Salmos 48
Argumento
Este salmo, como os dois anteriores, é um cântico triunfal. Alguns pensam que foi composto por ocasião da vitória de Josafá (2 Crônicas 20); outros, da derrota de Senaqueribe, quando seu exército sitiou Jerusalém no tempo de Ezequias. Mas, pelo que sei, pode ter sido composto por Davi por ocasião de alguma vitória notável alcançada em seu tempo.
Ainda assim, não foi tão ajustado àquela ocasião que não pudesse servir a qualquer outra semelhante nos tempos posteriores e aplicar-se também às glórias da igreja do evangelho, da qual Jerusalém era tipo, especialmente quando ela se tornar uma igreja triunfante: a “Jerusalém celestial” (Hebreus 12:22), a “Jerusalém lá de cima”, Gálatas 4:26.
Jerusalém é aqui louvada: I. Por sua relação com Deus, v. 1, 2. II. Pelo cuidado de Deus com ela, v. 3. III. Pelo terror que infunde em seus inimigos, vv. 4-7. IV. Pelo prazer que dá a seus amigos, os quais se deleitam em pensar: 1. No que Deus fez, faz e fará por ela, v. 8. 2. Nas graciosas manifestações que ele faz de si mesmo naquela cidade santa e em favor dela, v. 9, 10.
- Na provisão eficaz feita para sua segurança, vv. 11-13. 4. Na certeza que temos da perpetuidade da aliança de Deus com os filhos de Sião, v. 14. Ao cantar este salmo, devemos ser tocados pelo privilégio que temos como membros da igreja do evangelho e devemos expressar e despertar nossa sincera boa vontade para com todos os interesses dela.
A Beleza e a Força de Sião.
Versículos 1 a 7
Um Cântico e Salmo para os Filhos de Corá.
O salmista pretende louvar Jerusalém e expor a grandeza dessa cidade; mas começa com o louvor a Deus e à sua grandeza (v. 1) e termina com o louvor a Deus e à sua bondade, v. 14. Pois, seja qual for o assunto de nossos louvores, Deus deve ser tanto o Alfa quanto o Ômega deles. E, em particular, tudo o que se diz para honra da igreja deve redundar em honra do Deus da igreja.
O que aqui se diz para honra de Jerusalém é o seguinte:
I. O Rei do céu a reconhece como sua: ela é “a cidade do nosso Deus” (v. 1), que ele escolheu dentre todas as cidades de Israel para ali pôr o seu nome. A Sião ele disse coisas mais afetuosas do que jamais disse de qualquer outro lugar na terra. “Este é o meu repouso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei”, Salmos 132:13, 14.
É “a cidade do grande Rei” (v. 2), o Rei de toda a terra, que se agrada em declarar sua presença ali de maneira especial. Nosso Salvador cita isso para mostrar que jurar por Jerusalém é jurar profanamente pelo próprio Deus (Mateus 5:35), pois ela é “a cidade do grande Rei”. Ele a escolheu como residência especial de sua graça, assim como o céu é a residência de sua glória.
- Ela é iluminada pelo conhecimento de Deus. Em Judá Deus é conhecido, e seu nome é grande, mas especialmente em Jerusalém, sede principal dos sacerdotes, cujos lábios deviam guardar esse conhecimento. Em Jerusalém Deus é grande (v. 1), enquanto em outros lugares era tido em pouca conta, era tido como nada.
Feliz é o reino, a cidade, a família e o coração em que Deus é grande, em que ele ocupa o primeiro lugar, em que ele é tudo. Ali Deus é conhecido (v. 3); e onde é conhecido, será grande. Ninguém despreza a Deus senão os que o ignoram.
- Ela é dedicada à honra de Deus. Por isso é chamada monte de sua santidade, pois “Santidade ao SENHOR” está escrito sobre ela e sobre todos os seus utensílios, Zacarias 14:20, 21. Este é o privilégio da igreja de Cristo: ser nação santa, povo que lhe é peculiar.
Jerusalém, seu tipo, é chamada cidade santa, apesar de quão má era (Mateus 27:53), até que aquela igreja foi estabelecida, mas nunca depois disso.
- Ela é o lugar designado para o serviço e o culto solenes a Deus. Ali ele é grandemente louvado e “grandemente digno de louvor”, v. 1. Repare: quanto mais claras forem as manifestações que recebemos de Deus e de sua grandeza, mais se espera que abundemos em louvores a ele.
Os que traziam suas ofertas de todas as partes do país a Jerusalém tinham motivo de gratidão: Deus não só lhes concederia servir a ele desse modo, mas prometeria aceitá-los, encontrá-los com uma bênção e considerar-se louvado e honrado por seus serviços.
Nisso Jerusalém tipificava a igreja do evangelho; pois o pouco tributo de louvor que Deus recebe desta terra procede dessa igreja na terra, que por isso é o seu tabernáculo entre os homens.
- Ela é tomada sob sua proteção especial (v. 3): ele é conhecido como refúgio; isto é, mostrou ser tal refúgio, e é como tal que seus adoradores recorrem a ele ali. Os que o conhecem confiarão nele e o buscarão, Salmos 9:10.
Deus era conhecido como refúgio não apenas nas ruas, mas até nos palácios de Jerusalém; os homens importantes recorriam a ele e tinham comunhão com ele. E era provável que a religião florescesse na cidade quando reinava nos palácios.
- Por todas essas razões, Jerusalém, e especialmente o monte Sião, onde o templo foi construído, eram amados e admirados por todos: “formoso de situação” e “alegria de toda a terra”, v. 2. A localização necessariamente seria agradável sob todos os aspectos, pois a Sabedoria Infinita a escolheu para o lugar do santuário.
O que a tornava formosa era ser o monte da santidade, pois há beleza na santidade. Pelo pecado, esta terra está coberta de deformidade; por isso, aquele lugar, assim embelezado pela santidade, podia com razão ser chamado alegria de toda a terra. Toda a terra tinha motivo de alegrar-se porque Deus assim, de fato, habitaria com os homens sobre ela.
O monte Sião ficava ao lado norte de Jerusalém e, assim, abrigava a cidade dos ventos frios e ásperos que sopravam daquela direção; ou, se do norte se esperava bom tempo, eram desse modo orientados a voltar os olhos para Sião a fim de encontrá-lo.
II. Os reis da terra a temiam. Os moradores de Jerusalém haviam tido uma demonstração recente e muito notável de que Deus era conhecido nos palácios dela como refúgio. Seja qual tenha sido a ocasião, 1. Os moradores tiveram razões mais que suficientes para temer seus inimigos, pois “os reis se reuniram”, v. 4.
Os príncipes vizinhos se aliaram contra Jerusalém; suas cabeças e seus chifres, suas estratégias e suas forças, uniram-se para arruiná-la. Reuniram-se com todos os seus exércitos; passaram, avançaram e marcharam juntos, sem duvidar de que logo dominariam aquela cidade que deveria ser a alegria, mas era a inveja de toda a terra.
- Deus fez os inimigos temerem os moradores de Jerusalém. A própria visão da cidade deixou os inimigos consternados e conteve sua fúria, assim como a visão das tendas de Jacó amedrontou Balaão e o afastou de seu propósito de amaldiçoar Israel (Números 24:2): “viram-na, maravilharam-se e fugiram apressadamente”, v. 5.
Não foi Veni, vidi, vici — vim, vi, venci; pelo contrário, foi Veni, vidi, victus sum — vim, vi, fui vencido. Não que houvesse em Jerusalém algo visível tão temível; mas vê-la lhes trouxe à mente o que tinham ouvido sobre a presença especial de Deus naquela cidade e sobre a proteção divina sob a qual ela se encontrava.
Por meio disso, Deus imprimiu em sua mente terrores tais que os fizeram retirar-se às pressas. Embora fossem reis, embora fossem muitos em aliança, ainda assim sabiam que não podiam igualar-se à Onipotência; por isso, vieram-lhes temor e dor, v. 6.
Repare: Deus pode desalentar os mais valentes inimigos de sua igreja e logo pôr em dor os que vivem à vontade. O pavor que sentiram ao ver Jerusalém é comparado aqui às dores de uma mulher em trabalho de parto: agudas e penosas, às vezes repentinas (1 Tessalonicenses 5:3), inevitáveis e efeitos do pecado e da maldição.
A derrota assim infligida a seus desígnios contra Jerusalém é comparada à terrível destruição que uma tempestade violenta causa a uma frota: alguns navios se partem, outros ficam destroçados, todos se dispersam (v. 7): “Com vento oriental, quebrantas as naus de Társis”. Os bens em alto-mar ficam assim expostos.
Os terrores de Deus são comparados a um vento oriental (Jó 27:20, 21); eles lançarão os inimigos em confusão e desbaratarão todas as suas medidas. Quem conhece o poder da ira de Deus?
Versículos 8 a 14
O Cuidado de Deus com Sua Igreja.
Temos aqui o bom uso e proveito que se ensina ao povo de Deus a tirar de suas recentes manifestações gloriosas e graciosas em favor deles contra seus inimigos, para que essas manifestações contribuam para seu bem.
I. Que nossa fé na palavra de Deus seja assim confirmada. Se compararmos o que Deus fez com o que ele disse, verificaremos que, “como ouvimos, assim vimos” (v. 8); e o que vimos nos obriga a crer no que ouvimos.
“Assim como ouvimos falar de feitos nas providências antigas, nos tempos passados, também os vimos acontecer em nossos dias.” Repare: as manifestações posteriores de Deus em favor de seu povo, contra os inimigos dele e dos seus, concordam com as manifestações anteriores e devem fazer-nos lembrar delas.
“Assim como ouvimos na promessa e na predição, também vimos na realização e no cumprimento. Ouvimos que Deus é o Senhor dos Exércitos e que Jerusalém é a cidade do nosso Deus, querida por ele, objeto de seu cuidado especial; e agora vimos isso.”
“Vimos o poder de nosso Deus; vimos sua bondade; vimos seu cuidado e sua solicitude por nós: ele é um muro de fogo ao redor de Jerusalém e a glória no meio dela.”
Repare: nas grandes coisas que Deus fez e continua fazendo por sua igreja, convém reparar no cumprimento das Escrituras. Isso nos ajudará a compreender melhor tanto a própria providência quanto a passagem da Escritura que nela se cumpre.
II. Que nossa esperança na estabilidade e perpetuidade da igreja seja assim animada. “Do que vimos, comparado com o que ouvimos, na cidade do nosso Deus, podemos concluir que Deus a estabelecerá para sempre.” Isso não se cumpriu em Jerusalém (aquela cidade foi destruída há muito tempo, e toda a sua glória foi reduzida a pó), mas tem seu cumprimento na igreja do evangelho.
Temos certeza de que ela será estabelecida para sempre: está edificada sobre uma rocha, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela, Mateus 16:18. O próprio Deus se encarregou de estabelecê-la; é o Senhor quem fundou Sião, Isaías 14:32. E o que vimos, comparado com o que ouvimos, pode animar-nos a esperar na promessa de Deus sobre a qual a igreja está edificada.
III. Que nossa mente seja assim preenchida de bons pensamentos acerca de Deus. Do que ouvimos, vimos e esperamos, podemos tirar ocasião para pensar muito na bondade amorosa de Deus, sempre que nos reunimos no meio do seu templo, v. 9.
Todas as correntes de misericórdia que fluem até nós devem ser seguidas até a fonte da bondade amorosa de Deus. Não se devem a mérito algum de nossa parte, mas somente à misericórdia dele e ao favor especial que tem por seu povo. Por isso, devemos pensar nela com prazer, com frequência e com atenção constante. Em que assunto poderíamos meditar que fosse mais nobre, agradável ou proveitoso?
Devemos ter a bondade amorosa de Deus sempre diante dos olhos (Salmos 26:3), especialmente quando comparecemos diante dele em seu templo. Ao usufruirmos sem perturbação dos benefícios das ordenanças públicas, quando nos reunimos em seu templo e ninguém nos faz temer, devemos aproveitar a ocasião para pensar em sua bondade amorosa.
IV. Demos a Deus a glória pelas grandes coisas que fez por nós e falemos delas para sua honra (v. 10): Segundo é o seu nome, ó Deus, assim é o seu louvor, não só em Jerusalém, mas até os confins da terra.
Por meio da recente e extraordinária libertação de Jerusalém, Deus fez para si um nome; isto é, manifestou gloriosamente sua sabedoria, seu poder e sua bondade, e levou todas as nações vizinhas a reconhecê-los. Assim também se estendeu seu louvor: em todas as partes haveria pessoas que lhe dariam glória de modo correspondente.
Até onde chegar seu nome, chegará seu louvor; ao menos deveria chegar e, por fim, chegará, quando todos os confins da terra o louvarem, Salmos 22:27; Apocalipse 11:15. Alguns entendem por seu nome especialmente aquele seu nome glorioso, o Senhor dos Exércitos: segundo esse nome, assim é seu louvor, pois todas as criaturas, até os confins da terra, estão sob seu comando.
Mas seu povo deve reconhecer de modo especial a justiça de Deus em tudo o que ele faz em favor deles. A justiça enche sua mão direita; isto é, todas as operações do seu poder concordam com as regras eternas da equidade.
V. Que cada membro da igreja receba particularmente o consolo do que Deus faz pela igreja em geral (v. 11): Alegre-se o monte Sião, os sacerdotes e levitas que servem no santuário; e então regozijem-se todas as filhas de Judá, as cidades do interior e seus habitantes.
Que as mulheres, com cânticos e danças, como costumam fazer nas alegrias públicas, celebrem com gratidão a grande salvação que Deus operou por nós.
Repare: depois de darmos louvor a Deus, podemos desfrutar o prazer das libertações extraordinárias da igreja e alegrar-nos por causa dos juízos de Deus, isto é, das operações de sua providência. Podemos ver que todos são realizados com sabedoria (por isso chamados juízos) e atuam para o bem de sua igreja.
VI. Observemos diligentemente os exemplos e as provas da beleza, força e segurança da igreja e transmitamos fielmente nossas observações aos que virão depois de nós (v. 12, 13): “Rodeai Sião”. Alguns pensam que isso se refere à cerimônia do triunfo; os participantes dessa solenidade deveriam rodear as muralhas (como fizeram em Neemias 12:31), cantando e louvando a Deus.
Ao fazer isso, contem as torres e observem bem os baluartes, 1. Para engrandecerem a recente e maravilhosa libertação que Deus lhes concedeu. Que observem, admirados, que todas as torres e todos os baluartes conservam toda a sua força, sem estrago algum, e que os palácios permanecem belos, sem qualquer mácula.
Os reis que se reuniram contra a cidade não lhe causaram o menor estrago (v. 4). Contem isso à geração seguinte, como exemplo maravilhoso do cuidado de Deus por sua cidade santa: os inimigos não apenas deixaram de arruiná-la ou destruí-la, mas sequer conseguiram feri-la ou desfigurá-la.
- Para se fortalecerem contra o medo de outra ameaça semelhante no futuro. Assim, (1.) podemos entendê-lo literalmente acerca de Jerusalém e da fortaleza de Sião. Que as filhas de Judá vejam as torres e os baluartes de Sião com prazer igual ao terror com que os reis inimigos os viram, v. 5.
Jerusalém era geralmente considerada inexpugnável, como se vê em Lamentações 4:12. Todos os habitantes do mundo não teriam acreditado que um inimigo entraria pelas portas de Jerusalém; e eles não poderiam ter entrado se os habitantes não tivessem perdido, por causa do pecado, a defesa que possuíam.
Ponham o coração nos seus baluartes. Isso indica que os principais baluartes de Sião não eram objetos dos sentidos, para os quais poderiam voltar os olhos, mas objetos da fé, aos quais deviam voltar o coração.
De fato, ela era bem fortificada tanto pela natureza quanto pela arte; mas os baluartes em que mais deviam confiar eram a presença especial de Deus nela, a beleza da santidade com que ele a revestira e as promessas que fizera a respeito dela.
“Considerem a força de Jerusalém e contem-na às gerações futuras, para que não façam nada que a enfraqueça e, se algum dia ela estiver em perigo, não a entreguem covardemente ao inimigo como se fosse impossível defendê-la.”
Calvino observa aqui que, ao receberem a ordem de transmitir à posteridade uma descrição particular das torres, dos baluartes e dos palácios de Jerusalém, fica implícito que, com o tempo, todos seriam destruídos e deixariam de ser vistos. Caso contrário, por que seria necessário preservar sua descrição e história?
Quando os discípulos admiravam os edifícios do templo, seu Mestre lhes disse que, dentro de pouco tempo, não ficaria pedra sobre pedra, Mateus 24:1, 2. Portanto, (2.) isso certamente deve ser aplicado à igreja do evangelho, àquele monte Sião, Hebreus 12:22.
“Considerem suas torres, seus baluartes e seus palácios, para que sejam convidados e animados a unir-se a ela e a tomar parte nela. Vejam-na fundada em Cristo, a rocha, fortificada pelo poder divino e guardada por aquele que não dormita nem dorme.”
“Vejam que ordenanças preciosas são seus palácios e que promessas preciosas são seus baluartes. Contem isso à geração seguinte, para que ela abrace com propósito de coração os interesses da igreja e se apegue a ela.”
VII. Triunfemos em Deus e nas certezas que temos de sua bondade amorosa eterna, v. 14. Contem isso à geração seguinte; transmitam esta verdade como um depósito sagrado a seus descendentes: este Deus, que agora fez coisas tão grandes por nós, é nosso Deus para todo o sempre; ele é constante e imutável em seu amor e em seu cuidado por nós.
Se Deus é o nosso Deus, é nosso para sempre, não apenas ao longo de todas as eras do tempo, mas por toda a eternidade. Pois a bem-aventurança eterna dos santos glorificados consiste em que o próprio Deus estará com eles e será seu Deus, Apocalipse 21:3.
Se ele é o nosso Deus, será nosso guia, guia fiel e constante, para nos mostrar o nosso caminho e nele nos conduzir. Ele o será até a morte, que porá fim ao nosso caminho e nos levará ao nosso descanso. Ele nos conduzirá e guardará até o fim.
Será nosso guia acima da morte (segundo alguns); ele nos guiará de tal modo que nos colocará fora do alcance da morte, de modo que ela não poderá causar-nos qualquer prejuízo real. Será nosso guia para além da morte (segundo outros); ele nos conduzirá em segurança à felicidade do outro lado da morte, a uma vida em que não haverá mais morte.
Se tomarmos o Senhor por nosso Deus, ele nos conduzirá e levará em segurança até a morte, através da morte e para além da morte — descendo à morte e subindo outra vez à glória.