salmos 137.

São os interesses públicos que estão aqui próximos do coração do salmista, e o salmo foi escrito para a grande congregação. A igreja estava aqui em meio a um dilúvio: acima havia nuvens, abaixo havia ondas; tudo era escuro e sombrio.

A igreja é como Noé na arca, entre a vida e a morte, entre a esperança e o temor. Assim, I. Aqui está a pomba enviada em oração. As súplicas são contra o pecado e a cólera (v. 4) e em favor da misericórdia e da graça, v. 7. Os apelos se baseiam nos favores anteriores (vv. 1-3) e nas aflições presentes, v. 5, 6.

II. Aqui está a pomba voltando com um ramo de oliveira de paz e boas novas. O salmista espera seu retorno (v. 8) e então enumera os favores concedidos ao Israel de Deus, dos quais, pelo espírito de profecia, deu certeza aos outros e, pelo espírito de fé, tomou para si essa certeza, vv. 9-13.

Ao cantar este salmo, podemos receber auxílio em nossas orações a Deus tanto por sua igreja em geral quanto pela terra de nossa origem em particular. A primeira parte servirá para orientar nossos desejos; a segunda, para animar nossa fé e esperança nessas orações.

Oração em Tempo de Tribulação.

Versículos 1 a 6

Ao Músico-Mor. Um Salmo para os Filhos de Corá.

A igreja, em aflição e angústia, dirige-se aqui a Deus por orientação dele. Deus está tão pronto a ouvir e responder às orações de seu povo que, por seu Espírito na palavra e no coração, ele mesmo formula suas súplicas e põe palavras em sua boca. O povo de Deus, muito abatido e fraco, aprende aqui a dirigir-se a ele.

I. Devem reconhecer com gratidão as grandes coisas que Deus fez por eles (vv. 1-3): “Fizeste tais e tais coisas por nós e por nossos pais.” Repare: a percepção das aflições presentes não deve afogar a lembrança das misericórdias anteriores.

Mas, mesmo quando somos levados a uma condição muito baixa, devemos recordar as experiências passadas da bondade de Deus, nas quais devemos reparar com gratidão, para seu louvor. Eles falam disso aqui com prazer:

  1. Que Deus se mostrara favorável à terra deles e sorrira para ela como sua: “Foste favorável à tua terra, como tua, com favores especiais.” Repare: o favor de Deus é a nascente de todo bem e a fonte da felicidade, tanto para as nações quanto para cada pessoa.

Foi pelo favor de Deus que Israel conquistou e manteve Canaã (Salmos 44:3). Se ele não lhes tivesse continuado muito favorável, teriam sido arruinados muitas vezes.

  1. Que ele os resgatara das mãos dos inimigos e lhes restituíra a liberdade: “Fizeste voltar os cativos de Jacó e estabeleceste outra vez na própria terra os que tinham sido expulsos, estrangeiros em terra estranha, prisioneiros na terra de seus opressores.”

O cativeiro de Jacó, embora possa durar muito, terá seus cativos trazidos de volta no tempo devido.

  1. Que ele não os tratara conforme mereciam por suas provocações (v. 2): “Perdoaste a iniquidade do teu povo e não os castigaste como, em justiça, poderias ter feito. Encobriste todo o seu pecado.” Quando Deus perdoa o pecado, ele o encobre; quando encobre o pecado de seu povo, encobre-o todo.

O retorno dos cativos era então uma demonstração do favor de Deus a eles, quando vinha acompanhado do perdão de sua iniquidade.

  1. Que ele não mantivera sua ira contra eles na medida nem pelo tempo que tinham motivos para temer (v. 3): “Tendo encoberto todo o seu pecado, afastaste toda a tua cólera.” Pois, quando o pecado é afastado, cessa a ira de Deus; Deus é apaziguado se somos purificados.

Veja o que é o perdão do pecado: “Perdoaste a iniquidade do teu povo”, isto é: “Fizeste tua ira deixar de se acender a ponto de nos consumir em suas chamas.” “Por compaixão de nós, não despertaste toda a tua cólera; mas, quando um intercessor se pôs diante de ti na brecha, desviaste tua ira.”

II. Aprendem a orar a Deus por graça e misericórdia quanto à angústia presente. Isso se deduz do que foi dito antes: “Fizeste o bem a nossos pais; faze o bem a nós, pois somos filhos da mesma aliança.”

  1. Oram pela graça que converte: “Faze-nos voltar, ó Deus da nossa salvação!” “Para que voltemos do cativeiro, faze-nos voltar da iniquidade; faze-nos voltar a ti e ao nosso dever; faze-nos voltar, e voltaremos.” Deus fará voltar, cedo ou tarde, todos os que salvará. Sem conversão não há salvação.

  2. Oram para que sejam removidos os sinais do desagrado de Deus sob os quais estavam: “Faze cessar tua ira para conosco, como a fizeste cessar tantas vezes nos dias de nossos pais, quando afastaste deles tua cólera.”

Observe o método: “Primeiro faze-nos voltar a ti e depois faze tua ira afastar-se de nós.” Quando somos reconciliados com Deus, então, e só então, podemos esperar o consolo de sua reconciliação conosco.

  1. Oram para que Deus lhes manifeste sua boa vontade (v. 7): “Mostra-nos tua misericórdia, ó Senhor! Mostra-te misericordioso para conosco: não apenas tem misericórdia de nós, mas deixa-nos ter provas consoladoras dessa misericórdia; faze-nos saber que tens misericórdia de nós e ainda a reservas para nós.”

  2. Oram para que Deus se manifeste em favor deles, por graça para com eles e para sua própria glória: “Concede-nos tua salvação; concede-a por tua promessa e então, sem dúvida, a realizarás por tua providência.”

Repare: os vasos da misericórdia de Deus são herdeiros de sua salvação. Ele mostra misericórdia àqueles a quem concede salvação, pois a salvação vem de pura misericórdia.

III. Aprendem a argumentar humildemente com Deus a respeito das tribulações presentes, v. 5, 6. Observe aqui:

  1. O que temem e suplicam que seja afastado: “Estarás para sempre irado contra nós?” “Estaremos perdidos se estiveres, mas esperamos que não estejas.” “Estenderás tua ira por todas as gerações?” “Não; tu és bondoso, lento para a ira e pronto a mostrar misericórdia, e não contenderás para sempre.”

“Não ficaste irado para sempre com nossos pais; mas logo te afastaste do furor da tua cólera.” “Por que então ficarás para sempre irado contra nós?” “Tuas misericórdias e compaixões não são tão abundantes e poderosas quanto sempre foram?”

“Deus ficará para sempre irado com os pecadores impenitentes, pois o que é o inferno senão a cólera de Deus estendida por gerações sem fim?” “Mas um inferno na terra será o quinhão do teu povo?”

  1. O que desejam e esperam: “Não nos avivarás outra vez (v. 6), avivando-nos com consolações que nos são ditas, avivando-nos com livramentos realizados em nosso favor?” “Antes foste favorável à tua terra, e isso a avivou; não voltarás a ser favorável e assim a avivarás outra vez?”

Deus já concedera aos filhos do cativeiro algum avivamento em sua servidão, Esdras 9:8. Sua volta da Babilônia foi como uma vida dentre os mortos, Ezequiel 37:11, 12.

Dizem eles: “Agora, Senhor, não nos avivarás outra vez e não estenderás tua mão novamente, uma segunda vez, para nos reunir?” Salmos 126:1, 4. “Aviva tua obra no meio dos anos”, Habacuque 3:2.

“Aviva-nos outra vez”: (1.) “Para que teu povo se alegre, e assim teremos o consolo disso”, Salmos 14:7. Dê-lhes vida para que tenham alegria. (2.) “Para que se alegrem em ti, e assim terás a glória disso.” Se Deus é a fonte de todas as nossas misericórdias, deve ser o centro de todas as nossas alegrias.

Versículos 8 a 13

Resposta Divina à Oração; Bênçãos Concedidas em Resposta à Oração.

Temos aqui uma resposta às orações e aos argumentos apresentados nos versículos anteriores.

I. De modo geral, é uma resposta de paz. O salmista logo percebe isso (v. 8), pois se posta em sua torre de vigia para ouvir o que Deus lhe dirá, como o profeta, Habacuque 2:1, 2: “Ouvirei o que Deus, o Senhor, falará.” Isso indica:

  1. O aquietamento de suas paixões — sua dor e seu temor — e da agitação que elas causavam em seu espírito: “Aquieta-te, ó minha alma, em humilde silêncio, para atender a Deus e esperar seus movimentos.”

“Falei o bastante, ou demais; agora ouvirei o que Deus falará e acolherei sua santa vontade.” “Que diz meu Senhor a seu servo?” Se queremos que Deus ouça o que lhe dizemos em oração, devemos estar prontos para ouvir o que nos diz por sua palavra.

  1. A elevação de sua expectativa. Depois de orar, ele espera algo muito grande e muito bondoso do Deus que ouve as orações. Quando oramos, devemos acompanhar nossas orações e aguardar resposta. Agora observe aqui:

(1.) O que ele espera de Deus em resposta às orações: “Ele falará de paz ao seu povo e aos seus santos.” Há no mundo um povo que pertence a Deus, separado para ele, sujeito a ele e que será salvo por ele.

Todos os integrantes de seu povo são santos, santificados por sua graça e dedicados à sua glória. Às vezes pode lhes faltar a paz, quando fora há combates e dentro há temores. Mas, cedo ou tarde, Deus lhes falará de paz.

Mesmo que não ordene a paz exterior, ele sugerirá a paz interior, falando ao coração deles por seu Espírito aquilo que já lhes falou aos ouvidos por sua palavra e por seus ministros, fazendo-os ouvir alegria e contentamento.

(2.) O uso que faz dessa expectativa:

[1.] Recebe dela consolo, como nós também devemos fazer: “Ouvirei o que Deus, o Senhor, falará, ouvirei as garantias de paz que ele dá em resposta à oração.” Quando Deus fala de paz, não devemos fechar os ouvidos, mas recebê-la com toda a humildade e gratidão.

[2.] Adverte os santos sobre o dever que essa promessa exige: “Mas não voltem à loucura”; pois só nesses termos, e em nenhum outro, se pode esperar a paz. A paz é anunciada aos que abandonam o pecado, e somente a eles; mas, se tornarem a ele, será por sua conta e risco.

Todo pecado é loucura, mas recair nele o é especialmente. É loucura evidente voltar ao pecado depois de parecermos ter nos afastado dele, voltar a ele depois de Deus ter falado de paz. Deus quer a paz, mas, quando fala, tais pessoas querem a guerra.

II. Aqui estão os detalhes dessa resposta de paz. O salmista não duvida de que em pouco tempo tudo estará bem. Por isso, nos últimos cinco versículos do salmo, apresenta a agradável perspectiva da condição florescente da igreja.

Eles descrevem a paz e a prosperidade com que Deus por fim abençoou os filhos do cativeiro quando, depois de muito trabalho e agitação, por fim alcançaram estabilidade na própria terra.

Mas o trecho também pode ser entendido tanto como promessa a todos os que temem a Deus e praticam a justiça, de que viverão tranquilos e felizes, quanto como profecia do reino do Messias e das bênçãos com que esse reino seria enriquecido. Aqui está:

  1. Socorro próximo (v. 9): “Certamente sua salvação está perto, perto de nós, mais perto do que pensamos. Logo será realizada, por maiores que sejam nossas dificuldades e angústias, quando chegar o tempo de Deus, e esse tempo não está longe.”

Quando a quota de tijolos é dobrada, Moisés vem. A salvação está perto de todos os que temem a Deus; quando a tribulação está próxima, a salvação também está, pois Deus é auxílio bem presente no tempo da tribulação para todos os que são seus.

Já “a salvação está longe dos perversos”, Salmos 119:155. Isso pode aplicar-se apropriadamente a Cristo, autor da salvação eterna.

Era consolo para os santos do Antigo Testamento saber que, embora não vivessem para ver a redenção em Jerusalém pela qual esperavam, tinham, contudo, certeza de que ela estava próxima e seria bem-vinda a todos os que temem a Deus.

  1. Honra assegurada: “Para que a glória habite em nossa terra, para que o culto a Deus fique firmado e estabelecido entre nós, pois essa é a glória de uma terra. Quando o culto se vai, é Icabode — a glória partiu; quando permanece, a glória habita.”

Isso pode referir-se ao Messias, que seria a glória de seu povo Israel e que veio e habitou entre eles (João 1:14). Por isso, sua terra é chamada “terra de Emanuel”, Isaías 8:8.

  1. Graças que se encontram e se abraçam alegremente (v. 10, 11): a misericórdia e a verdade, a justiça e a paz, beijam-se mutuamente. Isso pode ser entendido:

(1.) Da reforma do povo e do governo, em cuja administração todas essas graças deveriam sobressair e exercer autoridade. Governantes e governados serão todos misericordiosos e verdadeiros, justos e pacíficos.

Quando não há verdade nem misericórdia, tudo caminha para a ruína (Oseias 4:1; Isaías 59:14, 15). Mas, quando essas graças se encontram na condução de todos os assuntos, quando orientam e dão a lei, quando há tanta verdade que ela brota como a erva da terra e tanta justiça que ela é derramada como chuva do céu, então tudo vai bem.

Quando em toda reunião a misericórdia e a verdade se encontram, em todo abraço a justiça e a paz se beijam, e a honestidade comum é de fato comum, a glória habita na terra, assim como o pecado da desonestidade dominante é um descrédito para qualquer povo.

(2.) Do retorno do favor de Deus e de sua permanência a partir daí. Quando um povo volta a Deus e permanece fiel a ele no caminho do dever, Deus voltará a esse povo e com ele permanecerá no caminho da misericórdia.

Alguns entendem assim: a verdade do homem e a misericórdia de Deus, a justiça do homem e a paz de Deus, encontram-se. Se Deus nos encontrar fiéis a ele, uns aos outros e a nós mesmos, nós o encontraremos misericordioso.

Se agirmos conscienciosamente com justiça, teremos o consolo da paz. Se a verdade brotar da terra, isto é, como explica o dr. Hammond, dos corações humanos, o solo próprio para ela crescer, a justiça — isto é, a misericórdia de Deus — olhará do céu para baixo.

Será como o sol que olha para o mundo quando derrama suas influências sobre os produtos da terra e os nutre.

(3.) Da harmonia dos atributos divinos na obra assumida pelo Messias. Nele, que é tanto nossa salvação quanto nossa glória, a misericórdia e a verdade se encontraram; a misericórdia e a verdade de Deus, sua justiça e sua paz, beijaram-se.

Isto é, o grande assunto de nossa salvação foi tão bem planejado e tão bem combinado que Deus pode ter misericórdia dos pobres pecadores e estar em paz com eles sem violar sua verdade nem sua justiça.

Ele é fiel à ameaça e justo em seu governo e, contudo, perdoa os pecadores e os recebe em aliança consigo. Cristo, como Mediador, une de novo o céu e a terra, que o pecado havia posto em desavença.

Por meio dele, a verdade brota da terra — aquela verdade que Deus deseja no íntimo — e então a justiça olha do céu para baixo, pois Deus é justo e justificador dos que creem em Jesus. Ou isso pode indicar que, no reino do Messias, essas graças florescerão, prevalecerão e exercerão domínio universal.

  1. Grande abundância de tudo que é desejável (v. 12): “O Senhor dará o que é bom”, tudo o que ele vê ser bom para nós. Todo bem procede da bondade de Deus. Quando a misericórdia, a verdade e a justiça exercem influência soberana sobre o coração e a vida das pessoas, podemos esperar todo bem.

Se buscarmos assim a justiça do reino de Deus, as outras coisas nos serão acrescentadas, Mateus 6:33. Quando a glória do evangelho habitar em nossa terra, nossa terra dará seu fruto, pois a prosperidade da alma ou trará consigo a prosperidade exterior ou tornará mais doce a falta dela. Veja Salmos 67:6.

  1. Orientação segura no bom caminho (v. 13): A justiça de sua promessa feita a nós, que nos assegura a felicidade, e a justiça da santificação, essa boa obra que ele realizou em nós, irão adiante dele para preparar seu caminho.

Elas tanto elevarão nossa expectativa de seu favor quanto nos tornarão aptos para recebê-lo. Irão também adiante de nós, guiando-nos para pôr-nos no caminho de seus passos, isto é, para animar nossas esperanças e orientar nossa conduta, a fim de que saiamos ao encontro dele quando vier a nós em caminhos de misericórdia.

Cristo, o sol da justiça, nos levará a Deus e nos colocará no caminho que conduz a ele. João Batista, pregador da justiça, irá adiante de Cristo para preparar seu caminho. A justiça é guia segura tanto para ir ao encontro de Deus quanto para segui-lo.


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