Matthew Henry

Salmos 78

Argumento

Este salmo é histórico: narra as grandes misericórdias que Deus concedeu a Israel, os grandes pecados com que o provocaram e os muitos sinais de seu desagrado sob os quais estiveram por causa desses pecados.

No salmo anterior, o salmista começou a relatar as maravilhas que Deus fizera na antiguidade, para seu próprio ânimo em tempo difícil. Ali interrompeu o relato abruptamente; aqui retoma o assunto para a edificação da igreja e o desenvolve amplamente.

Mostra não só quanto Deus lhes foi bom, o que era garantia de misericórdia ulterior que completaria sua obra, mas também quão vilmente se comportaram para com ele, o que justificava a correção que lhes infligia naquele tempo e impedia qualquer queixa. Aqui está:

I. O prefácio dessa história da igreja, que exige a atenção da geração presente e a recomenda ao estudo das gerações futuras, vv. 1-8.

II. A própria história, desde Moisés até Davi. Ela foi posta em salmo ou cântico para que fosse mais bem lembrada e transmitida à posteridade e para que seu canto os comovesse com os fatos relatados mais do que uma simples narrativa o faria.

O propósito geral desse salmo aparece nos vv. 9-11: nele se repara nas repreensões que sofriam no presente (v. 9), no pecado que as trouxera sobre eles (v. 10) e nas misericórdias que Deus lhes concedera antes, as quais agravavam aquele pecado, v. 11.

Quanto aos detalhes, somos informados aqui:

  1. Das obras maravilhosas que Deus fizera em favor deles ao tirá-los do Egito (vv. 12-16), ao sustentá-los no deserto (vv. 23-29), ao ferir com pragas e arruinar seus inimigos (vv. 43-53) e, por fim, ao lhes dar a posse da terra prometida, v. 54, 55.

  2. De quão ingratos foram a Deus por seus favores e de quantas e quão grandes provocações se tornaram culpados.

Murmuraram contra Deus e desconfiaram dele (vv. 17-20); quando os castigou, apenas fingiram arrependimento e submissão (vv. 34-37), entristecendo-o e tentando-o assim, vv. 40-42. Depois de chegarem a Canaã, afrontaram a Deus com suas idolatrias, vv. 56-58.

  1. De como Deus os castigara justamente por seus pecados (v. 21, 22) no deserto, fazendo do pecado deles o seu castigo (vv. 29-33), e de como o fizera recentemente, quando a arca foi tomada pelos filisteus, vv. 59-64.

  2. De como Deus, em sua graça, os poupara e voltara a tratá-los com misericórdia, apesar de suas provocações. Antes os havia perdoado (v. 38, 39) e, recentemente, removera os juízos que trouxeram sobre si e lhes dera uma estabilidade feliz tanto na igreja quanto no Estado, vv. 65-72.

Assim como o propósito geral do salmo pode nos ser útil ao cantá-lo, levando-nos a lembrar o que Deus fez antes por nós e por sua igreja, bem como o que fizemos contra ele, os detalhes também nos podem servir de aviso contra os pecados de incredulidade e ingratidão dos quais o antigo Israel foi notoriamente culpado.

O registro desses pecados foi preservado para nossa instrução. “Essas coisas lhes aconteceram como exemplos”, 1 Coríntios 10:11; Hebreus 4:11.

A Importância da Instrução Religiosa.

Versículos 1 a 8

Masquil de Asafe.

Estes versículos, que contêm o prefácio dessa história, mostram que o salmo corresponde ao título. É, de fato, um Masquil, um salmo para dar instrução; se não recebermos a instrução que oferece, a culpa é nossa. Aqui:

I. O salmista exige atenção ao que escreveu (v. 1): “Dá ouvidos, ó meu povo, à minha lei.” Alguns consideram essas palavras do próprio salmista. Davi, como rei, ou Asafe em seu nome, como secretário de Estado ou escriba do doce cantor de Israel, chama aqui o povo, como seu povo confiado aos seus cuidados, a dar ouvidos à sua lei.

Ele chama suas instruções de sua lei ou decreto; tal era a força de comando que tinham em si mesmas. Toda boa verdade, recebida em sua luz e com amor por ela, terá força de lei sobre a consciência. Contudo, isso não era tudo: Davi era rei e usaria sua autoridade real para edificar seu povo.

Se Deus, por sua graça, fizer dos grandes homens homens bons, eles poderão fazer mais bem que outros, pois sua palavra será lei para todos ao redor, que devem, portanto, dar ouvidos e escutar.

Afinal, de que serve a revelação divina chegar aos nossos ouvidos se não os inclinamos para ela, tanto humilhando-nos quanto comprometendo-nos a ouvi-la e a lhe dar atenção?

Ou o salmista, como profeta, fala como porta-voz de Deus e, assim, chama-os de seu povo e exige que se sujeitem ao que foi dito como a uma lei. Quem tem ouvidos, ouça assim o que o Espírito diz às igrejas, Apocalipse 2:7.

II. São dadas diversas razões pelas quais devemos prestar atenção diligente ao que se relata aqui:

  1. Os assuntos tratados são importantes e merecem consideração; são extraordinários e precisam dela (v. 2): “Abrirei a boca em parábola”, falando de algo sublime e incomum, mas muito excelente e digno de toda a atenção de vocês.

“Proferirei enigmas”, que exigem a consideração mais séria de vocês, tanto quanto os enigmas com que príncipes e sábios do Oriente costumavam pôr uns aos outros à prova.

São chamados enigmas não porque sejam difíceis de entender, mas porque devem ser muito admirados e examinados com cuidado. Diz-se que isso se cumpriu nas parábolas apresentadas por nosso Salvador (Mateus 13:35), que, como este salmo, representavam a condição do reino de Deus entre os homens.

  1. São monumentos da antiguidade, enigmas antigos que nossos pais nos contaram, v. 3. São fatos de certeza indubitável: nós os ouvimos e conhecemos, sem que reste espaço para questionar sua verdade.

O evangelho de Lucas é chamado declaração das “coisas que entre nós são certamente cridas” (Lucas 1:1); assim eram os fatos aqui relatados.

A honra devida a nossos pais e antepassados nos obriga a prestar atenção ao que nos contaram e, à medida que se mostra verdadeiro e bom, a recebê-lo com ainda mais reverência e consideração.

  1. Devem ser transmitidos à posteridade, e temos o encargo de passá-los adiante com cuidado (v. 4): porque nossos pais nos contaram essas coisas, não as esconderemos de seus filhos. Nossos filhos são chamados de filhos deles, pois se preocupavam com os descendentes de sua descendência e os consideravam seus.

Ao ensinar a nossos filhos o conhecimento de Deus, pagamos a nossos pais parte da dívida que temos para com eles por nos terem ensinado. Ou melhor, mesmo que não tenhamos filhos próprios, devemos declarar as coisas de Deus aos filhos deles, os filhos de outras pessoas.

Nosso cuidado deve alcançar a posteridade em geral, e não somente a nossa própria; deve alcançar também a geração futura, os filhos que ainda nascerão, e não apenas a próxima geração que já cresce e as crianças já nascidas.

O que devemos transmitir a nossos filhos não é apenas o conhecimento de línguas, artes e ciências, liberdade e propriedade, mas sobretudo os louvores do Senhor e sua força manifesta nas obras maravilhosas que fez.

Nosso grande cuidado deve ser depositar nossa religião, esse grande depósito, pura e inteira nas mãos dos que nos sucederem.

Há duas coisas cujo conhecimento pleno e claro devemos conservar como herança para nossos sucessores:

(1.) A lei de Deus, pois ela foi dada com a ordem especial de ensiná-la diligentemente aos filhos (v. 5): ele estabeleceu um testemunho ou aliança e promulgou uma lei em Jacó e Israel. Deu-lhes preceitos e promessas, que lhes ordenou transmitir a seus filhos, Deuteronômio 6:7, 20.

A igreja de Deus, como disse o historiador sobre a república romana, não deveria ser res unius ætatis — coisa de uma só época —, mas permanecer de uma geração a outra.

E por isso, assim como Deus providenciou uma sucessão de ministros na tribo de Levi e na casa de Arão, assim designou que os pais criassem seus filhos no conhecimento de sua lei.

E quando estes tivessem crescido, deveriam levantar-se e anunciar essas coisas aos próprios filhos (v. 6), para que, enquanto uma geração de servos e adoradores de Deus passa, outra chegue, e a igreja permaneça para sempre, como a terra. Assim, o nome de Deus entre os homens poderá durar tanto quanto os dias do céu.

(2.) As providências de Deus para com eles, tanto em misericórdia quanto em juízo.

As leis parecem mencionadas por causa destas: visto que Deus ordenou transmitir suas leis à posteridade, é preciso transmitir também suas obras, o cumprimento das promessas feitas aos obedientes e das ameaças anunciadas contra os desobedientes. Que tudo isso seja contado a nossos filhos e aos filhos de nossos filhos:

[1.] Para que recebam ânimo para se conformar à vontade de Deus (v. 7): não se esquecendo das obras que Deus fez no passado, poderão pôr nele sua esperança e guardar seus mandamentos, fazendo do seu mandamento a regra e da sua aliança o apoio. Somente os que se preocupam em cumprir os mandamentos de Deus podem esperar com confiança sua salvação.

As obras de Deus, devidamente consideradas, fortalecerão muito nossa resolução tanto de pôr nele a esperança quanto de guardar seus mandamentos, pois ele pode nos sustentar em ambas as coisas.

[2.] Para que recebam aviso contra seguir o exemplo de seus pais (v. 8): “Que não sejam como seus pais, geração obstinada e rebelde.” Veja aqui, primeiro, qual era o caráter de seus pais.

Embora fossem descendentes de Abraão, admitidos na aliança com Deus e, pelo que sabemos, o único povo que então professava sua fé nele no mundo, ainda assim eram obstinados e rebeldes e andavam em oposição a Deus, contrariando diretamente sua vontade.

De fato, professavam ter relação com ele, mas não dispunham corretamente o coração; não eram sinceros em seus compromissos com Deus nem íntimos dele em seu culto. Por isso, seu espírito não era firme para com ele, mas se afastavam dele a cada ocasião. Repare: a hipocrisia é o caminho direto para a apostasia.

Quem não dispõe corretamente o coração não permanecerá firme com Deus, mas oscilará entre aproximar-se dele e afastar-se. Segundo, o encargo dado aos filhos: “Que não sejam como seus pais.” Repare: os descendentes de antepassados perversos e ímpios, se ao menos atentarem para a palavra e as obras de Deus, verão motivo suficiente para não seguir seus passos.

Não será desculpa para uma conduta vã dizer que foi recebida por tradição de nossos pais (1 Pedro 1:18). O mal que conhecemos neles deve nos servir de advertência para temermos aquilo que lhes foi tão prejudicial, assim como evitaríamos os caminhos que seguiram quando arruinaram sua saúde ou seus bens.

Maravilhas Realizadas em Favor de Israel; Os Crimes dos Israelitas.

Versículos 9 a 39

Nestes versículos:

I. O salmista observa as recentes repreensões da Providência que o povo de Israel sofrera e trouxera sobre si ao agir traiçoeiramente para com Deus, vv. 9-11. Os filhos de Efraim, tribo à qual pertencia Siló, embora estivessem bem armados e atirassem com o arco, ainda assim recuaram no dia da batalha.

Parece que isso se refere à derrota vergonhosa que os filisteus lhes infligiram no tempo de Eli, quando capturaram a arca, 1 Samuel 4:10, 11. O salmista começa a falar desse episódio aqui e, após uma longa digressão, volta a ele no v. 61.

É compreensível que esse acontecimento ainda estivesse tão vivo na memória no tempo de Davi, mais de quarenta anos depois. A arca, tomada pelos filisteus naquela batalha memorável, embora tivesse logo saído do cativeiro, só deixou a obscuridade quando Davi a trouxe de Quiriate-Jearim para sua própria cidade. Observe:

  1. A covardia vergonhosa dos filhos de Efraim, tribo guerreira, tão famosa por homens valentes, a tribo de Josué. Seus filhos, embora estivessem tão bem armados como sempre, recuaram ao enfrentar o inimigo.

Repare: as armas de guerra pouco ajudam sem espírito guerreiro, e este desaparece quando Deus se afasta. O pecado desalenta os homens e lhes tira a coragem.

  1. As causas de sua covardia, não menos vergonhosas:

(1.) A violação vergonhosa da lei de Deus e da aliança deles com ele (v. 10). Foram vilmente traiçoeiros e pérfidos, pois não guardaram a aliança de Deus; e vilmente obstinados e rebeldes (como descritos no v. 8), pois se recusaram terminantemente a andar em sua lei e, na prática, disseram-lhe na cara que não aceitariam seu governo.

(2.) A ingratidão vergonhosa para com Deus pelos favores recebidos: esqueceram suas obras e maravilhas, as obras maravilhosas que deveriam ter admirado, v. 11. Repare: o esquecimento das obras de Deus está na raiz de nossa desobediência às suas leis.

II. Com isso, o salmista encontra ocasião de consultar precedentes e comparar esse caso ao de seus pais. Também eles se esqueceram das misericórdias de Deus e foram ingratos para com seu fundador e grande benfeitor; por isso, muitas vezes sofreram seu desagrado.

A narrativa destes versículos é muito notável: relata uma espécie de luta entre a bondade de Deus e a maldade humana, na qual, por fim, a misericórdia triunfa sobre o juízo.

  1. Deus fez grandes coisas por seu povo Israel quando os reuniu e os constituiu pela primeira vez como povo: fez maravilhas à vista de seus pais, e não só à vista deles, mas em favor de sua causa e para seu benefício. Foram tão extraordinárias e bondosas que se pensaria que jamais seriam esquecidas.

O que fez por eles na terra do Egito é apenas mencionado aqui (v. 12), mas retomado adiante, no v. 43. O salmista passa a mostrar:

(1.) Como Deus lhes abriu um caminho pelo mar Vermelho e os fez, dando-lhes coragem, atravessá-lo, embora as águas se erguessem como um montão acima de suas cabeças, v. 13. Veja Isaías 63:12, 13, onde se diz que Deus os conduziu, por assim dizer, pela mão através do abismo, para que não tropeçassem.

(2.) Como lhes providenciou um guia pelos caminhos nunca percorridos do deserto (v. 14). Conduziu-os passo a passo, de dia por uma nuvem, que também os abrigava do calor, e a noite inteira pela luz de um fogo, que talvez aquecesse o ar.

Pelo menos tornava a escuridão da noite menos assustadora e talvez afastasse as feras, Zacarias 2:5.

(3.) Como supriu seu acampamento de água fresca numa terra seca e sedenta, onde não havia água. Não abriu os reservatórios do céu, o que seria o caminho comum, mas abriu uma rocha (v. 15, 16): “Fendeu as rochas no deserto”, e elas deram água, embora não pudessem recebê-la nem das nuvens de cima nem das fontes de baixo.

Da rocha seca e dura, deu-lhes de beber, não em gotas destiladas como de um alambique, mas em correntes que desciam como rios e como se viessem de grandes profundezas.

Deus dá com abundância e é rico em misericórdia; dá na ocasião certa e, às vezes, nos faz sentir falta das misericórdias para que conheçamos melhor seu valor.

A água que Deus deu a Israel da rocha era ainda mais preciosa por ser bebida espiritual. E a rocha era Cristo.

  1. Quando Deus começou a abençoá-los assim, eles começaram a afrontá-lo (v. 17): “Pecaram ainda mais contra ele”, mais do que haviam pecado no Egito, embora ali fossem suficientemente maus, Ezequiel 20:8.

Suportaram melhor as misérias da servidão do que as dificuldades da libertação e nunca murmuraram tanto contra seus feitores quanto contra Moisés e Arão.

Agiam como se tivessem sido libertos para praticar todas aquelas abominações, Jeremias 7:10. Assim como o pecado às vezes aproveita o mandamento, em outras ocasiões aproveita a libertação para se tornar ainda mais pecaminoso.

Provocaram o Altíssimo. Embora ele seja altíssimo, e soubessem que não podiam medir forças com ele, ainda assim o provocaram e até desafiaram sua justiça.

Fizeram isso no deserto, onde dependiam de sua misericórdia e, por interesse, estavam obrigados a agradá-lo, e onde ele lhes mostrava tanta misericórdia que, por gratidão, também estavam obrigados a agradá-lo.

Mesmo ali disseram e fizeram o que sabiam que o provocaria: “Tentaram a Deus em seu coração”, v. 18. Seu pecado começou em seu coração e dali recebeu sua maldade. “Sempre erram no coração”, Hebreus 3:10.

Assim tentaram a Deus: levaram sua paciência ao limite para ver se os suportaria e, na prática, desafiaram-no a fazer o pior. Provocaram-no de duas maneiras:

(1.) Desejando, ou melhor, exigindo, o que ele não julgara adequado lhes dar: pediram alimento para sua cobiça. Deus lhes dera no maná alimento para a fome, saudável, agradável e abundante; também lhes dera alimento para a fé nas cabeças do leviatã que despedaçou, Salmos 74:14.

Mas nada disso bastava. Precisavam de alimento para a cobiça, iguarias e variedades que satisfizessem um apetite luxuoso. Nada provoca mais a Deus do que entrarmos em desavença com a porção que recebemos e cedermos aos desejos da carne.

(2.) Desconfiando de seu poder para lhes dar o que desejavam. Isso era de fato tentar a Deus. Desafiaram-no a lhes dar carne; se ele não o fizesse, diriam que era porque não podia, e não porque não julgava adequado para eles (v. 19): “Falaram contra Deus.” Quem impõe limites ao poder de Deus fala contra ele.

Era uma censura tão injuriosa a Deus quanto possível perguntar: “Pode Deus preparar uma mesa no deserto?”

Tinham maná, mas não consideravam a mesa preparada se não houvesse pratos cozidos e assados, primeiro, segundo e terceiro serviços, como tinham no Egito, onde tinham tanto carne quanto peixe, e também molho (Êxodo 16:3; Números 11:5), travessas de carne e bandejas de frutas.

Que coisa irracional e insaciável é o luxo! Esses glutões consideravam uma mesa bem provida algo tão grandioso que julgavam estar além do que o próprio Deus poderia lhes dar naquele deserto. Contudo, as feras da floresta e todas as aves dos montes são dele, Salmos 50:10, 11.

Sua incredulidade quanto ao poder de Deus era ainda pior porque, ao mesmo tempo, admitiam que ele já havia feito coisa tão grandiosa quanto essa (v. 20): “Eis que feriu a rocha, e jorraram águas”, das quais eles e seu gado beberam.

O que é mais fácil: preparar uma mesa no deserto, coisa que um rico pode fazer, ou tirar água de uma rocha, o que o mais poderoso governante da terra não pode?

Nunca a incredulidade, sempre irracional, fez pergunta tão absurda: “Aquele que dissolveu uma rocha em correntes de água também pode dar pão? Ou aquele que deu pão também pode prover carne?”

Há algo difícil demais para a Onipotência? Depois que os poderes comuns da natureza são ultrapassados, Deus desnudou seu braço, e devemos concluir que nada lhe é impossível. Por maior que seja o que pedimos, cabe-nos reconhecer: “Senhor, se quiseres, podes.”

  1. Deus se indignou justamente com a provocação e ficou muito descontente com eles (v. 21): “O Senhor ouviu isso e se encolerizou.” Repare: Deus é testemunha de todas as nossas murmurações e desconfianças; ouve-as e muito se desagrada delas.

Por isso se acendeu fogo contra Jacó; o fogo do Senhor ardeu entre eles, Números 11:1. Ou pode-se entender o fogo da ira de Deus que se levantou contra Israel.

Para os incrédulos, nosso Deus é fogo consumidor. Quem não crê no poder da misericórdia de Deus sentirá o poder de sua indignação e será levado a confessar que é terrível cair em suas mãos. Aqui se nos diz:

(1.) Por que Deus se indignou assim com a provocação (v. 22): porque ela mostrou que não criam em Deus. Não deram crédito à revelação que ele lhes fizera de si mesmo, pois não ousavam entregar-se a ele nem arriscar-se com ele. Não confiaram na salvação que ele começara a operar por eles; de outro modo, não teriam questionado seu progresso.

Não se pode dizer que confiam na salvação de Deus como sua felicidade final aqueles que não conseguem confiar em sua providência para lhes dar alimento adequado no caminho até ela. O que agravava sua incredulidade era a experiência que já tinham tido do poder e da bondade de Deus, vv. 23-25.

Ele lhes dera provas inegáveis de seu poder, não só na terra de baixo, mas também no céu de cima. Deu ordens às nuvens do alto como quem as criara e lhes ordenara que existissem; fazia delas o uso que quisesse.

Normalmente, suas chuvas contribuem para que a terra produza cereal; desta vez, quando Deus ordenou, as próprias nuvens fizeram chover cereal, chamado por isso de cereal do céu. O céu pode realizar a obra sem a terra, mas a terra não pode fazê-la sem o céu.

Deus, que tem a chave das nuvens, abriu as portas do céu, mais do que abrir as janelas, o que já é mencionado como grande bênção, Malaquias 3:10.

A todos os que, pela fé e pela oração, pedem, buscam e batem, essas portas se abrirão a qualquer momento, pois o Deus do céu é rico em misericórdia para com todos os que o invocam. Ele não só mantém uma casa bem provida, mas uma casa de portas abertas.

Deus tinha razão para se ofender com a desconfiança deles quando lhes fora tão bondoso que fizera chover maná para comerem: alimento substancial, diário, regular, suficiente para todos e para cada um.

“O homem comeu alimento de anjos”, alimento que os anjos, se precisassem comer, comeriam agradecidos; ou, antes, alimento fornecido pelo ministério dos anjos e, como diz a leitura caldaica, descido da morada deles.

Cada pessoa, mesmo a menor criança de Israel, comeu o pão dos poderosos (assim diz a leitura marginal). O estômago mais fraco podia digeri-lo; ainda assim, era tão nutritivo que servia de alimento forte para homens fortes.

Embora a provisão fosse tão boa, ainda assim não receberam uma porção limitada nem passaram por escassez: ele lhes enviou alimento até se fartarem. Se colhiam pouco, a culpa era deles; mesmo assim, não lhes faltava nada, Êxodo 16:18.

A provisão diária que Deus nos concede, e que tem concedido desde que viemos ao mundo, embora não seja tão milagrosa quanto essa, não contém menos misericórdia; por isso, nossa desconfiança de Deus se torna muito mais grave.

(2.) Como Deus manifestou sua indignação com a provocação: não lhes negou o que cobiçavam tão desordenadamente, mas lhes concedeu o pedido.

[1.] Questionaram seu poder? Logo os convenceu de maneira palpável de que podia preparar uma mesa no deserto. Embora os ventos pareçam soprar onde querem, ainda assim, quando Deus quis, pôde fazê-los seus fornecedores para buscar provisões, v. 26.

Fez soprar um vento oriental e um meridional, ou um vento sudeste, ou primeiro um vento oriental para trazer codornizes daquela direção, depois um meridional para trazer mais daquela outra.

Assim, fez chover carne sobre eles, e da espécie mais delicada: não carne de açougue, mas aves selvagens, em abundância como o pó e a areia do mar (v. 27).

Até o israelita mais humilde podia receber o suficiente, sem nenhum custo e sem sequer o trabalho de ir buscá-lo nos montes; Deus fez as aves caírem no meio do acampamento, ao redor de suas moradas, v. 28. Temos o relato em Números 11:31, 32.

Veja como Deus é bom até para os maus e ingratos e admire-se de que sua bondade não vença a maldade deles. Veja quão pouco motivo temos para julgar o amor de Deus por essas dádivas de sua generosidade: petiscos delicados não são sinais de seu favor especial.

Cristo deu pão seco aos discípulos que amava, mas a Judas, que o traiu, deu um bocado molhado no molho.

[2.] Desafiaram sua justiça e se gabaram de ter conseguido o que queriam? Deus os fez pagar caro pelas codornizes. Embora lhes desse o que desejavam, “não se afastaram de sua cobiça” (v. 29, 30). Seu apetite era insaciável: estavam bem alimentados, mas ainda assim não satisfeitos, pois nem sabiam o que queriam.

Essa é a natureza da cobiça: nada a satisfaz, e quanto mais a favorecem, mais caprichosa se torna. Quem cede à cobiça jamais se afastará dela. Ou isso indica que a generosidade de Deus não os envergonhou de seus desejos ingratos, como teria acontecido se tivessem algum senso de honra.

Mas qual foi o resultado? Enquanto a carne ainda estava em sua boca, revolvida sob a língua como um bocado saboroso, veio sobre eles a cólera de Deus e abateu os mais gordos (v. 31), os mais entregues ao luxo e os mais ousados. Veja Números 11:33, 34.

Foram alimentados como ovelhas para o matadouro: o açougueiro escolhe primeiro as mais gordas. Podemos supor que alguns israelitas piedosos e satisfeitos com o que tinham comeram codornizes com moderação e não sofreram dano, pois não foi a carne que os envenenou, mas sua própria cobiça.

Que os glutões e os sensuais leiam aqui sua condenação. O fim dos que fazem do ventre um deus é a destruição, Filipenses 3:19. A prosperidade dos insensatos os destruirá, e sua ruína será ainda maior.

  1. Os juízos de Deus sobre eles não os reformaram nem atingiram seu objetivo, assim como suas misericórdias também não o haviam feito (v. 32): “Apesar de tudo isso, continuaram pecando”; murmuraram e entraram em desavença com Deus e Moisés tanto quanto antes.

Embora Deus estivesse encolerizado e os ferisse, ainda assim seguiram obstinadamente o caminho do seu coração (Isaías 57:17); “não creram, apesar de suas obras maravilhosas”.

Embora seus atos de justiça fossem tão maravilhosos e tão grandes provas de seu poder quanto suas obras de misericórdia, não foram levados por eles a temer a Deus nem convencidos do grande interesse que tinham em tê-lo por amigo.

São verdadeiramente duros os corações que nem as misericórdias de Deus amolecem nem seus juízos quebram.

  1. Como persistiram nos pecados, Deus prosseguiu com seus juízos, mas agora de outra natureza: não agiam de repente, mas lentamente.

Não os castigou então com doenças agudas como a que matara os mais gordos, mas com um mal crônico e prolongado (v. 33): Por isso consumiu seus dias em vaidade no deserto, e seus anos em tribulação.

Por uma condenação irreversível, foram condenados a passar trinta e oito longos anos no deserto, anos de fato consumidos em vaidade. Durante todo esse tempo, não deram um passo que os aproximasse de Canaã; foram levados de volta e vagaram de um lado para outro como num labirinto, sem dar um golpe sequer para conquistá-la.

Viveram não só em vaidade, mas em tribulação, pois seus cadáveres foram condenados a cair no deserto, onde todos pereceram, exceto Calebe e Josué. Repare: quem continua pecando deve esperar continuar em tribulação.

A razão de gastarmos nossos dias em tanta vaidade e tribulação, de vivermos com tão pouco consolo e tão pouco propósito, é não vivermos pela fé.

  1. Sob essas repreensões, professaram arrependimento, mas não foram de coração nem sinceros nessa profissão:

(1.) Sua profissão parecia bastante convincente (v. 34, 35): quando Deus os abatia, ou os condenava a ser abatidos, então o buscavam; confessavam a culpa e lhe pediam perdão.

Quando alguns eram abatidos, outros, assustados, clamavam a Deus por misericórdia e prometiam reformar-se e tornar-se muito bons; então voltavam para Deus e o buscavam logo cedo.

Assim, alguém os tomaria por pessoas desejosas de encontrá-lo. Alegavam agir assim porque, embora antes se tivessem esquecido, agora se lembravam de que Deus era sua rocha e, portanto, quando precisavam dele, correriam a ele para encontrar abrigo; e de que o Deus Altíssimo era seu Redentor, que os tirara do Egito e a quem, por isso, podiam achegar-se com confiança.

As aflições são enviadas para nos fazer lembrar de Deus como nossa rocha e nosso redentor, pois na prosperidade temos tendência a esquecê-lo.

(2.) Não eram sinceros nessa profissão (v. 36, 37): apenas o lisonjeavam com a boca, como se pensassem que belas palavras o fariam revogar a sentença e remover o juízo, enquanto ocultavam a intenção de quebrar sua palavra quando o perigo passasse. Não voltaram para Deus de todo o coração, mas fingidamente, Jeremias 3:10.

Todas as suas declarações, orações e promessas foram arrancadas pelo cavalete de tortura. Era claro que não pretendiam cumprir o que diziam, pois não se mantiveram fiéis a isso. Derretiam ao sol, mas congelavam à sombra.

Apenas mentiam a Deus com suas línguas, pois seu coração não estava com ele, não era reto para com ele, como mostrou o desfecho: não eram firmes em sua aliança.

Não eram sinceros na reforma, pois não eram constantes. Ao pensar que poderiam iludir o Deus que sonda os corações, afrontaram-no tanto quanto com qualquer uma de suas censuras.

  1. Então Deus, por compaixão deles, interrompeu os juízos anunciados e parcialmente executados (v. 38, 39): “Mas ele, cheio de compaixão, perdoou sua iniquidade.” Seria de pensar que esse arrependimento fingido completaria a medida da iniquidade deles.

Que poderia provocá-lo mais do que mentir assim ao Deus santo, do que reter parte do preço, justamente a parte principal? Atos 5:3.

Ainda assim, ele, cheio de compaixão, perdoou a iniquidade deles até o ponto de não os destruir nem eliminá-los como povo, embora pudesse tê-lo feito com toda justiça. Poupou-lhes a vida até que criassem outra geração, que entraria na terra prometida.

“Não o destruas, porque há nele uma bênção”, Isaías 65:8. Muitas vezes Deus desviou sua ira, pois é Senhor da própria ira, e não despertou toda a sua cólera para tratá-los como mereciam. Por que não o fez? Não porque a ruína deles lhe trouxesse qualquer perda, mas:

(1.) Porque estava cheio de compaixão; quando estava prestes a destruí-los, seus sentimentos de misericórdia se acenderam ao mesmo tempo, e disse: “Como te abandonaria, Efraim? Como te entregaria, Israel?”, Oseias 11:8.

(2.) Porque, embora eles não se lembrassem corretamente de que ele era sua rocha, Deus se lembrou de que eram apenas carne. Considerou a corrupção de sua natureza, que os inclinava ao mal, e teve por bem fazer disso motivo para poupá-los, embora não fosse, na verdade, desculpa para o pecado deles. Veja Gênesis 6:3.

Considerou a fraqueza e a fragilidade de sua natureza e quão facilmente poderia esmagá-los: “São como o vento que passa e não volta.” Logo poderiam ser eliminados, mas, uma vez mortos, não poderiam voltar; que seria então da aliança com Abraão?

São carne, são vento. Daí seria fácil argumentar que podiam ser eliminados com justiça e imediatamente, sem que Deus sofresse perda com isso. Deus, porém, argumenta ao contrário: por essa mesma razão não os destruirá, pois o verdadeiro motivo é que ele está cheio de compaixão.

Juízos e Misericórdias; Maravilhas Realizadas em Favor de Israel; Misericórdias Renovadas.

Versículos 40 a 71

O assunto e o propósito deste trecho são os mesmos do anterior: mostrar as grandes misericórdias que Deus concedera a Israel, quanto eles o haviam provocado, quais juízos Deus trouxera sobre eles por seus pecados e como, ainda assim, por fim se lembrou da misericórdia em meio ao juízo.

Quem recebe misericórdia de Deus não deve, por isso, ganhar ousadia para pecar, pois as misericórdias recebidas agravarão seu pecado e apressarão o castigo.

Contudo, quem sofre repreensões divinas pelo pecado não deve desanimar do arrependimento: os castigos são meios para ele e não impedirão a misericórdia que Deus ainda lhes reserva. Observe:

I. Os pecados de Israel no deserto são lembrados outra vez, pois foram escritos para nossa advertência (v. 40, 41): “Quantas vezes o provocaram no deserto!” Não uma nem duas vezes, mas muitas; a repetição agravava muito a provocação, assim como o lugar, v. 17.

Deus registrou quantas vezes o provocaram, embora eles não o fizessem. Números 14:22: “Dez vezes me tentaram.”

Ao provocá-lo, não lhe provocavam tanta ira quanto tristeza, pois ele os considerava seus filhos (“Israel é meu filho, meu primogênito”). A conduta desobediente e desrespeitosa dos filhos entristece mais do que provoca ira em pais afetuosos: eles a levam a sério e sentem a falta de bondade, Isaías 1:2.

Entristeciam a Deus porque o punham na necessidade de afligi-los, coisa que ele não fazia de bom grado.

Depois de se humilharem diante dele, voltavam atrás e tentavam a Deus como antes; limitavam o Santo de Israel, prescrevendo-lhe que provas de poder e presença deveria dar e que métodos deveria seguir ao guiá-los e sustentá-los.

Limitavam-no ao modo e ao tempo que queriam, como se ele não percebesse que entravam em desavença com ele. É presunção limitar o Santo de Israel: por ser o Santo, fará o que mais contribui para sua própria glória; por ser o Santo de Israel, fará o que mais favorece o bem deles.

Quando tentamos prescrever-lhe o que fazer, tanto questionamos sua sabedoria quanto revelamos nosso orgulho e nossa insensatez.

Esquecer seus favores anteriores levou-os a tentar limitá-lo no futuro (v. 42): “Não se lembraram de sua mão”, de como é forte e de como fora estendida em favor deles, “nem do dia em que os livrou do inimigo”, Faraó, aquele grande inimigo que procurava sua ruína.

Alguns dias são marcados por livramentos notáveis e nunca devem ser esquecidos; pois recordá-los nos animaria em nossas maiores dificuldades.

II. As misericórdias de Deus para com Israel, das quais não se lembravam quando o tentavam e limitavam. Este catálogo das obras maravilhosas que Deus fizera por eles começa antes e prossegue mais longe do que o anterior, v. 12, etc.

  1. Começa com a libertação deles do Egito e as pragas com que Deus obrigou os egípcios a deixá-los ir. Esses foram os sinais que Deus realizou no Egito (v. 43), as maravilhas que fez no campo de Zoã, isto é, na região de Zoã, como dizemos in Agro N., querendo dizer numa certa região.

(1.) Várias pragas do Egito são especificadas aqui. Proclamam em voz alta o poder de Deus e seu favor para com Israel, além de infundirem terror nos inimigos de Deus e do povo. Entre elas:

[1.] A transformação das águas em sangue. Os egípcios se haviam embriagado com o sangue do povo de Deus, até dos bebês; agora Deus lhes deu sangue para beber, pois eram dignos disso, v. 44.

[2.] As moscas e rãs que os infestaram, misturas de insetos em enxames e bandos, devorando-os e destruindo-os, v. 45. Deus pode fazer dos animais mais fracos e desprezíveis instrumentos de sua cólera quando quiser; a quantidade pode compensar a falta de força.

[3.] A praga dos gafanhotos, que devoraram sua produção e aquilo por que haviam trabalhado, v. 46. São chamados o grande exército de Deus, Joel 2:25.

[4.] O granizo, que destruiu suas árvores, especialmente as videiras, as mais frágeis das árvores (v. 47), e seus animais, especialmente os rebanhos de ovelhas, os mais fracos dentre eles, mortos por raios ardentes (v. 48).

A geada, ou chuva congelada, como significa a palavra, foi tão violenta que destruiu até as figueiras bravas.

[5.] A morte dos primogênitos foi a última e mais dolorosa das pragas do Egito, a que completou a libertação de Israel. Foi a primeira na intenção (Êxodo 4:23), mas a última na execução; se medidas mais brandas tivessem resolvido o problema, ela teria sido evitada. Aqui, porém, é descrita amplamente, vv. 49-51:

Primeiro, a ira de Deus foi sua causa. A cólera chegara então ao máximo contra os egípcios. O coração de Faraó endurecera repetidas vezes depois que juízos menores o haviam abrandado; agora Deus despertou toda a sua cólera e lançou sobre eles o furor de sua ira, ira no mais alto grau.

A cólera e a indignação foram a causa; a aflição (tribulação e angústia, Romanos 2:8, 9) foi o efeito. Deus lançou tudo isso do alto sobre eles sem poupá-los, e eles não puderam escapar de suas mãos, Jó 27:22. Abriu um caminho, ou, como diz a palavra, pesou uma vereda para sua ira.

Não a lançou sobre eles de modo incerto, mas por peso. Sua ira foi pesada com toda exatidão na balança da justiça, pois mesmo em seu maior desagrado ele nunca fez nem fará injustiça a nenhuma criatura: o caminho de sua ira é sempre pesado.

Segundo, os anjos de Deus foram os instrumentos empregados nessa execução. Enviou entre eles anjos maus, não maus em sua natureza, mas pelo encargo que receberam.

Eram anjos destruidores, ou anjos do castigo, que percorreram toda a terra do Egito com ordens, conforme os caminhos pesados da ira de Deus, de matar não todos, mas apenas os primogênitos.

Anjos bons tornam-se anjos maus para os pecadores. Quem faz do Deus santo seu inimigo jamais deve esperar que os santos anjos sejam seus amigos.

Terceiro, a própria execução foi muito severa: Deus não lhes poupou a alma da morte, mas permitiu que a morte cavalgasse triunfante entre eles e entregou sua vida à peste, que cortou imediatamente o fio da vida.

Feriu todos os primogênitos do Egito (v. 51), a parte principal de sua força, a esperança de cada família: os filhos são a força dos pais, e os primogênitos, a parte principal dessa força.

Assim, porque Israel era precioso aos olhos de Deus, ele deu homens por eles e povos por sua vida, Isaías 43:4.

(2.) Por meio dessas pragas sobre os egípcios, Deus abriu caminho para seu próprio povo sair como ovelhas, distinguindo-os dos egípcios, assim como o pastor separa as ovelhas dos bodes. Pusera sua própria marca nessas ovelhas com o sangue do cordeiro aspergido nas ombreiras de suas portas.

Fez com que saíssem como ovelhas, sem saber para onde iam, e as guiou no deserto com todo o cuidado e a ternura possíveis, como o pastor guia seu rebanho, v. 52. Conduziu-as em segurança, embora por caminhos perigosos, de modo que não temeram, isto é, não precisavam temer.

De fato, assustaram-se diante do mar Vermelho (Êxodo 14:10), mas Deus lhes falou e agiu em favor delas de modo a calar seus temores. O mar, porém, cobriu os inimigos que ousaram persegui-las por dentro dele, v. 53. Para Israel foi um caminho; para seus perseguidores, um túmulo.

  1. O relato chega até seu estabelecimento em Canaã (v. 54): “Levou-os até os limites de seu santuário”, à terra em cujo centro ergueu o santuário, que era, por assim dizer, seu centro e metrópole, sua coroa e glória. Feliz é a terra que fica junto ao santuário de Deus.

A felicidade daquela terra era que nela Deus era conhecido e nela estavam seu santuário e sua morada, Salmos 76:1, 2.

Toda a terra em geral e Sião em particular eram o monte que sua mão direita adquirira e que, por seu próprio poder, separara para si. Veja Salmos 44:3. Fez o povo cavalgar sobre os altos da terra, Isaías 58:14; Deuteronômio 32:13.

Encontraram os cananeus na posse plena e tranquila daquela terra, mas Deus expulsou os gentios diante deles.

Como Senhor de toda a terra, não apenas retirou o direito que tinham a ela; como Senhor dos Exércitos, também executou pessoalmente a sentença proferida contra eles, expulsou-os e fez seu povo Israel pisar seus altos.

Distribuiu a cada tribo uma herança com a linha de medir e as fez morar nas casas daqueles que haviam destruído. Deus poderia ter transformado em solo fértil o deserto desabitado e inculto, talvez quase tão extenso quanto Canaã, e ali assentado o povo.

Mas a terra que tivera o desígnio de lhes dar deveria ser figura do céu e, por isso, a glória de todas as terras. Também precisaria ser conquistada em combate, pois o reino dos céus sofre violência.

III. Os pecados de Israel depois de se estabelecer em Canaã, vv. 56-58. Os filhos eram como os pais e levaram as antigas corrupções para as novas moradas. Embora Deus tivesse feito tanto por eles, ainda assim continuaram a tentar e provocar o Deus Altíssimo. Ele lhes deu seus testemunhos, mas não os guardaram.

Começaram com boas promessas, mas voltaram atrás: disseram palavras agradáveis a Deus, mas agiram sem fidelidade. Eram como um arco enganoso, que parece capaz de lançar a flecha até o alvo, mas, ao ser esticado, quebra e a deixa cair aos pés do arqueiro, ou talvez a faça voltar contra o rosto dele.

Não havia como firmá-los nem confiar em suas promessas ou declarações. Às vezes pareciam dedicados a Deus, mas imediatamente se desviavam e o provocavam à ira com seus altos e suas imagens esculpidas.

A idolatria era o pecado que mais facilmente os envolvia; embora muitas vezes professassem arrependimento por ela, voltavam a cair nela com igual frequência.

Ou adorar ídolos, ou adorar a Deus por meio de imagens como se ele fosse um ídolo, era adultério espiritual. Por isso se diz que assim o provocaram a ciúmes, Deuteronômio 32:16, 21.

IV. Os juízos que Deus trouxe sobre eles por esses pecados. Seu lugar em Canaã não os protegeria numa vida de pecado mais do que sua descendência de Israel: “Somente a vós conheci entre todas as famílias da terra; por isso vos castigarei”, Amós 3:2. Deus passava por alto a idolatria entre os gentios, mas não em Israel:

  1. Deus se desagradou deles (v. 59): “Quando Deus ouviu isso”, ao ouvir o clamor da iniquidade deles que subia até ele, “encolerizou-se” e considerou a afronta muito grave, como era justo.

Passou a abominar profundamente Israel, a quem muito amara e em quem tivera grande prazer. Aqueles que eram o povo de sua escolha se tornaram a geração de sua cólera.

Pecados presunçosos, sobretudo as idolatrias, tornam até os israelitas odiosos à santidade de Deus e expostos à sua justiça.

  1. Abandonou seu tabernáculo entre eles e retirou a proteção que envolvia aquela glória, v. 60. Deus nunca nos deixa antes de o deixarmos, nem se afasta antes de o expulsarmos.

Seu nome é Zeloso, e ele é um Deus zeloso; portanto, não surpreende que deteste e rejeite um povo que desposara e se recuse a continuar morando com ele depois que este se lançou ao seio de um estranho.

O tabernáculo em Siló era a tenda que Deus colocara entre os homens, onde ele de fato habitaria com eles na terra. Mas, quando seu povo o abandonou traiçoeiramente, Deus o abandonou com justiça, e toda a sua glória então se retirou. Israel pouco se alegra com o tabernáculo sem a presença de Deus nele.

  1. Entregou tudo às mãos do inimigo. Os que Deus abandona se tornam presa fácil do destruidor. Os filisteus são inimigos jurados do Israel de Deus, e não menos do Deus de Israel; ainda assim, Deus os usará como açoite contra seu povo:

(1.) Deus lhes concede capturar a arca e levá-la como troféu da vitória, mostrando que abandonara não só o tabernáculo, mas até a própria arca, que já não seria sinal de sua presença (v. 61): “Entregou sua força ao cativeiro”, como se tivesse sido enfraquecida e vencida.

Sua glória caiu na desonra de ser entregue à mão do inimigo. Temos o relato em 1 Samuel 4:11.

Quando a arca se torna como uma estranha entre os israelitas, não surpreende que logo seja prisioneira entre os filisteus.

(2.) Permite que os exércitos de Israel sejam derrotados pelos filisteus (v. 62, 63): “Entregou seu povo à espada”, tanto à espada de sua própria justiça quanto à fúria do inimigo, pois estava encolerizado com sua herança. Essa cólera era o fogo que consumiu seus jovens no vigor de sua juventude, pela espada ou pela doença.

Houve tamanha devastação que suas moças não eram louvadas, isto é, não eram dadas em casamento, que é honroso em todos, porque não havia rapazes para se casar com elas.

As aflições e calamidades de Israel eram tão numerosas e grandes que se considerava imprópria a alegria das celebrações matrimoniais, e se dizia: “Bem-aventurado o ventre que não gera.”

Destruições gerais causam escassez de homens. Isaías 13:12: “Tornarei um homem mais precioso que o ouro fino”, de modo que sete mulheres se apegarão a um homem, Isaías 4:1; 3:25. Mas isso ainda não era o pior:

(3.) Até seus sacerdotes, que acompanhavam a arca, caíram pela espada: Hofni e Fineias. Caíram com justiça, pois se haviam tornado vis e eram pecadores em extremo diante do Senhor. Seu sacerdócio, longe de protegê-los, agravou seu pecado e apressou sua queda.

Caíram pela espada com justiça, pois se expuseram no campo de batalha sem convocação nem respaldo. Lançamo-nos para fora da proteção de Deus quando deixamos nosso lugar e o caminho de nosso dever. Quando os sacerdotes caíram, suas viúvas não fizeram lamentação, v. 64.

Todas as cerimônias de luto se perderam e foram sepultadas numa dor verdadeira. A viúva de Fineias, em vez de lamentar a morte do marido, morreu ela mesma depois de dar ao filho o nome Icabode, 1 Samuel 4:19, etc.

V. O retorno de Deus a eles em misericórdia e suas manifestações bondosas em favor deles depois disso.

Não lemos que se tenham arrependido e voltado para Deus, mas ele se entristeceu com as misérias de Israel (Juízes 10:16) e se preocupou com sua própria honra, temendo a cólera do inimigo, para que os inimigos não agissem de modo estranho, Deuteronômio 32:27.

Por isso, “então o Senhor despertou como alguém que sai do sono” (v. 65), “como um homem valente que grita por causa do vinho”. A imagem não é apenas de alguém que acorda e se recupera da sonolência causada pela bebida, e então passa a cuidar daquilo que antes parecia negligenciar completamente.

É também a de alguém revigorado pelo sono, cujo coração se alegrou com o uso sóbrio e moderado do vinho, tornando-o mais disposto, vigoroso e apto para o trabalho.

Depois de entregar ao cativeiro a arca de sua força, Deus, zeloso de sua honra, logo estendeu o braço de sua força para resgatá-la e despertou sua força para fazer grandes coisas por seu povo.

  1. Feriu com pragas os filisteus que mantinham a arca cativa, v. 66. Atingiu-os com hemorroidas nas partes traseiras, feriu-os por trás, como se fugissem dele, mesmo quando se julgavam mais que vencedores.

Deus os cobriu de descrédito, e eles mesmos ajudaram a fazer disso um descrédito perpétuo ao devolverem com a arca, como oferta pela culpa, imagens de ouro de suas hemorroidas (1 Samuel 6:5), para permanecerem in perpetuam rei memoriam — como memorial perpétuo.

Repare: cedo ou tarde Deus glorificará a si mesmo ao envergonhar seus inimigos, mesmo quando estiverem mais exaltados por seus êxitos.

  1. Providenciou um novo estabelecimento para sua arca, depois de alguns meses de cativeiro e alguns anos de obscuridade. De fato, rejeitou o tabernáculo de José; nunca o mandou de volta a Siló, na tribo de Efraim, v. 67. As ruínas daquele lugar eram monumentos permanentes da justiça divina: Vejam o que fiz a Siló, Jeremias 7:12.

Mas Deus não retirou inteiramente a glória de Israel: deslocar a arca não é removê-la. Siló a perdeu, mas Israel não. Deus terá uma igreja no mundo e um reino entre os homens, ainda que este ou aquele lugar tenha seu candelabro removido.

Ou melhor, a rejeição de Siló é a eleição de Sião, assim como, muito mais tarde, a queda dos judeus foi a riqueza dos gentios, Romanos 11:12.

Ao não escolher a tribo de Efraim, à qual pertencia Josué, Deus escolheu a de Judá (v. 68), pois dela viria Jesus, maior que Josué. Quiriate-Jearim, para onde a arca foi levada depois de resgatada das mãos dos filisteus, ficava na tribo de Judá. Ali a arca tomou posse dessa tribo.

Depois foi transferida para Sião, o monte Sião que Deus amava (v. 68), belo por sua localização e alegria de toda a terra. Foi ali que construiu seu santuário como altos palácios e como a terra, v. 69. Davi ergueu apenas uma tenda para a arca, mas então um templo foi projetado e preparado, e seu filho o terminou:

(1.) Um lugar muito imponente. Foi construído como os palácios dos príncipes e dos grandes da terra; ou melhor, superava todos eles em esplendor e magnificência.

Salomão o construiu, e ainda assim aqui se diz que Deus o construiu, pois o pai de Salomão lhe ensinara, talvez com referência a essa obra, que, se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam, Salmos 127:1, salmo para Salomão.

(2.) Um lugar muito estável, como a terra. Não duraria tanto quanto ela, mas, enquanto durasse, seria tão firme quanto a terra, que Deus sustenta pela palavra de seu poder.

Não foi destruído definitivamente até que se erguesse o templo do evangelho, que durará tanto quanto o sol e a lua (Salmos 89:36, 37) e contra o qual as portas do inferno não prevalecerão.

  1. Estabeleceu sobre eles um bom governo, uma monarquia e um monarca segundo seu coração. Escolheu Davi, seu servo, dentre todos os milhares de Israel e pôs o cetro em sua mão. De seus descendentes viria Cristo, de quem Davi seria figura, v. 70. Sobre Davi, observe:

(1.) A humildade de seu começo. Sua linhagem era elevada, pois descendia do príncipe da tribo de Judá, mas sua educação fora pobre. Não fora criado como estudioso nem como soldado, mas como pastor.

Foi tirado dos apriscos, como Moisés, pois Deus se agrada de honrar os humildes e diligentes, de levantar os pobres do pó e colocá-los entre os príncipes.

Às vezes Deus encontra os mais aptos para a vida pública entre aqueles que passaram o início da vida na solidão e na contemplação. O Filho de Davi foi repreendido pela obscuridade de sua origem: “Não é este o carpinteiro?”

Davi foi tirado, não diz o texto que de conduzir os carneiros, mas de seguir as ovelhas, sobretudo as prenhes. Isso sugere que, entre as boas qualidades de um pastor, destacava-se sobretudo por sua ternura e compaixão para com as que mais necessitavam de seu zelo.

Essa disposição o preparou para governar e o fez figura de Cristo. Quando Cristo apascenta seu rebanho como pastor, tem cuidado especial para conduzir suavemente as ovelhas prenhes, Isaías 40:11.

(2.) A grandeza de sua promoção. Deus o promoveu para apascentar Jacó, seu povo, v. 71. Ao elevá-lo ao trono, Deus lhe deu grande honra, especialmente por fazê-lo rei sobre Jacó e Israel, seu povo peculiar, próximo e querido.

Ao mesmo tempo, confiou-lhe uma grande responsabilidade: governar aqueles que eram a própria herança de Deus.

Deus o elevou ao trono para que os alimentasse, não para alimentar a si mesmo; para fazer o bem, não para engrandecer sua família. Todos os pastores subordinados, tanto magistrados quanto ministros, recebem o encargo de apascentar o rebanho de Deus.

(3.) A felicidade de sua administração. Tendo recebido encargo tão grande, Davi alcançou misericórdia do Senhor para se mostrar tanto hábil quanto fiel ao cumpri-lo (v. 72): “Assim os apascentou”; governou-os e ensinou-os, guiou-os e protegeu-os:

[1.] Com muita honestidade. Fez isso segundo a integridade do coração, sem visar nada além da glória de Deus e do bem do povo confiado aos seus cuidados.

Os princípios de sua religião eram as máximas de seu governo, exercido não com sagacidade carnal, mas com sinceridade piedosa, pela graça de Deus. Em tudo o que fez, tinha boa intenção e não perseguia nenhum objetivo oculto.

[2.] Com muito discernimento. Fez isso pela habilidade de suas mãos. Não era apenas muito sincero em seu desígnio, mas também prudente em seus atos, escolhendo os meios mais adequados para alcançar seu propósito, pois seu Deus o instruíra a agir com discernimento. Feliz o povo governado assim!

Com razão o salmista faz disso o exemplo final e culminante do favor de Deus a Israel. Davi era figura de Cristo, o grande e bom Pastor, primeiro humilhado e depois exaltado, de quem se predisse que seria cheio do espírito de sabedoria e entendimento e julgaria e censuraria com equidade, Isaías 11:3, 4.

Todos os súditos de Cristo podem confiar plenamente na integridade do seu coração e na habilidade de suas mãos, e não haverá fim para o aumento de seu governo e de seu povo.


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