Salmos 67
Argumento
Este salmo diz respeito à igreja e se destina ao uso público. Aqui está: I. Uma oração pela prosperidade da igreja de Israel, v. 1. II. Uma oração pela conversão dos gentios e sua entrada na igreja, vv. 2-5. III. A perspectiva de tempos felizes e gloriosos em que Deus fará isso, v. 6, 7.
Assim o salmista foi levado pelo espírito de profecia a predizer o estado glorioso da igreja cristã, em que judeus e gentios se uniriam num só rebanho. O começo dessa bendita obra deve ser motivo de nossa alegria e louvor; sua conclusão, de nossa oração e esperança, ao cantarmos este salmo.
Oração pela Prosperidade e Expansão da Igreja; Conversão dos Gentios.
Versículos 1 a 7
Ao Músico-Mor, sobre Neginote. Salmo ou Cântico.
A composição deste salmo mostra que os sentimentos de quem o escreveu eram muito ardentes e vivos. Por esse espírito de devoção, ele foi elevado a receber o espírito de profecia acerca da expansão do reino de Deus.
I. Ele começa com uma oração pelo bem-estar e pela prosperidade da igreja então existente. Ele participaria de sua felicidade e por ela se consideraria feliz, v. 1. Ao nos ensinar a dizer “Pai nosso”, nosso Salvador indicou que devemos orar com os outros e em favor deles.
Assim, o salmista não pede que Deus tenha misericórdia de mim e me abençoe, mas que tenha misericórdia de nós e nos abençoe. Devemos suplicar por todos os santos e estar dispostos e alegres a partilhar a sorte deles. Aqui nos é ensinado:
Que toda a nossa felicidade vem da misericórdia de Deus e nela tem sua origem. Por isso, o primeiro pedido é: “Deus tenha misericórdia de nós”, de nós, pecadores, e perdoe nossos pecados (Lucas 18:13); de nós, pecadores miseráveis, e nos tire de nossas misérias.
Que ela nos é comunicada pela bênção de Deus e nela fica assegurada: “Deus nos abençoe”, isto é, dê-nos participação em suas promessas e conceda-nos todo o bem nelas contido. Deus falar-nos bem equivale a fazer-nos bem.
“Deus nos abençoe” é uma oração abrangente; é uma pena que palavras tão excelentes sejam usadas de modo leviano e descuidado, como um bordão.
- Que ela se completa à luz de seu rosto: Deus faça resplandecer sobre nós o seu rosto, isto é, que Deus, por sua graça, nos prepare para o seu favor e então nos dê os sinais desse favor.
Para sermos felizes, não precisamos desejar mais do que ver o rosto de Deus resplandecer sobre nós, ter seu amor e saber que ele nos ama.
“Resplandecer conosco” (assim diz a leitura marginal): que ele esteja conosco enquanto fazemos nossa parte e coroe nosso empenho de êxito. Se andarmos com Deus pela fé, podemos esperar que seu rosto resplandeça conosco.
II. Daí ele passa a orar pela conversão dos gentios (v. 2): “Para que o teu caminho seja conhecido na terra”. “Senhor, peço não apenas que tenhas misericórdia de nós e nos abençoes, mas que tenhas misericórdia de toda a humanidade, para que teu caminho seja conhecido na terra.”
Devemos ter esse espírito voltado ao bem de todos em nossas orações. “Pai no céu, santificado seja teu nome, venha teu reino.” Não teremos menos da misericórdia, da bênção e do favor de Deus porque outros venham partilhá-los conosco.
Ou pode-se entender assim: “Deus tenha misericórdia de nós, judeus, e nos abençoe, para que, por isso, teu caminho seja conhecido na terra; para que os sinais especiais e distintivos de teu favor para conosco atraiam outros a vir e juntar-se a nós, dizendo: ‘Iremos convosco, porque ouvimos que Deus está convosco’”, Zacarias 8:23.
- Esses versículos, que apontam para a conversão dos gentios, podem ser entendidos: (1.) Como uma oração; nesse caso, expressam o desejo dos santos do Antigo Testamento. Longe de querer monopolizar os privilégios da igreja, nada desejavam mais do que ver derrubada a cerca e abertas a todos as suas vantagens.
Veja, então, quanto o espírito dos judeus dos dias de Cristo e de seus apóstolos diferia do espírito de seus pais.
Os verdadeiros israelitas do passado desejavam que o nome de Deus fosse conhecido entre os gentios; aqueles falsos judeus se enfureciam com a pregação do evangelho aos gentios. Nada no cristianismo os irritava tanto quanto isso.
(2.) Como uma profecia de que acontecerá aquilo por que ele ora. Muitas profecias e promessas das Escrituras estão envoltas em orações, para indicar que a resposta à oração da igreja é tão certa quanto o cumprimento das promessas de Deus.
- Três coisas são aqui pedidas com respeito aos gentios:
(1.) Que a revelação divina seja enviada entre eles, v. 2. Ele deseja que duas coisas sejam conhecidas na terra, até mesmo entre todas as nações, e não apenas na nação dos judeus:
[1.] O caminho de Deus, a regra do dever: “Que todos saibam, assim como nós, o que é bom e o que o Senhor nosso Deus exige deles; que sejam abençoados e honrados com os mesmos estatutos e juízos justos que tanto engrandecem nossa nação e despertam a inveja de todos os seus vizinhos”, Deuteronômio 4:8.
[2.] Sua saúde salvadora, ou sua salvação. O caminho está contido em sua lei; a saúde salvadora, em seu evangelho. Se Deus nos der a conhecer seu caminho e andarmos nele, ele nos mostrará sua saúde salvadora, Salmos 50:23.
Quem conheceu por experiência o prazer dos caminhos de Deus e os consolos de sua salvação não pode deixar de desejar e pedir que outros também os conheçam, em todas as nações.
Todos na terra têm o dever de andar no caminho de Deus, todos precisam de sua salvação, e nela há o suficiente para todos. Por isso, devemos pedir que tanto uma coisa quanto a outra sejam dadas a conhecer a todos.
(2.) Que o culto divino seja estabelecido entre eles, como acontecerá onde a revelação divina for recebida e acolhida (v. 3): “Louvem-te os povos, ó Deus! Que tenham motivos para louvar, que tenham coração para louvar; sim, e ainda: que não apenas alguns, mas todos os povos te louvem”: todas as nações como nações, e pessoas de cada uma delas.
Isso se repete (v. 5) porque muito ocupava o coração do salmista. Quem se deleita em louvar a Deus não pode deixar de desejar que outros também sejam levados a louvá-lo, para que ele receba a honra e eles recebam o benefício. É uma oração:
[1.] Para que o evangelho lhes seja pregado. Então teriam amplos motivos para louvar a Deus, como pela aurora após uma noite longa e escura. Ortus est sol — O sol nasceu. Atos 8:8.
[2.] Para que se convertam e sejam trazidos à igreja. Então teriam disposição para louvar a Deus, o Deus vivo e verdadeiro, e não as divindades mudas e de esterqueira que adoravam, Daniel 5:4.
Seus pensamentos duros a respeito de Deus então se calariam; no espelho do evangelho, veriam que ele é o próprio amor e o objeto apropriado do louvor.
[3.] Para que sejam incorporados às assembleias solenes e possam louvar a Deus reunidos num só corpo, todos juntos, com uma só mente e uma só boca.
Assim, a religião ganha uma face visível numa terra quando Deus é publicamente reconhecido e as ordenanças do culto são devidamente celebradas nas assembleias religiosas.
(3.) Que o governo divino seja reconhecido e a ele se submetam com alegria (v. 4): “Ó, alegrem-se as nações e cantem de júbilo!” A alegria santa, alegria em Deus e em seu nome, é o coração e a alma do louvor agradecido. Para que todos os povos te louvem, alegrem-se as nações.
Aqueles que sempre se alegram no Senhor darão graças em todas as coisas. A alegria que o salmista deseja às nações é santa, pois é alegria pelo domínio de Deus, por ele ter tomado para si seu grande poder e reinado. As nações não convertidas se enfurecem com isso, Apocalipse 11:17, 18. Alegrem-se:
[1.] Porque o reino pertence ao Senhor (Salmos 22:28). Como soberano absoluto, ele governará as nações da terra; pelo reino de sua providência, se sobreporá aos assuntos dos reinos conforme o conselho de sua vontade, embora não o conheçam nem o reconheçam.
No devido tempo, fará discípulos de todas as nações pela pregação de seu evangelho (Mateus 28:19) e estabelecerá entre elas o reino de sua graça sobre as ruínas do reino do diabo. Fará delas um povo disposto no dia de seu poder, e até os reinos deste mundo se tornarão os reinos do Senhor e de seu Cristo.
[2.] Porque o juízo acerca de cada pessoa procede do Senhor. “Alegrem-se porque tu julgarás os povos com justiça, darás uma lei e um evangelho que serão uma regra justa de julgamento e, segundo essa regra, proferirás sobre todos os filhos dos homens uma sentença infalível, contra a qual não caberá objeção.”
Alegremo-nos todos porque não cabe a uns julgar os outros, mas porque quem nos julga é o Senhor, cujo juízo, sabemos, é segundo a verdade.
III. Ele conclui com uma alegre perspectiva de todo o bem que haverá quando Deus fizer isso, quando as nações se converterem e forem levadas a louvá-lo.
- O mundo terreno lhes sorrirá, e eles colherão seus frutos (v. 6): “Então a terra dará o seu fruto”. Não é que Deus não desse chuva do céu e estações frutíferas às nações enquanto permaneciam nas trevas (Atos 14:17).
Mas, quando se convertiam, a terra produzia para Deus: o alimento e a bebida tornavam-se oferta de alimentos e libação ao Senhor nosso Deus (Joel 2:14); assim, ela era frutífera para algum bom propósito.
Ela então produzia mais do que antes para o consolo dos homens, que, por meio de Cristo, adquiriam o direito, pela aliança, a seus frutos e deles faziam um uso santificado. Repare: o êxito do evangelho às vezes traz consigo misericórdias exteriores; a justiça exalta uma nação. Veja Isaías 4:2; 62:9.
- O mundo celestial lhes sorrirá, e eles receberão seus favores, algo muito melhor: “Deus, o nosso próprio Deus, nos abençoará”, v. 6. E novamente (v. 7): “Deus nos abençoará”. Repare: (1.) Há no mundo pessoas que, com bons fundamentos, podem chamar Deus de seu Deus.
(2.) Os crentes têm razão para gloriar-se de sua relação com Deus e da parte que têm nele. Isso é dito em tom de triunfo: “Deus, o nosso próprio Deus”. (3.) Quem, pela graça, chama Deus de seu pode esperar dele uma bênção com humilde confiança. Se ele é nosso Deus, nos abençoará com bênçãos especiais.
(4.) A bênção de Deus, nosso Deus pela aliança, torna doces para nós todos os consolos da criação e faz deles consolos de fato. Recebemos, então, o fruto da terra como misericórdia de fato quando, junto com ele, Deus, o nosso próprio Deus, nos dá sua bênção.
- Por isso, todo o mundo será levado a fazer como eles: “Os confins da terra o temerão”, isto é, o adorarão, como se deve fazer com piedoso temor. As bênçãos que Deus nos concede nos chamam não apenas a amá-lo, mas também a temê-lo, a manter pensamentos elevados a respeito dele e a recear ofendê-lo.
Quando o evangelho começar a se espalhar, avançará cada vez mais, até alcançar os confins da terra. O fermento escondido na farinha se difundirá até que toda ela esteja levedada.
As muitas bênçãos que os que são trazidos à igreja reconhecerão ter recebido convidam outros a unir-se a eles. É bom lançar nossa sorte com os que são abençoados pelo Senhor.