Salmos 45
Argumento
Este salmo é uma ilustre profecia sobre o Messias, o Príncipe: é evangelho do começo ao fim e aponta somente para ele, como noivo que desposa a igreja e como rei que nela governa e em favor dela reina.
É provável que nosso Salvador se refira a este salmo quando, mais de uma vez, compara o reino dos céus a uma solenidade nupcial, as bodas de um rei, Mateus 22:2; 25:1.
Não temos razão para pensar que ele se refira ao casamento de Salomão com a filha de Faraó.
Se eu entendesse que se refere a outro casamento além da união mística entre Cristo e sua igreja, preferiria aplicá-lo a algum dos casamentos de Davi, pois ele era homem de guerra, como o noivo aqui descrito, o que Salomão não era.
Mas entendo que se refere pura e exclusivamente a Jesus Cristo. É dele que o profeta fala aqui, dele e de nenhum outro homem; a ele o salmo é aplicado no Novo Testamento (v. 6, 7; Hebreus 1:8), e de nenhum outro pode ser entendido. O prefácio fala da excelência do cântico, v. 1.
O salmo trata: I. Do noivo real, que é Cristo: 1. A excelência transcendente de sua pessoa, v. 2. 2. A glória de suas vitórias, vv. 3-5. 3. A justiça de seu governo, v. 6, 7. 4. O esplendor de sua corte, v. 8, 9.
II. Da noiva real, que é a igreja: 1. Seu consentimento conquistado, v. 10, 11. 2. As núpcias celebradas, vv. 12-15. 3. A descendência desse casamento, v. 16, 17.
Ao cantar este salmo, nosso coração deve estar cheio de pensamentos elevados sobre Cristo, de completa submissão ao seu governo e satisfação nesse governo, e do desejo ardente de ampliar e perpetuar sua igreja no mundo.
Cântico Nupcial; Glórias do Messias.
Ao Músico-Mor, sobre Susãim, para os Filhos de Corá, Masquil. Cântico de Amores.
Versículos 1 a 5
Alguns entendem que Susãim, no título, designa um instrumento de seis cordas; outros tomam a palavra em seu sentido primitivo, de lírios ou rosas, provavelmente espalhados com outras flores nas solenidades nupciais.
Nesse caso, ela se aplica facilmente a Cristo, que se chama “a rosa de Sarom e o lírio dos vales”, Cantares de Salomão 2:1.
É um cântico de amores, sobre o santo amor entre Cristo e sua igreja. É um cântico do bem-amado, preparado para ser entoado pelas virgens, companheiras da noiva (v. 14). Diz-se que o grupo de virgens que acompanha o Cordeiro no monte Sião canta um cântico novo, Apocalipse 14:3, 4.
I. O prefácio (v. 1) fala de: 1. A dignidade do assunto. É uma boa matéria, e é pena que uma arte tão comovente quanto a poesia alguma vez seja empregada em má matéria. Trata-se do Rei, o Rei Jesus, de seu reino e de seu governo.
Repare: quem fala de Cristo fala de uma boa matéria; nenhum assunto é tão nobre, tão abundante, tão fecundo, tão proveitoso e tão apropriado para nós. É uma vergonha que essa boa matéria não seja mais frequente em nossas conversas.
- A excelência do tratamento. Este cântico era uma confissão feita com a boca da fé que havia no coração, a respeito de Cristo e de sua igreja.
(1.) A matéria havia sido bem elaborada, como merecia: “Meu coração compõe”, expressão que talvez se refira ao Espírito de profecia que ditou o salmo a Davi, o Espírito de Cristo que estava nos profetas, 1 Pedro 1:11.
Mas também se aplica às meditações e aos sentimentos piedosos que havia no coração dele, de cuja abundância sua boca falava.
Devemos pensar nas coisas de Cristo com toda a seriedade possível, com pensamentos firmes e com o fogo do santo amor, especialmente quando vamos falar delas. Falamos melhor de Cristo e das coisas divinas quando falamos de coração sobre aquilo que nos aqueceu e tocou.
Jamais devemos falar precipitadamente das coisas de Cristo; antes, devemos pesar bem de antemão o que temos a dizer, para não falarmos mal. Veja Eclesiastes 5:2. (2.) A matéria foi bem expressa: “Falarei das coisas que compus”. Ele se expressaria:
[1.] Com toda a clareza possível, como alguém que compreendia e sentia aquilo de que falava. Não: “Falarei das coisas que ouvi de outros”, pois isso seria falar de maneira decorada; mas: “das coisas que eu mesmo estudei”.
Repare: devemos declarar aos outros o que Deus fez em nossa alma, assim como o que fez em favor dela, Salmos 66:16.
[2.] Com toda a alegria, liberdade e fluência possíveis: “Minha língua é como a pena de um escritor ágil, guiada em cada palavra pelo coração, assim como a pena é guiada pela mão”. Chamamos os profetas de escritores da Escritura, embora, na realidade, fossem apenas a pena.
A língua do argumentador mais perspicaz e do orador mais eloquente é apenas a pena com que Deus escreve o que lhe agrada. Por que discutir com a pena se coisas amargas são escritas contra nós, ou idolatrá-la se escreve em nosso favor?
Davi não apenas falou o que pensava de Cristo, mas o escreveu, para que se difundisse mais longe e durasse mais tempo.
Sua língua era como a pena de um escritor ágil, que não deixa escapar nada. Quando o coração compõe uma boa matéria, seria pena que a língua não fosse como a pena de um escritor ágil para deixá-la registrada.
II. Nestes versículos, o Senhor Jesus é apresentado:
- Como o mais belo e amável em si mesmo. Este é um cântico nupcial; por isso, as excelências transcendentes de Cristo são representadas pela beleza do noivo real (v. 2): “Tu és mais belo que os filhos dos homens”, mais belo que qualquer um deles. Ele propôs (v. 1) falar do Rei, mas imediatamente lhe dirige a palavra.
Os que admiram e amam Cristo gostam de ir até ele e dizer-lhe isso. Assim devemos professar nossa fé, que vê sua beleza, e nosso amor, que nela se compraz: “Tu és belo, tu és mais belo que os filhos dos homens”.
Repare: Jesus Cristo é em si mesmo, e aos olhos de todos os que creem, mais amável e encantador que os filhos dos homens.
As belezas do Senhor Jesus, como Deus e como Mediador, superam muito as da natureza humana em geral e as dos mais amáveis e excelentes entre os filhos dos homens. Há mais em Cristo para conquistar nosso amor do que há ou pode haver em qualquer criatura. Nosso amado é mais que qualquer outro amado.
As belezas deste mundo inferior e seus encantos ameaçam afastar nosso coração de Cristo; por isso, precisamos compreender quanto ele supera todas elas e quanto é mais digno de nosso amor.
- Como o grande favorito do céu. Ele é mais belo que os filhos dos homens, pois Deus fez mais por ele que por qualquer filho dos homens, e toda a bondade divina para com os filhos dos homens existe por sua causa e passa por suas mãos, por sua boca. (1.) Ele tem graça, e a tem em nosso favor: “A graça foi derramada em teus lábios”.
Por sua palavra, sua promessa e seu evangelho, a boa vontade de Deus nos é revelada, e a boa obra de Deus começa e prossegue em nós. Ele recebeu de Deus toda a graça, todos os dons necessários para qualificá-lo para sua obra e seu ofício de Mediador, para que de sua plenitude pudéssemos receber, João 1:16.
Ela não foi derramada apenas em seu coração, para a força e o ânimo dele próprio, mas também em seus lábios, para que, pelas palavras de sua boca em geral e pelos beijos de sua boca dirigidos a cada pessoa que crê, ele transmitisse tanto santidade quanto consolo.
Dessa graça derramada em seus lábios vieram as palavras graciosas que todos admiravam, Lucas 4:22.
O evangelho da graça foi derramado em seus lábios, pois começou a ser anunciado pelo Senhor, e dele nós o recebemos. Ele tem as palavras da vida eterna. “O espírito de profecia foi posto em teus lábios”: assim diz a versão caldaica.
(2.) Ele tem a bênção, e a tem em nosso favor. “Portanto, porque és o grande depositário da graça divina para uso e benefício dos filhos dos homens, Deus te abençoou para sempre e fez de ti uma bênção eterna, de modo que em ti todas as nações da terra sejam abençoadas”.
Onde Deus concede sua graça, concederá sua bênção. Em Cristo Jesus somos abençoados com bênçãos espirituais, Efésios 1:3.
- Como vitorioso sobre todos os seus inimigos. O noivo real é um homem de guerra, e as núpcias não o dispensam do campo de batalha (como permitia a lei, Deuteronômio 24:5); ou melhor, levam-no à batalha.
Ele deve resgatar sua esposa do cativeiro pela força da espada, conquistá-la e conquistar em favor dela, para então casar-se com ela. Aqui temos:
(1.) Seus preparativos para a guerra (v. 3): “Cinge tua espada à coxa, ó Poderosíssimo!” A palavra de Deus é a espada do Espírito. Pelas promessas dessa palavra e pela graça nelas contida, as almas são levadas a querer submeter-se a Jesus Cristo e tornar-se seus súditos leais.
Pelas ameaças dessa palavra e pelos juízos executados segundo elas, os que persistem em resistir a Cristo serão, no devido tempo, abatidos e arruinados.
Pelo evangelho de Cristo, muitos judeus e gentios se converteram; por fim, a nação judaica foi destruída, conforme as predições a esse respeito, por sua inimizade implacável contra o evangelho, e o paganismo foi completamente abolido.
A espada cingida à coxa de Cristo é a mesma que, segundo se diz, sai de sua boca, Apocalipse 19:15. Quando o evangelho foi enviado para ser pregado a todas as nações, nosso Redentor cingiu a espada à coxa.
(2.) Sua expedição para essa guerra santa: ele sai com sua glória e sua majestade, como um grande rei que entra em campanha com muita pompa e magnificência: sua espada, sua glória e sua majestade.
Em seu evangelho, aparece extraordinariamente grande e excelente, resplandecente e bendito, na honra e na majestade que o Pai lhe conferiu.
Cristo, tanto em sua pessoa quanto em seu evangelho, não tinha glória nem majestade exteriores, nada para encantar os homens (pois não tinha forma nem beleza), nada para intimidá-los, pois tomou a forma de servo. Toda a sua glória e majestade eram espirituais.
Há tanta graça e, portanto, glória, naquela palavra: “Quem crer será salvo”; há tanto terror e, portanto, majestade, naquela outra: “Quem não crer será condenado”, que podemos dizer que o Redentor sai em glória e majestade montado no carro desse evangelho, resumido nessas palavras.
“Em tua majestade, cavalga próspero”, v. 4. Prospera, cavalga. Isso exprime a promessa de seu Pai de que ele prosperaria segundo a boa vontade do Senhor e repartiria o despojo com os fortes, em recompensa por seus sofrimentos. Não podem deixar de prosperar aqueles a quem Deus diz: “Prospera”, Isaías 53:10-12.
Também expressa os bons desejos de seus amigos, que oram para que ele prospere na conversão das almas a si e na destruição de todas as forças das trevas que se rebelam contra ele. “Venha o teu reino; avança e prospera.”
(3.) A causa gloriosa em que está empenhado: por causa da verdade, da mansidão e da justiça, que, de certo modo, haviam afundado e se perdido entre os homens, e que Cristo veio recuperar e resgatar.
[1.] O próprio evangelho é verdade, mansidão e justiça; ordena pela força da verdade e da justiça, pois o cristianismo indiscutivelmente as tem a seu favor.
Ainda assim, o evangelho deve ser promovido com mansidão e gentileza, 1 Coríntios 4:12, 13; 2 Timóteo 2:25. [2.] Cristo aparece nele em sua verdade, mansidão e justiça; essas são sua glória e sua majestade, e por causa delas ele prosperará.
Os homens passam a crer nele porque ele é verdadeiro, a aprender dele porque ele é manso, Mateus 11:29 (a gentileza de Cristo tem grande força, 2 Coríntios 10:1), e a submeter-se a ele porque é justo e governa com equidade.
[3.] O evangelho, à medida que prevalece entre os homens, estabelece em seu coração a verdade, a mansidão e a justiça: corrige seus erros pela luz da verdade, domina suas paixões pela força da mansidão e governa seu coração e sua vida pelas leis da justiça.
Cristo veio, ao estabelecer seu reino entre os homens, restaurar essas glórias a um mundo degenerado e sustentar a causa da verdade, da mansidão e da justiça, governantes legítimas sob ele que haviam sido depostas pelo erro, pela malícia e pela iniquidade.
(4.) O êxito de sua expedição: “Tua mão direita te ensinará coisas terríveis”; ele experimentará um maravilhoso poder divino acompanhando seu evangelho para torná-lo vitorioso, e seus efeitos serão coisas terríveis.
[1.] Para converter e trazer almas a sua sujeição, é necessário fazer coisas terríveis: o coração deve ser compungido, a consciência deve ser sobressaltada, e os terrores do Senhor devem abrir caminho para seus consolos. Isso se realiza pela mão direita de Cristo. O Consolador convencerá, João 16:8.
[2.] Na conquista das portas do inferno e de seus defensores, na destruição do judaísmo e do paganismo, acontecerão coisas terríveis, que farão o coração dos homens desfalecer de medo (Lucas 21:26) e levarão grandes homens e comandantes a pedir às rochas e montes que caiam sobre eles, Apocalipse 6:15.
O versículo seguinte descreve essas coisas terríveis (v. 5): “Tuas flechas são afiadas no coração dos inimigos do rei”. Primeiro, os que eram inimigos por natureza são assim feridos para que sejam subjugados e reconciliados.
Os convencimentos são como as flechas do arco, afiadas no coração em que se cravam e que levam as pessoas a cair diante de Cristo, em sujeição às suas leis e ao seu governo.
Os que assim caem sobre esta pedra serão despedaçados, Mateus 21:44. Segundo, os que persistem em sua inimizade são feridos para serem arruinados. As flechas dos terrores de Deus são afiadas em seu coração e os fazem cair sob seu domínio, para se tornarem estrado de seus pés, Salmos 110:1.
Os que não quiseram que ele reinasse sobre eles serão trazidos e mortos diante dele (Lucas 19:27); os que não se submeterem a seu cetro de ouro serão despedaçados por sua vara de ferro.
Versículos 6 a 9
Majestade e Glória de Cristo.
Temos aqui o noivo real que exerce juízo em seu trono e mantém sua corte com esplendor.
I. Aqui ele exerce juízo em seu trono. É Deus Pai quem diz ao Filho: “Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre”, como se vê em Hebreus 1:8, 9, onde essa passagem é citada para provar que ele é Deus e tem nome mais excelente que os anjos. O Mediador é Deus; do contrário, não teria sido capaz de realizar a obra de Mediador nem apto a usar sua coroa. Quanto ao seu governo, observe:
- Sua eternidade: dura para todo o sempre. Prosseguirá na terra durante todas as eras, apesar de toda a oposição das portas do inferno; e, em seus frutos e consequências benditos, durará tanto quanto os dias do céu, acompanhando a própria linha da eternidade.
Talvez mesmo então a glória do Redentor e a felicidade dos remidos avancem em progresso contínuo e infinito. Pois foi prometido que não só seu governo, mas também o crescimento de seu governo e de sua paz não terão fim (Isaías 9:7). Mesmo quando o reino for entregue a Deus Pai (1 Coríntios 15:24), o trono do Redentor permanecerá.
- Sua equidade: “O cetro de teu reino”, a administração de teu governo, “é reto”, inteiramente conforme ao conselho e à vontade eternos de Deus, que são a regra e o fundamento eternos do bem e do mal. Em tudo o que faz, Cristo não prejudica nenhum de seus súditos, mas repara o mal sofrido pelos injustiçados: ele ama a justiça e odeia a maldade, v. 7.
Ele próprio ama praticar a justiça e odeia praticar a maldade; ama os que praticam a justiça e odeia os que praticam a maldade. Pela santidade de sua vida, pelo mérito de sua morte e pelo grande desígnio de seu evangelho, demonstrou que ama a justiça: por seu exemplo, por sua satisfação e por seus preceitos, introduziu a justiça eterna.
Também demonstrou que odeia a maldade, pois jamais o ódio de Deus ao pecado se manifestou de maneira tão evidente quanto nos sofrimentos de Cristo.
- Seu estabelecimento e sua elevação: “Por isso Deus, o teu Deus” (Cristo, como Mediador, chamou Deus de seu Deus, João 20:17, porque foi comissionado por ele e é o cabeça dos que são acolhidos na aliança com ele), “te ungiu com óleo de alegria”.
“Por isso” significa: (1.) “Para esse teu governo justo, Deus te deu seu Espírito, essa unção divina, a fim de te capacitar para tua missão”, Isaías 61:1. “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque ele me ungiu.” Aquilo para o que Deus o chamou, também o capacitou a fazer, Isaías 11:2.
O Espírito é chamado óleo de alegria por causa do prazer de que Cristo estava cheio ao levar adiante sua missão. Foi ungido com o Espírito acima de todos os seus companheiros, acima de todos os que foram ungidos, sacerdotes ou reis.
(2.) “Em recompensa pelo que fizeste e sofreste para promover a justiça e destruir o pecado, Deus te ungiu com óleo de alegria e te elevou a todas as honras e alegrias de tua condição exaltada”. Porque ele se humilhou, Deus o exaltou sobremaneira, Filipenses 2:8, 9.
Sua unção representa o poder e a glória aos quais foi elevado; ele foi investido de todas as dignidades e autoridades do Messias. Ser ungido com óleo de alegria representa a alegria que lhe foi proposta (é assim que sua exaltação é expressa, Hebreus 12:2), tanto na luz do rosto do Pai (Atos 2:28) quanto no êxito de sua missão, que ele verá e com o qual ficará satisfeito, Isaías 53:11.
Com essa alegria ele foi ungido acima de todos os seus companheiros, acima de todos os que creem, seus irmãos, que também recebem a unção: eles em medida limitada, ele sem medida. Mas o apóstolo cita a passagem para provar sua superioridade sobre os anjos, Hebreus 1:4, 9. A salvação dos pecadores é alegria para os anjos (Lucas 15:10), mas muito mais para o Filho.
II. Ele mantém sua corte com esplendor e magnificência. 1. Observam-se suas vestes reais, não pela pompa, que poderia causar temor aos espectadores, mas por serem agradáveis e pelos bons aromas com que foram perfumadas (v. 8): cheiram a mirra, aloés e cássia (o óleo de alegria com que ele e suas vestes foram ungidos).
Esses eram alguns dos ingredientes do óleo santo da unção que Deus prescreveu, do qual não se devia fazer semelhante para uso comum (Êxodo 30:23, 24). Esse óleo era figura da unção do Espírito que Cristo, o grande sumo sacerdote de nossa profissão de fé, recebeu; parece, portanto, que há aqui uma referência a ela.
É o aroma desses bons unguentos, de suas graças e de seus consolos, que atrai as almas a ele (Cantares de Salomão 1:3, 4) e o torna precioso para os que creem, 1 Pedro 2:7.
- Diz-se que seus palácios reais são de marfim, considerados, na época, os mais magníficos. Lemos que Acabe construiu uma casa de marfim, 1 Reis 22:39. As moradas de luz nas alturas são os palácios de marfim, de onde vêm todas as alegrias tanto de Cristo quanto dos que creem, e onde essas alegrias existirão para sempre em perfeição.
Por esses palácios ele se alegra, e todos os que lhe pertencem com ele, pois entrarão na alegria de seu Senhor. 3. As belezas de sua corte resplandecem intensamente. Nas aparições públicas da corte, quando sua pompa é exibida, supõe-se que nada contribui tanto para ela quanto o esplendor das damas, ao qual se faz alusão aqui, v. 9.
(1.) Os que creem, individualmente, são comparados aqui às damas da corte, ricamente trajadas em honra do soberano: filhas de reis estão entre suas mulheres honradas. Podemos supor que sua aparência, seu porte e seus adornos, pela grandeza de sua linhagem, superam os das demais. Todos os verdadeiros crentes nasceram do alto: são filhos do Rei dos reis.
Eles comparecem diariamente diante do trono do Senhor Jesus com suas orações e seus louvores, o que de fato é uma honra para eles, e ele se agrada de considerar isso também uma honra para si.
O fato de filhas de reis estarem entre suas mulheres honradas, ou damas de honra, sugere que os reis de quem elas descendem devem ser tributários e dependentes dele; por isso, considerariam vantajoso para suas filhas ocupar um cargo a seu serviço.
(2.) A igreja em geral, formada por esses crentes individuais, é comparada à própria rainha, a rainha consorte, a quem ele desposou mediante uma aliança eterna. Ela está à sua direita, perto dele, e dele recebe honra; veste o traje mais rico, ouro de Ofir, roupas tecidas com fios de ouro ou com uma corrente de ouro e outros adornos do mesmo metal.
Esta é a noiva, a esposa do Cordeiro. Suas graças, que são seus adornos, são comparadas ao linho fino, puro e branco (Apocalipse 19:8), por sua pureza, e aqui ao ouro de Ofir, por seu valor. Pois, assim como nossa redenção, também nosso adorno não se deve a coisas corruptíveis, mas ao sangue precioso do Filho de Deus.
Versículos 10 a 17
A Glória da Igreja.
Esta última parte do salmo se dirige à noiva real, que está à direita do noivo real. Deus, que disse ao Filho: “Teu trono é para todo o sempre”, diz estas palavras à igreja, à qual aqui chama de filha por causa de seu noivado com o Filho.
I. Ele lhe fala dos deveres que se esperam dela e que devem ser considerados por todos os que entram em relação com o Senhor Jesus. Ela deve ouvir, considerar e inclinar o ouvido, isto é, submeter-se às condições do noivado e dispor-se a cumpri-las. Esse é o modo de tirar proveito da palavra de Deus.
Quem tem ouvidos deve ouvir e prestar muita atenção; quem ouve deve considerar e pesar devidamente o que ouviu; quem considera deve inclinar-se e ceder à força do que lhe foi apresentado. E o que se exige aqui?
- Ela deve renunciar a todos os outros.
(1.) Aqui está a lei de seu noivado: “Esquece teu próprio povo e a casa de teu pai”, conforme a lei do casamento.
Ela não deve conservar o afeto que sentia por eles nem desejar voltar a eles; deve afastar toda lembrança desse tipo, não apenas de seu povo, que lhe era querido, mas da casa de seu pai, que lhe era ainda mais querida, para que não se incline a olhar para trás, como a mulher de Ló para Sodoma.
Quando Abraão deixou sua terra natal em obediência ao chamado de Deus, nem sequer se lembrava do país de onde havia saído. Isso mostra: [1.] Como era necessário aos convertidos do judaísmo ou do paganismo à fé em Cristo eliminar totalmente o fermento antigo e não trazer para sua profissão cristã nem as cerimônias judaicas nem as idolatrias pagãs.
Elas produziriam no cristianismo uma religião tão misturada quanto a dos samaritanos. [2.] Como é necessário a todos nós, quando entregamos nosso nome a Jesus Cristo, odiar pai e mãe e tudo o que nos é querido neste mundo, em comparação com ele; isto é, amá-los menos do que a Cristo, sua honra e nossa participação nele, Lucas 14:26.
(2.) Aqui se dá à noiva real um bom ânimo para romper inteiramente suas antigas alianças: “Assim o rei desejará muito tua beleza”. Isso indica que misturar os antigos ritos e costumes, judaicos ou gentílicos, à sua religião mancharia sua beleza e poria em risco seu lugar no afeto do noivo real; mas, se ela se conformasse por inteiro à vontade dele, ele se agradaria dela.
A beleza da santidade, tanto na igreja quanto em cada pessoa que crê, é muito preciosa e amável aos olhos de Cristo. Onde ela se encontra, ele diz: “Este é meu descanso para sempre; aqui habitarei, pois o desejei”. Entre os candeeiros de ouro ele caminha com prazer, Apocalipse 2:1.
- Ela deve reverenciá-lo, amá-lo, honrá-lo e obedecer-lhe: “Ele é teu Senhor; adora-o”. A igreja deve estar sujeita a Cristo como a esposa ao marido (Efésios 5:24), chamá-lo de Senhor, como Sara chamava Abraão, e obedecer-lhe (1 Pedro 3:6). Assim, deve não só submeter-se a seu governo, mas prestar-lhe honras divinas.
Devemos adorá-lo como Deus e como nosso Senhor. Pois esta é a vontade de Deus: que todos honrem o Filho como honram o Pai; ou melhor, quando o fazem, considera-se que honram o Pai. Se confessamos que Cristo é Senhor e lhe prestamos a devida homenagem, fazemos isso para a glória de Deus Pai, Filipenses 2:11.
II. Ele lhe fala das honras destinadas a ela.
- Grandes homenagens lhe serão prestadas, e ricos presentes lhe serão trazidos (v. 12): “A filha de Tiro”, cidade rica e esplêndida, a filha do rei de Tiro estará ali com um presente. Cada família real das redondezas enviará um ramo, como representante de toda a família, para buscar seu favor e conquistar influência junto a ela.
Até os ricos entre o povo, cuja riqueza poderia parecer dispensá-los da dependência da corte, rogarão seu favor por causa daquele a quem ela está prometida, para que por meio dela possam fazer dele um amigo.
Os judeus, os que alegam ser judeus, cuja riqueza se tornou proverbial (“tão rico quanto um judeu”), virão adorar diante dos pés da igreja na era de Filadélfia e saberão que Cristo a amou, Apocalipse 3:9.
Quando os gentios, convertidos à fé em Cristo, se unem à igreja, vêm com um presente, 2 Coríntios 8:5; Romanos 15:16. Quando se entregam, juntamente com tudo o que possuem, à honra de Cristo e ao serviço de seu reino, vêm com um presente.
- Ela será muito esplêndida e altamente estimada aos olhos de todos: (1.) Por suas qualidades pessoais, os dons de sua mente, que todos admirarão (v. 13): “A filha do rei é toda gloriosa por dentro”. Repare: a glória da igreja é espiritual, e essa é de fato toda a glória; é a glória da alma, e é a alma que constitui a pessoa. É glória aos olhos de Deus e garantia antecipada da glória eterna.
A glória dos santos não está ao alcance dos olhos carnais. Assim como sua vida, sua glória está escondida com Cristo em Deus; o homem natural não pode conhecê-la, pois ela se discerne espiritualmente. Mas os que a discernem a valorizam muito.
Vejamos aqui a verdadeira glória a que devemos aspirar: não a que ostenta uma aparência vistosa na carne, mas a que está no homem oculto do coração, naquilo que é incorruptível (1 Pedro 3:4) e cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus, Romanos 2:29.
(2.) Por suas roupas ricas. Embora toda a sua glória esteja no interior, sendo isso o que verdadeiramente lhe confere valor, ainda assim suas vestes também são de ouro trabalhado.
A conduta dos cristãos, com que se apresentam ao mundo, deve ser enriquecida de boas obras: não obras vistosas e espalhafatosas, como tinta e enfeite, mas substancialmente boas, como ouro. Também deve ser cuidadosa e exata, como o ouro trabalhado, elaborado com muito zelo e cautela.
- Suas núpcias serão celebradas com muita honra e alegria (v. 14, 15): “Ela será levada ao rei”, assim como o Senhor Deus levou a mulher ao homem (Gênesis 2:22), o que era uma figura desse casamento místico entre Cristo e sua igreja. Ninguém é levado a Cristo senão aqueles que o Pai conduz, e ele se encarregou disso; nenhum outro é levado ao rei (v. 14) de modo a entrar no palácio do rei, v. 15.
(1.) Isso indica que a noiva será levada a Cristo de duas maneiras. [1.] Na conversão das almas a Cristo: então são prometidas a ele em casamento, desposadas em particular como virgens castas, 2 Coríntios 11:2; Romanos 7:4. [2.] Na conclusão do corpo místico e na glorificação de todos os santos no fim dos tempos.
Então a noiva, esposa do Cordeiro, estará inteiramente pronta, quando todos os que pertencem à eleição da graça forem chamados à fé e chamados para casa, e todos estiverem reunidos em Cristo, 2 Tessalonicenses 2:1.
Então terão chegado as bodas do Cordeiro (Apocalipse 19:7; 21:2), e as virgens sairão ao encontro do noivo, Mateus 25:1. Então entrarão nos palácios do rei, nas moradas celestiais, para estarem sempre com o Senhor.
(2.) Em ambas essas formas de desposar, observe, para honra da noiva real: [1.] Suas vestes nupciais: roupas bordadas, a justiça de Cristo e as graças do Espírito, ambas feitas com primor pela sabedoria divina. [2.] Suas acompanhantes: as virgens que são suas companheiras, as virgens prudentes que têm azeite nos vasos assim como nas lâmpadas.
Estas, unidas à igreja, permanecem com ela e a seguem; entrarão para as bodas. [3.] A alegria com que as núpcias serão celebradas: “Com alegria e regozijo ela será levada”.
Quando o filho pródigo volta para o pai, é justo alegrar-nos e regozijar-nos (Lucas 15:32); e, quando chegam as bodas do Cordeiro, “alegremo-nos e regozijemo-nos” (Apocalipse 19:7). Pois o dia de seu casamento é o dia da alegria de seu coração, Cantares de Salomão 3:11.
- A descendência desse casamento será ilustre (v. 16): “Em lugar de teus pais estarão teus filhos”. Em lugar da igreja do Antigo Testamento, cuja ordem envelhecera e estava prestes a desaparecer (Hebreus 8:13), como pais que se retiram, haverá uma igreja do Novo Testamento, formada por gentios, enxertada na mesma oliveira e participante de sua raiz e de sua seiva (Romanos 11:17).
Os filhos da desolada serão mais numerosos e mais eminentes que os filhos da casada, Isaías 54:1. Essa promessa a Cristo tem o mesmo sentido de Isaías 53:10: “Ele verá sua descendência”. E estes serão feitos príncipes em toda a terra: pessoas de todas as nações serão trazidas à sujeição de Cristo e assim feitas príncipes, reis e sacerdotes para nosso Deus, Apocalipse 1:6.
Ou isso pode indicar que haveria um número muito maior de reis cristãos do que jamais houve de reis judeus: estes apenas em Canaã, aqueles em toda a terra. Seriam pais e mães que alimentam a igreja, que se nutrirá dos seios dos reis. São príncipes feitos por Cristo, pois por ele os reis reinam e os príncipes decretam a justiça.
- O louvor desse casamento será perpétuo nos louvores do noivo real (v. 17): “Farei que teu nome seja lembrado”. Seu Pai lhe deu um nome acima de todo nome e aqui promete perpetuá-lo, mantendo em cada geração uma sucessão de ministros e cristãos que sustentem seu nome.
Assim ele permanecerá para sempre (Salmos 72:17), ao ser lembrado por todas as gerações, pois a herança do cristianismo não será interrompida. Portanto, porque se lembrarão de Cristo em todas as gerações, eles o louvarão para todo o sempre.
Os que ajudam a sustentar a honra de Cristo na terra verão sua glória no céu, participarão dela e o louvarão para sempre. Na esperança confiante de nossa felicidade eterna no outro mundo, mantenhamos sempre, em nossa geração, a lembrança de Cristo como o único caminho para lá.
E, certos de que o reino do Redentor continuará no mundo, transmitamos sua lembrança às próximas gerações, para que seu nome permaneça para sempre, tanto quanto os dias do céu.