Matthew Henry

Salmos 58

Argumento

Alguns, especialmente Amyraldus, fazem a conjectura provável de que, antes de Saul começar a perseguir Davi pela força das armas e mobilizar a milícia para capturá-lo, moveu contra ele um processo legal. Nele, Davi foi condenado sem ser ouvido e declarado traidor pelo grande conselho, ou supremo tribunal.

Depois, foi proclamado qui caput gerit lupinum — um lobo proscrito, que qualquer pessoa poderia matar e ninguém poderia proteger. Supõe-se que Davi tenha escrito este salmo nessa ocasião, depois que os anciãos aprovaram esse decreto de proscrição para ganhar o favor de Saul.

I. Ele descreve o pecado deles e mostra sua gravidade, vv. 1-5. II. Invoca e prediz sua ruína e os juízos que o Deus justo traria sobre eles por sua injustiça (vv. 6-9). Isso resultaria: 1. No conforto dos santos, v. 10. 2. Na glória de Deus, v. 11.

O pecado aparece aqui tanto extremamente pecaminoso quanto extremamente perigoso, e Deus como justo vingador da injustiça. Essas verdades devem tocar-nos ao cantar este salmo.

Uma Censura aos Juízes Perversos.

Versículos 1 a 5

Ao Músico-Mor, Al-taschith, Mictão de Davi.

Temos razão para pensar que este salmo se refere à malícia de Saul e seus janízaros contra Davi, pois traz a mesma inscrição (Al-taschith e Mictão de Davi) do salmo anterior e do seguinte. Ambos parecem, pelo título, ter sido escritos em referência à perseguição durante a qual Deus o preservou (Al-taschith — Não destruas).

Por isso, os salmos que Davi escreveu naquela época lhe eram preciosos: Mictões — joias de Davi, como traduz o dr. Hammond.

Nestes versículos, Davi, não como rei, pois ainda não subira ao trono, mas como profeta, acusa e declara culpados os seus juízes em nome de Deus, com mais autoridade e justiça do que eles demonstraram ao processá-lo. Ele os acusa de duas coisas:

I. A corrupção de seu governo. Eram uma assembleia, um tribunal de magistrados, ou melhor, talvez um congresso ou convenção dos estados, do qual se poderia esperar um tratamento justo, pois eram homens versados nas leis, educados no estudo desses estatutos e juízos, tão justos que os das outras nações não se comparavam a eles.

Ninguém imaginaria que tal assembleia pudesse ser subornada e influenciada por pensões. Contudo, parece que foi o que aconteceu, porque o filho de Quis podia fazer por eles o que o filho de Jessé não podia, 1 Samuel 22:7. Saul tinha vinhas, campos e cargos para lhes dar; por isso, para agradá-lo, fariam qualquer coisa, certa ou errada.

De todas as visões melancólicas que Salomão teve desta terra e de suas aflições, nada o incomodou tanto quanto ver que, “no lugar do juízo, ali havia impiedade”, Eclesiastes 3:16. Assim era no tempo de Saul.

  1. Os juízes não queriam agir com justiça nem proteger ou defender a inocência oprimida (v. 1): “Acaso falais verdadeiramente justiça ou julgais com retidão? Não; estais longe disso. Vossa própria consciência não pode deixar de vos dizer que não cumpris o encargo que vos foi confiado como magistrados.”

“Por esse encargo, deveis ser motivo de temor para os malfeitores e de louvor para os que fazem o bem. É esta a justiça que alegais administrar? É esta a proteção, este o apoio que um homem honesto e uma causa justa podem esperar de vós?”

“Lembrai-vos de que sois filhos dos homens: mortais, sujeitos à morte. Diante de Deus, estais no mesmo nível que os mais humildes daqueles a quem pisais, e vós mesmos tereis de prestar contas e ser julgados.”

“Sois filhos dos homens e, portanto, podemos apelar a vós mesmos e à lei natural escrita no coração de cada homem: falais verdadeiramente justiça? E vossa reflexão posterior não corrigirá o que fizestes?”

Repare: é bom refletirmos com frequência sobre o que dizemos, fazendo-nos esta séria pergunta: falamos verdadeiramente justiça? Assim, poderemos retirar o que dissemos indevidamente e não prosseguir nisso.

  1. Cometiam muitas injustiças; usavam o poder para sustentar a injúria e a opressão (v. 2): “No coração praticais a impiedade”. Toda a impiedade da vida é produzida no coração. Isso indica que agiam com muitas tramas e manobras, não de surpresa, mas com premeditação e desígnio, e com forte inclinação para isso e determinação nisso.

Quanto mais o coração participa de um ato de impiedade, pior ele é, Eclesiastes 8:11. E qual era a impiedade deles? O texto prossegue: “Pesais a violência das vossas mãos na terra” (ou: na região), “cuja paz fostes encarregados de preservar”.

Cometiam toda a violência e injúria que podiam, ou para enriquecer a si mesmos ou para se vingar, e pesavam essa violência. Isso significa: 1. Agiam com grande astúcia e cautela: “Vós a traçais conforme a régua e as linhas” (esse é o sentido da palavra), “para que cumpra eficazmente vossos propósitos maliciosos; sois mestres na arte da opressão”.

  1. Agiam sob a aparência de justiça. Seguravam nas mãos a balança, emblema da justiça, como se tivessem o desígnio de agir corretamente, e deles se esperava o que era certo. Mas o resultado é violência e opressão, praticadas com maior eficácia justamente sob o pretexto da lei e do direito.

II. A corrupção de sua natureza. Essa era a raiz de amargura da qual brotavam o fel e o absinto (v. 3): os perversos, que praticam a impiedade no coração, estão afastados desde o ventre. Estão afastados de Deus e de todo o bem, alienados da vida divina, de seus princípios, poderes e prazeres, Efésios 4:18.

O estado pecaminoso é um estado de afastamento da comunhão com Deus e do serviço a ele, para os quais fomos criados. Ninguém se admire de que esses homens perversos ousem fazer tais coisas, pois a impiedade está entranhada neles. Trouxeram-na consigo ao mundo; sua natureza tem forte inclinação para ela.

Aprenderam a impiedade com seus pais perversos e foram formados nela por uma educação ruim. São chamados, com razão, de transgressores desde o ventre; portanto, não se pode esperar senão que ajam com muita perfídia; veja Isaías 48:8.

Desviam-se de Deus e de seu dever logo que nascem, isto é, assim que lhes é possível. A insensatez presa ao coração deles se manifesta nas primeiras operações da razão; assim como o trigo brota, o joio brota com ele. Aqui são dados três exemplos da corrupção da natureza:

  1. Falsidade. Logo aprendem a mentir e, para isso, vergam suas línguas como seus arcos, Jeremias 9:3. Como as crianças pequenas depressa contam uma mentira para desculpar uma falta ou para elogiar a si mesmas! Assim que conseguem falar, já falam para desonra de Deus; os pecados da língua estão entre nossas primeiras transgressões efetivas.

  2. Malícia. Seu veneno, isto é, sua má vontade e o rancor contra o bem e contra todos os homens bons, particularmente Davi, era como o veneno de uma serpente: inato, peçonhento e muito danoso, e do qual jamais podem ser curados.

Temos pena de um cão envenenado por acidente, mas detestamos uma serpente peçonhenta por natureza. Tal era a inimizade maldita dessa ninhada de serpentes contra o Senhor e seu ungido.

  1. Resistência à correção. São maliciosos, e nada os comove: nem razão nem bondade os abrandam ou os conduzem a uma disposição melhor. São como a áspide surda que tapa o ouvido, v. 4, 5.

Tendo comparado os perversos dos quais se queixa a serpentes por sua malícia venenosa, o salmista aproveita a ocasião para compará-los, por outro motivo, à áspide surda ou víbora. Havia então uma tradição popular a seu respeito: pela música ou por alguma outra arte, as pessoas tinham um modo de encantar serpentes, ou para destruí-las ou, pelo menos, para incapacitá-las de causar dano.

Segundo essa tradição, a áspide surda encostava um ouvido no chão e tapava o outro com a cauda. Assim, não conseguia ouvir a voz do encantamento, frustrava sua finalidade e se protegia.

O uso dessa comparação não confirma a história nem, se ela fosse verdadeira, justifica o emprego do encantamento. Trata-se apenas de uma alusão a tal relato para ilustrar a obstinação dos pecadores em seu caminho pecaminoso.

O desígnio de Deus, em sua palavra e providência, é curar as serpentes de sua malignidade. Para esse fim, quão sábios, poderosos e bem escolhidos são os encantamentos! Quão eficazes são as palavras certas! Mas, para a maioria dos homens, tudo é em vão. Por quê? Porque não querem escutar.

Ninguém é tão surdo quanto aquele que não quer ouvir. Tocamos flauta para os homens, e eles não dançaram; como dançariam, se taparam os ouvidos?

Versículos 6 a 11

Imprecações Proféticas.

Nestes versículos temos:

I. As orações de Davi contra seus inimigos e contra todos os inimigos da igreja e do povo de Deus. Pois é como tais que ele os considera; por isso, ao orar contra eles, era movido pelo interesse público, não por vingança pessoal.

  1. Ele pede que sejam incapacitados de causar algum dano ulterior (v. 6): “Quebra-lhes os dentes, ó Deus!” Não tanto para que deixem de se alimentar, mas para que já não possam fazer dos outros sua presa, Salmos 3:7.

Ele não diz: “Quebra-lhes o pescoço” (não; que vivam para se arrepender; “não os abatas, para que o meu povo não se esqueça”), mas: “Quebra-lhes os dentes, pois são leões, leões novos que vivem da rapina”.

  1. Ele pede que sejam frustrados nas tramas que já armaram e não alcancem seu objetivo: “Quando ele retesar o arco e mirar para lançar suas flechas contra os retos de coração, que elas sejam como se estivessem despedaçadas”, v. 7. “Que caiam aos pés dele e nunca cheguem perto do alvo.”

  2. Ele pede que eles e seus interesses se desgastem e acabem em nada, que se desfaçam como águas que correm continuamente. Isto é, como as águas de uma inundação, que, embora pareçam temíveis por algum tempo, logo se infiltram no solo ou voltam a seus leitos; ou, em geral, como água derramada na terra, que não pode ser recolhida, mas aos poucos seca e desaparece.

Assim serão as torrentes de homens ímpios, que às vezes nos amedrontam (Salmos 18:4); assim serão reduzidas as águas soberbas que ameaçam passar por cima de nossa alma, Salmos 124:4, 5. Vejamos, pois, pela fé o que elas serão, e não temeremos o que são.

Ele pede (v. 8) que se desfaçam como um caracol, que se desgasta pelo próprio movimento, deixando para trás um pouco de sua umidade a cada extensão do corpo. Desse modo, aos poucos, necessariamente se consome, embora deixe um rastro brilhante.

Aquele que, como o caracol em sua casa, é plenus sui — cheio de si —, que se compraz em si mesmo e confia em si mesmo, apenas se consome e logo reduzirá a si mesmo a nada.

E ele pede que sejam como o nascimento prematuro de uma mulher: morre assim que começa a viver e nunca vê o sol. Jó, em seu desespero, desejou ter sido assim (Jó 3:16), mas não sabia o que dizia.

Podemos, pela fé, orar contra os desígnios dos inimigos da igreja, como faz o profeta (Oseias 9:14: “Dá-lhes, ó Senhor! Que lhes darás? Dá-lhes um ventre que aborte e seios secos”), o que explica esta oração do salmista.

II. Sua predição da ruína deles (v. 9): “Antes que vossas panelas sintam o calor de um fogo de espinhos aceso debaixo delas (o que acontecerá imediatamente, pois esse fogo se acende depressa e é violento enquanto dura), tão depressa, com chama tão súbita e violenta, Deus os arrebatará, tão terrível e irresistivelmente como por um redemoinho, como que ainda vivos, como que em fúria.”

  1. As expressões proverbiais são um tanto difíceis, mas o sentido é claro:

(1.) Que os juízos de Deus muitas vezes surpreendem os perversos em meio à sua alegria e os arrebatam de repente. Quando começam a andar à luz do próprio fogo e das faíscas que eles próprios acenderam, são feitos repousar em tristeza (Isaías 50:11).

Sua risada se mostra como o crepitar dos espinhos debaixo de uma panela, cujo conforto logo acaba, antes que possam dizer: “Ai! Estou aquecido”, Eclesiastes 7:6.

(2.) Que ninguém pode resistir à destruição que vem do Todo-Poderoso, pois quem conhece o poder da ira de Deus? Quando Deus quer levar os pecadores, mortos ou vivos, eles não podem disputar com ele. Os perversos são expulsos em sua impiedade. Agora:

  1. O salmista espera duas coisas como bons efeitos da destruição dos pecadores:

(1.) Que os santos seriam animados e confortados por ela (v. 10): “O justo se alegrará quando vir a vingança”. A pompa e o poder, a prosperidade e o êxito dos perversos desanimam os justos: entristecem-lhes o coração, enfraquecem-lhes as mãos e às vezes os tentam fortemente a questionar os próprios fundamentos, Salmos 73:2, 13.

Mas, quando veem os juízos de Deus arrebatar os perversos e a justa vingança ser exercida por todo o dano que estes fizeram ao povo de Deus, alegram-se. Suas dúvidas recebem resposta, e sua fé na providência divina, bem como na justiça e retidão com que Deus governa o mundo, é confirmada.

Alegrar-se-ão na vitória assim obtida sobre aquela tentação ao verem o fim dos perversos, Salmos 73:17. “Lavará os pés no sangue do ímpio”; isto é, haverá grande derramamento de sangue (Salmos 68:23). Ver Deus glorificado na ruína dos pecadores será tão revigorante para os santos quanto ter seus pés lavados é para um viajante cansado.

Isso também contribuirá para a santificação deles: a visão da vingança os fará tremer diante de Deus (Salmos 119:120), os convencerá do mal do pecado e das obrigações que têm para com o Deus que defende sua causa e não permitirá que ninguém cometa injustiça contra eles sem ser punido por isso.

A alegria dos santos diante da destruição dos perversos é então uma alegria santa e justificável quando os ajuda a tornar-se santos e a purificar-se do pecado.

(2.) Que os pecadores seriam convencidos e convertidos por ela, v. 11. A vingança que Deus às vezes exerce contra os perversos neste mundo levará os homens a dizer: “Certamente há recompensa para o justo”. Qualquer pessoa pode tirar essa conclusão de tais atos da providência, e muitos o farão, embora antes negassem ou duvidassem até dessas verdades evidentes.

De alguns essa confissão será arrancada; outros terão a mente tão transformada que a reconhecerão de boa vontade e agradecerão a Deus por lhes ter concedido vê-la e vê-la com satisfação: que Deus existe, e:

[1.] Que ele é o generoso recompensador de seus santos e servos: “Certamente” (ou: “seja como for”, pois assim também se pode ler) “há fruto para o justo”. Qualquer estrago que sofra e quaisquer agruras que enfrente por sua religião, não só não sofrerá perda por isso, mas terá um ganho inexprimível no desfecho.

Até neste mundo há recompensa para o justo; eles serão recompensados na terra. Aqueles que pareciam ignorados, desprezados e abandonados serão alvo de atenção, honrados e protegidos.

[2.] Que ele é o justo governador do mundo e certamente ajustará contas com os inimigos de seu reino: “Certamente, seja como for”, ainda que os perversos prosperem e desafiem a justiça divina, ainda assim se fará evidente, para confusão deles, que o mundo não é governado pelo acaso, mas por um Ser de infinita sabedoria e justiça.

“Há um Deus que julga na terra”, embora tenha preparado seu trono nos céus. Ele preside todos os assuntos dos filhos dos homens, dirige-os e dispõe deles segundo o conselho de sua vontade e para a própria glória. Punirá os perversos não só no mundo vindouro, mas também na terra, onde acumularam seu tesouro e prometeram a si mesmos a felicidade.

Na terra, para que o Senhor seja conhecido pelos juízos que executa e para que esses juízos sejam tomados como garantias de um juízo vindouro. Ele é Deus (assim lemos), não um homem fraco, não um anjo, não um mero nome, nem, como sugerem os ateus, uma criatura do medo e da imaginação dos homens.

Não é um herói divinizado nem o sol e a lua, como imaginavam os idólatras, mas Deus, um Ser perfeito que existe por si mesmo. É ele quem julga a terra. Busquemos, portanto, seu favor, pois dele procede o julgamento de cada homem, e a ele seja remetido todo juízo.


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