Matthew Henry

Salmos 52

Argumento

Davi certamente sentia dor muito grande quando disse a Abiatar (1 Samuel 22:22): “Eu causei a morte de todas as pessoas da casa de teu pai”. Elas foram mortas por causa da denúncia maliciosa de Doegue.

Para dar algum desabafo àquela dor e encontrar algum alívio para sua mente sob seu peso, escreveu este salmo. Nele, como profeta, e portanto com autoridade tão legítima quanto teria se já fosse um príncipe sentado no trono:

I. Apresenta acusação formal contra Doegue pelo que fez, v. 1. II. Acusa-o, declara-o culpado e agrava seus crimes, vv. 2-4. III. Profere sentença contra ele, v. 5.

IV. Prediz o triunfo dos justos na execução da sentença, v. 6, 7. V. Consola-se na misericórdia de Deus e na certeza que tinha de ainda vir a louvá-lo, v. 8, 9.

Ao cantar este salmo, devemos conceber aversão ao pecado da mentira, prever a ruína dos que nele persistem e alegrar-nos com a certeza de que a igreja e o povo de Deus serão preservados, apesar de todos os desígnios maliciosos dos filhos de Satanás, o pai da mentira.

A Perversidade de Doegue.

Ao Músico-Mor, Masquil. Salmo de Davi, quando Doegue, o edomita, veio e contou a Saul, dizendo-lhe: “Davi chegou à casa de Aimeleque.”

Versículos 1 a 5

O título relata brevemente a história a que o salmo se refere. Davi enfim viu que precisava deixar a corte e buscar sua própria segurança, por medo de Saul, que tentara matá-lo mais de uma vez. Sem armas nem provisões, valeu-se de um ardil para obter ambas do sacerdote Aimeleque.

Doegue, um edomita, estava ali por acaso. Ele foi denunciar Aimeleque a Saul, apresentando-o como cúmplice de um traidor. Com base nessa acusação, Saul expediu uma ordem muito sangrenta para matar todos os sacerdotes; e Doegue, o acusador, foi o executor, 1 Samuel 22:9, etc. Nestes versículos:

I. Davi discute a causa com justiça diante desse homem orgulhoso e poderoso, v. 1. Doegue provavelmente tinha grande força física; mas, se tinha, não conquistou nenhuma honra com sua fácil vitória sobre os sacerdotes do Senhor, que estavam desarmados. Não há honra para quem usa espada em intimidar quem usa éfode.

De qualquer forma, era um homem poderoso por causa do cargo que ocupava: fora posto sobre os servos de Saul como camareiro da casa real. Esse homem se gloriava não só do poder que tinha para causar dano, mas também do dano que causava.

Repare: praticar o mal é ruim, mas é ainda pior vangloriar-se e gloriar-se dele depois de praticá-lo. Os perversos não apenas deixam de se envergonhar de um ato mau, mas o justificam; não apenas o justificam, mas o engrandecem e fazem dele motivo de orgulho.

Os que se gloriam de seu pecado se gloriam de sua vergonha, que assim se torna ainda maior. Homens poderosos muitas vezes são homens danosos e se vangloriam do desejo de seu coração, Salmos 10:3.

Não é certo como se encaixam as palavras seguintes: “A bondade de Deus dura continuamente”. Alguns as entendem como resposta do perverso à pergunta anterior. A paciência e a tolerância de Deus, grandes provas de sua bondade, são abusadas pelos pecadores para endurecer o coração em seus caminhos perversos.

Como a sentença contra suas obras más não é executada prontamente e, mais que isso, como Deus continua a fazer-lhes o bem, gloriam-se no dano que causam, como se sua prosperidade na perversidade provasse que ela não causa prejuízo algum.

É melhor, porém, entender essas palavras antes como razão contra ele, para mostrar: 1. O caráter pecaminoso de seu pecado: “Deus faz o bem continuamente, e os que se parecem com ele nisso têm motivo para gloriar-se de ser assim. Mas você causa dano continuamente; nisso é inteiramente diferente dele e se opõe a ele, e ainda se gloria de ser assim.”

  1. Sua insensatez: “Você pensa que, com o dano de que se gaba, maquinado com tanta astúcia e realizado com tanto êxito, poderá subjugar e arruinar o povo de Deus. Mas descobrirá que está enganado: a bondade de Deus dura continuamente para preservá-los, e então eles não precisam temer o que o homem lhes possa fazer.”

Os inimigos se vangloriam em vão do dano que causam enquanto temos a misericórdia de Deus da qual nos gloriar.

II. Ele formula contra Doegue uma acusação grave no tribunal do céu, como este formulara uma acusação grave contra Aimeleque na corte de Saul, vv. 2-4.

Acusa-o da perversidade de sua língua, esse mal indomável, cheio de veneno mortal, e da perversidade de seu coração, da qual a língua dava prova. Imputa-lhe quatro coisas:

  1. Malícia. Sua língua causa dano não apenas ferindo como uma agulha, mas cortando como uma navalha afiada. Palavras de zombaria e escárnio não o satisfaziam; ele amava palavras devoradoras, capazes de arruinar os sacerdotes do Senhor, a quem odiava.

  2. Falsidade. Foi com uma língua enganosa que ele causou esse dano (v. 4). Amava a mentira (v. 3), e essa navalha afiada operava com engano (v. 2). Isso significa que, antes de ter a oportunidade de revelar sua malícia contra os sacerdotes, tratava-os de maneira muito plausível.

Embora fosse edomita, frequentava os altares, trazia suas ofertas e mostrava respeito pelos sacerdotes com tanto decoro quanto qualquer israelita. Nisso, constrangia a si mesmo, pois estava retido diante do Senhor; mas assim ganhou a oportunidade de lhes causar dano ainda maior.

Ou isso pode referir-se à própria denúncia que fez contra Aimeleque. Os fatos eram, em essência, verdadeiros, mas foram apresentados de modo distorcido e revestidos de falsas aparências. Por isso, podia-se dizer com razão que ele amava a mentira e tinha língua enganosa.

Contou a verdade, mas não toda a verdade, como uma testemunha deveria fazer. Se tivesse contado que Davi levara Aimeleque a crer que cumpria uma missão de Saul, a bondade que o sacerdote lhe mostrou não teria parecido traição contra Saul, mas demonstração de respeito a ele.

Não nos livrará da culpa de mentir poder dizer “Havia alguma verdade no que dissemos”, se a distorcemos e fazemos com que pareça diferente do que era.

  1. Astúcia no pecado: “Tua língua maquina danos”; isto é, fala do dano que seu coração maquina. Quanto mais artifício e maquinação há em qualquer perversidade, mais há nela do diabo.

  2. Afeição pelo pecado: “Tu amas o mal mais que o bem”; isto é, ama o mal e não tem amor algum pelo que é bom. Tem prazer em mentir e não se preocupa em fazer o que é certo. Preferiria agradar a Saul contando uma mentira a agradar a Deus dizendo a verdade.

São do espírito de Doegue os que, em vez de se alegrarem, como todos deveríamos, com a oportunidade de fazer o bem a alguém em relação ao corpo, aos bens ou à boa fama, ficam contentes ao encontrar uma boa ocasião para lhe causar dano e aproveitam prontamente tal oportunidade. Isso é amar o mal mais que o bem.

É ruim proferir palavras devoradoras; pior ainda é amá-las, seja nos outros, seja em nós mesmos.

III. Ele lê a condenação de Doegue e anuncia contra ele os juízos de Deus por sua perversidade (v. 5): “Você destruiu os sacerdotes do Senhor e os eliminou; por isso, Deus também o destruirá para sempre.”

Os filhos da perdição que destroem se tornarão filhos da perdição destruídos, como Judas e o homem do pecado. Os destruidores serão destruídos.

Em especial, os que odeiam, perseguem e destroem os sacerdotes do Senhor, seus ministros e seu povo, feito para nosso Deus sacerdotes, sacerdócio real, serão arrebatados por uma destruição rápida e eterna.

Doegue é aqui condenado: 1. A ser expulso da igreja: “Ele te arrancará do tabernáculo”, não de sua morada, mas da morada de Deus, conforme a interpretação mais provável. “Você será privado do favor e da presença de Deus, e de toda comunhão com ele; não receberá benefício algum do oráculo nem das ofertas.”

Com justiça era privado de todos os privilégios da casa de Deus aquele que causara tanto dano aos servos dele. Às vezes, Doegue ia ao tabernáculo de Deus e frequentava seus átrios, mas estava retido ali; cansava-se do serviço divino e buscava oportunidade de difamar a família de Deus.

Era, portanto, muito justo que fosse retirado e arrancado dali. Nós também proibiríamos a entrada em nossa casa de quem nos tratasse assim. Repare: perdemos os benefícios das ordenanças quando fazemos mau uso delas.

  1. A ser expulso do mundo: “Ele te desarraigará da terra dos vivos, onde pensavas estar tão profundamente enraizado.” Quando os homens bons morrem, são transplantados da terra dos vivos aqui na terra, o viveiro das plantas de justiça, para a terra dos vivos no céu, o jardim do Senhor, onde criarão raízes para sempre.

Mas, quando os perversos morrem, são arrancados da terra dos vivos para perecerem eternamente, como combustível para o fogo da cólera divina. Essa será a parte dos que contendem com Deus.

Versículos 6 a 9

Predita a Ruína de Doegue.

Davi estava então em grande angústia; o dano que Doegue lhe causara era apenas o começo de suas tristezas. Apesar disso, aqui o vemos triunfar, o que é mais do que alegrar-se na tribulação. O bendito Paulo, em meio às suas perturbações, está em meio aos seus triunfos, 2 Coríntios 2:14. Davi triunfa aqui:

I. Na queda de Doegue. Para que isso não pareça vingança pessoal, porém, não fala da queda como ato seu, mas com as palavras de outras pessoas justas. Elas observarão os juízos de Deus sobre Doegue e falarão a respeito deles:

  1. Para a glória de Deus: “Verão e temerão” (v. 6); isto é, reverenciarão a justiça de Deus e ficarão admiradas e temerosas diante dele como Deus de poder onipotente. O pecador mais orgulhoso não consegue permanecer de pé diante dele; portanto, cada um de nós deve humilhar-se diante de Deus.

Repare: os juízos de Deus sobre os perversos devem encher os justos de temor e fazê-los recear ofender a Deus e incorrer em seu desagrado, Salmos 119:120; Apocalipse 15:3, 4.

  1. Para a vergonha de Doegue. Rirão dele, não com riso de zombaria leviana, mas com riso racional e sério, assim como aquele que está sentado nos céus rirá dele, Salmos 2:4. Ele parecerá ridículo e digno de riso.

Somos informados de como triunfarão diante dos justos juízos de Deus sobre ele (v. 7): “Eis, este é o homem que não fez de Deus a sua força”. A queda e a ruína de um homem rico e poderoso não podem deixar de ser amplamente notadas; todos tendem a comentá-las.

Esta é a observação que os justos devem fazer sobre a queda de Doegue: não poderia resultar em nada melhor, pois ele havia escolhido o método errado para firmar-se em sua riqueza e em seu poder.

Se uma construção recém-erguida desaba, todos logo perguntam onde estava a falha da construção. O que arruinou a prosperidade de Doegue foi:

(1.) Que ele não a edificou sobre uma rocha: “Não fez de Deus a sua força”. Isto é, não considerou que a continuidade de sua prosperidade dependia do favor de Deus; por isso, não se preocupou em assegurar esse favor nem em manter-se no amor de Deus. Não se importou com seu dever para com ele nem o buscou minimamente.

Enganam-se miseravelmente os que pensam poder sustentar a si mesmos em seu poder e sua riqueza sem Deus e sem religião.

(2.) Que ele a edificou sobre a areia. Pensava que sua riqueza se sustentaria por si só: “Confiou na abundância de suas riquezas”, que imaginava estarem guardadas por muitos anos. Ou melhor, achava que sua perversidade o ajudaria a mantê-la.

Estava decidido a não recuar diante de nada para garantir e aumentar sua honra e seu poder. Por meios certos ou errados, obteria tudo o que pudesse, conservaria o que possuía e arruinaria quem lhe obstruísse o caminho; e pensava que assim se fortaleceria.

Os que não têm escrúpulos quanto a nada podem conseguir qualquer coisa. Mas veja a que isso leva; veja com que argamassa sem liga edificou sua casa, agora que ela caiu e ele próprio está sepultado sob seus escombros.

II. Em sua própria estabilidade, v. 8, 9: “Esse homem poderoso é arrancado pela raiz; eu, porém, sou como uma oliveira verde, plantada e enraizada, firme e florescente.”

“Ele é expulso da morada de Deus, mas eu nela estou estabelecido. Não fico ali retido como Doegue; o que me mantém nesse lugar é apenas a abundante satisfação que nele encontro.”

Repare: os que habitam na casa de Deus por fé e amor serão ali como oliveiras verdes. Diz-se que os perversos florescem como um loureiro verde (Salmos 37:35), que não produz fruto útil, embora tenha muitas folhas grandes.

Mas os justos florescem como a oliveira verde, viçosa e florescente (Salmos 92:14), que, com seu azeite, honra a Deus e aos homens (Juízes 9:9), recebendo a raiz e a seiva rica da boa oliveira, Romanos 11:17. Que devemos fazer para ser como oliveiras verdes?

  1. Devemos viver uma vida de fé e santa confiança em Deus e em sua graça: “Vejo o resultado de os homens confiarem na abundância de suas riquezas; por isso, confio na misericórdia de Deus para todo o sempre.”

“Não no mundo, mas em Deus; não em meu próprio mérito, mas na misericórdia de Deus, que concede livremente seus dons, até mesmo aos indignos, e contém em si toda a suficiência necessária para ser nossa porção e felicidade.”

Essa misericórdia dura para sempre; é constante e imutável, e seus dons continuarão por toda a eternidade. Portanto, devemos confiar nela para sempre e jamais abandonar esse fundamento.

  1. Devemos viver uma vida de gratidão e santa alegria em Deus (v. 9): “Eu te louvarei para sempre, porque o fizeste, vingaste o sangue de teus sacerdotes em seu inimigo sanguinário, deste-lhe sangue para beber e cumpriste tua promessa a mim”.

Davi tinha tanta certeza de que ela seria cumprida no tempo devido quanto se já o tivesse sido.

Louvar muito a Deus contribui grandemente para a beleza de nossa profissão de fé e para nossa fecundidade em toda graça. E é certo que nunca nos faltam motivos para o louvor.

  1. Devemos viver uma vida de expectativa e humilde dependência de Deus: “Esperarei em teu nome; vou me dedicar a ti em todos os caminhos pelos quais te fizeste conhecer, esperando as manifestações de teu favor e disposto a aguardar o tempo designado para elas, pois isso é bom diante de teus santos”. Ou, na opinião e no juízo de teus santos, com quem Davi concorda de coração.

Communis sensus fidelium — todos os santos pensam assim: (1.) Que o nome de Deus é bom em si mesmo; as manifestações de Deus a seu povo são cheias de graça e muito bondosas. Não há outro nome dado além do seu que possa ser nosso refúgio e torre forte.

(2.) Que é muito bom para nós esperar nesse nome. Nada é melhor para acalmar e aquietar nosso espírito quando está agitado e perturbado e para nos manter no caminho do dever quando somos tentados a recorrer a meios indiretos em busca de alívio do que esperar e aguardar serenamente a salvação do Senhor, Lamentações 3:26.

Todos os santos experimentaram o benefício disso: nunca se aplicaram a Deus em vão, nunca seguiram sua orientação sem que o resultado fosse bom, nem jamais se envergonharam das expectativas que depositaram nele com fé.

Portanto, permaneçamos e abundemos naquilo que é bom diante de todos os santos, e especialmente nisto: “Volta para o teu Deus; guarda a misericórdia e o juízo e espera continuamente no teu Deus”, Oseias 12:6.


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