Salmos 7
Argumento
Pelo título, parece que este salmo foi escrito em referência específica às acusações maliciosas feitas injustamente contra Davi por alguns de seus inimigos. Tendo sofrido essa injustiça:
I. Ele se dirige a Deus em busca de favor, v. 1, 2.
II. Recorre a Deus quanto à sua inocência nas questões de que era acusado, vv. 3-5.
III. Pede a Deus que defenda sua causa e julgue em seu favor contra seus perseguidores, vv. 6-9.
IV. Expressa sua confiança em Deus de que ele faria isso e faria recair o dano sobre a cabeça dos que haviam concebido esse desígnio contra ele, vv. 10-16.
V. Promete dar a Deus a glória por seu livramento, v. 17.
Nisso Davi foi figura de Cristo, que foi ele próprio injuriado dessa forma e continua a sê-lo em seus membros, mas certamente receberá justiça por fim.
Davi Ora Contra Seus Inimigos; Oração por Pecadores e Santos.
Sigaiom de Davi, que ele cantou ao Senhor a respeito das palavras de Cuxe, o benjamita.
Versículos 1 a 9
Sigaiom é um cântico ou salmo, palavra usada nesse sentido apenas aqui e em Habacuque 3:1. Seria um cântico errante, segundo alguns, porque o assunto e a composição das diversas partes diferem entre si, embora reunidos com arte; ou um cântico encantador, segundo outros, muito agradável.
Davi não apenas o escreveu, mas o cantou pessoalmente ao Senhor de modo devoto e religioso, a respeito das palavras ou dos assuntos de Cuxe, o benjamita, isto é, do próprio Saul, cujo tratamento bárbaro dispensado a Davi o fazia parecer mais um cusita, ou etíope, do que um verdadeiro israelita de nascimento.
Ou, mais provavelmente, tratava-se de algum parente de Saul chamado Cuxe, inimigo implacável de Davi, que o apresentou falsamente a Saul como traidor e, sem nenhuma necessidade, incitou Saul contra ele. Era um daqueles filhos dos homens, filhos de Belial de fato, de quem Davi se queixa em 1 Samuel 26:19, que causavam dano à relação entre ele e Saul.
Davi, vilmente tratado dessa maneira, recorre ao Senhor. As injúrias que os homens nos fazem devem levar-nos a Deus, pois a ele podemos confiar nossa causa. Ou melhor: Davi canta ao Senhor. Seu espírito não ficou agitado nem abatido; estava tão sereno e alegre que continuava em condições de entoar cânticos sagrados, e isso não fez desafinar sequer uma corda de sua harpa.
Assim, em vez de provocar nossas paixões, as injúrias que sofremos devem acender e estimular nossa devoção. Nestes versículos:
I. Davi se põe sob a proteção de Deus e corre a ele em busca de socorro e abrigo (v. 1): Senhor, salve-me e livre-me do poder e da malícia de todos os que me perseguem, para que não consigam fazer comigo o que desejam. Ele alega:
Sua relação com Deus. Você é meu Deus e, portanto, para onde mais eu deveria ir, senão a você? Você é meu Deus e, portanto, meu escudo (Gênesis 15:1). Você é meu Deus; por isso sou um de seus servos, que podem esperar ser protegidos.
Sua confiança em Deus: Senhor, salve-me, pois dependo de você: “Em ti ponho minha confiança”, não em qualquer braço de carne. Homens honrados não falharão com aqueles que neles depositam confiança, sobretudo se eles próprios os animaram a fazê-lo, como é nosso caso.
A fúria e a malícia dos inimigos, bem como o perigo iminente de ser devorado por eles: Senhor, salve-me, ou estou perdido; ele dilacerará minha alma como um leão dilacera sua presa, com tanto orgulho, prazer e poder, tão facilmente e com tanta crueldade. São Paulo compara Nero a um leão (2 Timóteo 4:17), assim como Davi aqui compara Saul.
A incapacidade de todos os outros ajudadores: Senhor, tenha por bem livrar-me, pois, de outro modo, não há quem me livre, v. 2. É glória de Deus ajudar os desamparados.
II. Davi faz solene declaração de sua inocência quanto às acusações feitas contra ele e, por meio de uma terrível imprecação, recorre a Deus, que sonda os corações, a respeito disso, vv. 3-5. Observe, de modo geral:
- Quando somos falsamente acusados pelos homens, é grande consolo que nossa própria consciência nos absolva:
Hic murus aheneus esto,
Nil conscire sibi.
Seja este seu baluarte de bronze de defesa:
Preservar continuamente a inocência de que tem consciência.
Não apenas eles são incapazes de provar suas calúnias (Atos 24:13), mas nosso coração pode refutá-las para nossa própria satisfação.
- Deus é o protetor da inocência injustiçada. Davi não tinha tribunal na terra ao qual recorrer. Seu príncipe, que deveria fazer-lhe justiça, era seu inimigo jurado. Mas podia correr ao tribunal do céu, onde havia um Juiz justo a quem podia chamar de seu Deus. Veja aqui:
(1.) A acusação da qual se declara inocente. Atribuíam-lhe um desígnio de traição contra a coroa e a vida de Saul: teria concebido e planejado depô-lo e assassiná-lo e, para isso, levantado guerra contra ele. Davi nega tudo de modo absoluto. Nunca fez isso; não havia iniquidade dessa espécie em sua mão (v. 3). Abominava até a ideia.
Nunca pagou o mal a Saul quando este estava em paz com ele, nem a qualquer outra pessoa, v. 4. Ou melhor, como alguns entendem que a passagem deve ser traduzida, nunca pagou o mal com o mal nem causou dano aos que lhe haviam feito injúria.
(2.) As provas que apresenta de sua inocência. É difícil provar uma negativa; contudo, dessa negativa Davi podia apresentar provas muito boas: “Livrei aquele que sem causa é meu inimigo”, v. 4.
Isso mostrou de maneira incontestável que Davi não tinha desígnio contra a vida de Saul. Por duas vezes, a Providência dispôs as coisas de modo que Saul ficasse à sua mercê; havia junto de Davi homens que logo o teriam matado, mas ele os impediu com generosidade e consciência.
Na primeira vez, cortou a orla do manto de Saul (1 Samuel 24:4); mais tarde, tomou-lhe a lança (1 Samuel 26:12), para testemunhar em favor de Davi o que ele poderia ter feito. O próprio Saul reconheceu que ambos os episódios eram provas inegáveis da integridade e da boa disposição de Davi para com ele.
Se pagarmos o mal com o bem e renunciarmos à satisfação de nossas paixões, talvez isso venha a servir de testemunho em nosso favor, mais do que imaginamos, em outro dia.
(3.) A condenação a que se submeteria se fosse culpado (v. 5): Que o inimigo persiga minha alma até a morte e meu bom nome depois que eu partir; “que lance minha honra ao pó”. Isso indica:
[1.] Que, se de fato tivesse feito injúria a outros, teria motivos para esperar que lhe pagassem na mesma moeda. Quem estende a mão contra todos deve ter por certo que a mão de todos estará contra si.
[2.] Que, nesse caso, não poderia dirigir-se a Deus com confiança para pedir livramento ou defesa de sua causa. É presunçoso e perigoso que pessoas culpadas, que sofrem com justiça, recorram a Deus como se fossem inocentes e sofressem injustamente.
Essas pessoas devem humilhar-se e aceitar o castigo de sua iniquidade, sem esperar que o Deus justo defenda sua injustiça.
[3.] Que Davi estava plenamente convencido da própria inocência. É natural que desejemos o bem para nós mesmos; por isso, amaldiçoar a nós mesmos se jurarmos falsamente tem sido considerado uma das formas mais temíveis de juramento.
Com tal juramento, ou imprecação, Davi confirma sua declaração de inocência. Isso, porém, não nos autoriza a fazer o mesmo por qualquer motivo pequeno ou trivial, pois a ocasião aqui era importante.
III. Tendo esse testemunho da consciência acerca de sua inocência, Davi pede humildemente a Deus que apareça em seu favor contra os perseguidores e sustenta cada pedido com uma alegação adequada, como alguém que sabia apresentar sua causa diante de Deus.
- Pede que Deus manifeste sua cólera contra os inimigos e alega a cólera deles contra ele: Senhor, eles estão injustamente irados comigo; ire-se com justiça contra eles e faça-os saber disso, v. 6. Em sua ira, levante-se para o tribunal e torne visíveis seu poder e sua justiça por causa da fúria, dos acessos de fúria, dos ultrajes dos meus inimigos. A palavra está no plural.
Quem tem a cólera de Deus a seu favor não precisa temer a cólera dos homens contra si. Quem conhece o poder da ira divina?
- Pede que Deus defenda sua causa:
(1.) Ele ora: “Desperta em meu favor para o julgamento”, isto é, permita que minha causa seja ouvida, para o julgamento que você ordenou. Isso mostra:
[1.] O poder divino. Assim como Deus abençoa com eficácia e por isso se diz que ordena a bênção, também julga com eficácia e por isso se diz que ordena o julgamento. Ninguém pode revogar esse julgamento, pois ele certamente traz consigo a execução.
[2.] O propósito e a promessa divinos: É o julgamento que você determinou proferir contra todos os inimigos de seu povo. Você ordenou aos príncipes e juízes da terra que fizessem justiça aos injuriados e defendessem os oprimidos; Senhor, desperte para esse julgamento.
Aquele que ama a justiça e a exige dos outros sem dúvida a exercerá pessoalmente. Embora pareça tolerar a injustiça como quem dorme, despertará no tempo devido (Salmos 78:65) e mostrará que sua demora não era negligência.
(2.) Davi ora (v. 7): “Retorna às alturas”, mantenha sua própria autoridade, reassuma seu trono real, cuja soberania eles desprezaram, e o tribunal cuja sentença desprezaram. Retorne às alturas, isto é, de modo visível e diante de todos, para que se reconheça universalmente que o próprio céu acolhe e defende a causa de Davi.
Alguns entendem que isso aponta para a ressurreição e a ascensão de Jesus Cristo, a quem, quando retornou ao céu, às alturas em seu estado exaltado, foi confiado todo julgamento. Ou pode referir-se à sua segunda vinda, quando retornará das alturas a este mundo para executar o julgamento sobre todos.
Seu povo injuriado espera esse retorno e ora por ele; a ele recorre das censuras injustas dos homens.
(3.) Davi ora outra vez (v. 8): “Julga-me”, julgue em meu favor, profira sentença a meu favor. Para reforçar essa ação:
[1.] Alega que sua causa chegou agora ao tribunal competente: “O Senhor julgará o povo”, v. 8. Ele é o Juiz de toda a terra e, portanto, sem dúvida fará o que é justo, e todos serão obrigados a aceitar seu julgamento.
[2.] Insiste em sua integridade quanto a todas as questões em disputa entre ele e Saul. Deseja apenas ser julgado nessa matéria segundo sua justiça e a sinceridade de seu coração em todos os passos que dera para obter seu cargo.
[3.] Prediz que seria muito proveitoso para a glória de Deus e para a edificação e o consolo de seu povo se Deus aparecesse em seu favor: “Assim a congregação do povo te cercará”; faça-o, portanto, em favor deles, para que atendam você com seus louvores e serviços nos átrios de sua casa.
Em primeiro lugar, farão isso espontaneamente. A manifestação de Deus em favor de Davi e o cumprimento de sua promessa seriam provas de sua justiça, bondade e fidelidade que dilatariam muito o coração de todos os seus adoradores fiéis e lhes encheriam a boca de louvor.
Davi era muito querido em seu país, especialmente por todas as pessoas boas nele. Por isso, quando o vissem a caminho do trono, se alegrariam muito e dariam graças a Deus; multidões se reuniriam junto ao estrado de seus pés para louvá-lo por tal bênção à sua terra.
Em segundo lugar, se Davi chegar ao poder, como Deus lhe prometeu, cuidará, por sua influência, de levar o povo à igreja. A arca não será negligenciada como nos dias de Saul, 1 Crônicas 13:3.
- Davi ora, de modo geral, pela conversão dos pecadores e pelo estabelecimento dos santos (v. 9): Oh! Que tenha fim a maldade, não apenas dos meus inimigos perversos, mas de todos os perversos; “mas estabelece o justo”. Há aqui duas coisas que cada um de nós deve desejar e pelas quais pode esperar:
(1.) A destruição do pecado, para que ele tenha fim em nós mesmos e nos outros. Quando a corrupção é mortificada, quando se abandonam todos os caminhos e pensamentos perversos e a corrente que corria impetuosamente para o mundo e a carne é desviada e passa a correr para Deus e o céu, então a maldade dos perversos chega ao fim.
Quando há uma reforma geral dos costumes; quando ateus e profanos são convencidos e convertidos; quando se detém a propagação da infecção do pecado, de modo que os homens maus não avancem mais e sua insensatez fique evidente; então a maldade dos perversos chega ao fim.
Quando se frustram os planos perversos dos inimigos da igreja, seu poder é quebrado e o homem do pecado é destruído, então a maldade dos perversos chega ao fim. É isso que desejam e pedem todos os que amam a Deus e, por amor a ele, odeiam o mal.
(2.) A permanência da justiça: “Mas estabelece o justo.” Assim como oramos para que os maus se tornem bons, oramos para que os bons se tornem melhores. Que não sejam seduzidos pelas artimanhas dos perversos nem abalados por sua malícia.
Que sejam confirmados em sua escolha dos caminhos de Deus e em sua resolução de perseverar neles, permaneçam firmes nos interesses de Deus e da religião e se empenhem com zelo para pôr fim à maldade dos perversos.
A alegação com que Davi reforça esse pedido é esta: Pois o Deus justo prova os corações e os rins. Portanto, conhece a maldade secreta dos perversos e sabe como pôr-lhe fim; é testemunha da sinceridade oculta dos justos e tem meios secretos de estabelecê-los.
Na medida em que tenhamos o testemunho de uma consciência imparcial em nosso favor de que sofremos injustiça em alguma situação e somos injuriosamente difamados, podemos, ao cantar estes versículos, apresentar nosso recurso ao Deus justo.
Podemos ter certeza de que ele reconhecerá a justiça de nossa causa e, um dia, o mais tardar no último dia, fará brilhar nossa integridade como a luz.
Versículos 10 a 17
A Condenação do Perseguidor.
Na primeira parte do salmo, Davi apresentou seu recurso a Deus por meio da oração e de uma solene declaração de integridade. Nesta última parte, por assim dizer, recebe a sentença relativa ao seu recurso pela fé na palavra de Deus e pela certeza que ela dá da felicidade e da segurança dos justos e da destruição certa dos perversos que permanecem impenitentes.
I. Davi confia que encontrará em Deus seu poderoso protetor e Salvador, bem como o defensor de sua inocência oprimida (v. 10): “Minha defesa vem de Deus.” Não apenas Deus é meu defensor, e descobrirei que é assim, mas não procuro defesa nem segurança em nenhum outro; minha esperança de abrigo no perigo está posta somente em Deus; se eu tiver defesa, ela virá de Deus.
“Meu escudo está a cargo de Deus”, como alguns leem. Há em Deus o que dá a todos os que lhe pertencem certeza de proteção. Seu nome é uma torre forte, Provérbios 18:10. Davi fundamenta essa confiança em duas coisas:
- O favor especial de Deus para com todos os que são sinceros: Ele salva os retos de coração. Salva-os com salvação eterna e, portanto, os preservará para seu reino celestial. Livra-os das tribulações presentes tanto quanto lhes é proveitoso; sua integridade e retidão os preservarão.
Os retos de coração estão seguros sob a proteção divina e devem reconhecer essa segurança.
- O respeito geral de Deus pela justiça e pela equidade: “Deus julga os justos.” Ele reconhece toda causa justa, a sustentará em cada justo e o protegerá. “Deus é um Juiz justo”, como alguns leem, que não apenas pratica pessoalmente a justiça, mas também cuidará para que a justiça seja praticada pelos filhos dos homens e vingará e punirá toda injustiça.
II. Davi não tem menos certeza da destruição de todos os seus perseguidores, isto é, de todos os que não quiserem arrepender-se para dar glória a Deus.
Anuncia aqui a condenação deles, para o bem deles, se possível, para que abandonem a inimizade; ou, de qualquer modo, para seu próprio consolo, para que não os tema nem se aflija com a prosperidade e o êxito temporários deles. Ele entra no santuário de Deus e ali entende:
- Que são filhos da cólera. Não devem ser invejados, pois Deus está irado com eles, está irado com os perversos todos os dias. Diariamente fazem o que o provoca; ele se indigna com isso e acumula essa indignação para o dia da cólera.
Assim como suas misericórdias se renovam a cada manhã para com seu povo, também sua ira se renova a cada manhã contra os perversos, por causa das novas provocações que suas transgressões repetidas oferecem.
Deus está irado com os perversos até nos dias mais alegres e prósperos da vida deles, e mesmo nos dias em que praticam sua devoção. Se lhes permite prosperar, é em cólera; se oram, suas próprias orações são uma abominação. A cólera de Deus permanece sobre eles (João 3:36), e continuamente se acrescenta a ela.
- Que são filhos da morte, como todos os filhos da cólera: filhos da perdição, destinados à ruína. Veja sua destruição:
(1.) Deus os destruirá. A destruição que lhes está reservada vem do Todo-Poderoso e deve causar temor a cada um de nós, pois procede da cólera de Deus, v. 13, 14. Aqui se indica:
[1.] Que a conversão dos pecadores pode evitar sua destruição, pois ela é ameaçada com esta condição: se ele não se desviar do mau caminho e não abandonar sua inimizade contra o povo de Deus, espere a ruína. Se, porém, se converter, fica implícito que seu pecado será perdoado e tudo ficará bem.
Assim, até as ameaças de cólera são apresentadas com uma implicação graciosa de misericórdia, suficiente para justificar Deus para sempre na destruição dos que perecem. Poderiam ter-se convertido e vivido, mas preferiram continuar e morrer; por isso o sangue deles recai sobre a própria cabeça.
[2.] Que, se a conversão do pecador não evitar essa destruição, a justiça de Deus a preparará para ele. De modo geral (v. 13), “Preparou-lhe os instrumentos de morte”, de toda a morte que é salário do pecado.
Se Deus for abater, não lhe faltarão instrumentos de morte para nenhuma criatura; até a menor e mais fraca pode tornar-se instrumento quando ele quiser. Primeiro, há aqui uma variedade de instrumentos, todos respirando ameaças e matança.
Há uma espada, que fere e mata de perto; um arco e flechas, que ferem e matam de longe aqueles que pensam escapar ao alcance da justiça vingadora de Deus. Se o pecador fugir da arma de ferro, ainda assim o arco de aço o traspassará, Jó 20:24.
Em segundo lugar, diz-se que todos esses instrumentos de morte estão prontos. Deus não precisa procurá-los; estão sempre à mão. Os julgamentos estão preparados para os escarnecedores. O Tofete está preparado desde tempos antigos.
Em terceiro lugar, enquanto prepara seus instrumentos de morte, Deus avisa os pecadores a tempo do perigo e lhes dá prazo para se arrependerem e evitá-lo. Demora a punir e é paciente conosco, não querendo que ninguém pereça.
Em quarto lugar, quanto mais se adia a destruição para dar tempo ao arrependimento, mais dolorosa ela será, mais pesadamente cairá e mais pesará para sempre, se esse tempo não for aproveitado. Enquanto Deus espera, a espada é afiada e o arco é retesado.
Em quinto lugar, a destruição dos pecadores impenitentes, embora venha devagar, vem com certeza, pois foi decretada; desde muito tempo estão destinados a ela.
Em sexto lugar, entre todos os pecadores, os perseguidores são colocados como os alvos mais visíveis da cólera divina. Contra eles, mais do que contra quaisquer outros, Deus destinou suas flechas. Desafiam a Deus, mas não conseguem colocar-se fora do alcance de seus julgamentos.
(2.) Eles destruirão a si mesmos, vv. 14-16. O pecador é descrito aqui como alguém que se esforça muito para arruinar a si mesmo: empenha mais esforço em condenar sua alma do que, se bem dirigido, bastaria para salvá-la. Sua conduta é descrita:
[1.] Pelas dores de uma mulher em trabalho de parto, que dá à luz uma falsa concepção, v. 14. A mente do pecador, com seus cálculos sagazes, concebe o dano, maquina-o com muita habilidade, aprofunda a trama e a mantém em segredo. O coração do pecador, com suas paixões, sofre dores de parto com a iniquidade e sente as dores de dar à luz os projetos maliciosos que incuba contra o povo de Deus.
Mas o que nasce quando chega o parto? Falsidade: um embuste contra ele próprio, uma mentira em sua mão direita. Não consegue realizar o que pretendia; ou, mesmo que alcance seu objetivo, não terá a satisfação que prometeu a si mesmo.
Dá à luz “vento” (Isaías 26:18), “palha” (Isaías 33:11) e “morte” (Tiago 1:15), isto é, falsidade.
[2.] Pelos esforços de um homem que trabalha arduamente para cavar uma cova, depois cai nela e ali perece. Em primeiro lugar, isso é verdade, em certo sentido, de todos os pecadores. Preparam sua própria destruição ao preparar a si mesmos para ela, sobrecarregando-se de culpa e entregando-se às suas corrupções.
Em segundo lugar, isso muitas vezes é notavelmente verdadeiro daqueles que maquinam dano ao povo de Deus ou a seus próximos: pela mão justa de Deus, esse dano lhes recai sobre a própria cabeça. O que tinham como desígnio para a vergonha e destruição dos outros acaba sendo sua própria confusão.
Nec lex est justior ulla
Quam necis artifices arte perire sua.
Não há lei mais justa que esta: o autor
De um plano assassino por ele perecerá.
Alguns aplicam isso a Saul, que caiu sobre sua espada.
Ao cantar este salmo, devemos fazer como Davi aqui faz (v. 17): louvar ao Senhor conforme sua justiça, isto é, dar-lhe a glória pela proteção graciosa sob a qual acolhe seu povo aflito e pela justa vingança com que perseguirá aqueles que o afligem.
Assim devemos cantar em louvor ao Senhor Altíssimo, que, quando seus inimigos agem com orgulho, mostra que está acima deles.