Matthew Henry

Salmos 31

Argumento

É provável que Davi tenha composto este salmo quando era perseguido por Saul. Algumas passagens correspondem especialmente às fugas por pouco que teve em Queila (1 Samuel 23:13), depois no deserto de Maom, quando Saul marchava de um lado do monte e Davi, do outro, e, pouco mais tarde, na caverna do deserto de En-Gedi.

Mas não nos é dito que ele o compôs em qualquer dessas ocasiões. O salmo é uma mistura de orações, louvores e declarações de confiança em Deus, elementos que combinam bem e se ajudam mutuamente.

I. Davi declara sua alegre confiança em Deus e, nessa confiança, ora por livramento das tribulações presentes, vv. 1-8. II. Lamenta a condição deplorável em que se encontra e, consciente de suas calamidades, continua a pedir que Deus intervenha bondosamente em seu favor contra os perseguidores, vv. 9-18.

III. Conclui o salmo com louvor e triunfo, dando glória a Deus e animando a si mesmo e aos outros a confiar nele, vv. 19-24.

Oração por Livramento; Declaração de Confiança em Deus.

Versículos 1 a 8

Ao Músico-Mor. Um Salmo de Davi.

Fé e oração devem andar juntas. Quem crê deve orar: creio, por isso falei; e quem ora deve crer, pois a oração da fé é a que alcança seu propósito. Aqui temos ambas.

I. Em sua angústia, Davi ora a Deus com muito fervor por socorro e alívio. Isso alivia um espírito sobrecarregado, traz as misericórdias prometidas e sustenta e consola admiravelmente a alma enquanto espera por elas. Ele ora:

  1. Para que Deus o livre (v. 1), preserve sua vida da malícia dos inimigos e ponha fim à perseguição que sofre. Pede que Deus o livre não só por misericórdia, mas também em justiça, como Juiz justo entre ele e seus perseguidores injustos; que incline o ouvido para suas petições e seus recursos e o livre, v. 2.

É condescendência de Deus tomar conhecimento da causa até dos maiores e melhores homens; ele se humilha para fazê-lo. O salmista pede também que Deus o livre depressa, para que sua fé não desfaleça se o livramento demorar muito.

  1. Para que, se Deus não o livrar imediatamente das tribulações, ao menos o proteja e abrigue em meio a elas: “Sê para mim uma rocha forte, imóvel e inexpugnável, como uma fortaleza feita pela natureza, e uma casa de defesa, fortaleza construída pela mão humana, tudo para me salvar”.

Assim podemos orar para que a providência de Deus proteja nossa vida e nossos consolos e para que sua graça nos capacite a nos sentirmos seguros nele, Provérbios 18:10.

  1. Para que, como sua situação apresentava muita dificuldade tanto em matéria de dever quanto de prudência, ele recebesse a orientação divina: “Senhor, conduze-me e guia-me (v. 3); ordena meus passos e meu espírito para que eu nunca faça nada ilícito e injustificável, contra minha consciência, nem imprudente e indiscreto, contra meus interesses”.

Os que resolvem seguir a orientação de Deus podem pedi-la com fé. 4. Para que, sendo seus inimigos muito astutos e maldosos, Deus frustrasse e desfizesse seus desígnios contra ele (v. 4): “Tira-me da rede que armaram às escondidas para mim e livra-me do pecado, da tribulação e da morte em que pretendem me enredar”.

II. Nessa oração, ele dá glória a Deus ao declarar repetidamente sua confiança nele e sua dependência dele. Isso animava suas orações e o preparava para as misericórdias que pedia (v. 1): “Em ti, ó Senhor, ponho minha confiança, não em mim mesmo, em qualquer capacidade própria ou em criatura alguma”.

“Que eu nunca seja envergonhado; que não me falte nenhum dos bens que me prometeste e que, por isso, prometi a mim mesmo receber em ti”.

  1. Ele havia escolhido Deus como seu protetor, e Deus, por sua promessa, havia assumido esse compromisso (v. 3): “Tu és minha rocha e minha fortaleza por tua aliança comigo e pela anuência que, pela fé, dei a essa aliança; portanto, sê minha rocha forte”, v. 2.

Aqueles que sinceramente reconheceram o Senhor como seu podem esperar desfrutar dessa relação, pois as relações de Deus conosco trazem consigo tanto o nome quanto a realidade. “Tu és minha força”, v. 4. Se Deus é nossa força, podemos esperar que ele tanto ponha sua força em nós quanto a exerça em nosso favor.

  1. Ele entregou a Deus sua alma de modo especial (v. 5): “Nas tuas mãos entrego o meu espírito”. (1.) Se Davi aqui se considera um homem à beira da morte, por essas palavras entrega sua alma que parte a Deus, que a deu e a quem o espírito retorna na morte.

“Os homens só podem matar o corpo, mas confio em Deus para remir minha alma do poder da sepultura”, Salmos 49:15. Ele está disposto a morrer, se essa for a vontade de Deus; mas deseja que sua alma caia nas mãos do Senhor, pois suas misericórdias são grandes.

Com essas palavras, nosso Senhor Jesus entregou o espírito na cruz e fez de sua alma uma oferta, uma oferta voluntária pelo pecado, dando livremente sua vida como resgate.

Pelo exemplo de Estêvão, aprendemos, no momento da morte, a voltar os olhos para Cristo à direita de Deus e entregar-lhe nosso espírito: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”.

Mas, 2. Davi deve ser visto aqui como um homem em angústia e tribulação. E [1.] Seu principal zelo é pela alma, o espírito, sua parte melhor. Repare: nossas aflições exteriores devem aumentar nossa preocupação com a alma.

Muitos pensam que, enquanto estão perplexos com os assuntos deste mundo e a Providência multiplica as preocupações que eles lhes trazem, podem ser desculpados por negligenciar a alma. No entanto, quanto maior o perigo para nossa vida e nossos interesses temporais, mais devemos nos preocupar em olhar por nossa alma.

Isso para que, embora o homem exterior pereça, o interior não sofra estrago (2 Coríntios 4:16), e possamos conservar a posse da alma quando não pudermos conservar a posse de mais nada, Lucas 21:19.

[2.] Ele considera que o melhor a fazer pela alma é entregá-la nas mãos de Deus e confiar-lhe esse grande depósito.

Havia orado (v. 4) para ser tirado da rede das tribulações exteriores, mas, sem insistir nesse pedido (“Seja feita a vontade de Deus”), logo o deixa de lado e entrega o espírito, o homem interior, nas mãos de Deus.

“Senhor, seja o que for que aconteça ao meu corpo, que tudo corra bem com minha alma”. Repare: é sabedoria e dever de cada um de nós entregar solenemente o espírito nas mãos de Deus, para ser santificado por sua graça, dedicado à sua honra, empregado em seu serviço e preparado para seu reino.

O que nos anima a entregar o espírito nas mãos de Deus é que ele não apenas o criou, mas também o remiu. As redenções específicas da igreja e dos santos do Antigo Testamento eram figuras da nossa redenção por Jesus Cristo, Gênesis 48:16.

A redenção da alma é tão preciosa que teria cessado para sempre se Cristo não a tivesse assumido. Ao remir nossa alma, ele não só adquiriu direito e título adicionais sobre ela, o que nos obriga a entregá-la a ele como propriedade sua, mas mostrou extraordinária bondade e preocupação com ela.

Isso nos anima a entregá-la a ele, para que a preserve para seu reino celestial (2 Timóteo 1:12): “Tu me remiste, ó Senhor, Deus da verdade!” Redime-me segundo uma promessa à qual serás fiel.

III. Ele rejeitou toda associação com os que faziam do braço da carne sua confiança (v. 6): “Tenho odiado os que se apegam a vaidades mentirosas”. Segundo alguns, são idólatras, que esperam ajuda de falsos deuses, os quais são vaidade e mentira; segundo outros, são astrólogos e os que lhes dão ouvidos.

Davi abominava encantamentos e adivinhações. Não consultava nem sequer reparava no voo das aves ou nas entranhas dos animais, bons ou maus presságios. Essas são vaidades mentirosas; ele próprio não lhes dava atenção e odiava também a perversidade dos que o faziam.

Confiava apenas em Deus, não em criatura alguma. Sua influência na corte ou no país, seus refúgios ou fortalezas, até a própria espada de Golias: tudo isso era vaidade mentirosa, em que não podia confiar. Confiava somente no Senhor. Veja Salmos 40:4; Jeremias 17:5.

IV. Ele se consolou com sua esperança em Deus e, por meio dela, ficou não só tranquilo, mas alegre, v. 7. Tendo confiado na misericórdia de Deus, ele se alegrará e exultará nela.

Quem não encontra nessa esperança alegria suficiente para contrabalançar os problemas e silenciar a dor não sabe dar o devido valor à esperança em Deus.

V. Ele se animou nessa esperança com as experiências recentes e anteriores da bondade de Deus para com ele, mencionadas para a glória de Deus: aquele que o livrou continua a livrá-lo e o livrará. 1. Deus havia reparado em suas aflições e em todas as circunstâncias delas:

“Consideraste minha tribulação com sabedoria para lhe dar o alívio adequado e, com condescendência e compaixão, olhaste para a humilde condição do teu servo”. 2. Deus havia observado a disposição do seu espírito e os movimentos do seu coração em meio às aflições:

“Conheceste minha alma nas adversidades, com terna preocupação e zelo por ela”. Os olhos de Deus estão sobre nossa alma quando passamos por tribulações, para ver se ela se humilha pelo pecado, se se submete à vontade divina e se melhora por meio da aflição. Se a alma, abatida pela aflição, foi elevada a ele em devoção sincera, Deus o sabe.

  1. Ele havia livrado Davi das mãos de Saul quando este julgava tê-lo bem cercado em Queila (1 Samuel 23:7): “Não me encerraste nas mãos do inimigo, mas me puseste em liberdade, em lugar espaçoso, onde posso encontrar meios de me proteger”, v. 8.

O fato de Cristo ter usado aquelas palavras (v. 5) na cruz pode nos autorizar a aplicar-lhe tudo isso. Ele confiou no Pai, foi sustentado e livrado por ele e, porque se humilhou, foi exaltado às alturas.

É apropriado pensar nisso ao cantar esses versículos e, ao mesmo tempo, reconhecer nossa própria experiência da presença bondosa de Deus nas tribulações e animar-nos a confiar nele no futuro.

Versículos 9 a 18

Queixas Dolorosas; Oração Humilde e Confiante.

Nos versículos anteriores, Davi recorreu à justiça de Deus e apelou para sua relação com ele e sua dependência dele. Aqui recorre à misericórdia divina e apela para a grandeza da própria miséria, que fazia de seu caso um objeto apropriado dessa misericórdia. Observe:

I. Sua queixa acerca da tribulação e angústia (v. 9): “Tem misericórdia de mim, ó Senhor, pois estou em tribulação e preciso da tua misericórdia”. A descrição que faz de sua condição não é muito diferente de algumas queixas de Jó.

  1. As tribulações haviam deixado uma impressão muito profunda em sua mente e feito dele um homem de dores. Sua dor era tão grande que consumia sua própria alma e gastava sua vida; ele suspirava continuamente, v. 9, 10. Nisso era uma figura de Cristo, que conhecia intimamente a dor e muitas vezes chorava.

Pela aparência corada e sanguínea de Davi, por seu talento para a música e por seus empreendimentos ousados na juventude, podemos supor que sua disposição natural era alegre e firme, que ele tendia à alegria e não deixava as tribulações lhe pesarem no coração.

Contudo, aqui vemos a que ponto chegou: quase perdeu os olhos de tanto chorar e o fôlego de tanto suspirar. Aqueles que são despreocupados e alegres devem tomar cuidado para não ir aos extremos e nunca desafiar a tristeza.

Deus pode encontrar maneiras de torná-los melancólicos, se não aprenderem a ser sérios de outro modo.

  1. O corpo sofria com as dores da mente (v. 10): “Minha força falha, meus ossos se consomem”, tudo por causa da sua iniquidade. Quanto a Saul e à desavença entre eles, Davi podia insistir com confiança em sua retidão.

Mas, por ser aquela uma aflição que Deus lhe impusera, reconheceu que a merecia e confessou livremente que sua iniquidade era a causa de todas as tribulações. A consciência do pecado o atingia no íntimo e o consumia mais que todas as calamidades.

  1. Seus amigos deixaram de lhe mostrar bondade e passaram a evitá-lo. Ele causava temor aos conhecidos; quando o viam, fugiam dele, v. 11. Não ousavam abrigá-lo nem lhe prestar ajuda, mostrar-lhe apoio ou sequer ser vistos em sua companhia.

Temiam meter-se em problemas, agora que Saul o havia declarado traidor e proscrito. Sabiam como o sacerdote Aimeleque pagara caro por ajudá-lo e apoiá-lo, embora sem conhecer toda a situação. Por isso, embora não pudessem negar que Davi sofrera grande injustiça, não tinham coragem de defendê-lo.

Eles o esqueceram como se fosse um morto que saiu da memória (v. 12) e o desprezaram como um vaso quebrado. Aqueles que lhe mostravam todo o respeito possível quando era honrado na corte passaram a tratá-lo como estranho depois de sua queda em desgraça, embora injusta.

O mundo está cheio desses amigos-andorinhas, que partem no inverno. Os que ficam do lado perdedor não devem estranhar ser abandonados assim; devem, porém, assegurar um amigo no céu que não os deixará e recorrer a ele.

  1. Seus inimigos eram injustos ao censurá-lo. Não o teriam perseguido como fizeram se antes não o tivessem apresentado como homem mau. Ele era objeto de descrédito entre todos os inimigos, especialmente entre os vizinhos, v. 11.

Aqueles que testemunharam sua integridade e não podiam deixar de saber, em consciência, que era homem honesto eram os mais prontos a retratá-lo de modo oposto, para ganhar o favor de Saul.

Assim ele ouvia a calúnia de muitos; cada um tinha uma pedra para atirar nele, porque havia temor por todos os lados. Isto é, não ousavam agir de outra forma, pois quem não se juntasse aos vizinhos para acusar Davi era considerado desafeto a Saul.

Assim, os melhores homens foram descritos com os piores qualificativos por aqueles que estavam decididos a lhes dar o pior tratamento. 5. Sua vida era alvo dos inimigos, e ele corria perigo contínuo de perdê-la.

Havia temor por todos os lados, e ele sabia que, quaisquer que fossem os conselhos dos inimigos contra ele, o desígnio não era tirar-lhe a liberdade, mas a vida (v. 13). Sua vida era tão valiosa e útil, Israel inteiro devia tanto a seus bons serviços, e ele jamais perdera o direito de conservá-la.

Assim também, em todas as tramas dos fariseus e herodianos contra Cristo, o desígnio era sempre tirar-lhe a vida. Tamanha é a inimizade e crueldade da descendência da serpente.

II. Sua confiança em Deus no meio dessas tribulações. Tudo ao redor parecia sombrio e terrível e ameaçava levá-lo ao desespero: “Mas em ti confiei, ó Senhor” (v. 14), e assim não afundei.

Os inimigos lhe tiraram a reputação diante dos homens, mas não puderam tirar-lhe o consolo em Deus, pois não conseguiram afastá-lo da confiança nele.

Duas coisas o consolavam em suas dificuldades, e ele as apresentou a Deus como apelos: 1. “Tu és meu Deus; escolhi-te para ser meu e prometeste ser meu”. Se Deus é nosso e podemos chamá-lo assim pela fé, isso basta, mesmo quando nada mais podemos chamar de nosso.

“Tu és meu Deus; a quem, então, recorrerei em busca de alívio senão a ti?” Os que podem apresentar esse apelo não precisam sentir-se limitados em suas orações. Se Deus assume o compromisso de ser nosso Deus, fará por nós o que corresponde à amplitude e ao vasto alcance desse compromisso.

  1. “Meus tempos estão nas tuas mãos”. Junte isso ao primeiro apelo e o consolo será completo. Se Deus tem nossos tempos nas mãos, pode nos ajudar; e, se é nosso Deus, ele nos ajudará. O que, então, poderá nos desanimar?

É um grande apoio para aqueles que têm Deus por seu Deus saber que seus tempos estão nas mãos dele e que ele certamente os ordenará da melhor forma. Fará isso para todos os que também entregam o espírito em suas mãos, ajustando-o aos tempos que atravessam, como faz Davi aqui, v. 5.

O tempo da vida está nas mãos de Deus, para prolongá-la ou abreviá-la, amargurá-la ou adoçá-la, conforme lhe aprouver, segundo o conselho de sua vontade.

Nossos tempos, isto é, todos os desfechos que nos dizem respeito e o momento em que ocorrem, estão à disposição de Deus. Não estão em nossas mãos, pois o caminho do homem não está em si mesmo; nem nas mãos de nossos amigos ou inimigos, mas nas de Deus. O juízo de cada pessoa procede dele.

Em suas orações, Davi não prescreve nada a Deus, mas subscreve ao que Deus dispõe: “Senhor, meus tempos estão nas tuas mãos, e estou contente por isso. Não poderiam estar em mãos melhores. Seja feita a tua vontade”.

III. Seus pedidos a Deus, feitos com essa fé e confiança: 1. Pede que Deus o livre das mãos dos inimigos (v. 15) e o salve (v. 16), por causa de suas misericórdias, não de qualquer mérito próprio.

Nossas oportunidades estão nas mãos de Deus (segundo outra leitura). Por isso ele sabe escolher o momento melhor e mais apropriado para nosso livramento, e devemos estar dispostos a esperar por ele.

Quando Davi tinha Saul à sua mercê na caverna, os que estavam com ele disseram que aquele era o momento em que Deus o livraria, 1 Samuel 24:4. “Não”, disse Davi, “a hora do meu livramento não chegou enquanto não puder acontecer sem pecado. Esperarei por essa hora, pois é a hora de Deus, e essa é a melhor”.

  1. Pede que Deus lhe dê, enquanto isso, o consolo do seu favor (v. 16): “Faz resplandecer teu rosto sobre teu servo”; dá-me sinais e provas consoladoras do teu favor, e isso porá regozijo em meu coração no meio de todas as minhas dores.

  2. Pede que suas orações a Deus sejam respondidas e suas esperanças nele se cumpram (v. 17): “Que eu não me envergonhe de minhas esperanças e orações, pois invoquei a ti, que nunca disseste a teu povo: Busquem em vão e esperem em vão”.

  3. Pede que a vergonha e o silêncio sejam a sorte dos perversos, especialmente dos inimigos. Eles confiavam que conseguiriam derrotar Davi e arruiná-lo. “Senhor”, diz ele, “que a frustração de suas expectativas os envergonhe dessa confiança”.

Assim também, quando o muro de Jerusalém ficou pronto, os que se opunham à construção ficaram muito abatidos aos próprios olhos, Neemias 6:16. Que os inimigos se calem na sepultura.

Repare: a morte silenciará a fúria e o clamor dos perseguidores cruéis que não se deixam calar pela razão. Na sepultura, os perversos deixam de causar tribulação.

Em especial, ele ora, isto é, profetiza, pelo silenciamento dos que desacreditam e caluniam o povo de Deus (v. 18): “Calem-se os lábios mentirosos, que falam coisas penosas com orgulho e desprezo contra o justo”. Esta é uma oração muito boa que:

(1.) Muitas vezes temos ocasião de apresentar a Deus, pois aqueles que voltam a boca contra os céus costumam vituperar os herdeiros do céu. A religião, na pessoa daqueles que a professam com rigor e seriedade, é criticada em toda parte:

[1.] Com muita malícia: eles falam coisas penosas para perturbar os justos e esperam, com o que dizem, causar-lhes dano real. São palavras duras, conforme o termo original, que pesam sobre os justos e com as quais os caluniadores esperam fixar neles marcas indeléveis de infâmia.

[2.] Com muita falsidade: são lábios mentirosos, ensinados pelo pai da mentira e a serviço dos interesses dele. [3.] Com muito escárnio e desdém: falam com orgulho e desprezo, como se os justos, a quem Deus honrou, fossem as pessoas mais desprezíveis do mundo, indignas até de estar entre os cães do rebanho deles.

É como se julgassem que não há pecado em contar uma mentira deliberada, desde que sirva para expor um homem bom ao ódio ou ao desprezo. “Ouve, ó nosso Deus, pois somos desprezados!”

(2.) Podemos orar com fé, pois esses lábios mentirosos serão silenciados. Deus tem muitas maneiras de fazê-lo. Às vezes convence a consciência dos que desacreditam seu povo e transforma o coração deles.

Às vezes, por sua providência, refuta visivelmente as calúnias e faz aparecer a justiça de seu povo como a luz. De qualquer modo, virá o dia em que Deus convencerá os pecadores ímpios da falsidade de todas as palavras duras que disseram contra seu povo e executará juízo contra eles, Judas 1:14, 15.

Então essa oração será plenamente respondida. Ao cantá-la, devemos ter esse dia em vista e empenhar-nos também, fazendo o bem, em “silenciar a ignorância dos homens insensatos”, se possível, 1 Pedro 2:15.

Versículos 19 a 24

Louvor Triunfante.

Temos três coisas nestes versículos:

I. O reconhecimento, pela fé, que Davi faz da bondade de Deus para com seu povo em geral, v. 19, 20:

  1. Deus é bom para com todos, mas, de modo especial, para com Israel. Sua bondade para com eles é maravilhosa e será objeto de admiração por toda a eternidade: “Ó, quão grande é tua bondade!” Quão profundos são seus conselhos, quão ricos seus tesouros, quão livres e amplas suas manifestações!

As mesmas pessoas que os homens carregam de calúnias são carregadas por Deus de benefícios e honras. Os que participam dessa bondade são descritos como pessoas que temem a Deus e confiam nele, que reverenciam sua grandeza e dependem de sua graça.

Diz-se que essa bondade está reservada para eles e é realizada em seu favor. (1.) Há uma bondade reservada para eles no outro mundo, uma herança guardada no céu (1 Pedro 1:4), e uma bondade realizada em seu favor neste mundo, realizada neles.

Há bondade suficiente em Deus tanto para a porção e a herança de todos os seus filhos quando atingirem a maioridade quanto para seu sustento e educação durante a menoridade. Há bastante no banco e bastante em mãos.

(2.) Essa bondade está reservada na promessa de Deus para todos os que o temem, aos quais se garante que não lhes faltará coisa boa alguma. Mas ela se realiza, no cumprimento efetivo da promessa, em favor dos que confiam nele.

São eles que, pela fé, se apegam à promessa, fazem valer o direito que ela lhes dá e retiram dela benefício e consolo para si. Se aquilo que está reservado para nós nos tesouros da aliança eterna não se realizar em nosso favor, a culpa será nossa, porque não cremos.

Mas os que confiam em Deus não apenas desfrutam no íntimo o consolo da sua bondade; também recebem o prestígio dela, e para alguns o prestígio de uma propriedade vale muito. Essa bondade é realizada em favor deles diante dos filhos dos homens.

A bondade de Deus os honra e remove seu descrédito, pois todos os que os veem os reconhecerão como “a descendência que o Senhor abençoou”, Isaías 61:9.

  1. Deus preserva homens e animais, mas é protetor especial de seu próprio povo (v. 20): “Tu os esconderás”. Assim como sua bondade está oculta e reservada para eles, também eles são escondidos e preservados para ela. Os santos são os protegidos que Deus mantém escondidos. Veja aqui:

(1.) O perigo em que se encontram, proveniente do orgulho humano e da contenda das línguas. Os orgulhosos zombam deles e querem pisá-los e esmagá-los; os disputadores provocam desavenças com eles. Quando as línguas entram em contenda, muitas vezes as pessoas boas levam a pior.

O orgulho dos homens ameaça a liberdade delas; a contenda das línguas em discussões perversas ameaça a verdade. Mas (2.) veja a defesa sob a qual se encontram: “Tu os esconderás no segredo da tua presença, num pavilhão”. A providência de Deus os manterá a salvo da malícia dos inimigos.

Deus tem muitas maneiras de abrigá-los. Quando procuravam Baruque e Jeremias, o Senhor os escondeu, Jeremias 36:26. A graça de Deus os manterá a salvo do mal dos juízos espalhados por toda parte: para eles esses juízos não têm ferrão.

Eles serão escondidos no dia da ira do Senhor, pois essa ira não se dirige contra eles. Os consolos de Deus os manterão tranquilos e alegres. Seu santuário, onde têm comunhão com ele, os abriga dos dardos inflamados do terror e da tentação.

As moradas de sua casa no alto serão em breve, e serão para sempre, seu esconderijo contra todo perigo e temor.

II. A gratidão que Davi manifesta pela bondade de Deus para com ele em particular, v. 21, 22. Depois de admirar a bondade divina para com todos os santos, reconhece aqui como Deus foi bom para ele.

  1. Fora havia lutas, mas Deus preservara sua vida de modo maravilhoso: “Ele me mostrou sua maravilhosa bondade amorosa e deu uma prova do zelo e favor que tem por mim, além do que eu poderia esperar”.

A bondade amorosa de Deus para com seu povo é maravilhosa, considerando todas as coisas. Algumas manifestações dela, mesmo neste mundo, são especialmente admiráveis aos olhos do povo, como a ocasião em que Deus preservou Davi da espada de Saul, nas cavernas e florestas, tão seguro quanto estaria numa cidade fortificada.

Em Queila, essa cidade forte, Deus lhe mostrou grande misericórdia: primeiro o fez instrumento para livrar os habitantes das mãos dos filisteus e depois livrou Davi desses mesmos homens, que o teriam entregue com ingratidão nas mãos de Saul, 1 Samuel 23:5, 12.

Era de fato uma maravilhosa bondade amorosa, sobre a qual ele escreve com admiração e gratidão: “Bendito seja o Senhor”. Preservações especiais pedem ações de graças específicas.

  1. Dentro havia temores, mas Deus foi melhor para ele do que aquilo que seus temores lhe faziam esperar, v. 22. Aqui ele faz um relato: (1.) Da própria insensatez ao desconfiar de Deus, que reconhece para sua vergonha.

Embora tivesse promessas expressas em que se apoiar e vasta experiência do zelo de Deus em muitas dificuldades, acolheu esse pensamento duro e desconfiado a respeito dele e não conseguiu deixar de expressá-lo diante de seu rosto:

“Estou excluído de diante dos teus olhos”. Abandonaste-me por completo, e não devo esperar que voltes a olhar para mim ou a cuidar de mim. “Um dia perecerei pela mão de Saul” e, assim, serei excluído de diante dos teus olhos, arruinado enquanto olhas, 1 Samuel 27:1.

Ele disse isso “em minha fuga”, segundo uma leitura, o que indica a situação angustiante em que se encontrava. Saul estava logo atrás dele, pronto para capturá-lo, e isso tornava a tentação forte.

“Em minha pressa”, segundo a leitura que seguimos, indica a perturbação e desordem de sua mente, que fizeram a tentação pegá-lo desprevenido. Repare: é comum falar mal quando falamos depressa e sem pensar.

Mas devemos nos arrepender, depois e com calma, do que falamos mal às pressas, especialmente do que dissemos por falta de confiança em Deus. (2.) Da maravilhosa bondade de Deus para com ele apesar disso.

Embora sua fé falhasse, a promessa de Deus não falhou: Você ouve a voz da minha súplica apesar de tudo. Ele menciona sua própria incredulidade como contraste à fidelidade de Deus, o que torna a bondade amorosa divina ainda mais maravilhosa e ilustre.

Quando desconfiamos de Deus assim, ele poderia com justiça tomar nossas palavras ao pé da letra e fazer recair sobre nós nossos temores, como fez com Israel, Números 14:28; Isaías 66:4.

Mas teve piedade de nós e nos perdoou; nossa incredulidade não anulou sua promessa nem sua graça, pois ele conhece nossa constituição.

III. A exortação e o ânimo que, com base nisso, dirige a todos os santos, v. 23, 24. 1. Ele quer que amem a Deus (v. 23): “Amai o Senhor, todos vós, seus santos”. Quem tem o coração cheio de amor a Deus não pode deixar de desejar que outros também o amem; no favor divino, ninguém precisa temer um rival.

Amar a Deus é uma característica dos santos, mas eles ainda precisam ser chamados a amá-lo mais e melhor e a dar provas desse amor. Devemos amá-lo não só por sua bondade, porque preserva os fiéis, mas também por sua justiça.

Ele retribui abundantemente ao que age com orgulho, segundo o orgulho deste, que gostaria de arruinar os que Deus preserva. Alguns entendem isso em sentido positivo: ele retribui abundantemente ao que age de modo magnífico, ou excelente, isto é, ao que faz o bem com ousadia.

O coração desse homem, como o de Josafá, se eleva nos caminhos do Senhor. Deus recompensa quem age bem, mas recompensa abundantemente quem age de maneira extraordinariamente boa.

  1. Ele quer que depositem a esperança em Deus (v. 24): “Sede de bom ânimo”; mantenham o coração animado. Quaisquer que sejam as dificuldades ou os perigos que encontrem, o Deus em quem confiam fortalecerá seu coração por meio dessa confiança.

Os que esperam em Deus têm motivo para ter coragem e manter forte o coração. Assim como nada que seja, na verdade, mau lhes pode acontecer, também nada que seja, na verdade, bom para eles lhes faltará.

Ao cantar este salmo, devemos animar a nós mesmos e uns aos outros a avançar e perseverar na caminhada cristã, não importando o que nos ameace nem quem nos desaprove.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra