Matthew Henry

Salmos 69

Argumento

Davi escreveu este salmo quando estava em aflição. Nele, I. Queixa-se da grande angústia e tribulação em que se encontrava e suplica fervorosamente a Deus que o alivie e socorra, vv. 1-21. II. Invoca os juízos de Deus sobre seus perseguidores, vv. 22-29.

III. Conclui com voz de alegria e louvor, certo de que Deus o ajudaria e socorreria e faria bem à igreja, vv. 30-36. Nisso, Davi era um tipo de Cristo. Diversas passagens deste salmo são aplicadas a Cristo no Novo Testamento e se diz que nele se cumprem (v. 4, 9, 21); o v. 22 se refere aos inimigos de Cristo.

Assim, como o Salmo 22, este começa com a humilhação de Cristo e termina com sua exaltação. Um aspecto dessa exaltação foi a destruição da nação judaica por persegui-lo, predita pelas imprecações aqui presentes.

Ao cantar este salmo, devemos ter em vista os sofrimentos de Cristo e a glória que veio depois, sem esquecer também os sofrimentos dos cristãos e a glória que virá depois deles. Pois isso pode nos levar a pensar na ruína reservada aos perseguidores e no descanso reservado aos perseguidos.

Queixas e Petições.

Versículos 1 a 12

Ao Músico-Mor sobre Shoshannim. Salmo de Davi.

Nestes versículos, Davi se queixa de suas tribulações, entremeando as queixas com alguns pedidos de alívio.

I. Suas queixas são muito tristes, e ele as derrama diante do Senhor como alguém que esperava, assim, aliviar-se de um fardo que pesava muito sobre si.

  1. Ele se queixa das marcas profundas que suas tribulações deixaram em seu espírito (v. 1, 2): “As águas da aflição, aquelas águas amargas, chegaram à minha alma.”

“Não ameaçam apenas minha vida, mas perturbam minha mente; enchem minha cabeça de preocupações desconcertantes e meu coração de uma dor opressiva, de modo que não consigo desfrutar de Deus e de mim mesmo como antes.”

Suportaremos nossas tribulações se ao menos pudermos impedi-las de entrar em nosso coração. Quando, porém, elas nos tiram o domínio de nossa própria alma, nossa situação é grave. O espírito do homem sustentará sua enfermidade; mas que faremos quando o espírito estiver ferido? Essa era a situação de Davi aqui.

Seus pensamentos procuravam algo em que confiar e com que sustentar sua esperança, mas nada encontravam.

Ele afundou em lama profunda, onde não havia onde firmar-se, nem apoio seguro. As considerações que costumavam sustentá-lo e animá-lo agora lhe faltavam ou estavam fora de seu alcance, e ele estava prestes a dar-se por perdido.

Procurava algo com que se consolar, mas se via em águas profundas que transbordavam sobre ele e o submergiam. Era como um homem que afunda e se afoga, tomado por tamanha confusão e consternação.

Isso aponta para os sofrimentos de Cristo em sua alma e para a agonia interior em que estava quando disse: “Agora minha alma está perturbada” e “Minha alma está extremamente triste”; pois foi de sua alma que ele fez uma oferta pelo pecado.

E isso nos ensina, quando estamos em aflição, a confiar a guarda de nossa alma a Deus, para que nem a amargura do descontentamento nos domine nem afundemos no desespero.

  1. Ele se queixa da longa duração de suas tribulações (v. 3): “Estou cansado de clamar”. Embora não conseguisse manter a cabeça fora d'água, ainda assim clamava ao seu Deus. Quanto mais perto via a morte, mais vida havia em suas orações.

Contudo, não recebeu imediatamente uma resposta de paz, nem sequer o amparo e o consolo na oração que o povo de Deus costumava ter.

Assim, estava quase cansado de clamar; ficou rouco, e sua garganta ficou tão seca que não podia mais clamar. Tampouco tinha a satisfação de costume ao crer, esperar e aguardar alívio: “Meus olhos desfalecem enquanto espero por meu Deus”. De tanto aguardar o livramento, quase gastara os olhos.

Ainda assim, o fato de apresentar isso a Deus mostra que está decidido a não desistir de crer e orar. Sua garganta está seca, mas seu coração não; seus olhos desfalecem, mas sua fé não.

Assim, nosso Senhor Jesus clamou na cruz: “Por que me desamparaste?” Ao mesmo tempo, porém, continuou a se apegar à sua relação com ele: “Meu Deus, meu Deus”.

  1. Ele se queixa da malícia e do grande número de seus inimigos, de sua injustiça e crueldade e das agruras que lhe impunham, v. 4.

Eles o odiavam e queriam destruí-lo, pois o ódio visa à destruição da pessoa odiada. Mas qual era sua iniquidade, qual era seu pecado, que provocação lhes havia feito para que fossem tão rancorosos contra ele? Nenhuma:

“Odeiam-me sem causa; nunca lhes causei a menor injúria para que tivessem tamanha má vontade para comigo.” Nosso Salvador aplica isso a si mesmo (João 15:25): “Odiaram-me sem causa”. Costumamos usar a alegação de que não lhes demos motivo para nos odiar como justificativa para nossa ira contra os que nos odeiam.

Mas ela é antes uma razão para suportar esse ódio com paciência, pois então sofremos como Cristo sofreu e podemos esperar que Deus nos faça justiça.

“Eles são meus inimigos injustamente, pois não fui inimigo deles.” Num mundo onde a injustiça predomina tanto, não devemos nos surpreender ao encontrar quem seja injustamente nosso inimigo.

Tenhamos o cuidado de nunca praticar a injustiça; assim poderemos suportar melhor a injustiça que recebermos.

Esses inimigos não deviam ser desprezados, mas muito temíveis, tanto pelo número — “São mais numerosos que os cabelos de minha cabeça” (os inimigos de Cristo eram numerosos; os que vieram prendê-lo eram uma grande multidão; como se multiplicaram os que o afligiam!) — quanto pela força: são poderosos em autoridade e poder.

Somos fracos, mas nossos inimigos são fortes, pois lutamos contra principados e potestades. “Então restituí o que não havia tomado.”

Aplicado a Davi, era o que seus inimigos o obrigavam a fazer: levaram-no a sofrer por uma falta da qual nunca fora culpado. E era o que ele consentia em fazer para, se possível, apaziguá-los e levá-los a estar em paz com ele.

Ele poderia ter insistido nas leis da justiça e da honra. A primeira não exige, e geralmente se considera que a segunda proíbe, restituir aquilo que não tiramos, pois isso nos prejudica tanto nos bens como na reputação. Contudo, às vezes as circunstâncias podem tornar isso nosso dever.

O bendito Paulo, embora livre de todos, ainda assim fez-se servo de todos pela honra de Cristo e pela edificação da igreja.

Aplicado a Cristo, porém, esse ato descreve de modo notável a satisfação que ele ofereceu a Deus por nosso pecado com seu sangue: Então ele restituiu o que não havia tomado. Ele suportou o castigo que cabia a nós, pagou nossa dívida e sofreu por nossa falta.

A glória de Deus foi, em alguns aspectos, tirada pelo pecado do homem; a honra, a paz e a felicidade do homem foram tiradas. Não foi Cristo quem as tirou; ainda assim, pelo mérito de sua morte, ele as restituiu.

  1. Ele se queixa da falta de bondade de seus amigos e parentes, agravo que fere tão profundamente uma pessoa franca quanto qualquer outro (v. 8): “Tornei-me estranho aos meus irmãos; eles se mostram estranhos para comigo e me tratam como estranho, evitam ter comunhão comigo e se envergonham de me reconhecer.”

Isso se cumpriu em Cristo: seus irmãos não criam nele (João 7:5); ele veio para os seus, mas os seus não o receberam (João 1:11); e foi abandonado por seus discípulos, com quem se relacionara com a franqueza de quem trata com irmãos.

  1. Ele se queixa do desprezo que lhe dirigiam e do descrédito com que era continuamente carregado. Especialmente nisso sua queixa aponta para Cristo, que por nossa causa se submeteu à maior desonra e se fez alguém sem reputação.

Como, pelo pecado, havíamos injuriado a Deus em sua honra, Cristo lhe ofereceu satisfação. Não apenas se despojou das honras devidas à divindade encarnada, mas também se submeteu às maiores desonras que poderiam ser infligidas a qualquer homem. Davi repara aqui em duas coisas que agravavam as indignidades sofridas:

(1.) O motivo e o objeto do descrédito, v. 10, 11. Ridicularizavam-no precisamente por aquilo com que ele tanto se humilhava como honrava a Deus.

Quando os homens se exaltam por orgulho e vanglória, é justo que sejam motivo de riso por sua insensatez. Davi, porém, disciplinou sua alma e se vestiu de pano de saco, e eles aproveitaram sua humilhação para pisoteá-lo.

Quando os homens desonram a Deus, é justo que isso se volte contra a honra deles. Davi, porém, por pura devoção a Deus e para testemunhar seu respeito por ele, chorou, disciplinou sua alma com jejum e fez do pano de saco sua veste, como costumavam fazer os penitentes humildes.

Em vez de elogiarem sua devoção e recomendá-la como grande exemplo de piedade, fizeram tudo o que podiam tanto para desanimá-lo nela quanto para impedir outros de seguirem seu bom exemplo; pois sua devoção se tornara motivo de descrédito.

Riam dele como de um tolo por se mortificar assim, e até por isso ele se tornou um provérbio entre eles: fizeram dele o assunto habitual de suas zombarias.

Não devemos estranhar se falarem mal de nós por algo bem-feito, no qual temos motivo para esperar que Deus nos aceite. Nosso Senhor Jesus foi apedrejado por suas boas obras (João 10:32) e, quando clamou “Eli, Eli”, “Meu Deus, meu Deus”, foi alvo de zombaria, como se estivesse chamando Elias.

(2.) As pessoas que o desacreditavam, v. 12. [1.] Até as mais respeitáveis e honradas, das quais se esperava algo melhor: “Os que se assentam à porta falam contra mim”. Seus ataques passam por pareceres de senadores e decretos de juízes e, por isso, recebem crédito.

[2.] As de condição mais baixa e mais desprezadas: os miseráveis (Salmos 35:15), a escória do país, filhos de insensatos, sim, e ainda filhos de homens sem valor, Jó 30:8. Bêbados como esses tornam-se vis, e ele era a canção dos bêbados; divertiam-se com ele e divertiam seus companheiros.

Veja as más consequências do pecado da embriaguez: ela torna os homens desprezadores dos que são bons, 2 Timóteo 3:3. Quando os odres de vinho deixaram o rei doente, ele estendeu a mão aos zombadores, Oseias 7:5. O banco dos bêbados é a cadeira dos escarnecedores.

Veja qual costuma ser a sorte dos melhores homens: os que são louvados pelos sábios viram canção dos tolos. Mas, para os que julgam as coisas corretamente, é fácil desprezar o fato de serem assim desprezados.

II. Suas confissões de pecado são muito sérias (v. 5): “Ó Deus, tu conheces minha insensatez, o que ela é e o que não é; meus pecados, dos quais sou culpado, não estão ocultos de ti. Portanto, sabes quão inocente sou dos crimes de que me acusam.” Repare:

Mesmo quando, diante de acusações injustas dos homens, alegamos não ser culpados, ainda assim, diante de Deus devemos reconhecer que merecemos tudo o que nos acontece, e muito pior.

Essa é a confissão verdadeira de um penitente: ele sabe que não prosperará se encobrir seu pecado e que, portanto, é sábio reconhecê-lo, pois ele está nu e descoberto diante de Deus.

  1. Deus conhece a corrupção de nossa natureza: “Tu conheces a insensatez atada ao meu coração.” Todos os nossos pecados nascem de nossa insensatez. 2. Conhece as transgressões de nossa vida. Não estão ocultas dele, não, nem mesmo os pecados do coração; não, nem mesmo os cometidos no maior segredo.

Todos são praticados diante de seus olhos e nunca são lançados para trás de suas costas até que haja arrependimento e perdão. Isso pode ser adequadamente aplicado a Cristo, pois ele não conheceu pecado, mas ainda assim foi feito pecado em nosso favor. E Deus o sabia; isso não lhe estava oculto quando teve por bem esmagá-lo e causar-lhe dor.

III. Suas súplicas são muito fervorosas. 1. Por si mesmo (v. 1): “Salva-me, ó Deus! Salva-me de afundar, de desesperar”. Assim Cristo foi ouvido naquilo que temia, pois foi salvo de deixar fracassar sua obra, Hebreus 5:7.

  1. Por seus amigos (v. 6): “Não sejam envergonhados nem confundidos por minha causa aqueles que esperam em ti, ó Senhor Deus dos Exércitos, e que te buscam, ó Deus de Israel”.

Devemos buscar a Deus sob esses dois aspectos e, ao buscá-lo, esperar nele: como Deus dos Exércitos, que tem todo o poder para ajudar, e como Deus de Israel, em aliança com seu povo, a quem por sua honra e fidelidade se comprometeu a ajudar.

Isso mostra seu receio de que, se Deus não interviesse em seu favor, todos os outros fiéis ficariam desanimados e seus inimigos teriam ocasião de triunfar sobre eles.

Mostra também seu desejo fervoroso de que, acontecesse o que fosse com ele, todos os que buscam a Deus e esperam nele fossem mantidos com coragem e dignidade e não fossem nem desanimados por dentro nem expostos ao desprezo alheio.

Se Jesus Cristo não tivesse sido reconhecido e aceito pelo Pai em seus sofrimentos, todos os que buscam a Deus e esperam por ele teriam ficado envergonhados e confundidos. Eles, porém, têm confiança diante de Deus e, em nome de Cristo, aproximam-se com ousadia do trono da graça.

IV. Seu apelo é muito poderoso, v. 7, 9. O descrédito era um dos maiores fardos que carregava: “Senhor, remove o descrédito e defende minha causa, pois:”

  1. “É por tua causa que sou desacreditado, por servir a ti e confiar em ti: ‘Por tua causa tenho suportado descrédito’.” Os que são mal falados por fazer o bem podem, com humilde confiança, deixar a Deus a tarefa de fazer sua justiça brilhar como a luz.

  2. “É contigo que sou desacreditado: ‘O zelo de tua casa me consumiu’, isto é, me fez esquecer de mim mesmo e fazer aquilo que eles perversamente transformam em motivo para me desacreditar.”

“Os que odeiam a ti e tua casa me odeiam por esse mesmo motivo, pois sabem quão zeloso sou por ela. É isso que os levou a querer me consumir e consumiu todo o amor e respeito que eu tinha entre eles.”

Os que blasfemavam de Deus e falavam mal de sua palavra e de seus caminhos, por isso mesmo desacreditavam Davi por crer em sua palavra e andar em seus caminhos.

Ou se pode entender como demonstração do zelo de Davi pela casa de Deus o fato de que ele sentia todas as indignidades feitas ao nome de Deus como se fossem feitas ao seu próprio nome.

Levava a sério toda a desonra feita a Deus e o desprezo lançado sobre a religião. Isso lhe doía mais que qualquer tribulação exterior sua. Por isso, tinha motivo para esperar que Deus se interessasse pelo descrédito lançado sobre ele, pois sempre se interessara pelo descrédito lançado sobre Deus.

As duas partes desse versículo são aplicadas a Cristo. (1.) Foi demonstração de seu amor pelo Pai que o zelo pela casa dele até o consumiu quando expulsou a chicotadas os compradores e vendedores do templo; isso fez os discípulos se lembrarem deste texto, João 2:17.

(2.) Foi demonstração de sua abnegação, e de que não agradou a si mesmo, que as palavras de descrédito dos que desacreditavam a Deus caíram sobre ele (Romanos 15:3). Nisso, deixou-nos um exemplo.

Versículos 13 a 21

Queixas e Petições.

Davi havia falado das palavras maldosas de descrédito que seus inimigos lhe lançavam; aqui acrescenta: “Mas, quanto a mim, minha oração é a ti”.

Falavam mal dele por jejuar e orar, e por isso ele se tornou a canção dos bêbados; apesar disso, resolve continuar a orar. Repare: embora possam zombar de nós por fazermos o bem, nunca devemos deixar que a zombaria nos afaste dele.

Suportam muito pouco por Deus e por confessar seu nome diante dos homens aqueles que preferem abandonar o dever a suportar uma zombaria e uma palavra dura. Os inimigos de Davi o tratavam com grande abuso; seu consolo, porém, era ter um Deus a quem recorrer e diante de quem apresentar sua causa.

“Eles pensam em defender sua causa com insolência e calúnia; eu, porém, uso outros meios. Façam eles o que fizerem, quanto a mim, minha oração é a ti, ó Senhor!” Era um tempo aceitável, não menos aceitável por ser um tempo de aflição.

Deus não nos afastará dele, embora seja a necessidade que nos leva a ele; ou melhor, isso torna a oração mais aceitável, porque a miséria e a angústia dos membros de seu povo fazem deles objetos ainda maiores da compaixão divina.

É oportuno que Deus os ajude quando todas as outras ajudas falham, e eles estão perdidos, e sentem que estão perdidos, se Deus não os ajudar.

Encontramos essa expressão aplicada a Cristo: “Em tempo aceitável te ouvi”, Isaías 49:8. Observe agora:

I. Quais são seus pedidos: 1. Que suas queixas, o clamor de sua aflição e o desejo de seu coração sejam ouvidos com bondade. “Ouve-me” (v. 13) e, novamente, “Ouve-me, ó Senhor!” (v. 16), “Ouve-me depressa” (v. 17): não apenas escute o que digo, mas conceda o que peço. Cristo sabia que o Pai sempre o ouvia, João 11:42.

  1. Que seja resgatado de suas tribulações, salvo de afundar sob o peso da dor: “Livra-me do lamaçal”; que eu não fique preso nele, segundo alguns entendem, mas ajude-me a sair e firme meus pés numa rocha, Salmos 40:2. Que seja salvo dos inimigos, para que não o engulam nem imponham sua vontade contra ele:

“Que eu seja livre dos que me odeiam, como um cordeiro das garras do leão, v. 14. Embora tenha entrado em águas profundas (v. 2), onde estou prestes a concluir que as enchentes me submergirão, ainda assim, que meus temores sejam prevenidos e silenciados. Que a enchente, embora venha sobre mim, não me submerja, v. 15.”

“Que eu não caia no abismo do desespero; que aquelas profundezas não me engulam e aquele poço não feche sua boca sobre mim, pois então estarei perdido.” No início do salmo, ele se dava por perdido; agora, porém, mantém a cabeça acima da água e não está tão cansado de clamar quanto pensava.

  1. Que Deus se volte para ele (v. 16), lhe sorria e não esconda dele o rosto, v. 17. Os sinais do favor de Deus e a luz de seu rosto brilhando sobre nós bastam para impedir que nosso ânimo afunde no lamaçal mais profundo das tribulações exteriores.

Não precisamos desejar nada além disso para estarmos seguros e tranquilos, v. 18. “Aproxima-te da minha alma, para te manifestares a ela, e isso a redimirá.”

II. Quais são seus apelos para reforçar essas petições: 1. Ele apela à misericórdia e à verdade de Deus (v. 13): “Na multidão da tua misericórdia, ouve-me”.

Há misericórdia em Deus, uma multidão de misericórdias, misericórdia de toda espécie, inesgotável, suficiente para todos e para cada pessoa. É daí que devemos tirar ânimo para orar.

A verdade de sua salvação, isto é, a verdade de todas as promessas de salvação que ele fez aos que confiam nele, oferece um motivo ulterior de ânimo. Davi repete a razão tirada da misericórdia de Deus: “Ouve-me, pois a tua benignidade é boa. Ela é boa em si: rica, farta e abundante.”

“É boa na avaliação de todos os santos: é muito preciosa para eles; é sua vida, sua alegria, seu tudo.”

“Oh, que eu desfrute de seus benefícios! Volta-te para mim, segundo a multidão das tuas ternas misericórdias”, v. 16. Veja como ele enaltece a bondade de Deus: nele há misericórdias, ternas misericórdias, e uma multidão delas.

Se pensarmos bem de Deus e continuarmos a fazê-lo mesmo sob as maiores agruras, não precisaremos temer que ele deixe de nos fazer bem, pois tem prazer nos que esperam em sua misericórdia, Salmos 147:11.

  1. Ele apela à sua própria angústia e aflição: “Não escondas de mim teu rosto, pois estou em tribulação (v. 17) e, portanto, preciso de teu favor; portanto, ele virá em boa hora, e portanto saberei apreciá-lo.”

Ele menciona particularmente o descrédito que sofria e as indignidades que lhe eram impostas (v. 19): “Conheceste meu descrédito, minha vergonha e minha desonra”.

Veja o peso atribuído a isso. Nos sofrimentos de Cristo por nós, talvez nada tenha contribuído mais para a satisfação que ele ofereceu pelo pecado, tão injurioso a Deus em sua honra, do que o descrédito, a vergonha e a desonra que suportou.

Deus reparou neles e os aceitou como mais que equivalentes à vergonha e ao desprezo eternos que nossos pecados mereciam.

Por isso, devemos, pelo arrependimento, envergonhar-nos e suportar o descrédito da nossa juventude. Se em algum momento formos chamados a sofrer descrédito, vergonha e desonra por amor a ele, podemos consolar-nos com o fato de que ele sabe disso. Assim como nos precedeu, também não ficará em dívida conosco.

O salmista fala como uma pessoa franca ao dizer (v. 20): “O descrédito me partiu o coração; estou cheio de abatimento”.

Para quem conhece o valor de um bom nome, é pesado receber uma má reputação. Mas, ao considerarmos a honra de ser desonrado por amor a Deus e o favor de ser considerado digno de sofrer vergonha por seu nome, como eles entenderam (Atos 5:41), veremos que não há razão alguma para que isso pese tanto ou nos parta o coração.

  1. Ele apela à insolência e à crueldade de seus inimigos (v. 18): “Livra-me por causa dos meus inimigos”, porque eram como ele os havia descrito antes, v. 4.

“Meus adversários estão todos diante de ti” (v. 19): você sabe que tipo de homens são, o perigo que representam para mim, como são seus inimigos e o quanto o desonram pelo que fazem e têm o desígnio de fazer contra mim.

Um exemplo da barbaridade deles é dado (v. 21): “Deram-me fel como alimento” (a palavra significa uma erva amarga e muitas vezes aparece junto de absinto) “e, na minha sede, deram-me vinagre para beber”.

Isso se cumpriu literalmente em Cristo e apontava para ele de modo tão direto que não quis dizer “Está consumado” até que se cumprisse.

Para que os inimigos tivessem ocasião de cumprir isso, ele disse: “Tenho sede”, João 19:28, 29. Alguns pensam que o hissopo que puseram em sua boca com o vinagre era a erva amarga que lhe deram com o vinagre como alimento.

Veja como os sofrimentos de Cristo foram anunciados em detalhes, o que prova que as Escrituras são a palavra de Deus, e como as predições se cumpriram exatamente em Jesus Cristo, o que prova que ele é o verdadeiro Messias. É ele quem devia vir, e não devemos esperar outro.

  1. Ele apela à falta de bondade de seus amigos e à decepção que lhe causaram (v. 20): “Esperei que alguém tivesse compaixão, mas não havia ninguém”; todos falharam com ele como os ribeiros no verão. Isso se cumpriu em Cristo, pois, durante seus sofrimentos, todos os seus discípulos o abandonaram e fugiram.

Não podemos esperar pouco demais dos homens, pois todos são consoladores miseráveis; nem podemos esperar demais de Deus, pois ele é o Pai de misericórdia e o Deus de todo conforto e consolo.

Versículos 22 a 29

Apelo a Deus; Imprecações Proféticas.

Essas imprecações não são orações de Davi contra seus inimigos, mas profecias da destruição dos perseguidores de Cristo, especialmente da nação judaica. Nosso próprio Senhor a predisse com lágrimas, e ela se cumpriu cerca de quarenta anos após sua morte.

Os dois primeiros versículos deste trecho são aplicados expressamente pelo apóstolo aos juízos de Deus sobre os judeus incrédulos (Romanos 11:9, 10); portanto, todo o trecho deve apontar nessa direção.

Assim como a rejeição dos judeus por rejeitarem a Cristo foi um exemplo notável da justiça de Deus e uma garantia da vingança que ele finalmente exercerá sobre todos os obstinados em sua incredulidade, também foi, e continua sendo, uma prova convincente da verdade da religião cristã.

Uma grande objeção a ela, no princípio, era que deixava de lado a lei cerimonial. Mas isso foi eficazmente justificado, e a objeção removida, quando Deus deixou aquela lei de lado de forma tão notável, mediante a destruição completa do templo e a ruína, junto com a ordem mosaica, daqueles que se apegavam obstinadamente à lei em oposição ao evangelho de Cristo. Observe aqui:

I. Quais juízos viriam sobre os que crucificaram Cristo. Não sobre todos, pois houve quem tivesse participado de sua morte e, ainda assim, se arrependesse e encontrasse misericórdia (Atos 2:23; 3:14, 15).

Viriam, porém, sobre aqueles, e seus sucessores, que justificavam esse ato por sua incredulidade obstinada e rejeição do evangelho de Cristo, bem como por sua inimizade arraigada contra seus discípulos e seguidores. Veja 1 Tessalonicenses 2:15, 16. Aqui se prediz:

  1. Que seus sacrifícios e ofertas lhes trariam dano e prejuízo (v. 22): “Que a mesa deles se torne um laço”. Isso pode se referir ao altar do Senhor, chamado mesa dele e deles porque, ao comerem dos sacrifícios, participavam do altar.

O altar deveria ter sido para seu bem-estar ou paz, pois as ofertas eram ofertas pacíficas, mas tornou-se para eles laço e armadilha. Pelo afeto e apego que tinham ao altar, ficaram presos à sua incredulidade e endurecidos em seus preconceitos contra Cristo, aquele altar do qual os que continuavam a servir ao tabernáculo não tinham direito de comer, Hebreus 13:10.

Ou isso pode se referir aos confortos comuns que a criação oferece, até mesmo ao alimento necessário. Haviam dado a Cristo fel e vinagre; portanto, com justiça, sua comida e bebida se tornariam fel e vinagre para eles.

Quando os meios de sustento da vida e os prazeres dos sentidos, pela corrupção de nossa natureza, se tornam ocasião de pecado e servem de alimento e combustível para nossa sensualidade, nossa mesa se torna um laço. Esse é um bom motivo para nunca nos alimentarmos sem temor, Judas 1:12.

  1. Que nunca desfrutariam do consolo daquele conhecimento ou daquela paz com que os crentes são abençoados no evangelho de Cristo (v. 23); seriam entregues:

(1.) À cegueira judicial: “Que seus olhos sejam escurecidos”, para que não vejam a glória de Deus na face de Cristo. Seu pecado foi não querer ver: fecharam os olhos à luz, preferindo as trevas. Seu castigo seria não poder ver: seriam entregues às paixões endurecedoras do próprio coração, e ao deus deste mundo seria concedido cegar-lhes a mente, 2 Coríntios 4:4.

Isso foi predito a respeito deles (Isaías 6:10), e Cristo o confirmou, Mateus 13:14, 15; João 12:40.

(2.) Ao terror judicial. Há um terror acompanhado de graça, que abre caminho para o consolo, como o de Paulo (Atos 9:6): ele tremia e estava espantado. Este, porém, é um terror que nunca terminará em paz, mas fará seus lombos tremerem continuamente pelo horror da consciência, como ocorreu com Belsazar quando as juntas dos seus lombos se soltaram.

“Que sejam levados ao desespero e tomados de confusão constante.” Isso se cumpriu nas decisões desesperadas dos judeus quando os romanos avançaram contra eles.

  1. Que cairiam e permaneceriam sob a ira e a ardente indignação de Deus (v. 24): “Derrama sobre eles tua indignação”. Repare: os que rejeitam a grande salvação que Deus lhes oferece têm razão para temer que sua indignação seja derramada sobre eles. Os que não se submetem ao Filho do seu amor certamente se tornarão a geração de sua cólera.

A condenação proferida contra os que não creem em Cristo é que a cólera de Deus permanece sobre eles (João 3:36); ela os alcança e nunca os soltará. A própria salvação não salvará os que não estão dispostos a ser governados por ela. Vejam a bondade e a severidade de Deus!

  1. Que seu lugar e sua nação lhes seriam inteiramente tirados, precisamente o que temiam e o que alegavam tentar evitar ao perseguir Cristo (João 11:48): “Que sua habitação fique desolada” (v. 25). Isso se cumpriu quando seu país foi devastado pelos romanos, e Sião, por causa deles, foi lavrada como um campo, Miquéias 3:12.

O templo era a casa da qual se orgulhavam de modo especial; contudo, essa casa lhes foi deixada desolada, Mateus 23:38. E não é só isso. Se formos privados do gozo de nossas posses, deve nos consolar de algum modo saber que outros se beneficiarão delas depois que formos desalojados.

Aqui, porém, acrescenta-se: “Que ninguém habite em suas tendas”. Isso se cumpriu de modo notável em Judá e Jerusalém, pois, após a destruição dos judeus, demorou muito até que o país voltasse a ser habitado de maneira significativa.

Pedro, porém, aplica essa passagem especificamente a Judas, Atos 1:20. Visto que ele era felo de se — um suicida —, podemos supor que seus bens foram confiscados; assim, sua habitação ficou desolada, e nenhum de seus parentes morou nela.

  1. Que seu caminho para a ruína seria uma descida contínua, sem que nada os detivesse ou interviesse para impedi-la (v. 27): “Senhor, deixa-os entregues a si mesmos, para que acrescentem iniquidade à iniquidade”. Os maus, se forem entregues às paixões do próprio coração, certamente se tornarão piores. Acrescentarão pecado a pecado; ou melhor, acrescentarão rebelião ao seu pecado, Jó 34:37.

Diz-se dos judeus que sempre completavam a medida de seus pecados, 1 Tessalonicenses 2:16. “Acrescenta o castigo da iniquidade à iniquidade deles” (assim alguns leem), pois a mesma palavra significa tanto pecado como castigo, de tão estreita que é a ligação entre ambos. Se os homens insistirem em pecar, Deus lhes pedirá contas.

No entanto, aqueles cujos pecados se multiplicaram ainda podem encontrar misericórdia, pois Deus multiplica o perdão por meio da justiça do Mediador. Portanto, para que se vissem privados de toda esperança de misericórdia, ele acrescenta: “Não entrem eles na tua justiça”, para que não recebam o benefício da justiça de Deus, que vem pela fé num Mediador, Filipenses 3:9.

Isso não significa que Deus exclua alguém dessa justiça: o evangelho não exclui ninguém que não se exclua por sua própria incredulidade. Se forem deixados para seguir o próprio caminho, porém, nunca entrarão nesse governo.

Por ignorarem as exigências da justiça de Deus e procurarem estabelecer o mérito da sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça de Deus, Romanos 10:3. Aqueles que são tão orgulhosos e obstinados que não querem entrar na justiça de Deus receberão a condenação correspondente. Eles mesmos a decidiram: não entrarão na justiça dele.

Os que não querem nem se alegram em depender dessa justiça não devem esperar receber dela benefício algum.

  1. Que seriam privados de toda esperança de felicidade (v. 28): “Que sejam apagados do livro dos vivos”. Que não lhes seja permitido viver mais, pois quanto mais vivem, mais danos causam. Multidões de judeus incrédulos morreram pela espada e pela fome, enquanto nenhum daqueles que haviam abraçado a fé cristã pereceu entre eles. A nação, como nação, foi apagada e deixou de ser um povo.

Muitos entendem isso como a exclusão deles da aliança de Deus e de todos os seus privilégios: esse é o livro dos vivos. “Que a própria comunidade de Israel, o Israel segundo a carne, seja agora afastada daquela aliança da promessa da qual até aqui havia detido o monopólio.”

“Que fique claro que nunca estiveram inscritos no livro da vida do Cordeiro, mas que os homens os chamem prata rejeitada, porque o Senhor os rejeitou. Que não sejam inscritos com os justos; isto é, que não tenham lugar na congregação dos santos quando todos se reunirem na assembleia geral daqueles cujos nomes estão escritos no céu”, Salmos 1:5.

II. Qual pecado lhes traria esses terríveis juízos (v. 26): “Perseguem aquele a quem tu feriste e falam para aumentar a dor dos teus feridos”. 1. Cristo foi aquele a quem Deus feriu, pois o Senhor teve por bem esmagá-lo, e ele foi considerado ferido, atingido por Deus e aflito. Por isso os homens escondiam dele o rosto, Isaías 53:3, 4, 10.

Perseguiram-no com uma fúria que chegava até o céu; gritavam: “Crucifica-o, crucifica-o”. Compare as palavras de Pedro com isso, Atos 2:23. Embora ele tivesse sido entregue pelo conselho e pela presciência de Deus, foi por mãos perversas que o crucificaram e mataram.

Falaram para aumentar a dor do Senhor Jesus quando estava na cruz, dizendo: “Confiou em Deus; que Deus o livre”. Nada poderia ter sido dito que lhe causasse mais dor.

  1. Os santos sofredores eram os feridos de Deus, feridos na causa dele e por sua causa. A eles perseguiram e falaram para aumentar sua dor. Por essas coisas, a cólera veio sobre eles até o extremo, 1 Tessalonicenses 2:16; veja Mateus 23:34, etc.

Isso pode ser entendido de maneira mais geral: nada provoca mais a Deus do que insultar os que ele feriu e acrescentar aflição aos aflitos. Daí se segue, com justiça, o que se diz aqui: “Acrescenta iniquidade à iniquidade”; veja Zacarias 1:15.

Os que têm o espírito ferido, aflitos e temerosos quanto à sua condição espiritual, devem ser tratados com muita ternura. É preciso ter cuidado para não falar de modo a aumentar sua dor nem entristecer o coração dos justos.

III. O que o salmista pensa de si mesmo em meio a tudo isso (v. 29): “Mas sou pobre e triste; essa é a pior parte de minha situação, sob aflições exteriores, contudo inscrito entre os justos e não debaixo da indignação de Deus como eles estão.”

É melhor ser pobre e triste com a bênção de Deus do que rico e alegre sob sua maldição. Os que entram na justiça de Deus logo verão o fim de sua pobreza e tristeza, e sua salvação os colocará no alto; é por isso que Davi ora aqui, Isaías 61:10.

Isso pode ser aplicado a Cristo. Em sua humilhação, ele foi pobre e triste, homem de dores que não tinha onde reclinar a cabeça. Mas Deus o exaltou grandemente: a salvação realizada em seu favor e a salvação realizada por ele o elevaram muito acima de todos os principados e potestades.

Versículos 30 a 36

Consolo para os Perseguidos; Ação de Graças e Louvor.

O salmista, tanto como tipo de Cristo quanto como exemplo para os cristãos, conclui com santa alegria e louvor um salmo que começou com queixas e protestos por suas dores.

I. Ele resolve louvar a Deus pessoalmente, sem duvidar de que será aceito nisso (v. 30, 31): “Louvarei o nome de Deus não só com meu coração, mas com meu cântico, e o engrandecerei com ações de graças.” Pois Deus tem por bem considerar-se engrandecido pelos louvores agradecidos de seu povo.

Isso sugere que todos os cristãos devem glorificar a Deus com seus louvores, em salmos, hinos e cânticos espirituais. Por meio de Cristo, mediador tanto dos nossos louvores quanto das nossas orações, isso agradará mais ao Senhor do que os mais valiosos sacrifícios da lei (v. 31), como um boi ou um novilho.

É uma indicação clara de que, nos dias do Messias, chegariam ao fim não só os sacrifícios de expiação, mas também os de louvor e reconhecimento instituídos pela lei cerimonial.

Em lugar deles, são aceitos sacrifícios espirituais de louvor e ação de graças: os bezerros dos nossos lábios, não os bezerros do curral, Hebreus 13:15.

É grande consolo para nós que os louvores humildes e agradecidos agradem mais a Deus do que agradam, ou jamais agradaram, os sacrifícios mais caros e pomposos.

II. Ele anima outras pessoas boas a alegrar-se em Deus e continuar a buscá-lo (v. 32, 33): “Os humildes verão isso e se alegrarão.” Para seu consolo, observarão:

  1. As experiências dos santos. Verão como Deus está pronto a ouvir os pobres quando clamam a ele e a conceder-lhes aquilo que lhe pedem; verão também como está longe de desprezar seus prisioneiros. Embora os homens os desprezem, Deus os favorece com suas visitas bondosas e encontrará ocasião de lhes dar soltura.

“Os humildes verão isso e se alegrarão”, não só porque, quando um membro é honrado, todos os demais se alegram com ele, mas também porque isso os anima, em seus apertos e dificuldades, a confiar em Deus.

O coração dos que buscam a Deus reviverá ao ver mais selos e assinaturas a confirmar esta verdade: o Deus de Jacó nunca disse à descendência de Jacó: “Buscai-me em vão”.

  1. A exaltação do Salvador, pois o salmista havia falado dele e de si mesmo como seu tipo. Quando suas dores passarem e ele entrar na alegria que lhe foi proposta, quando for ouvido e solto da prisão do sepulcro, os humildes verão isso e se alegrarão.

Os que buscam a Deus por meio de Cristo viverão e serão consolados, concluindo que, se sofrerem com ele, também reinarão com ele.

III. Ele convoca todas as criaturas a louvar a Deus: o céu, a terra, o mar e os habitantes de cada um, v. 34. O céu, a terra e os exércitos de ambos foram feitos por ele; portanto, que o céu e a terra o louvem.

Os anjos no céu e os santos na terra podem, cada grupo em sua morada, encontrar motivos suficientes para o louvor constante. Que os peixes do mar, embora proverbialmente mudos, louvem o Senhor, pois o mar é dele e ele o fez.

Os louvores do mundo devem ser oferecidos pelos favores de Deus à sua igreja, v. 35, 36. Pois Deus salvará Sião, o monte santo onde seu culto era mantido.

Salvará todos os que são santificados e separados para ele, todos os que se ocupam de sua adoração e todos aqueles sobre quem Cristo reina; pois ele era Rei sobre o santo monte Sião.

Deus tem misericórdia reservada para as cidades de Judá, tribo à qual Cristo pertencia. Fará grandes coisas pela igreja do evangelho; que se alegrem com isso todos os que lhe desejam o bem. Pois:

  1. Ela será povoada e habitada. A ela se acrescentarão aqueles que serão salvos. As cidades de Judá serão construídas; igrejas particulares serão formadas e incorporadas segundo o modelo do evangelho, para que haja um remanescente que habite ali e as possua, desfrute dos privilégios que lhes foram conferidos e preste os tributos e serviços que lhes são exigidos.

Os que amam seu nome e têm afeição pela religião em geral abraçarão a religião cristã e ocuparão seu lugar na igreja cristã. Habitarão nela como cidadãos e membros da família de Deus.

  1. Ela será perpetuada e herdada. O cristianismo não seria res unius ætatis: algo passageiro, próprio de uma só época. Não: “A descendência de seus servos a herdará”. Deus assegurará para si uma descendência que o sirva e a suscitará, e eles herdarão os privilégios de seus pais.

Pois a promessa é para vocês e seus filhos, como era antigamente. Serei um Deus para você e sua descendência depois de você. A terra da promessa nunca ficará sem herdeiros, pois Deus pode suscitar filhos a Abraão até das pedras e o fará antes de permitir que se interrompa a linha de herança.

Davi jamais ficará sem um homem que se apresente diante dele. O Redentor verá sua descendência e prolongará seus dias nela, até que o mistério de Deus se cumpra e seu corpo místico esteja completo.

Visto que a santa descendência é a substância do mundo e que, se ela estivesse toda reunida, o mundo logo chegaria ao fim, é justo que o céu e a terra louvem a Deus pela certeza de que ela será preservada.


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