Salmos 15
Argumento
O propósito deste salmo curto, mas excelente, é mostrar-nos o caminho para o céu e convencer-nos de que, se quisermos ser felizes, devemos ser santos e honestos. Cristo, que é ele próprio o caminho e em quem devemos andar como nosso caminho, também nos mostrou o mesmo caminho prescrito aqui, Mateus 19:17. “Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.”
Neste salmo, I. Pela pergunta (v. 1), somos orientados e estimulados a indagar qual é o caminho. II. Pela resposta a essa pergunta, no restante do salmo, somos orientados a andar nesse caminho, vv. 2-5. III. Pela garantia dada no fim do salmo quanto à segurança e à felicidade dos que correspondem a essas características, somos animados a andar nesse caminho, v. 5.
O Cidadão de Sião.
Versículos 1 a 5
Salmo de Davi.
Aqui está: I. Uma pergunta muito séria e importante sobre as características de um cidadão de Sião (v. 1): “Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Faz-me saber quem irá para o céu.” Não se pergunta quem pelo nome (desse modo, só o Senhor conhece os que são seus), mas quem pela descrição: “Que tipo de pessoas são as que reconhecerás como tuas e coroarás com favores especiais e eternos?”
Isso pressupõe que ser cidadão de Sião é um grande privilégio, uma honra e uma vantagem indescritíveis; que nem todos recebem esse privilégio, mas apenas um remanescente; e que os homens não têm direito a ele por nascimento e linhagem. Nem todos os que têm Abraão por pai habitarão no tabernáculo de Deus; a sorte dos homens corresponderá ao que são seu coração e sua vida.
Cabe a todos nós fazer a nós mesmos esta pergunta: “Senhor, o que devo ser e fazer para habitar no teu tabernáculo?” Lucas 18:18; Atos 16:30. 1. Observe a quem se dirige essa pergunta: ao próprio Deus. Repare: quem deseja encontrar o caminho para o céu deve erguer os olhos a Deus, receber orientação de sua palavra e pedi-la a seu Espírito.
É apropriado que ele próprio dê leis aos seus servos, estabeleça as condições de seus favores e diga quem são os seus e quem não são. 2. Como a pergunta é expressa na linguagem do Antigo Testamento:
(1.) Por tabernáculo podemos entender a igreja militante, prefigurada pelo tabernáculo de Moisés, adequado à condição de quem vive no deserto, humilde e móvel. Ali Deus se manifesta e se encontra com seu povo, como antigamente no tabernáculo do testemunho, o tabernáculo do encontro.
Quem habitará nesse tabernáculo? Quem será considerado membro verdadeiro e vivo da igreja de Deus, admitido entre os sacerdotes espirituais para morar nos átrios desse tabernáculo? Devemos indagar isso, porque muitos alegam ter lugar nesse tabernáculo quando, na verdade, não têm parte nem quinhão nessa questão.
(2.) Por monte santo podemos entender a igreja triunfante, numa alusão ao monte Sião, no qual o templo seria construído por Salomão. A felicidade dos santos glorificados consiste em morar nesse monte santo; ali estão em casa e ali estarão para sempre.
Importa-nos saber quem morará ali, para termos certeza de que haverá lugar para nós entre eles e, então, recebermos o consolo disso e nos alegrarmos com a perspectiva daquele monte santo.
II. Uma resposta muito clara e específica a essa pergunta. Os que desejam conhecer seu dever com a resolução de cumpri-lo encontrarão na Escritura uma orientadora muito fiel e na consciência uma advertidora fiel. Vejamos, então, as características específicas de um cidadão de Sião.
- Ele é sincero e íntegro em sua religião: anda em retidão, conforme a condição da aliança (Gênesis 17:1), “Anda diante de mim e sê perfeito” (é a mesma palavra usada aqui); “então me encontrarás como Deus todo-suficiente”. Ele é realmente o que professa ser, tem o coração íntegro e pode apresentar-se aprovado a Deus, em sua integridade, em tudo o que faz.
Sua conduta é coerente, ele está em paz consigo mesmo e se esforça para permanecer completo em toda a vontade de Deus. Seu olho talvez seja fraco, mas é singelo; ele tem manchas, de fato, mas não as encobre com pintura. É “verdadeiramente um israelita em quem não há dolo”, João 1:47; 2 Coríntios 1:12. Não conheço outra religião senão a sinceridade.
- Ele é conscienciosamente honesto e justo em todos os seus negócios, fiel e correto com todos com quem lida: pratica a justiça. Anda em todas as ordenanças e todos os mandamentos do Senhor e cuida de dar a cada um o que lhe é devido; é justo tanto para com Deus quanto para com os homens.
Ao falar com ambos, diz a verdade em seu coração. Suas orações, declarações de fé e promessas feitas a Deus não saem de lábios fingidos; e ele não ousa mentir, nem sequer usar de equívocos, na convivência ou nos negócios com os homens. Anda segundo as regras da justiça e da verdade e despreza e abomina os ganhos obtidos por injustiça e fraude.
Considera que um negócio feito por meio de mentira não pode ser bom nem vantajoso e que aquele que prejudica seu próximo, por mais plausível que seja o modo como o faça, acabará por descobrir que causou a maior injúria a si mesmo.
- Ele procura meios de fazer todo o bem que pode aos seus próximos, mas toma muito cuidado para não causar dano a ninguém e é particularmente zeloso da reputação do próximo, v. 3.
Não faz, voluntária nem deliberadamente, nenhum mal ao próximo: nada que ofenda ou entristeça seu espírito, nada que prejudique a saúde ou o bem-estar de seu corpo, nada que lhe cause injúria em seus bens ou interesses seculares, em sua família ou em suas relações.
Segue, porém, a regra áurea da equidade: fazer aos outros o que gostaria que lhe fizessem. Tem especial cuidado para não prejudicar o bom nome do próximo, embora muitos que não lhe causariam dano de outra forma não deem nenhuma importância a isso. Se alguém não refreia a língua nessa questão, sua religião é vã.
Ele conhece o valor de um bom nome e, por isso, não calunia pelas costas, não difama ninguém, não fala mal de ninguém, não faz das faltas alheias assunto de suas conversas habituais, muito menos de suas brincadeiras e zombarias. Também não fala delas com prazer, nem fala delas de modo algum, a não ser para edificação.
Procura ver cada pessoa pelo melhor lado, e nenhuma pelo pior. Não espalha descrédito, isto é, nem o origina nem o acolhe; não dá crédito nem apoio a uma calúnia, mas franze a testa diante de uma língua caluniadora e assim a silencia, Provérbios 25:23.
Se lhe apresentarem uma descrição maldosa de seu próximo ou lhe contarem uma história maldosa a respeito dele, ele a desmentirá se puder; se não puder, ela morrerá com ele e não irá adiante. Sua caridade cobrirá uma multidão de pecados.
- Ele avalia os homens por sua virtude e piedade, e não pela posição que ocupam no mundo, v. 4. (1.) Não considera melhor a maldade de ninguém por causa de sua pompa e grandeza: “aos seus olhos, uma pessoa vil é desprezada”. Os ímpios são pessoas vis, sem valor e imprestáveis (é isso que a palavra significa), como a escória, a palha e o sal que perdeu o sabor.
São vis em suas escolhas (Jeremias 2:13) e em suas práticas, Isaías 32:6. Por isso, os homens sábios e bons os desprezam, sem lhes negar a honra e o respeito civis devidos aos homens, talvez até a homens investidos de autoridade e poder (1 Pedro 2:17; Romanos 13:7), mas concordando com a palavra de Deus ao julgá-los.
Longe de invejá-los, têm pena deles. Desprezam seus ganhos (Isaías 33:15), pois de nada lhes servirão; suas iguarias (Salmos 141:4) e seus prazeres (Hebreus 11:24-25), pois são insossos e sem sabor. Desprezam seu convívio (Salmos 119:115; 2 Reis 3:14).
Desprezam suas zombarias e ameaças, sem se deixar abalar nem perturbar por elas; desprezam os esforços fracos de sua malícia impotente (Salmos 2:1, 4) e em breve triunfarão com a queda deles, Salmos 52:6-7. Deus os despreza, e eles pensam como Deus.
(2.) Não considera pior a piedade de ninguém por causa de sua pobreza e condição humilde; antes, conhece os que temem o Senhor. Considera que a piedade sincera, onde quer que se encontre, honra a pessoa e faz seu rosto resplandecer mais do que a riqueza, a inteligência ou um grande nome entre os homens fazem ou podem fazer.
Ele honra essas pessoas, estima-as muito em amor, deseja sua amizade e comunhão e ter parte em suas orações. Alegra-se com a oportunidade de mostrar-lhes respeito ou prestar-lhes um bom serviço, defende sua causa e fala delas com veneração; alegra-se quando prosperam e se entristece quando são tiradas, e a memória delas lhe é preciosa depois que partem.
Por isso podemos julgar a nós mesmos em alguma medida. Por quais regras julgamos os outros?
- Ele sempre prefere uma boa consciência a qualquer interesse ou vantagem secular. Se prometeu sob juramento fazer algo, mesmo que depois isso cause grande estrago e prejuízo a seus bens neste mundo, ainda assim se mantém fiel ao que prometeu e não muda, v. 4.
Veja como até os homens sábios e bons podem enxergar mal e ter a vista curta: podem jurar para seu próprio prejuízo, do qual não tinham consciência ao prestar juramento. Mas veja como é forte a obrigação de um juramento: um homem deve antes sofrer perdas, ele e sua família, do que prejudicar o próximo quebrando o juramento.
O juramento é algo sagrado, com o qual não devemos brincar como se pudéssemos ora cumpri-lo, ora quebrá-lo.
- Ele não aumentará seus bens por nenhuma prática injusta, v. 5. (1.) Não por extorsão: “não empresta seu dinheiro com usura”, para viver confortavelmente do trabalho dos outros quando tem condições de fazê-lo render por seu próprio esforço.
Não é que contrarie a lei da justiça ou da caridade o credor participar do lucro que o devedor obtém com seu dinheiro, assim como não a contraria o proprietário de uma terra cobrar aluguel de quem a ocupa; com habilidade e trabalho, o dinheiro pode render tanto quanto a terra.
Mas o cidadão de Sião emprestará gratuitamente aos pobres, conforme suas possibilidades, e não será rigoroso e severo ao cobrar o que lhe é devido daqueles que a Providência reduziu à pobreza. (2.) Não por suborno: não aceitará recompensa contra o inocente.
Se trabalhar de algum modo na administração da justiça pública, não fará nada que prejudique uma causa justa em troca de qualquer ganho, ou da esperança de obtê-lo para si.
III. O salmo termina com a confirmação desse retrato do cidadão de Sião. Ele é como o próprio monte Sião, que não pode ser abalado, mas permanece para sempre, Salmos 125:1.
Todo membro verdadeiro e vivo da igreja, como a própria igreja, está edificado sobre uma rocha, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão: “quem faz essas coisas jamais será abalado”; não será abalado para sempre, é o que diz a palavra.
A graça de Deus sempre lhe bastará para preservá-lo seguro e irrepreensível para o reino celestial. As tentações não o vencerão, as tribulações não o esmagarão, e nada lhe roubará a paz presente nem a felicidade futura.
Ao cantar este salmo, devemos ensinar e advertir a nós mesmos e uns aos outros a corresponder às características aqui apresentadas do cidadão de Sião, para que nunca sejamos afastados do tabernáculo de Deus na terra e, por fim, cheguemos àquele monte santo onde estaremos para sempre fora do alcance da tentação e do perigo.