Salmos 56
Argumento
Por este e por muitos outros salmos, parece que Davi, mesmo nos tempos de maior tribulação e angústia, nunca pendurou sua harpa nos salgueiros, nunca lhe retirou as cordas nem a deixou de lado. Quando seus perigos e temores eram maiores, continuava afinado para cantar louvores a Deus.
Corria perigo iminente quando compôs este salmo, ou pelo menos quando o meditou; contudo, mesmo então, era doce sua meditação sobre Deus. I. Ele se queixa da malícia de seus inimigos e pede misericórdia para si e justiça contra eles, v. 1, 2, 5-7.
II. Ele confia em Deus, certo de que Deus tomava seu partido; consola-se, portanto, com a segurança de que estava a salvo, sairia vitorioso e louvaria a Deus enquanto vivesse, v. 3, 4, 8-13.
Com que alegria um bom cristão pode, ao cantar este salmo, regozijar-se em Deus e louvá-lo tanto pelo que ele fará quanto pelo que fez!
Oração por Ajuda sob Opressão; Confiança em Deus.
Ao Músico-Mor, sobre Jonate-Elém-Recoquim. Mictão de Davi, quando os filisteus o capturaram em Gate.
Versículos 1 a 7
Neste salmo, pela fé, Davi se lança nas mãos de Deus, justamente quando, pelo seu medo e pela sua insensatez, havia se lançado nas mãos dos filisteus.
Foi quando o prenderam em Gate, para onde fugira por medo de Saul, esquecendo-se da desavença que os filisteus tinham contra ele por haver matado Golias. Mas logo o fizeram lembrar-se dela, 1 Samuel 21:10, 11.
Naquela ocasião, mudou seu comportamento, mas com tão pouca perturbação de seu ânimo que compôs então tanto este salmo quanto o Salmo 34. Este é chamado Mictão, salmo de ouro. Alguns outros salmos recebem esse título, mas este tem algo peculiar: é dedicado a Jonate-Elém-Recoquim, expressão que significa a pomba silenciosa ao longe.
Alguns aplicam isso ao próprio Davi, que desejava ter asas de pomba para voar para longe. Era inocente e inofensivo, manso e paciente como uma pomba; naquele tempo, fora expulso do ninho, do santuário (Salmos 84:3), e obrigado a vaguear longe, à procura de abrigo em países distantes.
Ali era como as pombas dos vales, lamentoso e melancólico, mas silencioso: não murmurava contra Deus nem vituperava os instrumentos de sua tribulação.
Nisso, era tipo de Cristo, que era como uma ovelha muda diante dos tosquiadores, e exemplo para os cristãos, que devem ser como pombas silenciosas onde quer que estejam e quaisquer que sejam as injúrias que sofram. Nesta primeira parte do salmo:
I. Ele se queixa a Deus da malícia e da perversidade de seus inimigos, mostrando que tinha motivos para temê-los e que havia razão e necessidade para Deus manifestar-se contra eles (v. 1): “Tem misericórdia de mim, ó Deus!”
Esse pedido inclui todo o bem que buscamos junto ao trono da graça. Se ali obtivermos misericórdia, obteremos tudo o que podemos desejar e nada mais nos faltará para sermos felizes.
Esse pedido também revela nosso melhor apelo: não nosso mérito, mas a misericórdia de Deus, sua misericórdia livre e abundante. Davi ora para encontrar misericórdia junto a Deus, pois não a encontrava entre os homens. Ao fugir das mãos cruéis de Saul, caiu nas mãos cruéis dos filisteus.
“Senhor”, diz ele, “tem misericórdia de mim agora, ou estou perdido.” Podemos fugir para a misericórdia de Deus e nela confiar; podemos, com fé, pedi-la quando estamos cercados de dificuldades e perigos por todos os lados. Ele se queixa:
- Que seus inimigos eram muito numerosos (v. 2). “São muitos os que lutam contra mim e pensam subjugar-me pelo número. Repara nisto, ó Altíssimo! E faz aparecer que, naquilo em que agem com orgulho, tu estás acima deles.”
É questão de honra socorrer um só contra muitos. E, se Deus estiver do nosso lado, por mais numerosos que sejam os que lutam contra nós, podemos nos gloriar, com bons fundamentos, de que os que estão conosco são mais numerosos; pois, como disse aquele grande general: “Por quantos homens o contamos?”
- Que eram muito bárbaros: queriam engoli-lo, v. 1 e novamente v. 2. Procuravam devorá-lo; nada menos lhes bastaria. Investiam contra ele com fúria extrema, como feras de rapina para comer-lhe a carne, Salmos 27:2.
Era um homem que queria engoli-lo, alguém de sua própria espécie, de quem poderia esperar humanidade. As feras vorazes não atacam os animais da própria espécie; contudo, um homem mau devoraria um homem bom se pudesse. São homens, fracos e frágeis; que Deus os faça reconhecer isso, Salmos 9:20.
Que estavam muito unidos (v. 6): “Eles se reúnem”. Embora fossem numerosos e tivessem interesses divergentes entre si, ainda assim se uniram e conspiraram contra Davi, como Herodes e Pilatos contra o Filho de Davi.
Que eram muito poderosos, fortes demais para ele se Deus não o ajudasse: “Lutam contra mim (v. 2); oprimem-me, v. 1. Estou quase vencido e subjugado por eles, reduzido à situação mais extrema.”
Que eram muito sutis e astutos (v. 6): “Eles se escondem; encobrem com diligência seus desígnios, para levá-los adiante e executá-los com maior eficácia. Escondem-se como um leão em sua toca, para vigiar meus passos.”
Isto é: “Observam com olhar crítico tudo o que digo e faço, para terem algo de que me acusar” (assim os inimigos de Cristo o vigiavam, Lucas 20:20); ou “ficam de olho em todos os meus movimentos, para terem ocasião de me causar dano e me prepararem suas armadilhas”.
- Que eram rancorosos e maliciosos. Interpretavam de maneira odiosa tudo o que Davi dizia, por mais honesta que fosse sua intenção e prudente sua expressão (v. 5). “Torcem minhas palavras, colocam-nas no cavalete de tortura, para extrair delas algo que nunca esteve nelas.”
Assim o tornavam culpado por uma palavra (Isaías 29:21), distorcendo-a diante de Saul e exagerando-a para enfurecê-lo ainda mais contra Davi. Faziam da ruína dele sua única ocupação; todos os seus pensamentos eram contra ele para o mal, e por isso davam interpretações malignas a todas as suas palavras.
- Que não descansavam nem se cansavam. Continuamente atentavam contra sua alma; caçavam sua vida, sua vida preciosa. Sua morte era o que desejavam, v. 6. Lutavam contra ele diariamente (v. 1), diariamente queriam engoli-lo (v. 2) e todos os dias torciam suas palavras, v. 5.
Sua malícia não admitia a menor suspensão das armas ou dos atos de hostilidade; pressionavam-no sem cessar. Assim é a inimizade de Satanás e de seus agentes contra o reino de Cristo e os interesses de sua santa religião.
Se abraçarmos esses interesses de coração, não devemos estranhar receber tratamento semelhante, como se nos acontecesse algo extraordinário. Pessoas melhores que nós foram tratadas assim. Desse modo perseguiram os profetas.
II. Ele toma ânimo em Deus e em suas promessas, poder e providência, v. 3, 4. Em meio às queixas e antes de dizer o que tem a dizer sobre os inimigos, triunfa na proteção divina.
- Resolve fazer de Deus sua confiança justamente quando os perigos eram mais ameaçadores e todas as outras fontes de confiança falhavam: “Quando eu temer, no dia do meu temor, quando eu estiver mais aterrorizado por fora e mais receoso por dentro, então confiarei em ti, e assim meus temores se calarão.”
Repare: há ocasiões que são, de modo especial, tempos de temor para o povo de Deus. Nessas ocasiões, confiar em Deus como seu Deus e saber em quem confiaram é tanto dever quanto vantagem. Isso firmará o coração e o conservará em paz.
- Resolve fazer das promessas de Deus o assunto de seus louvores; e nós temos motivo para fazê-las também assunto dos nossos (v. 4): “Em Deus louvarei não só sua obra, que ele realizou, mas também sua palavra, que falou; darei graças a ele por uma promessa, embora ainda não cumprida.”
“Em Deus, na força e com a ajuda dele, tanto me gloriarei em sua palavra quanto lhe darei a glória por ela.” Alguns entendem por sua palavra os atos de providência, cada acontecimento que Deus ordena e designa: “Quando falo bem de Deus, com ele falarei bem de tudo o que ele faz.”
- Assim amparado, desafiará todos os poderes contrários: “Depois de depositar minha confiança em Deus, estou seguro, estou tranquilo e não temerei o que a carne me possa fazer. É apenas carne e não pode fazer muito; ou melhor, nada pode fazer sem a permissão divina.”
Assim como não devemos confiar no braço de carne quando se levanta a nosso favor, tampouco devemos temê-lo quando se estende contra nós.
III. Ele prevê e anuncia a queda dos que lutavam contra ele e de todos os que pensam firmar-se em quaisquer práticas perversas e por meio delas (v. 7): “Escaparão eles pela iniquidade?”
Esperam escapar dos juízos de Deus como escapam dos homens, pela violência, pela fraude e pelas artes da injustiça e da traição; mas escaparão? Não: certamente não escaparão.
O pecado dos pecadores jamais os protegerá; nem sua insolência nem sua hipocrisia os absolverão no tribunal de Deus. Em sua ira, Deus derrubará e expulsará esse povo, Romanos 2:3.
Ninguém se eleva tão alto nem se firma com tanta segurança que a justiça de Deus não o possa derrubar, tanto de suas posições quanto de suas fontes de confiança.
Quem conhece o poder da ira de Deus, a que altura ela pode alcançar e com que força pode ferir?
Versículos 8 a 13
Consolo na Aflição; Confiança em Deus.
Davi se consola aqui com diversas coisas no dia de sua angústia e de seu temor.
I. Que Deus observava de modo particular todos os seus sofrimentos e todas as suas dores, v. 8. 1. Todas as dificuldades de sua situação: “Tu contas as minhas andanças”; “minhas mudanças de lugar”, segundo a antiga tradução.
Davi então era apenas um jovem, tinha menos de trinta anos, e já se mudara muitas vezes: da casa do pai para a corte, daí para o acampamento e agora, expulso, estava obrigado a peregrinar onde encontrasse lugar, sem permissão para descansar em parte alguma. Era caçado como uma perdiz nos montes; temores e trabalhos constantes o acompanhavam.
Consolava-o, porém, saber que Deus registrava particularmente todos os seus movimentos e contava cada passo cansado que dava, de noite ou de dia. Repare: Deus toma conhecimento de todas as aflições de seu povo e não exclui de seu cuidado e amor aqueles que os homens excluíram de sua convivência e comunhão.
- Todas as marcas que essas aflições deixaram em seu espírito. Enquanto vagava, muitas vezes chorava; por isso, ora: “Põe as minhas lágrimas no teu odre”, para que sejam guardadas e contempladas. Ou melhor: “Sei que estão em teu livro, o livro de tua lembrança.”
Deus tem um odre e um livro para as lágrimas de seu povo, tanto as derramadas pelos pecados quanto as causadas pelas aflições. Isso indica: (1.) Que ele as observa com compaixão e terno cuidado; é afligido nas aflições dos seus e conhece suas almas na adversidade.
Assim como o sangue e a morte de seus santos são preciosos aos olhos do Senhor, também são suas lágrimas; nenhuma delas cairá em terra. “Tenho visto as tuas lágrimas”, 2 Reis 20:5. “Tenho ouvido Efraim lamentar-se”, Jeremias 31:18.
(2.) Que ele se lembrará delas e as examinará, como fazemos com as contas que registramos. Paulo se lembrava das lágrimas de Timóteo (2 Timóteo 1:4), e Deus não esquecerá as tristezas de seu povo.
As lágrimas do povo perseguido de Deus são guardadas em odres e seladas entre os tesouros de Deus. Quando esses livros forem abertos, descobrir-se-á que são taças de cólera, que serão derramadas sobre seus perseguidores, de quem Deus certamente cobrará todas as lágrimas que arrancaram dos olhos do seu povo.
E serão seios de consolação para os pranteadores de Deus, cujos panos de saco se transformarão em vestes de louvor. Deus consolará seu povo na mesma medida do tempo em que os afligiu e fará colher com alegria aqueles que semearam com lágrimas. O que foi semeado como lágrima brotará como pérola.
II. Que suas orações seriam poderosas para derrotar e desbaratar seus inimigos, bem como para sustentá-lo e animá-lo (v. 9): “Quando clamar a ti, então meus inimigos retrocederão. Não preciso de outras armas além de orações e lágrimas.”
“Sei disso porque Deus está por mim, para defender minha causa, proteger-me e livrar-me. Se Deus está por mim, quem poderá estar contra mim a ponto de conseguir o intento?”
Os santos têm Deus a seu favor e podem saber disso. E devem clamar a ele quando estiverem cercados de inimigos; se o fizerem com fé, verão o poder divino agir e empenhar-se em favor deles. Seus inimigos serão obrigados a recuar, inclusive os inimigos espirituais, contra os quais melhor lutamos de joelhos, Efésios 6:18.
III. Que sua fé em Deus o colocaria acima do medo dos homens, v. 10, 11. Ele repete aqui com forte emoção o que havia dito (v. 4): “Em Deus louvarei a sua palavra; isto é, confiarei firmemente na promessa por causa daquele que a fez, verdadeiro e fiel, dotado de sabedoria, poder e bondade suficientes para cumpri-la.”
Quando damos crédito à nota promissória de alguém, honramos quem a emitiu. Do mesmo modo, quando agimos e sofremos por Deus, confiando em sua promessa sem vacilar, damos glória a Deus: louvamos sua palavra e, assim, louvamos a ele.
Depois de depositar sua confiança em Deus, Davi encara com santo desprezo o poder ameaçador dos homens: “Em Deus pus a minha confiança”, nele somente; por isso, “não temerei o que o homem me possa fazer” (v. 11), embora saiba muito bem o que ele faria se pudesse, v. 1, 2.
O apóstolo põe essa palavra triunfante, tão expressiva de santa grandeza de alma, na boca de todo verdadeiro crente, a quem apresenta como herói cristão, Hebreus 13:6.
Cada um de nós pode dizer com ousadia: “O Senhor é meu ajudador”; e então “não temerei o que o homem me possa fazer”, pois ele não tem poder algum que não lhe seja dado do alto.
IV. Que ele estava ligado a Deus por amarras (v. 12): “Os teus votos estão sobre mim, ó Deus! Não como fardo que me oprime, mas como insígnia da qual me glorio e pela qual sou reconhecido como servo de tua casa.”
“Não como correntes que me embaraçam (tais são os votos supersticiosos), mas como freio que me impede de fazer o que me prejudicaria e me orienta no caminho do dever. Teus votos estão sobre mim: os votos que te fiz, dos quais tu és não só testemunha, mas parte, e que me ordenaste e animaste a fazer.”
É provável que ele se refira especialmente aos votos feitos a Deus no dia da tribulação e da angústia. Davi conservaria a lembrança deles e reconheceria as obrigações decorrentes mesmo depois de passar o pavor.
Repare: deve ser motivo de reflexão e alegria para nós que os votos de Deus estejam sobre nós: nossos votos batismais, renovados à mesa do Senhor, e os votos ocasionais feitos sob a convicção do pecado ou sob a correção. Por meio deles, somos obrigados a viver para Deus.
V. Que ele continuamente teria cada vez mais motivos para louvar a Deus: “Render-te-ei louvores”. Isso é parte do cumprimento de seus votos; pois os votos de gratidão acompanham apropriadamente as orações por misericórdia e, quando esta é recebida, devem ser cumpridos.
Ao pensar no que retribuiremos, o mínimo que podemos decidir é render louvores a Deus: pobre retribuição por dádivas abundantes! Davi louvará a Deus por duas coisas: 1. Pelo que Deus fizera por ele (v. 13): “Tu livraste minha alma, minha vida, da morte, que estava prestes a alcançar-me.”
Se Deus nos livrou do pecado, seja de cometê-lo pela graça que se antecipa a nós, seja de sua punição pela misericórdia que perdoa, temos razão para reconhecer que, assim, livrou nossas almas da morte, que é o salário do pecado.
Se nós, que por natureza estávamos mortos em pecado, somos vivificados juntamente com Cristo e tornados espiritualmente vivos, temos razão para reconhecer que Deus livrou nossas almas da morte.
- Pelo que Deus faria por ele: “Tu livraste minha alma da morte e, assim, me deste vida nova. Desse modo, deste-me a garantia de misericórdia ulterior: livrarás meus pés de cair. Fizeste o maior e, portanto, farás o menor; começaste uma boa obra e, por isso, a levarás adiante e a aperfeiçoarás.”
Isso pode ser entendido ou como matéria de sua oração, na qual apela para sua experiência, ou como matéria de seu louvor, pela qual fortalece suas expectativas. E os que sabem louvar com fé darão graças a Deus pelas misericórdias prometidas e esperadas, assim como pelas recebidas. Veja aqui:
(1.) O que Davi espera: que Deus livre seus pés de cair, seja no pecado, que feriria sua consciência, seja na aparência de pecado, que daria ocasião a seus inimigos para ferir sua reputação.
Os que pensam estar de pé devem tomar cuidado para não cair, pois até os melhores só permanecem de pé enquanto Deus se agrada em sustentá-los.
Somos fracos; nosso caminho é escorregadio e tem muitas pedras de tropeço; nossos inimigos espirituais se empenham em nos derrubar. Por isso, precisamos entregar-nos, com fé e oração, ao cuidado daquele que guarda os pés de seus santos.
(2.) Em que ele funda essa esperança: “Livraste minha alma da morte e nisso engrandeceste teu poder e tua bondade, e me deste capacidade de receber misericórdia ulterior de ti. Agora, não protegerás e coroarás tua própria obra?”
Deus nunca fez seu povo sair do Egito para abatê-los no deserto. Aquele que, na conversão, livra a alma de uma morte tão grande quanto o pecado não deixará de preservá-la para seu reino celestial.
(3.) Seu desígnio nessas esperanças: “Para que eu ande diante de Deus na luz dos viventes”. Isto é: [1.] “Para que eu chegue ao céu, a única terra de luz e vida; pois neste mundo reinam as trevas e a morte.” [2.] “Para que eu cumpra meu dever enquanto durar esta vida.”
Repare: em todos os nossos desejos e expectativas de libertação tanto do pecado quanto da tribulação, devemos ter em vista servir a Deus tanto melhor, de modo que, livres das mãos de nossos inimigos, possamos servi-lo sem temor.