Salmos 66
Argumento
Este é um salmo de ação de graças, de uso e aplicação tão gerais que não precisamos supor que tenha sido escrito para uma ocasião específica. Todos os povos são chamados aqui a louvar a Deus: I. Pelas manifestações gerais de seu domínio soberano e poder em toda a criação, vv. 1-7.
II. Pelos sinais especiais de seu favor à igreja, seu povo peculiar, vv. 8-12. E então, III. O salmista louva a Deus por suas próprias experiências particulares da bondade divina, sobretudo pelas respostas às suas orações, vv. 13-20.
Se aprendemos a dar graças em tudo, pelas misericórdias antigas e recentes, públicas e pessoais, saberemos cantar este salmo com graça e entendimento.
Toda a Humanidade Exortada a Louvar a Deus.
Versículos 1 a 7
Ao Músico-Mor. Cântico ou Salmo.
I. Nestes versículos, o salmista chama todos os povos a louvar a Deus: todas as terras, toda a terra, todos os habitantes do mundo capazes de louvá-lo, v. 1.
Isso fala da glória de Deus: ele é digno de receber o louvor de todos, pois é bom para todos e dá a cada nação motivos para louvá-lo. 2. Fala do dever do homem: todos têm a obrigação de louvar a Deus. Isso faz parte da lei da criação e, portanto, é exigido de toda criatura.
É uma predição da conversão dos gentios à fé em Cristo. Viria o tempo em que todas as terras louvariam a Deus e em todo lugar lhe seria oferecido esse incenso. 4. Mostra a boa vontade sincera do salmista para com essa boa obra de louvar a Deus.
Ele próprio louvará abundantemente e deseja que todas as nações da terra, não apenas a terra de Israel, prestem a Deus o tributo devido. Ele exorta todas as terras:
(1.) A fazer uma aclamação alegre a Deus. A santa alegria é o sentimento devoto que deve animar todos os nossos louvores. Deus não aceita o simples ato de fazer barulho na religião; dos hipócritas se diz que fazem sua voz ser ouvida no alto, Isaías 58:4. Contudo, ao louvar a Deus:
[1.] Devemos fazê-lo de coração e com zelo, empregando toda a nossa força e tudo o que há em nós. [2.] Devemos agir aberta e publicamente, como pessoas que não se envergonham de seu Mestre. As duas coisas estão implícitas em fazer uma aclamação, uma aclamação alegre.
(2.) A cantar com prazer e a proclamar em cântico, para a edificação dos outros, a honra do nome de Deus, isto é, tudo aquilo por meio do qual ele se deu a conhecer, v. 2. Aquilo que honra o nome de Deus deve ser o assunto de nosso louvor.
(3.) A tornar glorioso o louvor de Deus tanto quanto pudermos. Ao louvá-lo, devemos fazê-lo de modo que o glorifique; esse deve ser o alvo e o propósito de todos os nossos louvores. Alguns entendem: considerem sua maior glória louvar a Deus. A mais alta honra de que uma criatura é capaz é ser nome e louvor para o Criador.
II. Ele havia chamado todas as terras a louvar a Deus (v. 1) e prediz (v. 4) que o farão: “Toda a terra te adorará”. Haverá adoradores em todas as partes da terra, até nas regiões mais remotas, pois o evangelho eterno será pregado a toda nação e família. Esta é sua mensagem: “Adorai aquele que fez o céu e a terra”, Apocalipse 14:6, 7.
Enviado desse modo, o evangelho não voltará vazio: levará toda a terra, em maior ou menor medida, a adorar a Deus e a cantar-lhe. Nos tempos do evangelho, Deus será adorado com o cântico dos salmos. Cantarão a Deus, isto é, ao seu nome.
Com nossos louvores, só podemos contribuir para sua glória manifesta, aquela pela qual ele se deu a conhecer, e não para sua glória essencial.
III. Para termos motivos de louvor, somos convidados a vir e ver as obras de Deus. Suas obras o louvam quer o louvemos, quer não. Se não o louvamos mais e melhor, é porque não as observamos devidamente e com atenção.
Vejamos, portanto, as obras de Deus e observemos nelas os exemplos de sua sabedoria, poder e fidelidade (v. 5). Depois, falemos delas e falemos delas a ele (v. 3): “Dizei a Deus: quão terrível és em tuas obras”, terrível em teus feitos!
- As obras de Deus são maravilhosas em si mesmas e, quando devidamente consideradas, podem com razão encher-nos de assombro. Deus é terrível, isto é, admirável, em suas obras pela grandeza de seu poder. Seu poder brilha nelas com tanta intensidade e força que se pode afirmar, na verdade, que não há obras semelhantes às suas.
Por isso se diz que ele é “temível nos louvores”, Êxodo 15:11. Em todos os seus atos para com os filhos dos homens, é terrível e deve ser contemplado com santa reverência. Grande parte da religião consiste na reverência pela Providência divina.
- Suas obras são temíveis para seus inimigos e muitas vezes os obrigaram, pelo medo, a fingir submissão (v. 3): “Pela grandeza de teu poder”, diante do qual ninguém pode resistir, “teus inimigos se sujeitarão a ti”. “Mentirão a ti” (esse é o sentido da palavra): serão compelidos, muito contra a vontade, a fazer as pazes contigo sob quaisquer condições.
A sujeição obtida pelo medo raramente é sincera. Por isso, a força não é meio apropriado para propagar a religião; tampouco a igreja terá muita alegria com prosélitos que, no fim, se mostrarão mentirosos para com ela, Deuteronômio 33:29.
- Suas obras trazem consolo e benefício ao seu povo, v. 6. Quando Israel saiu do Egito, Deus transformou o mar em terra seca diante deles. Isso os animou a seguir sua direção pelo deserto. Quando estavam para entrar em Canaã, o Jordão foi dividido diante deles para animá-los em suas guerras, e eles atravessaram a torrente a pé.
Uma infantaria tão notavelmente favorecida pelo céu poderia muito bem ser considerada cavalaria, e não tropa a pé, nas guerras do Senhor. Ali os inimigos tremeram diante deles (Êxodo 15:14, 15; Josué 5:1), mas ali nós nos alegramos em Deus: tanto confiamos em seu poder, pois confiar nele é frequentemente expresso como alegrar-se nele, quanto cantamos seu louvor, Salmos 106:12.
“Ali nos alegramos”, isto é, nossos antepassados se alegraram, e nós, em seus lombos. As alegrias de nossos pais eram nossas alegrias, e devemos nos considerar participantes delas.
- Suas obras demonstram autoridade sobre todos. Por meio delas, Deus mantém seu domínio no mundo (v. 7): “Ele governa eternamente pelo seu poder; seus olhos observam as nações”.
(1.) Deus tem um olhar que governa. Do alto do céu, seu olhar domina todos os habitantes do mundo e os vê a todos de maneira clara e completa. Seus olhos percorrem a terra; até as nações mais distantes e obscuras estão sob sua inspeção.
(2.) Ele tem um braço que governa. Seu poder reina, reina para sempre, sem jamais enfraquecer ou ser impedido. Forte é sua mão, e elevada é sua destra. Daí o salmista conclui: “Não se exaltem os rebeldes”. Aqueles cujo coração é revoltoso e rebelde não ousem praticar atos abertos de rebelião contra Deus, como Adonias, que se exaltou dizendo: “Eu serei rei”.
Os que estão em rebelião contra Deus não se exaltem como se houvesse alguma possibilidade de alcançarem seu objetivo. Não: que se aquietem, pois Deus disse: “Serei exaltado”, e o homem não pode contradizê-lo.
Versículos 8 a 12
Os Santos Exortados a Louvar a Deus.
Nestes versículos, o salmista chama especialmente o povo de Deus a louvá-lo. Todas as terras devem fazê-lo, mas a terra de Israel em particular. “Bendizei nosso Deus”: bendizei-o como nosso, o Deus que fez aliança conosco e cuida de nós como seus.
Que façam ouvir a voz do seu louvor (v. 8). De quem deveria ser ouvida senão de seus favorecidos especiais e servos escolhidos? Temos motivo para bendizer a Deus por duas coisas:
I. A proteção comum (v. 9): ele “sustém em vida a nossa alma”, para que ela não escape por si mesma. Como nossa alma está continuamente em nossas mãos, pode escorregar por entre os dedos. Devemos reconhecer que a boa providência de Deus mantém unidas a vida e a alma e que sua visitação preserva nosso espírito.
“Ele põe nossa alma em vida” (assim diz a palavra). Aquele que nos deu a existência nos sustenta nela por um ato constante e renovado: sua providência é uma criação contínua. Quando estamos prestes a desfalecer e perecer, ele restaura nossa alma e, por assim dizer, a coloca numa vida nova, oferecendo novos consolos.
Non est vivere, sed valere, vita — Não é a existência, mas a felicidade que merece o nome de vida. Contudo, estamos sujeitos a tropeçar e cair, expostos a muitos acidentes destruidores, a desastres mortais assim como a doenças mortais. Por isso, também somos protegidos deles pelo poder divino.
Deus não deixa nossos pés vacilar, prevenindo muitos males imprevistos de cujo perigo nós mesmos não tínhamos consciência. A ele devemos o fato de não termos caído, há muito tempo, numa ruína sem fim. Ele guardará os pés dos seus santos.
II. A libertação especial de uma grande aflição. Observe:
- Como eram penosos a aflição e o perigo, v. 11, 12. Não se sabe a que tribulação específica da igreja isso se refere; talvez fosse a tribulação de algumas pessoas ou famílias apenas. Seja qual fosse, foram surpreendidos por ela como pássaro apanhado numa armadilha, cercados e presos como peixe numa rede.
Foram esmagados e mantidos sob seu peso, como por uma carga sobre os lombos, v. 11. Reconheciam, porém, a mão de Deus nisso. Nunca estamos na rede a menos que Deus nos leve a ela; nunca estamos sob aflição a menos que Deus a ponha sobre nós.
Há algo mais perigoso que o fogo e a água? Passamos por ambos, isto é, por aflições de diferentes tipos. O fim de uma tribulação era o começo de outra; quando escapávamos de um tipo de perigo, nos víamos envolvidos em outro.
Assim podem ser as tribulações dos melhores santos de Deus, mas ele prometeu estar conosco quando passarmos pelas águas e pelo fogo, Isaías 43:2. Ainda assim, homens orgulhosos e cruéis podem ser tão perigosos quanto o fogo e a água, ou ainda mais. “Cuidado com os homens”, Mateus 10:17.
Quando os homens se levantaram contra nós, isso era fogo e água e tudo o que ameaça (Salmos 124:2, 3, 4). Tal era o caso aqui: “Fizeste homens cavalgarem sobre nossa cabeça, para nos pisotear e insultar, intimidar e maltratar, até nos tornar completos escravos; disseram à nossa alma: ‘Abaixa-te, para que passemos por cima’”, Isaías 51:23.
Enquanto os bons príncipes se agradam de governar no coração de seus súditos, os tiranos se orgulham de cavalgar sobre a cabeça deles. Mesmo nisso, a igreja aflita reconhece a mão de Deus: “Tu os fizeste maltratar-nos desse modo”, pois até o opressor mais furioso só tem o poder que lhe é dado do alto.
- Como era bondoso o desígnio de Deus ao levá-los a essa aflição e a esse perigo. Veja seu significado (v. 10): Tu, ó Deus, nos provaste e nos puseste à prova. É provável que nossas aflições nos façam bem quando as vemos dessa forma. Então poderemos perceber, na origem delas, a graça e o amor de Deus e, no fim, nossa própria honra e nosso benefício.
Pelas aflições somos provados como a prata no fogo:
(1.) Para que nossas graças, ao serem provadas, se tornem mais evidentes e sejamos aprovados, como a prata que, examinada, recebe a marca de autenticidade. Isso resultará em nosso louvor na revelação de Jesus Cristo (1 Pedro 1:7), talvez até neste mundo. A integridade e a perseverança de Jó se manifestaram por meio de suas aflições.
(2.) Para que nossas graças, ao serem exercitadas, se tornem mais fortes e ativas e sejamos aperfeiçoados, como a prata refinada no fogo e mais livre de impurezas. Isso será para nosso inexprimível benefício, pois desse modo nos tornamos participantes da santidade de Deus, Hebreus 12:10. As tribulações públicas servem à purificação da igreja, Daniel 11:35; Apocalipse 2:10; Deuteronômio 8:2.
- Como foi glorioso o desfecho final. As tribulações da igreja certamente terminarão bem; estas terminam assim:
(1.) A saída da tribulação é feliz. Estão no fogo e na água, mas atravessam ambos: “Passamos pelo fogo e pela água e não perecemos nas chamas nem nas inundações”. Quaisquer que sejam as tribulações dos santos, bendito seja Deus, há um caminho através delas.
(2.) A entrada numa condição melhor é muito mais feliz: “Trouxeste-nos a um lugar rico”, a um lugar bem regado (esse é o sentido da palavra), como os jardins do Senhor e, portanto, fértil. Deus leva seu povo à tribulação para que os consolos posteriores sejam mais doces e a aflição produza o fruto pacífico da justiça, capaz de tornar rico o lugar mais pobre do mundo.
Davi Decide Louvar a Deus; Davi Declara o Que Deus Fez por Sua Alma.
Versículos 13 a 20
O salmista já havia animado todos os povos, e especialmente todo o povo de Deus, a bendizer o Senhor. Agora anima a si mesmo e se compromete a fazê-lo.
I. Em seus atos de devoção ao seu Deus, vv. 13-15. Ele havia chamado outros a cantar louvores a Deus e a fazer aclamações alegres. Para si mesmo, porém, resolve ir mais longe e louvar a Deus:
- Com sacrifícios custosos, que, sob a lei, eram oferecidos para a honra de Deus. Nem todos tinham recursos para oferecer esses sacrifícios; outros não tinham zelo para arcar com tal despesa ao louvar a Deus. Davi, por sua vez, tinha condições e também a disposição de prestar homenagem a Deus dessa maneira custosa (v. 13): “Entrarei em tua casa com holocaustos”.
Seus sacrifícios seriam públicos, no lugar escolhido por Deus: “Entrarei com eles em tua casa”. Cristo é nosso templo; a ele devemos levar nossas ofertas espirituais, e por meio dele elas são santificadas.
Seriam sacrifícios da melhor espécie: holocaustos, inteiramente consumidos sobre o altar para a honra de Deus, dos quais o ofertante não recebia porção alguma. Seriam holocaustos de animais gordos, não dos mancos nem dos magros, mas dos mais bem alimentados e que seriam os mais aceitos à mesa do próprio Davi.
Deus, que é o melhor, deve ser servido com o melhor que temos. O banquete que ele nos prepara é de comidas gordurosas, cheias de tutano (Isaías 25:6); devemos, portanto, levar-lhe sacrifícios assim. Davi ofereceria novilhos com bodes: seria generoso na retribuição de louvor, não mesquinho. Não quis oferecer algo que nada lhe custasse, mas algo que lhe custasse muito.
Faria isso “com o incenso dos carneiros”, isto é, com a gordura deles, que, queimada sobre o altar, faria sua fumaça subir como a do incenso. Ou: ofereceria carneiros com incenso. O incenso representa a intercessão de Cristo; sem ela, nem mesmo os mais gordos de nossos sacrifícios serão aceitos.
- Com o cumprimento cuidadoso de seus votos. Não louvamos a Deus de modo aceitável pela libertação de uma tribulação se não nos preocupamos em cumprir os votos que fizemos enquanto estávamos em tribulação. Esta era a decisão do salmista (v. 13, 14): “Pagarei a ti os meus votos, que meus lábios pronunciaram quando eu estava em tribulação”. Repare:
(1.) É muito comum e digno de louvor fazer votos quando sofremos sob alguma aflição ou buscamos alguma misericórdia, e proferi-los solenemente diante do Senhor, comprometendo-nos a deixar o pecado e a cumprir mais de perto nosso dever.
Não o fazemos como se isso fosse um pagamento equivalente ou de valor pelo favor de Deus, mas como preparação para receber os sinais desse favor.
(2.) Os votos feitos durante a tribulação não devem ser esquecidos quando ela termina, mas cumpridos com cuidado. É melhor não fazer voto do que fazê-lo e não cumpri-lo.
II. Em suas declarações aos seus amigos, v. 16. Ele reúne uma congregação de pessoas piedosas para ouvir seu relato agradecido dos favores que Deus lhe concedeu: “Vinde e ouvi, todos vós que temeis a Deus”, pois:
“Vos unireis a mim em meus louvores e me ajudareis a dar graças.” Devemos desejar a ajuda dos que temem a Deus ao agradecer pelas misericórdias recebidas tanto quanto a desejamos ao orar pelas misericórdias de que precisamos.
“Sereis edificados e animados pelo que tenho a dizer. Os humildes ouvirão disso e se alegrarão, Salmos 34:2. Os que te temem se alegrarão quando me virem (Salmos 119:74); portanto, quero sua companhia.”
“E lhes declararei, não a pessoas fúteis e carnais, que zombarão e farão disso motivo de chacota” (não se devem lançar pérolas aos porcos), “mas aos que temem a Deus e farão bom uso disso declararei o que Deus fez por minha alma”.
Não o dirá por orgulho ou vanglória, para ser considerado mais favorecido pelo céu que os demais, mas para a honra de Deus, a quem devemos isso como justa dívida, e para a edificação dos outros.
Repare: o povo de Deus deve compartilhar suas experiências uns com os outros. Devemos aproveitar todas as ocasiões para contar uns aos outros as grandes e bondosas coisas que Deus fez por nós, especialmente o que fez por nossa alma: as bênçãos espirituais com que nos abençoou nas coisas celestiais.
São essas bênçãos que mais devem nos tocar e com as quais mais devemos desejar tocar os outros. O que, então, Deus havia feito pela alma do salmista?
(1.) Produzira nele amor pelo dever da oração e, por sua graça, ampliara seu coração nessa prática (v. 17): “Clamei a ele com minha boca”. Mas, se Deus, entre as demais coisas que fez por nossa alma, não nos tivesse dado o Espírito de adoção, ensinando-nos e capacitando-nos a clamar “Aba, Pai”, jamais o teríamos feito.
Deus nos permitiu orar, ordenou que o fizéssemos, deu-nos ânimo para orar e, como coroação de tudo, deu-nos um coração disposto à oração. Temos razão para mencionar isso com gratidão, para seu louvor.
Ainda mais se, quando clamamos a ele com a boca, ele foi exaltado com nossa língua, isto é, se a fé e a esperança nos permitiram dar-lhe glória enquanto lhe pedíamos misericórdia e graça e louvá-lo pela misericórdia esperada, embora ainda não recebida.
Ao clamar a Deus, de fato o exaltamos. Ele tem por honra para si as orações humildes e cheias de fé dos retos. Deus fez por nossa alma algo grandioso ao unir tão estreitamente seus interesses aos nossos que, buscando nosso próprio bem, buscamos sua glória.
“Sua exaltação estava debaixo de minha língua” (assim também se pode ler), isto é, eu pensava em como exaltar e engrandecer seu nome. Quando temos orações na boca, devemos ter louvores no coração.
(2.) Produzira nele temor do pecado como inimigo da oração (v. 18): se eu acolher a iniquidade em meu coração, sei muito bem que o Senhor não me ouvirá. Alguns escritores judeus, que têm o fermento dos fariseus, isto é, a hipocrisia, dão a essas palavras uma interpretação muito corrompida:
“Se eu acolher a iniquidade em meu coração” significa, segundo eles, “Se eu me permitir somente pecados do coração, sem que a iniquidade se manifeste em minhas palavras e ações, Deus não me ouvirá”, isto é, não se ofenderá comigo nem levará isso em conta contra mim. É como se, para Deus, os pecados do coração não fossem pecados.
Nosso Salvador mostrou a falsidade disso em sua exposição espiritual da lei, Mateus 5. O sentido desta passagem, porém, é claro: “Se eu acolher a iniquidade em meu coração” significa ter pensamentos favoráveis a ela, amá-la, alimentá-la e acolhê-la em mim; significa tratá-la como amiga e lhe dar as boas-vindas.
“Se eu lhe providenciar sustento e relutar em abandoná-la; se a saborear sob a língua como um doce bocado, mesmo que se trate apenas de um pecado do coração assim favorecido e estimado; se nela me deleitar no homem interior, Deus não ouvirá minha oração. Não a aceitará nem se agradará dela, e não poderei esperar uma resposta de paz.”
Repare: a iniquidade acolhida no coração certamente estraga o consolo e o êxito da oração, pois o sacrifício dos perversos é abominação ao Senhor. Os que continuam amando o pecado e fazendo pacto com ele não têm direito nem à promessa nem ao Mediador; por isso, não podem esperar sucesso na oração.
(3.) Deus lhe concedera graciosamente uma resposta de paz às suas orações (v. 19): “Mas, na verdade, Deus me ouviu. Embora, por ter consciência de muito mal em mim, eu começasse a temer que minhas orações fossem rejeitadas, ainda assim, para meu consolo descobri que Deus teve por bem dar-lhes atenção.”
Ao atender sua oração, Deus fez isso por sua alma: deu-lhe um sinal de seu favor e uma prova de que havia realizado nele uma boa obra. Por isso, Davi conclui (v. 20): “Bendito seja Deus”. Os dois versículos anteriores são a premissa maior e a menor de um silogismo:
“Se eu acolher a iniquidade em meu coração, Deus não ouvirá minha oração”; esta é a proposição. “Mas, na verdade, Deus me ouviu”; esta é a segunda premissa, da qual ele poderia concluir racionalmente: “Portanto, não acolho a iniquidade em meu coração”. Contudo, em vez de tomar o consolo para si, dá o louvor a Deus: “Bendito seja Deus”.
Quaisquer que sejam as premissas, a conclusão sempre deve ser a glória de Deus. Deus me ouviu; portanto, bendito seja Deus. Repare: o que ganhamos pela oração devemos revestir de louvor. As misericórdias concedidas em resposta à oração nos obrigam, de modo especial, a ser gratos.
Ele não rejeitou minha oração nem sua misericórdia. Para que não se pense que a libertação foi concedida por algum mérito de sua oração, Davi a atribui à misericórdia de Deus. Acrescenta essa correção: “Não foi minha oração que trouxe a libertação, mas a misericórdia dele que a enviou.”
Deus não rejeita nossa oração porque não rejeita sua própria misericórdia, fundamento de nossas esperanças e fonte de nossos consolos. Por isso, essa misericórdia deve ser o assunto de nossos louvores.