Matthew Henry

Salmos 68

Argumento

Este é um salmo de grande excelência, mas em muitos lugares não é fácil alcançar seu sentido genuíno; pois nele, como em algumas outras passagens das Escrituras, há coisas obscuras e difíceis de entender. Não está claro quando nem em que ocasião Davi escreveu este salmo.

Provavelmente foi quando, depois de Deus lhe conceder descanso de todos os seus inimigos ao redor, ele trouxe a arca da casa de Obede-Edom para a tenda que havia armado para ela em Sião.

A arca era tanto o sinal da presença de Deus quanto um tipo da mediação de Cristo. Pois as primeiras palavras do salmo são a oração que Moisés usava quando a arca partia, Números 10:35.

Daí, o Espírito de profecia o leva a falar de coisas gloriosas acerca do Messias, de sua ascensão ao céu e do estabelecimento de seu reino no mundo. I. Ele começa com uma oração tanto contra os inimigos de Deus (v. 1, 2) quanto em favor de seu povo, v. 3.

II. Ele passa ao louvor, que ocupa o restante do salmo: convida todos a louvar a Deus (v. 4, 26, 32) e apresenta muitos motivos de louvor. 1. A grandeza e a bondade de Deus, vv. 4-6.

  1. As obras maravilhosas que Deus havia feito anteriormente em favor de seu povo: conduziu-os pelo deserto (v. 7, 8), estabeleceu-os em Canaã (v. 9, 10), deu-lhes vitória sobre seus inimigos (v. 11, 12) e os livrou das mãos de seus opressores, v. 13, 14.

  2. A presença especial de Deus em sua igreja, vv. 15-17. 4. A ascensão de Cristo (v. 18) e a salvação de seu povo por meio dele, v. 19, 20. 5. As vitórias que Cristo obteria sobre seus inimigos e os favores que concederia à sua igreja, vv. 21-28. 6. A ampliação da igreja com a entrada dos gentios nela, vv. 29-31.

Assim, ele conclui o salmo com um reverente reconhecimento da glória e da graça de Deus, vv. 32-35. Ao cantar este salmo, devemos procurar que todas essas grandes coisas nos afetem como convém.

Oração pela Dispersão dos Inimigos de Deus.

Versículos 1 a 6

Ao Músico-Mor. Salmo ou Cântico de Davi.

Nestes versículos:

I. Davi ora para que Deus apareça em sua glória:

  1. Para a confusão de seus inimigos (v. 1, 2): “Que Deus se levante, como um juiz para pronunciar sentença contra eles e como um general para entrar em campo e executar a sentença. Que sejam dispersos e fujam diante dele, incapazes de manter suas posições, quanto mais de resistir-lhe.”

“Que Deus se levante como o sol quando sai em sua força; e os filhos das trevas serão dispersos, como as sombras da tarde fogem diante do sol nascente.”

“Que sejam levados como fumaça pelo vento: ela sobe como se fosse eclipsar o sol, mas imediatamente se dissipa, sem deixar vestígio. Que se derretam como cera que rapidamente é dissolvida diante do fogo.”

Assim Davi comenta a oração de Moisés: não apenas a repete, aplicando-a a si mesmo e aos seus próprios tempos, mas também a amplia, para nos ensinar a usar as orações das Escrituras.

Ou melhor, ela aponta mais longe, para a vitória do Redentor sobre os inimigos de seu reino, pois ele era o anjo da aliança que conduziu Israel pelo deserto. Repare:

(1.) Existem, existiram e sempre existirão pessoas que são inimigas de Deus e o odeiam, que se unem à antiga serpente contra o reino de Deus entre os homens e contra a descendência da mulher. (2.) São os perversos, e somente os perversos, que são inimigos de Deus: os filhos do maligno.

(3.) Embora devamos orar por nossos inimigos enquanto nossos inimigos, ainda assim devemos orar contra os inimigos de Deus enquanto inimigos dele, contra sua inimizade para com Deus e todas as suas investidas contra o reino divino.

(4.) Se Deus simplesmente se levantar, todos os seus inimigos impenitentes e irreconciliáveis, que não querem arrepender-se para lhe dar glória, certamente e rapidamente serão dispersos, levados embora e feitos perecer em sua presença. Pois ninguém jamais endureceu seu coração contra Deus e prosperou.

O dia do juízo será o dia da perdição completa e definitiva dos ímpios (2 Pedro 3:7), que se derreterão como cera diante daquele fogo flamejante no qual o Senhor então aparecerá, 2 Tessalonicenses 1:8.

  1. Para o consolo e a alegria de seu próprio povo (v. 3): “Que os justos se alegrem, os que agora estão entristecidos; que exultem diante de Deus, em sua presença favorável.”

“Deus é a alegria de seu povo; que se alegrem sempre que comparecerem diante de Deus. Sim, e ainda: que se alegrem extraordinariamente, que se alegrem com alegria.”

Repare: quem se alegra em Deus tem motivo para alegrar-se com alegria imensa, e devemos desejar essa alegria a todos os santos, pois ela lhes pertence. A luz é semeada para os justos.

II. Ele louva a Deus por suas aparições gloriosas e nos convoca a louvá-lo, a cantar ao seu nome e a exaltá-lo:

  1. Como um grande Deus, infinitamente grande (v. 4): Ele cavalga sobre os céus, pelo seu nome JAH. É a fonte de todos os movimentos dos corpos celestes; dirige-os e os governa como quem, montado numa carruagem, a põe em movimento. Exerce comando supremo sobre as influências do céu.

Ele cavalga sobre os céus para ajudar seu povo (Deuteronômio 33:26), tão depressa, tão poderosamente e tão acima do alcance de qualquer oposição.

Governa esses corpos por seu nome Jah, ou Jeová: um ser que existe por si mesmo e é autossuficiente, fonte de todo ser, poder, movimento e perfeição. Esse é seu nome para sempre.

Ao exaltar a Deus dessa maneira, devemos alegrar-nos diante dele. A santa alegria em Deus é plenamente compatível com a reverência e o temor piedoso com que devemos adorá-lo.

  1. Como um Deus benigno, de misericórdia e terna compaixão. Ele é grande, mas não despreza ninguém, nem mesmo o mais humilde; ou melhor, sendo um Deus de grande poder, usa seu poder para socorrer os aflitos, v. 5, 6.

Os órfãos, as viúvas e os solitários encontram nele um Deus que lhes é todo-suficiente. Observe como a bondade de Deus é sua glória.

Seria de esperar que aquele que cavalga sobre os céus pelo nome Jah fosse imediatamente adorado como Rei dos reis e Senhor dos senhores e como governante supremo de todos os assuntos dos Estados e das nações. Ele o é; contudo, gloria-se antes nisto: é Pai dos órfãos.

Embora Deus seja elevado, ainda assim leva em conta os humildes. Felizes aqueles que têm parte em tal Deus! Aquele que cavalga sobre os céus é um Pai que vale a pena ter; três vezes feliz é o povo cujo Deus é o Senhor.

(1.) Quando as famílias perdem seu chefe, Deus cuida delas e ele próprio é seu chefe. As viúvas e os filhos órfãos encontrarão nele aquilo que perderam no parente que lhes foi tirado, e infinitamente mais e melhor.

Ele é Pai dos órfãos: compadece-se deles, abençoa-os, lhes ensina, provê para eles e lhes dá sua porção.

Ele os conservará vivos (Jeremias 49:11), e nele encontrarão misericórdia, Oseias 14:3. Têm liberdade para chamá-lo de Pai e para invocar essa relação com ele como seu protetor, Salmos 146:9; 10:14,18.

É juiz ou defensor das viúvas: aconselha-as, corrige as injustiças que sofrem, reconhece-as como suas e defende sua causa, Provérbios 22:23. Tem o ouvido aberto para todas as suas reclamações e a mão aberta para todas as suas carências.

Ele é assim em sua santa habitação. Esta pode ser entendida como a habitação de sua glória no céu: ali ele preparou seu trono de juízo, ao qual órfãos e viúvas podem recorrer livremente e sob cuja proteção são acolhidos, Salmos 9:4,7.

Ou pode ser a habitação de sua graça na terra; nesse caso, é uma orientação para viúvas e órfãos sobre como se aproximar de Deus: que vão à sua santa habitação, à sua palavra e às suas ordenanças. Ali poderão encontrá-lo e encontrar nele consolo.

(2.) Quando se devem formar famílias, ele é seu fundador: “Deus põe os solitários em famílias”, leva os que viviam sós a relações confortadoras e dá estabilidade conveniente aos que não a tinham (Salmos 113:9). Faz morar em casa aqueles que eram forçados a buscar auxílio fora dela, conforme o Dr. Hammond.

Põe os desamparados em condições de ganhar o próprio sustento. Este é um modo muito bom de exercer a caridade humana, assim como é próprio da generosidade de Deus.

  1. Como um Deus justo: (1.) Ao socorrer os oprimidos. Ele tira os acorrentados da prisão e põe em liberdade aqueles que foram injustamente presos e submetidos à servidão. Nenhuma corrente pode deter aqueles a quem Deus libertará.

(2.) Ao acertar contas com os opressores: os rebeldes habitam em terra seca e não encontram consolo naquilo que obtiveram por fraude e injúria. A melhor terra será seca para aqueles que, por sua rebeldia, perderam o direito à bênção de Deus, que é a seiva e a fartura de tudo o que desfrutamos.

Os israelitas foram tirados do Egito para o deserto, mas ali receberam provisão melhor que a dos próprios egípcios. A terra destes, quando o Nilo lhes falhava, como acontecia às vezes, tornava-se seca.

Versículos 7 a 14

Louvores de Gratidão a Deus; Misericórdias Relembradas.

O salmista aqui, tendo ocasião de agradecer a Deus pelas grandes coisas que fizera recentemente por ele e pelo seu povo, aproveita para louvá-lo pelo que havia feito pelos antepassados deles nos tempos antigos. As misericórdias recentes devem nos fazer lembrar das anteriores e renovar nossa gratidão por elas. Que nunca se esqueça:

I. Que o próprio Deus guiou Israel pelo deserto. Quando os tirou de suas correntes, não os deixou naquela terra árida; ele mesmo foi à frente deles numa marcha pelo deserto, v. 7. Não era uma viagem, mas uma marcha, pois seguiam como soldados, como um exército com bandeiras.

Os egípcios julgavam que o deserto os havia encerrado, mas se enganaram. O Israel de Deus, tendo-o por guia, marchou pelo deserto e não se perdeu nele. Repare: se Deus levar seu povo a um deserto, certamente irá à frente deles e os tirará dali, Cantares de Salomão 8:5.

II. Que ele manifestou sua presença gloriosa entre eles no monte Sinai, v. 8. Nunca outro povo viu a glória de Deus nem ouviu sua voz como Israel viu e ouviu, Deuteronômio 4:32, 33. Nunca outro povo recebeu uma lei tão excelente, tão bem exposta e imposta.

Então a terra tremeu, e é provável que os países vizinhos tivessem sentido o abalo. Houve trovões terríveis, acompanhados, sem dúvida, de chuvas de tempestade, sob as quais os céus pareciam gotejar, enquanto a doutrina divina gotejava como a chuva, Deuteronômio 32:2.

O próprio Sinai, aquele monte imenso, aquela longa cadeia de montes, moveu-se diante da presença de Deus; veja Juízes 5:4, 5; Deuteronômio 33:2; Habacuque 3:3. A terrível manifestação da Majestade Divina, assim como lhes incutiria temor e pavor dele, assim animaria sua fé e dependência dele.

Quaisquer que fossem os montes de dificuldades no caminho de seu feliz estabelecimento, aquele que podia mover o próprio Sinai podia removê-los e transpô-los.

III. Que ele lhes deu sustento de modo muito consolador, tanto no deserto como em Canaã (v. 9, 10): “Enviaste chuva abundante e preparaste, por tua bondade, para os pobres.” Isso pode se referir:

  1. Ao sustento de seu acampamento com o maná no deserto, que lhes choveu do céu, assim como as codornizes (Salmos 78:24, 27). Bem se pode chamar isso de chuva de liberalidade ou generosidade, pois foi uma demonstração memorável da bondade divina.

Isso fortaleceu o acampamento de Israel, aqui chamado herança de Deus porque ele o escolhera como seu tesouro especial, quando estava cansado e prestes a perecer. Fortaleceu a fé deles e foi prova duradoura do poder e da bondade de Deus. Mesmo no deserto, Deus encontrou uma morada confortável para Israel, sua congregação. Ou:

  1. Aos suprimentos oportunos concedidos em Canaã, terra que manava leite e mel e da qual se diz que bebe a água da chuva do céu, Deuteronômio 11:11.

Quando aquela terra fértil por vezes estava prestes a se tornar estéril por causa da iniquidade de seus habitantes, Deus, em seu juízo, lembrou-se da misericórdia e lhes enviou chuva abundante, que a refrescou novamente.

Assim, a congregação de Israel habitou ali, e havia provisão suficiente até para saciar seus pobres com pão.

Isso aponta também para a provisão espiritual feita em favor do Israel de Deus: o Espírito da graça e o evangelho da graça são a chuva abundante com que Deus fortalece sua herança e da qual provém seu fruto, Isaías 45:8. O próprio Cristo é essa chuva, Salmos 72:6: “Ele virá como chuvas que regam a terra.”

IV. Que muitas vezes lhes deu vitória sobre seus inimigos. Exércitos e reis à frente de exércitos se levantaram contra eles desde sua primeira entrada em Canaã, durante todo o período dos juízes e até os dias de Davi. Cedo ou tarde, porém, Israel conseguiu o intento contra eles, v. 11, 12, 14. Observe aqui:

  1. Que Deus era seu comandante supremo: “O Senhor deu a palavra”, como general de seus exércitos. Levantou juízes para eles, deu-lhes comissões e instruções e lhes garantiu o êxito. Deus falou em sua santidade e, então, “Gileade é meu”.

  2. Que tinham profetas, como mensageiros de Deus, para lhes transmitir a vontade dele. Deus lhes deu sua palavra, a palavra do Senhor veio a eles, e então grande foi a companhia dos que a anunciavam: profetas e profetisas, pois o termo está no feminino. Quando Deus tem mensagens para enviar, não lhe faltarão mensageiros.

Ou talvez haja uma alusão às mulheres que se juntavam ao triunfo após a vitória, como era costume (Êxodo 15:20; 1 Samuel 18:7). Nele, reparavam na palavra de Deus e triunfavam nela tanto quanto em suas obras.

  1. Que seus inimigos foram derrotados e lançados em confusão: “Reis de exércitos fugiram, fugiram” com o maior terror e a maior precipitação imagináveis. Não lutaram e fugiram; fugiram e continuaram fugindo, recuando sem desferir um único golpe. Fugiram depressa e nunca mais se reagruparam.

  2. Que enriqueceram com os despojos do campo de batalha: “A que ficou em casa repartiu os despojos”. Não só os homens, os soldados que permaneciam junto às bagagens e que, por uma lei de distribuição, deviam partilhar da presa (1 Samuel 30:24), mas até as mulheres que ficavam em casa tiveram sua parte. Isso mostra quão abundantes seriam os despojos.

  3. Que essas grandes coisas feitas por Deus lhes foram santificadas e contribuíram para sua reforma (v. 14): quando o Todo-Poderoso dispersou os reis por ela, isto é, pela igreja, ela ficou branca como a neve em Salmom, purificada e refinada pelas misericórdias de Deus.

Quando o exército saía contra o inimigo, eles se guardavam de toda coisa perversa. Assim, o exército voltava vitorioso, e a vitória confirmava Israel em sua pureza e piedade.

Esse relato das vitórias de Israel se aplica às vitórias que o Redentor exaltado obteve, em favor dos que lhe pertencem, sobre a morte e o inferno. Pela ressurreição de Cristo, nossos inimigos espirituais foram postos em fuga, seu poder foi quebrado e eles ficaram para sempre incapacitados de causar prejuízo a qualquer pessoa do povo de Deus.

Essa vitória foi anunciada primeiro pelas mulheres, as anunciadoras, aos discípulos (Mateus 28:7) e, por meio deles, pregada a todo o mundo. Enquanto isso, os crentes que ficam em casa, sem terem eles mesmos contribuído em nada para ela, desfrutam de seu benefício e repartem os despojos.

V. Que de uma condição humilde e desprezada foram elevados ao esplendor e à prosperidade.

Quando eram escravos no Egito e, mais tarde, quando eram oprimidos ora por um vizinho poderoso, ora por outro, jaziam, por assim dizer, entre as panelas ou o entulho, como vasos quebrados e desprezados, ou vasos nos quais ninguém tinha prazer. Estavam escuros, sujos e desbotados.

Por fim, porém, Deus os tirou das panelas (Salmos 81:6). Nos dias de Davi, estavam a caminho de se tornar um dos reinos mais prósperos do mundo, formosos aos olhos de todos os povos ao redor, como as asas de uma pomba cobertas de prata, v. 13.

“Assim também”, diz o dr. Hammond, “sob o reino de Cristo, os gentios idólatras, reduzidos à condição mais baixa e desprezível entre todas as criaturas por adorarem madeira e pedra e se entregarem às paixões mais vis, seriam elevados daquela condição detestável ao serviço de Cristo e à prática de todas as virtudes cristãs, as maiores belezas interiores do mundo.”

Isso também pode se aplicar à libertação da igreja de uma condição de sofrimento e às consolações dos crentes em particular depois de seus períodos de desalento.

Versículos 15 a 20

A Glória de Sião; o Rei de Sião.

Depois de louvar a Deus pelo que fizera em favor de Israel em geral, como Deus de Israel (v. 8), Davi passa a louvá-lo de modo especial como Deus de Sião; compare Salmos 9:11. “Cantai louvores ao Senhor que habita em Sião”; por esse motivo, Sião é chamada monte de Deus.

I. Ele compara Sião ao monte de Basã e a outros montes altos e férteis e a prefere a todos eles, v. 15, 16.

É verdade que Sião era pequena e baixa em comparação com eles e não estava coberta de rebanhos e manadas como eles estavam. Ainda assim, tem primazia sobre todos por ser o monte de Deus, onde ele deseja habitar e escolhe manifestar os sinais de sua presença especial, Salmos 132:13, 14.

Repare: é muito mais honroso ser santo para Deus do que ser elevado e grande no mundo. “Por que vocês saltam, ó montes altos? Por que insultam a pobre Sião e se gabam de sua altura?”

“Este é o monte que Deus escolheu. Portanto, embora vocês o superem em tamanho e sejam como navios de primeira classe, ainda assim devem todos baixar as velas diante dele, pois nele está hasteada a bandeira real.”

Sião era especialmente honrada por ser um tipo da igreja do evangelho, por isso chamada monte Sião (Hebreus 12:22). Isso está implícito na declaração de que “o Senhor habitará nele para sempre”, que deve se cumprir na Sião do evangelho.

Não há reino no mundo comparável ao reino do Redentor, nem cidade comparável à constituída pela carta do evangelho, pois nela Deus habita e habitará para sempre.

II. Ele a compara ao monte Sinai, do qual falara (v. 8), e mostra que nela está a Shekiná, ou presença divina, tão verdadeiramente quanto estava no próprio Sinai, embora não de modo tão perceptível, v. 17.

Os anjos são os carros de Deus: seus carros de guerra, dos quais se serve contra os inimigos; seus carros de transporte, que envia para buscar os amigos, como fez com Elias, e se diz que Lázaro foi levado pelos anjos; e seus carros de cerimônia, em meio aos quais manifesta sua glória e seu poder.

São imensamente numerosos: vinte milhares, sim, milhares multiplicados. Na Jerusalém celestial há uma companhia incontável de anjos, Hebreus 12:22.

Os inimigos contra os quais Davi lutou possuíam carros (2 Samuel 8:4), mas que eram eles em número ou força diante dos carros de Deus? Enquanto Davi os tinha de seu lado, não precisava temer os que confiavam em carros e cavalos, Salmos 20:7.

Deus apareceu no monte Sinai acompanhado de miríades de anjos, por cuja mediação a lei foi dada, Atos 7:53. Ele vem com dezenas de milhares de santos, Deuteronômio 33:2.

Deus continua a manifestar sua glória em Sião e ali está realmente presente com um numeroso séquito de seus exércitos celestiais, representado pelos querubins entre os quais se diz que ele habita.

Por isso, conforme alguns leem as últimas palavras do versículo, “Sinai está no santuário”: o santuário era para Israel o que o monte Sinai havia sido, pois dali recebiam os oráculos divinos. Nosso Senhor Jesus tem esses carros sob seu comando.

Quando o Primogênito foi trazido ao mundo, veio com esta ordem: “Adorem-no todos os anjos de Deus” (Hebreus 1:6). Eles o acompanharam em todas as ocasiões, e agora ele está entre eles, depois que anjos, principados e potestades lhe foram sujeitos, 1 Pedro 3:22.

O Novo Testamento também dá a entender que os anjos estão presentes nas assembleias solenes dos cristãos, 1 Coríntios 11:10. Que a mulher tenha um véu sobre a cabeça por causa dos anjos; veja ainda Efésios 3:10.

III. A glória do monte Sião era o Rei que Deus estabeleceu naquele santo monte (Salmos 2:6) e que veio à filha de Sião, Mateus 21:5. O salmista fala aqui de sua ascensão, à qual suas palavras são aplicadas expressamente (Efésios 4:8): “Subiste ao alto” (v. 18); compare Salmos 47:5, 6.

A ascensão de Cristo é apresentada como algo passado, tamanha era sua certeza, e é mencionada para sua honra, tamanha era sua grandeza. Pode abranger todo o seu estado de exaltação, mas aponta especialmente para sua ascensão ao céu, à direita do Pai, que foi tão vantajosa para nós quanto foi uma elevação para ele. Pois:

  1. Ele triunfou, então, sobre as portas do inferno. “Levou cativo o cativeiro”, isto é, conduziu seus cativos em triunfo, como costumavam fazer os grandes conquistadores, expondo-os publicamente, Colossenses 2:15. Levou cativos os que nos haviam levado ao cativeiro e que, se ele não tivesse intervindo, nos teriam mantido cativos para sempre.

Ou melhor, levou cativo o próprio cativeiro, tendo quebrado inteiramente o poder do pecado e de Satanás. Assim como foi a morte da morte, assim foi o cativeiro do cativeiro, Oseias 13:14.

Isso mostra a vitória completa de Jesus Cristo sobre nossos inimigos espirituais. Foi tal vitória que, por meio dele, também somos mais que vencedores, isto é, triunfadores, Romanos 8:37.

  1. Ele abriu, então, as portas do céu a todos os crentes: “Recebeste dons para os homens”. O apóstolo lê: “Deu dons aos homens”, Efésios 4:8. Ele recebeu para poder dar. Sobre sua cabeça foi derramada a unção do Espírito, para que dali descesse até as bordas de suas vestes.

Ele deu o que havia recebido: tendo recebido poder para dar vida eterna, concede-a a tantos quantos lhe foram dados, João 17:2. “Recebeste dons para os homens”, não para os anjos. Os anjos caídos não seriam transformados em santos, nem os anjos que permaneciam firmes em ministros do evangelho, Hebreus 2:5.

Nem eram dons apenas para os judeus, mas para todos os homens; todo aquele que quiser pode colher seus benefícios.

O apóstolo nos diz quais eram esses dons (Efésios 4:11): profetas, apóstolos, evangelistas, pastores e mestres. Tanto o estabelecimento do ministério do evangelho quanto a capacitação dos homens para exercê-lo devem ser estimados como dons do céu e frutos da ascensão de Cristo.

“Recebeste dons no homem” (assim diz a margem), isto é, na natureza humana com a qual Cristo teve por bem se revestir, para ser um sumo sacerdote misericordioso e fiel nas coisas referentes a Deus. Nele, como Mediador, habita toda a plenitude, para que de sua plenitude recebamos.

Para engrandecer a bondade e o amor de Cristo por nós ao receber esses dons em nosso favor, o salmista observa:

(1.) Que havíamos perdido o direito a eles. Ele os recebeu “também para os rebeldes”, para os que haviam sido rebeldes; assim tinham sido todos os filhos dos homens em seu estado caído. Talvez se refira especialmente aos gentios, que tinham sido inimigos em seus pensamentos pelas obras perversas, Colossenses 1:21.

Em favor deles esses dons são recebidos e a eles são concedidos, para que depusessem as armas, sua inimizade fosse morta e voltassem à lealdade. Isso engrandece extraordinariamente a graça de Cristo: por meio dele, os rebeldes que se submetem não só são perdoados, mas também recebem cargos.

Recebem comissões de Cristo, o que, segundo alguns, em nosso direito equivale à anulação de uma condenação que privava o réu de seus direitos. Cristo veio a um mundo rebelde não para condená-lo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele.

(2.) O favor que ele nos destinou por meio deles: recebeu dons para os rebeldes “a fim de que o Senhor Deus habitasse entre eles”.

Assim, estabeleceria uma igreja num mundo rebelde, onde habitaria por sua palavra e suas ordenanças, como antes habitava no santuário, e onde estabeleceria seu trono. Cristo também habitaria no coração de pessoas que haviam sido rebeldes.

O propósito gracioso da obra de Cristo era erguer o tabernáculo de Deus entre os homens, para que ele habitasse com eles e eles próprios fossem templos vivos para seu louvor, Ezequiel 37:27.

IV. A glória do Rei de Sião está em ser Salvador e benfeitor para todo o seu povo disposto a segui-lo, mas fogo consumidor para todos os que persistem em se rebelar contra ele, vv. 19-21. Temos aqui o bem e o mal, a vida e a morte, a bênção e a maldição postos diante de nós, como em Marcos 16:16: “Quem crer será salvo; quem não crer será condenado”.

  1. Os que tomam Deus por seu Deus e, assim, se entregam a ele para ser seu povo, serão carregados de seus benefícios, e ele será para eles Deus de salvação. Se, com sinceridade, reconhecemos Deus como nosso Deus e o buscamos nessa condição:

(1.) Ele nos fará continuamente o bem e nos dará motivo para louvá-lo. Depois de mencionar os dons que Cristo recebeu por nós (v. 18), o salmista acrescenta, com razão, nas palavras seguintes: “Bendito seja o Senhor”. É à mediação de Cristo que devemos a vida, uma vida desfrutada com conforto, e o fato de sermos diariamente carregados de benefícios.

Tantos e tão pesados são os dons da generosidade de Deus para conosco que, na verdade, se pode dizer que ele nos carrega deles. Derrama bênçãos até não haver lugar para recebê-las, Malaquias 3:10. São tão constantes, e ele é tão incansável em nos fazer o bem, que nos carrega delas diariamente, conforme exige a necessidade de cada dia.

(2.) Por fim, ele será para nós o Deus da salvação, da salvação eterna: a salvação de Deus, que ele mostrará aos que ordenam corretamente sua conduta (Salmos 50:23), a salvação da alma. Aquele que diariamente nos carrega de benefícios não nos deixará apenas as coisas presentes como herança, mas será o Deus de nossa salvação.

O que nos dá agora, dá como Deus da salvação, conforme o grande desígnio de nossa salvação. Ele é nosso Deus e, portanto, será para nós o Deus da salvação eterna, pois somente ela corresponde à vasta extensão de sua relação de aliança conosco como nosso Deus.

Mas ele tem poder para completar essa salvação? Sim: certamente, pois “a Deus, o Senhor, pertencem as saídas da morte”. As chaves do inferno e da morte foram postas nas mãos do Senhor Jesus, Apocalipse 1:18.

Tendo ele próprio escapado da morte em sua ressurreição, possui tanto autoridade quanto poder para resgatar os seus do domínio dela. Faz isso ao mudar a natureza da morte para eles quando morrem e lhes dar vitória completa sobre ela quando ressuscitarem, pois o último inimigo a ser destruído é a morte.

Para aqueles que escaparão assim da morte para sempre e encontrarão tal saída dela que não serão feridos pela segunda morte, os livramentos da morte temporal são, certamente, misericórdias de fato. Vêm de Deus como o Deus da salvação deles, 2 Coríntios 1:10.

  1. Os que persistem na inimizade contra ele certamente serão arruinados (v. 21): “Deus ferirá a cabeça dos seus inimigos”: a de Satanás, a antiga serpente, sobre a qual se predisse na primeira promessa que a descendência da mulher lhe quebraria a cabeça (Gênesis 3:15); e a de todos os poderes das nações, judeus ou gentios, que se opõem a ele e ao seu reino entre os homens.

“Ferirá as cabeças sobre muitos países”, Salmos 110:6. Ferirá a cabeça de todos os que, sejam quem forem, não o querem reinando sobre si, pois ele os considera inimigos, e serão trazidos e mortos diante dele, Lucas 19:27.

Ele ferirá o couro cabeludo coberto de cabelos daquele que continua em suas transgressões. Repare: Deus considera inimigos os que continuam em suas transgressões e detestam ser corrigidos; ele os tratará de acordo.

Ao chamar a cabeça de couro cabeludo coberto de cabelos, talvez haja uma alusão a Absalão, para quem a vasta cabeleira se tornou um laço. Ou a expressão designa os inimigos mais ferozes e bárbaros, que deixam o cabelo crescer para parecer mais assustadores, ou os mais esmerados e delicados, que cuidam muito do cabelo.

Nem uns nem outros podem se proteger dos ferimentos fatais que a justiça divina causará à cabeça dos que continuam em seus pecados.

Versículos 22 a 31

A Redenção do Povo de Deus; Deveres Exigidos pelas Manifestações da Graça.

Nestes versículos temos três coisas:

I. A promessa graciosa que Deus faz de redimir seu povo e lhe dar vitória sobre os inimigos dele e de seu povo (v. 22, 23): o Senhor disse, em seu próprio desígnio e promessa graciosos: “Farei grandes coisas por meu povo, como o Deus de sua salvação”, v. 20.

Deus não frustrará as expectativas daqueles que, pela fé, o tomam por seu Deus. Promete-se:

  1. Que ele os porá em segurança, livrando-os do perigo, como fizera antes: “Novamente os trarei das profundezas do mar”, como fez com Israel ao tirá-los da escravidão do Egito para a tranquilidade e liberdade do deserto.

“E novamente os trarei de Basã”, como fez com Israel ao levá-los das carências e peregrinações do deserto para a abundância e estabilidade da terra de Canaã. A terra de Basã ficava do outro lado do Jordão, onde travaram guerras contra Seom e Ogue; de lá, seu próximo deslocamento foi para Canaã. Repare:

As manifestações anteriores do poder e da bondade de Deus em favor de seu povo devem animar a fé e a esperança desse povo nele para o futuro: o que ele fez, tornará a fazer.

Ele estenderá a mão pela segunda vez para recuperar o remanescente de seu povo (Isaías 11:11); talvez vejamos repetidas todas as maravilhas de que nossos pais nos falaram.

Isso, porém, não é tudo: 2. Que ele os fará vitoriosos sobre os inimigos (v. 23): que você tenha os pés mergulhados, ao passar, no sangue de seus inimigos, derramado como água em grande abundância, e que a língua de seus cães lamba o mesmo sangue.

Os cães lamberam o sangue de Acabe; na destruição da geração anticristã, lemos que o sangue chegará até os freios dos cavalos, Apocalipse 14:20. Aqui se profetizam as vitórias com que Deus abençoou as forças de Davi sobre os inimigos de Israel.

Essas vitórias, porém, são tipos da vitória de Cristo sobre a morte e o sepulcro, para si mesmo e para todos os crentes, em sua ressurreição da terra (e na ressurreição deles por virtude da sua), e da destruição dos inimigos de Cristo e de sua igreja, aos quais será dado sangue a beber, pois são dignos disso.

II. A boa acolhida que o próprio povo de Deus dará a essas gloriosas manifestações de sua graça, tanto em sua palavra quanto em suas obras. Ele falou em sua santidade? Disse que novamente trará de Basã? O que, então, se exige de nós em resposta a isso?

  1. Que observemos seus movimentos (v. 24): “Eles viram, teu povo viu teus passos, ó Deus! Enquanto outros não reparam na obra do Senhor nem na operação de suas mãos, eles viram os passos de meu Deus, meu Rei, no santuário”. Veja aqui:

(1.) Como a fé ativa se apropria de Deus: ele é Deus e Rei, mas isso não é tudo; ele é meu Deus e meu Rei. Aqueles que assim o tomam por seu podem vê-lo, em todas as suas manifestações, agindo como seu Deus e seu Rei, para o bem deles e em resposta a suas orações.

(2.) Onde se dão as manifestações mais notáveis de Deus: no próprio santuário, em sua palavra e nas ordenanças, e por meio delas; especialmente entre seu povo na igreja do evangelho, onde e por meio de que se faz conhecida a multiforme sabedoria de Deus.

Essas manifestações no santuário superam em muito as manifestações da manhã e da tarde e proclamam mais alto seu eterno poder e sua divindade.

(3.) Qual é nosso dever quanto a essas manifestações: observá-las. Isto é o dedo de Deus. Certamente Deus está de fato conosco.

  1. Que lhe demos glória da maneira mais devota e solene. Quando vemos seus passos no santuário:

(1.) Louvem-no os que trabalham diretamente no serviço do templo, v. 25. Esperava-se que os levitas, dos quais alguns eram cantores e outros tocavam instrumentos, por terem visto mais de perto suas manifestações no santuário, conduzissem seus louvores.

Como era um dia de triunfo extraordinário, havia também entre eles moças tocando tamborins, para completar o conjunto.

“Assim”, diz o doutor Hammond, “quando Cristo tiver subido ao céu, os apóstolos celebrarão e anunciarão isso ao mundo inteiro, e até as mulheres que testemunharam sua ascensão se juntarão a eles afetuosamente para divulgá-la.”

(2.) Dê glória a Deus todo o povo de Israel em sua assembleia religiosa solene: bendiga a Deus não apenas nos templos, mas também nas sinagogas, nas escolas dos profetas ou onde quer que haja uma congregação dos que procedem da fonte de Israel, da descendência de Jacó; juntem-se todos para bendizer a Deus.

As misericórdias públicas, de que participamos juntos, pedem ações de graças públicas, às quais todos devem juntar-se. “Assim”, diz o doutor Hammond, “todos os cristãos serão obrigados a engrandecer solenemente o nome do Messias e, para isso, reunir-se com frequência em congregações.”

(3.) Aqueles que, por qualquer motivo, são mais eminentes e ocupam posição de destaque tomem a dianteira dos demais no louvor a Deus, v. 27. Ali estava o pequeno Benjamim, tribo real no tempo de Saul, com seus governantes; e os príncipes de Judá, tribo real no tempo de Davi, com seu conselho, seus capitães ou líderes.

No início do reinado de Davi, houve longa guerra entre Judá e Benjamim; agora, porém, ambos se unem em louvores pelo êxito contra o inimigo comum. Por que, no entanto, são mencionadas especificamente as tribos de Zebulom e Naftali?

Talvez porque essas tribos, situadas ao norte, estivessem mais expostas às incursões dos sírios e de outros vizinhos que as importunavam e, por isso, devessem agradecer de modo especial por essas vitórias. O doutor Hammond dá outro motivo: essas eram as duas tribos instruídas.

“Naftali profere belas palavras” (Gênesis 49:21), e Zebulom tinha “os que manejam a pena do escritor”, Juízes 5:14. Elas se juntarão ao louvor a Deus, especialmente seus príncipes.

É uma grande honra para Deus quando aqueles que se destacam em dignidade, poder e reputação vão à frente dos outros em seu culto e se adiantam em usar sua influência e seu prestígio para promover qualquer serviço que lhe deva ser prestado.

O doutor Hammond observa daí que, por fim, todos os potentados e homens instruídos do mundo se submeteriam ao reino do Messias.

  1. Que o busquemos e dependamos dele para aperfeiçoar o que começou, v. 28. Na primeira parte do versículo, o salmista fala a Israel: “Teu Deus ordenou a tua força; isto é, tudo o que se faz por ti ou toda a força que tens para te ajudar vêm de Deus, de seu poder, de sua graça e da palavra que ele ordenou.”

“Não tens motivo para temer enquanto dispões da força que Deus ordena, nem para te vangloriar, pois não tens força alguma que não venha da ordem dele.” Na parte final, animado por suas experiências, o salmista fala a Deus: “Fortalece, ó Deus, o que fizeste por nós”.

“Senhor, confirma o que ordenaste, cumpre o que prometeste e leva a um fim feliz a boa obra que começaste de modo tão glorioso.” O que Deus fez, ele fortalecerá; onde concedeu verdadeira graça, concederá mais graça.

Alguns entendem que todo esse versículo é uma fala do crente dirigida ao Messias, a quem Davi chama Deus, como já fizera em Salmos 45:6, 8. “Teu Deus” (Deus Pai) “ordenou a tua força, fez-te forte para si, como o homem de sua destra (Salmos 80:17), e guardou em ti força para nós.”

“Por isso, pedimos que tu, ó Deus Filho, fortaleças o que fizeste por nós e cumpras teu compromisso conosco, concluindo em nós a tua boa obra.”

III. O poderoso convite e estímulo que, por tudo isso, seriam dados aos que estão de fora para entrarem e se unirem à igreja, vv. 29-31. Isso se cumpriu em parte quando muitos prosélitos aderiram à religião judaica nos dias de Davi e Salomão.

Seu cumprimento pleno, porém, viria na conversão das nações gentias à fé de Cristo, tornando-as coerdeiras e membros do mesmo corpo com a descendência de Israel, Efésios 3:6.

  1. Alguns se submeterão por medo (v. 30): “A companhia dos lanceiros, que resiste a Cristo e a seu evangelho, não quer ser governada por ele e persegue os pregadores e os que professam seu nome; são furiosos e violentos como uma multidão de touros, cevados e desenfreados como os bezerros do povo.”

Essa é uma descrição dos judeus e gentios que se opuseram ao evangelho de Cristo e fizeram o que puderam para impedir o estabelecimento de seu reino no mundo. “Senhor, repreende-os, abate seu orgulho, abranda sua malícia e frustra seus desígnios.”

“Até que, vencidos pelo convencimento de suas consciências e pelos muitos freios da providência, todos eles sejam afinal levados a submeter-se com peças de prata, contentes em fazer as pazes com a igreja sob quaisquer condições.”

Até Judas se submeteu com peças de prata quando as devolveu com esta confissão: “Traí sangue inocente”. Veja também Apocalipse 3:9. Muitos, ao serem repreendidos, foram felizmente salvos da ruína.

Quanto aos que não se submeterão, apesar dessas repreensões, Davi pede que sejam dispersos, o que equivale a uma profecia dessa dispersão: “Dispersa os povos que se deleitam na guerra”, que sentem tanto prazer em se opor a Cristo que jamais se reconciliarão com ele.

Isso pode referir-se aos judeus incrédulos, que se deleitavam em guerrear contra a santa descendência, não quiseram submeter-se e, por isso, foram espalhados pela face da terra.

O próprio Davi havia sido homem de guerra, mas podia declarar diante de Deus que nunca se deleitara na guerra nem no derramamento de sangue por si mesmos.

Quanto aos que assim se deleitavam e, por isso, não aceitavam as mais favoráveis condições de paz, ele não duvida de que Deus os dispersaria. Quem consegue deleitar-se na guerra e sentir prazer na disputa abandonou todos os princípios sagrados tanto da humanidade quanto do cristianismo.

Que essas pessoas esperem que, cedo ou tarde, terão guerra e disputa de sobra, Isaías 33:1; Apocalipse 13:10.

  1. Outros se submeterão de boa vontade (v. 29, 31): “Por causa do teu templo em Jerusalém” — Davi fala disso pela fé, pois o templo ainda não fora construído em seu tempo; apenas seus materiais e seu modelo tinham sido preparados —, “reis te trarão presentes”.

Serão trazidos presentes ricos, dignos de reis. Até os próprios reis, que fazem grande questão das minúcias da honra e da prerrogativa, buscarão o favor de Cristo a grande custo.

Há no templo de Deus, no serviço a ele, na comunhão com ele e no evangelho de Cristo que saiu de Jerusalém tanta beleza e tanto benefício que isso basta para convidar os próprios reis a levar presentes a Deus, apresentar-se a ele como sacrifícios vivos e oferecer, junto consigo, seus melhores serviços.

Davi menciona o Egito e a Etiópia, dois países de onde menos se esperariam súditos e suplicantes (v. 31): “Príncipes virão do Egito” como embaixadores para buscar o favor de Deus e submeter-se a ele.

Serão aceitos, pois o Senhor dos exércitos os abençoará por isso, dizendo: “Bendito seja o Egito, meu povo”, Isaías 19:25.

Até a Etiópia, que havia estendido suas mãos contra o Israel de Deus (2 Crônicas 14:9), agora estenderá suas mãos a Deus, em oração, com presentes e para apegar-se a ele, e o fará logo. Concilie-se depressa com seu adversário. De todas as nações, alguns serão reunidos a Cristo e reconhecidos por ele.

Versículos 32 a 35

Louvor a Deus por Seu Domínio Soberano.

Depois de orar pela conversão dos gentios e profetizá-la, o salmista os convida aqui a entrar e juntar-se aos israelitas devotos no louvor a Deus. Indica que a entrada deles na igreja seria motivo da alegria e do louvor dos próprios gentios (v. 32): Que os reinos da terra cantem louvores ao Senhor.

Todos devem fazê-lo e, quando se tornarem os reinos do Senhor e de seu Cristo, o farão. Deus lhes é apresentado como o objeto apropriado do louvor por diversos motivos:

I. Por seu domínio supremo e soberano: Ele cavalga sobre os céus dos céus, que existem desde a antiguidade (v. 33); compare v. 4. Desde o princípio, ou melhor, antes de todo o tempo, ele preparou seu trono. Senta-se sobre o círculo do céu e dirige todos os movimentos dos corpos celestes.

Dos mais altos céus, morada de sua glória, ele faz chegar a este mundo terreno a influência de seu poder e de sua bondade.

II. Por sua majestade assombrosa e temível: Ele emite a sua voz, e esta é uma voz poderosa. Isso pode referir-se, de modo geral, ao trovão, chamado de voz do Senhor e descrito como poderoso e cheio de majestade (Salmos 29:3, 4), ou, em particular, ao trovão em que Deus falou a Israel no monte Sinai.

III. Por seu imenso poder: “Atribuí força a Deus” (v. 34); reconheçam que seu poder é tão irresistível que contender com ele é insensatez e submeter-se a ele é sabedoria.

Reconheçam que ele tem poder suficiente tanto para proteger seus súditos fiéis quanto para destruir seus adversários obstinados e deem-lhe glória por todas as manifestações de sua onipotência.

Dele são o reino e o poder; por isso, dele é a glória. Devemos reconhecer seu poder:

  1. No reino da graça: “Sua excelência está sobre Israel”; ele mostra seu cuidado soberano ao proteger e governar sua igreja. Essa é a excelência de seu poder, empregado para o bem de seu povo.

  2. No reino da providência: “Sua força está nas nuvens”, de onde vêm o trovão de seu poder, a chuva miúda e a grande chuva de sua força. Embora Deus tenha sua força nas nuvens, ainda assim se inclina para reunir seu Israel sob a sombra de suas asas, Deuteronômio 33:26.

IV. Pela glória de seu santuário e pelas maravilhas ali realizadas (v. 35): “Ó Deus, tu és temível desde os teus lugares santos”.

Deus deve ser admirado e adorado com reverência e piedoso temor por todos os que o servem em seus lugares santos, recebem seus oráculos, observam suas obras à luz desses oráculos e lhe prestam homenagem.

De seus lugares santos, ele manifesta algo que anuncia em alta voz: ele será santificado naqueles que se aproximam dele. Do céu, seu lugar santo nas alturas, ele se mostra e se mostrará um Deus temível. Nenhum atributo de Deus é mais aterrador para os pecadores do que sua santidade.

V. Pela graça concedida ao seu povo: “O Deus de Israel é o que dá força e poder ao seu povo”. Os deuses das nações, que eram vaidade e mentira, não podiam dar isso a seus adoradores. Como os ajudariam, se não podiam ajudar nem a si mesmos?

Toda a força de Israel contra seus inimigos veio de Deus; os israelitas reconheciam que não tinham poder próprio, 2 Crônicas 20:12. Também toda a nossa capacidade para a obra e a guerra espirituais vem da graça de Deus.

É por meio de Cristo, que nos fortalece, que podemos fazer todas as coisas, e não de outra maneira. Por isso, ele deve receber a glória por tudo o que fazemos (Salmos 115:1) e nosso humilde agradecimento por nos capacitar a fazê-lo e por aceitar em nós a obra de suas próprias mãos.

Se é o Deus de Israel quem dá força e poder ao seu povo, eles devem dizer: “Bendito seja Deus”. Se tudo vem dele, que tudo seja para ele.


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