Matthew Henry

Salmos 4

Argumento

Davi era pregador, e pregador real, assim como Salomão. Muitos de seus salmos são doutrinários e práticos, além de devocionais. Assim é a maior parte deste salmo, no qual a Sabedoria clama aos homens, aos filhos dos homens (como em Provérbios 8:4, 5), para que recebam instrução.

O título não nos diz, como o anterior, que ele foi escrito numa ocasião específica. Nem devemos pensar que todos os salmos nasceram de circunstâncias particulares, embora alguns tenham nascido.

Muitos se destinavam, de modo geral, a instruir o povo de Deus que frequentava os átrios de sua casa, a ajudar em suas devoções e a orientar sua conduta. Considero este salmo um desses.

Não atribuamos à profecia da Escritura uma interpretação mais particular do que o necessário (2 Pedro 1:20). Aqui, I. Davi começa com uma breve oração (v. 1), e essa oração prega.

II. Dirige-se aos filhos dos homens e: 1. Em nome de Deus, censura-os pela desonra que causam a Deus e pelo dano que causam à própria alma, v. 2. 2. Apresenta-lhes a felicidade dos piedosos, para animá-los à vida religiosa, v. 3. 3. Convoca-os a considerar seus caminhos, v. 4.

III. Exorta-os a servir a Deus e confiar nele, v. 5. IV. Relata suas próprias experiências da graça de Deus: 1. Capacitando-o a escolher o favor divino como sua felicidade, v. 6. 2. Enchendo-lhe o coração de alegria, v. 7. 3. Aquietando-lhe o espírito na certeza da proteção divina sob a qual vivia, noite e dia, v. 8.

Interpelação aos Pecadores.

Versículos 1 a 5

Ao Músico-Mor, em Neginote. Salmo de Davi.

O título do salmo nos informa que Davi, tendo-o escrito por inspiração divina para uso da igreja, entregou-o ao Músico-Mor, ou mestre do canto, que presidia esse serviço segundo a designação divina do canto dos salmos, feita em seu tempo e em cuja instituição ele teve papel principal.

Temos um relato detalhado de como se organizaram as diversas classes de cantores, cada uma com seu chefe, e da parte de cada qual no serviço (1 Crônicas 25).

Alguns profetizavam segundo a ordem do rei, v. 2. Outros profetizavam com harpa para dar graças e louvar ao Senhor, v. 3. De outros se diz que deviam erguer o chifre, v. 5.

De todos, porém, se diz que se dedicavam ao canto na casa do Senhor (v. 6) e eram instruídos nos cânticos do Senhor, v. 7. Este salmo foi confiado a um dos chefes para ser cantado com neginote, instrumentos de cordas (Habacuque 3:19), tocados com as mãos. Com esse tipo de música, os cantores deviam entoá-lo.

Ao que parece, naquela época somente eles cantavam, não o povo. O Novo Testamento, porém, ordena que todos os cristãos cantem (Efésios 5:19; Colossenses 3:16).

Espera-se que o façam com decoro, não com técnica refinada; por isso, hoje não há tanta necessidade de instrumentos musicais como havia então: a melodia deve ser feita no coração.

Nestes versículos:

I. Davi se dirige a Deus, v. 1. Quer os filhos dos homens, a quem falará, o ouçam ou se recusem a ouvir, ele espera e pede que Deus lhe dê uma audiência generosa e uma resposta de paz: “Ouve-me quando clamo; aceita minha adoração, atende meus pedidos e julga meus recursos; tem misericórdia de mim e ouve-me”.

Toda a atenção que Deus tem por bem dar às nossas orações e todas as respostas que tem por bem conceder-lhes devem ser atribuídas não ao nosso mérito, mas unicamente à sua misericórdia. “Ouve-me por tua misericórdia” é nosso melhor apelo.

Davi faz ainda mais dois apelos: 1. “Tu és o Deus da minha justiça.” “Não és apenas justo em ti mesmo, mas também o autor das minhas disposições justas: pela graça produziste em mim o bem que possuo e me fizeste um homem justo.” “Portanto, ouve-me e confirma assim tua própria obra em mim.”

“Tu és também o defensor da minha causa justa e o protetor da minha inocência injustamente atacada.” “A ti entrego meu caminho e em ti confio para que faças brilhar minha justiça como a luz.” Quando os homens nos condenam injustamente, nosso consolo é este: Deus é quem justifica; ele é o Deus da justiça do crente.

  1. “Anteriormente me alargaste quando eu estava angustiado; alargaste meu coração com santa alegria e consolo em minhas angústias, e alargaste minha condição ao tirar-me de minhas angústias. Agora, portanto, Senhor, tem misericórdia de mim e ouve-me.”

A experiência da bondade de Deus, que nos alargou quando estávamos angustiados, é não só um grande estímulo à nossa fé e esperança para o futuro, mas também um bom apelo a Deus na oração. “Tu o fizeste antes; não o farás de novo? Pois és Deus e não mudas; tua obra é perfeita.”

II. Ele se dirige aos filhos dos homens, para convencer e converter os que ainda são estranhos a Deus e não querem que o Messias, o Filho de Davi, reine sobre eles.

  1. Procura convencê-los da insensatez de sua impiedade (v. 2). “Ó filhos dos homens” (filhos dos grandes, segundo alguns, homens de elevada posição, entendendo-se os partidários de Saul ou de Absalão).

“Até quando me resistirão, se oporão ao meu governo e permanecerão hostis a ele, sob a influência das sugestões falsas e infundadas dos que me desejam o mal?”

Ou as palavras podem ser tomadas em sentido mais geral. Deus, por meio do salmista, argumenta com os pecadores para levá-los ao arrependimento: “Vocês que continuam negligenciando a Deus e seu culto, e desprezando o reino e o governo de Cristo, considerem o que fazem”.

(1.) “Vocês se rebaixam, pois são filhos dos homens.” A palavra designa o homem como criatura nobre. “Considerem a dignidade de sua natureza e a excelência da razão de que foram dotados; não ajam de modo tão irracional e indigno de si mesmos.” Que os filhos dos homens reflitam e se mostrem homens.

(2.) “Vocês desonram seu Criador e transformam a glória dele em vergonha.” Essas palavras bem podem ser entendidas como ditas pelo próprio Deus, que acusa os pecadores da afronta feita à sua honra. Se forem palavras de Davi, porém, “glória” pode referir-se a Deus, a quem ele chamou sua glória (Salmos 3:3).

Os idólatras são acusados de trocar a glória de Deus pela vergonha (Romanos 1:23). Todos os pecadores voluntários fazem isso ao desobedecer aos mandamentos de sua lei, desprezar as ofertas de sua graça e dar à criatura o afeto e o serviço devidos somente a Deus.

Os que profanam o santo nome de Deus, ridicularizam sua palavra e suas ordenanças e, embora afirmem conhecê-lo, negam-no pelas obras, fazem tudo que podem para transformar sua glória em vergonha.

(3.) “Vocês praticam um embuste contra si mesmos: amam a vaidade e buscam a falsidade, ou a mentira, ou aquilo que é mentira. Vocês mesmos são vãos e mentirosos e gostam de ser assim.” Ou: “Põem o coração naquilo que, no fim, se revelará apenas vaidade e mentira”.

Os que amam o mundo e buscam as coisas de baixo amam a vaidade e procuram mentiras. O mesmo fazem os que se satisfazem com prazeres sensuais e escolhem por quinhão as riquezas deste mundo, pois estas os enganarão e os levarão à ruína.

“Até quando farão isso? Nunca serão sábios em benefício próprio? Nunca considerarão seu dever e seu verdadeiro interesse?” “Quando será isso uma vez?” (Jeremias 13:27).. Ao Deus dos céus parece longo o tempo durante o qual os pecadores persistem em desonrá-lo, enganar a si mesmos e arruinar-se.

  1. Ele lhes mostra o favor especial que Deus concede aos bons, a proteção particular sob a qual vivem e os privilégios singulares que lhes cabem, v. 3. Isso aparece aqui:

(1.) Como motivo para não se oporem ao piedoso, não o perseguirem nem pensarem que podem vencê-lo. Correm perigo ao ofender um desses pequeninos que Deus separou para si (Mateus 18:6).

Deus considera que quem toca neles toca na menina dos seus olhos, e cedo ou tarde fará os perseguidores reconhecerem isso. Eles têm acesso ao céu: Deus os ouvirá. Portanto, ninguém ouse lhes fazer injúria, pois Deus ouvirá seu clamor e defenderá sua causa (Êxodo 22:23).

Em geral se entende que Davi fala de sua própria designação para o trono. Ele é o homem piedoso que o Senhor separou para essa honra, sem usurpá-la nem tomá-la por si mesmo.

“Por isso, a oposição que vocês fazem a ele e à sua ascensão é gravemente culpável. Nela vocês lutam contra Deus, e ela será vã e inútil.” De igual maneira, Deus separou para si o Senhor Jesus, aquele Misericordioso. Quem tentar impedir sua exaltação certamente fracassará, pois o Pai sempre o ouve.

Ou: (2.) Como motivo para que eles próprios sejam bons e deixem de andar no conselho dos ímpios: “Até agora vocês buscaram a vaidade; sejam na verdade religiosos e serão na verdade felizes agora e para sempre. Pois:

[1.] Deus assegurará para si o direito que tem sobre vocês”. O Senhor separou para si o piedoso, cada pessoa piedosa em particular, por sua escolha eterna, seu chamado eficaz, as disposições especiais de sua providência e a operação de sua graça. Seu povo é purificado para ele como povo particular.

Os piedosos são separados e selados por Deus. Ele conhece os que lhe pertencem e neles imprimiu sua imagem e marca. Distingue-os com favores incomuns: “Serão meus, diz o Senhor, naquele dia em que reunirei minhas joias”. Saibam disso.

Que os piedosos o saibam e jamais se afastem daquele a quem foram assim consagrados. Que os perversos o saibam e tomem cuidado para não ferir aqueles a quem Deus protege.

[2.] “Deus assegurará a vocês participação nele mesmo.” Davi fala aqui aplicando a verdade a si: “O Senhor ouvirá quando eu clamar a ele”. Nós nos julgaríamos felizes se um príncipe terreno nos desse ouvidos. Não vale a pena, sob quaisquer condições, especialmente tão fáceis, obter a atenção do Rei dos reis?

Saibamos disso e abandonemos as vaidades mentirosas em favor das misericórdias que nos cabem.

  1. Ele os avisa contra o pecado e os exorta a afastar-se dele tanto pelo temor como pela reflexão (v. 4): “Tremei e não pequeis” (“Irai-vos e não pequeis”, segundo a Septuaginta; alguns entendem que o apóstolo tomou daí sua exortação em Efésios 4:26).

“Conversem com seu coração; convertam-se e, para isso, reflitam e temam.” Observe:

(1.) Não devemos pecar, nem sair do caminho e assim perder nosso objetivo. (2.) Um bom remédio contra o pecado é o santo temor. “Perturbem-se”, segundo alguns, em oposição à despreocupação e à falsa segurança da carne.

“Mantenham sempre santa reverência à glória e à majestade de Deus, e santo temor de sua cólera e maldição; não ousem provocá-lo.”

(3.) Um bom meio de prevenir o pecado e conservar o santo temor é conversar com frequência e seriedade com o próprio coração: “Falem com seu coração. Vocês têm muito a lhe dizer; podem falar com ele a qualquer hora; não deixem isso por dizer.” Quem reflete está no caminho de se tornar sábio e bom.

“Conversem com seu coração; examinem-no mediante uma séria reflexão sobre si mesmos, para conhecê-lo e corrigir o que nele está errado. Ocupem-no com meditações piedosas e solenes; firmem o pensamento no que é bom e se apeguem a isso.”

“Considerem seus caminhos e observem as orientações dadas aqui, a fim de fazer bem essa tarefa e com bom resultado.”

[1.] “Escolham um momento a sós; façam isso quando estiverem acordados na cama. Antes de se virarem para dormir à noite” (como recomendaram alguns moralistas pagãos), “examinem a consciência quanto ao que fizeram naquele dia, sobretudo ao que fizeram de errado, para que se arrependam.”

“Quando despertarem à noite, meditem em Deus e nas coisas que dizem respeito à sua paz.” O próprio Davi praticava o que agora aconselha aos outros (Salmos 63:6): “Lembro-me de ti em meu leito”. Especialmente no leito de enfermidade, devemos considerar nossos caminhos e conversar com o coração a respeito deles.

[2.] “Coloquem-se numa disposição séria: aquietem-se. Depois de fazer uma pergunta à consciência, calem-se e esperem a resposta. Mesmo em tempos agitados, mantenham o espírito calmo e quieto.”

  1. Ele os aconselha a cumprir o dever com consciência (v. 5): ofereçam a Deus o sacrifício da justiça. Não devemos apenas deixar de fazer o mal, mas aprender a fazer o bem.

Os que se opunham a Davi e a seu governo logo teriam outra disposição e voltariam à lealdade, se apenas adorassem a Deus como deviam. E os que conhecem as questões pendentes entre si e Deus acolherão de bom grado o Mediador, o Filho de Davi.

Exige-se aqui de cada um de nós: (1.) Que sirvamos a Deus: “Ofereçam-lhe sacrifícios, primeiro vocês mesmos e depois os melhores sacrifícios que puderem”. Devem, porém, ser sacrifícios de justiça: boas obras, todos os frutos do amor dominante a Deus e ao próximo e todos os exemplos de uma conduta religiosa.

Esses sacrifícios são melhores do que todos os holocaustos e ofertas. “Que toda a devoção de vocês proceda de um coração íntegro; que todas as esmolas sejam sacrifícios de justiça.” Deus não aceita os sacrifícios dos injustos; eles são abominação (Isaías 1:11 e seguintes).

(2.) Que confiemos nele. “Primeiro, façam questão de oferecer os sacrifícios de justiça; então poderão confiar no Senhor. Sirvam a Deus sem desconfiar dele e sem temer que perderão algo por servi-lo.”

“Honrem-no confiando somente nele, não em suas riquezas nem na força humana. Confiem em sua providência, sem se apoiar no próprio entendimento. Confiem em sua graça, sem tentar estabelecer a própria justiça ou suficiência.”

Ao cantar esses versículos, devemos pregar a nós mesmos sobre como o pecado provoca a Deus, sobre a vaidade enganosa do mundo e sobre a felicidade indescritível do povo de Deus.

Devemos também insistir conosco mesmos no dever de temer a Deus, conversar com o próprio coração e oferecer sacrifícios espirituais. Ao fazer desses versículos nossa oração, devemos pedir a Deus graça para pensar e agir dessa maneira.

Versículos 6 a 7

O Desejo do Homem Bom.

Temos aqui:

I. O anseio insensato das pessoas mundanas: “Muitos dizem: Quem nos mostrará algum bem?” Quem nos fará ver o bem? O bem a que se referem é indicado no v. 7: o aumento de seu trigo e de seu vinho. Tudo que desejavam era abundância das riquezas deste mundo, para usufruir fartamente os prazeres dos sentidos.

Até aí, estão certos em desejar o bem e ansiar por ele. Mas há erros nesse anseio: 1. Perguntam, de modo geral, “Quem nos fará felizes?”, porém não recorrem a Deus, o único capaz de fazê-lo.

Assim se expõem a maus conselhos e mostram que preferem dever favores a qualquer pessoa, menos a Deus, pois viveriam de bom grado sem ele.

  1. Perguntam pelo bem que pode ser visto, pelo bem aparente, percebido pelos sentidos. Não demonstram interesse pelas coisas boas invisíveis, que somente a fé alcança. A idolatria surgiu do desejo de ter deuses que pudessem ver; por isso adoravam o sol.

Mas, assim como devemos aprender a adorar o Deus invisível, devemos buscar um bem invisível (2 Coríntios 4:18). Pela fé enxergamos mais longe do que pelos sentidos.

  1. Perguntam por qualquer bem, não pelo bem supremo. Tudo que querem é o bem exterior, presente e parcial: boa comida, boa bebida, bons negócios e boas posses. Que valor tem tudo isso sem um Deus bondoso e um coração bom?

Qualquer bem serve à maioria dos homens, mas uma alma agraciada não se satisfaz com isso. Esse caminho, esse anseio das pessoas carnais e mundanas, é insensato; contudo, muitos o compartilham, e sua condenação corresponderá a ele.

“Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante a vida, o denário que aceitaste como pagamento.”

II. A escolha sábia feita pelos piedosos. Davi e os poucos devotos que permaneceram com ele discordaram daquele anseio e se uniram nesta oração: “Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto”.

  1. Ele discorda da opinião da maioria. Deus o separara para si por favores que o distinguiam; por isso ele também se distingue por um caráter distintivo. “Eles querem qualquer bem, o bem mundano, mas eu não. Não direi o que dizem. Qualquer bem não me satisfaz.”

“A riqueza do mundo jamais será uma porção suficiente para minha alma; por isso não posso me contentar com ela.”

  1. Ele e seus amigos escolhem o favor de Deus como sua felicidade. Na avaliação deles, esse favor vale mais do que a vida e todos os seus consolos. (1.) É o que mais ardentemente desejam e buscam; é o anseio da alma deles: “Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto.” A maioria quer outras coisas; nós queremos isso.

Os bons se distinguem tanto por suas práticas como por suas orações: não pelo comprimento ou pela linguagem delas, mas pela fé e pelo fervor. Os que Deus separou têm uma oração própria que só eles fazem com sinceridade, embora outros possam repetir suas palavras. A essa oração todos eles dizem amém.

“Senhor, concede-nos teu favor e a certeza de possuí-lo, e não pediremos mais nada. Isso basta para nos fazer felizes. Senhor, fica em paz conosco, aceita-nos, manifesta-te a nós. Que tenhamos a certeza da tua bondade e fiquemos satisfeitos com ela.”

Observe: embora Davi fale somente de si nos v. 7, 8, nesta oração ele fala também em favor de outros: “sobre nós”. Assim Cristo nos ensinou a orar: “Pai nosso”. Todos os santos chegam ao trono da graça com o mesmo pedido; nisso são um só e desejam o favor de Deus como seu bem supremo.

Devemos pedi-lo tanto em favor dos outros como de nós mesmos, pois há no favor de Deus o bastante para todos. Nada teremos a menos porque outros compartilhem do que recebemos.

(2.) É aquilo em que mais se alegram (v. 7): Assim, muitas vezes puseste regozijo em meu coração; não só me sustentaste e revigoraste, mas também me encheste de alegria indescritível. Por isso, é isso que continuarei buscando todos os dias da minha vida.

Quando Deus põe graça no coração, também põe regozijo nele. Nenhuma alegria se compara à que as almas agraciadas encontram nas manifestações do favor divino; nem mesmo a alegria da colheita, de uma colheita farta, quando aumentam o trigo e o vinho.

É regozijo no coração, uma alegria interior, firme e verdadeira. A jovialidade das pessoas mundanas não passa de um clarão, uma sombra; mesmo no riso seu coração se entristece (Provérbios 14:13).

“Puseste regozijo em meu coração”; assim diz a palavra. A verdadeira alegria é dádiva de Deus, diferente do que o mundo dá (João 14:27). Os santos não têm motivo para invejar a jovialidade e a alegria dos mundanos carnais; antes, devem ter pena deles, pois poderiam conhecer algo melhor, mas não querem.

(3.) É naquilo que confiam plenamente; nessa confiança, permanecem sempre tranquilos, v. 8. Davi já se deitara e dormira (Salmos 3:5), e continuará a fazê-lo:

“Eu me deitarei” (tendo a certeza do teu favor) “em paz”, com tanto prazer quanto aqueles cujo trigo e vinho aumentam, que se deitam como Boaz na eira, ao pé do monte de cereal, para dormir ali com o coração alegre (Rute 3:7). “Pois só tu me fazes habitar em segurança.”

“Embora esteja sozinho, não estou só, pois Deus está comigo. Embora não tenha guardas a meu serviço, o Senhor sozinho é suficiente para me proteger; ele pode fazê-lo por si mesmo quando todas as outras defesas falham.” Se ele tem a luz do rosto de Deus:

[1.] Pode encontrar satisfação. Sua alma volta a Deus e nele repousa como em seu lugar de descanso; assim ele se deita e dorme em paz. Tem o que deseja e sabe que nada poderá resultar em mal para ele.

[2.] Não teme perturbação alguma da parte dos inimigos; dorme tranquilo e se sente seguro, porque o próprio Deus se comprometeu a mantê-lo em segurança.

Quando for dormir o sono da morte, deitar-se na sepultura e fazer sua cama na escuridão, partirá em paz, como o bom e velho Simeão (Lucas 2:29). Terá a certeza de que Deus receberá sua alma para guardá-la junto de si e fará também seu corpo repousar em segurança na sepultura.

[3.] Entrega a Deus todos os seus assuntos e aceita deixar o desfecho nas mãos dele. Diz-se do lavrador que, depois de lançar a semente à terra, dorme e se levanta, noite e dia; a semente brota e cresce, sem que ele saiba como (Marcos 4:26, 27).

Assim, o homem bom, tendo lançado pela fé e pela oração suas preocupações sobre Deus, dorme e descansa, noite e dia, em perfeita paz. Deixa que Deus realize todas as coisas em favor dele e está pronto a acolher sua santa vontade.

Ao cantar esses versículos e fazer deles nossa oração, desprezemos santamente as riquezas e os prazeres do mundo, incapazes de nos fazer felizes. Busquemos com fervor o favor de Deus e encontremos nele agradável consolo.

Com santo desprendimento quanto ao desfecho de todos os nossos interesses terrenos, entreguemo-nos, com todos os nossos assuntos, à direção e à guarda da Providência divina. Estejamos certos de que tudo será levado a contribuir para nosso bem se nos mantivermos no amor de Deus.


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