Salmos 84
Argumento
Embora o nome de Davi não apareça no título deste salmo, ainda assim temos motivos para pensar que ele o escreveu, pois o salmo expressa muito do seu excelente espírito e se parece muito com o Salmo 63, escrito por ele.
Supõe-se que Davi tenha escrito este salmo quando a rebelião de Absalão o obrigou a deixar sua cidade. Ele lamentou estar afastado dela, não tanto por ser a cidade real, mas por ser a cidade santa.
É o que testemunha este salmo, que contém os suspiros piedosos de uma alma alcançada pela graça, desejosa de Deus e de comunhão com ele.
Embora não leve esse título, ainda assim pode ser considerado, com propriedade, um salmo ou cântico para o dia de sábado, o dia das nossas assembleias solenes. O salmista expressa aqui, com grande devoção, seu afeto:
I. Pelas ordenanças de Deus: o valor que lhes atribui (v. 1), o desejo que tem por elas (v. 2, 3), sua convicção da felicidade daqueles que as desfrutam (vv. 4-7) e o quanto ele situa sua própria felicidade em desfrutá-las, v. 10.
II. Pelo Deus das ordenanças: seu desejo por ele (v. 8, 9), sua fé nele (v. 11) e sua convicção da felicidade dos que depositam nele sua confiança, v. 12.
Ao cantar este salmo, devemos ter os mesmos afetos devotos dirigidos a Deus que Davi tinha; então, cantá-lo será muito agradável.
Os Prazeres do Culto Público; Benefício do Culto Público.
Ao Músico-Mor, sobre Gitite. Salmo para os Filhos de Corá.
Versículos 1 a 7
O salmista, impedido à força de buscar a Deus nas ordenanças públicas, é levado pela falta delas a reconhecer seu valor de modo mais palpável do que nunca. Observe:
I. A admirável beleza que via nas instituições sagradas (v. 1): “Quão amáveis são os teus tabernáculos, ó Senhor dos exércitos!” Alguns pensam que aqui ele chama Deus de Senhor dos exércitos, isto é, de modo especial, dos anjos, os exércitos celestiais, por causa da presença dos anjos no santuário de Deus.
Os anjos acompanhavam a Shekiná e, segundo alguns, eram representados pelos querubins. Deus é o Senhor desses exércitos, e o tabernáculo lhe pertence. Este é mencionado no plural, “teus tabernáculos”, porque havia diversos átrios frequentados pelo povo e porque o tabernáculo tinha o lugar santo e o santíssimo.
Quão amáveis são eles! Quão belo é o santuário aos olhos de todos os que são verdadeiramente santificados! As almas alcançadas pela graça veem uma beleza admirável e inexprimível na santidade e na obra santa.
Um tabernáculo era uma habitação humilde, mas a desvantagem das circunstâncias externas em nada torna menos amáveis as santas ordenanças, pois a beleza da santidade é espiritual, e a glória delas está no interior.
II. O desejo ardente que tinha de voltar a desfrutar das ordenanças públicas ou, antes, de Deus nelas, v. 2. Era um desejo integral: corpo, alma e espírito se juntavam nele. Não percebia em si mesmo surgir nenhum pensamento em contrário.
Era um desejo intenso, como o dos ambiciosos, dos avarentos ou dos amantes dos prazeres. Ele ansiava, desfalecia e clamava, insistindo para ser restituído ao seu lugar nos átrios de Deus e quase sem paciência para suportar a demora.
Contudo, não eram tanto os átrios do Senhor que desejava; em oração, clamava pelo próprio Deus vivo. Ah, se pudesse conhecê-lo e ser novamente admitido à comunhão com ele! 1 João 1:3. As ordenanças são coisas vazias se não encontrarmos Deus nelas.
III. Ele invejava a felicidade das pequenas aves que faziam ninhos nas construções junto aos altares de Deus, v. 3. Essa é uma expressão elegante e surpreendente de seu afeto pelos altares de Deus: “O pardal encontrou uma casa, e a andorinha, um ninho para si”.
Essas pequenas aves, pelo instinto e pela orientação da natureza, arranjam morada em casas, assim como outras aves o fazem nos bosques, tanto para seu próprio repouso quanto para colocar seus filhotes.
Davi supõe que algumas delas habitassem as construções ao redor dos átrios da casa de Deus e deseja estar com elas. Preferiria morar num ninho de ave perto dos altares de Deus a morar num palácio distante deles.
Às vezes desejava as asas de uma pomba para voar ao deserto (Salmos 55:6); aqui deseja as asas de um pardal para voar sem ser percebido até os átrios de Deus.
Embora vigiar como um pardal solitário no telhado descreva uma condição e um estado de espírito muito melancólicos (Salmos 102:7), ainda assim Davi aceitaria de bom grado essa sorte, desde que pudesse estar perto dos altares de Deus. É melhor servir a Deus na solidão do que servir ao pecado em meio a uma multidão.
A palavra para pardal designa qualquer ave pequena. Se me é permitido conjecturar, talvez, quando a música vocal e instrumental se difundiu tanto no serviço sagrado na época de Davi, houvesse pássaros cantores em gaiolas penduradas ao redor dos átrios do tabernáculo para completar a harmonia. Pois encontramos menção ao canto das aves para a glória de Deus, Salmos 104:12.
Davi inveja a felicidade dessas aves e trocaria de lugar com elas de bom grado. Observe: Davi não inveja a felicidade das aves que apenas voavam sobre os altares e viam de passagem os átrios de Deus, mas a daquelas que tinham ali seus próprios ninhos.
Davi não considerará suficiente hospedar-se na casa de Deus como um viajante que se desvia do caminho para passar uma noite; deseja que ela seja seu lugar de repouso, sua casa, onde habitará. E observa que essas aves não só têm ali ninhos para si mesmas, mas também ali colocam seus filhotes.
Pois aqueles que têm lugar nos átrios de Deus não podem deixar de desejar que seus filhos também tenham um lugar e um nome na casa de Deus, dentro de seus muros, e que possam alimentar seus cabritos junto às tendas dos pastores.
Alguns dão outro sentido a esse versículo: “Senhor, pela tua providência deste às aves ninhos e lugares de repouso adequados à sua natureza, aos quais têm livre acesso. Mas ao teu altar, que é meu ninho e meu lugar de repouso, tão desejado por mim quanto o ninho por qualquer ave errante, não posso ter acesso”.
“Senhor, proverás melhor para tuas aves do que para tuas criancinhas? Sou como uma ave que se afasta do ninho, agora que vagueio longe do lugar dos altares de Deus, pois esse é meu lugar (Provérbios 27:8). Jamais ficarei tranquilo até voltar ao meu lugar”.
Repare: aqueles cuja alma se sente em casa e em repouso em Deus não podem deixar de desejar uma morada estável perto das ordenanças dele. Havia dois altares, um para o sacrifício e outro para o incenso.
Davi, ao desejar um lugar nos átrios de Deus, tem ambos em vista, assim como nós, em toda a nossa busca de Deus, devemos ter em vista tanto a satisfação quanto a intercessão de Cristo.
Por fim, observe como ele contempla Deus nessa súplica: “Tu és o Senhor dos exércitos, meu Rei e meu Deus”. Onde um pobre súdito angustiado buscaria proteção, senão junto a seu rei? E não deveria um povo buscar seu Deus? Meu Rei, meu Deus, é o Senhor dos exércitos; junto dele e de seus altares, que eu viva e morra.
IV. Seu reconhecimento da felicidade tanto dos ministros quanto do povo que tinham liberdade de comparecer aos altares de Deus: “Bem-aventurados são eles. Ah, quando voltarei a desfrutar dessa bem-aventurança?”
- Bem-aventurados os ministros, sacerdotes e levitas, que residem perto do tabernáculo e, em seus turnos, se ocupam do serviço nele (v. 4): “Bem-aventurados os que habitam em tua casa”, que ali se sentem em casa e ali exercem sua ocupação.
Longe de ter pena deles por estarem presos a uma presença constante e obrigados à contínua seriedade, ele os invejaria antes de invejar os maiores príncipes do mundo. Há quem chame bem-aventurados os avarentos, mas ele chama bem-aventurados os religiosos.
“Bem-aventurados os que habitam em tua casa”, não porque recebem boa remuneração, uma parte de cada sacrifício para si, que lhes permitiria ter uma boa mesa, mas porque têm um bom trabalho: “Eles continuamente te louvarão”. Se existe um céu na terra, ele está em louvar a Deus, em louvá-lo continuamente.
Aplique isso à casa dele no alto: bem-aventurados os que ali habitam, anjos e santos glorificados, pois não cessam de louvar a Deus, nem de dia nem de noite. Portanto, dediquemos o máximo possível do nosso tempo a esse trabalho bem-aventurado, no qual esperamos passar uma eternidade alegre.
- Bem-aventurado é o povo, os habitantes do país. Embora não habitem constantemente na casa de Deus como os sacerdotes, ainda assim têm liberdade de acesso a ela nas épocas marcadas para suas festas solenes: as três grandes festas, nas quais todos os homens tinham obrigação de comparecer, Deuteronômio 16:16.
Davi estava tão longe de considerar isso uma imposição e uma agrura para eles que inveja a felicidade daqueles que podiam comparecer, vv. 5-7. Os que ele declara bem-aventurados são descritos aqui:
(1.) São pessoas que agem na religião movidas por um princípio arraigado de dependência de Deus e dedicação a ele: “Bem-aventurado o homem cuja força está em ti”. Ele faz de Deus sua força e nele se apoia firmemente; faz do nome de Deus sua torre forte, à qual corre em busca de segurança, Provérbios 18:10.
Feliz é o homem cuja esperança está no Senhor, seu Deus, Salmos 40:4; 146:5. Na verdade, felizes são aqueles que iniciam e prosseguem nos exercícios da religião, não pela própria força, pois então a obra certamente fracassará, mas pela força da graça de Jesus Cristo, de quem vem toda a nossa suficiência.
Davi desejava voltar aos tabernáculos de Deus para ali fortalecer-se no Senhor, seu Deus, tanto para servir quanto para sofrer.
(2.) São pessoas que amam as santas ordenanças: “Em cujo coração estão os caminhos delas”. Isto é, tendo posto sua felicidade em Deus como seu fim, alegram-se em todos os caminhos que conduzem a ele, todos os meios pelos quais suas graças são fortalecidas e sua comunhão com ele é mantida.
Não só andam nesses caminhos, mas os guardam no coração e os mantêm perto dele. Nenhum zelo ou preocupação, nenhum prazer ou deleite, lhes está mais próximo do que isso.
Repare: quem tem em vista a nova Jerusalém precisa guardar no coração os caminhos que levam a ela, dar-lhes atenção e fixar os olhos para a frente ao percorrê-los. Precisa examinar suas veredas, permanecer nelas e temer desviar-se para a direita ou para a esquerda.
Se fazemos da promessa de Deus nossa força, precisamos fazer da palavra de Deus nossa regra e andar de acordo com ela.
(3.) São pessoas que vencem dificuldades e motivos de desânimo para buscar a Deus nas santas ordenanças, v. 6. Quando sobem do interior para adorar nas festas, seu caminho passa por muitos vales secos e arenosos, segundo alguns, onde correm o risco de morrer de sede.
Para se prevenir contra essa dificuldade, cavam pequenas cisternas para receber e guardar a água da chuva, que fica à disposição deles e de outros para revigorá-los.
Quando fazem as poças, a chuva do céu as enche. Se estivermos prontos a receber a graça de Deus, ela não nos faltará, mas nos será suficiente em todos os momentos.
O caminho deles passava por muitos vales de pranto, pois é isso que Baca significa. Ou, segundo outros, por muitos vales alagados que, no tempo chuvoso, quando a chuva enchia as poças, ficavam intransitáveis, seja pela subida das águas, seja pela lama no caminho.
Mas eles drenavam esses vales e abriam valas para fazer neles uma estrada em benefício dos que subiam a Jerusalém. Deve-se cuidar da manutenção tanto dos caminhos que levam à igreja quanto dos que levam ao mercado. Tudo isso pretende mostrar:
[1.] Que tinham boa vontade para fazer a jornada. Quando deviam comparecer às festas solenes em Jerusalém, nem o mau tempo nem os caminhos ruins os impediam; tampouco usavam essas dificuldades como desculpa para ficar em casa.
As dificuldades no caminho do dever destinam-se a pôr à prova nossa determinação; quem observa o vento não semeará.
[2.] Que procuravam tirar o melhor proveito do caminho para Sião: maquinavam como consertar os trechos ruins, esforçavam-se para fazê-lo e suportavam da melhor forma possível as dificuldades que não podiam eliminar.
Nosso caminho para o céu passa por um vale de Baca, mas até ele pode se tornar um poço se aproveitarmos devidamente as consolações que Deus preparou para os peregrinos rumo à cidade celestial.
(4.) São pessoas que continuam avançando até finalmente chegar ao fim da jornada, sem parar antes disso (v. 7): “Vão de força em força”. Sua companhia cresce à medida que mais pessoas de cada cidade por onde passam se juntam a ela, até se tornar muito numerosa.
Os que moravam perto esperavam até que os que vinham de mais longe passassem por eles e os chamassem, dizendo: Venham, vamos à casa do Senhor (Salmos 122:1, 2). Assim podiam ir juntos como um só grupo, em sinal do amor que tinham uns pelos outros.
Ou, quanto a cada pessoa, em vez de se cansar pela duração da jornada e pelas dificuldades encontradas, quanto mais se aproximava de Jerusalém, mais disposta e alegre ficava; assim, prosseguiam cada vez mais fortes, Jó 17:9.
Da mesma forma, há a promessa de que “os que esperam no Senhor renovarão as suas forças”, Isaías 40:31. Mesmo onde são fracos, ali são fortes.
Vão de virtude em virtude, segundo alguns; é a mesma palavra usada para a mulher virtuosa. Aqueles que avançam em sua caminhada cristã verão Deus acrescentar graça às suas graças, João 1:16.
Serão transformados “de glória em glória” (2 Coríntios 3:18), de um grau de graça gloriosa a outro, até que, por fim, cada um compareça diante de Deus em Sião para lhe dar glória e receber dele bênçãos.
Repare: os que crescem na graça serão, por fim, aperfeiçoados na glória. O caldeu traz a seguinte leitura: “Vão da casa do santuário à casa da doutrina; e o esforço que dedicaram à lei comparecerá diante de Deus, cuja majestade habita em Sião”.
Devemos passar de um dever a outro, da oração à palavra, da prática do que aprendemos a aprender mais. Se assim fizermos, o benefício disso se manifestará para a glória de Deus e para nosso eterno consolo.
Versículos 8 a 12
Deleite nas Ordenanças de Deus.
I. Aqui o salmista ora para ser ouvido e aceito por Deus, sem mencionar em particular o que desejava que Deus fizesse por ele. Não precisava dizer mais, depois de professar tamanho apreço afetuoso pelas ordenanças de Deus, das quais agora estava afastado e impedido de participar.
Todo o seu desejo, expresso naquela declaração, estava claramente diante de Deus, e seu anseio e seu gemido não lhe estavam ocultos.
Por isso, ora apenas (v. 8, 9) para que Deus ouça sua oração e lhe dê atenção, contemple sua condição, contemple seu bom afeto e olhe para seu rosto: para onde estava voltado e como sua expressão revelava o desejo ardente que tinha pelos átrios de Deus.
Ele se chama, segundo muitos pensam, o ungido de Deus, pois Davi fora ungido por ele e para ele. Nessa petição:
- Ele tem em vista Deus sob vários de seus títulos gloriosos: o Senhor Deus dos Exércitos, que comanda todas as criaturas e, portanto, tem todo o poder tanto no céu quanto na terra.
É o Deus de Jacó, em aliança com seu próprio povo, que nunca disse à descendência de Jacó que orava: “Buscai-me em vão”; e Deus, nosso escudo, que toma seu povo sob proteção especial, conforme sua aliança com Abraão, pai deles.
Gênesis 15:1: “Não temas, Abrão; eu sou teu escudo”. Quando Davi não podia esconder-se no lugar secreto do tabernáculo de Deus (Salmos 27:5), por estar longe dele, ainda assim esperava encontrar Deus como seu escudo, pronto a protegê-lo onde quer que estivesse.
- Ele tem em vista o Mediador, pois entendo antes que se refiram a ele estas palavras: Olhe para o rosto do seu Messias, do seu ungido, visto que Davi falou da unção dele em Salmos 45:7.
Em todas as nossas súplicas a Deus, devemos desejar que ele olhe para o rosto de Cristo, nos aceite por amor a ele e se agrade de nós nele. Devemos olhar com os olhos da fé; então Deus olhará com olhos de favor para o rosto do ungido, que mostra seu rosto quando nós, sem ele, não ousamos mostrar o nosso.
II. Ele apresenta seu amor pelas ordenanças de Deus e sua dependência do próprio Deus.
- Os átrios de Deus eram sua escolha, v. 10. Ele tinha um apreço muito grande pelas santas ordenanças: valorizava-as acima de tudo e expressa o valor que lhes atribui:
(1.) Preferindo o tempo dedicado ao culto a Deus a qualquer outro tempo. Um dia nos átrios de Deus, dedicado aos serviços religiosos e inteiramente afastado dos assuntos seculares, é melhor do que mil, não mil dias ali, mas em qualquer outro lugar do mundo, ainda que em meio a todos os deleites dos filhos dos homens.
“Melhor do que mil”: ele não diz dias; podem-se acrescentar anos ou até eras, se quiserem, e Davi ainda subscreverá essa afirmação.
“Um dia em teus átrios, um sábado, um dia santo, um dia de festa, ainda que apenas um dia, seria muito bem-vindo para mim; ou melhor”, como parafraseiam alguns rabinos, “mesmo que eu tivesse de morrer por isso no dia seguinte, ainda assim esse dia seria mais doce do que anos passados nos negócios e prazeres deste mundo”.
“Um desses dias, com seu prazer, fará mil fugirem; dois farão dez mil recuar envergonhados, como indignos de comparação”.
(2.) Preferindo o lugar de culto a qualquer outro lugar: prefiro ser porteiro, ocupar o lugar e a função mais humildes na casa do meu Deus, a morar com pompa, como senhor, nas tendas da maldade.
Observe: ele chama de casa até mesmo o tabernáculo, pois a presença de Deus nele tornava aquelas cortinas mais imponentes do que um palácio e mais fortes do que um castelo. É a casa do meu Deus: o direito de chamar Deus de seu Deus, decorrente da aliança, era a doce corda que ele gostava de dedilhar.
Somente os que, com bons fundamentos, podem chamar Deus de seu encontram deleite nos átrios da casa dele.
Prefiro ser porteiro na casa de Deus a ser príncipe nas tendas em que reina a maldade; prefiro deitar-me à soleira, pois é esse o sentido da palavra. Ali era o lugar do mendigo (Atos 3:2): “Não importa”, diz Davi, “que esse seja meu lugar, em vez de não ter lugar algum”.
Os fariseus gostavam bastante das sinagogas, contanto que pudessem ocupar nelas os primeiros assentos (Mateus 23:6), para se destacarem. O santo Davi não fica ansioso com isso: se ao menos for admitido à soleira, dirá: “Mestre, é bom estar aqui”.
Alguns leem: prefiro ficar preso a um poste na casa do meu Deus a viver em liberdade nas tendas da maldade. É uma alusão à lei relativa aos servos que, se não quisessem sair livres, tinham a orelha furada junto ao batente da porta, Êxodo 21:5, 6.
Davi amava seu senhor e amava tanto seu trabalho que desejava ficar ligado a esse serviço para sempre, para estar mais livre para ele, mas nunca sair livre dele.
Preferia as amarras do dever à maior liberdade para pecar. Corações santos têm tamanho deleite nos deveres santos; para eles, nenhuma satisfação se compara à da comunhão com Deus.
- O próprio Deus era sua esperança, sua alegria e tudo para ele. Por isso amava a casa do seu Deus: sua expectativa estava em Deus, que ali costumava comunicar-se com ele, v. 11. Veja:
(1.) O que Deus é e será para seu povo: “O Senhor Deus é um sol e um escudo”. Estamos aqui em trevas, mas, se Deus for o nosso Deus, será para nós um sol que nos ilumina e vivifica, que nos guia e dirige.
Estamos aqui em perigo, mas ele será para nós um escudo que nos protege dos dardos inflamados que voam em grande quantidade ao nosso redor.
Com seu favor, ele nos cercará como com um escudo. Portanto, andemos sempre na luz do Senhor e nunca nos coloquemos fora da sua proteção. Assim, veremos que ele é um sol que nos supre de todo bem e um escudo que nos abriga de todo mal.
(2.) O que ele concede e concederá ao seu povo: “O Senhor dará graça e glória”. Graça significa tanto a boa vontade de Deus para conosco quanto a boa obra de Deus em nós. Glória significa tanto a honra que ele nos concede agora, ao nos dar a adoção de filhos, quanto a honra que nos preparou na herança dos filhos.
Deus lhes dará graça neste mundo como preparação para a glória, e glória no outro mundo como aperfeiçoamento da graça. Ambas são dádivas de Deus, dádivas gratuitas.
Assim como, por um lado, Deus dará glória a todos a quem concede graça, pois a graça é a glória iniciada e a garantia dela, por outro, não dará glória no futuro a quem não conceder graça agora, nem a quem receber sua graça em vão.
Se Deus dará graça e glória, as duas grandes coisas que, juntas, nos fazem felizes nos dois mundos, podemos ter certeza de que nenhum bem será negado aos que andam em retidão.
É próprio de todas as pessoas boas andar em retidão, adorar a Deus em espírito e em verdade e comportar-se no mundo com simplicidade e sinceridade piedosa.
Essas pessoas podem estar certas de que Deus não lhes negará nenhum bem necessário para atravessar este mundo com conforto. Assegure-se da graça e da glória, e as demais coisas serão acrescentadas.
Essa é uma promessa abrangente e dá tamanha certeza do consolo presente dos santos que, seja o que for que desejem e julguem necessário, podem ter certeza de uma destas coisas: ou a Sabedoria Infinita vê que aquilo não é bom para eles, ou a Bondade Infinita lhes dará no tempo devido.
Seja nosso zelo andar em retidão e, então, confiar em Deus para nos dar tudo o que for bom para nós.
Por fim, ele declara bem-aventurados os que, como ele, depositam sua confiança em Deus, v. 12. Bem-aventurados os que têm liberdade de participar das ordenanças e os privilégios da casa de Deus. Mas, embora sejamos privados disso, ainda assim não seremos por essa razão privados da bem-aventurança, se confiarmos em Deus.
Se não pudermos ir à casa do Senhor, podemos ir pela fé ao Senhor da casa; nele seremos felizes e poderemos ter tranquilidade.