Salmos 125
Argumento
Este breve salmo pode ser resumido naquelas palavras do profeta (Isaías 3:10, 11): “Digam ao justo: Ele ficará bem. Ai do ímpio! Ele ficará mal”. Assim, a vida e a morte, a bênção e a maldição, muitas vezes são postas diante de nós nos salmos, assim como na lei e nos profetas.
I. Certamente o povo de Deus está bem, pois:
Eles têm as promessas de um Deus bom de que serão firmes (v. 1) e seguros (v. 2), e de que nem sempre permanecerão subjugados, v. 3.
Eles têm as orações de um homem bom, que serão ouvidas em favor deles, v. 4.
II. Certamente os ímpios estão mal, particularmente com os apóstatas, v. 5. Alguns dos rabinos judeus opinam que este salmo se refere aos dias do Messias.
Contudo, nós, membros da igreja do evangelho, podemos certamente, ao cantar este salmo, tirar consolo dessas promessas, e tanto mais se tremermos diante da ameaça.
A Segurança do Povo de Deus.
Versículos 1 a 3
Cântico dos Degraus.
Aqui estão três promessas muito preciosas feitas ao povo de Deus. Embora tenham o desígnio de assegurar o bem-estar da igreja em geral, os crentes individualmente podem aplicá-las a si mesmos, como podem fazer com outras promessas dessa natureza. Aqui está:
I. O caráter do povo de Deus, a quem pertencem estas promessas:
Muitos se dizem povo de Deus sem ter parte nem quinhão neste assunto. Mas se beneficiarão dessas promessas e poderão tirar consolo delas (1.) os que são justos (v. 3): justos diante de Deus, justos para com Deus e justos para com todos os homens, por amor dele, justificados e santificados.
(2.) Os que confiam no Senhor, que dependem de seu zelo e se dedicam à sua honra. Todos os que tratam com Deus devem tratar com ele com base na confiança; ele dará consolo somente aos que lhe dão crédito e mostram que o fazem ao abandonar outras confianças e arriscar-se ao máximo por Deus.
Quanto mais nossas expectativas se restringirem a Deus, mais altas poderão ser as expectativas que temos dele.
II. As próprias promessas:
- Que seus corações serão estabelecidos pela fé: as mentes que se mantêm firmes em Deus serão na verdade firmes: “Serão como o monte Sião”. A igreja em geral é chamada “monte Sião” (Hebreus 12:22) e, nesse aspecto, será como o monte Sião: será edificada sobre uma rocha.
Seus interesses estarão tão bem protegidos que as portas do inferno não prevalecerão contra ela. A estabilidade da igreja é a satisfação de todos os que lhe desejam o bem. Pessoas em particular, que confiam em Deus, serão estabelecidas (Salmos 112:7); sua fé será sua firmeza (Isaías 7:9).
Serão como o monte Sião, firme por ser um monte sustentado pela providência, e muito mais por ser um monte santo sustentado pela promessa.
(1.) Não podem ser afastados pelo príncipe do poder do ar, nem por toda a sua astúcia e força. Não podem ser afastados de sua integridade nem de sua confiança em Deus.
(2.) Permanecem para sempre na graça que é o penhor de sua permanência eterna na glória.
- Que, entregando-se a Deus, estarão seguros sob sua proteção contra todos os ataques de seus inimigos, assim como Jerusalém tinha uma posição naturalmente segura e uma fortificação nas montanhas ao seu redor, v. 2.
Essas montanhas não apenas a abrigavam dos ventos e tempestades e quebravam a força deles, mas também tornavam muito difícil o acesso dos inimigos; tal defesa é a providência de Deus para seu povo. Observe:
(1.) A abrangência dessa defesa: O Senhor está ao redor de seu povo por todos os lados. Não há brecha na cerca de proteção que ele faz ao redor de seu povo pela qual o inimigo, que anda em torno deles procurando causar-lhes dano, possa entrar (Jó 1:10).
(2.) Sua duração: “De agora em diante, até para sempre”. As montanhas podem esfarelar-se e desaparecer, e as rochas ser removidas de seu lugar (Jó 14:18), mas a aliança de Deus com seu povo não pode ser quebrada (Isaías 54:10), nem seu zelo por eles cessar.
O fato de se dizer que permanecerão firmes para sempre (v. 1) e, aqui, que Deus estará ao redor deles para sempre indica que as promessas de estabilidade e segurança do povo de Deus se cumprirão plenamente em seu estado eterno.
No céu permanecerão firmes para sempre, serão como colunas no templo de nosso Deus e nunca mais sairão (Apocalipse 3:12); e ali o próprio Deus, com sua glória e favor, estará ao redor deles para sempre.
- Que seus transtornos não durarão além do tempo em que suas forças os sustentarem sob eles, v. 3:
(1.) Supõe-se que a vara dos ímpios possa vir e cair sobre a porção dos justos. A vara de seu poder pode oprimi-los; a vara de sua ira pode vexá-los e atormentá-los. Pode cair sobre suas pessoas, bens, liberdades, famílias, reputações e qualquer outra coisa que lhes caiba como porção; só não pode alcançar suas almas.
(2.) Promete-se que, embora possa cair sobre sua porção, não permanecerá ali; não durará pelo tempo que os inimigos têm o desígnio de fazê-la durar e que o povo de Deus teme, pois Deus abreviará a obra em justiça, tão breve que, mesmo com a tentação, lhes dará um meio de escapar.
(3.) Considera-se como motivo dessa promessa que, se o transtorno durasse tempo demais, os próprios justos seriam tentados a estender as mãos à iniquidade, juntar-se aos ímpios em suas práticas perversas, dizer o que dizem e fazer o que fazem.
Há o perigo de que, perseguidos por muito tempo por sua religião, acabem cansando-se dela e desejando abandoná-la; e de que, mantidos por muito tempo na expectativa das misericórdias prometidas, comecem a desconfiar da promessa e pensem em abandonar a Deus, suspeitando que ele os abandonou. Veja Salmos 73:13, 14.
Repare: Deus considera a constituição de seu povo e, pelo zelo de sua providência, ajustará suas provações às suas forças, assim como, pelo poder de sua graça, ajustará suas forças às suas provações.
A opressão enlouquece o homem sábio, especialmente se durar muito; por isso, por causa dos eleitos, os dias serão abreviados, para que, aconteça o que acontecer com sua porção neste mundo, não percam sua porção entre os escolhidos.
Versículos 4 a 5
A Segurança do Povo de Deus.
Aqui está:
- A oração que o salmista faz pela felicidade dos que são sinceros e constantes (v. 4): “Faze o bem, ó Senhor, aos que são bons”. Isso nos ensina a orar por todas as pessoas boas e a fazer súplicas por todos os santos; podemos orar em favor deles com fé, certos de que os que fazem o bem certamente serão bem tratados.
Os que são como deveriam ser serão como gostariam de ser, contanto que sejam retos de coração, que sejam realmente tão bons quanto parecem. Com os retos, Deus se mostrará reto. Ele não diz: “Faze o bem, ó Senhor, aos que são perfeitos, sem pecado e sem mácula”, mas aos que são sinceros e honestos.
As promessas de Deus devem avivar nossas orações. É consolador desejar o bem àqueles em favor de quem Deus se comprometeu a agir bem.
- A perspectiva que tem da ruína dos hipócritas e dos desertores; ele não ora por ela (“Não desejei o dia calamitoso, tu o sabes”), mas a prediz:
Quanto aos que, tendo conhecido o caminho da justiça, por medo da vara dos ímpios se desviam vilmente dele para seus caminhos perversos e usam meios indiretos para evitar o transtorno ou livrar-se dele; ou aos que, em vez de se corrigirem, ficam cada vez piores e mais obstinados e ousados em suas impiedades:
Deus os mandará embora, os expulsará e os conduzirá para fora com os praticantes da iniquidade; isto é, lhes designará sua porção entre os piores pecadores. Repare:
(1.) Os caminhos pecaminosos são caminhos tortuosos; o pecado é a perversão do que é reto.
(2.) A condenação dos que se desviam do caminho reto para esses caminhos tortuosos será a mesma dos que sempre andaram neles; ou melhor, será mais penosa, pois, se algum lugar do inferno for mais quente do que outro, essa será a porção dos hipócritas e apóstatas.
Deus os conduzirá para fora, como presos são conduzidos à execução. Vão, malditos, para o fogo eterno; e estes irão embora; toda a justiça que antes praticaram não lhes será lembrada.
As últimas palavras, “Paz sobre Israel”, podem ser entendidas como oração: “Deus preserve seu Israel em paz quando seus juízos estiverem em ação, ajustando contas com os malfeitores”. Nós as lemos como promessa: “Haverá paz sobre Israel”; isto é:
[1.] Quando os que abandonaram traiçoeiramente os caminhos de Deus encontrarem sua própria destruição, os que permanecem fiéis a eles, embora possam enfrentar transtornos em seu caminho, terão paz no fim.
[2.] A destruição dos que andam por caminhos tortuosos contribuirá para a paz e a segurança da igreja. Quando Herodes foi eliminado, a palavra de Deus cresceu (Atos 12:23, 24).
[3.] A paz e a felicidade do Israel de Deus serão motivo de vexação e aumentarão muito o tormento dos que perecem em sua maldade (Lucas 13:28; Isaías 65:13). “Meus servos se alegrarão, mas vós ficareis envergonhados.”