Salmos 139
Argumento
Alguns dos mestres judeus consideram este o mais excelente de todos os salmos de Davi. Trata-se de uma meditação muito piedosa e devota sobre o ensino da onisciência de Deus; por isso, ao cantar este salmo, devemos fixar e encher nosso coração com esse ensino.
I. Esse ensino é aqui afirmado e exposto plenamente (vv. 1-6). II. É confirmado por duas razões: 1. Deus está presente em toda parte; portanto, conhece todas as coisas (vv. 7-12). 2. Ele nos criou; portanto, nos conhece (vv. 13-16).
III. Desse ensino são extraídas algumas conclusões: 1. Ele pode nos encher de agradável admiração por Deus (v. 17, 18). 2. De santo pavor e aversão ao pecado e aos pecadores (vv. 19-22). 3. De santa satisfação com nossa própria integridade, a respeito da qual podemos recorrer a Deus (v. 23, 24).
Esta verdade grande e evidente por si mesma, que Deus conhece nosso coração e o coração de todos os filhos dos homens, exerceria grande influência sobre nossa santidade e nosso consolo se apenas a mesclássemos com fé, a considerássemos seriamente e a aplicássemos.
A Onisciência de Deus.
Versículos 1 a 6
Ao Músico-Mor. Salmo de Davi.
Davi expõe aqui este grande ensino: o Deus com quem temos de tratar nos conhece perfeitamente, e todos os movimentos e ações, tanto de nosso ser interior quanto do exterior, estão nus e patentes diante dele.
I. Ele apresenta esse ensino dirigindo-se a Deus; diz isso a ele, reconhecendo-o diante dele e dando-lhe a glória por isso. As verdades divinas ficam tão bem na oração quanto na pregação, e muito melhor do que na discussão.
Quando falamos de Deus ao próprio Deus, perceberemos a necessidade de falar com o máximo tanto de sinceridade quanto de reverência. Isso provavelmente fará com que a impressão dessas verdades seja mais profunda.
II. Ele apresenta o ensino aplicando-o a si mesmo. Não diz: “Tu conheceste todas as coisas”, mas: “Tu me conheceste; é nisso que mais me importa crer e sobre o que mais me aproveita refletir”. Conhecemos essas coisas para nosso bem quando as conhecemos por nós mesmos (Jó 5:27).
Ao reconhecer “Senhor, todas as almas são tuas”, devemos acrescentar: “Minha alma é tua; tu, que odeias todo pecado, odeias meu pecado; tu, que és bom para com todos e bom para com Israel, és bom para comigo”.
Assim também aqui: “Tu me sondaste e me conheceste; conheceste-me tão completamente quanto conhecemos aquilo que examinamos com a maior diligência e precisão”. Davi era rei, e os corações dos reis são insondáveis para seus súditos (Provérbios 25:3), mas não para seu Soberano.
III. Ele passa aos detalhes: “Tu me conheces onde quer que eu esteja e o que quer que eu faça; conheces a mim e a tudo o que me diz respeito”.
- “Tu me conheces e conheces todos os meus movimentos: quando me sento para descansar e quando me levanto para trabalhar; com que disposição de espírito me acomodo ao sentar e me ponho em ação ao levantar; aquilo em que minha alma repousa como amparo e sustento; aquilo a que aspira e que procura alcançar como sua felicidade e seu fim.”
“Tu me conheces quando volto para casa, como ando diante de minha casa, e quando saio, com que incumbências saio.”
- “Tu conheces todas as minhas imaginações. Nada é mais íntimo e rápido do que o pensamento; ele é sempre desconhecido dos outros e muitas vezes passa despercebido até para nós mesmos. Contudo, tu entendes meu pensamento de longe.”
“Por mais estranhos e distantes uns dos outros que sejam meus pensamentos, tu entendes sua cadeia e podes discernir sua ligação, mesmo quando tantos deles escapam à minha atenção que eu próprio não consigo fazê-lo.”
Ou: “Tu os entendes de longe, mesmo antes que eu os pense e muito depois de tê-los pensado e de eu próprio já os ter esquecido”. Ou: “Tu os entendes de longe; do alto do céu, enxergas as profundezas do coração” (Salmos 33:14).
- “Tu me conheces e conheces todos os meus desígnios e empreendimentos; rodeias cada caminho em particular; peneiras, ou joeiras, meu caminho”, segundo a leitura de alguns, “de modo a distinguir plenamente o bem e o mal naquilo que faço”, assim como pela peneiração separamos o grão da palha.
Todas as nossas ações passam pelo crivo do juízo de Deus (Salmos 17:3). Deus repara em cada passo que damos, em cada passo correto e em cada desvio. Conhece todos os nossos caminhos intimamente: sabe por qual regra andamos, para qual fim caminhamos e com que companhia andamos.
“Tu me conheces em todos os meus recolhimentos; conheces meu deitar.” “Quando me afasto de toda companhia, reflito sobre o que se passou durante todo o dia e me preparo para descansar, tu sabes o que há em meu coração e com que pensamento vou para a cama.”
“Tu me conheces e conheces tudo o que digo (v. 4): não há palavra em minha língua, nem palavra vã nem boa palavra, que não conheças inteiramente. Sabes o que significava, de que pensamento veio e com que desígnio foi dita.”
“Não há palavra na ponta de minha língua, pronta para ser dita, mas contida e guardada, que tu não conheças.” “Quando não há palavra em minha língua, ó Senhor, tu conheces tudo”, segundo outra leitura; pois os pensamentos são palavras para Deus.
- “Tu me conheces em cada parte de meu ser: cercaste-me por trás e pela frente; assim, vá eu por onde for, estou sob teus olhos e não posso escapar deles.” “Puseste tua mão sobre mim, e não posso fugir de ti.”
Onde quer que estejamos, estamos sob os olhos e a mão de Deus. Talvez haja aqui uma alusão ao médico que põe a mão sobre o paciente para sentir suas pulsações ou perceber sua disposição. Deus nos conhece como nós conhecemos não só o que vemos, mas também o que sentimos e tocamos. Todos os seus santos estão em sua mão.
IV. Ele fala disso com admiração (v. 6): “É maravilhoso demais para mim; é elevado.”
“Tu tens de mim um conhecimento que não tenho nem posso ter de mim mesmo.” “Não consigo reparar em todos os meus próprios pensamentos nem julgar a mim mesmo como tu me julgas.”
“É um conhecimento que não consigo compreender, muito menos descrever.” “Tenho certeza de que tu conheces todas as coisas, mas não sei dizer como.” Não podemos descobrir, por mais que investiguemos, como Deus nos sonda e nos descobre; nem sabemos como somos conhecidos.
Versículos 7 a 16
A Onisciência de Deus.
É muito útil para nós conhecer a certeza das coisas em que fomos instruídos, para que não apenas creiamos nelas, mas também saibamos dizer por que cremos e apresentar a razão da esperança que há em nós. Davi está certo de que Deus o conhece perfeitamente, assim como todos os seus caminhos:
I. Porque está sempre sob seus olhos. Se Deus é onipresente, necessariamente é onisciente. Ora, ele é onipresente: isso pressupõe a infinitude e a imensidão de seu ser, das quais decorre que sua presença está em toda parte. O céu e a terra abrangem toda a criação, e o Criador enche ambos (Jeremias 23:24).
Ele não apenas conhece e governa o céu e a terra, mas os enche. Cada parte da criação está sob a visão e a influência de Deus. Davi também reconhece isso aplicando-o a si mesmo: vê-se assim inteiramente exposto diante de Deus.
- Nenhuma fuga pode nos afastar da presença de Deus: “Para onde irei do teu Espírito, da tua presença, isto é, da tua presença espiritual, de ti mesmo, que és um Espírito?” Deus é um Espírito; por isso, é tolice pensar que, por não podermos vê-lo, ele não pode nos ver. “Para onde fugirei da tua presença?”
Não é que Davi desejasse afastar-se de Deus; não: nada desejava mais do que estar perto dele. Mas ele apenas apresenta uma hipótese: “Suponha que eu fosse tão insensato a ponto de pensar em sair de tua vista para me livrar da reverência a ti.”
“Suponha que eu pensasse em abandonar minha obediência a ti, negar minha dependência de ti e cuidar de mim mesmo; ai de mim, para onde poderia ir?” Um pagão pôde dizer: Quocunque te flexeris, ibi Deum videbis occurrentem tibi — “Para onde quer que te voltes, verás Deus vindo ao teu encontro”. Foi Sêneca.
Davi menciona os lugares mais remotos e distantes, certo de que neles encontraria Deus:
(1.) No céu: “Se eu subir até lá, como espero fazer em breve, tu estás ali, e estar contigo ali será minha felicidade eterna”. O céu é um lugar vasto e amplo, povoado por uma companhia inumerável; ainda assim, ninguém escapa aos olhos de Deus em canto algum nem no meio de multidão alguma.
Os habitantes daquele mundo dependem de Deus tão necessariamente quanto os deste e estão igualmente expostos a seu exame rigoroso.
(2.) No inferno, no Sheol, que pode ser entendido como as profundezas da terra, seu próprio centro. Se cavássemos o mais fundo possível e pensássemos nos esconder ali, estaríamos enganados. Deus conhece o caminho que o olho do abutre jamais viu, e, para ele, toda a terra é superfície.
Ou o Sheol pode ser entendido como o estado dos mortos. Quando saímos da vista de todos os vivos, ainda não saímos da vista do Deus vivo; não podemos nos esconder de seus olhos no sepulcro.
Ou pode ser entendido como o lugar dos condenados: “Se eu fizer minha cama no inferno” — um lugar desconfortável para fazê-la, onde não há descanso nem de dia nem de noite, e no entanto milhares farão para sempre sua cama nessas chamas —, “eis que tu estás ali, em teu poder e justiça”. A cólera de Deus é o fogo que ali arderá eternamente (Apocalipse 14:10).
(3.) Nos lugares mais remotos deste mundo: “Se eu tomar as asas da manhã, os raios da luz matutina, chamados asas do sol (Malaquias 4:2), mais velozes do que qualquer outra coisa, e sobre elas fugir até as partes mais distantes do mar ou da terra (Jó 38:12, 13).”
“Se eu fugisse para as ilhas mais longínquas e desconhecidas, a ultima Thule, a Terra incognita, eu te encontraria ali; ali tua mão me guiará por mais longe que eu vá, e tua mão direita me segurará para que eu não possa ir além nem escapar de teu alcance.” Deus logo deteve Jonas quando ele fugiu para Társis da presença do Senhor.
- Nenhum véu pode nos ocultar dos olhos de Deus, nem mesmo o da escuridão mais espessa (v. 11, 12). “Se eu disser: Ainda assim, as trevas me cobrirão, quando nada mais o fizer, ai de mim, vejo que estou enganado; as cortinas da noite de nada me valerão, assim como as asas da manhã não me valeram.”
“Até a noite será luz ao meu redor. Aquilo que muitas vezes favorece a fuga de um criminoso perseguido e a retirada de um exército derrotado não me ajudará a escapar dos olhos de Deus.”
Quando Deus separou a luz das trevas, reservou para si a prerrogativa de que ambas continuariam iguais aos seus olhos. “As trevas não escurecem para ti, pois não há trevas nem sombra de morte onde os que praticam a iniquidade possam se esconder.”
Nenhuma máscara ou disfarce hipócrita, por mais convincente que pareça, pode impedir que uma pessoa ou ação apareça sob sua verdadeira luz diante de Deus. Os esconderijos secretos do pecado estão tão expostos diante dele quanto as perversidades mais públicas e descaradas.
II. Porque ele é obra das mãos de Deus. Quem construiu um mecanismo conhece todos os seus movimentos. Deus nos fez e, portanto, sem dúvida nos conhece; ele nos viu enquanto éramos formados. Poderíamos ficar ocultos dele agora que estamos formados?
Davi insiste nessa razão (vv. 13-16): “Tu possuíste os meus rins; és Senhor dos meus pensamentos e intenções mais secretos e dos recantos mais profundos de minha alma. Não só os conheces, mas os governas, como fazemos com aquilo que possuímos.”
“E a posse que tens de meus rins é legítima, pois me cobriste no ventre de minha mãe, isto é, me fizeste (Jó 10:11), me fizeste em segredo. A alma está oculta de todos ao nosso redor. Quem conhece as coisas de um homem, senão o espírito de um homem?” (1 Coríntios 2:11).
Daí lermos sobre o homem oculto do coração. Foi o próprio Deus, porém, quem assim nos encobriu; portanto, quando quiser, ele pode nos descobrir. Ao nos esconder de todo o mundo, não pretendia nos esconder de si mesmo. Quanto à formação do homem, de cada um de nós:
- A glória por ela é dada aqui a Deus, inteiramente a ele, pois foi ele quem nos fez, e não nós mesmos. “Eu te louvarei, autor de meu ser; meus pais foram apenas instrumentos dele.” Isso aconteceu:
(1.) Sob a inspeção divina: “Minha substância, quando escondida no ventre — ou melhor, quando ainda estava in fieri, em formação, um embrião sem forma —, não estava oculta de ti; teus olhos viram minha substância.”
(2.) Pela operação divina. Assim como os olhos de Deus nos viram então, assim sua mão nos formou; éramos obra sua.
(3.) Segundo o modelo divino: “Em teu livro todos os meus membros foram escritos”. A sabedoria eterna traçou o plano, e, segundo esse plano, o poder onipotente ergueu a nobre estrutura.
- Coisas gloriosas são ditas aqui sobre essa formação. A geração do homem deve ser considerada com a mesma veneração piedosa que sua criação no princípio. Considere-a:
(1.) Como uma grande maravilha; poderíamos chamá-la de grande milagre, se não acontecesse no curso comum da natureza. Somos feitos de modo assombroso e maravilhoso; podemos com razão ficar admirados diante do projeto admirável desses templos vivos, da composição de cada parte e da harmonia do conjunto.
(2.) Como um grande mistério, um mistério da natureza. Minha alma sabe muito bem que é maravilhoso, mas não sei descrevê-lo a mais ninguém; pois fui feito em segredo e primorosamente tecido no ventre como nas partes mais baixas da terra, em tamanha privacidade e tão longe de qualquer olhar.
(3.) Como uma grande misericórdia: todos os nossos membros foram formados sucessivamente de acordo com o que estava escrito no livro do sábio conselho de Deus, quando ainda não existia nenhum deles. Ou, conforme outra leitura, nenhum deles foi deixado de fora.
Se algum de nossos membros faltasse no livro de Deus, faltaria também em nosso corpo. Mas, por sua bondade, temos todos os membros e sentidos; a falta de qualquer um deles poderia ter-nos tornado um peso para nós mesmos.
Veja, portanto, quantos motivos temos para louvar a Deus por nossa criação e para concluir que aquele que viu nossa substância quando ainda não tinha forma também a vê agora que está formada.
Versículos 17 a 24
A Onisciência de Deus.
Aqui o salmista aplica de diversas maneiras o ensino da onisciência de Deus.
I. Ele reconhece, com admiração e gratidão, o zelo que Deus teve por ele durante todos os seus dias (v. 17, 18). Deus, que o conhecia, pensava nele; seus pensamentos a respeito dele eram pensamentos de amor e de bem, não de mal (Jeremias 29:11).
A onisciência de Deus, que com justiça poderia ter vigiado sobre nós para nos fazer mal, foi empregada em nosso favor e vigiou sobre nós para nos fazer bem (Jeremias 31:28). Os conselhos de Deus a nosso respeito e em favor de nosso bem-estar têm sido:
- Preciosos a ponto de causar admiração: quão preciosos são! São profundos em si mesmos, impossíveis de sondar e compreender plenamente. A Providência teve um alcance imenso no que dispôs a nosso respeito e fez acontecer para nosso bem coisas muito além de nossos planos e de nossa capacidade de previsão.
Eles nos são caros; devemos pensar neles com muita reverência e, ao mesmo tempo, com prazer e gratidão. Nossos pensamentos sobre Deus devem ser mais agradáveis para nós do que quaisquer outros.
- Numerosos a ponto de causar admiração: “Quão grande é a soma deles!” Não podemos conceber quantos conselhos bondosos Deus teve a nosso respeito, quantos benefícios nos fez e que variedade de misericórdias recebemos dele.
Se quiséssemos contá-los, seus aspectos principais, quanto mais cada detalhe, seriam mais numerosos do que a areia; e ainda assim cada um é grande e muito importante (Salmos 40:5). Não podemos conceber a multidão das compaixões de Deus, todas novas a cada manhã.
- Constantes em todos os momentos: “Quando acordo, todas as manhãs, ainda estou contigo, sob teus olhos e teu zelo, seguro e tranquilo sob tua proteção.” Isso também revela a consciência devota e contínua que Davi tinha dos olhos de Deus sobre ele: “Quando acordo, estou contigo em meus pensamentos.”
Isso nos ajudaria a permanecer no temor do Senhor durante todo o dia se, ao acordarmos pela manhã, nossos primeiros pensamentos fossem sobre ele e então o puséssemos diante de nós.
II. Ele conclui desse ensino que a ruína será certamente o fim dos pecadores. Deus conhece toda a maldade dos ímpios e, por isso, lhes pedirá contas: “Certamente abaterás os ímpios, ó Deus! Pois toda a maldade deles está exposta diante de ti, por mais habilmente que a disfarcem e encubram para escondê-la dos olhos do mundo.”
“Embora permitas que prosperem por algum tempo, certamente os abaterás no fim.” Repare:
- O motivo pelo qual Deus os punirá: eles o afrontam ousadamente e o desafiam (v. 20). “Falam maldosamente contra ti”; “voltam sua boca contra os céus” (Salmos 73:9) e prestarão contas pelas “palavras duras” que proferiram contra ele (Judas 1:15).
São inimigos de Deus e manifestam sua inimizade ao tomar seu nome em vão, assim como demonstramos desprezo por alguém quando fazemos de seu nome um dito de zombaria e só o mencionamos em tom de piada e escárnio.
Aqueles que profanam as formas sagradas do juramento ou da oração, usando-as de modo inoportuno e irreverente, tomam o nome de Deus em vão e, com isso, mostram-se seus inimigos.
Alguns entendem que se trata de uma descrição dos hipócritas: “Falam de ti para causar dano; falam de Deus alegando piedade, mas com algum desígnio maligno, usando-a como capa para a malícia.”
“E, sendo inimigos de Deus, enquanto alegam amizade, tomam seu nome em vão; juram falsamente.”
- O uso que Davi faz da perspectiva que tem da ruína dos ímpios:
(1.) Ele os desafia: “Afastai-vos de mim, homens sanguinários; não me corrompereis, pois não aceitarei vossa amizade nem terei comunhão convosco. Tampouco podeis me destruir, pois, estando eu sob a proteção de Deus, ele vos obrigará a afastar-vos de mim.”
(2.) Ele os detesta (v. 21, 22): “Senhor, tu conheces o coração e podes testemunhar em meu favor: acaso não odeio os que te odeiam, e por esse motivo, porque te odeiam? Odeio-os porque te amo e odeio ver tamanhas afrontas e indignidades feitas a teu nome bendito.”
“Não sinto dor pelos que se levantam contra ti? Sinto dor ao ver sua rebelião e ao prever sua ruína, na qual ela certamente terminará.” Repare: o pecado é odiado e os pecadores são lamentados por todos os que temem a Deus.
“Eu os odeio”, isto é, “odeio a obra dos que se desviam”, como ele próprio explica em Salmos 101:3, “com ódio sincero e perfeito; considero os inimigos de Deus como meus inimigos e não terei intimidade alguma com eles” (Salmos 69:8).
III. Ele recorre a Deus a respeito de sua sinceridade (v. 23, 24):
- Deseja que, na medida em que esteja errado, Deus lhe revele isso. Os retos podem encontrar consolo na onisciência de Deus como testemunha de sua retidão e podem, com humilde confiança, pedir-lhe que os sonde e prove, revelando-os a si mesmos, pois um homem bom deseja conhecer o que há de pior em si, e revelando-os aos outros.
Quem tem intenções honestas poderia desejar ter uma janela no peito por onde qualquer pessoa pudesse olhar seu coração: “Senhor, espero não estar num caminho perverso; mas vê se há em mim algum caminho perverso, alguma inclinação corrupta que ainda permaneça; faze-me vê-la e arranca-a de mim, pois não consinto nela.”
- Deseja que, na medida em que esteja certo, possa ser levado adiante nesse caminho, algo que aquele que conhece o coração sabe fazer de modo eficaz: “Guia-me no caminho eterno.” Repare:
(1.) O caminho da piedade é um caminho eterno: é eternamente verdadeiro e bom, agradável a Deus e proveitoso para nós, e terminará na vida eterna. É o caminho da antiguidade, segundo alguns, o bom caminho antigo.
(2.) Todos os santos desejam ser guardados e guiados nesse caminho para não perdê-lo, desviar-se dele nem se cansar dele.