Salmos 141
Argumento
Davi estava em angústia quando escreveu este salmo, perseguido, muito provavelmente, por Saul, aquele homem violento. Alguém está angustiado? Que ore; Davi fez isso e encontrou consolo na oração.
I. Ele ora pela acolhida favorável de Deus, v. 1, 2. II. Por sua poderosa ajuda, v. 3, 4. III. Para que outros fossem instrumentos de bem para sua alma, assim como esperava ser para as almas de outros, v. 5, 6. IV. Para que, estando ele e seus amigos agora reduzidos à última extremidade, Deus surgisse bondosamente para lhes trazer alívio e livramento, vv. 7-10.
A misericórdia e a graça de Deus nos são tão necessárias quanto foram para ele; por isso, ao cantar este salmo, devemos buscá-las com humilde fervor.
Súplicas Fervorosas.
Versículos 1 a 4
Salmo de Davi.
Misericórdia para aceitar o que fazemos bem e graça para impedir-nos de fazer o mal são as duas coisas que aqui, pelo exemplo de Davi, nos é ensinado a pedir a Deus.
I. Davi amava a oração e pede a Deus que suas orações sejam ouvidas e atendidas, v. 1, 2. Davi clamou a Deus. Seu clamor indica fervor na oração; orava como alguém que falava a sério. O fato de clamar a Deus indica fé e constância na oração. E o que desejava como resultado de sua oração?
Que Deus prestasse atenção a ela: “Dá ouvidos à minha voz; concede-me uma audiência favorável.” Os que clamam em oração podem esperar ser ouvidos em oração, não pela altura da voz, mas pelo vigor da oração.
Que Deus o visitasse em resposta a ela: “Apressa-te a mim.” Os que sabem dar valor à presença favorável de Deus a pedirão com insistência e suportarão as demoras com humilde impaciência. Aquele que crê não se apressa, mas quem ora pode pedir insistentemente que Deus se apresse.
Que Deus se agradasse dele ao orar, que se agradasse de sua oração e do erguer de suas mãos em oração. Esse gesto indica tanto a elevação e a ampliação de seu desejo quanto a expressão de sua esperança e expectativa; erguer as mãos significa erguer o coração.
Também era usado em lugar de erguer os sacrifícios que eram elevados e movidos diante do Senhor. A oração é um sacrifício espiritual; é a oferta da alma e de suas melhores afeições a Deus.
Agora ele ora para que isso seja apresentado e dirigido diante de Deus como o incenso que era queimado diariamente sobre o altar de ouro e como o sacrifício da tarde. Menciona este em vez do sacrifício da manhã talvez porque fazia sua oração à tarde, ou tendo em vista Cristo.
Cristo, ao entardecer do mundo e do dia, ofereceria a si mesmo como sacrifício de expiação e estabeleceria os sacrifícios espirituais de reconhecimento, depois de abolir todas as ordenanças carnais da lei. Os que oram com fé podem esperar que isso agrade a Deus mais do que um boi ou um novilho.
Davi estava então banido do átrio de Deus e não podia comparecer ao sacrifício e ao incenso; por isso, pede que sua oração valha em lugar deles. Repare: a oração tem para Deus um aroma suave, como o incenso, que, no entanto, não tem aroma sem o fogo; tampouco a oração o tem sem o fogo do santo amor e do fervor.
II. Davi temia o pecado e pede a Deus que o guarde dele, pois sabia que suas orações não seriam aceitas se não zelasse por vigiar contra o pecado. Devemos buscar a graça de Deus em nós com tanto fervor quanto buscamos seu favor para conosco.
- Ele ora para que não seja levado de surpresa a proferir palavras pecaminosas (v. 3): “Põe uma guarda, ó Senhor, diante da minha boca; e, tendo a natureza feito dos meus lábios uma porta para as minhas palavras, que a graça guarde essa porta, para que não se permita sair palavra alguma que de qualquer modo desonre a Deus ou prejudique os outros.”
Os homens bons conhecem o mal dos pecados da língua e quanto são propensos a eles. Quando os inimigos nos provocam, corremos o risco de levar longe demais nosso ressentimento e de falar sem pensar, como fez Moisés, embora fosse o mais manso dos homens.
Por isso, pedem insistentemente a Deus que os impeça de falar mal, pois sabem que nenhuma vigilância ou resolução própria basta para governar a língua, muito menos o coração, sem a graça especial de Deus.
Devemos guardar nossa boca como com um freio; mas isso não basta: devemos pedir a Deus que a guarde. Neemias orou ao Senhor quando pôs uma guarda, e assim devemos fazer, pois sem ele o vigia vigia em vão.
- Para que não seja inclinado a nenhuma prática pecaminosa (v. 4): “Não inclines meu coração a coisa má; qualquer inclinação para o pecado que haja em mim, que ela não seja apenas contida, mas mortificada pela graça divina.”
O exemplo dos que estão ao nosso redor e as provocações dos que estão contra nós tendem a despertar e pôr em ação inclinações corrompidas. Somos propensos a fazer o que os outros fazem e a pensar que, se sofremos injúrias, podemos retribuí-las.
Por isso, precisamos orar para que nunca sejamos entregues a nós mesmos para praticar qualquer obra perversa, seja em aliança com os homens que praticam a iniquidade, seja em oposição a eles.
Enquanto vivermos num mundo tão mau e carregarmos conosco corações tão maus, precisaremos orar para não sermos atraídos por sedução alguma nem impelidos por provocação alguma a fazer qualquer coisa pecaminosa.
- Para que não seja enredado por prazeres pecaminosos: “Não me deixes comer das suas iguarias. Não me deixes participar de suas festas e diversões, para que por meio disso eu não seja atraído a seus pecados.”
É melhor uma refeição de verduras fora do caminho da tentação do que um boi cevado dentro dele. Os pecadores alegam encontrar iguarias no pecado. As águas roubadas são doces; o fruto proibido agrada aos olhos.
Mas os que consideram quão depressa as iguarias do pecado se transformarão em absinto e fel, e como certamente o pecado, por fim, morderá como serpente e picará como víbora, temerão essas iguarias. Pedirão a Deus que, por sua providência, as tire de sua vista e, por sua graça, os faça voltar-se contra elas. Os homens bons orarão até contra as doçuras do pecado.
Versículos 5 a 10
Censuras dos Justos; Queixas e Petições.
Aqui, I. Davi deseja que lhe apontem suas faltas. Seus inimigos o desacreditavam com falsidades, do que ele não podia deixar de se queixar. Ainda assim, desejava que seus amigos o censurassem por aquilo que realmente havia de errado nele, em especial se houvesse algo que desse a menor aparência de verdade àqueles descréditos (v. 5): “Que o justo me fira; será uma bondade.”
O Deus justo, segundo alguns. “Receberei de bom grado as repreensões de sua providência e, longe de altercar com elas, as receberei como sinais de amor, as aproveitarei como meios de graça e orarei pelos que forem instrumentos da minha tribulação.”
Mas geralmente se entende que se trata das censuras feitas por homens justos. É especialmente apropriado aos que são justos censurar a injustiça dos outros, e deles a censura será mais bem recebida.
Se, porém, a censura for justa, ainda que o censor não seja, devemos aproveitá-la e aprender obediência com ela. Aqui nos é ensinado a receber as censuras dos justos e sábios:
Devemos desejar ser censurados por tudo o que há de errado em nós ou por tudo o que fazemos de errado: “Senhor, põe no coração dos justos o desejo de ferir-me e censurar-me. Se meu próprio coração não me fere como deveria, que meu amigo o faça; que eu nunca caia sob o terrível juízo de ser deixado entregue ao pecado.”
Devemos considerá-la uma prova de amizade. Não devemos apenas suportá-la pacientemente, mas também recebê-la como bondade; pois “as censuras da instrução são o caminho da vida” (Provérbios 6:23). São meios de nos fazer bem, levando-nos ao arrependimento pelos pecados cometidos e prevenindo recaídas no pecado.
Embora as censuras cortem, fazem isso visando à cura e, portanto, são muito mais desejáveis do que “os beijos de um inimigo” (Provérbios 27:6) ou “a canção dos tolos”, Eclesiastes 7:5. Davi bendisse a Deus pela advertência oportuna de Abigail, 1 Samuel 25:32.
- Devemos considerar que somos ajudados e curados por ela: será como um óleo excelente sobre uma ferida, para amolecê-la e fechá-la. Não me quebrará a cabeça, como pensam alguns, que suportariam tão bem ter a cabeça quebrada quanto ouvir falar de suas faltas.
Davi, porém, diz: “Não penso assim; foi meu pecado que me quebrou a cabeça, que me quebrou os ossos, Salmos 51:8. A censura é um óleo excelente para curar as contusões que o pecado me causou. Não me quebrará a cabeça, se ao menos puder ajudar a quebrar meu coração.”
- Devemos retribuir a bondade daqueles que nos tratam com tanta fidelidade e amizade, pelo menos orando por eles em suas calamidades; assim mostraremos que recebemos bem sua atitude.
O dr. Hammond apresenta uma leitura bem diferente desse versículo: “O descrédito me contundirá, a mim que sou justo, e me repreenderá; mas aquele óleo venenoso não me quebrará a cabeça (não me destruirá, não me causará o dano pretendido), pois minha oração ainda estará em meio aos seus danos, para que Deus me preserve deles, e minha oração não será em vão.”
II. Davi espera que seus perseguidores, mais cedo ou mais tarde, suportem ouvir falar de suas faltas, assim como ele estava disposto a ouvir falar das suas (v. 6): “Quando seus juízes” (Saul e seus oficiais, que julgavam e condenavam Davi e queriam ser os únicos juízes) “forem derrubados em lugares pedregosos, entre as rochas do deserto, então ouvirão minhas palavras, pois são doces.”
Alguns entendem que isso se refere aos momentos em que Saul se abrandou e, com lágrimas, disse: “É esta a tua voz, meu filho Davi?” (1 Samuel 24:16; 26:21). Ou podemos entender a passagem de forma mais geral: até os juízes, por maiores que sejam, podem vir a ser derrubados.
Os que ocupam a posição mais destacada neste mundo nem sempre encontram caminhos planos e suaves ao atravessá-lo. E os que antes desprezavam a palavra de Deus passarão a apreciá-la e a recebê-la com alegria quando estiverem em aflição, pois esta abre os ouvidos à instrução.
Quando o mundo é amargo, a palavra é doce. A inocência oprimida não consegue ser ouvida pelos que vivem na pompa e no prazer; mas, quando eles próprios forem derrubados, terão pensamentos mais compassivos acerca dos aflitos.
III. Davi se queixa da situação extrema a que ele e seus amigos foram reduzidos (v. 7): “Nossos ossos estão espalhados à boca da sepultura”, de onde são lançados para fora, há tanto tempo estamos mortos, ou na qual estão prestes a ser lançados, tão perto estamos da cova.
São tão pouco considerados quanto as lascas que os lenhadores deixam em montes esquecidos: “Como aquele que corta e fende a terra” (assim leem alguns), numa alusão ao lavrador que rasga a terra com a relha do arado, Salmos 129:3. Poderão viver esses ossos secos?
IV. Davi se entrega a Deus e depende dele para obter livramento (v. 8): “Mas meus olhos estão em ti; pois, por mais deplorável que seja a situação, tu podes reparar todas as queixas. De ti espero alívio, por piores que estejam as coisas, e em ti ponho minha confiança.” Os que voltam os olhos para Deus podem depositar nele sua esperança.
V. Ele ora para que Deus o socorra e alivie conforme sua necessidade exigia:
Que Deus o consolasse: “Não deixes minha alma desolada e desamparada; deixa-me continuar a ver onde está meu socorro.”
Que impedisse os desígnios de seus inimigos contra ele (v. 9): “Guarda-me de ser apanhado no laço que armaram para mim; permite-me descobri-lo e escapar dele.” Por mais sutilmente que a armadilha seja posta, Deus pode proteger seu povo de ser apanhado nela, e o fará.
Que Deus, por justiça, voltasse os desígnios de seus inimigos contra eles próprios e, por misericórdia, o livrasse de ser arruinado por eles (v. 10): que os ímpios caiam na própria rede, a rede que, por intenção, prepararam para mim, mas que, por merecimento, prepararam para si mesmos.
Nec lex est justior ulla quam necis artifices arte perire sua — Nenhuma lei pode ser mais justa do que a de que os arquitetos da destruição pereçam por suas próprias maquinações. Todos os que são entregues à justiça de Deus ficam presos nas cordas da própria iniquidade. Mas que eu, ao mesmo tempo, obtenha livramento.
O enredamento e a captura dos ímpios às vezes proporcionam aos justos a fuga e a soltura.