Matthew Henry

Salmos 128

Argumento

Este, como o salmo anterior, é um salmo para as famílias. Naquele, nos foi ensinado que a prosperidade de nossas famílias depende da bênção de Deus; neste, nos é ensinado que o único caminho para obter a bênção que fará nossas famílias viverem com conforto é viver no temor de Deus e em obediência a ele.

Os que assim vivem serão abençoados de modo geral (v. 1, 2, 4). Em particular: I. Serão prósperos e bem-sucedidos em suas ocupações (v. 2). II. Suas relações familiares serão agradáveis (v. 3). III. Viverão para ver suas famílias crescerem (v. 6). IV. Terão a satisfação de ver a igreja de Deus em condição florescente (v. 5, 6).

Devemos cantar este salmo com a firme convicção desta verdade: a religião e a piedade são as melhores amigas da prosperidade exterior. Devemos louvar a Deus porque assim é e porque constatamos que assim é, e animar a nós mesmos e aos outros com essa verdade.

A Bem-Aventurança dos Piedosos.

Versículos 1 a 6

Cântico dos Degraus.

Mostra-se aqui que a piedade tem a promessa da vida presente e da vida futura.

I. Aqui se estabelece repetidas vezes, como verdade indubitável, que os que são na verdade santos são na verdade felizes. Aqueles cuja condição bem-aventurada nos é assegurada aqui são os que temem o Senhor e andam em seus caminhos: têm profunda reverência por Deus no espírito e a demonstram pela conformidade regular e constante à vontade dele.

Onde o temor de Deus é um princípio que governa o coração, o curso da conduta corresponderá a ele. É inútil alegarmos ser dos que temem a Deus se não fizermos questão tanto de permanecer em seus caminhos quanto de não tratá-los com leviandade nem retroceder. Esses são bem-aventurados (v. 1) e serão bem-aventurados (v. 4).

Deus os abençoa, e o fato de ele os declarar bem-aventurados os torna assim. São bem-aventurados agora, serão bem-aventurados continuamente e o serão para sempre. Essa bem-aventurança, proveniente dessa bênção, é aqui assegurada:

  1. A todos os santos, sem exceção: “Bem-aventurado todo aquele que teme o Senhor”, seja quem for. Em toda nação, quem teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele e, portanto, é bem-aventurado, quer seja de posição elevada ou humilde, rico ou pobre neste mundo. Se a religião o governar, ela o protegerá e enriquecerá.

  2. A um santo em particular: “Assim será abençoado o homem”; não apenas a nação e a igreja em sua condição pública, mas também cada pessoa em seus interesses particulares.

  3. Somos animados a aplicar isso a nós mesmos (v. 2): “Feliz serás; poderás receber o consolo da promessa e esperar seu benefício, como se ela fosse dirigida a ti pelo nome, se temeres a Deus e andares em seus caminhos.”

“Feliz serás, isto é, ficarás bem; aconteça o que te acontecer, o bem será extraído disso. Ficarás bem enquanto viveres, melhor quando morreres e, na eternidade, na melhor condição de todas.”

Isso é afirmado (v. 4) com uma palavra que exige atenção: “Eis que assim será abençoado o homem”. Contemple isso pela fé na promessa; contemple pela observação do cumprimento da promessa; contemple com a certeza de que assim será, pois Deus é fiel, e com admiração de que assim seja, pois não merecemos dele favor nem bênção alguma.

II. Aqui são feitas promessas específicas aos piedosos, das quais podem depender na medida em que servem à glória de Deus e ao bem deles; e isso é suficiente.

  1. Que, pela bênção de Deus, obterão um sustento honesto e viverão confortavelmente com ele. Não se promete que viverão à vontade, sem preocupações ou esforços, mas: “Comerás do trabalho de tuas mãos”. Aqui há uma dupla promessa:

(1.) Que terão algo a fazer, pois uma vida ociosa é miserável e desconfortável. Terão saúde, força e capacidade mental para fazê-lo e não serão obrigados a depender de outros para o alimento necessário, vivendo, como os pobres incapacitados, do trabalho alheio.

Trabalhar com tranquilidade e comer nosso próprio pão é tanto uma misericórdia quanto um dever (2 Tessalonicenses 3:12).

(2.) Que terão êxito em suas ocupações e que eles e os seus desfrutarão do que ganharem. Outros não virão comer o pão de sua boca, nem ele lhes será tomado ou por governantes opressores ou por inimigos invasores.

Deus não arruinará o fruto de seu trabalho nem soprará sobre ele, como fez em Ageu 1:9; e sua bênção fará o pouco render muito. É muito agradável desfrutar dos frutos do próprio esforço; assim como o sono, também a comida do trabalhador é doce.

  1. Que terão muito conforto nas relações familiares. Assim como a esposa e os filhos exigem grande zelo de um homem, assim, se pela graça de Deus forem como devem ser, lhe darão grande prazer, tanto quanto qualquer conforto vindo das criaturas.

(1.) A esposa será como uma videira junto aos lados da casa. Não só como uma videira que se espalha e serve de ornamento, mas também como uma videira frutífera que traz proveito, e cujo fruto honra tanto a Deus quanto aos homens (Juízes 9:13).

A videira é uma planta fraca e delicada, que precisa ser apoiada e acarinhada, mas é muito valiosa. Alguns pensam que, como todos os seus produtos eram proibidos aos nazireus, ela era a própria árvore do conhecimento.

O lugar da esposa é a casa do marido; ali estão os afazeres dela, e aquela é seu castelo. “Onde está Sara, tua esposa? Eis que está na tenda”; onde mais deveria estar? Seu lugar é aos lados da casa, não debaixo dos pés para ser pisoteada, nem sobre o telhado para dominar.

Se estiver sobre o telhado, não será mais do que a erva do telhado mencionada no salmo seguinte. Seu lugar é ao lado da casa, pois ela é uma costela tirada do lado do homem. Será uma esposa afetuosa, como a videira que se prende à lateral da casa; uma esposa obediente, como a videira flexível, que cresce na direção em que é conduzida.

Será frutífera como a videira, não só em filhos, mas nos frutos da sabedoria, da justiça e da boa administração, cujos ramos passam por cima do muro (Gênesis 49:22; Salmos 80:11). Será como uma videira frutífera que não ocupa inutilmente a terra, nem produz uvas azedas ou uvas de Sodoma, mas bons frutos.

(2.) Os filhos serão como mudas de oliveira, com a perspectiva de, com o tempo, se tornarem oliveiras. Embora sejam silvestres por natureza, ainda assim serão enxertados na boa oliveira e participarão de sua raiz e gordura (Romanos 11:17).

É agradável aos pais que têm a mesa posta, ainda que com comida comum, ver seus filhos ao redor dela: ter muitos filhos, suficientes para cercá-la, e tê-los junto de si, sem que estejam dispersos ou que os pais sejam forçados a se afastar deles. Jó menciona como um dos primeiros sinais de sua antiga prosperidade que seus filhos estavam ao seu redor (Jó 29:5).

Os pais gostam de ter os filhos à mesa para manter agradável a conversa durante a refeição; gostam de vê-los saudáveis, pedindo comida, não remédios. Gostam de vê-los como mudas de oliveira, eretas e verdes, absorvendo a seiva de sua boa educação e com a perspectiva de serem úteis no tempo devido.

  1. Que terão aquilo que Deus prometeu e pelo que oram: “O Senhor te abençoará desde Sião”, onde estava a arca da aliança e onde os israelitas piedosos compareciam com suas devoções. As bênçãos vindas de Sião são as melhores bênçãos, pois procedem não da providência comum, mas da graça especial (Salmos 20:2).

  2. Que viverão muito para desfrutar os confortos das gerações que surgirem: “Verás os filhos de teus filhos, como José (Gênesis 50:23). Tua família será edificada e continuará, e terás a alegria de vê-la.” Os filhos dos filhos, se forem bons filhos, são a coroa dos idosos (Provérbios 17:6), que tendem a ter muito carinho pelos netos.

  3. Que verão o bem-estar da igreja de Deus e da terra de seu nascimento, com os quais todo homem que teme a Deus se preocupa tanto quanto com a prosperidade de sua própria família.

“Serás abençoado com a bênção de Sião e assim te considerarás. Verás o bem de Jerusalém enquanto viveres, ainda que vivas muito, e teus confortos particulares não serão diminuídos nem amargurados por transtornos públicos.”

Um homem bom pouco consolo pode ter em ver os filhos de seus filhos se, ao mesmo tempo, não vir paz sobre Israel nem tiver a esperança de transmitir aos que vierem depois dele, como legado, a religião pura e íntegra, pois essa é a melhor herança.


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