Matthew Henry

Salmos 36

Argumento

Não se sabe ao certo quando nem em que ocasião Davi escreveu este salmo; provavelmente foi quando Saul ou Absalão atentava contra ele. Nele, Davi se queixa da malícia de seus inimigos, mas triunfa na bondade de Deus para com ele.

Aqui somos levados a considerar, e nos fará bem considerar seriamente: I. A pecaminosidade do pecado e quanto ele é danoso, vv. 1-4. II. A bondade de Deus e quanto ele é gracioso: 1. Para com todas as suas criaturas em geral, v. 5, 6. 2. Para com seu próprio povo de maneira especial, vv. 7-9.

Por isso o salmista se anima a orar por todos os santos (v. 10), por si mesmo em particular e pela própria preservação (v. 11), e a triunfar na queda certa de seus inimigos, v. 12.

Se, ao cantar este salmo, nosso coração for devidamente tomado pelo ódio ao pecado e pela satisfação na bondade amorosa de Deus, cantaremos com graça e entendimento.

O Caráter dos Perversos.

Ao Músico-Mor. Salmo de Davi, servo do Senhor.

Versículos 1 a 4

No título deste salmo, Davi é chamado servo do Senhor. Não podemos dizer por que recebe esse título aqui e não em nenhum outro salmo, exceto em Salmos 18 (título).

Mas de fato o era, não só como todo homem bom é servo de Deus, mas como rei, como profeta e como alguém empregado em servir aos interesses do reino de Deus entre os homens de modo mais direto e mais notável do que qualquer outro em seus dias.

Ele se gloria nisso, Salmos 116:16. Ser servo do grande Deus não é desonra, mas honra para os maiores homens; é o cargo mais elevado que alguém pode ocupar neste mundo.

Nestes versículos, Davi descreve a perversidade dos perversos. Não se sabe ao certo se ele se refere especificamente a seus perseguidores ou, de modo geral, a todos os pecadores notórios e grosseiros. Mas aqui vemos o pecado em suas causas e em suas cores, em sua raiz e em seus ramos.

I. Aqui está a raiz de amargura da qual procede toda a perversidade dos perversos. Ela nasce: 1. Do desprezo que têm por Deus e da falta da devida consideração para com ele (v. 1):

“A transgressão do perverso” (como é descrita adiante, v. 3, 4) “diz em meu coração” (leva-me a concluir dentro de mim) “que não há temor de Deus diante de seus olhos”. Pois, se houvesse, ele não falaria nem agiria de modo tão extravagante como faz; não violaria, nem ousaria violar, as leis de Deus e suas alianças com ele, se tivesse alguma reverência por sua majestade ou receio de sua cólera.

Por isso, é apropriado que, segundo a nossa lei, as acusações formais digam que o criminoso, não tendo o temor de Deus diante dos olhos, fez isto ou aquilo.

O perverso não renunciou abertamente ao temor de Deus, mas sua transgressão o sussurrou em segredo à mente de todos os que conheciam algo da natureza da piedade e da impiedade. Davi concluiu que aqueles que viviam sem restrições viviam sem Deus no mundo.

  1. Da alta opinião que têm de si mesmos e do embuste que impõem voluntariamente à própria alma (v. 2): “Ele se lisonjeia aos próprios olhos”. Isto é, enquanto persiste no pecado, pensa que age com sabedoria e bem para si, e ou não enxerga ou não admite o mal e o perigo de suas práticas perversas.

Chama o mal de bem e o bem de mal; alega que sua libertinagem é apenas a legítima liberdade, faz sua fraude passar por prudência e sagacidade e sugere a si mesmo que perseguir o povo de Deus é um ato de justiça necessária.

Se sua consciência o ameaça pelo que faz, ele diz: “Deus não o cobrará; terei paz embora continue assim”. Repare: os pecadores destroem a si mesmos ao se lisonjearem. Satanás não poderia enganá-los se eles não enganassem a si próprios.

Mas o embuste durará para sempre? Não. Aproxima-se o dia em que o pecador será desenganado, quando sua iniquidade será considerada detestável. A iniquidade é coisa detestável; é aquela coisa abominável que o Senhor odeia e que seus olhos puros e zelosos não suportam contemplar.

Ela causa prejuízo ao próprio pecador e, por isso, deveria ser detestável para ele; mas não é assim. Ele a revolve sob a língua como um doce bocado por causa do lucro terreno e do prazer sensual que podem acompanhá-la. Contudo, o alimento em suas entranhas se transformará; será fel de víboras, Jó 20:13, 14.

Quando as consciências deles forem convencidas, o pecado aparecer em suas verdadeiras cores e os tornar um terror para si mesmos, quando lhes for posto nas mãos o cálice de tremor e forem obrigados a beber até a borra, então a iniquidade deles será considerada detestável.

Também verão que a lisonja de si mesmos foi uma insensatez indizível e agravou sua condenação.

II. Aqui estão os ramos malditos que brotam dessa raiz de amargura. O pecador desafia a Deus e até deifica a si mesmo; que se pode esperar, senão que acabe inteiramente em ruína? Essas foram as duas primeiras portas de entrada do pecado.

Os homens não temem a Deus e, por isso, lisonjeiam a si mesmos. Então: 1. Não têm escrúpulo quanto ao que dizem, seja verdadeiro ou falso, certo ou errado (v. 3): “As palavras de sua boca são iniquidade e engano”, maquinadas para causar dano e, contudo, encobri-lo sob alegações de aparência convincente e plausíveis.

Não surpreende que os que enganam a si mesmos maquinem como enganar toda a humanidade; pois a quem serão fiéis os que são falsos com a própria alma?

  1. O pouco de bem que havia neles desapareceu: as faíscas de virtude foram apagadas, suas convicções frustradas e seus bons começos reduzidos a nada: Deixaram de ser sábios e de fazer o bem.

Pareciam guiados pela sabedoria e governados pela religião, mas romperam essas amarras. Abandonaram a religião e, com ela, a sabedoria. Repare: os que deixam de fazer o bem deixam de ser sábios.

  1. Depois de deixarem de fazer o bem, maquinam causar prejuízo e ser incômodos aos que os cercam, que são bons e fazem o bem (v. 4): “Ele planeja o dano em seu leito”. Repare:

(1.) As omissões abrem caminho para as ações pecaminosas. Quando os homens deixam de fazer o bem, de orar, de participar das ordenanças de Deus e de cumprir seu dever para com ele, o diabo facilmente os torna seus agentes e instrumentos.

Por meio deles, atrai ao pecado os que se deixam atrair e, quanto aos que não se deixam, faz com que caiam em tribulações. Os que deixam de fazer o bem começam a fazer o mal. O diabo, depois de abandonar sua inocência, logo se tornou tentador de Eva e perseguidor do justo Abel.

(2.) É mau causar dano, mas é pior planejá-lo, fazê-lo deliberadamente e com determinação, pôr a inteligência para trabalhar a fim de maquinar como fazê-lo com a maior eficácia, com trama e organização, com a astúcia e também com a malícia da antiga serpente.

É pior planejá-lo no leito, onde deveríamos meditar em Deus e em sua palavra, Miquéias 2:1. Isso mostra que o coração do pecador está inteiramente decidido a fazer o mal.

  1. Depois de entrarem no caminho do pecado, caminho que não é bom e no qual não há bem nem durante o percurso nem ao final, persistem nele e resolvem continuar.

O pecador se dispõe a executar o dano que planejou, e nada do que se propôs a fazer lhe será vedado, por mais contrário que seja a seu dever e a seu verdadeiro interesse.

Se os pecadores não endurecessem o coração e não cobrissem o rosto de bronze com obstinação e atrevimento, não poderiam persistir em seus maus caminhos, em oposição tão direta a tudo que é justo e bom.

  1. Além de praticarem o mal, não sentem repulsa alguma por vê-lo nos outros: “Ele não abomina o mal”; ao contrário, tem prazer nele e se alegra ao ver outros tão maus quanto ele. Ou isso pode indicar sua falta de arrependimento do pecado.

Quando Deus concede arrependimento aos que praticaram o mal, eles abominam o mal que fizeram e abominam a si mesmos por causa dele. Ao recordá-lo, o pecado é amargo, por mais doce que tenha sido ao cometê-lo.

Mas esses pecadores endurecidos têm a consciência tão cauterizada e entorpecida que nunca se lembram depois dos pecados com pesar ou remorso. Antes, sustentam o que fizeram como se pudessem justificá-lo diante do próprio Deus.

Alguns pensam que, em tudo isso, Davi se refere especificamente a Saul, que havia abandonado o temor de Deus e deixado toda a bondade. Saul alegou bondade para com Davi ao lhe dar a filha em casamento, mas ao mesmo tempo planejava causar-lhe dano.

Não há necessidade, porém, de restringir assim a interpretação. Há entre nós pessoas demais às quais essa descrição se ajusta, o que é muito lamentável.

A Admirável Bondade de Deus; O Favor de Deus para com Seu Povo.

Versículos 5 a 12

Depois de olhar ao redor com dor para a perversidade dos perversos, Davi aqui olha para cima com consolo, contemplando a bondade de Deus. Este assunto é tão agradável quanto o anterior era desagradável e muito apropriado para servir de contrapeso a ele. Observe:

I. Suas meditações sobre a graça de Deus. Ele vê o mundo contaminado, a si mesmo em perigo e Deus desonrado pelas transgressões dos perversos. Mas, de repente, volta os olhos, o coração e a fala para Deus: “Seja como for, ainda assim tu és bom”. Aqui ele reconhece:

  1. As perfeições transcendentes da natureza divina. Entre os homens, muitas vezes temos motivo para nos queixar de que “não há verdade nem misericórdia” (Oseias 4:1), nem juízo nem justiça, Isaías 5:7. Em Deus, porém, encontramos tudo isso sem a menor mistura de imperfeição.

O que quer que falte ou esteja errado no mundo, sabemos com certeza que nada falta nem está errado naquele que o governa.

(1.) Ele é um Deus de bondade inesgotável: “A tua misericórdia, ó Senhor, está nos céus”. Se os homens fecham as entranhas de sua compaixão, junto de Deus, no trono de sua graça, encontraremos misericórdia.

Quando os homens planejam dano contra nós, os pensamentos de Deus a nosso respeito, se permanecemos firmemente unidos a ele, são pensamentos de bem. Na terra encontramos pouco contentamento e muita inquietação e decepção.

Nos céus, porém, onde a misericórdia de Deus reina em perfeição e para sempre, há plena satisfação. Portanto, se desejamos viver em paz, tenhamos lá nossa conduta e desejemos estar lá.

Por pior que seja o mundo, nunca pensemos pior de Deus nem de seu governo. Antes, ao ver tamanha perversidade entre os homens, não ponhamos em dúvida a pureza de Deus, como se ele aprovasse o pecado; admiremos sua paciência, pois suporta tanto daqueles que o provocam com tamanha insolência.

Ou melhor, faz brilhar seu sol e cair sua chuva sobre eles. Se a misericórdia de Deus não estivesse nos céus, isto é, infinitamente acima da misericórdia de qualquer criatura, já teria afogado o mundo outra vez há muito tempo. Veja Isaías 55:8, 9; Oseias 11:9.

(2.) Ele é um Deus de fidelidade inviolável: “A tua fidelidade chega até as nuvens”. Embora Deus permita que os perversos causem muito dano, ele é e será fiel às ameaças contra o pecado, e virá o dia em que lhes pedirá contas.

Ele também é fiel à aliança com seu povo, que não pode ser quebrada. Nem um jota nem um til de suas promessas serão frustrados por toda a malícia da terra e do inferno. É grande consolo para todas as pessoas boas que, embora os homens sejam falsos, Deus é fiel.

Os homens falam vaidades, mas as palavras do Senhor são palavras puras. A fidelidade de Deus alcança altura tão grande que não muda conforme as condições do tempo, como a dos homens; pois chega aos céus (assim se deveria ler, segundo alguns), acima das nuvens e de todas as mudanças da região inferior.

(3.) Ele é um Deus de justiça e equidade incontestáveis: “A tua justiça é como as grandes montanhas”, tão imóvel e inflexível em si mesma e tão visível e evidente para todo o mundo. Pois nenhuma verdade é mais certa nem mais clara do que esta: o Senhor é justo em todos os seus caminhos e nunca fez nem jamais fará injustiça a qualquer de suas criaturas.

Mesmo quando nuvens e escuridão o cercam, o juízo e a justiça são a habitação de seu trono, Salmos 97:2.

(4.) Ele é um Deus de sabedoria e desígnio insondáveis: “Teus juízos são um grande abismo”, que nenhuma linha e nenhum prumo de entendimento finito podem sondar. Assim como seu poder é soberano, e ele não nos deve explicações sobre esse poder, seu modo de agir é singular e misterioso, e nós não podemos explicá-lo.

Seu caminho está no mar, e sua vereda, nas grandes águas. Sabemos que ele faz tudo com sabedoria e bondade; mas não sabemos agora o que ele faz. Haverá tempo suficiente para sabê-lo depois.

  1. O zelo e a beneficência extensos da Providência divina: “Tu preservas o homem e os animais”; Deus não só os protege do dano, mas também lhes fornece o necessário para sustentar a vida.

Embora os animais não sejam capazes de conhecer e louvar a Deus, ele, em sua graça, provê para eles. Seus olhos esperam nele, e ele lhes dá alimento no tempo devido. Não nos admiremos de que Deus alimente homens maus, pois alimenta os animais irracionais.

E não temamos que deixe de prover bem para os homens bons: aquele que alimenta os leões jovens não fará seus próprios filhos morrerem de fome.

  1. O favor especial de Deus para com os santos. Observe:

(1.) Seu caráter, v. 7. São pessoas atraídas pela excelência da bondade amorosa de Deus a depositar sua confiança à sombra de suas asas. [1.] A bondade amorosa de Deus lhes é preciosa. Saboreiam-na e nela sentem uma doçura transcendente.

Admiram a beleza e a benevolência de Deus acima de tudo neste mundo; nada lhes é tão amável nem tão desejável. Não conhecem a Deus aqueles que não admiram sua bondade amorosa, nem conhecem a si mesmos aqueles que não a desejam ardentemente.

[2.] Por isso depositam nele confiança plena. Recorrem a ele, colocam-se sob sua proteção e então se julgam seguros e se sentem tranquilos, como os pintinhos sob as asas da galinha, Mateus 23:37.

Era característica dos prosélitos virem confiar sob as asas do Deus de Israel (Rute 2:12). E o que é mais apropriado para reunir prosélitos do que a excelência de sua bondade amorosa? O que é mais poderoso para despertar nosso contentamento com ele e nele? Os que são atraídos dessa maneira pelo amor permanecerão unidos a ele.

(2.) Seu privilégio. Feliz, três vezes feliz, é o povo cujo Deus é o Senhor, pois nele têm, ou podem ter, ou terão, felicidade completa.

[1.] Seus desejos serão atendidos (v. 8): “Serão abundantemente satisfeitos com a gordura de tua casa”. Suas carências serão supridas, seus anseios, satisfeitos, e toda a sua capacidade, preenchida. No Deus todo-suficiente terão o bastante: tudo quanto uma alma esclarecida e ampliada pode desejar ou receber.

Os ganhos do mundo e os prazeres dos sentidos empanturram, mas nunca satisfazem, Isaías 55:2. Já as comunicações do favor e da graça divinos satisfazem sem jamais empanturrar. Uma alma agraciada, embora continue a desejar mais de Deus, nunca deseja mais do que Deus.

As dádivas da Providência os satisfazem a ponto de ficarem contentes com o que têm. “Tenho tudo e abundo”, Filipenses 4:18. O benefício das santas ordenanças é a gordura da casa de Deus, doce para a alma santificada e fortalecedora da vida espiritual e divina.

Disso ficam abundantemente satisfeitos; nada mais desejam neste mundo do que viver em comunhão com Deus e desfrutar do consolo das promessas. Mas a satisfação plena e abundante está reservada para o estado futuro, a casa não feita por mãos, eterna nos céus. Ali todo vaso estará cheio.

[2.] Suas alegrias serão constantes: “Tu os farás beber do rio dos teus prazeres”. Primeiro, existem prazeres na verdade divinos: São seus prazeres, não só porque vêm de você, que os concede, mas porque terminam em você, que é seu objeto e centro.

Sendo puramente espirituais, são da mesma natureza dos prazeres dos gloriosos habitantes do mundo superior e apresentam alguma semelhança até com as delícias da Mente Eterna.

Segundo, há um rio desses prazeres, sempre cheio, sempre fresco, sempre fluindo. Há o suficiente para todos e para cada um; veja Salmos 46:4. Os prazeres dos sentidos são água podre de poça; os da fé são puros e agradáveis, “claros como cristal”, Apocalipse 22:1.

Terceiro, Deus não apenas preparou esse rio de prazeres para seu povo: ele os faz beber dele, produzindo neles, pela graça, apetite por esses prazeres e, por seu Espírito, enchendo suas almas de alegria e paz no crer.

No céu, beberão para sempre dos prazeres que estão à direita de Deus, saciados com a plenitude da alegria, Salmos 16:11.

[3.] Vida e luz serão sua bem-aventurança e porção eternas, v. 9. Tendo o próprio Deus como sua felicidade: Primeiro, nele têm uma fonte de vida, da qual fluem aqueles rios de prazer, v. 8. O Deus da natureza é a fonte da vida natural. Nele vivemos, nos movemos e existimos.

O Deus da graça é a fonte da vida espiritual. Toda a força e todo o consolo de uma alma santificada, todos os seus princípios, poderes e atos de graça vêm de Deus. Ele é a origem e o autor de todas as suas percepções das coisas divinas e de todos os seus movimentos em direção a elas.

Ele vivifica a quem quer; e quem quiser pode vir e tomar gratuitamente dele as águas da vida. Ele é a fonte da vida eterna. A felicidade dos santos glorificados consiste em vê-lo e desfrutá-lo e nas comunicações sem mediação de seu amor, sem interrupção nem temor de que cessem.

Segundo, nele possuem luz em perfeição: sabedoria, conhecimento e alegria, tudo incluído nessa luz: “Na tua luz veremos a luz”. Isto é: 1. No conhecimento de você pela graça e na visão de você na glória, teremos aquilo que convém plenamente ao nosso entendimento e o satisfaz.

A luz divina que brilha nas Escrituras, especialmente no rosto de Cristo, a luz do mundo, contém toda a verdade. Quando virmos Deus face a face, além do véu, veremos a luz em perfeição e conheceremos o suficiente, 1 Coríntios 13:12; 1 João 3:2.

  1. Na comunhão com você agora, por meio das comunicações da sua graça a nós e da resposta de nossos afetos devotos a você, e em breve no céu, ao desfrutarmos de você, teremos felicidade e satisfação completas. Em seu favor, temos todo o bem que podemos desejar.

Este é um mundo escuro; vemos nele pouco consolo. Mas na luz celestial há luz verdadeira, sem luz falsa, luz duradoura, que nunca se extingue.

Neste mundo vemos Deus e dele desfrutamos por meio de criaturas e meios; no céu, porém, o próprio Deus estará conosco (Apocalipse 21:3), e nós o veremos e desfrutaremos dele sem mediação.

II. Temos aqui as orações, intercessões e santos triunfos de Davi, fundamentados nessas meditações.

  1. Ele intercede por todos os santos, pedindo que sempre experimentem o benefício e o consolo do favor e da graça de Deus, v. 10.

(1.) As pessoas em favor de quem ora são aquelas que conhecem Deus, têm intimidade com ele, o reconhecem e declaram que ele é seu: os retos de coração, sinceros em sua profissão de fé e fiéis tanto a Deus quanto aos homens. Aqueles que não são retos para com Deus não o conhecem como deveriam.

(2.) A bênção que pede para eles é a bondade amorosa de Deus, isto é, os sinais do favor divino para com eles, e sua justiça, isto é, a operação da graça divina neles. Ou sua bondade amorosa e justiça são sua bondade conforme a promessa: são misericórdia e verdade.

(3.) A maneira como deseja que essa bênção seja comunicada: Ó, faça-a continuar; prolongue-a, assim como a mãe estende os seios à criança e a criança extrai deles o leite. Que ela se prolongue tanto quanto a própria linha da eternidade.

A felicidade dos santos no céu será perfeita e, ainda assim, progredirá continuamente (como alguns pensam); pois a fonte ali estará sempre cheia e suas correntes sempre fluindo. Nisso há continuidade, Isaías 64:5.

  1. Ele ora por si mesmo, para ser preservado em sua integridade e em seu consolo (v. 11): “Não deixes que o pé do orgulho venha contra mim”, para me fazer tropeçar ou me pisar; nem deixes que a mão dos perversos, estendida contra mim, consiga o intento de me afastar, seja da minha pureza e integridade, por alguma tentação, seja da minha paz e do meu consolo, por alguma tribulação.

Que os que lutam contra Deus não triunfem sobre os que desejam permanecer unidos a ele. Aqueles que experimentaram o prazer da comunhão com Deus só podem desejar que nada jamais os afaste dele.

  1. Ele se alegra na esperança da queda de todos os seus inimigos no devido tempo (v. 12): Ali, onde pensaram que conseguiriam o intento contra mim, foram eles próprios que caíram, apanhados na armadilha que prepararam para mim.

Ali, no outro mundo (segundo alguns), onde os santos permanecem de pé no juízo e têm lugar na casa de Deus, os praticantes da iniquidade são derrubados no juízo e lançados no inferno, no abismo sem fundo. De lá, com certeza, nunca poderão erguer-se sob o peso insuportável da cólera e da maldição de Deus.

É verdade que não devemos nos alegrar quando cai algum inimigo nosso em particular; mas a derrota final de todos os praticantes da iniquidade será o triunfo eterno dos santos glorificados.


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