Matthew Henry

Salmos 140

Argumento

Este salmo e os quatro seguintes são muito semelhantes, e seu propósito é o mesmo de muitos que encontramos no início e no meio do livro dos Salmos, embora poucos tenham aparecido ultimamente. Foram escritos por Davi, ao que parece, quando Saul o perseguia.

De um deles se diz que era sua “oração quando estava na caverna”, e é provável que todos os outros tenham sido escritos por volta da mesma época. Neste salmo, I. Davi se queixa da malícia de seus inimigos e pede a Deus que o proteja deles, vv. 1-5. II. Anima-se em Deus como seu Deus, v. 6, 7.

III. Ora pela destruição dos seus perseguidores e a profetiza, vv. 8-11. IV. Assegura a todos os aflitos do povo de Deus que suas tribulações terminariam bem no tempo devido (v. 12, 13). Com essa certeza, devemos consolar a nós mesmos e uns aos outros ao cantar este salmo.

Queixas e Pedidos.

Versículos 1 a 7

Ao Músico-Mor. Um Salmo de Davi.

Nisso, como em outras coisas, Davi foi um tipo de Cristo: sofreu antes de reinar e foi humilhado antes de ser exaltado. Assim como muitos o amavam, estimavam e procuravam honrá-lo, muitos também o odiavam, invejavam e procuravam lhe causar dano, como mostram estes versículos:

I. Ele descreve seus inimigos e os retrata em suas próprias cores: homens perigosos, que tinha motivo para temer, mas também perversos, que não tinha motivo para supor que o Deus justo apoiaria.

Parece haver um que os liderava, a quem Davi chama de homem mau e homem de violências (v. 1, 4); provavelmente se refere a Saul. O parafrasta caldeu (v. 9) menciona tanto Doegue quanto Aitofel, mas houve entre eles um grande intervalo de tempo. Homens violentos são homens maus.

Havia, porém, muitos outros aliados contra Davi, além desse homem; são retratados aqui como autêntica prole e descendência da serpente. Pois: 1. São muito sutis e ardilosos para causar dano. Eles o imaginaram (v. 2), traçando seu plano com toda a arte e astúcia possíveis.

Propuseram-se e tramaram fazer tropeçar os passos de um homem bom (v. 4): atraí-lo ao pecado e à tribulação, arruiná-lo ao destruir sua reputação, esmagar seus interesses e tirar-lhe a vida.

Com esse fim, como grandes caçadores, esconderam uma armadilha, estenderam uma rede e armaram laços (v. 5), para que seus desígnios contra ele, mantidos em segredo, tivessem maior chance de dar certo e ele caísse em suas mãos sem perceber.

Grandes perseguidores muitas vezes foram grandes estrategistas políticos, o que de fato os tornou mais temíveis. O Senhor, porém, preserva os simples sem todas essas artimanhas. 2. São muito rancorosos, tão cheios de malícia quanto o próprio Satanás: afiaram a língua como uma serpente, que inocula veneno com a língua.

Há tanta malignidade em tudo o que dizem que se poderia pensar não haver sob seus lábios senão veneno de víboras, v. 3. Com calúnias e conselhos, pretendiam destruir Davi, mas em segredo, como alguém é picado por uma serpente ou uma cobra na relva.

Também procuravam incutir sua malícia em outros e torná-los filhos do inferno sete vezes mais do que eles próprios. A língua maligna torna os homens semelhantes à antiga serpente, e o veneno nos lábios é sinal certo de veneno no coração.

  1. São aliados; são muitos, mas todos se ajuntam contra mim para a guerra, v. 2. Aqueles que não conseguem concordar em mais nada conseguem concordar em perseguir um homem bom. Herodes e Pilatos se unirão para isso, e nisso se assemelham a Satanás, que não está dividido contra si mesmo, pois todos os demônios concordam sob Belzebu.

  2. São orgulhosos (v. 5), presunçosos e confiantes no próprio sucesso. Também nisso se assemelham a Satanás, cujo pecado dominante e destrutivo foi o orgulho. O orgulho dos perseguidores, embora no presente seja o terror dos perseguidos, ainda assim pode ser seu ânimo, pois quanto mais arrogantes forem, mais depressa amadurecerão para a ruína. O orgulho precede a destruição.

II. Ele ora a Deus para que o guarde deles e impeça que seja devorado por eles: “Senhor, livra-me, preserva-me, guarda-me (v. 1, 4); não permitas que consigam tirar minha vida, minha reputação, meus interesses e meu conforto, nem impedir que eu chegue ao trono. Guarda-me de agir como eles agem, como desejariam que eu agisse ou como esperam que eu aja.”

Repare: quanto mais malícia nossos inimigos demonstram contra nós, mais fervorosamente devemos orar a Deus para que nos ponha sob sua proteção. Nele os crentes podem contar com segurança, desfrutar dela e viver em paz consigo mesmos, com santa serenidade. Estão seguros aqueles a quem Deus preserva. Se ele é por nós, quem será contra nós?

III. Ele triunfa em Deus e, desse modo, na prática, triunfa sobre seus perseguidores, v. 6, 7. Quando seus inimigos afiaram a língua contra ele, afiou ele a sua contra eles? Não: havia veneno de víboras sob os lábios deles, mas a graça foi derramada nos lábios de Davi.

É prova disso o que ele disse aqui ao Senhor, pois era para Deus que olhava e a ele se dirigia quando se via em tanto perigo por causa da malícia dos inimigos. É bom para nós ter um Deus a quem recorrer. Davi se consolou: 1. Na relação que tinha com Deus: “Eu disse: Tu és meu Deus; e, se és meu Deus, és meu escudo e poderoso protetor.”

Em tempos atribulados e perigosos, é bom reivindicar nossa relação com Deus e nos apegar a ele pela fé. 2. No acesso que tinha a Deus. Consolava-o o fato de ter sido admitido não só na aliança com Deus, mas também na comunhão com ele, de ter permissão para falar-lhe e poder esperar dele uma resposta de paz.

Assim, podia dizer com humilde confiança: “Ouve a voz das minhas súplicas, ó Senhor!” 3. Na certeza de que receberia auxílio de Deus e encontraria felicidade nele: “Ó Deus, o Senhor — Jeová Adonai! Como Jeová, tu existes por ti mesmo e bastas a ti mesmo, um ser infinitamente perfeito.”

“Como Adonai, tu és meu esteio e amparo, meu dirigente e governador e, portanto, a força da minha salvação, meu Salvador poderoso. Ou melhor, és não apenas meu Salvador, mas a própria salvação, de quem e em quem vem minha salvação.”

“És não apenas um Salvador poderoso, mas a própria força da minha salvação, sobre quem repousa todo o peso da minha esperança; tudo em todos para me fazer feliz e me conservar nessa felicidade.”

  1. Na experiência anterior do zelo de Deus por ele: “Cobriste a minha cabeça no dia da batalha.” Assim como apelara perante Saul que, a serviço de seu país, muitas vezes arriscara a vida nos pontos altos do campo de batalha, assim apela perante Deus que, nesses serviços, ele o protegera de modo admirável.

Deus lhe dera um capacete melhor do que o de Golias para proteger sua cabeça: “Senhor, tu me guardaste no dia da batalha contra os filisteus; não permitas que eu caia pelas intrigas traiçoeiras de israelitas de coração falso.”

Deus é tão capaz de preservar seu povo da fraude secreta quanto da força aberta. A experiência que tivemos de seu poder e zelo diante de perigos de um tipo pode nos animar a confiar nele e depender dele diante de perigos de outro tipo, pois nada pode encurtar a mão direita do Senhor.

Versículos 8 a 13

A Vergonha e a Confusão dos Perseguidores.

Aqui está o que Davi anteviu pela fé:

I. A vergonha e a confusão dos perseguidores:

  1. Sua frustração. Ele ora por isso (v. 8): que suas paixões não sejam satisfeitas — a ambição, a inveja e a vingança. “Não concedas, ó Senhor, os desejos dos perversos, mas frustra-os; não permitas que vejam a ruína dos meus interesses, que tanto desejam ver; ouve, porém, a voz das minhas súplicas.”

Ele ora para que seus projetos não se concretizem, mas sejam arruinados: “Oh, não favoreças o seu plano perverso; não deixes que a Providência favoreça nenhum dos seus desígnios, mas frustra-os. Não permitas que seu plano perverso avance; acorrenta suas rodas e detém-no no curso de suas investidas.”

Assim devemos orar contra os inimigos do povo de Deus: para que não tenham sucesso em nenhum de seus empreendimentos. Essa foi a oração de Davi contra Aitofel, para que Deus transformasse seus conselhos em insensatez. O apelo é: “para que não se exaltem”, valorizando-se pelo sucesso como se isso provasse que Deus os favorece.

Quando prosperam, os orgulhosos ficam ainda mais orgulhosos, tornam-se mais atrevidos diante de Deus e insolentes contra seu povo. Por isso: “Senhor, não os faças prosperar.”

  1. Sua destruição. Davi ora por ela (segundo a leitura que adotamos), mas alguns preferem ler o texto como profecia, interpretação que o original admite. Se o tomarmos como oração, ela procede de um espírito de profecia, o que vem a dar no mesmo. Ele prediz a ruína:

(1.) De seus próprios inimigos: “Quanto aos que me cercam e buscam minha ruína”: [1.] “O dano causado pelos próprios lábios deles lhes cobrirá a cabeça (v. 9). O mal que desejaram para mim virá sobre eles; suas maldições voltarão, sopradas, ao rosto deles, e os próprios desígnios que traçaram contra mim se voltarão para sua ruína”, Salmos 7:15, 16.

Que aqueles que causam dano caluniando, espalhando boatos, deturpando seus vizinhos e difundindo descrições e histórias maldosas temam as consequências. Pensem em quão triste será sua situação quando todo o dano de que foram cúmplices recair sobre eles mesmos.

[2.] Os juízos de Deus cairão sobre eles, comparados aqui a brasas ardentes, numa alusão à destruição de Sodoma. Ou melhor, assim como no dilúvio as águas de cima e as de baixo se encontraram para afogar o mundo, quando tanto se abriram as janelas do céu quanto se romperam as fontes do grande abismo, assim também acontecerá aqui.

Para completar a ruína dos inimigos de Cristo e do seu reino, não só lhes serão lançadas brasas ardentes de cima (Jó 20:23; 27:22), mas eles próprios serão lançados no fogo de baixo. Tanto o céu quanto o inferno, a cólera de Deus, o Juiz, e a fúria de Satanás, o atormentador, se unirão para torná-los miseráveis.

O fogo em que serão lançados não é uma fornalha da qual talvez pudessem escapar, mas uma cova profunda, da qual não podem subir. Diz-se que Tofete é profundo e largo, Isaías 30:33.

(2.) De todos os outros que são como eles, v. 11. [1.] Os que falam mal devem esperar ser abalados, pois nunca se estabelecerão na terra. O que se obtém por fraude e falsidade, por calúnia e acusação injusta, não prosperará nem durará. A riqueza obtida pela vaidade diminuirá.

Que homens como Doegue não pensem que reinarão por muito tempo, pois a condenação dele será a deles, Salmos 2:5. A língua mentirosa dura apenas um momento, mas o lábio da verdade será estabelecido para sempre.

[2.] Os que praticam o mal devem esperar ser destruídos: “O mal perseguirá o homem violento”, como o cão farejador persegue o assassino para encontrá-lo e como o leão persegue a presa para despedaçá-la. Os homens que causam dano serão expostos e levados à ruína; a destruição designada os alcançará e os derrubará. O mal persegue os pecadores.

II. Aqui está o que ele anteviu quanto ao livramento e ao conforto dos perseguidos, v. 12, 13. 1. Deus fará justiça, ao livrá-los, àqueles que, sofrendo injustiça, se entregam a ele: “Sei que o Senhor defenderá a causa justa e injuriada do seu povo aflito.”

“Ele não permitirá que a força prevaleça sempre contra o direito, mesmo quando se trata do direito dos pobres, que têm muito pouco sobre o que possam alegar algum direito.” Deus é e será defensor da inocência oprimida e, mais ainda, da piedade perseguida; aqueles que o conhecem não podem deixar de saber disso.

  1. Eles lhe farão justiça (se assim posso dizer), atribuindo-lhe a glória de seu livramento: “Certamente os justos, que se preocupam em dar a Deus o que lhe é devido, assim como aos homens o que lhes é devido, darão graças ao teu nome quando virem sua causa defendida com zelo e levada adiante com eficácia.”

As palavras finais, “Os retos habitarão na tua presença”, indicam tanto o favor de Deus para com eles — “Tu os admitirás a habitar em tua presença, em graça aqui e em glória depois, e isso lhes trará segurança e felicidade” — quanto o dever deles para com Deus.

“Eles se aplicarão a ti como servos que permanecem na presença de seus senhores, tanto para honrá-los quanto para receber suas ordens.” Essa é a verdadeira ação de graças: uma vida de graças. Esse é o uso que devemos fazer de todos os nossos livramentos: servir a Deus com mais proximidade e alegria.


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