Matthew Henry

Salmos 133

Argumento

Este salmo é um breve elogio da unidade e do amor fraternal. Se não víssemos as misérias que a discórdia causa entre as pessoas, o consideraríamos desnecessário; mas não podemos dizer demais, e seria bom se pudéssemos dizer o suficiente para persuadir as pessoas a viverem juntas em paz.

Alguns supõem que Davi tenha escrito este salmo por ocasião da união das tribos, quando todas se reuniram de comum acordo para fazê-lo rei. É um salmo de utilidade geral para todas as comunidades, menores e maiores, civis e religiosas. Aqui está:

I. O ensino sobre a felicidade do amor fraternal (v. 1). II. A ilustração desse ensino por duas comparações (v. 2, 3). III. A prova dele, mediante uma boa razão apresentada em seu favor (v. 3). Depois, cabe a nós fazer a aplicação, como devemos fazer ao cantá-lo, estimulando a nós mesmos e uns aos outros ao amor santo.

O sumário deste salmo em nossas Bíblias é curto, mas muito apropriado: “o benefício da comunhão dos santos”.

Amor Fraternal.

Versículos 1 a 3

Cântico dos Degraus, de Davi.

Veja aqui:

I. O que é elogiado: os irmãos habitarem juntos em união. Isso não significa apenas que não tenham desavenças nem se devorem uns aos outros, mas que se alegrem uns com os outros, demonstrando afeto mútuo, e promovam o bem-estar uns dos outros por meio de serviços mútuos.

Às vezes, escolhe-se como melhor meio de preservar a paz que os irmãos morem separados e distantes uns dos outros. Isso pode, de fato, evitar a inimizade e a contenda (Gênesis 13:9). Mas a bondade e o prazer estão em os irmãos habitarem juntos e, desse modo, em união: habitarem como se fossem um só, segundo a leitura de alguns, tendo um coração, uma alma e um interesse.

Davi teve muitos filhos de muitas esposas. Provavelmente escreveu este salmo para instruí-los e levá-los a amar uns aos outros; se o tivessem feito, muitos dos danos surgidos em sua família teriam sido felizmente evitados.

Durante o governo dos juízes, as tribos de Israel por muito tempo tiveram interesses separados, muitas vezes com más consequências. Mas agora que estavam unidas sob um chefe comum, Davi queria que percebessem quanto isso provavelmente lhes seria proveitoso, sobretudo porque a arca estava fixada e, com ela, o lugar de reunião para o culto público e o centro de sua unidade. Agora, que vivam em amor.

II. Como isso é digno de elogio: “Eis quão bom e quão agradável é!” É bom em si, conforme à vontade de Deus; é a conformidade da terra com o céu. É bom para nós, para nossa honra e nosso conforto. É agradável e aprazível a Deus e a todos os homens bons; traz alegria constante aos que assim vivem em união.

“Eis quão bom!” Não podemos conceber nem expressar sua bondade e seu prazer. Vejam: é algo raro e, portanto, admirável. Vejam e admirem que possa haver tanta bondade e prazer entre as pessoas, tanto do céu nesta terra! Vejam: é algo amável, que atrairá nosso coração. Vejam: é algo exemplar que, onde quer que exista, devemos imitar com santa emulação.

III. Como se ilustra o prazer dessa união:

  1. Ela é perfumada como o óleo santo da unção, de perfume intenso, que espalhava seu aroma para grande alegria de todos os presentes quando era derramado sobre a cabeça de Arão ou de seu sucessor, o sumo sacerdote. Era derramado em tamanha abundância que escorria pelo rosto até a gola ou a borda da veste (v. 2).

(1.) Esse óleo era santo. Assim também deve ser nosso amor fraternal: de coração puro e dedicado a Deus. Por causa daquele que gerou, devemos amar os que foram gerados (1 João 5:1).

(2.) Esse óleo era uma composição preparada segundo uma fórmula divina; Deus designou os ingredientes e as quantidades. Da mesma forma, aos fiéis é ensinado por Deus que amem uns aos outros; esse amor é uma graça que ele produz em nós.

(3.) Era muito precioso, e não se podia preparar outro semelhante para uso comum. Assim também o amor santo é de grande valor aos olhos de Deus; e aquilo que é precioso aos olhos dele é de fato precioso.

(4.) Era agradável tanto ao próprio Arão quanto a todos os que estavam ao seu redor. Assim é o amor santo: ele é como óleo e perfume que alegram o coração. O amor de Cristo pela humanidade fazia parte daquele óleo de alegria com o qual ele foi ungido acima de seus companheiros.

(5.) Arão e seus filhos não eram admitidos a servir ao Senhor antes de serem ungidos com esse óleo. Tampouco nossos serviços são aceitáveis a Deus sem esse amor santo; se não o temos, nada somos (1 Coríntios 13:1, 2).

  1. Ela faz frutificar. É proveitosa, assim como agradável; é como o orvalho e traz consigo abundância de bênçãos, tão numerosas quanto suas gotas. Refresca o calor ardente das paixões humanas, assim como o orvalho da tarde refresca o ar e renova a terra.

Contribui muito para que frutifiquemos em tudo o que é bom; umedece o coração e o torna sensível e apto a receber a boa semente da palavra. A malícia e a amargura, pelo contrário, nos tornam incapazes de recebê-la (1 Pedro 2:1).

É como o orvalho de Hermom, um monte comum, pois o amor fraternal é a beleza e o benefício das comunidades civis. E é como o orvalho que desceu sobre os montes de Sião, um monte santo, pois contribui muito para que as comunidades religiosas frutifiquem. Tanto Hermom quanto Sião murcharão sem esse orvalho.

Diz-se do orvalho que ele “não espera pelo homem nem aguarda os filhos dos homens” (Miquéias 5:7). Da mesma forma, nosso amor pelos irmãos não deve esperar pelo amor deles por nós, pois isso é amor de publicano; deve precedê-lo, pois isso é amor divino.

IV. A prova da excelência do amor fraternal. As pessoas que amam são pessoas abençoadas. Pois:

  1. São abençoadas por Deus e, por isso, de fato abençoadas. Ali, onde os irmãos habitam juntos em união, o Senhor ordena a bênção, uma bênção múltipla que inclui todas as bênçãos. Ordenar a bênção é prerrogativa de Deus; o homem só pode pedi-la.

As bênçãos que vêm conforme a promessa são bênçãos ordenadas, pois ele ordenou sua aliança para sempre. As bênçãos que produzem efeito são bênçãos ordenadas, pois ele fala e isso se cumpre.

  1. São abençoadas para sempre. A bênção que Deus ordena sobre os que vivem em amor é a vida para sempre; essa é a bênção das bênçãos. Os que habitam em amor não apenas habitam em Deus, mas já habitam no céu.

Assim como a perfeição do amor é a bem-aventurança do céu, assim a sinceridade do amor é o penhor dessa bem-aventurança. Os que vivem em amor e paz terão o Deus do amor e da paz com eles agora e logo estarão com ele, com ele para sempre, no mundo de amor e paz sem fim. Como isso é bom, então, e como é agradável!


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