Matthew Henry

Salmos 55

Argumento

Muitos expositores supõem que Davi escreveu este salmo por ocasião da rebelião de Absalão e que o inimigo específico de quem fala, aquele que o tratou traiçoeiramente, era Aitofel.

Por isso, alguns consideram as tribulações de Davi aqui um tipo dos sofrimentos de Cristo e a traição de Aitofel uma figura da traição de Judas, porque ambos se enforcaram. Mas nada neste salmo é aplicado especificamente a Cristo no Novo Testamento.

Davi estava em grande aflição quando o escreveu. I. Ora para que Deus manifeste seu favor a ele, apresentando sua própria tristeza e seu temor, vv. 1-8.

II. Ora para que Deus manifeste seu desagrado contra seus inimigos, apontando a grande perversidade e traição deles, vv. 9-15 e, novamente, v. 20, 21.

III. Tem certeza de que Deus, no devido tempo, agirá em seu favor contra seus inimigos; consola-se com essa esperança e anima outros a confiar em Deus, vv. 16-19 e, novamente, v. 22, 23.

Ao cantar este salmo, podemos aplicá-lo às nossas próprias tribulações, se for o caso. Se não, podemos solidarizar-nos com aqueles cuja situação se aproxima mais da descrita aqui, prevendo que, ao fim, haverá indignação e cólera para os perseguidores, salvação e alegria para os perseguidos.

Súplicas de Davi em Meio à Aflição.

Versículos 1 a 8

Ao Músico-Mor, sobre Neginote, Masquil. Salmo de Davi.

Nestes versículos temos:

I. Davi orando. A oração é bálsamo para toda ferida e alívio para o espírito sob qualquer fardo: “Ó Deus, dá ouvidos à minha oração!” v. 1, 2.

Ele não registra as petições que dirigiu a Deus em sua aflição, mas pede que Deus ouça as orações que seu coração lhe elevava a cada momento e lhes dê uma resposta de paz: “Atende-me, ouve-me”.

Saul não quis ouvir suas petições; os outros inimigos não davam atenção a seus apelos. Mas ele suplica: “Senhor, dispõe-te a ouvir-me. Não te escondas da minha súplica, quer como alguém indiferente, que não lhe dá importância nem parece notá-la, quer como alguém descontente, irado comigo e, por isso, com minha oração”.

Se, em nossas orações, abrirmos sinceramente diante de Deus nossa pessoa, nossa situação e nosso coração, temos razão para esperar que ele não esconda de nós a si mesmo, seus favores e suas consolações.

II. Davi chorando, pois nisto ele era um tipo de Cristo: era homem de dores e muitas vezes chorava (v. 2): “Lamento-me em minha queixa” (ou em minha meditação, meus pensamentos melancólicos) “e faço ruído; não consigo conter suspiros, gemidos e outras expressões de dor que a revelam aos que estão ao meu redor”.

Às vezes, as grandes dores são ruidosas e clamantes e, assim, diminuem em alguma medida, enquanto aumentam as que são abafadas e não encontram saída. Mas qual era a causa? v. 3.

Era por causa da voz do inimigo, das ameaças e insultos do grupo de Absalão, que se inflamava, intimidava e agitava o povo para clamar contra Davi e expulsá-lo aos gritos de seu palácio e da capital.

Da mesma forma, depois, os principais sacerdotes incitaram a multidão a clamar contra o Filho de Davi: “Fora com ele! Crucificai-o!” Contudo, não foi só a voz do inimigo que arrancou lágrimas dos olhos de Davi, mas a opressão deles e as agruras a que ela o submeteu: “Lançam iniquidade sobre mim”.

Não podiam acusar Davi com justiça de má administração em seu governo nem provar qualquer ato de opressão ou injustiça de sua parte, mas o carregavam de calúnias.

Embora não encontrassem nele iniquidade quanto ao seu encargo de rei, ainda assim lançavam sobre ele toda espécie de iniquidade e o apresentavam ao povo como um tirano que merecia ser expulso. Nem mesmo a inocência protege contra línguas violentas e mentirosas.

Eles próprios o odiavam; ou melhor, odiavam-no com cólera. Sua inimizade continha tanto o calor e a violência da ira, ou da paixão repentina, quanto a implacabilidade do ódio e da malícia arraigada. Por isso, procuravam torná-lo odioso para que outros também o odiassem.

Isso o fazia lamentar, ainda mais porque podia lembrar o tempo em que era o querido do povo e correspondia ao próprio nome, Davi, “amado”.

III. Davi tremendo e em grande consternação. Bem podemos supor que assim estivesse quando veio à tona a conspiração de Absalão e o povo desertou em massa, inclusive pessoas de quem ele pouco tinha a desconfiar.

  1. Veja que temor o dominou. Davi era muito ousado e dera provas notáveis de coragem em certas ocasiões. Mesmo assim, quando o perigo surgiu de surpresa e estava próximo, seu coração desfaleceu.

Portanto, o corajoso não deve gloriar-se de sua coragem, assim como o forte não deve gloriar-se de sua força. Agora o coração de Davi está profundamente angustiado dentro dele; os terrores da morte caíram sobre ele, v. 4.

O medo na mente e o tremor no corpo o atingiram, e o horror o cobriu e dominou, v. 5. Quando há lutas por fora, não admira que haja temores por dentro.

Se isso ocorreu por ocasião da rebelião de Absalão, podemos supor que a lembrança de seu pecado no caso de Urias, pelo qual Deus agora lhe exigia contas, aumentou outro tanto seu pavor.

Às vezes, a fé de Davi o tornava, por assim dizer, destemido, e ele podia afirmar com ousadia, cercado de inimigos: “Não temerei o que o homem me pode fazer”. Em outras ocasiões, porém, seus temores prevaleciam e o tiranizavam, pois nem mesmo os melhores homens são sempre igualmente fortes na fé.

  1. Veja quanto desejava, nesse susto, retirar-se para um deserto, para qualquer lugar longe o bastante de ouvir a voz do inimigo e ver suas opressões. Ele disse (v. 6), disse a Deus em oração, disse a si mesmo em meditação, disse aos amigos em queixa: “Ah, quem me dera asas como as de uma pomba!”

Por mais que em outros tempos amasse Jerusalém, agora, transformada em cidade rebelde, desejava livrar-se dela. Como o profeta, queria ter no deserto uma pousada de viajantes, para deixar seu povo e partir, pois eram uma reunião de traidores, Jeremias 9:2.

Isso combina muito bem com a decisão de Davi quando a conspiração veio à tona: “Levantai-vos, fujamos e apressai-vos a partir”, 2 Samuel 15:14. Observe:

(1.) Como ele escaparia. Estava tão cercado de inimigos que não via como escapar senão pelo ar; por isso, desejava: “Ah, quem me dera asas!” Não asas de falcão, que voa depressa. Desejava asas não para voar sobre a presa, mas para fugir das aves de rapina, como eram seus inimigos.

As asas de pomba eram mais apropriadas para alguém de espírito semelhante ao de uma pomba; por isso, asas de águia não lhe caberiam. A pomba voa baixo e procura abrigo assim que pode; era assim que Davi desejava voar.

(2.) Do que escaparia: do vento, da tormenta e da tempestade, do tumulto e da agitação em que a cidade se encontrava e do perigo ao qual ele estava exposto. Nisso se parecia com a pomba, que não suporta o barulho.

(3.) O que buscava ao escapar: não a vitória, mas o descanso. “Eu voaria para longe e descansaria, v. 6. Voaria para qualquer lugar, mesmo um deserto estéril e assustador, por mais distante que fosse, desde que pudesse estar em paz”, v. 7.

Repare: paz e tranquilidade no silêncio e na solidão são aquilo que os mais sábios e melhores homens mais intensamente desejaram, ainda mais quando foram importunados e esgotados pelo barulho e clamor das pessoas ao seu redor.

As almas alcançadas pela graça desejam retirar-se da agitação e do tumulto deste mundo para desfrutar docemente de Deus e de si mesmas. E, se existe alguma verdadeira paz aquém do céu, são elas que a desfrutam nesses retiros.

Isso torna a morte desejável para um filho de Deus: é a fuga definitiva de todas as tormentas e tempestades deste mundo para o descanso perfeito e eterno.

Versículos 9 a 15

Imprecações Proféticas.

Davi se queixa aqui de seus inimigos, cujas tramas perversas o haviam levado, embora não ao fim de sua fé, ainda assim ao limite de sua capacidade de encontrar uma saída. Contra eles, ora pelo espírito de profecia. Observe aqui:

I. O caráter que atribui aos inimigos que temia. Eram da pior espécie de homens, e sua descrição deles combina muito bem com Absalão e seus cúmplices:

  1. Queixa-se da cidade de Jerusalém, que estranhamente se uniu a Absalão e abandonou Davi. Ali não restou ninguém em quem pudesse confiar, além de seus próprios guardas e servos: como se tornou prostituta a cidade fiel!

Davi não aceitou de outros essa descrição da cidade; ele mesmo, com os próprios olhos e o coração entristecido, viu apenas violência e contenda nela (v. 9). Quando seus habitantes se tornaram desafetos e desleais a Davi, passaram também a prejudicar uns aos outros.

Se percorresse as muralhas da cidade, veria que a violência e a contenda a rondavam de dia e de noite e ocupavam seus postos de guarda, v. 10. Todos os recursos e métodos usados pelos rebeldes para fortificar a cidade se baseavam em violência e contenda; já não havia entre eles vestígio de honestidade ou amor.

Se olhasse para o coração da cidade, veria em seu meio dano e injúria, injustiça e vexação mútuas: a perversidade, toda espécie de perversidade, está em seu interior. Jusque datum sceleri — A perversidade foi legalizada.

O engano, a fraude e toda espécie de traição não se afastavam de suas ruas, v. 11. Isso pode se referir ao tratamento vil e bárbaro que davam aos amigos de Davi e àqueles que sabiam ser-lhe leais e fiéis: faziam-lhes todo o dano possível, por fraude ou pela força.

Seria esse o caráter de Jerusalém, a cidade real e, mais que isso, a cidade santa, ainda nos dias de Davi, tão pouco depois de nela serem estabelecidos tanto os tronos de juízo quanto o testemunho de Israel? Seria essa a cidade que os homens chamam de perfeição da formosura? Lamentações 2:15.

Jerusalém, centro dos sacerdotes de Deus, teria sido tão mal instruída? Poderia ser ingrata com o próprio Davi, seu ilustre fundador, e tornar-se tão hostil a ele que já não pudesse morar nela?

Não nos surpreendamos com as corrupções e desordens desta igreja na terra. Antes, ansiemos por ver a Nova Jerusalém, onde não há violência nem contenda, dano nem culpa, e onde não entrará coisa alguma impura ou perturbadora.

  1. Queixa-se de um dos líderes da conspiração, que se empenhara em alimentar suspeitas, apresentar Davi e seu governo sob falsa luz e inflamar a cidade contra ele.

Era alguém que o desacreditava, como se Davi ou abusasse do poder ou negligenciasse seu exercício; era essa a insinuação maliciosa de Absalão: “Não há homem designado pelo rei para te ouvir”, 2 Samuel 15:3.

Essa e outras acusações semelhantes foram espalhadas diligentemente entre o povo. E quem mais se empenhava nisso?

“Não um inimigo declarado, nem Simei, nem qualquer dos que se recusavam a jurar lealdade; nesse caso, eu o teria suportado, pois não esperaria deles coisa melhor” (e sabemos quão pacientemente Davi suportou as maldições de Simei).

“Não alguém que professasse odiar-me; então eu teria ficado alerta, escondendo dele a mim mesmo e meus planos, de modo que não pudesse trair-me. Mas eras tu, um homem igual a mim”, v. 13.

A paráfrase caldaica identifica Aitofel como essa pessoa. Nada naquela trama parece ter desanimado Davi tanto quanto saber que Aitofel estava entre os conspiradores com Absalão (2 Samuel 15:31), pois era conselheiro do rei, 1 Crônicas 27:33.

“Eras tu, um homem igual a mim, a quem eu estimava como a mim mesmo, amigo como minha própria alma, a quem acolhi junto ao peito e tratei como igual, a quem contei todos os meus segredos e que conhecia meus pensamentos tão bem quanto eu próprio.”

“Eras meu guia, com quem me aconselhava e por quem me orientava em todos os meus assuntos, a quem fiz presidente do conselho e primeiro-ministro de Estado; eras meu conhecido íntimo e amigo chegado. É esse homem que agora me maltrata.”

“Fui bondoso com ele, mas vejo que é tão vilmente ingrato. Depositei confiança nele, mas vejo que é tão vilmente traiçoeiro. Ou melhor, ele não teria podido causar-me nem metade do dano que causa se eu não lhe tivesse mostrado tanto respeito.”

Tudo isso necessariamente afligiria muito uma pessoa de espírito franco. Mas ainda não era tudo: esse traidor parecera um santo; de outro modo, jamais teria sido amigo íntimo de Davi (v. 14).

“Trocávamos conselhos, passávamos muitas horas juntos, com grande prazer, tratando de assuntos religiosos.” Ou, segundo a leitura do Dr. Hammond: “Uníamo-nos à congregação. Estendi-lhe a mão direita de comunhão nas santas ordenanças; depois, íamos juntos à casa de Deus para participar do culto público.”

Repare: (1.) Sempre houve e sempre haverá na igreja visível uma mistura de bons e maus, de sinceros e insinceros. Talvez por muito tempo não consigamos discernir a diferença entre eles, mas aquele que sonda os corações consegue.

Davi, que ia à casa de Deus com sinceridade, tinha em sua companhia Aitofel, que ia com hipocrisia. O fariseu e o publicano foram juntos ao templo para orar; mas, cedo ou tarde, serão revelados os que são íntegros e os que não são.

(2.) O cálculo carnal pode levar os homens muito longe e por muito tempo na profissão de religião, enquanto ela estiver em voga e lhes for útil. Na corte do piedoso Davi, ninguém era mais devoto que Aitofel; ainda assim, seu coração não era reto diante de Deus.

(3.) Não devemos admirar-nos se formos dolorosamente enganados por alguns que fizeram grandes alegações acerca dessas duas coisas sagradas: religião e amizade. O próprio Davi, embora muito sábio, foi assim iludido; isso pode tornar decepções semelhantes mais suportáveis para nós.

II. Suas orações contra eles. Devemos tanto tratá-las com reverência quanto encontrar nelas consolo, como profecias; não devemos, porém, copiá-las em nossas orações contra nenhum inimigo particular nosso. Ele ora:

  1. Para que Deus os disperse, como fez com os construtores de Babel (v. 9): “Destrói, Senhor, e divide suas línguas; isto é, frustra seus planos, fazendo-os discordar e entrar em conflito uns com os outros.”

“Envia entre eles um espírito mau, para que não se entendam, mas se tornem invejosos e desconfiados uns dos outros.” Essa oração foi atendida quando o conselho de Aitofel se tornou loucura, porque o conselho de Husai foi contraposto ao dele.

Deus muitas vezes destrói os inimigos da igreja dividindo-os. Tampouco há caminho mais seguro para a destruição de um povo que a divisão entre seus membros. Um reino, um interesse, dividido contra si mesmo não pode permanecer por muito tempo.

  1. Para que Deus os destrua, como fez com Datã, Abirão e seus associados, que conspiraram contra Moisés. A garganta deles era um sepulcro aberto; por isso, a terra se abriu e os engoliu. Naquela ocasião, foi algo novo que Deus realizou, Números 16:30.

Mas Davi ora para que se repita agora aquilo, ou algo equivalente (v. 15): “Que a morte se apodere deles por ordem divina, e que desçam depressa ao inferno; que morram, sejam sepultados e, assim, totalmente destruídos num instante, pois há perversidade onde quer que estejam, no meio deles.”

As almas dos pecadores impenitentes descem vivas, ou seja, ainda com vida, ao inferno. Têm plena consciência de suas misérias e, por isso, continuarão vivas para continuar miseráveis.

Essa oração é uma profecia da ruína completa, final e eterna de todos os que, secreta ou abertamente, se opõem ao Messias do Senhor e se rebelam contra ele.

Versículos 16 a 23

Confiança em Deus.

Nestes versículos:

I. Davi persevera na decisão de invocar a Deus, certo de que não o buscará em vão (v. 16): “Quanto a mim, que eles adotem os meios que quiserem para se proteger; que a violência e a contenda sejam seus guardas. A oração será minha guarda; nela encontrei consolo e, por isso, a ela me apegarei. Invocarei a Deus, me entregarei a ele, e o Senhor me salvará.”

Pois todo aquele que invocar corretamente o nome do Senhor será salvo, Romanos 10:13. Davi decide cumprir esse dever tanto com fervor quanto com frequência.

  1. Orará com fervor: “Orarei e clamarei em voz alta. Meditarei” (é isso que significa a palavra anterior); “falarei com meu próprio coração, e dele brotará a oração”.

Oramos corretamente quando oramos com todo o nosso interior, primeiro pensando e depois transformando nossos pensamentos em oração, pois a verdadeira natureza da oração é elevar o coração a Deus.

Depois de meditar, ele clamará, clamará em voz alta. O fervor de seu espírito na oração será expresso e ainda mais estimulado pela força e intensidade de sua voz.

  1. Orará com frequência, todos os dias e três vezes ao dia: ao entardecer, pela manhã e ao meio-dia. É provável que essa fosse sua prática habitual, e ele resolve mantê-la agora que está em aflição.

Podemos aproximar-nos com mais ousadia do trono da graça na hora da aflição quando não é então que procuramos conhecer a Deus pela primeira vez, mas já temos esse hábito, e a aflição encontra em movimento as rodas da oração.

Os que consideram três refeições diárias o mínimo suficiente para o corpo deveriam, com muito mais razão, considerar três orações solenes por dia o mínimo suficiente para a alma e tê-las por prazer, não por obrigação.

Assim como convém começar o dia com Deus pela manhã e encerrá-lo com ele ao entardecer, convém também retirar-nos por algum tempo no meio do dia para ter comunhão com ele.

Daniel costumava orar três vezes ao dia (Daniel 6:10), e o meio-dia era uma das horas de oração de Pedro, Atos 10:9. Não nos cansemos de orar com frequência, pois Deus não se cansa de ouvir: “Ele ouvirá minha voz e não me censurará por procurá-lo tantas vezes; quanto mais, melhor e mais bem-vindo”.

II. Davi tem certeza de que Deus, no devido tempo, dará uma resposta de paz às suas orações.

  1. Que ele próprio seria liberto, e seus temores, afastados. A fé agora silenciava aqueles temores que tanto o haviam perturbado (v. 4, 5), e ele começa a alegrar-se na esperança (v. 18): Deus livrou minha alma em paz, isto é, ele a livrará. Davi está tão certo do livramento como se já tivesse acontecido.

Seus inimigos estavam em guerra contra ele, e a batalha era travada contra ele; mas Deus o livrou em paz, isto é, tirou-o dali com tanto consolo como se nunca tivesse corrido perigo.

Se Deus não lhe deu livramento com vitória, ainda assim deu-o em paz, a paz interior. Livrou sua alma em paz; pela paciência e pela santa alegria em Deus, Davi conservou a posse de sua alma.

Estão seguros e tranquilos aqueles cujo coração e cuja mente são guardados pela paz de Deus, que excede todo entendimento, Filipenses 4:7.

Em seu susto, Davi pensava que todos estivessem contra ele; agora, porém, vê que muitos estavam com ele, mais do que imaginava. Sua causa revelou ter mais apoio do que esperava, e ele dá a Deus a glória por isso: é Deus quem nos concede amigos quando precisamos e os torna fiéis a nós.

Muitos estavam com ele. Embora seus súditos o tivessem abandonado e passado para o lado de Absalão, ainda assim Deus e os bons anjos permaneciam com ele.

Com os olhos da fé, Davi agora se vê cercado, como Eliseu, por carros e cavalos de fogo. Por isso, triunfa dizendo que muitos estão com ele, mais a seu favor do que contra ele, 2 Reis 6:16, 17.

  1. Que seus inimigos teriam de prestar contas e seriam derrubados. Haviam-no assustado com suas ameaças (v. 3); aqui, porém, ele diz o bastante para assustá-los e fazê-los tremer com mais razão e sem remédio, pois, ao contrário de Davi, não podiam aliviar seus temores pela fé em Deus.

(1.) Davi descreve seu caráter como razão para esperar que Deus os derrube.

[1.] São ímpios e profanos; não reverenciam a Deus nem temem sua autoridade ou cólera (v. 19): “Como não passam por mudanças — nenhuma aflição, nenhuma interrupção no curso contínuo de sua prosperidade, nenhuma contrariedade que os despeje de um vaso a outro —, não temem a Deus.”

“Vivem constantemente desprezando e negligenciando a Deus e a religião. Essa é a causa de todas as suas outras perversidades e a marca certa de que estão destinados à destruição.”

[2.] São traiçoeiros e falsos; nem os compromissos mais sagrados e solenes os contêm (v. 20): “Estendeu a mão contra os que estavam em paz com ele, que nunca o provocaram nem lhe deram motivo para desavença com eles; ou melhor, ele lhes dera todo ânimo possível para esperar bondade de sua parte.”

“Estendeu a mão contra aqueles a quem havia dado a mão e rompeu sua aliança tanto com Deus quanto com os homens, violando traiçoeiramente o compromisso com ambos.” Nada prepara mais os homens para a ruína.

[3.] São vis e hipócritas: alegam amizade enquanto têm o desígnio de causar dano (v. 21).

“As palavras de sua boca” (Davi provavelmente se refere em especial a Aitofel) “eram mais suaves que a manteiga e mais brandas que o azeite. Tão cortês e atencioso ele era, tão generoso nas declarações de respeito e bondade e nas ofertas de serviço!”

“Entretanto, ao mesmo tempo, havia guerra em seu coração. Toda aquela cortesia não passava de estratégia de guerra, e as próprias palavras tinham em si um desígnio tão danoso que eram como espadas desembainhadas, destinadas a apunhalar.”

Sorriem no rosto de alguém e, ao mesmo tempo, cortam-lhe a garganta, como Joabe, que beijou e matou. Satanás é inimigo assim: com lisonjas, conduz os homens à ruína. Quando ele fala com doçura, não acredite nele.

(2.) Davi prediz a ruína deles.

[1.] Deus os afligirá, os levará a situações de aperto e temor e retribuirá tribulação aos que atribularam seu povo. Fará isso em resposta às orações do seu povo: “Deus ouvirá e os afligirá”, ouvirá os clamores dos oprimidos e falará com terror aos seus opressores.

Ele é aquele que permanece desde os tempos antigos, Deus desde a eternidade, pelos séculos sem fim; desde o começo do tempo, está assentado como Juiz e sempre preside os assuntos dos filhos dos homens.

Os mortais, por mais elevados e fortes que sejam, serão facilmente esmagados por um Deus eterno e não são adversários à sua altura. Os santos se consolaram com essa verdade diante do poder ameaçador dos inimigos da igreja (Habacuque 1:12): “Não és tu desde a eternidade, ó Senhor?”

[2.] Deus os fará descer não só ao pó, mas à cova da destruição (v. 23), ao abismo sem fundo, chamado destruição, Jó 26:6.

Ele os afligiu (v. 19) para ver se isso os humilharia e corrigiria; como a aflição não produziu esse efeito, por fim os levará à ruína. Os que não são corrigidos pela vara da aflição certamente descerão à cova da destruição.

São homens sanguinários e fraudulentos, isto é, a pior espécie de homens; por isso, não viverão metade de seus dias: nem metade do tempo habitual, nem do que poderiam viver segundo o curso natural, nem do que eles próprios esperavam viver.

Viverão tanto quanto o Senhor da vida, o justo Juiz, determinou, pois o número de nossos meses está com ele. Deus, porém, decidiu cortá-los por morte prematura, no meio de seus dias.

Eram sanguinários e tiraram a vida de outros; portanto, Deus, com justiça, lhes tirará a vida. Eram fraudulentos e talvez tenham privado outros de metade do que lhes cabia. Agora Deus lhes reduzirá os dias, não os privando do que lhes era devido, mas do que contavam desfrutar.

III. Davi anima a si mesmo e a todos os piedosos a entregar-se a Deus e confiar nele.

Ele próprio decide fazê-lo (v. 23): “Confiarei em ti, em tua providência, teu poder e tua misericórdia, não em minha própria prudência, força ou mérito. Quando os homens sanguinários e fraudulentos forem cortados no meio de seus dias, continuarei vivendo pela fé em ti.”

Também quer que os outros façam o mesmo (v. 22): “Lança sobre o Senhor teu fardo”, quem quer que você seja, carregado de um fardo, e qualquer que seja o fardo.

“Lança sobre o Senhor tua dádiva” (assim leem alguns): “Todas as bênçãos que Deus te concedeu para desfrutar, entrega-as à sua guarda; em particular, entrega-lhe o cuidado de tua alma.”

Ou: “Tudo o que desejas receber de Deus, deixa que ele te conceda a seu modo e no seu tempo. Lança sobre o Senhor tua preocupação”. É assim que lê a Septuaginta, à qual o apóstolo se refere, 1 Pedro 5:7.

A preocupação é um fardo; faz o coração abater-se (Provérbios 12:25). Devemos lançá-la sobre Deus mediante a fé e a oração, entregar-lhe nosso caminho e nossas obras. Que ele faça o que lhe parecer bom, e ficaremos satisfeitos.

Lançar nosso fardo sobre Deus é apoiar-nos em sua providência e promessa e ficar muito tranquilos na certeza de que tudo cooperará para o bem. Se fizermos isso, temos a promessa:

  1. Que ele nos sustentará, dando-nos tanto amparo quanto provisão. Ele próprio nos carregará nos braços de seu poder, como a ama carrega a criança de peito, e fortalecerá nossos espíritos de tal modo pelo seu Espírito que eles suportarão a enfermidade.

Ele não prometeu livrar-nos imediatamente da aflição que provoca nossas preocupações e temores, mas providenciará para que não sejamos tentados além de nossas forças e sejamos capacitados conforme a tentação que enfrentarmos.

  1. Que jamais permitirá que o justo seja abalado a ponto de, por quaisquer tribulações, abandonar seu dever para com Deus ou o consolo que encontra nele.

Seja como for, não permitirá que seja abalado para sempre (segundo a leitura de alguns). Ainda que caia, não será lançado por terra completamente.


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