Matthew Henry

Salmos 37

Argumento

Este salmo é um sermão, excelente e útil, destinado não à nossa devoção, como a maioria dos salmos, mas à nossa conduta. Nele não há oração nem louvor: tudo é instrução. É “Maschil — um salmo de ensino”.

Expõe alguns dos capítulos mais difíceis do livro da Providência: a ascensão dos perversos e a desonra dos justos. Resolve as dificuldades que daí surgem e nos exorta a agir como convém sob essas dispensações obscuras.

A tarefa dos profetas, e Davi era um deles, consistia em explicar a lei. Ora, a lei de Moisés prometia bênçãos temporais aos obedientes e anunciava desgraças temporais aos desobedientes. Isso se referia principalmente ao conjunto do povo, à nação como nação.

Quando, porém, essas palavras eram aplicadas a pessoas em particular, apareciam muitos casos de pecadores prósperos e santos em adversidade. O propósito do profeta neste salmo é conciliar esses casos com a palavra que Deus havia falado. Nele:

I. Proíbe que nos inquietemos com a prosperidade dos perversos em seus caminhos perversos, v. 1, 7, 8. II. Dá excelentes razões para não nos inquietarmos com ela:

  1. Apesar de sua prosperidade, o caráter vergonhoso dos perversos (v. 12, 14, 21, 32) e o caráter honroso dos justos, v. 21, 26, 30, 31.

  2. A destruição e a ruína que se aproximam dos perversos (v. 2, 9, 10, 20, 35, 36, 38) e a salvação e proteção que os justos certamente receberão contra todos os desígnios maliciosos dos perversos, v. 13, 15, 17, 28, 33, 39, 40.

  3. A misericórdia especial que Deus reserva para todas as pessoas boas e o favor que lhes mostra, v. 11, 16, 18, 19; vv. 22-25; v. 28, 29, 37.

III. Prescreve excelentes remédios contra o pecado de invejar a prosperidade dos perversos e dá grande ânimo para usá-los, vv. 3-6, 27, 34.

Ao cantar este salmo, devemos ensinar e advertir uns aos outros a compreender corretamente a providência de Deus e a nos ajustar a ela.

Devemos cumprir cuidadosamente nosso dever em todo tempo, deixar pacientemente o desfecho nas mãos de Deus e crer que, por mais sombrias que as coisas pareçam agora, irá bem aos que temem a Deus, que temem diante dele.

Exortações e Promessas.

Versículos 1 a 6

Salmo de Davi.

As instruções dadas aqui são muito claras. Não é preciso dizer muito para explicá-las, mas há muito a fazer para pô-las em prática; é assim que mostrarão seu melhor aspecto.

I. Recebemos aqui uma advertência contra o descontentamento com a prosperidade e o êxito dos malfeitores (v. 1, 2): “Não te inquietes nem invejes.” Podemos supor que Davi diga isso primeiro a si mesmo, pregando ao próprio coração enquanto conversa com ele em seu leito.

Busca reprimir as paixões corruptas que percebe em seu íntimo e depois deixa essa instrução por escrito a outros que enfrentem tentação semelhante. O que pregamos primeiro a nós mesmos pregamos melhor aos outros e com maior probabilidade de êxito. Pois bem:

  1. Quando olhamos ao redor, vemos o mundo cheio de malfeitores e praticantes da iniquidade que florescem e prosperam. Conseguem o que querem e fazem o que querem, vivem no conforto e na ostentação e têm poder para prejudicar os que os rodeiam.

Assim era no tempo de Davi. Portanto, se ainda é assim, não nos admiremos como se fosse algo novo ou estranho. 2. Quando olhamos para dentro, percebemos nossa tentação de nos inquietar com isso e invejar esses escândalos e fardos, essas manchas e estorvos comuns da terra.

Somos propensos a nos irritar com Deus, como se ele tratasse sem bondade o mundo e sua igreja ao permitir que tais homens vivam, prosperem e consigam seus intentos. Também somos propensos a nos consumir de irritação diante do êxito de seus projetos maus.

Temos a tentação de invejar a liberdade com que adquirem riquezas, talvez por meios ilícitos, e satisfazem suas paixões, desejando livrar-nos das restrições da consciência e fazer o mesmo.

Somos tentados a considerá-los as únicas pessoas felizes e a querer imitá-los e unir-nos a eles para partilhar seus ganhos e comer de suas iguarias. É contra isso que recebemos a advertência: “Não te inquietes nem invejes.”

A inquietação e a inveja são pecados que constituem seu próprio castigo: são o desconforto do espírito e a podridão dos ossos. Assim, a advertência é para nosso próprio bem. Contudo, isso não é tudo:

  1. Quando olhamos adiante com os olhos da fé, não vemos motivo para invejar a prosperidade dos perversos. Sua ruína está às portas, e eles amadurecem rapidamente para ela, v. 2. Florescem, mas como a erva e a planta verde, que ninguém inveja nem por causa das quais se inquieta.

O florescimento do piedoso é como o de uma árvore frutífera (Salmos 1:3), mas o do perverso é como o da erva e das plantas, que duram pouquíssimo. (1.) Logo murcharão por si mesmas. A prosperidade exterior passa, e também a própria vida à qual se limita.

(2.) Mais cedo ainda serão ceifados pelos juízos de Deus. Seu triunfo é breve, mas seu pranto e lamento serão eternos.

II. Recebemos o conselho de viver confiando em Deus e encontrando nele nosso prazer. Isso nos impedirá de nos inquietar com a prosperidade dos malfeitores. Se cuidarmos bem da própria alma, veremos pouco motivo para invejar aqueles que cuidam tão mal da sua.

Temos aqui três excelentes preceitos pelos quais devemos nos guiar e, para reforçá-los, três promessas preciosas nas quais podemos nos apoiar.

  1. Devemos fazer de Deus nossa esperança no caminho do dever; então teremos sustento confortável neste mundo, v. 3. (1.) Exige-se que confiemos no Senhor e façamos o bem, que depositemos nele nossa confiança e nos conformemos a ele.

A vida religiosa depende muito de confiar com fé em Deus, em seu favor, sua providência, sua promessa e sua graça, e de cuidar com diligência de servi-lo e à nossa geração conforme sua vontade.

Não devemos pensar que podemos confiar em Deus e depois viver como quisermos. Não: se não cumprimos conscienciosamente nosso dever para com ele, isso não é confiar nele, mas colocá-lo à prova. Tampouco devemos pensar que podemos fazer o bem e depois confiar em nós mesmos, em nossa justiça e força.

Não: devemos tanto confiar no Senhor quanto fazer o bem. Então, (2.) promete-se que teremos boa provisão neste mundo: “Assim habitarás na terra e, em verdade, serás alimentado.”

Ele não diz: “Assim conseguirás um cargo, morarás num palácio e serás servido em banquetes.” Isso não é necessário; a vida de uma pessoa não consiste na abundância dessas coisas. Diz, porém: “Terás um lugar para morar, na terra, em Canaã, o vale da visão, e terás alimento conveniente para ti.”

Isso é mais do que merecemos, tanto quanto uma pessoa boa pediria como condição (Gênesis 28:20), e basta a quem está a caminho do céu. “Terás estabilidade, estabilidade tranquila, e sustento, sustento confortável: em verdade, serás alimentado.”

Alguns leem: “Serás alimentado pela fé”, assim como se diz que os justos vivem pela fé. É bom viver e alimentar-se das promessas. “Em verdade, serás alimentado, como Elias durante a fome, com o que te for necessário.” O próprio Deus é pastor e provedor de todos os que nele confiam, Salmos 23:1.

  1. Devemos fazer de Deus o deleite do coração; então teremos o desejo do coração, v. 4. Não devemos apenas depender de Deus, mas encontrar nele consolo. Devemos nos agradar de que Deus existe, de que ele é como se revelou e de que é nosso Deus por aliança.

Devemos nos deleitar com sua beleza, generosidade e benevolência. Nossa alma deve voltar a ele e nele repousar como seu descanso e sua porção para sempre. Convencidos de sua bondade amorosa, devemos nos satisfazer com ela e fazer dela nossa alegria maior, Salmos 43:4.

No v. 3, recebemos a ordem de fazer o bem; depois vem a ordem de nos deleitar em Deus, que é tanto privilégio quanto dever. Se cumprimos conscienciosamente a obediência a Deus, podemos desfrutar o consolo de encontrar nele nosso prazer.

Até esse agradável dever de nos deleitar em Deus vem acompanhado de uma promessa muito plena e preciosa, capaz de recompensar os serviços mais difíceis: “Ele te dará os desejos do teu coração.”

Deus não prometeu satisfazer todos os apetites do corpo nem os caprichos da imaginação, mas conceder todos os desejos do coração, tudo o que anseia a alma renovada e santificada. O que deseja o coração de uma pessoa boa? Conhecer e amar a Deus, viver para ele, agradá-lo e encontrar nele prazer.

  1. Devemos fazer de Deus nosso guia e submeter-nos em tudo à sua orientação e ao seu dispor. Então todos os nossos assuntos, até os que parecem mais complicados e desconcertantes, terão bom desfecho e nos satisfarão, v. 5, 6.

(1.) O dever é muito fácil e, se o cumprirmos corretamente, nos deixará tranquilos: “Entrega teu caminho ao Senhor”; “rola teu caminho sobre o Senhor”, como diz a nota à margem, Provérbios 16:3; Salmos 55:22. “Lança teu fardo sobre o Senhor”, o fardo de tua preocupação, 1 Pedro 5:7.

Devemos retirar esse peso de nós mesmos, sem nos afligir e confundir com pensamentos sobre acontecimentos futuros (Mateus 6:25). Não devemos nos sobrecarregar com a invenção dos meios nem com a expectativa do fim, mas entregar tudo a Deus.

Deixemos que sua providência sábia e boa ordene e disponha todos os nossos assuntos como lhe aprouver. “Expõe teu caminho ao Senhor”, como diz a Septuaginta; isto é: “Por meio da oração, apresenta teu caso e todas as preocupações que tens com ele diante do Senhor.”

Jefté apresentou todas as suas palavras diante do Senhor em Mispá, Juízes 11:11. “Então confia nele para dar um bom desfecho, plenamente satisfeito de que tudo o que Deus faz é bom.”

Devemos cumprir nosso dever, que deve ser nossa preocupação, e deixar o desfecho com Deus. Fiquemos quietos e vejamos como terminará a questão, Rute 3:18. Devemos seguir a Providência, não forçá-la; submeter-nos à Sabedoria infinita, não prescrever-lhe o que fazer.

(2.) A promessa é muito doce. [1.] Em geral: “Ele fará acontecer aquilo que lhe entregaste, seja o que for; ainda que não siga teu plano, será para tua satisfação. Encontrará meios de tirar-te dos apertos, antecipar-se aos teus temores e realizar teus propósitos de modo que fiques satisfeito.”

[2.] Em particular: “Cuidará de tua reputação e te tirará das dificuldades não só com consolo, mas também com crédito e honra: fará sair tua justiça como a luz e teu juízo como o meio-dia” (v. 6). Isto é: “Fará aparecer que és uma pessoa honesta, e isso é honra suficiente.”

Primeiro, implica-se que a justiça e o juízo das pessoas boas podem, por algum tempo, ficar obscurecidos e eclipsados, seja por repreensões marcantes da Providência, pois as grandes aflições de Jó obscureceram sua justiça, seja pelas censuras e pelo descrédito malicioso dos homens.

Estes lhes dão nomes ruins que elas de modo algum merecem e lhes imputam coisas que desconhecem. Segundo, promete-se que Deus, no tempo devido, removerá o descrédito sob o qual estão, esclarecerá sua inocência e fará aparecer sua justiça para honra delas.

Talvez isso aconteça neste mundo, o mais tardar no grande dia, Mateus 13:43. Repare: se cuidarmos de conservar uma boa consciência, podemos deixar a Deus o cuidado de nosso bom nome.

Versículos 7 a 20

Exortações e Promessas.

Nestes versículos temos:

I. Os preceitos anteriores reiterados. Somos tão propensos a nos perturbar com descontentamentos e desconfianças desnecessários e inúteis que precisamos de preceito após preceito e linha após linha para reprimi-los e nos armar contra eles.

  1. Acalmemo-nos pela fé em Deus: “Descansa no Senhor e espera por ele com paciência” (v. 7), isto é, reconciliemo-nos plenamente com tudo o que ele faz e aceitemo-lo, pois o que acontece é o melhor por ter sido determinado por Deus.

Estejamos plenamente certos de que ele continuará fazendo todas as coisas cooperarem para nosso bem, embora não saibamos como nem por qual meio.

“Guarda silêncio diante do Senhor”, como também se pode ler; silêncio não de ressentimento, mas de submissão.

Suportar com paciência o que nos foi imposto e esperar com paciência o que ainda nos está destinado é tanto nosso interesse quanto nosso dever, pois nos manterá tranquilos. Temos muita razão para isso, pois é fazer da necessidade uma virtude.

  1. Não nos perturbemos com o que vemos neste mundo: “Não te inquietes por causa daquele que prospera em seu caminho perverso. Embora seja um homem mau, cresce em riqueza e importância no mundo.”

“Não te inquietes tampouco por quem usa seu poder e riqueza para causar dano e realiza desígnios perversos contra os virtuosos e bons, parecendo alcançar seu objetivo e vencê-los.”

“Se teu coração começar a se exaltar com isso, reprime tua insensatez e abandona a ira (v. 8). Reprime os primeiros sinais de descontentamento e inveja e não nutras pensamentos duros sobre Deus e sua providência por causa disso.”

“Não te ires por coisa alguma que Deus faça; abandona essa cólera, pois é a pior espécie de cólera. Não te inquietes de modo algum para fazer o mal; não invejes a prosperidade deles, para que não sejas tentado a acompanhá-los e seguir o mesmo caminho mau pelo qual enriquecem e ascendem, ou a tomar alguma medida desesperada para escapar deles e de seu poder.”

Repare: o espírito inquieto e descontente fica exposto a muitas tentações; quem o alimenta corre o risco de fazer o mal.

II. As razões anteriores, tiradas da ruína iminente dos perversos apesar de sua prosperidade e da verdadeira felicidade dos justos apesar de suas aflições, são aqui ampliadas. As mesmas ideias se repetem numa agradável variedade de expressões.

Fomos advertidos (v. 7) a não invejar nem a prosperidade mundana dos perversos nem o êxito de suas tramas contra os justos. As razões dadas aqui tratam separadamente dessas duas tentações:

  1. As pessoas boas não têm motivo para invejar a prosperidade mundana dos perversos, nem para se entristecer ou inquietar com ela. (1.) Pois a prosperidade dos perversos logo terminará (v. 9): “Os malfeitores serão eliminados” por um golpe repentino da justiça divina no meio de sua prosperidade.

O que adquiriram pelo pecado não só lhes escapará das mãos (Jó 20:28), mas eles serão levados junto com isso. Vejam o fim desses homens (Salmos 73:17) e quanto lhes custará o ganho mal adquirido. Vocês não os invejarão nem desejarão partilhar sua sorte, para o bem ou para o mal.

Sua ruína é certa e está muito próxima (v. 10): “Ainda um pouco, e o perverso” já não será o que é agora. Num momento, são levados à desolação, Salmos 73:19. Tenham um pouco de paciência, pois o Juiz está à porta, Tiago 5:8, 9. Moderem a paixão, pois o Senhor está perto, Filipenses 4:5.

Quando a ruína chegar, será completa: ele e os seus serão extirpados. O dia que vem não lhe deixará raiz nem ramo (Malaquias 4:1). “Examinarás cuidadosamente seu lugar”, onde ainda há pouco ostentava grande importância, “mas ele não existirá”; vocês não o encontrarão.

Ele não deixará nada de valor nem de honra para trás. No mesmo sentido, v. 20: “Os perversos perecerão”. Sua morte é sua perdição, pois põe fim a toda a alegria deles e os faz passar à miséria sem fim.

Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor; mas arruinados, arruinados para sempre, são os que morrem em seus pecados. Os perversos são inimigos do Senhor: assim se fazem os que não o querem como rei, e como tais ele acertará contas com eles.

“Consumir-se-ão como a gordura de cordeiros; em fumaça se consumirão.” Sua prosperidade, que satisfaz sua sensualidade, é como gordura de cordeiros: não é sólida nem substancial, mas frouxa e aquosa.

Quando chegar sua ruína, cairão como sacrifícios à justiça de Deus e serão consumidos como a gordura dos sacrifícios sobre o altar, de onde subia em fumaça. O dia da vingança de Deus contra os perversos é retratado como sacrifício da gordura dos rins de carneiros (Isaías 34:6).

Deus será honrado pela ruína de seus inimigos, como era pelos sacrifícios. Os pecadores condenados são sacrifícios, Marcos 9:49. Eis uma boa razão para não invejar sua prosperidade: enquanto recebem alimento em abundância, estão apenas engordando para o dia do sacrifício, como um cordeiro em lugar amplo (Oseias 4:16).

Quanto mais prosperam, mais Deus será glorificado em sua ruína. (2.) Pois a condição dos justos, mesmo nesta vida, é melhor e mais desejável em todos os aspectos do que a dos perversos, v. 16. De modo geral, o pouco que um justo possui das honras, riquezas e prazeres deste mundo vale mais do que as riquezas de muitos perversos. Observe:

[1.] A riqueza do mundo é distribuída pela Providência divina de tal forma que, muitas vezes, cabe pouco às pessoas boas e muito às perversas. Com isso Deus nos mostra que as coisas deste mundo não são as melhores; se o fossem, aqueles que são melhores e mais queridos por ele as teriam em maior quantidade.

[2.] O pouco de um piedoso é realmente melhor do que o patrimônio de um perverso, por maior que seja. Vem de uma mão melhor, de amor especial, não apenas da providência comum; é desfrutado com um direito melhor, pois Deus o concede por promessa (Gálatas 3:18).

Pertence-lhes em virtude de sua relação com Cristo, herdeiro de todas as coisas, e recebe um uso melhor: a bênção de Deus o santifica para eles. “Para os puros, todas as coisas são puras”, Tito 1:15. O pouco com que Deus é servido e honrado vale mais do que muito preparado para Baal ou para uma paixão vil.

As promessas feitas aqui aos justos lhes garantem uma felicidade que os dispensa de invejar a prosperidade dos malfeitores. Que saibam, para seu consolo:

Primeiro, que herdarão a terra, tanto dela quanto a Sabedoria infinita julgar bom para eles. Têm a promessa da vida presente, 1 Timóteo 4:8. Se toda a terra fosse necessária para fazê-los felizes, eles a teriam. Tudo lhes pertence, inclusive o mundo e as coisas presentes, assim como as futuras, 1 Coríntios 3:21, 22.

Possuem-na por herança, direito seguro e honroso, não apenas por permissão e tolerância tácita. Quando os malfeitores são eliminados, por vezes os justos herdam o que eles ajuntaram. A riqueza do pecador fica reservada ao justo, Jó 27:17; Provérbios 13:22.

Esta promessa é feita aqui: 1. Aos que vivem pela fé (v. 9): “Os que esperam no Senhor”, como pessoas que dependem dele, aguardam o que virá dele e lhe fazem súplicas, “herdarão a terra”. Isso é sinal do favor que ele lhes concede agora e penhor de coisas melhores destinadas a eles no outro mundo.

Deus é um bom Senhor, que provê com fartura e qualidade não só seus servos que trabalham, mas também os que esperam. 2. Aos que levam uma vida tranquila e pacífica (v. 11): “Os mansos herdarão a terra.”

Eles correm menor risco de sofrer dano ou perturbação na posse do que têm e encontram maior satisfação em si mesmos; por isso, saboreiam com mais doçura os consolos recebidos das coisas criadas. Nosso Salvador fez disso uma promessa do evangelho e uma confirmação da bênção que pronunciou sobre os mansos, Mateus 5:5.

Segundo, deleitar-se-ão na abundância de paz, v. 11. Talvez não tenham abundância de riquezas para desfrutar, mas têm algo melhor: abundância de paz. É a paz interior e a tranquilidade da mente, paz com Deus e, então, paz em Deus.

É a grande paz daqueles que amam a lei de Deus e que nada pode fazer tropeçar (Salmos 119:165), a abundância de paz do reino de Cristo (Salmos 72:7), a paz que o mundo não pode dar (João 14:27) nem os perversos possuir, Isaías 57:21.

Nela se deleitarão e terão um banquete contínuo. Os que têm riquezas em abundância, por sua vez, apenas se sobrecarregam e se confundem com elas, encontrando nelas pouco prazer.

Terceiro, Deus conhece os dias deles, v. 18. Presta-lhes atenção especial, a tudo o que fazem e a tudo o que lhes acontece. Registra os dias de seu serviço, de modo que nenhum dia de trabalho ficará sem recompensa, e os dias de seu sofrimento, para que também por eles recebam compensação.

Conhece seus dias luminosos e se agrada de sua prosperidade; conhece seus dias nublados e sombrios, os dias de aflição, e lhes dará força conforme cada dia. Quarto, sua herança será eterna, não a que têm na terra, mas a herança incorruptível e impossível de perder, reservada para eles no céu.

Os que têm certeza de uma herança eterna no outro mundo não têm motivo para invejar as posses e os prazeres passageiros dos perversos neste. Quinto, mesmo nos piores tempos, tudo lhes irá bem (v. 19).

Não serão envergonhados por sua esperança e confiança em Deus nem pela profissão pública de sua religião; seu consolo lhes será útil e verdadeiro apoio nos tempos maus. Quando outros se abaterem, erguerão a cabeça com alegria e confiança.

Mesmo nos dias de fome, quando outros ao redor morrem de inanição, ficarão satisfeitos, como Elias ficou. De um modo ou de outro, Deus lhes dará alimento conveniente ou um coração satisfeito e contente mesmo sem ele.

Assim, se passarem necessidade e fome, não se inquietarão nem amaldiçoarão seu rei e seu Deus como fazem os perversos (Isaías 8:21). Ao contrário, se alegrarão em Deus como o Deus de sua salvação, mesmo quando a figueira não florescer, Habacuque 3:17, 18.

  1. As pessoas boas não têm motivo para se inquietar com o êxito ocasional dos desígnios dos perversos contra os justos. Embora eles consigam executar parte de seus desígnios maus, fazendo-nos temer que alcancem todos os seus objetivos, abandonemos a ira e não nos inquietemos ao ponto de pensar em desistir da causa. Pois:

(1.) Suas tramas serão sua vergonha, v. 12, 13. É verdade que o perverso trama contra o justo. Há uma inimizade arraigada na descendência do maligno contra a descendência justa. Seu objetivo é destruir a justiça dos justos ou, se isso falhar, destruí-los.

Com esse objetivo, empregam tanto muita astúcia e maquinação malditas, tramando e agindo contra os justos, quanto zelo e fúria malditos: rangem os dentes contra eles. Desejam devorá-los se pudessem e se enchem de ira e indignação porque não conseguem. Com tudo isso, porém, apenas se tornam ridículos.

O Senhor se rirá deles, Salmos 2:4, 5. São orgulhosos e insolentes, mas Deus derramará desprezo sobre eles. Não apenas está descontente com eles: despreza-os, considera vãs e ineficazes todas as suas tentativas e vê sua malícia como impotente e presa a correntes.

Pois vê que o dia dele se aproxima. Isto é: [1.] o dia em que Deus acertará contas, o dia da revelação de sua justiça, que agora parece encoberta e eclipsada. Os homens têm agora seu dia: “Esta é a vossa hora”, Lucas 22:53.

Deus, porém, logo terá o seu: dia de retribuições, que corrigirá todas as coisas e tornará ridículo o que agora passa por glorioso. Pouco importa ser julgado pelo juízo dos homens, 1 Coríntios 4:3. O dia de Deus trará uma sentença decisiva.

[2.] O dia da ruína dos perversos. O dia do perverso, marcado para sua queda, está chegando. Isso indica uma demora: ainda não chegou, mas certamente chegará. A perspectiva desse dia, vista pela fé, permitirá à virgem filha de Sião desprezar a fúria de seus inimigos e rir deles, Isaías 37:22.

(2.) Suas tentativas serão sua destruição, v. 14, 15. Vejam aqui: [1.] como são cruéis nos desígnios contra as pessoas boas. Preparam instrumentos de morte, espada e arco; nada menos lhes basta. Caçam vidas preciosas.

Querem derrubar e matar; têm sede do sangue dos santos. Levam seu desígnio muito longe, e quase chegam a executá-lo: “Puxaram a espada e retesaram o arco.” Todos esses preparativos militares se voltam contra os indefesos, os pobres e necessitados, o que prova sua covardia.

Voltam-se também contra inocentes, pessoas de conduta reta que nunca lhes deram motivo para provocação nem causaram dano a eles ou a qualquer outra pessoa, o que prova sua grande perversidade. Nem a própria retidão as protegerá de sua malícia.

Mas [2.] quão justamente sua malícia recai sobre eles mesmos: “Sua espada entrará no próprio coração”. Isso implica que os justos serão preservados de sua malícia e que essa malícia completará a medida da iniquidade de seus autores.

Às vezes, aquilo mesmo que planejaram contra seus vizinhos inofensivos acaba por destruí-los. De todo modo, a espada de Deus, que suas provocações desembainharam contra eles, lhes causará a ferida mortal.

(3.) Os que não forem eliminados de repente ficarão incapazes de causar mais dano; assim os interesses da igreja estarão efetivamente seguros: “Seus arcos serão quebrados” (v. 15). Seus instrumentos de crueldade falharão, e perderão aqueles que fizeram de ferramentas para servir a seus propósitos sanguinários.

Ou melhor: seus braços serão quebrados, e não poderão continuar suas ações, v. 17. “Mas o Senhor sustém os justos”, para que não sucumbam ao peso das aflições nem sejam esmagados pela violência dos inimigos.

Ele os sustém tanto na integridade quanto na prosperidade. Aqueles que são sustentados pela Rocha dos Séculos não têm motivo para invejar nos perversos o apoio de suas canas quebradas.

Versículos 21 a 33

Exortações e Promessas.

Estes versículos têm sentido muito semelhante ao dos anteriores, pois o assunto merece ser tratado longamente. Observe aqui:

I. O que se exige de nós como caminho para a felicidade. Podemos aprendê-lo tanto pelas características aqui apresentadas quanto pelas orientações dadas. Se queremos receber a bênção de Deus:

  1. Devemos cumprir conscienciosamente o dever de dar a cada pessoa o que lhe pertence, pois “o perverso toma emprestado e não paga”, v. 21. A primeira coisa que o Senhor nosso Deus exige de nós é agir com justiça e dar a todos o que lhes é devido.

Deixar de pagar o que tomamos emprestado não é apenas vergonhoso e mesquinho, mas também pecaminoso e perverso. Alguns entendem isso menos como exemplo da maldade dos perversos e mais da miséria e pobreza a que são reduzidos pelo justo juízo de Deus.

Precisariam pedir emprestado para se manter e depois não teriam condições de pagar, ficando à mercê dos credores. Apesar do que alguns parecem pensar, assim como é grande pecado que quem pode pagar se negue a quitar suas dívidas justas, também é grande miséria não ter condições de pagá-las.

  1. Devemos estar prontos para todos os atos de caridade e beneficência. É exemplo da bondade de Deus para com o justo conceder-lhe recursos para ser bondoso e fazer o bem. Alguns entendem assim: a bênção de Deus aumenta tanto o pouco que ele tem que sobra bastante para socorrer os outros.

Também é exemplo da bondade do justo ter um coração proporcional aos seus bens: “Mostra misericórdia e dá”, v. 21. “Ele é sempre misericordioso”, ou todos os dias, ou durante todo o dia, “misericordioso e empresta”. Por vezes há tanta caridade em emprestar quanto em dar.

Dar e emprestar são agradáveis a Deus quando procedem de uma disposição misericordiosa do coração. Se ela for sincera, será constante e nos impedirá de nos cansar de fazer o bem. Quem é verdadeiramente misericordioso será sempre misericordioso.

  1. Devemos abandonar os pecados e nos dedicar à prática da piedade sincera (v. 27): “Afasta-te do mal e faze o bem.” Deixemos de fazer o mal e passemos a detestá-lo; aprendamos a fazer o bem e nos apeguemos a ele. Isso é a verdadeira religião.

  2. Devemos falar abundantemente sobre o que é bom e, com a língua, glorificar a Deus e edificar os outros. Faz parte do caráter do justo (v. 30) que “sua boca fala sabedoria”. Ele não apenas fala sabiamente, mas pronuncia sabedoria, como o próprio Salomão, para instruir os que estão ao seu redor.

Sua língua não fala de coisas ociosas e sem importância, mas de “juízo”: da palavra e da providência de Deus e das regras da sabedoria para ordenar corretamente a conduta. Da abundância de um coração bom a boca falará o que é bom e útil para edificar.

  1. Devemos submeter inteiramente nossa vontade à vontade e à palavra de Deus (v. 31): a lei de Deus, de seu Deus, está em seu coração. É inútil alegar que Deus é nosso Deus se não recebemos sua lei no coração nem nos entregamos ao governo dela.

Falar sabedoria e discorrer sobre juízo (v. 30) não passa de brincadeira e zombaria se não temos a lei no coração e não pensamos como falamos. A lei de Deus deve ser um princípio que ordena e governa o coração, luz e fonte ali presentes.

Então a conduta será regular e uniforme: nenhum de seus passos escorregará. A lei impedirá de modo eficaz que nos afastemos para o pecado e soframos a inquietação que vem depois.

II. O que nos é assegurado, sob essas condições, como exemplos de nossa felicidade e consolo:

  1. Que teremos a bênção de Deus, que será fonte, doçura e segurança de todos os nossos consolos e prazeres temporais (v. 22).

Os que são abençoados por Deus, como todos os justos o são, com a bênção de um Pai, “herdarão a terra” em virtude dela, ou o país, pois assim se traduz a mesma palavra no v. 29: a terra de Canaã, glória de todas as terras.

Os consolos recebidos das coisas criadas são consolos verdadeiros para nós quando vemos que fluem da bênção de Deus. Temos certeza de que não nos faltará nada que seja bom para nós neste mundo. A terra nos dará seu fruto se Deus, nosso próprio Deus, nos der sua bênção, Salmos 67:6.

Assim como os abençoados por Deus são realmente abençoados, pois herdarão a terra, os que ele amaldiçoa são realmente amaldiçoados. Serão eliminados e extirpados. A extirpação deles pela maldição divina destacará, por contraste, a estabilidade dos justos pela bênção divina.

  1. Que Deus dirigirá e disporá nossas ações e assuntos da forma que mais contribuir para sua glória (v. 23): “Os passos de um homem bom são ordenados pelo Senhor.” Por sua graça e seu Espírito Santo, dirige os pensamentos, afetos e desígnios das pessoas boas.

Ele tem todos os corações nas mãos, mas tem o coração das pessoas boas com o consentimento delas. Por sua providência, sobrepõe-se aos acontecimentos que lhes dizem respeito e torna claro diante delas o caminho, tanto o que devem fazer quanto o que podem esperar.

Observe: Deus ordena os passos de uma pessoa boa. Não apenas seu caminho de modo geral, pela palavra escrita, mas seus passos particulares, pelos sussurros da consciência: “Este é o caminho; andai nele.” Nem sempre lhe mostra o caminho ao longe; conduz um passo de cada vez, como se conduzem crianças.

Assim a mantém em contínua dependência de sua orientação. Faz isso: (1.) porque se deleita em seu caminho e se agrada das veredas da justiça por onde ela anda. “O Senhor conhece o caminho dos justos” (Salmos 1:6), conhece-o com favor e, por isso, o dirige.

(2.) Para que ele possa deleitar-se em seu caminho. Como Deus ordena o caminho de acordo com sua vontade, agrada-se dele. Assim como ama sua própria imagem em nós, agrada-se do que fazemos sob sua orientação.

  1. Que Deus impedirá que nossas quedas no pecado ou na provação nos arruínem (v. 24): “Ainda que caia, não será totalmente lançado por terra.” (1.) Uma pessoa boa pode ser surpreendida numa falta, mas a graça de Deus a levará de volta ao arrependimento, para que não seja totalmente abatida.

Embora por algum tempo perca as alegrias da salvação de Deus, estas lhe serão restauradas, pois Deus a sustentará com sua mão, com seu Espírito livre. A raiz continuará viva, embora a folha murche, e a primavera virá depois do inverno.

(2.) Uma pessoa boa pode estar em angústia, com os assuntos embaraçados e o ânimo abatido, mas não será totalmente lançada por terra. Deus será a força do seu coração quando sua carne e seu coração falharem e a sustentará com seus consolos, para que o espírito que ele criou não desfaleça diante dele.

  1. Que não nos faltarão os meios necessários para o sustento desta vida (v. 25): “Fui jovem e agora sou velho.”

“Em meio a todas as mudanças que vi na condição exterior das pessoas e às observações que fiz a respeito delas, nunca vi um justo abandonado por Deus e pelos homens como por vezes vi perversos abandonados pelo céu e pela terra.”

“Tampouco me lembro de ter visto a descendência do justo reduzida a ponto de mendigar o pão.” O próprio Davi pedira pão ao sacerdote Abimeleque, mas isso ocorreu quando Saul o perseguia.

Nosso Salvador nos ensinou a excluir o caso da perseguição por causa da justiça de todas as promessas temporais (Marcos 10:30). Ela é acompanhada de honras e consolos tão especiais que se torna antes um dom, como a considera o apóstolo (Filipenses 1:29), do que uma perda ou motivo de queixa.

Há, porém, pouquíssimos exemplos de pessoas boas ou famílias delas reduzidas à extrema pobreza à qual muitos perversos chegam por sua perversidade. Davi não vira o justo abandonado nem sua descendência mendigando pão.

“Abandonado”, segundo a interpretação de alguns: se lhes faltar algo, Deus lhes levantará amigos que os ajudem sem que precisem se expor vergonhosamente ao descrédito reservado aos mendigos comuns. Ou, se forem de porta em porta pedir alimento, não o farão em desespero.

Não serão como o perverso que vagueia em busca de pão, perguntando: “Onde está?” (Jó 15:23). Tampouco lhes será negado alimento como ao pródigo, que desejava encher o estômago, mas ninguém lhe dava nada, Lucas 15:16.

Também não reclamarão se não ficarem satisfeitos, como os inimigos de Davi quando vagavam em busca de alimento, Salmos 59:15. Alguns entendem que essa promessa se aplica especialmente aos que são caridosos e generosos com os pobres.

Ela indicaria que Davi nunca viu alguém cair na pobreza por praticar a caridade. É reter mais do que convém que tende a empobrecer, Provérbios 11:24.

  1. Que Deus não nos abandonará, mas nos protegerá com bondade nas dificuldades e nos apertos (v. 28): “O Senhor ama o juízo”. Ele se deleita em fazer justiça e naqueles que também a fazem. Por isso, não abandona seus santos na aflição quando outros passam a tratá-los como estranhos e se afastam deles.

Cuida, porém, de que sejam preservados para sempre. Isto é: em cada época, os santos são postos sob sua proteção; sua sucessão é preservada até o fim dos tempos; e cada santo é guardado contra todas as tentações e através de todas as provações deste tempo presente até chegar à felicidade eterna.

Ele os preservará para seu reino celestial; isso é preservação para sempre, 2 Timóteo 4:18; Salmos 12:7.

  1. Que teremos estabilidade confortável neste mundo e em outro melhor quando o deixarmos. Habitaremos para sempre (v. 27) e não seremos eliminados como a descendência dos perversos, v. 28. Não serão lançados de um lado para outro os que fazem de Deus seu descanso e nele estão em casa.

Nesta terra, porém, não se pode habitar para sempre, não há cidade permanente. Somente no céu, a cidade que tem fundamentos, os justos habitarão para sempre; ali será sua morada eterna.

  1. Que não nos tornaremos presa dos adversários que procuram nossa ruína, v. 32, 33. Há um adversário que aproveita todas as oportunidades para nos causar dano: um perverso que espreita o justo como um leão que ruge e espreita a presa e procura matá-lo.

Há homens perversos que agem assim, muito astutos, pois vigiam o justo em busca da oportunidade de lhe causar dano de modo eficaz e de um pretexto para justificar o que fizeram. São também muito maldosos, pois procuram matá-lo.

Mas isso também pode ser aplicado ao maligno, o diabo, a antiga serpente, que tem artimanhas para enredar os justos, artifícios que não devemos ignorar. É o grande dragão vermelho que procura matá-los, o leão que ruge e ronda continuamente, inquieto e furioso, buscando a quem devorar.

Promete-se aqui, porém, que ele não conseguirá seu intento, nem Satanás nem seus instrumentos. (1.) Não conseguirá seu intento como adversário no campo de batalha: “O Senhor não o deixará em sua mão.” Deus não permitirá que Satanás faça tudo o que deseja nem retirará do seu povo sua força e graça.

Antes, dará a seu povo condições de resistir-lhe e vencê-lo, e sua fé não falhará, Lucas 22:31, 32. Uma pessoa boa pode cair nas mãos de um mensageiro de Satanás e sofrer duros golpes, mas Deus não a deixará nas mãos dele, 1 Coríntios 10:13.

(2.) Não conseguirá seu intento como adversário em juízo: Deus não o condenará quando for julgado, embora o acusador dos irmãos, que os acusa diante de Deus dia e noite, insista nisso.

As falsas acusações desse adversário serão rejeitadas, como as apresentadas contra Josué (Zacarias 3:1, 2): “O Senhor te repreenda, ó Satanás!” É Deus quem justifica; então quem acusará os eleitos de Deus?

Versículos 34 a 40

Exortações e Promessas.

A conclusão que o salmista dá a este sermão, pois essa é a natureza do poema, tem o mesmo sentido do conjunto e reitera as mesmas ideias.

I. O dever em que ele insiste continua o mesmo (v. 34): “Espera no Senhor e guarda seu caminho.” O dever é nosso; precisamos dar-lhe atenção e cumpri-lo conscienciosamente, permanecer no caminho de Deus, sem sair dele nem perder tempo nele. Devemos seguir de perto e continuar avançando.

Os desfechos, porém, pertencem a Deus, e devemos deixar a seu cargo o dispor deles. Precisamos esperar no Senhor, acompanhar os movimentos de sua providência, observá-los cuidadosamente e ajustar-nos a eles com consciência.

Se cuidarmos de guardar o caminho de Deus, poderemos esperá-lo com alegria e entregar-lhe nosso caminho. Descobriremos que ele é bom Senhor tanto para os servos que trabalham quanto para os que esperam.

II. As razões que reforçam esse dever são muito semelhantes: vêm da destruição certa dos perversos e da salvação certa dos justos. Tentado a invejar a prosperidade dos perversos, este homem bom vai ao santuário de Deus para se fortalecer contra a tentação e nos leva consigo (Salmos 73:17).

Ali compreende o fim deles e nos ajuda a compreendê-lo. Ao compará-lo com o fim dos justos, vence a tentação e a faz calar. Observe:

  1. A miséria final dos perversos, embora possam prosperar por algum tempo: “O fim dos perversos será eliminado” (v. 38). Não pode estar bem aquilo que sem dúvida acabará tão mal. No fim, os perversos serão afastados de todo bem e de toda esperança de alcançá-lo.

Todas as suas alegrias terão um fim definitivo, e eles serão separados para sempre da fonte da vida, destinados a todo mal.

(1.) O próprio Davi observara neste mundo alguns casos de ruína notável dos perversos: a pompa e a prosperidade dos pecadores não os protegeriam dos juízos de Deus quando chegasse o dia de sua queda (v. 36, 35).

Davi viu um perverso (a palavra está no singular), talvez Saul ou Aitofel, pois já era velho quando escreveu este salmo, com grande poder, temível, como alguns traduzem. Era o terror dos poderosos na terra dos viventes, levava tudo de roldão com mão altiva e parecia firmemente estabelecido e florescente.

Espalhava-se como um loureiro verde, que produz só folhas e nenhum fruto; ou como um israelita nascido na própria terra, segundo o dr. Hammond, com aparência de criar raízes. Que aconteceu com ele? Muito antes, Elifaz aprendera a amaldiçoar a morada do insensato ao vê-lo criar raízes, Jó 5:3.

Davi também viu motivo para isso: aquele loureiro murchou tão depressa quanto a figueira que Cristo amaldiçoou. “Passou” como sonho, como sombra; assim eram ele e toda a pompa e poder de que tanto se orgulhava.

Desapareceu num instante: “já não existia”; “eu o procurei” com espanto, “mas não foi encontrado”. Representou seu papel e deixou o palco, e ninguém sentiu falta dele.

(2.) A ruína total e definitiva dos pecadores, de todos eles, em breve se tornará para os santos um espetáculo tão evidente quanto os santos por vezes se tornam espetáculo para o mundo (v. 34): “Quando os perversos forem eliminados”, e certamente serão, “tu o verás”, adorando com reverência a justiça divina.

“Os transgressores serão destruídos juntos”, v. 38. Neste mundo, Deus escolhe entre muitos um pecador aqui e outro ali para servir de exemplo in terrorem, isto é, de advertência.

No dia do juízo, porém, a destruição de todos os transgressores será geral, e nenhum escapará. Os que pecaram juntos serão condenados juntos. Amarrem-nos em feixes para queimá-los.

  1. A bem-aventurança final dos justos. Vejamos qual será o fim do povo de Deus, pobre e desprezado. (1.) Elevação. Em algumas épocas, a iniquidade foi tanta que a piedade impediu as pessoas de alcançar cargos neste mundo e as privou de qualquer oportunidade de acumular bens.

Mas os que guardam o caminho de Deus podem ter certeza de que, no tempo devido, ele os exaltará para herdarem a terra (v. 34). Deus os elevará a um lugar nas moradas celestiais, à dignidade, à honra e à verdadeira riqueza na Nova Jerusalém.

Herdarão aquela boa terra, a terra da promessa, da qual Canaã era figura. Deus os elevará acima de todo desprezo e perigo. (2.) Paz, v. 37. Que todos observem o homem perfeito e contemplem o reto, prestando atenção nele para admirá-lo e imitá-lo.

Continuem a observá-lo para ver o que lhe acontece, e descobrirão que “o fim desse homem é a paz”. Às vezes, os últimos dias de sua vida são mais consoladores que os primeiros: as tempestades passam, e ele volta a receber consolo depois do tempo de aflição.

Mesmo que todos os seus dias permaneçam escuros e nublados, talvez o dia de sua morte lhe traga consolo e seu sol se ponha em claridade. Se, porém, o sol se puser sob uma nuvem, ainda assim seu estado futuro será de paz, paz eterna.

Os que andam em retidão enquanto vivem entrarão em paz ao morrer, Isaías 57:2. Uma morte tranquila encerrou a vida atribulada de muitas pessoas boas; e tudo está bem quando termina eternamente bem desse modo.

O próprio Balaão desejou que sua morte e seu fim fossem como os do justo, Números 23:10. (3.) Salvação, v. 39, 40. “A salvação dos justos”, que pode ser aplicada à grande salvação investigada e procurada diligentemente pelos profetas (1 Pedro 1:10), “vem do Senhor”; será obra dele.

A salvação eterna, a salvação de Deus que verão os que ordenam corretamente sua conduta (Salmos 50:23), também vem do Senhor. Aquele que lhes destina Cristo e o céu lhes será Deus todo-suficiente: é sua força no tempo da provação, para sustentá-los sob ela e ajudá-los a atravessá-la.

Ele os ajudará e os livrará: ajudará a cumprir os deveres, carregar os fardos e enfrentar os conflitos espirituais; ajudará a suportar bem as provações e a tirar proveito delas. No tempo devido, os livrará das provações.

Livrá-los-á dos perversos que querem oprimi-los e engoli-los e os porá em segurança onde os perversos deixam de perturbar. Ele os salvará, não apenas os manterá seguros, mas os fará felizes, porque confiam nele.

Isso não acontece porque mereceram algo dele, mas porque se entregaram a ele, depositaram nele sua confiança e, assim, o honraram.


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