Salmos 42
Argumento
Se o livro de Salmos é, como alguns o chamaram, um espelho ou uma superfície refletora dos sentimentos piedosos e devotos, este salmo, em particular, merece esse título tanto quanto qualquer outro e é igualmente apropriado para acender e despertar em nós tais sentimentos.
Aqui os desejos piedosos são fortes e ardentes; esperanças e temores piedosos, alegrias e tristezas travam uma luta, mas a paixão agradável sai vencedora.
Ou podemos entendê-lo como um conflito entre os sentidos e a fé: os sentidos levantam objeções, e a fé responde. I. A fé começa com santos desejos por Deus e pela comunhão com ele, v. 1, 2.
II. Os sentidos se queixam da escuridão e das nuvens da condição presente, agravadas pela lembrança do que antes desfrutavam, v. 3, 4.
III. A fé silencia a queixa com a certeza de um bom desfecho final, v. 5. IV. Os sentidos renovam suas queixas sobre o estado sombrio e melancólico presente, v. 6, 7. V. A fé, apesar disso, sustenta o coração com a esperança de que o dia amanhecerá, v. 8.
VI. Os sentidos repetem suas lamentações (v. 9, 10) e, entre suspiros, reiteram a mesma objeção que antes haviam apresentado acerca de suas aflições. VII. A fé tem a última palavra (v. 11), para silenciar as queixas dos sentidos; e, embora ela seja quase a mesma do v. 5, agora prevalece e vence.
O título não nos diz quem escreveu este salmo, mas é muito provável que tenha sido Davi. Podemos supor que ele o compôs quando, pela perseguição de Saul ou pela rebelião de Absalão, foi afastado do santuário e privado do privilégio de prestar culto a Deus nas ordenanças públicas.
Seu tom é muito semelhante ao de Salmos 63; por isso, podemos presumir que foi escrito pela mesma mão e na mesma ocasião, ou em ocasião semelhante. Ao cantá-lo, se estivermos sob aflição externa ou angústia interior, podemos aplicar a nós mesmos as expressões melancólicas que aqui encontramos.
Se não estivermos, devemos, ao cantá-las, ter compaixão daqueles cuja situação elas descrevem com tanta clareza e agradecer a Deus por não ser esse o nosso caso. Mas, quanto às passagens que expressam e despertam santos desejos por Deus e dependência dele, devemos nos esforçar sinceramente para elevar nossa mente ao sentimento que elas exprimem.
O Desejo de Comunhão com Deus; Lamento pela Perda das Ordenanças Públicas.
Versículos 1 a 5
Ao Músico-Mor, Masquil, para os Filhos de Corá.
O amor santo por Deus, como o bem supremo e nossa felicidade, é o poder da piedade, a própria vida e alma da religião, sem o qual todas as profissões e práticas exteriores não passam de casca e cadáver. Aqui temos algumas expressões desse amor. Aqui está:
I. O amor santo sedento, o amor que toma asas e se eleva em santos desejos pelo Senhor e pela lembrança de seu nome (v. 1, 2): sua alma suspira, tem sede de Deus, de nada mais que Deus, mas sempre de mais e mais dele. Observe:
- Quando Davi expressou esse desejo veemente por Deus. Foi: (1.) Quando ficou privado das oportunidades exteriores de prestar culto a Deus, ao ser banido para a terra do Jordão, muito longe dos átrios da casa de Deus.
Repare: às vezes Deus nos ensina eficazmente a conhecer o valor das misericórdias pela falta delas e aguça nosso apetite pelos meios da graça ao nos privar desses meios.
Estamos propensos a enjoar do maná quando o temos em abundância, mas ele será muito precioso para nós se algum dia conhecermos sua escassez. (2.) Quando ficou privado, em grande medida, do consolo interior que costumava ter em Deus. Agora andava em luto, mas continuava suspirando.
Repare: se Deus, por sua graça, produziu em nós desejos sinceros e ardentes por ele, podemos nos consolar com esses desejos quando não temos os deleites arrebatadores que por vezes encontramos em Deus. Lamentar a ausência de Deus é prova tão certa de que o amamos quanto alegrar-se nele.
Antes de registrar as dúvidas, os temores e as dores que o abalaram profundamente, o salmista declara que considerava o Deus vivo seu bem supremo, que havia posto nele o coração e estava decidido a viver e morrer firmado nele. Tendo lançado a âncora desde o início, consegue atravessar a tempestade.
- Qual é o objeto de seu desejo e aquilo de que tem tanta sede. (1.) Ele suspira por Deus, tem sede de Deus; não das próprias ordenanças, mas do Deus das ordenanças.
Uma alma agraciada encontra pouca satisfação nos átrios de Deus se não encontra ali o próprio Deus: “Ah, se eu soubesse onde encontrá-lo!” Se pudesse receber mais sinais de seu favor, das graças e dos consolos de seu Espírito e das garantias antecipadas de sua glória.
(2.) Nisso, contempla Deus como o Deus vivo, que tem vida em si mesmo e é a fonte de vida e de toda a felicidade para os que lhe pertencem.
Ele é o Deus vivo não apenas em contraste com ídolos mortos, obras das mãos dos homens, mas também com todos os confortos passageiros deste mundo, que perecem com o uso. Almas vivas jamais podem descansar em algo inferior ao Deus vivo.
(3.) Ele anseia por ir e comparecer diante de Deus: para se fazer conhecido por ele, pois tem consciência da própria sinceridade; para servi-lo, assim como um servo comparece diante de seu senhor, prestar-lhe reverência e receber suas ordens; e para lhe prestar contas, pois dele procede nosso juízo.
Comparecer diante de Deus é tão desejado pelos íntegros quanto temido pelos hipócritas. O salmista sabia que não poderia ir aos átrios de Deus sem despesa, pois a lei determinava que ninguém comparecesse diante de Deus de mãos vazias. Ainda assim, anseia por ir e não se ressente do custo.
- Qual é a intensidade desse desejo. É muito insistente: sua alma suspira, sua alma tem sede, o que indica não só a sinceridade, mas também a força de seu desejo.
Seu anseio pela água do poço de Belém nada era comparado a isso. Ele o compara ao suspiro de um cervo ou veado, por natureza quente e seco, sobretudo ao de um macho perseguido, pelos riachos de água.
Com tamanho ardor uma alma agraciada deseja a comunhão com Deus; com tanta impaciência sente sua falta; considera tão impossível satisfazer-se com qualquer coisa inferior a ela; e, quando a oportunidade retorna, é tão insaciável ao desfrutar seus prazeres que continua sedenta do pleno gozo de Deus no reino celestial.
II. O amor santo que lamenta o afastamento presente de Deus e a falta dos benefícios das ordenanças solenes (v. 3): “Minhas lágrimas têm sido meu alimento de dia e de noite” durante esta ausência forçada da casa de Deus. Sua situação era triste; ele se ajustou a ela, sentiu seus efeitos e deu sinais de tristeza.
Até o profeta real foi um profeta que chorava quando lhe faltavam os consolos da casa de Deus. Suas lágrimas se mesclavam ao alimento; ou melhor, eram seu alimento de dia e de noite.
Ele se nutria, banqueteava-se de suas próprias lágrimas, quando havia tão justa razão para elas; e se satisfazia ao perceber quanto seu coração era tocado por uma privação dessa natureza.
Observe: ele não achou suficiente derramar uma ou duas lágrimas ao se separar do santuário nem fazer, entre lágrimas, uma oração de despedida. Enquanto persistiu a ausência forçada daquele lugar de seu deleite, não erguia os olhos sem chorar dia e noite.
Repare: quem fica privado dos benefícios das ordenanças públicas sente continuamente sua falta e, portanto, deve lamentar continuamente essa privação até que possa desfrutá-las de novo. Duas coisas agravavam sua dor:
- As palavras de descrédito com que seus inimigos o atormentavam: “Eles me dizem continuamente: Onde está o teu Deus?” (1.) Porque estava longe da arca, símbolo da presença de Deus. Julgando o Deus de Israel pelos deuses dos pagãos, concluíram que ele havia perdido seu Deus.
Repare: enganam-se os que pensam que, ao nos tirar as Bíblias, os ministros e as assembleias solenes, nos tiraram também Deus. Embora Deus nos tenha ligado a essas coisas quando estão ao nosso alcance, não se ligou a elas.
Sabemos onde está nosso Deus e onde encontrá-lo, mesmo quando não sabemos onde está sua arca nem onde encontrá-la. Onde quer que estejamos, há um caminho aberto em direção ao céu.
(2.) Como Deus não apareceu imediatamente para libertá-lo, concluíram que o havia abandonado; mas nisso também se enganaram.
O fato de os santos terem perdido todos os demais amigos não significa que perderam seu Deus. Contudo, com essa vil insinuação contra Deus e seu povo, acrescentaram aflição ao aflito, que era precisamente o que pretendiam.
Nada é mais penoso para uma alma agraciada do que aquilo que procura abalar sua esperança e confiança em Deus.
- A lembrança de suas liberdades e do que antes desfrutava, v. 4. Filho, lembre-se das coisas boas que recebeu: esse lembrete agrava muito as coisas ruins; tamanho é o peso que nossa capacidade de recordar e antecipar acrescenta ao sofrimento do tempo presente.
Davi se lembrou dos dias antigos, e então sua alma se derramou dentro dele; ele se desfez em lágrimas, e esse pensamento quase lhe partiu o coração.
Derramou a alma dentro de si em tristeza e, depois, derramou-a diante de Deus em oração. Mas o que causou esse doloroso abatimento do espírito?
Não foi a lembrança dos prazeres da corte ou dos entretenimentos de sua própria casa, dos quais agora estava afastado, mas a lembrança do livre acesso que antes tinha à casa de Deus e do prazer de participar ali das solenidades sagradas.
(1.) Ele ia à casa de Deus, embora em seu tempo fosse apenas uma tenda; ou melhor, se este salmo foi escrito, como muitos pensam, durante a perseguição de Saul, a arca estava então numa casa particular, 2 Samuel 6:3. Mas a simplicidade, a pouca visibilidade e os inconvenientes do lugar não diminuíam seu apreço por aquele símbolo sagrado da presença divina.
Davi era membro da corte, príncipe, homem de honra e ocupado com negócios; ainda assim, frequentava diligentemente a casa de Deus e participava das ordenanças públicas, mesmo nos dias de Saul, quando ele e seus grandes homens não consultavam a arca, 1 Crônicas 13:3. Não importava o que os outros fizessem: Davi e sua casa serviriam ao Senhor.
(2.) Ele ia com a multidão e não considerava indigno de sua posição liderar uma multidão no culto a Deus. Ou melhor, estar acompanhado de uma multidão aumentava seu prazer. Por isso ela é mencionada duas vezes, como algo cuja falta ele muito lamentava naquele momento.
Quanto mais pessoas no serviço de Deus, melhor; isso o torna mais parecido com o céu e é um auxílio palpável para nosso consolo na comunhão dos santos.
(3.) Ele ia com voz de alegria e louvor, não apenas com alegria e louvor no coração, mas também com expressões exteriores deles, proclamando sua alegria e anunciando os grandes louvores de seu Deus.
Repare: quando prestamos culto a Deus nas ordenanças públicas, temos motivo para fazê-lo com alegria e gratidão, recebendo para nós o consolo e dando a Deus a glória da liberdade de acesso a ele.
(4.) Ele ia celebrar dias santos, não com alegria vã e divertimentos, mas com práticas religiosas. Os dias solenes são vividos com mais consolo nas assembleias solenes.
III. O amor santo que espera (v. 5): “Por que estás abatida, ó minha alma?” Sua tristeza tinha um motivo muito bom; ainda assim, não devia ultrapassar os devidos limites nem prevalecer a ponto de abater-lhe o ânimo. Por isso, para encontrar alívio, ele conversa com o próprio coração: “Vem, minha alma, tenho algo a dizer-te em tua tristeza”. Consideremos:
- A causa dela. Você está abatida, como alguém que se curva e afunda sob um fardo, Provérbios 12:25. Você está inquieta, confusa e desordenada; por que está assim? Pode-se entender isso como uma pergunta investigativa: “Pese-se devidamente a causa desta inquietação e veja-se se é uma causa justa”.
Em muitos casos, nossa inquietação desapareceria diante de um exame rigoroso dos seus fundamentos e razões.
Por que estou abatido? Há motivo, um motivo real? Não têm outros mais motivos, sem fazer tanto alarde? Não temos, ao mesmo tempo, motivos para nos animar? Ou pode-se entender como uma pergunta de repreensão: os que conversam muito com o próprio coração frequentemente terão ocasião de censurá-lo, como Davi aqui.
“Por que desonro a Deus desse modo com meu abatimento melancólico? Por que desanimo os outros e cometo tanta injúria contra mim mesmo? Posso dar uma boa explicação para este tumulto?”
- A cura: “Espera em Deus, pois ainda o louvarei”. A confiança que nasce da fé em Deus é remédio eficaz contra o desânimo persistente e a inquietação do espírito. Por isso, quando nos repreendemos, devemos mandar-nos esperar em Deus.
Quando a alma se agarra a si mesma, afunda; se se agarra ao poder e à promessa de Deus, mantém a cabeça fora da água.
Espere em Deus: (1.) Para que ele receba glória de nós: “Ainda o louvarei”; minha condição mudará de tal modo que não me faltará matéria para o louvor, e meu espírito mudará de tal modo que não me faltará disposição para louvar.
A maior honra e felicidade do homem, bem como o maior desejo e esperança de toda pessoa boa, é ser para Deus um nome e um louvor.
Que é a coroa da felicidade do céu senão o fato de que ali louvaremos a Deus para sempre? E que nos sustenta em nossas aflições atuais senão saber que ainda louvaremos a Deus, que elas não impedirão nem diminuirão nossos aleluias sem fim?
(2.) Para que encontremos consolo nele. Nós o louvaremos pelo auxílio de seu semblante, por seu favor, pelo apoio e pela satisfação que recebemos dele.
Os que sabem valorizar e aproveitar a luz do semblante de Deus nela encontrarão auxílio adequado, oportuno e suficiente nos piores tempos, bem como matéria constante para o louvor.
A expectativa confiante que Davi tinha disso o impediu de afundar; ou melhor, impediu-o até de se abater. Sua harpa foi um paliativo para a melancolia de Saul, mas sua esperança foi uma cura eficaz para a própria melancolia.
Versículos 6 a 10
Queixas e Consolos.
As queixas e os consolos se alternam aqui, como antes, tal qual o dia e a noite no curso da natureza.
I. Ele se queixa do abatimento do espírito, mas se consola com os pensamentos acerca de Deus, v. 6. 1. Em suas aflições. Sua alma estava abatida, e ele vai a Deus e lhe diz isso: “Ó meu Deus! Minha alma está abatida dentro de mim”.
Quando estamos aflitos por qualquer motivo, é grande apoio ter livre acesso a Deus, liberdade de falar diante dele e poder expor-lhe as causas de nosso abatimento.
Davi havia conversado com o próprio coração acerca de sua amargura e ainda não encontrara alívio; por isso, volta-se para Deus e expõe a aflição diante dele.
Repare: quando não conseguimos aliviar o espírito sobrecarregado argumentando conosco, devemos tentar orar a Deus e entregar-lhe nossa causa. Não podemos acalmar estes ventos e ondas, mas sabemos quem pode.
- Em suas devoções. Sua alma se elevou e, sentindo a doença muito dolorosa, recorreu à devoção como a um remédio soberano.
Minha alma está submersa; portanto, para que não afunde, vou lembrar-me de você, meditar em você, invocá-lo e ver o que isso fará para sustentar meu espírito. Repare: o modo de esquecer a sensação de nossas misérias é lembrar-nos do Deus de nossas misericórdias.
Foi um caso incomum quando o salmista se lembrou de Deus e ficou perturbado, Salmos 77:3. Muitas vezes se lembrara de Deus e fora consolado; por isso, agora recorreu a esse recurso.
Ele havia sido levado até os confins da terra de Canaã para ali se abrigar da fúria de seus perseguidores: às vezes à região do Jordão e, quando descoberto ali, à terra dos hermonitas ou a um monte chamado Mizar, isto é, pequeno monte.
Mas: (1.) Aonde quer que fosse, levava consigo sua religião. Em todos esses lugares se lembrava de Deus, elevava-lhe o coração e mantinha sua comunhão secreta com ele.
Este é o consolo dos exilados, dos errantes, dos viajantes e dos estrangeiros em terra estranha: undique ad cælos tantundem est viæ — onde quer que estejam, há um caminho aberto em direção ao céu.
(2.) Onde quer que estivesse, conservava seu afeto pelos átrios da casa de Deus. Da terra do Jordão ou do alto dos montes, costumava lançar um olhar demorado, um olhar de saudade, na direção do santuário, desejando estar ali.
Nem a distância nem o tempo podiam fazê-lo esquecer aquilo em que tanto pensava e que guardava tão perto do coração.
II. Ele se queixa dos sinais do desagrado de Deus contra si, mas se consola com a esperança de que o favor divino retornará no devido tempo.
- Ele via suas aflições como provenientes da cólera de Deus, e isso o desanimava (v. 7): “Um abismo chama outro abismo”: uma aflição vem logo atrás de outra, como se fosse chamada a apressar-se em segui-la; e as trombas-d'água de Deus dão o sinal e soam o alarme da guerra. Pode tratar-se do terror e da inquietação de sua mente por temer a ira de Deus.
Um pensamento assustador convocava outro e lhe abria caminho, como costuma acontecer com pessoas melancólicas. Ele era dominado e submerso por um dilúvio de dor, como o do mundo antigo, quando se abriram as janelas do céu e se romperam as fontes do grande abismo.
Ou é uma alusão a um navio no mar durante uma grande tempestade, sacudido pelas ondas ruidosas que o cobrem, Salmos 107:25. Quaisquer que sejam as ondas e vagas de aflição que em algum momento nos cubram, devemos chamá-las ondas e vagas de Deus, para nos humilharmos sob sua poderosa mão.
Também podemos nos animar com a esperança de que, embora ameaçados, não seremos destruídos, pois as ondas e vagas estão sob controle divino. O Senhor nas alturas é mais poderoso que o ruído dessas muitas águas.
Que os homens bons não estranhem se forem provados por muitas e variadas aflições, vindas uma após outra; Deus sabe o que faz, e logo eles também saberão.
Jonas, no ventre da baleia, usou essas palavras de Davi, Jonas 2:3 (são exatamente as mesmas no original), e, no caso dele, era literalmente verdade que todas as ondas e vagas de Deus haviam passado sobre ele. O livro de Salmos foi organizado de modo a alcançar a situação de cada pessoa.
- Ele esperava que seu livramento viesse do favor de Deus (v. 8): “Contudo, o Senhor ordenará sua bondade amorosa”. As coisas estão ruins, mas não permanecerão assim para sempre. Non si male nunc et olim sic erit — embora as circunstâncias estejam agora em má situação, talvez nem sempre seja assim.
Depois da tempestade virá a calmaria, e essa perspectiva o sustentava quando um abismo chamava outro abismo.
Observe: (1.) O que ele esperava de Deus: “O Senhor ordenará sua bondade amorosa”. Ele vê o favor de Deus como a fonte de todo o bem que espera. Isso é vida; é melhor que a vida; e com esse favor Deus reunirá aqueles de quem, por breve cólera, escondeu o rosto, Isaías 54:7, 8.
Diz-se que Deus ordena seu favor quando o concede. Isso indica que o favor é gratuito: não podemos alegar merecê-lo; é concedido soberanamente, pois ele dá como rei. Também indica sua eficácia: ele anuncia sua bondade amorosa e faz com que a ouçamos; fala, e o que disse se realiza.
Ele ordena o livramento (Salmos 44:4), ordena a bênção (Salmos 133:3), como quem tem autoridade. Ao ordenar sua bondade amorosa, manda baixar as ondas e vagas, e elas lhe obedecerão.
Fará isso durante o dia, pois a bondade amorosa de Deus fará nascer o dia na alma em qualquer momento. Embora o choro tenha durado uma noite, uma longa noite, a alegria virá pela manhã.
(2.) O que prometia de si mesmo a Deus. Se Deus ordenar sua bondade amorosa para ele, ele irá ao encontro dela e lhe dará as boas-vindas com seus melhores sentimentos e devoções. [1.] Ele se alegrará em Deus: “À noite, seu cântico estará comigo”.
Devemos agradecer à noite pelas misericórdias que recebemos durante o dia; quando os outros dormem, devemos estar louvando a Deus.
Veja Salmos 119:62: “À meia-noite me levantarei para dar graças”. No silêncio e na solidão, quando nos afastamos da agitação do mundo, devemos nos deleitar com os pensamentos sobre a bondade de Deus. Ou, na noite da aflição: “Antes de amanhecer o dia em que Deus ordenará sua bondade amorosa, cantarei louvores na expectativa dele”.
Mesmo na tribulação, os santos podem alegrar-se na esperança da glória de Deus, cantar na esperança e louvar na esperança, Romanos 5:2, 3. É prerrogativa de Deus dar cânticos à noite, Jó 35:10.
[2.] Ele buscará a Deus em constante dependência dele: sua oração será dirigida ao Deus de sua vida. A expectativa de misericórdia fundada na fé não deve substituir nossas orações por ela, mas avivá-las.
Deus é o Deus de nossa vida, em quem vivemos e nos movemos, o autor e doador de todos os nossos consolos. A quem, então, recorreríamos em oração senão a ele? E que bem não podemos esperar dele?
Considerá-lo o Deus de nossa vida daria vida às nossas orações, pois nos apresentamos para fazer pedidos pela nossa vida e pela vida de nossa alma.
III. Ele se queixa da insolência dos inimigos, mas se consola em Deus como seu amigo, vv. 9-11.
- Sua queixa é que os inimigos o oprimiam e desacreditavam, o que o afetava profundamente. (1.) Oprimiam-no a tal ponto que ele andava de luto dia após dia, de lugar em lugar, v. 9.
Embora fosse maltratado como ninguém jamais fora, não explodia em paixões indecorosas; chorava silenciosamente sua dor e andava de luto. Não podemos censurá-lo por isso.
Quem na verdade ama seu país e procura seu bem inevitavelmente se entristece ao ver-se perseguido e maltratado como se fosse inimigo dele.
Ainda assim, Davi não deveria ter concluído que Deus o esquecera e rejeitara, nem ter-lhe apresentado a queixa como se Deus, ao permitir que fosse pisoteado, lhe fizesse tanto mal quanto os que o pisoteavam: “Por que ando de luto?” e “Por que te esqueceste de mim?”
Podemos apresentar queixas a Deus, mas não temos licença para nos queixar dele desse modo. (2.) As palavras de descrédito eram tão cortantes que pareciam uma espada em seus ossos, v. 10.
Ele já havia mencionado o descrédito que o feria tão profundamente e o repete aqui: “Eles me dizem diariamente: Onde está o teu Deus?”
Esse descrédito o afligia muito, tanto porque desonrava a Deus quanto porque pretendia abalar sua esperança nele. Já lhe custava muito mantê-la em alguma medida, e ela tendia a fraquejar por si mesma.
- Seu consolo é que Deus é sua rocha (v. 9): rocha sobre a qual construir e na qual buscar abrigo. A rocha dos séculos, em quem há força eterna, seria sua rocha e sua força no homem interior, tanto para agir quanto para sofrer.
Ele podia aproximar-se de Deus com confiança, dizer a Deus, sua rocha, tudo quanto precisava dizer e estar certo de que seria ouvido com graça.
Por isso, repete o que dissera antes (v. 5) e conclui com estas palavras (v. 11): “Por que estás abatida, ó minha alma?” Suas dores e seus temores clamavam e o perturbavam; não se calavam, embora fossem respondidos repetidas vezes. Mas, por fim, sua fé saiu vencedora e obrigou os inimigos a abandonar o campo. Ele alcança essa vitória:
(1.) Repetindo o que dissera antes, repreendendo-se, como fizera, por seus abatimentos e inquietações, e animando-se a confiar no nome do Senhor e a apoiar-se em seu Deus.
Repare: pode ser muito útil pensarmos novamente em nossos bons pensamentos; se não atingirmos o objetivo com eles na primeira vez, talvez o consigamos na segunda. De todo modo, quando o coração acompanha as palavras, não há repetição vã.
Precisamos insistir na mesma coisa repetidas vezes diante do coração, e ainda assim mal será suficiente.
(2.) Acrescentando uma palavra: antes, ele esperava louvar a Deus pela salvação que havia em seu semblante; agora diz: Eu o louvarei como a salvação do meu semblante da nuvem presente que o cobre. Se Deus sorrir para mim, isso me fará ter uma expressão alegre, olhar para cima, para a frente e ao redor, com prazer.
Ele acrescenta: “e meu Deus”: relacionado comigo, em aliança comigo; tudo o que ele é, tudo o que tem, é meu, conforme o verdadeiro propósito e sentido da promessa.
Esse pensamento o capacitou a triunfar sobre todas as suas dores e temores. O fato de Deus estar com os santos no céu e ser o Deus deles enxugará todas as lágrimas de seus olhos, Apocalipse 21:3, 4.