Matthew Henry

Salmos 51

Argumento

Embora Davi tenha escrito este salmo por uma ocasião muito particular, ainda assim ele tem aplicação tão geral quanto qualquer outro salmo de Davi. É o mais notável dos salmos penitenciais e o que melhor expressa as preocupações e os desejos de um pecador arrependido.

É lamentável, de fato, que, ao nos dirigirmos devotamente a Deus, tenhamos algo a fazer além de louvá-lo, pois esse é o trabalho do céu. Mas criamos outro trabalho para nós por nossos próprios pecados e tolices: precisamos chegar ao trono da graça como penitentes, confessar nossos pecados e pedir a graça de Deus.

Se quisermos levar palavras conosco ao fazer isso, não encontraremos outras mais apropriadas que as deste salmo. Ele registra o arrependimento de Davi pelo pecado no caso de Urias, a maior mancha de seu caráter; todas as outras faltas dele eram insignificantes em comparação com esta.

Dele se diz (1 Reis 15:5) que não se desviou do mandamento do Senhor todos os dias da sua vida, a não ser no caso de Urias, o heteu.

Neste salmo, I. Ele confessa seu pecado, vv. 3-6. II. Ora fervorosamente pelo perdão de seu pecado, v. 1, 2, 7, 9. III. Pela paz de consciência, v. 8, 12. IV. Pela graça de seguir adiante sem pecar mais, v. 10, 11, 14. V. Pela liberdade de se aproximar de Deus, v. 15.

IV. Promete fazer o que puder pelo bem das almas dos outros (v. 13) e pela glória de Deus, v. 16, 17, 19. Por último, conclui com uma oração por Sião e Jerusalém, v. 18.

Aqueles cuja consciência os acusa de algum pecado grave devem, com confiança em Jesus Cristo, o Mediador, orar repetidas vezes com este salmo. Ou melhor: embora não tenhamos cometido adultério, homicídio nem qualquer crime monstruoso semelhante, ainda assim podemos aplicar de modo muito palpável todo o salmo a nós mesmos ao cantá-lo e orar com ele.

Se o fizermos com as disposições apropriadas, encontraremos, por meio de Cristo, misericórdia para o perdão e graça para o socorro oportuno.

Petições Penitenciais.

Ao Músico-Mor. Salmo de Davi, Quando o Profeta Natã Veio a Ele, Depois que Davi Se Deitara com Bate-Seba.

Versículos 1 a 6

O título remete a uma história muito triste, a queda de Davi. Mas, embora ele tenha caído, ainda assim não foi derrubado de todo, pois Deus, em sua graça, o sustentou e levantou.

  1. O pecado que ele lamenta neste salmo foi a insensatez e a maldade que cometeu com a mulher de seu próximo, pecado que não se deve mencionar nem recordar sem repulsa. A desonra que Davi causou a Bate-Seba abriu caminho para todos os outros pecados que se seguiram; foi como dar passagem às águas.

Esse pecado de Davi foi registrado como aviso a todos, para que aquele que pensa estar de pé tome cuidado para não cair.

  1. O arrependimento que ele expressa neste salmo foi despertado pelo ministério de Natã. Deus enviou o profeta para convencê-lo de seu pecado, depois que Davi passara, ao que parece, mais de nove meses sem nenhuma expressão particular de remorso ou pesar por ele.

Embora Deus possa permitir que seu povo caia em pecado e permaneça nele por muito tempo, ainda assim, por um meio ou outro ele o levará de volta ao arrependimento, a si mesmo e ao bom senso. Em geral, Deus usa para isso o ministério da palavra, embora não esteja limitado a ele.

Os que foram surpreendidos em alguma falta devem considerar uma censura fiel a maior bondade que lhes podem fazer, e alguém sábio que os censura, seu melhor amigo. Que o justo me fira; isso será um óleo excelente.

  1. Convencido de seu pecado, Davi derramou a alma diante de Deus em oração por misericórdia e graça. A quem mais os filhos desviados deveriam voltar, senão ao Senhor seu Deus, de quem se desviaram e que, só ele, pode curar seus desvios?

  2. Por inspiração divina, Davi transformou os movimentos de seu coração para com Deus nessa ocasião em um salmo, para que fosse repetido muitas vezes e relido muito tempo depois. Confiou-o ao Músico-Mor para ser cantado no culto público da igreja.

(1.) Como declaração de seu próprio arrependimento, do qual queria que todos tomassem conhecimento, pois seu pecado se tornara notório. Assim, o curativo teria a mesma extensão da ferida.

Os que se arrependem de verdade de seus pecados não terão vergonha de reconhecer seu arrependimento. Mas, tendo perdido a honra dos inocentes, desejarão antes a honra dos penitentes.

(2.) Como modelo para outros, tanto para conduzi-los ao arrependimento por seu exemplo quanto para instruí-los sobre o que fazer e dizer quando se arrependem. Tendo sido ele próprio convertido, Davi assim fortalece seus irmãos (Lucas 22:32); foi por esse motivo que alcançou misericórdia, 1 Timóteo 1:16.

Nestas palavras temos:

I. A humilde petição de Davi, v. 1, 2. Sua oração é muito parecida com a que nosso Salvador põe na boca do publicano arrependido na parábola: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”, Lucas 18:13.

Sob muitos aspectos, Davi era um homem de grandes méritos: não só havia feito muito, mas sofrido muito pela causa de Deus. Contudo, ao ser convencido do pecado, não tenta compensar suas más ações com as boas, nem imagina que seus serviços expiarão suas ofensas.

Antes, recorre à misericórdia infinita de Deus e depende somente dela para obter perdão e paz: “Tem misericórdia de mim, ó Deus!” Reconhece estar exposto à justiça divina e, por isso, se lança à sua misericórdia. É certo que até o melhor homem do mundo estará perdido se Deus não tiver misericórdia dele. Observe:

  1. O apelo com que pede essa misericórdia: “Tem misericórdia de mim, ó Deus! Não por causa da dignidade do meu nascimento, como descendente do príncipe da tribo de Judá, nem por meus serviços públicos como campeão de Israel, nem por minhas honras públicas como rei de Israel.”

Seu apelo não é: “SENHOR, lembra-te de Davi e de todas as suas aflições”, nem invocar o juramento de construir um lugar para a arca (Salmos 132:1, 2). Um verdadeiro penitente não mencionará nada disso, mas dirá: “Tem misericórdia de mim por causa da própria misericórdia. Nada tenho para alegar diante de ti, exceto:”

(1.) “A gratuidade da tua misericórdia, conforme a tua benignidade, a tua clemência e a bondade da tua natureza, que te inclina a ter compaixão dos miseráveis.”

(2.) “A plenitude da tua misericórdia. Há em ti não só benignidade e ternas misericórdias, mas abundância delas, uma multidão de ternas misericórdias para perdoar muitos pecadores e muitos pecados, para multiplicar os perdões à medida que multiplicamos as transgressões.”

  1. A misericórdia particular que ele pede é o perdão do pecado. “Apaga as minhas transgressões”, como se apaga ou risca uma dívida de um livro quando o devedor a paga ou o credor a perdoa.

“Faz desaparecer as minhas transgressões, para que não apareçam exigindo uma sentença contra mim nem me encarem para minha confusão e meu terror.” O sangue de Cristo, aspergido sobre a consciência para purificá-la e apaziguá-la, apaga a transgressão e, tendo nos reconciliado com Deus, também nos reconcilia conosco mesmos, v. 2.

“Lava-me completamente da minha iniquidade; lava minha alma da culpa e da mancha do pecado por tua misericórdia e graça, pois a água da separação só pode me limpar da impureza cerimonial. Lava-me muitas vezes; a mancha é profunda, porque passei muito tempo mergulhado na culpa e ela não sairá facilmente. Oh, lava-me muito, lava-me por inteiro. Limpa-me do meu pecado.”

O pecado nos macula, nos torna detestáveis aos olhos do Deus santo e inquietos em nós mesmos; torna-nos incapazes da comunhão com Deus na graça ou na glória. Quando Deus perdoa o pecado, limpa-nos dele, de modo que nos tornamos aceitáveis a ele, encontramos paz em nós mesmos e temos liberdade para nos aproximar dele.

Quando Davi declarou pela primeira vez seu arrependimento, Natã lhe assegurou que seu pecado fora perdoado: o Senhor havia retirado seu pecado e ele não morreria, 2 Samuel 12:13. Ainda assim, ele ora: “Lava-me, limpa-me, apaga as minhas transgressões.”

Devemos buscar a Deus até por aquilo que ele prometeu; e aqueles cujos pecados foram perdoados devem orar para que a certeza desse perdão se torne cada vez mais clara. Deus o havia perdoado, mas ele não conseguia perdoar a si mesmo. Por isso, insiste tanto em pedir perdão, como alguém que se julgava indigno dele e sabia seu valor.

II. As confissões penitenciais de Davi, vv. 3-5:

  1. Ele reconhece livremente sua culpa diante de Deus: “Reconheço as minhas transgressões.” Antes, já descobrira que esse era o único modo de aliviar a consciência, Salmos 32:4, 5. Natã disse: “Tu és o homem.” “Sou eu”, responde Davi; “pequei.”

  2. Tinha consciência tão profunda do pecado que pensava nele continuamente, com tristeza e vergonha. Sua contrição não era uma emoção superficial e passageira, mas uma dor persistente: “O meu pecado está sempre diante de mim”, para humilhá-lo, mortificá-lo e fazê-lo corar e tremer sem cessar.

“Está sempre contra mim” (segundo alguns); “vejo-o diante de mim como um inimigo que me acusa e ameaça.” A todo momento Davi se lembrava de seu pecado e estava disposto a lembrá-lo, para se humilhar ainda mais.

Nunca andava pelo terraço de sua casa sem recordar, arrependido, a desventurada caminhada ali, quando viu Bate-Seba. Nunca se deitava sem pensar, com pesar, no leito de sua impureza.

Nunca se sentava para comer, enviava um servo com um recado ou pegava a pena sem se lembrar de que embriagara Urias, enviara por meio dele a mensagem traiçoeira e escrevera e assinara a ordem fatal para sua execução.

Repare: os atos de arrependimento, mesmo pelo mesmo pecado, precisam ser repetidos muitas vezes. É útil manter nossos pecados sempre diante de nós, para que a lembrança deles nos conserve humildes, nos arme contra a tentação, nos estimule ao dever e nos torne pacientes sob a cruz.

(1.) Ele confessa suas transgressões cometidas (v. 4): “Contra ti, contra ti somente, pequei.” Davi era um homem muito importante. Mesmo assim, após agir mal, submete-se à disciplina de um penitente e não pensa que sua dignidade real o dispensará dela.

Ricos e pobres se encontram aqui: há uma só lei de arrependimento para ambos. Os maiores logo serão julgados e, por isso, devem julgar a si mesmos agora. Davi era um homem muito bom. Mesmo assim, após pecar, aceita de boa vontade o lugar e a atitude de um penitente. Os melhores homens, se pecarem, devem dar o melhor exemplo de arrependimento.

[1.] Sua confissão é específica: “Cometi este mal, aquele pelo qual agora sou censurado, aquele pelo qual minha própria consciência agora me repreende.” Repare: é bom ser específico na confissão do pecado, para que possamos ser mais expressos ao pedir perdão e, assim, receber mais consolo dele.

Devemos examinar as espécies particulares de nossos pecados de fraqueza e as circunstâncias particulares de nossos pecados graves.

[2.] Ele mostra a gravidade do pecado que confessa e põe sobre si todo o seu peso: “Contra ti e à tua vista.” Nosso Salvador parece ter tirado daí a confissão que põe na boca do filho pródigo ao voltar: “Pequei contra o céu e diante de ti”, Lucas 15:18. Davi lamenta duas coisas em seu pecado:

Primeiro, que foi cometido contra Deus. A afronta é feita a ele; ele é a parte ofendida. É sua verdade que negamos pelo pecado deliberado, sua orientação que desprezamos, seu mandamento a que desobedecemos, sua promessa da qual duvidamos e seu nome que desonramos. É para com ele que agimos com engano e falta de franqueza.

Desse fato José tirou a grande razão contra o pecado (Gênesis 39:9), e Davi, aqui, a razão de sua gravidade: “Contra ti somente.” Alguns entendem que isso indica a prerrogativa de sua coroa: como rei, ele não prestava contas a ninguém além de Deus.

Mas é mais coerente com seu estado de espírito supor que expressa a profunda contrição de sua alma pelo pecado, fundada em razões justas. Nesse episódio, pecou contra Bate-Seba e Urias, contra sua alma, seu corpo e sua família, contra seu reino, contra a igreja de Deus. Tudo isso contribuiu para humilhá-lo.

Contudo, a nenhum deles ofendeu como a Deus; por isso, é nesse ponto que põe a maior ênfase de sua tristeza: “Contra ti somente pequei.”

Segundo, que o pecado foi cometido à vista de Deus. “Isso não só prova minha culpa, mas torna o pecado extremamente grave.” O fato de nossos pecados terem sido cometidos sob os olhos de Deus deve nos humilhar profundamente, pois revela ou descrença em sua onisciência ou desprezo por sua justiça.

[3.] Ele reconhece a justiça de Deus na sentença pronunciada contra ele: a espada jamais se afastaria de sua casa, 2 Samuel 12:10, 11. Prontamente reconhece seu pecado e sua gravidade não só para obter seu próprio perdão, mas também para honrar a Deus por meio de sua confissão.

Primeiro, para que Deus fosse reconhecido como justo nas ameaças que anunciara por Natã. “Senhor, nada tenho a dizer contra a justiça delas; mereço tudo o que foi ameaçado e mil vezes mais.” Assim Eli aceitou ameaças semelhantes (1 Samuel 3:18): “É o Senhor.” E Ezequias (2 Reis 20:19): “Boa é a palavra do Senhor que disseste.”

Segundo, para que Deus fosse reconhecido como íntegro quando julgasse, isto é, quando executasse aquelas ameaças. Davi tornou pública sua confissão de pecado para que ninguém, ao vê-lo em dificuldades mais tarde, dissesse que Deus lhe fizera alguma injustiça.

Ele reconhece que o Senhor é justo: assim todos os verdadeiros penitentes defenderão a justiça de Deus ao condenar a si mesmos. “Tu és justo em tudo o que veio sobre nós.”

(2.) Ele confessa sua corrupção original (v. 5): “Eis que fui formado em iniquidade.” Não pede a Deus que veja isso, mas a si mesmo: “Vem, minha alma, olha para a rocha da qual fui talhado e verás que fui formado em iniquidade.”

“Se eu tivesse considerado isso devidamente antes, vejo que não teria tratado a tentação com tanta ousadia nem me arriscado entre faíscas com tamanho material inflamável em meu coração. Assim, o pecado poderia ter sido evitado.”

“Agora devo considerar isso, não para desculpar nem atenuar o pecado, dizendo: ‘Senhor, fiz isso, mas de fato não podia evitar; minha inclinação me levou a fazê-lo’.” Tal alegação é falsa: com o devido cuidado e vigilância, e com o aproveitamento da graça de Deus, ele poderia ter evitado o pecado. Além disso, um verdadeiro penitente jamais faz tal alegação.

“Devo antes considerar isso como agravante do pecado: Senhor, não só fui culpado de adultério e homicídio, mas tenho uma natureza adúltera e homicida; por isso, abomino a mim mesmo.”

Em outro lugar, Davi fala da admirável estrutura de seu corpo (Salmos 139:14, 15): foi feito de modo primoroso. Contudo, aqui diz que foi formado em iniquidade, que o pecado foi entrelaçado nele. Não quando saiu das mãos de Deus, mas ao vir pelos lombos de nossos pais.

Em outro lugar, fala da piedade de sua mãe: ela era serva de Deus, e ele alega sua relação com ela (Salmos 116:16; 86:16). Contudo, aqui diz que ela o concebeu em pecado. Embora fosse, pela graça, filha de Deus, era, por natureza, filha de Eva e não estava fora da condição comum.

Repare: cada um de nós deve lamentar profundamente ter trazido conosco ao mundo uma natureza corrompida, lastimavelmente afastada da pureza e retidão originais. Desde o nascimento, temos armadilhas do pecado no corpo, sementes do pecado na alma e a mancha do pecado em ambos.

É o que chamamos pecado original, porque é tão antigo quanto nossa origem e porque é a origem de todas as nossas transgressões cometidas. É a insensatez ligada ao coração da criança, a inclinação ao mal e a resistência ao bem, que são um fardo para os regenerados e a ruína dos não regenerados; é uma tendência a se afastar de Deus.

III. O reconhecimento da graça de Deus por Davi (v. 6), tanto de sua boa vontade para conosco (“tu desejas a verdade no íntimo, queres que todos sejamos honestos, sinceros e fiéis à nossa profissão”) quanto de sua boa obra em nós: “No oculto me fizeste conhecer”, ou farás conhecer, “a sabedoria”. Repare:

  1. A verdade e a sabedoria contribuem muito para tornar um homem bom. Uma mente clara e um coração íntegro, prudência e sinceridade, mostram o homem de Deus perfeito.

  2. Aquilo que Deus exige de nós ele próprio realiza em nós, e o faz pelo caminho apropriado: ilumina a mente e, assim, conquista a vontade. Mas como isso se encaixa aqui?

(1.) Dessa forma, Deus é reconhecido como justo e isento de culpa: “Senhor, tu não foste o autor do meu pecado; nenhuma culpa deve recair sobre ti, mas somente sobre mim.”

“Muitas vezes me advertiste a ser sincero e me fizeste conhecer o que, se eu tivesse considerado devidamente, teria evitado minha queda nesse pecado. Se tivesse aproveitado a graça que me deste, teria conservado minha integridade.”

(2.) Dessa forma, a gravidade do pecado aumenta: “Senhor, tu desejas a verdade; mas onde estava ela quando enganei Urias? Tu me fizeste conhecer a sabedoria; mas não vivi à altura do que sabia.”

(3.) Dessa forma, ele é animado a esperar que Deus o receba com graça em seu arrependimento. [1.] Deus o fizera sincero na decisão de nunca mais voltar à insensatez: “Tu desejas a verdade no íntimo.” É isso que Deus procura em um pecador que volta a ele: que em seu espírito não haja dolo, Salmos 32:2.

Davi tinha consciência da retidão de seu coração para com Deus em seu arrependimento e, por isso, não duvidava que Deus o aceitaria.

[2.] Esperava que Deus o capacitasse a cumprir suas decisões: que, no oculto, no novo homem chamado “o homem oculto do coração” (1 Pedro 3:4), Deus o fizesse conhecer a sabedoria, para discernir e evitar os desígnios do tentador numa próxima ocasião.

Alguns leem isso como uma oração: “Senhor, nesse caso agi como um insensato; daqui para a frente, faze-me conhecer a sabedoria.” Onde há verdade, Deus concederá sabedoria. Aqueles que se esforçam sinceramente para cumprir seu dever lhes será ensinado o seu dever.

Versículos 7 a 13

Petições Penitenciais.

I. Veja pelo que Davi ora aqui. Ele apresenta muitas petições excelentes; basta acrescentar a elas “por amor de Cristo” para que sejam tão evangélicas quanto quaisquer outras.

  1. Ora para que Deus o limpe de seus pecados e da maculação que contraiu por meio deles (v. 7): “Expurga-me com hissopo”; isto é: “Perdoa meus pecados e permite-me saber que foram perdoados, para que eu recupere os privilégios aos quais perdi o direito e dos quais fiquei privado pelo pecado.”

A expressão alude a uma distinção cerimonial: a purificação do leproso ou dos que se tornavam impuros ao tocar um cadáver. Sobre eles se aspergia água, sangue ou ambos com um ramo de hissopo; por fim, eram liberados das restrições impostas por sua impureza.

“Senhor, dá-me tanta certeza de que recuperarei teu favor e o privilégio da comunhão contigo quanto eles tinham, por esse rito, de que voltariam a desfrutar dos privilégios anteriores.”

Mas a petição se funda na graça do evangelho: “Expurga-me com hissopo”, isto é, com o sangue de Cristo aplicado à minha alma por uma fé viva, assim como se aspergia a água da purificação com um ramo de hissopo.

É o sangue de Cristo, chamado por isso de “sangue da aspersão” (Hebreus 12:24), que expurga a consciência das obras mortas, da culpa do pecado e do temor de Deus que nos impedem de ter comunhão com ele. Sob a lei, tocar um cadáver impedia um homem de entrar nos átrios da casa de Deus.

Se esse sangue de Cristo, que limpa de todo pecado, nos limpar de nosso pecado, estaremos verdadeiramente limpos, Hebreus 10:2. Se formos lavados nessa fonte aberta, seremos mais brancos que a neve: não só absolvidos, mas aceitos. Assim são os que foram justificados. Isaías 1:18: embora seus pecados tenham sido como a escarlata, ficarão brancos como a neve.

  1. Ora para que, perdoados os pecados, receba o consolo desse perdão. Não pede consolo antes de ser limpo. Mas, se o pecado, raiz amarga da tristeza, for removido, pode orar com fé: “Faze-me ouvir júbilo e alegria” (v. 8).

Isto é: “Permite-me ter uma paz bem fundamentada, criada e anunciada por ti, para que os ossos que quebraste pela convicção do pecado e pelas ameaças se alegrem. Que não sejam apenas recolocados no lugar e aliviados da dor, mas sintam consolo de modo palpável e, como diz o profeta, floresçam como a erva.” Repare:

(1.) A dor de um coração verdadeiramente quebrantado pelo pecado pode ser comparada à de um osso partido. É o mesmo Espírito que, como Espírito de servidão, golpeia e fere e, como Espírito de adoção, cura e enfaixa.

(2.) O consolo e a alegria que vêm de um perdão confirmado a um pecador arrependido são tão restauradores quanto o completo alívio da dor mais intensa.

(3.) É obra de Deus não só anunciar esse júbilo e essa alegria, mas também nos fazer ouvi-los e receber seu consolo. Davi deseja ardentemente que Deus faça resplandecer sobre ele a luz de seu rosto e, assim, ponha alegria em seu coração. Deseja não apenas que Deus se reconcilie com ele, mas, o que é um ato adicional de graça, que lhe permita saber que assim estava.

  1. Ora por um perdão completo e eficaz. É o que pede com maior fervor, pois é o fundamento de seu consolo (v. 9): “Esconde o teu rosto dos meus pecados, isto é, não permitas que te provoquem a me tratar como mereço. Eles estão sempre diante de mim; sejam lançados para trás de ti.”

“Apaga todas as minhas iniquidades do livro das tuas contas; apaga-as como uma nuvem que se desfaz e desaparece sob os raios do sol”, Isaías 44:22.

  1. Ora pela graça santificadora. Todo verdadeiro penitente a pede com tanto fervor quanto pede perdão e paz, v. 10. Não ora: “Senhor, preserva minha reputação”, como Saul: “Pequei; contudo, honra-me diante deste povo.” Não: sua grande preocupação é ter sua natureza corrompida transformada.

O pecado de que fora culpado era (1.) uma prova da impureza de sua natureza; por isso, ora: “Cria em mim um coração limpo, ó Deus!” Agora via, mais que nunca, como era impuro seu coração e o lamentava profundamente. Mas percebia que não tinha poder para corrigi-lo por si mesmo; por isso, pede a Deus, a quem pertence o poder de criar, que crie nele um coração limpo.

Só aquele que fez o coração pode refazê-lo; para seu poder nada é impossível. Como Deus da natureza, criou o mundo pela palavra de seu poder. Como Deus da graça, é pela palavra de seu poder que somos limpos (João 15:3) e santificados, João 17:17.

(2.) O pecado causou desordem em sua natureza e desfez boa parte da boa obra que nele havia sido realizada; por isso, ora: “Senhor, renova em mim um espírito reto. Repara a perda de força espiritual causada por este pecado e põe-me de novo no caminho certo.”

“Renova em mim um espírito constante”, segundo alguns. Nesse episódio, revelara muita inconstância e contradição consigo mesmo; por isso, ora: “Senhor, firma-me daqui em diante, para que eu nunca mais me afaste de ti de maneira semelhante.”

  1. Ora para que a boa vontade de Deus para com ele continue e para que a boa obra divina nele avance, v. 11. (1.) Que nunca seja excluído do favor de Deus: “Não me lances fora da tua presença como alguém que detestas e não suportas olhar.”

Ora para não ser privado da proteção de Deus. Onde quer que vá, deseja ter consigo a presença divina, estar sob a orientação de sua sabedoria e sob a guarda de seu poder. Também pede que a comunhão com Deus não lhe seja proibida: “Não me expulses de teus átrios, mas concede-me sempre a liberdade de me aproximar de ti em oração.”

Não pede que Deus afaste os juízos temporais que ameaçara enviar sobre ele por meio de Natã. “Seja feita a vontade de Deus; mas, Senhor, não me repreendas em tua cólera. Se a espada vier à minha casa e jamais se afastar dela, permite-me ainda recorrer a Deus em minhas aflições, e tudo ficará bem.”

(2.) Que nunca seja privado da graça de Deus: “Não retires de mim o teu Espírito Santo.” Sabia que seu pecado entristecera o Espírito e o provocara a se afastar. Sabia também que, por ser ele carne, Deus poderia ter dito com justiça que seu Espírito não contenderia mais com ele nem agiria nele, Gênesis 6:3.

É isso que Davi teme acima de tudo. Estaremos perdidos se Deus retirar de nós seu Espírito Santo. Saul foi um triste exemplo disso. Como era imenso seu pecado, como era imensa sua infelicidade depois que o Espírito do Senhor se afastou dele! Davi sabia disso e, por isso, suplica com tanto fervor:

“Senhor, tira de mim o que quiseres, meus filhos, minha coroa ou minha vida, mas não retires de mim o teu Espírito Santo” (veja 2 Samuel 7:15). “Mas mantém comigo teu Espírito Santo, para completar a obra do meu arrependimento, impedir minha recaída em pecado e me capacitar a cumprir meu dever tanto como príncipe quanto como salmista.”

  1. Ora pela restauração dos consolos divinos e pela comunicação contínua da graça divina, v. 12. Davi percebe dois efeitos nocivos de seu pecado: (1.) O pecado o entristeceu; por isso, ora: “Torna a dar-me a alegria da tua salvação.”

Um filho de Deus não conhece alegria verdadeira e sólida além da alegria da salvação divina, da alegria em Deus, seu Salvador, e da esperança da vida eterna. Pelo pecado deliberado, perdemos o direito a essa alegria e nos privamos dela. As provas de nossa salvação ficam obscurecidas, e nossas esperanças, abaladas.

Quando damos a nós mesmos tantos motivos para duvidar de nossa participação na salvação, como podemos esperar a alegria que ela traz? Mas, ao nos arrependermos de verdade, podemos orar e esperar que Deus nos restitua essa alegria. Os que semeiam com lágrimas de arrependimento colherão as alegrias da salvação divina quando vierem os tempos de refrigério.

(2.) O pecado o enfraqueceu; por isso, ora: “Sustenta-me com o Espírito livre. Estou prestes a cair ou no pecado ou no desespero. Senhor, sustenta-me. Meu próprio espírito”, embora o espírito do homem possa fazer muito para sustentá-lo em sua fraqueza, “não basta. Se eu for deixado a mim mesmo, certamente afundarei.”

“Por isso, sustenta-me com teu Espírito; que ele contrarie o espírito maligno que quer derrubar-me da posição elevada em que estou. Teu Espírito é livre, age por vontade própria e livremente”; e torna livres aqueles em quem age, pois onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade; “é teu Espírito franco e principesco.”

Davi tinha consciência de que, no caso de Urias, agira com falta de franqueza e de modo indigno de um príncipe. Seu comportamento fora vil e mesquinho.

“Senhor”, diz ele, “que teu Espírito inspire minha alma com princípios nobres e generosos, para que eu aja sempre como convém.” Um espírito livre será firme e constante e nos sustentará. Quanto mais alegres formos no cumprimento do dever, mais constantes seremos nele.

II. Veja o que Davi promete aqui, v. 13. Observe:

  1. A boa obra que promete fazer: “Ensinarei aos transgressores os teus caminhos.” Davi fora ele mesmo um transgressor e, por isso, podia falar a transgressores com base na própria experiência.

Decide ensinar aos outros os caminhos de Deus, pois ele próprio encontrara misericórdia no caminho do arrependimento. Isso significa ensinar (1.) nosso caminho até Deus pelo arrependimento: a quem pecou, mostraria que seguisse o mesmo caminho que ele, humilhando-se, confessando os pecados e buscando a face de Deus.

Também ensinaria (2.) o caminho de Deus para conosco em sua misericórdia que perdoa: como está pronto a receber aqueles que voltam a ele. Ensinou o primeiro por seu exemplo, para orientar os pecadores em seu arrependimento; ensinou o segundo por sua experiência, para lhes dar ânimo.

Por meio deste salmo, ele ensina e continuará a ensinar os transgressores até o fim do mundo, contando-lhes o que Deus fizera por sua alma. Repare: os penitentes devem ser pregadores. Assim foram Salomão e o bendito Paulo.

  1. O bom resultado que espera desse trabalho: “Os pecadores se converterão a ti; e não persistirão em seus desvios para longe de ti nem perderão a esperança de encontrar misericórdia ao voltar.”

O grande objetivo de ensinar os transgressores é sua conversão a Deus. Quando ela acontece, um feliz objetivo foi alcançado; felizes são aqueles que contribuem para isso como instrumentos, Tiago 5:20.

Versículos 14 a 19

Petições Penitenciais.

I. Davi ora para ser livre da culpa do pecado e pede a graça de Deus. Sustenta as duas petições com um apelo tirado da glória de Deus, que promete anunciar com gratidão.

  1. Pede livramento da culpa do pecado e promete que, então, louvará a Deus, v. 14. O pecado específico do qual pede livramento é a culpa de sangue, que acabara de contrair ao abater Urias pela espada dos filhos de Amom.

Até então, talvez tivesse calado a consciência com a desculpa frívola de que não o matara pessoalmente. Agora, porém, estava convencido de que era o assassino. Ao ouvir o sangue clamar a Deus por vingança, clama a Deus por misericórdia:

“Livra-me da culpa de sangue. Não permitas que eu permaneça sob essa espécie de culpa, que contraí; perdoa-me e jamais me deixes por minha conta a ponto de contrair culpa semelhante outra vez.” Repare: todos precisamos orar fervorosamente para não sermos culpados de derramamento de sangue.

Nessa oração, Davi contempla Deus como o Deus da salvação. Repare: aqueles para quem Deus é o Deus da salvação serão libertados da culpa, pois a salvação da qual ele é Deus é salvação do pecado. Podemos, portanto, alegar diante dele: “Senhor, tu és o Deus da minha salvação; por isso, livra-me do domínio do pecado.”

Promete que, se Deus o livrar, sua língua cantará em alta voz a justiça divina. Deus receberá a glória tanto da misericórdia que perdoa quanto da graça que impede o pecado. A justiça de Deus muitas vezes representa sua graça, sobretudo na grande obra da justificação e da santificação.

Nessa justiça Davi encontraria consolo e, por isso, cantaria a seu respeito. Também procuraria tanto torná-la conhecida dos outros quanto tocar-lhes o coração com ela; cantaria em alta voz. Todos os que receberam seu benefício e a ela devem tudo deveriam fazer o mesmo.

  1. Pede a graça de Deus e promete aproveitar essa graça para a glória divina (v. 15): “Ó Senhor, abre os meus lábios”, não só para ensinar e instruir os pecadores, pois nem o melhor pregador consegue fazê-lo com proveito se Deus não lhe abrir a boca e não lhe der a língua dos instruídos.

Pede também “para que minha boca anuncie o teu louvor”; deseja não apenas ter abundantes motivos para louvar, mas um coração aberto ao louvor.

A culpa lhe fechara os lábios e quase impedira sua oração. Por vergonha e por medo, não conseguia chegar à presença daquele Deus a quem sabia ter ofendido, muito menos falar com ele. Seu coração o condenava; por isso, tinha pouca confiança diante de Deus.

Isso esfriara especialmente seu louvor. Depois de perder a alegria da salvação, pendurara sua harpa nos salgueiros; por isso, ora: “Senhor, abre os meus lábios; afina meu coração para o louvor outra vez.”

Aos que ficaram com a língua presa por causa da culpa, a certeza do perdão de seus pecados diz eficazmente: “Efatá, abre-te.” E, quando os lábios se abrem, que deveriam anunciar senão os louvores de Deus, como fez Zacarias? Lucas 1:64.

II. Davi oferece o sacrifício de um coração penitente e contrito, pois sabe que esse agrada a Deus.

  1. Sabia muito bem que o sacrifício de animais, por si só, não tinha valor para Deus (v. 16): “Não desejas sacrifício”, pois, se o desejasse, “eu o ofereceria de todo o coração para obter perdão e paz”; “não te deleitas em holocausto”. Veja como Davi estaria disposto a oferecer milhares de carneiros para fazer expiação pelo pecado.

Os que se convencem plenamente de sua miséria e do perigo que correm por causa do pecado não poupariam despesas para obter sua remissão, Miquéias 6:6, 7. Mas veja o pouco valor que Deus atribuía a esses sacrifícios.

De fato, ele exigia que fossem oferecidos como provas de obediência e figuras de Cristo. Mas não se deleitava neles por algum mérito ou valor intrínseco: “Sacrifício e oferta não quiseste.” Assim como não podem satisfazer pelo pecado, assim Deus não pode encontrar satisfação neles, exceto na medida em que sua oferta expressa amor e dever para com ele.

  1. Também sabia quanto o verdadeiro arrependimento agrada a Deus (v. 17): “Os sacrifícios de Deus são um espírito quebrantado.” Veja aqui:

(1.) A boa obra realizada em todo verdadeiro penitente: um espírito quebrantado, um coração quebrantado e contrito. É uma obra feita no coração; é para ele que Deus olha e é dele que Deus exige algo em todos os exercícios religiosos, especialmente no arrependimento.

É uma obra dolorosa realizada ali, nada menos que o quebrantamento do coração. Não é desespero, como quando dizemos que o coração de alguém foi partido porque está arruinado; é a necessária humilhação e tristeza pelo pecado.

É um coração que rompe consigo mesmo e rompe com seu pecado; maleável à palavra de Deus, paciente sob sua vara, subjugado e levado à obediência. É um coração terno como o de Josias, que treme diante da palavra de Deus. Quem dera tivéssemos esse coração!

(2.) Como Deus se agrada, em sua graça, de receber esse sacrifício. São os sacrifícios de Deus, não um só, mas muitos; tomam o lugar de todos os holocaustos e ofertas.

O corpo de Cristo, partido para expiar o pecado, é o único sacrifício de expiação, pois nenhum outro poderia remover o pecado. Já o quebrantamento de nosso coração pelo pecado é um sacrifício de reconhecimento, um sacrifício de Deus, pois é oferecido a ele. Ele o exige e o prepara, provendo esse cordeiro para o holocausto, e o aceitará.

O que agradava a Deus não era alimentar bem um animal nem lhe dar grande apreço, mas matá-lo. Assim também, Deus não aceita que mimemos nossa carne, e sim que a mortifiquemos.

O animal do sacrifício era amarrado, sangrado e queimado. Assim, o coração penitente é preso pela convicção do pecado, sangra em contrição e depois arde em zelo santo contra o pecado e por Deus.

O sacrifício era oferecido sobre o altar que santificava a oferta. Da mesma forma, o coração quebrantado só é aceitável a Deus por meio de Jesus Cristo. Não há verdadeiro arrependimento sem fé nele; é esse o sacrifício que Deus não desprezará.

Os homens desprezam o que está quebrado, mas Deus não o fará. Ele desprezava o sacrifício de animais feridos e mutilados, mas não desprezará o de um coração ferido e quebrantado. Não o deixará passar despercebido nem o recusará ou rejeitará. Embora esse coração não satisfaça a Deus pela ofensa causada pelo pecado, Deus não o despreza.

O fariseu orgulhoso desprezou o publicano de coração quebrantado, e este tinha uma opinião muito humilde de si mesmo. Deus, porém, não o desprezou. Há aqui mais do que as palavras dizem: o grande Deus deixa de lado o céu e a terra para olhar com favor para um coração quebrantado e contrito, Isaías 66:1, 2; 57:15.

III. Davi intercede por Sião e Jerusalém, tendo em vista a honra de Deus. Veja sua preocupação:

  1. Com o bem da igreja de Deus (v. 18): “Faze o bem a Sião por tua boa vontade”, isto é, (1.) “A todos os que te adoram em Sião, a todos os que amam e temem teu nome. Guarda-os de cair em pecados que ferem e destroem, como os meus; defende e socorre todos os que temem teu nome.”

Os que já enfrentaram dificuldades espirituais sabem ter compaixão daqueles que sofrem de modo semelhante e orar por eles.

Ou, (2.) “Aos interesses públicos de Israel.” Davi tinha consciência do mal que seu pecado causara a Judá e Jerusalém: enfraquecera as mãos e entristecera o coração das pessoas boas, além de abrir a boca de seus adversários.

Temia também que, por ocupar posição pública, seu pecado trouxesse juízos sobre a cidade e o reino. Por isso, ora para que Deus proteja e promova os interesses públicos que ele estragara e pusera em risco.

Pede que Deus impeça os juízos nacionais que seu pecado merecia e continue a conceder as bênçãos e a realizar a boa obra que esse pecado ameaçava atrasar ou interromper.

Ora não apenas para que Deus faça o bem a Sião pela providência, como fazia a outros lugares, mas para que o faça por sua boa vontade, com o favor especial que dedicava ao lugar escolhido para ali pôr seu nome. Pede que os muros de Jerusalém, talvez em construção naquela época, sejam levantados e essa boa obra seja concluída. Repare:

[1.] Quando temos muitos assuntos próprios, dos mais importantes, diante do trono da graça, ainda assim não devemos esquecer de orar pela igreja de Deus. Ou melhor: nosso Mestre nos ensinou que devemos começar por ela em nossas orações diárias: “Santificado seja o teu nome; venha o teu reino.”

[2.] Considerar o prejuízo que nossos pecados causaram aos interesses públicos deve nos levar a prestar-lhes todo o serviço que pudermos, sobretudo por nossas orações.

  1. Com a honra das igrejas de Deus, v. 19. Se Deus se mostrasse reconciliado com Davi e seu povo, como ele havia pedido, eles continuariam os cultos públicos em sua casa:

(1.) Com alegria. A consciência da bondade de Deus para com eles lhes abriria o coração em todas as manifestações de gratidão e obediência. Então chegariam ao tabernáculo com holocaustos e ofertas inteiramente queimadas, destinadas exclusivamente à glória de Deus.

Sobre o altar, ofereceriam não apenas cordeiros e carneiros, mas também novilhos, os sacrifícios mais caros.

(2.) De modo agradável a Deus: “Tu te agradarás deles”; isto é, “teremos motivos para esperar que sim ao percebermos que foi removido o pecado que ameaçava impedir tua aceitação.”

Repare: é grande consolo para um homem bom pensar na comunhão entre Deus e seu povo em suas reuniões públicas: ele é honrado pelo serviço humilde que lhe prestam, e eles são felizes porque ele o aceita em sua graça.


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