Salmos 61
Argumento
Davi, neste salmo, como em muitos outros, começa com o coração triste, mas termina em tom alegre; começa com orações e lágrimas, mas acaba com cânticos de louvor.
Assim, a alma, ao ser elevada a Deus, volta a desfrutar de si mesma. Parece que Davi estava expulso e exilado quando escreveu este salmo. Não se sabe se foi por Saul ou por Absalão.
Alguns pensam que foi por Absalão, porque ele chama a si mesmo de “o rei” (v. 6); mas isso se refere ao Rei Messias. Neste salmo, Davi resolve perseverar em seu dever, animado a isso tanto por sua experiência quanto por suas expectativas.
I. Ele invocará a Deus porque Deus o havia protegido, vv. 1-3. II. Ele invocará a Deus porque Deus havia provido bem para ele, v. 4, 5.
III. Ele louvará a Deus porque tinha a certeza da continuidade do favor divino para com ele, vv. 6-8. Assim, ao cantar este salmo, podemos encontrar nele algo muito expressivo tanto da nossa fé quanto da nossa esperança, das nossas orações e dos nossos louvores; e algumas passagens deste salmo são muito peculiares.
Clamando a Deus na Aflição.
Versículos 1 a 4
Ao Músico-Mor, sobre Negina. Salmo de Davi.
Nestes versículos podemos observar:
I. Como Davi se apega a Deus e a ele recorre em oração no dia da sua aflição e tribulação: “Aconteça o que acontecer, clamarei a ti (v. 2); não clamarei a outros deuses, mas somente a ti; não me voltarei contra ti porque me afliges, mas continuarei a olhar para ti e a esperar em ti.”
“Não falarei contigo de modo frio e descuidado, mas clamarei a ti com a máxima insistência e o fervor de espírito de quem não te deixará ir sem que me abençoes.” Ele fará isso:
- Apesar de estar longe do santuário, a casa de oração, que costumava frequentar como quem comparece a um tribunal para apresentar suas petições: “Desde os confins da terra, ou do país, desde o canto mais remoto e desconhecido da região, clamarei a ti.”
Repare: onde quer que estejamos, podemos ter livre acesso a Deus e encontrar aberto o caminho para o trono da graça.
Undique ad coelos tantundem est viæ — o céu é igualmente acessível de todos os lugares. “Ou melhor: porque estou aqui nos confins da terra, em tristeza e solidão, por isso clamarei a ti.” Repare: aquilo que nos separa dos nossos outros consolos deve levar-nos tanto mais perto de Deus, a fonte de todo consolo.
- Apesar do abatimento e desânimo de seu espírito: “Embora meu coração esteja oprimido, não está tão afundado, tão sobrecarregado, que não possa ser elevado a Deus em oração; se não é capaz de ser assim elevado, certamente está abatido demais.”
“Ou melhor: porque meu coração está prestes a sucumbir, por isso clamarei a ti, pois assim ele será sustentado e aliviado.”
Repare: o choro deve estimular a oração, e não enfraquecê-la. “Alguém está aflito? Que ore.” Tiago 5:13; Salmos 102, título.
II. A petição específica que ele apresentou a Deus quando seu coração estava oprimido e ele estava prestes a sucumbir: “Leva-me à rocha que é mais alta do que eu.” Isto é:
“À rocha alta demais para que eu suba até ela sem a tua ajuda. Senhor, dá-me uma certeza e uma satisfação quanto à minha própria segurança que eu jamais poderia alcançar sem que tua graça especial produzisse em mim tal fé.”
“À rocha em cujo cume eu serei colocado mais longe do alcance das minhas tribulações e mais perto da região serena e tranquila do que poderia estar por qualquer poder ou sabedoria meus.” O poder e a promessa de Deus são uma rocha mais alta do que nós.
Essa rocha é Cristo; aqueles que estão nele estão seguros. Não podemos subir a essa rocha a menos que Deus nos conduza a ela por seu poder.
“Eu te porei numa fenda da rocha”, Êxodo 33:22. Portanto, pela fé e pela oração, devemos entregar-nos à direção divina, para que sejamos acolhidos sob a proteção divina.
III. Seu desejo e sua expectativa de uma resposta de paz. Ele suplica com fé (v. 1): “Ouve, ó Deus, o meu clamor! Atende à minha oração”; isto é: “Dá-me o consolo presente de saber que sou ouvido (Salmos 20:6) e, no devido tempo, concede-me aquilo por que oro.”
IV. O fundamento dessa expectativa e o apelo que usa para reforçar sua petição (v. 3): “Tens sido um abrigo para mim; encontrei em ti uma rocha mais alta do que eu. Por isso, confio que continuarás a conduzir-me a essa rocha.”
Repare: assim como as experiências passadas do benefício de confiar em Deus devem levar-nos a continuar junto dele, assim devem animar-nos a esperar que isso não será em vão.
“Tens sido para mim uma torre forte contra o inimigo; és tão forte como sempre, e teu nome é um refúgio para os justos tanto quanto sempre foi.” Provérbios 18:10.
V. Sua resolução de continuar no caminho do dever para com Deus e da dependência dele, v. 4. 1. O serviço de Deus será sua ocupação e tarefa constante.
Todos os que esperam encontrar em Deus seu abrigo e sua torre forte devem fazer o mesmo: somente seus servos domésticos desfrutam do benefício de sua proteção. “Habitarei em teu tabernáculo para sempre.”
Davi estava então banido do tabernáculo, o que era seu maior motivo de queixa; mas está certo de que Deus, por sua providência, o levaria de volta ao seu tabernáculo. Pois Deus, por sua graça, havia produzido nele tal afeição pelo tabernáculo que ele estava resolvido a fazer dele sua morada permanente, Salmos 27:4.
Ele fala em habitar ali para sempre porque aquele tabernáculo era tipo e figura do céu, Hebreus 9:8, 9, 24. Aqueles que habitam no tabernáculo de Deus, como casa do dever, durante sua breve permanência na terra, habitarão naquele tabernáculo que é a casa da glória por toda a eternidade.
- A graça de Deus e a aliança da graça serão seu consolo constante: Buscarei refúgio à sombra de suas asas, assim como os pintinhos buscam tanto calor quanto segurança sob as asas da galinha.
Aqueles que encontraram em Deus um abrigo devem continuar a recorrer a ele em todas as suas dificuldades. Os que habitam no tabernáculo de Deus têm esta vantagem: no tempo da tribulação, ele os esconderá ali.
Versículos 5 a 8
Misericórdias Recordadas.
Nestes versículos podemos observar:
I. Com que prazer Davi relembra o que Deus fizera por ele anteriormente (v. 5): “Tu, ó Deus, ouviste os meus votos.” Isto é:
- “Os próprios votos que fiz e com os quais comprometi minha alma: reparaste neles; aceitaste-os, porque foram feitos com sinceridade, e te agradaste muito deles; lembraste-te deles e fizeste-me lembrá-los.” Deus lembrou a Jacó seus votos, Gênesis 31:13; 35:1.
Repare: Deus é testemunha de todos os nossos votos, de todos os nossos bons propósitos e de todas as nossas promessas solenes de nova obediência.
Ele mantém um registro deles, e isso deve ser um bom motivo para cumprirmos nossos votos, como foi para Davi aqui, v. 8. Pois aquele que ouve os votos que fizemos nos fará ouvir a respeito deles caso não os cumpramos.
- “As orações que acompanharam esses votos; essas ouviste benignamente e respondeste”, o que agora o animava a orar: “Ó Deus, ouve o meu clamor.” Aquele que nunca disse à descendência de Jacó: “Buscai-me em vão”, não começará a dizê-lo agora.
“Ouviste os meus votos e lhes deste uma resposta concreta, pois me concedeste a herança dos que temem o teu nome.”
Repare: (1.) Há no mundo um povo especial que teme o nome de Deus; com santo temor e reverência, eles acolhem e se conformam a tudo o que ele tem por bem revelar de si mesmo aos filhos dos homens.
(2.) Há uma herança especial para esse povo especial: consolos presentes que são penhores de sua futura bem-aventurança. O próprio Deus é a herança deles, sua porção para sempre.
Os levitas, que tinham Deus por herança, deviam contentar-se com ele e não esperar uma porção de terra como a de seus irmãos. Assim, aqueles que temem a Deus têm nele o suficiente e, portanto, não devem queixar-se se possuem pouco deste mundo.
(3.) Não precisamos desejar herança melhor que a daqueles que temem a Deus. Se Deus nos tratar como costuma tratar os que amam seu nome, não precisaremos desejar tratamento melhor.
II. Com que segurança ele espera a continuidade de sua vida (v. 6): “Tu prolongarás a vida do rei.” Isso pode ser entendido de dois modos: 1. Dele próprio.
Se o salmo foi escrito antes de sua ascensão ao trono, ainda assim ele, tendo sido ungido por Samuel e sabendo o que Deus havia dito em sua santidade, podia pela fé chamar-se rei, embora fosse então perseguido como proscrito. Ou talvez tenha sido escrito quando Absalão procurou destroná-lo e forçá-lo ao exílio.
Havia quem pretendesse abreviar-lhe a vida, mas ele confiava em Deus para prolongá-la. Deus a prolongou até a idade do homem estabelecida por Moisés, a saber, setenta anos.
Como passou esses anos servindo à sua geração segundo a vontade de Deus (Atos 13:36), eles podiam ser contados como muitas gerações, pois muitas gerações se beneficiariam dele.
Sua resolução era habitar no tabernáculo de Deus para sempre (v. 4), no caminho do dever; agora, sua esperança é permanecer diante de Deus para sempre, no caminho do consolo.
Permanecem neste mundo para um bom fim aqueles que permanecem diante de Deus, que o servem e andam no seu temor; e os que assim procedem permanecerão diante dele para sempre.
Ele fala de si mesmo na terceira pessoa porque o salmo foi entregue ao Músico-Mor para uso da igreja, e queria que as pessoas, ao cantá-lo, fossem animadas pela certeza de que, apesar da malícia de seus inimigos, seu rei viveria para sempre, como desejavam.
Ou: 2. Do Messias, o Rei de quem ele era um tipo. Para Davi, era um consolo pensar que, acontecesse o que acontecesse com ele próprio, os anos do Ungido do Senhor seriam como muitas gerações e que o crescimento do seu governo e da sua paz não teria fim.
O Mediador permanecerá diante de Deus para sempre, pois sempre comparece na presença de Deus em nosso favor e vive eternamente, intercedendo; e, porque ele vive, nós também viveremos.
III. Com que insistência ele suplica a Deus que o acolha e o mantenha sempre sob sua proteção: “Oh, prepara misericórdia e verdade que o preservem!”
As promessas de Deus e nossa fé nelas não devem substituir a oração, mas estimulá-la e animá-la. Davi tem certeza de que Deus prolongará sua vida e, por isso, ora para que ele a preserve.
Não pede que Deus lhe prepare uma forte guarda pessoal ou um castelo bem fortificado, mas que prepare misericórdia e verdade para preservá-lo; isto é, que a bondade de Deus cuide de sua segurança conforme a promessa.
Não precisamos desejar segurança maior que a oferecida pela proteção da misericórdia e da verdade de Deus.
Isso pode ser aplicado ao Messias: “Que ele seja enviado na plenitude do tempo, em cumprimento da verdade a Jacó e da misericórdia a Abraão.” Miquéias 7:20; Lucas 1:72, 73.
IV. Com que alegria ele promete retribuir a Deus com gratidão e obediência (v. 8): “Assim cantarei louvores ao teu nome para sempre.” Repare: a preservação que Deus nos concede exige que o louvemos; por isso, devemos desejar viver para poder louvá-lo: “Viva a minha alma, e ela te louvará.”
Devemos fazer do louvor a Deus a ocupação do nosso tempo, até o fim. Enquanto nossa vida for prolongada, devemos continuar a louvá-lo; então o louvor se tornará a ocupação da nossa eternidade, e nós o louvaremos para sempre.
“Para que eu cumpra diariamente os meus votos.” O louvor a Deus era, por si só, o cumprimento dos votos de Davi, e dispunha seu coração a cumpri-los de outras maneiras.
Repare: 1. Devemos cumprir conscienciosamente os votos que fizemos. 2. Louvar a Deus e pagar-lhe nossos votos deve ser nossa tarefa constante e diária. Todos os dias devemos fazer algo nesse sentido, pois tudo o que fazemos é pouco em comparação com o que lhe devemos.
Devemos fazê-lo também porque recebemos novas misericórdias diariamente e porque, se acharmos penoso louvar a Deus todos os dias, não podemos esperar fazê-lo eternamente.