Matthew Henry

Salmos 46

Argumento

Este salmo nos anima a esperar e confiar em Deus, em seu poder, em sua providência e em sua presença graciosa com a igreja nos piores tempos. Também nos orienta a dar-lhe a glória pelo que fez e pelo que ainda fará por nós.

Provavelmente foi escrito por ocasião das vitórias de Davi sobre as nações vizinhas (2 Samuel 8) e do descanso que Deus lhe deu de todos os inimigos ao redor. Aqui somos ensinados: I. A encontrar consolo em Deus quando as circunstâncias parecem muito sombrias e ameaçadoras, vv. 1-5.

II. A mencionar, para louvor de Deus, as grandes coisas que ele fez por sua igreja contra os inimigos, vv. 6-9. III. A assegurar-nos de que Deus, que glorificou seu próprio nome, ainda o glorificará de novo, e a encontrar nisso consolo, v. 10, 11.

Ao cantá-lo, podemos aplicá-lo aos nossos inimigos espirituais e ser mais que vencedores sobre eles, ou aos inimigos públicos do reino de Cristo no mundo e às suas afrontas ameaçadoras. Devemos procurar conservar santa segurança e serenidade de espírito quando parecem mais temíveis.

Diz-se que Lutero, ao receber notícias desanimadoras, costumava dizer: “Venham, cantemos o salmo quarenta e seis.”

Deus, a Proteção de Seu Povo.

Ao Músico-Mor, para os Filhos de Corá. Cântico sobre Alamote.

Versículos 1 a 5

O salmista nos ensina aqui por seu próprio exemplo:

I. A triunfar em Deus, na relação dele conosco e em sua presença entre nós, especialmente quando tivemos alguma experiência recente de sua intervenção em nosso favor (v. 1): “Deus é nosso refúgio e fortaleza”. Descobrimos que ele é assim, ele se comprometeu a sê-lo e sempre o será.

Somos perseguidos? Deus é nosso refúgio; podemos correr para ele, estar seguros nele e saber que estamos seguros, com boas razões para isso (Provérbios 18:10).

Somos oprimidos por provações? Temos trabalho a fazer e inimigos com quem lutar? Deus é nossa fortaleza, que nos sustenta sob os fardos e nos capacita para todos os serviços e sofrimentos. Por sua graça, ele nos fortalecerá; nele podemos nos apoiar.

Estamos em angústia? Ele é auxílio para fazer por nós tudo aquilo de que precisamos: auxílio presente, auxílio encontrado — assim diz a palavra —, alguém que já experimentamos como tal, um auxílio sobre o qual podemos escrever Probatum est, “Foi provado”, assim como Cristo é chamado “pedra provada”, Isaías 28:16.

Ou é auxílio à mão, que nunca precisamos procurar, pois está sempre perto. Ou auxílio suficiente, adequado a cada situação e necessidade. Seja qual for o sentido, ele é auxílio sempre presente; não podemos desejar auxílio melhor nem encontraremos outro igual em qualquer criatura.

II. A triunfar sobre os maiores perigos: Deus é nossa fortaleza e nosso auxílio, um Deus que nos basta plenamente; por isso, não temeremos. Os que temem a Deus com santa reverência não precisam ficar aterrorizados pelo poder do inferno nem pelo da terra.

Se Deus é por nós, quem poderá ser contra nós de modo a nos causar algum dano? É nosso dever e privilégio ser assim destemidos. Isso demonstra consciência limpa, coração sincero e fé viva em Deus, em sua providência e em sua promessa.

“Não temeremos, ainda que a terra seja removida, ainda que todos os apoios que encontramos nas criaturas nos falhem e nos façam afundar; mais que isso, ainda que aquilo que deveria nos sustentar ameace nos engolir, como a terra engoliu Corá.” Para os filhos de Corá foi escrito este salmo e, segundo alguns, por eles.

Contudo, enquanto permanecermos junto de Deus e o tivermos a nosso favor, não temeremos, pois não há motivo para temer:

Si fractus illabatur orbis,
Impavidum ferient ruinæ.

Que o temível braço de Jove rasgue as esferas com o trovão;
sob a queda dos mundos, ele permanece destemido.

— Hor.

Observe aqui: 1. Quão ameaçador é o perigo. Suponhamos que a terra seja removida e lançada ao mar, que até os montes, as partes mais fortes e firmes da terra, fiquem sepultados no oceano insondável.

Suponhamos que o mar ruja e se enfureça, fazendo um barulho terrível, e que suas ondas espumantes se lancem contra a costa com tamanha violência que abalem até os montes, v. 3.

Ainda que reinos e Estados estejam confusos, envolvidos em guerras, agitados por tumultos e com os governos em revolução contínua, ainda que suas forças se unam contra a igreja e o povo de Deus, visando nada menos que sua ruína e chegando muito perto de alcançá-la, não temeremos, pois sabemos que todas essas provações terminarão bem para a igreja. Veja Salmos 93:4.

Se a terra for removida, têm razão para temer os que nela acumularam tesouros e a ela entregaram o coração. Não têm razão para temer os que acumularam tesouros para si no céu e esperam ser mais felizes quando a terra e todas as obras nela existentes forem queimadas.

Que se perturbem com a agitação das águas os que edificam a confiança sobre um fundamento tão instável, mas não os que são conduzidos à rocha mais alta que eles e nela encontram apoio firme.

  1. Quão bem fundamentado é o desafio a esse perigo, se considerarmos como a igreja está bem protegida e a causa pela qual nos preocupamos. Não é um interesse particular nosso que nos aflige; não, é a cidade de Deus, o lugar santo dos tabernáculos do Altíssimo. É pela arca de Deus que nosso coração estremece.

Quando consideramos o que Deus providenciou para o consolo e a segurança de sua igreja, vemos razão para manter o coração firme e acima do medo de más notícias. Temos aqui:

(1.) Alegria para a igreja, mesmo nos tempos mais sombrios e tristes (v. 4): há um rio cujas correntes a alegrarão, mesmo quando as águas do mar rugem e a ameaçam.

Isso alude às águas de Siloé, que corriam suavemente junto a Jerusalém (Isaías 8:6, 7). Embora não fossem muito profundas nem largas, foram aproveitadas na defesa de Jerusalém no tempo de Ezequias, Isaías 22:10, 11.

Isso, porém, deve ser entendido espiritualmente: a aliança da graça é o rio, e suas promessas são as correntes; ou o Espírito da graça é o rio (João 7:38, 39), e seus consolos são as correntes que alegram a cidade do nosso Deus.

A palavra e as ordenanças de Deus são rios e correntes com que ele alegra seus santos em dias nublados e escuros. O próprio Deus é, para sua igreja, “lugar de rios e correntes amplos”, Isaías 33:21.

As correntes que alegram a cidade de Deus não são impetuosas, mas suaves, como as de Siloé. Repare: os consolos espirituais transmitidos aos santos por sussurros suaves e silenciosos, que chegam sem chamar atenção, bastam para contrabalançar as ameaças mais estrondosas de um mundo irado e malicioso.

(2.) Firmeza para a igreja. Embora o céu e a terra sejam abalados, ainda assim “Deus está no meio dela; ela não será abalada”, v. 5. Deus assegurou à igreja sua presença especial e seu cuidado. Sua honra está comprometida com ela; estabeleceu nela seu tabernáculo e assumiu sua proteção. Por isso, ela não será abalada, isto é:

[1.] Não será destruída nem removida, como a terra pode ser no v. 2. A igreja sobreviverá ao mundo e estará em bem-aventurança quando ele estiver em ruínas. Ela foi construída sobre a rocha, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

[2.] Não será perturbada nem muito abalada pelo medo do resultado. Se Deus é por nós e está conosco, não precisamos nos abalar diante dos ataques mais violentos contra nós.

(3.) Livramento para a igreja, embora seus perigos sejam muito grandes: Deus a ajudará; quem, então, poderá prejudicá-la? Ele a ajudará em meio às provações, para que não sucumba. Mais que isso: quanto mais afligida ela for, mais se multiplicará.

Deus a ajudará a sair das provações, e isso bem cedo, quando a manhã aparecer. Ou seja, muito depressa, pois ele é auxílio presente (v. 1), e na hora mais oportuna, quando a situação chegar ao extremo e o socorro for mais bem-vindo.

Os fiéis em particular podem aplicar isso a si mesmos. Se Deus estiver em nosso coração, no meio de nós, por sua palavra que habita ricamente em nós, seremos firmados e ajudados. Confiemos, portanto, sem medo: tudo está bem e terminará bem.

Versículos 6 a 10

Confiança em Deus.

Estes versículos dão glória a Deus tanto como Rei das nações quanto como Rei dos santos.

I. Como Rei das nações, governa o mundo por seu poder e sua providência, fazendo prevalecer sua vontade em todos os assuntos dos filhos dos homens para sua própria glória. Faz o que quer entre os habitantes da terra, e ninguém pode perguntar: “Que fazes?”

  1. Ele refreia a fúria e quebra o poder das nações que se opõem a ele e aos seus interesses no mundo (v. 6): os gentios se enfureceram quando Davi subiu ao trono e quando foi estabelecido o reino do Filho de Davi; compare Salmos 2:1, 2.

Os reinos se agitaram com indignação e se levantaram de modo tumultuado e furioso para opor-se a ele. Mas Deus fez ouvir sua voz, falou-lhes em sua cólera, e eles se agitaram em outro sentido: foram lançados à confusão e à consternação, ficaram desordenados e viram fracassar todos os seus planos.

A própria terra se derreteu sob eles, de modo que não encontraram onde firmar os pés. Seus corações terrenos falharam de medo e se dissolveram como neve diante do sol. Juízes 5:4, 5 descreve semelhante derretimento do ânimo dos inimigos; veja também Lucas 21:25, 26.

  1. Quando lhe apraz sacar a espada e autorizá-la a agir, pode fazer grande destruição entre as nações e devastar tudo (v. 8): “Vinde, contemplai as obras do Senhor”. Elas devem ser observadas (Salmos 66:5) e investigadas, Salmos 111:2.

Devemos considerar todas as operações da Providência como obras do Senhor e nelas reparar nos atributos e propósitos dele. Reparemos especialmente nas desolações que ele fez na terra, entre os inimigos de sua igreja, que pensavam em desolar a terra de Israel.

A destruição que planejavam trazer sobre a igreja recaiu sobre eles mesmos. A guerra é uma tragédia que costuma destruir o palco onde é encenada.

Davi levou a guerra ao país dos inimigos, e que desolações ela causou ali! Cidades foram incendiadas, regiões devastadas e exércitos de homens abatidos e amontoados, pilha sobre pilha.

Venham ver os efeitos dos juízos devastadores e reverenciem a Deus; digam: “Quão terrível és em tuas obras!” (Salmos 66:3). Que todos os que se opõem a ele vejam isso com terror e esperem receber nas mãos o mesmo cálice de tremor.

Que todos os que o temem e nele confiam vejam isso com alegria e não temam as forças mais temíveis armadas contra a igreja. Que elas se preparem, mas serão despedaçadas.

  1. Quando lhe apraz embainhar a espada, põe fim às guerras das nações e as coroa com a paz, v. 9. A guerra e a paz dependem de sua palavra e vontade tanto quanto as tempestades e calmarias no mar (Salmos 107:25, 29).

Ele faz cessar as guerras até os confins da terra, às vezes por compaixão das nações, para que tenham tempo de respirar quando, depois de longas guerras entre si, ficaram sem fôlego.

Talvez ambos os lados estejam cansados da guerra e dispostos a deixá-la cessar. Encontram-se meios de conciliação; príncipes guerreiros são afastados, e pacificadores tomam seu lugar. Então o arco é quebrado por acordo, a lança é cortada e transformada em podadeira, e a espada é batida para formar uma relha de arado.

Os carros de guerra são queimados, pois já não há necessidade deles. Ou, antes, talvez se trate do que Deus faz, em outras ocasiões, em favor de seu povo: ele põe fim às guerras travadas contra eles com o propósito de arruiná-los.

Ele quebra o arco dos inimigos retesado contra seu povo. Nenhuma arma formada contra Sião prosperará, Isaías 54:17. A destruição total de Gogue e Magogue é descrita profeticamente pela queima de suas armas de guerra (Ezequiel 39:9, 10).

Isso indica também a segurança perfeita da igreja e a certeza de uma paz duradoura, que tornavam desnecessário guardar aquelas armas para uso próprio. Levar uma longa guerra a um bom desfecho é obra do Senhor, que devemos contemplar com admiração e gratidão.

II. Como Rei dos santos. Devemos reconhecer que suas obras são grandes e maravilhosas, Apocalipse 15:3. Ele faz e fará grandes coisas:

  1. Para sua própria glória (v. 10): “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. (1.) Que seus inimigos se aquietem e não ameacem mais, mas saibam, para seu terror, que ele é Deus, infinitamente superior a eles e certamente forte demais para que o vençam.

Que não mais se enfureçam, pois tudo será em vão: aquele que se assenta nos céus ri deles. Apesar de toda a sua malícia impotente contra o nome e a honra de Deus, ele será exaltado entre os gentios, não só entre seu povo, e será exaltado na terra, não só na igreja.

Os homens se exaltarão, seguirão seu próprio caminho e farão sua própria vontade. Saibam, porém, que Deus será exaltado: seguirá seu próprio caminho, fará sua própria vontade e glorificará seu nome. Naquilo em que agirem com soberba, ele se mostrará superior e os fará reconhecer isso.

(2.) Que seu próprio povo se aquiete, fique calmo e sereno e não trema mais, mas saiba, para seu consolo, que o Senhor é Deus, o único Deus, e será exaltado acima dos gentios. Deixemos que ele cuide de sua honra, cumpra seus desígnios e sustente sua causa no mundo.

Embora estejamos humilhados, ainda assim não desanimemos, pois sabemos que Deus será exaltado, e isso pode nos satisfazer. Ele agirá por amor de seu grande nome; então, pouco importa o que aconteça com nossos pequenos nomes.

Quando oramos: “Pai, glorifica teu nome”, devemos exercer a fé na resposta dada a essa oração quando o próprio Cristo a fez: “Já o glorifiquei e ainda o glorificarei outra vez”. Amém, Senhor, assim seja.

  1. Para a segurança e proteção de seu povo. Deus triunfa na primeira coisa: “Serei exaltado”; seu povo triunfa nesta, v. 7 e novamente v. 11. É o refrão do cântico: “O Senhor dos Exércitos está conosco”; ele está do nosso lado, toma nosso partido, está presente entre nós e preside sobre nós.

“O Deus de Jacó é nosso refúgio”; a ele podemos fugir, nele podemos confiar e ter certeza de segurança. Que todos os fiéis triunfem nisso.

(1.) Têm a presença de um Deus poderoso, de poder absoluto: “O Senhor dos Exércitos está conosco”. Deus é o Senhor dos Exércitos, pois todas as criaturas chamadas exércitos do céu e da terra estão prontas a atender a seu aceno e à sua ordem, e ele as usa como quer, como instrumentos de sua justiça ou de sua misericórdia.

Esse Senhor soberano está conosco, toma nosso partido, age conosco e prometeu que nunca nos deixará. Exércitos podem estar contra nós, mas não precisamos temê-los se o Senhor dos Exércitos estiver conosco.

(2.) Estão sob a proteção de um Deus em aliança, que não só pode ajudá-los, mas também se comprometeu, por honra e fidelidade, a ajudá-los. Ele é o Deus de Jacó, não só da pessoa de Jacó, mas do povo de Jacó; mais ainda, de todo o povo que ora, a descendência espiritual de Jacó, que lutou em oração.

Ele é nosso refúgio, em quem estamos abrigados e satisfeitos. Por sua providência, assegura nosso bem-estar quando há combates do lado de fora; por sua graça, acalma e firma nossa mente quando há temores do lado de dentro.

O Senhor dos Exércitos, o Deus de Jacó, esteve, está e estará conosco; foi, é e será nosso refúgio: o original abrange todos esses tempos. É apropriado acrescentar Selá. Repare nisso, encontre consolo e diga: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”


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