Matthew Henry

Salmos 33

Argumento

Este é um salmo de louvor. É provável que Davi o tenha escrito, mas isso não nos é dito, porque Deus quer que olhemos para além dos autores humanos da Sagrada Escritura, para o bendito Espírito que os moveu e guiou.

Neste salmo, o salmista: I. Chama os justos a louvar a Deus, vv. 1-3. II. Dá-nos matéria para o louvor. Devemos louvar a Deus: 1. Por sua justiça, bondade e verdade, manifestas em sua palavra e em todas as suas obras, v. 4, 5. 2. Por seu poder manifesto na obra da criação, vv. 6-9.

  1. Pela soberania de sua providência no governo do mundo (v. 10, 11) e, novamente, vv. 13-17. 4. Pelo favor especial que dispensa aos membros de seu próprio povo escolhido, o que os anima a confiar nele (v. 12) e, novamente, vv. 18-22.

Ao cantar este salmo, que expressa com tanta naturalidade os sentimentos piedosos de uma alma devota para com Deus, não precisamos ficar sem pensamentos apropriados.

Versículos 1 a 11

Uma Exortação a Louvar a Deus.

O salmista expressa quatro coisas nestes versículos:

I. O grande desejo de que Deus fosse louvado. Ele não julgava que o fazia tão bem por conta própria que não almejasse ver outros também ocupados nessa obra; quanto mais pessoas nesse coro, melhor, pois mais se parece com o céu.

  1. A santa alegria é o coração e a alma do louvor, e é recomendada aqui a todas as pessoas boas (v. 1): “Alegrai-vos no Senhor, vós, justos”. Assim terminou o salmo anterior e assim começa este.

Todos os nossos exercícios religiosos devem começar e terminar com santo deleite e triunfo em Deus, o melhor dos seres e o melhor dos amigos.

  1. O louvor agradecido é o fôlego e a linguagem da santa alegria; também nos é exigido aqui (v. 2): “Louvai ao Senhor”; falem bem dele e deem-lhe a glória devida a seu nome.

  2. Os cânticos religiosos são as expressões próprias do louvor agradecido. Eles são requeridos aqui (v. 3):

“Cantai-lhe um cântico novo”, o melhor que tiverem; não um que o uso frequente tornou gasto e puído, mas um que, por ser novo, tem mais probabilidade de mover os sentimentos; um cântico novo por novas misericórdias e em cada nova ocasião, pelas compaixões que se renovam a cada manhã.

Naquele tempo, por designação de Davi, usava-se música nos cânticos do templo, para que fossem mais bem cantados. Também ela é requerida aqui (v. 2): “Cantai-lhe com o saltério”. Aqui estão:

(1.) Uma boa regra para esse dever: Façam-no com habilidade e som alto; dediquem-lhe o melhor tanto da mente quanto do coração. Façam-no com entendimento e mente clara, com afeto e coração ardente.

(2.) Um bom motivo para esse dever: “Pois o louvor convém aos retos.” É agradável a Deus (as vestes de louvor muito acrescentam à beleza que Deus confere a seu povo) e é excelente ornamento para nossa profissão de fé.

Convém aos retos, a quem Deus concedeu tanta honra, honrá-lo. Os retos louvam a Deus de maneira apropriada, pois o louvam de coração, isto é, com sua glória; já o louvor dos hipócritas é desajeitado e impróprio, como um provérbio na boca dos insensatos, Provérbios 26:7.

II. Os pensamentos elevados que tinha a respeito de Deus e de suas perfeições infinitas, v. 4, 5. Deus se dá a conhecer a nós: 1. Em sua palavra, que aqui representa toda a revelação divina, tudo quanto Deus falou aos filhos dos homens em diferentes tempos e de diversas maneiras.

Tudo isso é reto; nada há de errado nele. Seus mandamentos concordam perfeitamente com as regras da equidade e com as razões eternas do bem e do mal. Todas as suas promessas são sábias, boas e infalivelmente seguras; não há iniquidade em suas ameaças, pois até elas têm por desígnio o nosso bem, afastando-nos do mal.

A palavra de Deus é reta; por isso, todos os nossos desvios dela são errados, e só estamos certos quando concordamos com ela. 2. Em suas obras, todas feitas em verdade, todas conformes a seus conselhos, chamados de Escrituras da verdade, Daniel 10:21.

A cópia em todas as obras de Deus corresponde exatamente ao grande original, ao plano traçado na Mente Eterna, sem variar sequer um jota. Deus mostrou em suas obras:

(1.) Que é um Deus de justiça inflexível: “Ele ama a justiça e o juízo.” Não há senão justiça na sentença que profere e juízo na execução dela. Ele nunca prejudicou nem pode prejudicar qualquer de suas criaturas; está sempre pronto a reparar o mal sofrido pelos injustiçados e faz isso com prazer.

Deus se agrada dos justos. Ele próprio é o Senhor justo e, portanto, ama a justiça. (2.) Que é um Deus de generosidade inesgotável: A terra está cheia de sua bondade, isto é, das provas e manifestações dela.

As influências benéficas que a terra recebe do alto, os frutos que por isso consegue produzir, a provisão feita tanto para os homens quanto para os animais e as bênçãos comuns concedidas a todas as nações da terra declaram claramente que a terra está cheia de sua bondade.

Nem sequer as regiões mais escuras, mais frias, mais quentes, mais secas e desertas ficam de fora. É lamentável que esta terra, tão cheia da bondade de Deus, seja tão vazia de louvores a ele, e que, entre as multidões que vivem de sua generosidade, tão poucos vivam para sua glória!

III. A convicção que tinha do poder onipotente de Deus, manifestado na criação do mundo. Cremos em Deus e, portanto, o louvamos como “Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra”; é assim que aqui aprendemos a louvá-lo. Observe:

  1. Como Deus fez o mundo e trouxe todas as coisas à existência. (1.) Com que facilidade: todas as coisas foram feitas pela palavra do Senhor e pelo sopro de sua boca. Cristo é a Palavra, o Espírito é o sopro; assim, Deus Pai fez o mundo por seu Filho e seu Espírito, como por eles o governa e redime.

Ele falou e ordenou (v. 9), e isso bastou; nada mais era necessário. Entre os homens, dizer e fazer são duas coisas diferentes; com Deus não é assim. Assim como o mundo foi feito pela Palavra e pelo Espírito de Deus, também o foi o homem, esse pequeno mundo.

Deus disse: “Façamos o homem”, e soprou nele o fôlego de vida. Pela Palavra e pelo Espírito a igreja é edificada, esse novo mundo; a graça é operada na alma, esse novo homem, essa nova criação. O que não pode fazer o poder que criou um mundo com uma palavra!

(2.) Com que eficácia se fez: “E permaneceu firme.” O que Deus faz, faz de modo eficaz; faz e fica firme. “Tudo quanto Deus faz durará para sempre”, Eclesiastes 3:14. É por força dessa ordem de permanecer firme que as coisas continuam até hoje conforme a determinação de Deus, Salmos 119:91.

  1. O que ele fez. Fez todas as coisas, mas aqui se destacam: (1.) Os céus e suas hostes, v. 6: os céus visíveis, o sol, a lua e as estrelas, suas hostes. (2.) As águas e suas reservas, v. 7.

No princípio, a terra era coberta de água e, sendo mais pesada, naturalmente deveria descer e afundar sob ela.

Mas, para mostrar desde o começo que o Deus da natureza não está preso ao curso comum da natureza nem às operações usuais de seus poderes, com uma só palavra reuniu as águas num montão, para que surgisse a terra seca.

Ele, porém, não as deixou amontoadas; guardou as profundezas em depósitos: não apenas nas partes baixas onde os mares formam seus leitos e ficam encerrados pela areia da praia como em armazéns, mas também em cavernas subterrâneas secretas.

Ali elas estão ocultas aos olhos de todos os viventes, mas foram reservadas como num depósito para o dia em que as fontes do grande abismo seriam rompidas. Continuam guardadas ali, para o uso que o grande Dono da casa melhor conhece.

  1. Que proveito devemos tirar disso (v. 8): “Tema toda a terra ao Senhor”, e permaneça reverente diante dele. Isto é, que todos os filhos dos homens o adorem e lhe deem glória, Salmos 95:5, 6. O evangelho eterno apresenta esta razão para adorarmos a Deus: ele fez o céu, a terra e o mar, Apocalipse 14:6, 7.

Temamos todos a ele, isto é, tenhamos pavor de sua cólera e seu desagrado, receemos tê-lo como inimigo e insistir em resistir-lhe. Não ousemos ofender aquele que, tendo tal poder, sem dúvida tem todo poder em suas mãos.

É perigoso estar em guerra com quem tem a hoste dos céus como exército e as profundezas do mar como arsenal. Portanto, é sábio desejar termos de paz; veja Jeremias 5:22.

IV. A satisfação que tinha na soberania e no domínio de Deus, v. 10, 11. Ele se sobrepõe a todos os conselhos humanos e faz com que, contra a intenção de seus autores, sirvam a seus próprios conselhos. Venham e vejam, com os olhos da fé, Deus no trono:

  1. Ele frustra os artifícios dos inimigos: Reduz a nada o conselho das nações, de modo que o que tramam contra ele e seu reino se revela vão (Salmos 2:1). O conselho de Aitofel se transforma em loucura; a trama de Hamã fracassa.

Por mais profundo que seja o desígnio e por mais altas as esperanças nele depositadas, se Deus diz que não permanecerá nem acontecerá, tudo será inútil. 2. Ele cumpre seus próprios decretos: “O conselho do Senhor permanece para sempre”.

Esse conselho é imutável em si mesmo, pois Deus permanece firme em sua resolução; quem poderá mudá-lo? Sua execução pode ser combatida, mas nenhum poder criado pode impedi-la minimamente.

Ao longo de todas as mudanças do tempo, Deus nunca alterou seus procedimentos. Em cada desfecho, até naquele que mais nos surpreende, seu conselho eterno se cumpre; nada pode impedir que se realize no tempo determinado.

Com quanto prazer podemos louvá-lo ao cantar este salmo! Como nos tranquiliza, em todo tempo, pensar que Deus governa o mundo, que o governou com sabedoria infinita antes de nascermos e continuará a governá-lo quando estivermos calados no pó!

Versículos 12 a 22

O Poder Soberano de Deus.

Aqui somos ensinados a dar glória a Deus:

I. Por sua providência comum para com todos os filhos dos homens. Embora tenha dotado o homem de entendimento e liberdade de vontade, ele reserva para si o governo do homem, inclusive o daquelas mesmas faculdades que o habilitam a governar a si próprio.

  1. Todos os filhos dos homens estão sob seus olhos, e até mesmo seus corações estão; ele conhece todos os movimentos e operações de suas almas, que ninguém conhece senão eles próprios, melhor do que eles mesmos, v. 13, 14.

Embora a glória de Deus resida nos mais altos céus, dali ele não só contempla toda a terra, mas examina em particular todos os seus habitantes.

Ele não apenas os vê, mas olha para eles; olha atentamente para eles (assim se traduz às vezes a palavra aqui empregada), com tamanha atenção que nem o menor pensamento escapa à sua observação.

Os ateus pensam que, por habitar no alto céu, ele não pode, ou não quer, reparar no que se faz aqui neste mundo inferior; mas de lá, por mais elevado que seja, ele nos vê a todos, e todas as pessoas e coisas estão nuas e patentes diante dele.

  1. Seus corações, assim como seus tempos, estão todos em suas mãos: ele forma seus corações. Foi ele quem os fez a princípio, formando o espírito de cada homem dentro dele quando o trouxe à existência. Por isso é chamado Pai dos espíritos; e esta é uma boa razão para provar que os conhece perfeitamente.

O artífice que fez o relógio pode explicar os movimentos de cada engrenagem. Davi emprega essa razão, aplicando-o a si mesmo, Salmos 139:1, 14. Deus continua a moldar os corações dos homens e os dirige, como rios de água, para onde lhe apraz, a fim de servirem aos seus propósitos.

Ele obscurece ou ilumina o entendimento dos homens, endurece ou inclina suas vontades, conforme lhe apraz valer-se deles. Aquele que forma os corações dos homens os forma de maneira semelhante.

Com os corações sucede como com os rostos: há grandes diferenças. Não existem dois rostos de traços exatamente iguais, nem dois corações de disposição idêntica. Ainda assim, em certos aspectos, todos os rostos e corações se parecem, como na água um rosto corresponde a outro, Provérbios 27:19.

Ele os forma juntamente (assim leem alguns); como as engrenagens de um relógio, embora de formatos, tamanhos e movimentos diversos, são todas reunidas para servir a um só propósito.

Assim, por mais que os corações e as disposições dos homens variem entre si e pareçam contradizer-se, Deus se sobrepõe a todos eles para que sirvam ao propósito divino, que é um só.

  1. Eles e tudo quanto fazem estão sujeitos ao seu juízo; pois ele considera todas as suas obras, não somente as conhece, mas as pesa, para retribuir a cada homem segundo suas obras, no dia, no mundo, da retribuição, no juízo e por toda a eternidade.

  2. Todos os poderes das criaturas dependem dele e nada significam, nada podem fazer sem ele, v. 16, 17. Contribui muito para a honra de Deus não só que nenhuma força possa prevalecer contra ele, mas também que nenhuma força possa agir senão na dependência dele e por um poder dele recebido.

(1.) A força de um rei nada é sem Deus. Rei algum está seguro por suas prerrogativas reais ou pela autoridade de que está investido; pois os poderes dessa espécie que existem são ordenados por Deus e são aquilo que ele faz deles, nada mais.

Davi era rei e homem de guerra desde a juventude; ainda assim, reconhecia que Deus era seu único protetor e Salvador.

(2.) A força de um exército nada é sem Deus. A multidão de tropas não pode garantir a segurança daqueles sob cujo comando atua, a menos que Deus faça dela uma proteção para eles. Um grande exército não pode ter certeza da vitória; pois, quando Deus quer, um só persegue mil.

(3.) A força de um gigante nada é sem Deus. Um homem poderoso, como Golias, não é salvo por sua grande força quando chega o dia de sua queda. Nem o vigor e a agilidade do corpo, nem a coragem e a resolução do espírito lhe serão de proveito, a não ser na medida em que Deus se agrade de lhe conceder êxito.

Portanto, não se glorie o forte em sua força; antes, fortaleçamo-nos todos no Senhor nosso Deus e avancemos, prosseguindo em sua força.

(4.) A força de um cavalo nada é sem Deus (v. 17): “O cavalo é coisa vã para a segurança”. Naquele tempo, os cavalos eram muito estimados na guerra, e neles se confiava tanto que Deus proibiu os reis de Israel de multiplicá-los (Deuteronômio 17:16).

Assim não seriam tentados a confiar nos cavalos nem deixariam de depositar sua confiança em Deus.

Davi jarretou os cavalos dos sírios (2 Samuel 8:4); aqui ele jarreta todos os cavalos do mundo ao declarar que o cavalo é coisa vã para a segurança no dia da batalha. Se o cavalo de guerra for indócil e mal conduzido, poderá precipitar seu cavaleiro no perigo em vez de levá-lo para longe dele.

Se o cavalo for morto debaixo do cavaleiro, poderá causar a morte dele em vez de salvar-lhe a vida. Portanto, é do nosso interesse assegurar o favor de Deus para conosco; então poderemos ter certeza de que seu poder se empenhará por nós e não precisaremos temer coisa alguma que se levante contra nós.

II. Devemos dar glória a Deus por sua graça especial. Em meio ao reconhecimento da providência divina, o salmista declara bem-aventurados os que têm Jeová por seu Deus. Ele governa o mundo e dispõe de recursos para ajudá-los em toda ocasião de necessidade.

Em contraste, eram miseráveis os que tinham este ou aquele Baal por deus: tão longe estava ele de poder ouvi-los e ajudá-los que ele próprio era insensível e impotente (v. 12): “Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o Senhor”.

Assim era Israel, que conhecia o verdadeiro Deus e fora recebido em aliança com ele; e assim são todos os demais que reconhecem Deus como seu e são reconhecidos por ele, pois também pertencem, seja qual for sua nação, à descendência espiritual de Abraão.

  1. É sábio da parte deles tomar o Senhor por seu Deus, dirigindo sua homenagem e adoração àquele a quem são devidas e a quem não serão prestadas em vão.

  2. É sua felicidade serem o povo que Deus escolheu como sua própria herança, no qual se compraz e é honrado, que protege e por quem zela, e que cultiva e aperfeiçoa como um homem faz com sua herança, Deuteronômio 32:9. Observemos agora, para honra da graça divina:

(1.) A consideração que Deus tem por seu povo, v. 18, 19. Deus olha para todos os filhos dos homens com olhos que tudo observam, mas seus olhos de favor e agrado repousam sobre os que o temem. Ele os contempla com prazer, como um pai a seus filhos e como um noivo à sua noiva, Isaías 62:5.

Enquanto aqueles que dependem de armas e exércitos, de carros e cavalos, perecem quando suas expectativas são frustradas, o povo de Deus está seguro sob sua proteção; pois ele livrará da morte a alma deles quando parecer que apenas um passo os separa dela.

Se não livrar o corpo da morte temporal, livrará a alma da morte espiritual e eterna. Aconteça o que acontecer, suas almas viverão e o louvarão, seja neste mundo, seja em outro melhor.

De sua generosidade receberão tudo o que lhes for necessário. Ele os conservará vivos na fome; enquanto outros morrem por falta de alimento, eles viverão, e isso será uma misericórdia que os distingue. Quando falharem os meios visíveis, Deus encontrará um modo ou outro de suprir suas necessidades.

Ele não diz que lhes dará abundância (não têm motivo para desejá-la nem para esperá-la), mas que os conservará vivos; não morrerão de fome. Quando juízos destruidores se espalham, devemos considerar grande favor receber a própria vida por despojo: é um favor muito notável, que nos impõe obrigações especiais.

Aqueles que têm o Senhor por seu Deus descobrirão que ele é seu auxílio e escudo, v. 20. Em suas dificuldades, ele os assistirá; serão ajudados a vencê-las e a atravessá-las.

Em seus perigos, ele os protegerá; serão ajudados a vencê-los e a atravessá-los. Em seus perigos, ele os protegerá, de modo que não sofram nenhum estrago real.

(2.) A consideração que o povo de Deus tem para com ele e que nós também devemos ter em consideração disso.

[1.] Devemos esperar por Deus. Devemos acompanhar os movimentos de sua providência, ajustar-nos a eles e, pacientemente, ajustar-nos a eles e esperar com paciência pelo seu desfecho. Nossas almas devem esperar por ele, v. 20.

Não devemos apenas professar de palavra e de língua uma consideração confiante por Deus: ela deve ser interior e sincera, uma espera por ele secreta e silenciosa.

[2.] Devemos confiar em Deus e esperar em sua misericórdia, na bondade de sua natureza, ainda que não tenhamos uma promessa expressa em que nos apoiar. Os que temem a Deus e sua cólera devem esperar em Deus e em sua misericórdia; pois não há como fugir de Deus senão fugindo para ele.

Essas disposições piedosas não só podem coexistir, mas ajudam uma à outra: o santo temor de Deus e, ao mesmo tempo, a esperança em sua misericórdia. Isso é confiar em seu santo nome (v. 21), em tudo aquilo por meio de que se deu a conhecer a nós, para nos animar a servi-lo.

[3.] Devemos alegrar-nos em Deus, v. 21. Não descansam na verdade em Deus, ou não conhecem a vantagem indizível de fazê-lo, aqueles que não se alegram nele em todo o tempo; pois os que esperam em Deus esperam pela plenitude eterna da alegria em sua presença.

[4.] Devemos buscar nele a misericórdia em que esperamos, v. 22. O que esperamos de Deus não deve substituir nossos pedidos a ele, mas avivá-los e animá-los. Ele será buscado por aquilo que prometeu; por isso o salmo termina com uma oração breve, porém abrangente:

“Seja sobre nós a tua misericórdia, ó Senhor!” Que tenhamos sempre o consolo e o benefício dessa misericórdia, não segundo o que merecemos de você, mas “segundo esperamos em ti”; isto é, segundo a promessa que você nos deu em sua palavra e segundo a fé que, por seu Espírito e sua graça, operou em nós.

Se, ao cantar esses versículos, depositarmos nossa confiança em Deus e dirigirmos nossos desejos a ele, faremos melodia ao Senhor com o coração.


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