Salmos 43
Argumento
É provável que este salmo tenha sido composto na mesma ocasião que o anterior. Como não tem título, pode ser considerado um apêndice dele. Quando a enfermidade logo voltou, Davi recorreu imediatamente ao mesmo remédio, pois o havia registrado em seu livro com a anotação probatum est, “foi provado”.
O segundo versículo deste salmo é quase igual ao nono do anterior, assim como o quinto é exatamente igual ao décimo primeiro daquele. O próprio Cristo, que tinha o Espírito sem medida, quando houve ocasião orou pela segunda e pela terceira vez, “dizendo as mesmas palavras” (Mateus 26:44).
Neste salmo: I. Davi recorre a Deus por causa das injúrias que seus inimigos lhe fizeram, v. 1, 2. II. Ora a Deus para que lhe restitua o livre desfrute das ordenanças públicas e promete aproveitá-las bem, v. 3, 4.
III. Procura aquietar a agitação do próprio espírito com viva esperança e confiança em Deus (v. 5). Se, ao cantar este salmo, nos empenharmos nisso, cantaremos com graça no coração.
Versículos 1 a 5
Recursos e Petições.
Davi se dirige aqui a Deus, pela fé e pela oração, como seu juiz, sua força, seu guia, sua alegria e sua esperança, com sentimentos e palavras apropriados.
I. Como seu Juiz, seu justo Juiz, que ele sabia que o julgaria e que, consciente da própria integridade, sabia que julgaria em seu favor (v. 1): “Julga-me, ó Deus, e defende a minha causa.” Havia quem o acusasse; perante essas pessoas, ele era réu.
Dos tribunais delas, onde fora injustamente declarado culpado e condenado, recorre ao tribunal do céu, a corte suprema, pedindo que a sentença proferida contra ele seja revogada e que sua inocência seja demonstrada.
Havia também quem lhe tivesse feito injúrias; contra essas pessoas, ele é o autor da ação e apresenta sua queixa ao vingador das injustiças, pedindo justiça em seu favor e contra elas. Observe: 1. Quem eram os inimigos com quem travava essa luta.
Havia um grupo de homens pecadores, que ele chama de nação ímpia ou sem misericórdia. Os que não têm misericórdia mostram com isso que são ímpios, pois quem tem algum temor ou amor por seu senhor terá compaixão dos conservos.
E havia um homem mau à frente deles, enganador e injusto, muito provavelmente Saul, que não só não demonstrou bondade a Davi como o tratou da maneira mais pérfida e desonesta. Se Davi se referia a Absalão, o caráter dele não era melhor.
Enquanto houver homens tão maus fora do inferno, até nações deles, não será estranho que homens bons, ainda fora do céu, recebam tratamento duro e vil.
Alguns pensam que Davi, pelo espírito de profecia, destinou este salmo ao uso dos judeus em seu cativeiro na Babilônia, e que os caldeus são a nação ímpia mencionada aqui. O salmo lhes era muito aplicável, mas apenas como outras passagens semelhantes da Escritura, nenhuma das quais é de interpretação particular.
Talvez Deus o tenha destinado ao uso deles, tenha Davi feito isso ou não. 2. Qual é sua oração a respeito dos inimigos: “Julga-me.” Quanto à desavença que Deus tinha com ele por causa do pecado, pede: “Não entres em juízo comigo, pois então serei condenado.”
Quanto à desavença que seus inimigos tinham com ele, pede: “Senhor, julga-me, pois sei que serei justificado; defende minha causa contra eles, toma meu partido e, em tua providência, vem em meu socorro.”
Quem tem uma causa honesta pode esperar que Deus a defenda. “Defende minha causa de modo a livrar-me deles, para que não consigam fazer contra mim o que desejam.” Devemos considerar nossa causa suficientemente defendida se formos libertos, ainda que nossos inimigos não sejam destruídos.
II. Como sua força, sua força toda-suficiente: assim ele vê Deus (v. 2): “Tu és o Deus da minha força, meu Deus, minha força, de quem vêm todas as minhas forças, em quem me fortaleço e que muitas vezes me fortaleceste.”
“Sem ti, sou fraco como água e totalmente incapaz de fazer ou sofrer qualquer coisa por ti.” Davi andava então em luto, privado das alegrias espirituais, mas encontrava em Deus o Deus de sua força.
Se não conseguimos nos consolar em Deus, podemos nos apoiar nele e receber sustentação espiritual quando nos faltam os deleites espirituais. Davi apresenta isso a Deus: “Tu és o Deus de quem dependo como minha força; por que, então, me rejeitas?”
Isso era um engano, pois Deus nunca rejeitou ninguém que nele confiasse, quaisquer que fossem as impressões melancólicas que essas pessoas tivessem de sua própria condição. “Tu és o Deus da minha força; por que, então, meu inimigo é forte demais para mim, e por que ando em luto por causa de seu poder opressor?”
É difícil conciliar a grande força dos inimigos da igreja com o poder todo-poderoso do Deus da igreja. Mas o dia em que todos os inimigos dele se tornarem estrado de seus pés mostrará como essas coisas se conciliam.
III. Como seu guia, seu guia fiel (v. 3): Davi pede que Deus o conduza e o leve ao seu monte santo. Ele ora: 1. Para que Deus, por sua providência, o traga de volta do exílio e lhe abra novamente o caminho para desfrutar livremente os privilégios do santuário de Deus.
Seu coração está voltado para o monte santo e para os tabernáculos, não para os consolos da família, os cargos na corte ou as diversões. Poderia suportar a falta dessas coisas, mas está impaciente por rever os tabernáculos de Deus. Nada lhe parece tão amável quanto eles; de bom grado seria levado de volta para lá.
Para isso, ora: “Envia a tua luz e a tua verdade.” Que eu receba isso como fruto de teu favor, que é luz, e como cumprimento de tua promessa, que é verdade. Para sermos felizes, nada mais precisamos desejar além do bem que flui do favor de Deus e está incluído em sua promessa.
Essa misericórdia, essa verdade, bastam; são tudo. Quando as vemos nas providências de Deus, sabemos que estamos sob condução muito segura. Repare: aqueles a quem Deus conduz, ele os conduz a seu monte santo e a seus tabernáculos.
Por isso, os que alegam ser conduzidos pelo Espírito e, ainda assim, voltam as costas às ordenanças instituídas, certamente enganam a si mesmos.
- Para que Deus, por sua graça, o leve à comunhão consigo mesmo e o prepare para vê-lo e fruir dele no outro mundo. Alguns escritores judeus entendem que a luz e a verdade se referem ao Messias, o Príncipe, e a Elias, seu precursor.
Eles vieram em resposta às orações do Antigo Testamento. Mas devemos continuar orando pela luz e pela verdade de Deus, pelo Espírito de luz e verdade, que supre a falta da presença corporal de Cristo, para nos conduzir ao mistério da piedade e nos guiar pelo caminho do céu.
Quando Deus envia sua luz e sua verdade ao nosso coração, elas nos guiarão ao mundo superior, tanto em todas as nossas devoções quanto em todos os nossos objetivos e expectativas. Se seguirmos conscienciosamente essa luz e essa verdade, certamente nos levarão ao monte santo celestial.
IV. Como sua alegria, sua alegria suprema. Se Deus o conduzir aos tabernáculos, se lhe restituir as antigas liberdades, Davi sabe muito bem o que deve fazer: “Então irei ao altar de Deus”, v. 4. Ele se aproximará quanto puder de Deus, sua alegria suprema.
Repare: 1. Os que vão aos tabernáculos devem ir ao altar. Os que participam das ordenanças devem preparar-se para participar também das ordenanças especiais, as que mais comovem e mais comprometem. Quanto mais nos aproximamos e nos apegamos a Deus, melhor.
Os que vão ao altar de Deus devem cuidar para que nele se aproximem do próprio Deus com o coração, com um coração sincero. Em vão participamos das santas ordenanças se nelas não nos aproximamos do Deus santo.
Os que se aproximam de Deus devem fazê-lo tendo-o como sua alegria suprema, não apenas como sua futura bem-aventurança, mas como sua alegria presente. Não uma alegria comum, mas suprema, muito superior a todas as alegrias dos sentidos e do tempo.
A expressão no original é muito enfática: a Deus, a alegria da minha alegria, ou do meu triunfo. Seja qual for a coisa em que nos alegremos ou triunfemos, Deus deve ser a alegria dela. Toda a nossa alegria nela deve terminar nele e passar da dádiva ao doador.
- Quando nos aproximamos de Deus como nossa alegria suprema, os consolos que recebemos nele devem ser o tema dos louvores que lhe oferecemos como Deus e nosso Deus: “À harpa te louvarei, ó Deus, meu Deus!”
Davi se destacava na harpa (1 Samuel 16:16, 18) e louvaria a Deus com aquilo em que se destacava, pois Deus deve ser louvado com o melhor que temos. É justo que assim seja, pois ele é o melhor.
V. Como sua esperança, sua esperança que nunca falha, v. 5. Aqui, como antes, Davi entra em desavença consigo mesmo por seu abatimento e desânimo e reconhece que agiu mal ao ceder a eles, sem ter motivo para isso: “Por que estás abatida, ó minha alma?”
Em seguida, aquieta-se na expectativa confiante de dar glória a Deus: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei”; e de desfrutar a glória com Deus: ele é a saúde do meu semblante e meu Deus. Nunca é demais insistir nisso, pois é por isso que devemos viver e morrer.