Salmos 40
Argumento
Ao que parece, Davi escreveu este salmo por ocasião de seu livramento, pelo poder e pela bondade de Deus, de uma aflição grande e urgente que ameaçava submergi-lo. Provavelmente era alguma perturbação da mente, nascida da consciência do pecado e do desagrado de Deus por causa dele.
Fosse qual fosse a aflição, o mesmo Espírito que lhe inspirou os louvores por aquele livramento era nele, ao mesmo tempo, Espírito de profecia, que testificava dos sofrimentos de Cristo e da glória que viria depois.
Ou, antes que se desse conta, foi levado a falar da missão assumida por Cristo e do cumprimento dela em palavras que só a Cristo se podem aplicar. Por isso, vale considerar até que ponto os louvores que precedem essa ilustre profecia, bem como as orações que a seguem, podem ser aplicados a ele com segurança e proveito.
Neste salmo: I. Davi registra com gratidão, para louvor de Deus, o favor de que foi alvo ao ser livrado de sua profunda angústia, vv. 1-5. II. Com isso, encontra ocasião para falar da obra de nossa redenção por Cristo, vv. 6-10.
III. Isso o anima a orar a Deus por misericórdia e graça, tanto para si como para seus amigos, vv. 11-17. Se, ao cantar este salmo, unirmos a fé à profecia de Cristo e participarmos com sinceridade dos louvores e das orações aqui oferecidos, faremos melodia ao Senhor em nosso coração.
O Benefício da Confiança em Deus.
Versículos 1 a 5
Ao Músico-Mor. Salmo de Davi.
Nestes versículos temos:
I. A grande angústia e aflição em que o salmista estivera. Fora lançado em um poço horrível e num lamaçal (v. 2), dos quais não conseguia sair por si mesmo e nos quais sentia que afundava ainda mais.
Ele nada diz aqui sobre enfermidade do corpo nem sobre insultos dos inimigos. Portanto, temos razão para pensar que sua maior aflição era alguma inquietação interior e perturbação do espírito.
O desânimo do espírito diante da percepção de que Deus se afastou, acompanhado de dúvidas e temores dominantes quanto à condição eterna, é de fato um poço horrível e um lamaçal; assim tem sido para muitos filhos amados de Deus.
II. Sua humilde espera por Deus e a expectativa, cheia de fé, que nele depositava em meio à aflição: “Esperei pacientemente pelo Senhor”, v. 1. Esperando, esperei. Não esperava alívio de ninguém senão de Deus; a mesma mão que fere deve curar, e a que golpeia deve ligar a ferida (Oseias 6:1), ou isso jamais acontecerá.
De Deus esperava alívio, e sua expectativa era intensa; não duvidava de que o alívio viria no tempo devido. Em Deus há poder suficiente para ajudar os mais fracos e graça suficiente para ajudar os mais indignos entre todos os de seu povo que nele confiam.
Mas ele esperou pacientemente, o que indica que o alívio não veio depressa. Ainda assim, não duvidou de que viria e resolveu continuar crendo, esperando e orando até que viesse. Aqueles cuja expectativa está em Deus podem esperar com segurança, mas devem esperar com paciência.
Isso se aplica muito bem a Cristo. Sua agonia, tanto no jardim quanto na cruz, foi a continuação da mesma aflição; foi um poço horrível e um lamaçal. Então sua alma ficou perturbada e extremamente triste, mas ele orou: “Pai, glorifica teu nome”; “Pai, salva-me”.
Então se apegou à sua relação com o Pai: “Deus meu, Deus meu”. Foi assim que esperou por ele pacientemente.
III. Sua consoladora experiência da bondade de Deus em meio à angústia, que registra para a honra de Deus e para ânimo próprio e alheio:
Deus respondeu às suas orações: “Inclinou-se para mim e ouviu meu clamor”. Os que esperam pacientemente por Deus podem esperar muito, mas não esperam em vão. Nosso Senhor Jesus “foi ouvido por causa de seu temor”, Hebreus 5:7. Ou melhor, ele tinha certeza de que o Pai sempre o ouvia.
Deus acalmou seus temores e a agitação de seu espírito e lhe concedeu paz firme na consciência (v. 2): “Tirou-me daquele poço horrível de desânimo e desespero, dispersou as nuvens e brilhou claramente sobre minha alma com a certeza de seu favor. E não apenas isso: pôs meus pés sobre uma rocha e firmou meus passos.”
Os que foram dominados por uma melancolia religiosa e receberam alívio pela graça de Deus podem aplicar isso a si mesmos com profunda sensibilidade: foram tirados de um poço horrível.
(1.) A misericórdia se completa quando seus pés são postos sobre uma rocha, onde encontram firme apoio; agora se elevam tanto pela esperança do céu quanto antes eram abatidos pelo medo do inferno.
Cristo é a rocha sobre a qual uma pobre alma pode firmar-se; só em sua mediação entre nós e Deus podemos fundamentar alguma esperança ou satisfação sólida.
(2.) Essa misericórdia prossegue quando seus passos são firmados. Onde Deus deu esperança firme, espera que haja conduta estável e regular; se esse for seu fruto bendito, temos razão para reconhecer, com abundante gratidão, as riquezas e o poder de sua graça.
- Além da paz, Deus o encheu de alegria na fé: “Pôs um novo cântico em minha boca; deu-me motivo e disposição para me alegrar”. Foi introduzido, por assim dizer, em um mundo novo, e isso encheu sua boca de um novo cântico, de louvor ao nosso Deus; pois todos os nossos cânticos devem ser cantados para seu louvor e sua glória.
Novas misericórdias, especialmente as que nunca recebemos antes, pedem cânticos novos. Isso se aplica a nosso Senhor Jesus ao ser acolhido no paraíso, ressuscitado do sepulcro e exaltado à alegria e à glória postas diante dele. Foi tirado do poço horrível, posto sobre uma rocha e recebeu um novo cântico na boca.
IV. O bom proveito que se deve tirar desse exemplo da bondade de Deus para com Davi:
- A experiência de Davi animaria muitos a esperar em Deus; para isso, ele a deixa registrada aqui: muitos verão, temerão e confiarão no Senhor. Temerão o Senhor e sua justiça, que levaram Davi e o Filho de Davi àquele poço horrível, e dirão: “Se isso acontece com a árvore verde, que acontecerá com a seca?”
Temerão o Senhor e sua bondade, que encheu de novos cânticos de alegria e louvor a boca de Davi e do Filho de Davi. Há um temor santo e reverente a Deus que não apenas é compatível com nossa esperança nele, mas constitui o fundamento dela.
Não o temerão para se afastar dele, mas o temerão e nele confiarão em suas maiores dificuldades, sem duvidar de que o encontrarão tão capaz e pronto a ajudar quanto Davi o encontrou em sua angústia.
O modo como Deus tratou nosso Senhor Jesus é grande incentivo para confiarmos nele. Quando agradou ao Senhor feri-lo e fazê-lo sofrer por nossos pecados, cobrou dele a nossa dívida. Quando o ressuscitou dos mortos e o assentou à sua direita, mostrou que aceitara o pagamento feito por ele e estava satisfeito.
Que maior incentivo poderíamos ter para temer e adorar a Deus e confiar nele? Veja Romanos 4:25; 5:1, 2. O salmista convida outros a fazer de Deus sua esperança, como ele fez, declarando felizes os que assim procedem (v. 4):
Bem-aventurado o homem que põe no Senhor sua confiança, e somente nele, que pensa grandes e boas coisas a seu respeito e se dedica inteiramente a ele, e não dá atenção aos orgulhosos. Não age como aqueles que confiam em si mesmos nem depende dos que, com orgulho, animam outros a confiar neles.
Uns e outros se voltam para a mentira, como fazem, de fato, todos os que se afastam de Deus. Isso se aplica particularmente à nossa fé em Cristo. Bem-aventurados os que confiam nele e somente em sua justiça, sem dar atenção aos fariseus orgulhosos, que estabelecem a própria justiça em competição com a dele.
Não se submetem aos ditames desses fariseus nem se voltam para a mentira com os judeus incrédulos, que não se submetem à justiça de Deus, Romanos 10:3. Bem-aventurados os que escapam dessa tentação.
- A percepção alegre dessa misericórdia o levou a observar com gratidão os muitos outros favores que recebera de Deus, v. 5. Quando Deus põe cânticos novos em nossa boca, não devemos esquecer os cânticos anteriores, mas repeti-los:
“Muitas são, ó Senhor, meu Deus, as tuas obras maravilhosas que fizeste, tanto por mim quanto pelos outros; esta é apenas uma entre muitas.” São muitos os benefícios com que diariamente somos carregados, tanto pela providência quanto pela graça de Deus.
(1.) São obras dele, não apenas dádivas de sua generosidade, mas operações de seu poder. Ele age em nosso favor e em nós, oferecendo-nos assim motivos não só de gratidão, mas também de louvor.
(2.) São obras maravilhosas; admirável é o modo como as planejou, e admirável sua condescendência ao concedê-las a nós. A própria eternidade mal bastará para contemplá-las com admiração.
(3.) Todas as suas obras maravilhosas são fruto dos pensamentos que tem para conosco. Ele faz tudo conforme o conselho de sua própria vontade (Efésios 1:11), os propósitos da sua graça que determinou em si mesmo, Efésios 3:11.
São planos de sabedoria infinita, desígnios de amor eterno (1 Coríntios 2:7; Jeremias 31:3), pensamentos de bem e não de mal, Jeremias 29:11. Portanto, seus dons e chamados não serão revogados, pois não procedem de decisões súbitas, mas de seus pensamentos, seus muitos pensamentos para conosco.
(4.) São incontáveis; não podemos organizá-las nem enumerá-las em ordem. Há ordem em todas as obras de Deus, mas tantas se apresentam à nossa vista ao mesmo tempo que não sabemos por onde começar nem qual nomear em seguida.
A ordem delas, suas relações e dependências naturais e a maneira como os elos da corrente de ouro se unem são para nós um mistério. Só poderemos explicá-lo quando o véu for rasgado e o mistério de Deus se cumprir.
Não podemos sequer contá-las, nem mesmo suas categorias principais. Depois de dizer tudo o que pudermos sobre as maravilhas do amor divino por nós, devemos concluir com um et cætera — e outras coisas semelhantes — e adorar sua profundidade, sem esperança de encontrar-lhe o fundo.
Versículos 6 a 10
Insuficiência dos Sacrifícios da Lei; Eficácia do Sacrifício de Cristo.
Tomado de admiração pelas obras maravilhosas que Deus fizera por seu povo, o salmista é aqui conduzido, de modo extraordinário, a predizer a obra maravilhosa que supera todas as demais e é o fundamento e a fonte de todas elas: nossa redenção pelo Senhor Jesus Cristo.
Os pensamentos de Deus a nosso respeito quanto a essa obra eram os mais primorosos, os mais abundantes e os mais graciosos; por isso, merecem a maior admiração. Este trecho é citado pelo apóstolo (Hebreus 10:5, etc.) e aplicado a Cristo e à missão que assumiu por nós.
Os santos do Antigo Testamento tinham conhecimento dessa obra tanto nas instituições quanto nas devoções. Quando o apóstolo quer mostrar que o Redentor assumiu voluntariamente sua obra, não busca o relato no livro dos desígnios secretos de Deus, que não nos pertencem, mas nas coisas reveladas. Observe:
I. A absoluta insuficiência dos sacrifícios da lei para expiar o pecado, a fim de termos paz com Deus e felicidade nele: “Sacrifício e oferta não desejaste”; Deus não queria que o Redentor os oferecesse.
Ele precisava ter algo para oferecer, mas não esses sacrifícios (Hebreus 8:3); portanto, não devia pertencer à casa de Arão, Hebreus 7:14. Ou então: nos dias do Messias, holocaustos e ofertas pelo pecado deixarão de ser exigidos, e todas aquelas instituições cerimoniais serão abolidas.
Isso, porém, não é tudo. Mesmo quando a lei a respeito deles estava em pleno vigor, podia-se dizer que Deus não os desejava nem os aceitava por si mesmos. Não podiam tirar a culpa do pecado satisfazendo a justiça divina.
A vida de uma ovelha, de valor muito inferior à de um homem (Mateus 12:12), não podia pretender ser equivalente, muito menos um meio de preservar a honra do governo e das leis de Deus e reparar a afronta causada a essa honra pelo pecado humano.
Não podiam tirar o terror do pecado pacificando a consciência, nem seu poder santificando a natureza. Era impossível, Hebreus 9:9; 10:1-4. O que havia de valioso neles decorria de sua referência a Jesus Cristo, de quem eram figuras.
Eram de fato sombras, mas sombras de coisas boas por vir, e provas da fé e da obediência do povo de Deus: da obediência à lei e da fé no evangelho. Mas a Substância tinha de vir, Cristo, que traria a Deus a glória e ao homem a graça que aqueles sacrifícios jamais poderiam trazer.
II. A designação de nosso Senhor Jesus para a obra e o ofício de Mediador: “Abriste meus ouvidos”. Deus Pai o preparou para essa missão (Isaías 50:5, 6) e então o obrigou a levá-la até o fim.
“Cavaste-me o ouvido.” Supõe-se que isso aluda à lei e ao costume de obrigar servos a servir para sempre, furando-lhes a orelha junto à ombreira da porta; veja Êxodo 21:6.
Nosso Senhor Jesus amava tanto a missão que assumira que não quis sair livre dela; por isso, comprometeu-se a nela perseverar para sempre. Por essa razão, pode salvar-nos por completo, pois se comprometeu a servir ao Pai por completo; o Pai o sustenta nessa missão, Isaías 42:1.
III. Como ele próprio anuiu voluntariamente a essa missão: “Então eu disse: Eis que venho; então, quando sacrifício e oferta não bastavam, para que a obra não ficasse por fazer, eu disse: Eis que venho, para enfrentar os poderes das trevas e promover os interesses da glória e do reino de Deus.”
Isso indica três coisas: 1. Ele se ofereceu livremente para esse serviço, ao qual nada o obrigava antes de assumir voluntariamente o compromisso. Tão logo lhe foi proposto, anuiu com a maior alegria e sentiu grande satisfação em aceitar a missão.
Se não tivesse agido com perfeita liberdade, não poderia ter sido fiador nem sacrifício, pois é por essa vontade, esse animus offerentis — a disposição de quem oferece — que somos santificados, Hebreus 10:10.
- Assumiu firmemente essa obrigação: “Venho; prometo vir na plenitude do tempo.” Por isso, o apóstolo diz que, ao vir ao mundo, Cristo teve em vista essa promessa, pela qual comprometera seu coração a se aproximar de Deus.
Assim ele assumiu um vínculo, não só para mostrar a grandeza de seu amor, mas também porque receberia a honra de sua missão antes de concluí-la. Embora o preço ainda não tivesse sido pago, seu pagamento estava garantido; por isso ele era o Cordeiro morto desde a fundação do mundo.
- Reconheceu francamente seu compromisso: ele disse: “Eis que venho”. Disse isso continuamente aos santos do Antigo Testamento, que por isso o conheciam pelo título de ho erchomenos — aquele que haveria de vir.
Essa palavra era o fundamento sobre o qual construíam a fé e a esperança, e eles aguardavam e ansiavam por seu cumprimento.
IV. A razão de sua vinda, em cumprimento da missão assumida: no volume do livro estava escrito a seu respeito. 1. Nos registros fechados do decreto e do conselho divinos, estava escrito que seu ouvido fora aberto e que ele dissera: “Eis que venho”.
Ali estava registrada a aliança de redenção, assim como o conselho de redenção, o conselho de paz entre o Pai e o Filho. Era para isso que ele olhava em tudo quanto fazia: para o mandamento que recebera do Pai.
- Nas cartas patentes do Antigo Testamento. Moisés e todos os profetas testemunharam a respeito dele. Em todos os volumes desse livro havia algo escrito sobre ele que tinha em vista, para que tudo se cumprisse, João 19:28.
V. O prazer que encontrava na missão assumida. Depois de se oferecer livremente para ela, não falhou nem desanimou, mas prosseguiu com toda a satisfação possível (v. 8, 9): “Deleito-me em fazer tua vontade, ó meu Deus!”
Prosseguir na obra que lhe fora designada era para Cristo alimento e bebida (João 4:34). A razão dada aqui é: “Tua lei está dentro do meu coração”; está escrita ali e ali governa.
Refere-se à lei a respeito da obra e do ofício de Mediador, ao que ele devia fazer e sofrer. Essa lei lhe era preciosa e influenciou toda a missão que assumiu. Repare: quando a lei de Deus está escrita em nosso coração, nosso dever será nosso deleite.
VI. A publicação do evangelho aos filhos dos homens, até mesmo na grande congregação, v. 9, 10. Aquele que, como sacerdote, realizou a redenção por nós, como profeta a torna conhecida a nós: primeiro por sua própria pregação, depois pelos apóstolos e continuamente por sua palavra e seu Espírito.
A grande salvação começou a ser anunciada pelo Senhor, Hebreus 2:3. É o evangelho de Cristo que se prega a todas as nações. Observe: 1. O que é pregado. É a justiça (v. 9), a justiça de Deus (v. 10), a justiça eterna que Cristo introduziu (Daniel 9:24); compare Romanos 1:16, 17.
É a fidelidade de Deus à sua promessa e a salvação há muito esperada. É sua bondade amorosa e sua verdade, sua misericórdia conforme a palavra. Repare: na obra de nossa redenção, devemos reparar em como brilham todos os atributos divinos e dar a Deus o louvor por cada um deles.
- A quem é pregado: à grande congregação, v. 9 e novamente v. 10. Quando Cristo esteve na terra, pregou a multidões, a milhares de pessoas por vez. O evangelho foi pregado tanto a judeus quanto a gentios, a grandes congregações de ambos.
As assembleias religiosas solenes são instituição divina. Nelas, a glória de Deus, na face de Cristo, deve ser tanto louvada para a glória de Deus quanto pregada para a edificação dos homens.
- Como é pregado: livre e abertamente. “Não retive meus lábios”; não o escondi; não o encobri. Isso indica que qualquer pessoa que assumisse a pregação do evangelho de Cristo seria muito tentada a escondê-lo e encobri-lo, pois ele deve ser pregado em meio a grande disputa e forte oposição.
Mas o próprio Cristo e aqueles que chamou para essa obra firmaram o rosto como pederneira (Isaías 50:7) e foram extraordinariamente sustentados nela.
É bom para nós que tenha sido assim: por esse meio, nossos olhos puderam ver esta luz alegre e nossos ouvidos, ouvir este som alegre; sem isso, poderíamos ter perecido para sempre na ignorância deles.
Versículos 11 a 17
Incentivo à Oração.
O salmista, depois de meditar na obra da redenção e falar dela na pessoa do Messias, passa agora a tirar proveito da doutrina de sua mediação entre nós e Deus; por isso, fala em sua própria pessoa.
Tendo Cristo feito a vontade de seu Pai, concluído sua obra e ordenado que o evangelho fosse pregado a toda criatura, somos encorajados a nos aproximar com confiança do trono da graça, para obter misericórdia e graça.
I. Isso pode nos encorajar a pedir a misericórdia de Deus e a nos colocar sob a proteção dela, v. 11.
“Senhor, tu não poupaste teu Filho nem o retiveste; não retenhas, portanto, tuas ternas misericórdias, que nele reservaste para nós; pois não nos darás também, com ele, gratuitamente todas as coisas? Romanos 8:32. Que tua bondade amorosa e tua verdade me preservem continuamente.”
Os melhores santos estão em perigo contínuo e se veem perdidos se não forem continuamente preservados pela graça de Deus. A bondade amorosa e a verdade eternas de Deus são aquilo de que dependemos para ser preservados até o reino celestial, Salmos 61:7.
II. Isso pode nos encorajar quanto à culpa do pecado: Jesus Cristo fez, para nos livrar dela, aquilo que sacrifícios e ofertas não podiam fazer. Veja aqui: 1. A visão assustadora que ele tinha do pecado, v. 12. Foi ela que tornou tão bem-vinda a revelação de um Redentor que ele acabara de receber.
Ele via suas iniquidades como males, os piores males; via que o cercavam. Em todas as análises de sua vida e reflexões sobre cada passo dela, continuava descobrindo algo errado. As consequências ameaçadoras de seu pecado o rodeavam.
Para qualquer lado que olhasse, via algum mal à sua espera, o qual, reconhecia, seus pecados tinham merecido. Via as iniquidades apoderarem-se dele e prendê-lo, como o oficial de justiça faz com o pobre devedor; via que eram incontáveis e mais numerosas que os cabelos de sua cabeça.
As consciências despertadas e convencidas percebem o perigo na quantidade incontável dos pecados cometidos por fraqueza, que parecem tão pequenos quanto cabelos, mas, por serem numerosos, são muito perigosos. Quem pode discernir seus próprios erros?
Deus conta nossos cabelos (Mateus 10:30), que nós, contudo, não podemos contar; do mesmo modo, mantém um registro de nossos pecados, dos quais nós não mantemos registro algum.
A visão do pecado o oprimia tanto que não conseguia erguer a cabeça: “Não posso olhar para cima”. Muito menos conseguia manter firme o coração: “Por isso, meu coração me desfalece”.
Repare: a visão de nossos pecados em suas verdadeiras cores nos levaria ao desespero se não tivéssemos, ao mesmo tempo, alguma visão de um Salvador.
- O cuidado com que recorreu a Deus ao sentir o peso do pecado (v. 13). Vendo-se levado por seus pecados à beira da ruína, da ruína eterna, com que santa veemência ele clama: “Agrada-te, ó Senhor, em livrar-me (v. 13); salva-me da cólera vindoura e dos terrores presentes que sofro ao pensar nessa cólera!”
“Estou arruinado; morro, pereço, se não receber socorro imediato. Em uma situação dessa natureza, que envolve a felicidade de uma alma imortal, demoras são perigosas; por isso, ó Senhor, apressa-te em ajudar-me.”
III. Isso pode nos encorajar a esperar a vitória sobre nossos inimigos espirituais, que procuram destruir nossa alma (v. 14), como o leão que ruge e anda continuamente em busca de quem possa devorar. Se Cristo triunfou sobre eles, nós, por meio dele, seremos mais que vencedores.
Crendo nisso, podemos orar com humilde ousadia: “Sejam eles envergonhados e confundidos juntamente e voltem para trás”, v. 14. “Fiquem desolados”, v. 15.
Tanto a conversão de um pecador quanto a glorificação de um santo são grandes frustrações para Satanás, que faz tudo quanto pode, com todo o seu poder e astúcia, para impedir ambas.
Ora, tendo nosso Senhor Jesus assumido a tarefa de realizar a salvação de todos os seus escolhidos, podemos orar com fé para que, dessas duas maneiras, esse grande adversário seja confundido.
Quando um filho de Deus é lançado naquele poço horrível e no lamaçal, Satanás grita: “Ah! Ah!”, pensando que alcançou seu objetivo. Mas ele se enfurecerá ao ver o tição tirado do fogo e ficará desolado, em retribuição por sua vergonha. “O Senhor te repreenda, ó Satanás!” O acusador dos irmãos foi expulso.
IV. Isso pode encorajar todos os que buscam a Deus e amam sua salvação a alegrar-se nele e a louvá-lo, v. 16. Veja aqui: 1. O caráter das pessoas boas. De acordo com as leis da religião natural, buscam a Deus, desejam seu favor e recorrem a ele em todas as suas necessidades, como um povo deve buscar seu Deus.
De acordo com as leis da religião revelada, amam sua salvação: a grande salvação que os profetas indagaram e investigaram diligentemente e que o Redentor assumiu realizar quando disse: “Eis que venho”. Todos os que serão salvos amam a salvação não só como livramento do inferno, mas também como livramento do pecado.
- A felicidade assegurada às pessoas boas por essa oração profética. Os que buscam a Deus se alegrarão e se regozijarão nele, e com razão, pois ele não só se deixará encontrar por eles, como também os recompensará generosamente.
Os que amam sua salvação serão cheios da alegria dessa salvação e dirão continuamente: “O Senhor seja engrandecido”. Assim, terão o céu na terra. Bem-aventurados os que continuam a louvar a Deus desse modo.
V. Isso pode encorajar os santos, na angústia e na aflição, a confiar em Deus e a encontrar consolo nele, v. 17. O próprio Davi era um deles: “Sou pobre e necessitado”.
Era rei, talvez já sentado no trono; contudo, aflito em espírito, chama a si mesmo pobre e necessitado, carente e angustiado, perdido e arruinado sem um Salvador.
“Contudo, o Senhor pensa em mim”, no Mediador e por meio dele, por quem somos aceitos. Os homens se esquecem dos pobres e necessitados e raramente pensam neles; mas os pensamentos de Deus a seu respeito, dos quais o salmista falou no v. 5, lhes dão apoio e consolo.
Eles podem ter certeza de que Deus é seu auxílio em meio às tribulações e, no tempo devido, será seu libertador dessas tribulações, sem demorar muito. Pois a visão tem tempo determinado; portanto, ainda que tarde, podemos esperá-la, porque virá; virá e não tardará.