Matthew Henry

Salmos 142

Argumento

Este salmo é uma oração cuja essência Davi apresentou a Deus quando Saul o forçou a se abrigar numa caverna e que depois escreveu desta forma. Aqui está: I. Sua queixa a Deus (v. 1, 2) acerca da astúcia, da força e da malícia de seus inimigos (v. 3, 6), e da frieza e indiferença de seus amigos, v. 4.

II. O conforto que encontrou em Deus, que conhecia sua situação (v. 3) e era seu refúgio, v. 5. III. Sua expectativa de que Deus o ouviria e o livraria, v. 6, 7. IV. Sua expectativa de que os justos se uniriam a ele em louvores, v. 7.

Os aflitos na mente, no corpo ou nos bens podem, ao cantar este salmo (se o cantarem em alguma medida com o espírito de Davi), tanto reconhecer fundamento nas queixas dele quanto apropriar-se dos confortos que encontrou.

As Queixas de Davi.

Versículos 1 a 3

Masquil de Davi. Oração Quando Estava na Caverna.

Não importa se Davi fez esta oração na caverna de Adulão ou na de En-Gedi; está claro que se encontrava em aflição. Era uma grande humilhação para um soldado e cortesão tão importante recorrer a tais expedientes para sua própria segurança, além de ser aterrador sofrer perseguição tão intensa e esperar a morte a cada instante.

Mesmo assim, ele conservou presença de espírito suficiente para fazer esta oração e, onde quer que estivesse, continuava a viver sua religião. Orações e lágrimas eram suas armas; quando não ousava estender as mãos contra seu príncipe, erguia-as a seu Deus.

Não há caverna tão profunda e escura da qual não possamos elevar a Deus nossas orações e nossa alma em oração. Davi chama esta oração de Masquil — salmo de instrução — por causa das boas lições que ele próprio aprendera na caverna, aprendera de joelhos, e que desejava ensinar a outros. Nestes versículos, observe:

I. Como Davi se queixou a Deus, v. 1, 2. Quando o perigo passou, não se envergonhou de reconhecer, como às vezes se envergonham pessoas de grande ânimo, o medo que sentira e o recurso que buscara em Deus.

Que ninguém de posição elevada pense que clamar a Deus na aflição o diminui ou desmerece, ou que é indigno clamar como crianças aos pais quando algo as assusta. Davi derramou sua queixa, expressão que indica uma queixa livre e completa; falou dela com abundância e detalhes.

Seu coração estava tão cheio de agravos quanto podia suportar, mas ele se aliviou ao derramá-los diante do Senhor. Fez isso com grande fervor: clamou ao Senhor com a própria voz, ou com a voz da mente (como pensam alguns), pois, escondido na caverna, não ousava falar em voz audível, para não se denunciar.

A oração mental, porém, é audível para Deus, e ele ouve os gemidos que não podem ou não ousam ser pronunciados, Romanos 8:26. Nessa queixa, Davi expôs duas coisas a Deus: 1. Sua aflição. Apresentou uma exposição ou memorial de sua situação: “Mostrei diante dele a minha tribulação” e todas as suas circunstâncias.

Ele não prescreveu a Deus o que fazer, nem lhe mostrou sua tribulação como se Deus não a conhecesse sem que fosse mostrada. Abriu-lhe o coração porque confiava nele, desejava manter a comunhão com ele e estava disposto a entregar-se inteiramente a ele.

Humildemente expôs a questão diante de Deus e, depois, deixou-a alegremente em suas mãos. Temos a tendência de mostrar demais nossas tribulações a nós mesmos, exagerando-as e remoendo-as, o que não nos ajuda; ao mostrá-las a Deus, porém, podemos lançar nossas preocupações sobre aquele que zela por nós e assim encontrar alívio.

Também não devemos consentir em queixas dirigidas a nós mesmos ou a outros que não possamos apresentar a Deus com o devido decoro e a sinceridade da devoção e sustentar diante dele. 2. Seu desejo. Ao fazer sua queixa, Davi também fez sua súplica (v. 1): não reivindicou o alívio como dívida, mas o pediu humildemente como favor. Quem se queixa deve também suplicar, pois Deus será buscado.

II. Do que ele se queixou: “No caminho por onde eu andava, sem suspeitar de perigo, armaram-me secretamente um laço para me apanhar.” Saul deu a Davi sua filha Mical justamente para que ela fosse um laço para ele, 1 Samuel 18:21.

Davi se queixa a Deus de que tudo era feito com um desígnio contra ele. Se tivesse se desviado de seu caminho e encontrado laços, poderia culpar a si mesmo; mas, ao encontrá-los no caminho de seu dever, podia falar deles a Deus com humilde ousadia.

III. O que o confortava em meio a essas queixas (v. 3): “Quando meu espírito se sentia oprimido dentro de mim, prestes a sucumbir sob o peso da dor e do medo, quando eu estava inteiramente perdido e prestes a desesperar, então tu conhecias meu caminho; isto é, era um prazer para mim pensar que tu o conhecias.”

“Tu conhecias minha sinceridade, o caminho reto pelo qual andei, e sabias que não sou a pessoa que meus perseguidores dizem que sou. Tu conhecias minha condição em todos os seus detalhes; quando meu espírito estava tão oprimido que eu não conseguia mostrá-la com clareza, confortava-me saber que tu a conhecias, Jó 23:10.”

“Tu a conhecias, isto é, tu a protegias, preservavas e tornavas segura”, Salmos 31:7; Deuteronômio 2:7.

Versículos 4 a 7

Queixas e Pedidos.

O salmista nos conta aqui, para nossa instrução: 1. Como seus amigos o desconheceram e abandonaram, v. 4. Quando tinha o favor da corte, parecia ter grande influência; mas, depois de ser declarado fora da lei, era perigoso dar-lhe abrigo (como mostra o destino de Aimeleque), e ninguém queria conhecê-lo: todos o evitavam.

Olhou à sua direita à procura de um defensor (Salmos 109:31), algum amigo que dissesse uma boa palavra em seu favor. Desde que Jônatas quase perdera a vida por defendê-lo, porém, ninguém queria arriscar-se a defender sua inocência; todos se apressavam a dizer que nada sabiam do caso.

Olhou em volta para ver se alguém lhe abriria a porta, mas não encontrou refúgio. Nenhum dos velhos amigos lhe daria pousada por uma noite nem lhe indicaria um lugar secreto e seguro. Quantos homens bons foram enganados por amigos como as andorinhas, que partem quando chega o inverno!

A vida de Davi era extremamente preciosa; contudo, quando ele foi injustamente proscrito, ninguém se importou com ela nem moveu um dedo para protegê-la. Nisso ele foi tipo de Cristo, que, ao sofrer em nosso favor, foi abandonado por todos, até pelos próprios discípulos, e pisou sozinho o lagar, pois não havia quem o ajudasse nem quem o amparasse, Isaías 63:5.

  1. Como então encontrou satisfação em Deus, v. 5. Os que o amavam e os seus amigos mantiveram distância, e chamá-los era inútil. “Mas”, disse ele, “clamei a ti, ó Senhor, que me conheces e zelas por mim quando ninguém mais o quer fazer, e que não me faltarás nem me abandonarás quando os homens o fizerem”; pois Deus é constante em seu amor.

Davi nos conta o que disse a Deus na caverna: “Tu és meu refúgio e minha porção na terra dos viventes; dependo de ti para que sejas ambos: meu refúgio para me salvar da miséria, minha porção para me fazer feliz. A caverna em que estou é apenas um refúgio pobre.”

“Senhor, teu nome é a torre forte para a qual corro. Tu és meu refúgio, o único em quem me considerarei seguro. A coroa que espero receber é apenas uma porção pobre; não poderei considerar-me bem provido até saber que o Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice.”

Os que sinceramente tomam o Senhor por seu Deus descobrirão que ele é plenamente suficiente tanto como refúgio quanto como porção. Assim como nenhum mal os ferirá, nenhum bem lhes faltará; e podem humildemente reivindicar sua relação com ele: “Senhor, tu és meu refúgio e minha porção; tudo mais é refúgio de mentiras e porção sem valor.”

“Tu és assim na terra dos viventes, isto é, enquanto eu viver e existir, seja neste mundo, seja num melhor.” Há em Deus o suficiente para atender a todas as necessidades do tempo presente. Vivemos num mundo de perigos e carências; mas que perigo precisamos temer se Deus é nosso refúgio, ou que carências, se ele é nossa porção?

O céu, que é o único lugar digno de ser chamado terra dos viventes, será para todos os crentes tanto refúgio quanto porção. 3. Como, satisfeito assim, ele se dirigiu a Deus (v. 5, 6): “Senhor, dá ouvidos bondosos ao meu clamor, o clamor da minha aflição, o clamor da minha súplica, pois fui levado a uma condição muito baixa e, se não me ajudares, afundarei completamente.”

“Senhor, livra-me dos meus perseguidores: ou prende-lhes as mãos ou transforma-lhes o coração; quebra-lhes o poder ou arruína-lhes os projetos; contém-nos ou resgata-me, pois são mais fortes do que eu, e será uma honra para ti tomar o partido do mais fraco. Livra-me deles, ou serei arruinado por eles, pois ainda não sou páreo para eles.”

“Senhor, tira a minha alma da prisão: não apenas me tires em segurança desta caverna, mas tira-me de todas as minhas perplexidades.” Podemos aplicar isso espiritualmente: a alma dos homens bons muitas vezes se vê apertada por dúvidas e temores, restringida e presa pela fraqueza da fé e pelo predomínio da corrupção.

Nesse momento, é dever e interesse deles recorrer a Deus e pedir-lhe que os liberte e alargue seu coração, para que possam correr pelo caminho dos seus mandamentos. 4. Quanto ele esperava que seu livramento redundasse em glória para Deus:

(1.) Por meio de suas próprias ações de graças, nas quais se transformariam suas queixas atuais: “Tira minha alma da prisão, não para que eu desfrute de mim mesmo e dos meus amigos e viva em comodidade; não, nem para que eu ponha meu país em segurança, mas para que louve teu nome.”

É isso que devemos ter em vista em todas as orações a Deus por livramento das tribulações: que tenhamos ocasião de louvá-lo e vivamos para seu louvor. O maior conforto das misericórdias temporais é que elas nos fornecem assunto e oportunidade para o excelente dever do louvor.

(2.) Por meio das ações de graças de muitos em favor dele (2 Coríntios 1:11): “Quando eu for solto, os justos me rodearão; por minha causa, farão para ti uma coroa de louvor”, assim diz o parafrasta caldeu.

“Eles se reunirão ao meu redor para me felicitar pelo livramento, ouvir minhas experiências e receber minhas instruções (Masquil); me rodearão para dar graças comigo, porque tu me terás tratado generosamente.” Repare: as misericórdias recebidas por outros devem ser assunto dos nossos louvores a Deus; e os louvores de outros em nosso favor devem ser desejados e recebidos com alegria por nós.


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