Salmos 131
Argumento
Este salmo é a declaração de humildade de Davi, feita humildemente, com gratidão a Deus por sua graça, e não por vanglória. É bem provável que, como sugere a maioria dos intérpretes, Davi tenha feito essa declaração em resposta às calúnias de Saul e dos homens de sua corte.
Eles apresentavam Davi como um homem ambicioso, que aspirava a subir e que, sob a alegação de uma designação divina, buscava o reino por causa do orgulho de seu coração.
Mas Davi recorre a Deus para atestar o contrário: I. Não almejava nada elevado nem grandioso (v. 1). II. Estava muito satisfeito em cada condição que Deus lhe destinava (v. 2). III. Por isso, anima todas as pessoas boas a confiar em Deus como ele confiou (v. 3).
Alguns fizeram uma objeção ao canto dos salmos de Davi: há muitos que não podem dizer “Meu coração não é altivo”, etc. É verdade que há.
Mas podemos cantá-lo com o mesmo propósito com que o lemos: ensinar e advertir a nós mesmos e uns aos outros acerca do que devemos ser, com arrependimento por não termos chegado a ser assim e com humilde oração a Deus para que sua graça nos torne assim.
Confiança Humilde.
Versículos 1 a 3
Cântico dos Degraus, de Davi.
Aqui há duas coisas que nos trarão consolo:
I. A consciência de nossa integridade. Era esta a alegria de Davi: seu coração podia testemunhar a seu favor que ele andava humildemente com seu Deus, apesar das censuras que sofria e das tentações a que estava sujeito.
- Ele não almejava uma posição elevada nem desejava tornar-se uma figura de destaque no mundo. Se Deus assim tivesse ordenado, poderia ter ficado bem satisfeito em passar todos os seus dias, como passara os primeiros, nos apriscos das ovelhas.
Seu próprio irmão, tomado pela ira, acusou-o de orgulho (1 Samuel 17:28), mas a acusação era infundada e injusta. Deus, que sonda o coração, sabia:
(1.) Que Davi não tinha uma opinião presunçosa de si mesmo nem de seus próprios méritos: “Senhor, meu coração não é altivo”. Os santos humildes não podem pensar tão bem de si mesmos quanto os outros pensam deles; não estão apaixonados pela própria sombra nem engrandecem suas realizações ou conquistas. O amor de Deus, quando reina no coração, subjuga todo amor desordenado de si mesmo.
(2.) Que ele não tinha um olhar desdenhoso nem ambicioso: “Meus olhos não são altivos, seja para olhar com inveja os que estão acima de mim, seja para olhar com desprezo os que estão abaixo de mim”. Onde há um coração orgulhoso, geralmente há também um olhar orgulhoso (Provérbios 6:17); o publicano humilde, porém, nem sequer levanta os olhos.
(3.) Que ele não se ocupava de coisas acima de sua posição, de coisas grandes ou elevadas demais para ele. Não se dedicava a estudos elevados demais: fazia da palavra de Deus sua meditação e não se distraía com especulações sutis ou debates incertos, nem cobiçava ser sábio além do que está escrito. Conhecer a Deus e nosso dever é conhecimento suficientemente elevado para nós.
Não se ocupava de assuntos grandes demais: cuidava de suas ovelhas e nunca se apresentou como político; não, nem mesmo como soldado. Quando seus irmãos foram à guerra, ele ficou em casa para guardar as ovelhas.
É sabedoria nossa, e será motivo de louvor para nós, permanecer em nossa esfera, não nos intrometer em coisas que não vimos nem nos meter naquilo que não nos diz respeito.
Príncipes e estudiosos não devem ocupar-se de assuntos grandes e elevados demais para os homens; e os que têm posição humilde e capacidades comuns não devem alegar aptidão para aquilo que está fora de seu alcance e para o qual não foram feitos. Sofrerão a devida vergonha os que buscam honras indevidas.
- Ele estava bem conformado com cada condição em que Deus o colocava (v. 2): “Tenho-me portado e aquietado como criança desmamada de sua mãe”. Assim como não havia buscado orgulhosamente o reino, depois que Deus o designou para ele Davi não se comportou com insolência para com ninguém nem ficou inquieto em suas tentativas de obter a coroa antes do tempo determinado. Pelo contrário:
(1.) Tinha sido tão humilde quanto uma criança pequena na idade do desmame, igualmente dócil e governável e igualmente distante da ambição por coisas elevadas. Estava tão inteiramente à disposição de Deus quanto a criança está à disposição da mãe ou da ama.
Embora ungido para ser rei, estava tão longe de ostentar sua posição ou de se valorizar pela perspectiva de sua futura elevação quanto uma criança nos braços. Nosso Salvador nos ensinou a humildade por essa comparação (Mateus 18:3): devemos nos tornar como crianças pequenas.
(2.) Era tão indiferente à riqueza e à honra deste mundo quanto uma criança fica indiferente ao seio depois de completamente desmamada. “Rebaixei-me e aquietei-me como criança desmamada”: assim o doutor Hammond lê a passagem.
Isso sugere que nosso coração deseja naturalmente as coisas do mundo tanto quanto a criancinha deseja o seio: da mesma forma, saboreia essas coisas, chora por elas, afeiçoa-se a elas, brinca com elas e não consegue viver sem elas. Mas, pela graça de Deus, a alma santificada é desmamada dessas coisas.
A Providência põe losna no seio, e isso ajuda a nos desmamar. A criança talvez fique contrariada e inquieta durante o desmame e pense estar arruinada por ter perdido o seio. Mas, em um ou dois dias, ela se esquece dele; a inquietação passa, e ela se adapta bem a uma nova forma de alimentação. Já não se importa com o leite e consegue suportar alimento sólido.
Assim a alma agraciada se aquieta diante da perda do que amava e da frustração do que esperava. Fica em paz, aconteça o que acontecer; vive, e vive confortavelmente, de Deus e da graça da aliança quando as criaturas se mostram seios sem leite.
Quando nossa condição não corresponde ao que temos em mente, devemos ajustar nossa mente à nossa condição. Então ficamos em paz conosco e com todos ao nosso redor; então nossa alma é como uma criança desmamada.
II. A confiança em Deus. Davi a recomenda a todo o Israel de Deus, sem dúvida por experiência própria do benefício que ela traz (v. 3): “Espere Israel no Senhor”, e continuem a fazê-lo desde agora e para sempre.
Embora o próprio Davi pudesse esperar com paciência e tranquilidade pela coroa que lhe fora destinada, ainda assim, talvez Israel, o povo para quem ele era tão querido, estivesse pronto para tentar fazer algo em favor dele antes do tempo.
Por isso, ele procura aquietar também o povo e lhes ordena que esperem no Senhor, pois veriam uma mudança feliz no curso dos acontecimentos no tempo devido. Assim, é bom ter esperança e esperar em silêncio pela salvação do Senhor.