Salmos 119
Argumento
Este salmo forma uma categoria à parte, sem igual entre os demais; supera todos eles e brilha com maior intensidade nesta constelação. É muito mais longo do que qualquer outro, mais de duas vezes maior que qualquer um deles.
Cristo não censura as orações longas, mas o fato de serem feitas como pretexto, o que indica que, em si mesmas, são boas e louváveis.
Parece-me uma coletânea das breves orações piedosas e devotas de Davi, dos breves e súbitos suspiros e elevações de sua alma a Deus. Ele os anotava à medida que lhe ocorriam e, perto do fim da vida, recolheu-os do diário onde estavam dispersos, acrescentou muitas palavras semelhantes e os organizou neste salmo.
Nele raramente há ligação entre um versículo e outro; como os provérbios de Salomão, é um cofre de anéis de ouro, não uma corrente de elos de ouro.
Pelo exemplo do salmista, podemos aprender a nos habituar a essas breves orações piedosas, excelente meio de manter comunhão constante com Deus e manter o coração disposto para os exercícios mais solenes da religião. Mas devemos também usar as palavras do salmista para estimular e expressar nossos sentimentos devotos.
É verdade o que alguns disseram deste salmo: “Quem o ler com atenção será aquecido ou envergonhado por ele”.
Sua composição é singular e muito exata. Divide-se em vinte e duas partes, correspondentes às letras do alfabeto hebraico, e cada parte tem oito versículos. Todos os versículos da primeira começam com Aleph, todos os da segunda com Beth, e assim por diante, sem falha em todo o salmo.
Segundo o arcebispo Tillotson, parece haver nele mais habilidade e métrica poética do que podemos compreender com facilidade a esta distância. Alguns o chamaram de alfabeto dos santos; seria desejável que estivesse tão pronto em nossa memória quanto as letras do próprio alfabeto, tão pronto quanto nosso ABC.
Talvez o autor tenha achado útil para si seguir esse método: ele o obrigava a procurar ideias e a buscá-las até preencher a cota de cada parte. A letra inicial podia conduzi-lo a uma palavra que lhe sugerisse uma boa frase; mesmo tudo isso mal bastava para fazer brotar algo bom no solo estéril de nosso coração.
De todo modo, seria útil para os aprendizes, ajudando-os tanto a decorá-lo quanto a recordá-lo quando necessário: a letra lhes traria a primeira palavra, e esta lhes traria o versículo inteiro. Assim, os jovens o aprenderiam mais facilmente de cor e o conservariam melhor até na velhice.
Se alguém o censurar como infantil e trivial, porque os acrósticos saíram completamente de moda, saiba que o salmista real despreza essa censura. Ele ensina as criancinhas e, se esse método lhes for benéfico, pode facilmente se rebaixar a empregá-lo; se isso for considerado vil, ele será ainda mais vil.
II. O alcance e o desígnio geral deste salmo são engrandecer a lei e torná-la honrosa, expor a excelência e a utilidade da revelação divina e recomendá-la a nós, não só para nosso deleite, mas também para governar nossa vida.
O próprio salmista serve de exemplo: fala por experiência do benefício da revelação e das boas impressões que ela lhe causou. Por isso louva a Deus e ora fervorosamente, do começo ao fim, para que sua graça continue com ele, dirigindo-o e vivificando-o no caminho do dever.
Neste salmo, a revelação divina recebe dez nomes diferentes, sinônimos que exprimem, cada um, toda a sua extensão — tanto o que nos diz que Deus espera de nós quanto o que nos diz que podemos esperar dele — e o sistema de religião que nela se fundamenta e por ela se orienta.
As coisas contidas nas Escrituras e delas extraídas são aqui chamadas: 1. Lei de Deus, porque ele as promulgou como nosso Soberano. 2. Seu caminho, porque são a regra tanto de sua providência quanto de nossa obediência. 3. Seus testemunhos, porque são declarados solenemente ao mundo e atestados de modo incontestável.
Seus mandamentos, porque são dados com autoridade e, como a palavra indica, confiados a nós como um encargo. 5. Seus preceitos, porque nos são prescritos e não deixados à nossa escolha. 6. Sua palavra, ou dito, porque declara o que ele pensa, e Cristo, a Palavra essencial e eterna, é tudo em tudo nela.
Seus juízos, porque foram formulados com sabedoria infinita e porque por eles devemos tanto julgar quanto ser julgados. 8. Sua justiça, porque é inteiramente santa, justa e boa, e a regra e o padrão da justiça. 9. Seus estatutos, porque são fixos e definidos, e obrigam perpetuamente.
Sua verdade, ou fidelidade, porque os princípios sobre os quais a lei divina está edificada são verdades eternas.
Penso que há apenas um versículo em todo este longo salmo (v. 122) em que não aparece um ou outro desses dez termos. Apenas em três ou quatro versículos são usados a respeito da providência de Deus ou da conduta de Davi (como nos v. 75, 84, 121); e no v. 132 são chamados de nome de Deus.
O grande apreço e afeto de Davi pela palavra de Deus são ainda mais admiráveis quando se considera quão pouco dela possuía em comparação conosco: talvez não tivesse por escrito mais que os primeiros livros de Moisés. Eram apenas a aurora deste dia, o que pode envergonhar a nós, que desfrutamos da plena revelação divina e, contudo, somos tão frios para com ela.
Ao cantar este salmo, todos os sentimentos devotos de uma alma santificada têm espaço para se expressar, tão abundante e variado é o assunto.
Encontramos aqui motivos para dar glória a Deus tanto como nosso governante quanto como nosso grande benfeitor; para ensinar e advertir a nós mesmos e uns aos outros, tantas são as instruções sobre a vida religiosa; e para nos consolar e animar mutuamente, tantas são as doces experiências de quem viveu essa vida.
Há aqui algo que se aplica à situação de cada cristão. Há alguém aflito? Há alguém alegre? Cada um encontrará aqui o que lhe convém.
Longe de ser uma repetição cansativa da mesma coisa, como pode parecer a quem o percorre depressa, este salmo, quando nele meditamos devidamente, revela em quase todo versículo uma ideia nova e algo muito vivo.
Como muitos outros salmos de Davi, ensina-nos a ser concisos e expressivos em nossas devoções, tanto a sós quanto na companhia de outros. Em geral, os sentimentos, sobretudo dos cristãos mais fracos, são mais facilmente despertados e mantidos por expressões breves, de sentido compacto, do que por períodos longos e trabalhados.
- ALEPH.
Versículos 1 a 3
O salmista mostra aqui que as pessoas piedosas são felizes; são e serão de fato bem-aventuradas. A felicidade é aquilo que todos alegamos almejar e buscar. Ele não diz aqui em que ela consiste; basta-nos saber o que devemos fazer e ser para alcançá-la, e é isso que nos é dito aqui.
Todos querem ser felizes, mas poucos seguem o caminho certo. Deus o pôs diante de nós, e podemos ter certeza de que ele termina na felicidade, embora seja apertado e estreito. As bem-aventuranças pertencem aos justos, toda espécie de bem-aventurança. Observe agora as características das pessoas felizes. São felizes:
- Os que fazem da vontade de Deus a regra de todos os seus atos e por ela se governam em toda a sua conduta: andam na lei do Senhor (v. 1). A palavra de Deus é lei para eles, não apenas neste ou naquele caso, mas em todo o curso de sua conduta.
Eles andam dentro das cercas dessa lei, que não ousam transpor fazendo algo que ela proíbe; e andam nas veredas dessa lei, nas quais não procedem levianamente, mas avançam rumo ao alvo, dando cada passo segundo a regra e nunca andando ao acaso.
Isso é andar nos caminhos de Deus (v. 3), caminhos que ele traçou para nós e nos designou para seguir. Não basta fazer da religião o assunto de nossas conversas; devemos torná-la a regra de nossa vida. Devemos andar nos caminhos dele, não no caminho do mundo nem no de nosso próprio coração (Jó 23:10, 11; 31:7).
- Os que são íntegros e honestos em sua religião, irrepreensíveis no caminho. Não somente se conservam puros das contaminações do pecado efetivamente cometido e sem mancha do mundo, mas também são habitualmente sinceros em suas intenções.
Não há engano em seu espírito; são de fato tão bons quanto parecem e remam na mesma direção para a qual olham.
- Os que são fiéis à confiança neles depositada como povo que professa pertencer a Deus. Era honra dos judeus terem recebido em confiança os oráculos de Deus.
Bem-aventurados são os que conservam puro e inteiro esse depósito sagrado, que guardam seus testemunhos como tesouro de valor inestimável e como a menina dos olhos.
Guardam-nos de tal modo que levam consigo o consolo que deles recebem para o outro mundo e deixam aos que virão depois deles neste mundo o conhecimento e a profissão desses testemunhos. Os que desejam andar na lei do Senhor devem guardar seus testemunhos, isto é, suas verdades.
Quem não se apega a bons princípios não continuará por muito tempo a observar conscienciosamente as boas práticas. Ou seus testemunhos podem designar sua aliança; a arca da aliança é chamada arca do testemunho. Não guardam a aliança com Deus aqueles que não guardam os mandamentos de Deus.
- Os que mantêm os olhos voltados unicamente para Deus, seu bem supremo e fim mais elevado, em tudo o que fazem na religião (v. 2): buscam-no de todo o coração. Não buscam a si mesmos nem seus próprios interesses, mas somente a Deus.
É isso que almejam: que Deus seja glorificado em sua obediência e que sejam felizes por serem aceitos por ele. Deus é e será tanto aquele que recompensa quanto a recompensa de todos os que assim o buscam diligentemente.
Buscam-no com o coração, pois é para ele que Deus olha e é ele que exige; e com todo o coração, pois, se o coração estiver dividido entre Deus e o mundo, há nele uma falha.
- Os que evitam cuidadosamente todo pecado (v. 3): “Não praticam iniquidade”. Não se permitem nenhum pecado; não o cometem como os servos do pecado, não fazem dele uma prática nem um ofício.
Sabem que há neles muita iniquidade que os embaraça nos caminhos de Deus, mas não aquela iniquidade que os tira desses caminhos. Bem-aventurados e santos são os que assim se empenham em ter sempre a consciência livre de ofensa.
Versículos 4 a 6
Aqui nos é ensinado: 1. A reconhecer que temos a mais alta obrigação de andar na lei de Deus. O tentador quer infundir nos homens a opinião de que são livres para decidir se farão ou não da palavra de Deus sua regra; de que, embora isso possa ser bom, ainda assim, não é tão necessário quanto lhes fazem crer.
Ele ensinou nossos primeiros pais a questionar o mandamento: “Acaso Deus disse: ‘Não comereis’?”
Por isso precisamos estar bem firmados nisto, v. 4: “Tu nos ordenaste guardar os teus preceitos”. Assim, devemos fazer da religião nossa regra; e guardá-los “diligentemente”, fazendo da religião nossa ocupação e cuidando dela com atenção e constância. Estamos obrigados a isso e desobedecemos por nossa conta e risco.
- A olhar para Deus em busca de sabedoria e graça para fazê-lo, v. 5: Ah, se meus caminhos fossem assim dirigidos! Não se trata apenas de que todos os acontecimentos que nos dizem respeito sejam ordenados e dispostos pela providência de Deus de modo que em nada nos atrapalhem no serviço a Deus, mas, ao contrário, nos ajudem.
Trata-se também de que nosso coração seja guiado e influenciado pelo Espírito de Deus de modo que em nada transgridamos os mandamentos de Deus; de que não só nossos olhos sejam dirigidos a contemplar os estatutos de Deus, mas também nosso coração seja dirigido a guardá-los.
Veja como o desejo e a oração de um homem bom concordam exatamente com a vontade e o mandamento de um Deus bom: “Tu queres que eu guarde os teus preceitos e, Senhor, eu desejo muito guardá-los”. Esta é a vontade de Deus, a nossa santificação; e também deve ser a nossa vontade.
- A nos animar no caminho do dever com a perspectiva do consolo que nele encontraremos, v. 6. Repare: (1.) É característica indubitável de todo homem bom ter respeito por todos os mandamentos de Deus. Ele respeita o mandamento, olha para ele como seu modelo, procura conformar-se a ele e lamenta quando fica aquém dele.
Tudo o que faz na religião, faz com respeito consciencioso pelo mandamento, porque esse é seu dever. Respeita todos os mandamentos, tanto um quanto outro, porque todos são respaldados pela mesma autoridade, Tiago 2:10, 11, e todos se dirigem ao mesmo fim: glorificar a Deus em nossa felicidade.
Aqueles que têm respeito sincero por qualquer mandamento terão respeito geral por todos: pelos mandamentos de ambos os Testamentos e de ambas as tábuas da lei; pelas proibições e pelos preceitos; pelos que dizem respeito tanto ao homem interior quanto ao exterior, tanto à cabeça quanto ao coração.
Isso inclui os mandamentos que proíbem os pecados mais agradáveis e lucrativos e os que exigem os deveres mais difíceis e arriscados.
(2.) Aqueles que têm respeito sincero por todos os mandamentos de Deus não serão envergonhados. Além de serem, assim, preservados de fazer o que os levaria à vergonha, terão confiança diante de Deus e ousadia para se aproximar do trono de sua graça, 1 João 3:21.
Terão boa reputação diante dos homens; sua honestidade será sua honra. Também terão clareza e coragem na própria alma: não se envergonharão de recolher-se para dentro de si nem de refletir sobre si mesmos, pois o coração não os condenará.
Davi diz isso aplicando-o a si mesmo. Os retos podem receber o consolo da própria retidão: “Assim como, se eu for perverso, ai de mim, também, se eu for sincero, tudo irá bem comigo”.
Versículos 7 a 8
Aqui está: I. O esforço de Davi para aperfeiçoar-se na religião e tornar-se, como dizemos, senhor de seu ofício. Ele espera aprender os justos juízos de Deus. Já sabia muito, mas continuava avançando e desejava saber mais, pois reconhecia que ainda não havia alcançado a meta.
Mas, até onde a perfeição pode ser alcançada nesta vida, ele se estendia em sua direção e não se contentaria com menos. Enquanto vivermos, devemos ser alunos na escola de Cristo e sentar-nos a seus pés; mas devemos procurar ser os melhores alunos e chegar à classe mais avançada.
Todos os juízos de Deus são justos; por isso, é desejável não apenas aprendê-los, mas tornar-nos versados neles, poderosos nas Escrituras.
II. O uso que faria do aprendizado divino. Desejava muito conhecer as leis de Deus, não para conquistar nome e influência entre os homens nem para encher sua própria mente de especulações agradáveis, mas:
- Para dar a Deus a glória por aquilo que aprendesse: “Eu te louvarei quando tiver aprendido teus juízos”. Isso indica que não poderia aprender se Deus não o ensinasse e que as instruções divinas são bênçãos especiais pelas quais temos motivo de agradecer.
Embora Cristo mantenha uma escola gratuita e ensine sem dinheiro e sem preço, ainda assim, espera que seus alunos lhe deem graças tanto por sua palavra quanto por seu Espírito. Certamente, é misericórdia digna de gratidão aprender um ofício tão proveitoso quanto a religião.
Aprenderam uma boa lição os que aprenderam a louvar a Deus, pois essa é a obra dos anjos, a obra do céu. É fácil louvar a Deus de palavra e com a língua.
Mas só são bem instruídos nesse mistério os que aprenderam a louvá-lo com retidão de coração, isto é, vivem em íntima comunhão com ele ao louvá-lo e buscam sinceramente sua glória na conduta, assim como nos exercícios de devoção. Deus aceita somente os louvores dos retos.
- Para submeter-se ele próprio ao governo do que aprendesse: quando eu tiver aprendido seus justos juízos, guardarei seus estatutos. Não podemos guardá-los sem aprendê-los; mas em vão os aprendemos se não os guardamos.
Aprenderam bem os estatutos de Deus aqueles que chegaram à plena resolução de guardá-los, pela força de sua graça.
III. Sua oração para que Deus não o abandone: “Ó, não me desampares!” Isto é: “Não me deixes entregue a mim mesmo, não retires de mim teu Espírito e tua graça, pois, nesse caso, não guardarei teus estatutos.”
Os homens bons se veem perdidos se Deus os abandonar, pois então o tentador será forte demais para eles.
“Embora pareças abandonar-me, ameaces fazê-lo e por algum tempo te retires de mim, ainda assim não permitas que esse abandono seja total e definitivo; pois isso é o inferno. Ó, não me desampares completamente! Pois ai de mim se Deus se afastar de mim.”
- BETH.
Versículo 9
Aqui está: 1. Uma pergunta importante: por que meio se pode tornar a próxima geração melhor do que esta? “Com que limpará o jovem o seu caminho?” Limpar implica que esse caminho está contaminado.
Além da corrupção original que todos trouxemos ao mundo (da qual não fomos limpos até hoje), há muitos pecados particulares a que os jovens estão sujeitos e com os quais maculam seu caminho, as concupiscências juvenis (2 Timóteo 2:22). Elas tornam seu caminho ofensivo a Deus e vergonhoso para eles mesmos.
Os jovens precisam limpar seu caminho: ter o coração renovado e a vida reformada, tornar-se limpos e manter-se limpos da corrupção que há no mundo por causa da concupiscência, para terem tanto boa consciência quanto bom nome.
Poucos jovens perguntam por si mesmos como podem recuperar e preservar sua pureza; por isso, Davi faz a pergunta por eles.
- Uma resposta satisfatória a essa pergunta: os jovens podem limpar eficazmente seu caminho se tomarem cuidado com ele segundo a palavra de Deus. É honra para a palavra de Deus ter tamanho poder e ser tão útil tanto para indivíduos quanto para comunidades, cuja felicidade depende muito da virtude de seus jovens.
(1.) Os jovens devem tomar a palavra de Deus como regra, conhecê-la e resolver conformar-se a ela. Isso fará mais pela limpeza dos jovens do que as leis dos príncipes ou a moral dos filósofos.
(2.) Devem aplicar cuidadosamente essa regra e fazer uso dela: tomar cuidado com seu caminho, examiná-lo pela palavra de Deus como pedra de toque e padrão, corrigir por essa norma o que nele estiver errado e guiar-se por esse mapa e essa bússola.
A palavra de Deus não produzirá esse efeito sem nossa vigilância e atenção constante tanto a ela quanto ao nosso caminho, para podermos compará-los.
A ruína dos jovens vem ou de viverem sem limites (ou sem regra alguma) ou de escolherem regras falsas para si. Que ponderem a vereda de seus pés e andem segundo as regras das Escrituras; assim, seu caminho será limpo, e terão o consolo e o bom nome que isso proporciona, agora e para sempre.
Versículo 10
Aqui está: 1. A experiência de Davi quanto a uma boa obra que Deus operara nele, da qual ele recebe consolo e que apresenta a Deus em sua súplica:
“Tenho-te buscado; tenho-te buscado como meu oráculo, tenho-te buscado como minha felicidade, tenho-te buscado como meu Deus; pois não deveria um povo buscar o seu Deus?”
“Se ainda não te encontrei, tenho-te buscado, e tu nunca disseste: ‘Busca em vão’, nem me dirás isso, pois tenho-te buscado com meu coração, com todo o meu coração; tenho buscado somente a ti, tenho-te buscado diligentemente”.
- Sua oração pela preservação dessa obra: “Tu, que me inclinaste a buscar teus preceitos, não permitas jamais que eu me desvie deles”. Os melhores percebem sua própria propensão a se desviar.
Quanto mais experimentamos o prazer que há em guardar os mandamentos de Deus, mais receosos ficamos de nos desviar deles e mais fervorosamente oramos a Deus por sua graça, para que impeça nossos desvios.
Versículo 11
Aqui está: 1. A aplicação cuidadosa que Davi fez da palavra de Deus a si mesmo. Ele a escondeu em seu coração, ali a guardou, para tê-la à disposição sempre que precisasse usá-la. Guardou-a como algo que valorizava muito e pelo qual tinha uma afeição calorosa; temia perdê-la ou que a roubassem dele.
A palavra de Deus é um tesouro digno de ser guardado, e não há lugar seguro para guardá-la senão em nosso coração.
Se a tivermos apenas em nossas casas e mãos, os inimigos poderão tirá-la de nós; se apenas em nossa cabeça, nossa memória poderá falhar; mas, se nossos corações forem postos no molde da palavra e suas impressões permanecerem em nossas almas, ela estará segura.
- Os bons usos que ele pretendia fazer dela: “Para que eu não peque contra ti”. Os homens bons temem o pecado e zelam por evitá-lo.
O meio mais eficaz de evitá-lo é esconder a palavra de Deus em nosso coração, para podermos responder a toda tentação, como fez nosso Mestre, com “Está escrito”, opor os preceitos de Deus ao domínio do pecado, suas promessas às seduções dele e suas ameaças às intimidações dele.
Versículo 12
Aqui, 1. Davi dá glória a Deus: “Bendito és tu, ó Senhor! Tu és infinitamente feliz no desfrute de ti mesmo e não necessitas de mim nem de meus serviços; contudo, agrada-te considerar-te honrado por eles; ajuda-me, portanto, e então aceita-me”. Em todas as nossas orações devemos intercalar louvores.
- Ele pede graça a Deus: “Ensina-me teus estatutos; concede-me conhecer e cumprir meu dever em todas as coisas. Tu és a fonte de toda bem-aventurança; oh, deixa-me receber esta gota daquela fonte, esta bênção daquela bem-aventurança: ensina-me teus estatutos, para que eu saiba como bendizer-te, tu que és um Deus bendito, e para que eu seja bem-aventurado em ti”.
Versículos 13 a 14
Aqui, I. Davi olha para trás com consolo, recordando o respeito que dedicou à palavra de Deus. Sua consciência testemunhava em seu favor:
- Que ele havia edificado outros com o que lhe fora ensinado da palavra de Deus, v. 13: “Com meus lábios declarei todos os juízos da tua boca”. Fez isso não só como rei, ao emitir ordens e proferir juízos segundo a palavra de Deus, nem só como profeta, por meio de seus salmos, mas também nas conversas comuns.
Assim mostrou quanto estava cheio da palavra de Deus e que santo deleite encontrava em sua familiaridade com ela; pois a boca fala do que transborda do coração. Com seu conhecimento fez o bem: não escondeu a palavra de Deus dos outros, mas a guardou para eles.
Desse bom tesouro em seu coração tirou coisas boas, como o dono da casa tira de seu depósito coisas novas e velhas. Aqueles cujo coração é alimentado com o pão da vida devem alimentar muitos com seus lábios.
Ele havia orado no v. 12 para que Deus o ensinasse; aqui apresenta seu apelo: “Senhor, procurei fazer bom uso do conhecimento que me deste; por isso, aumenta-o”. Pois a quem tem será dado.
- Que ele havia encontrado prazer nela: “Senhor, ensina-me os teus estatutos, pois não desejo prazer maior do que conhecê-los e praticá-los (v. 14).”
“Alegrei-me no caminho dos teus mandamentos, num curso constante e uniforme de obediência a ti; não apenas nas especulações e histórias da tua palavra, mas nos seus preceitos e na vereda de piedade séria que eles me traçam.”
“Alegrei-me nisso tanto quanto em todas as riquezas, tanto quanto qualquer homem mundano já se alegrou com o aumento de sua riqueza. No caminho dos mandamentos de Deus, posso na verdade dizer: ‘Alma, descansa’.” Na verdadeira religião há todas as riquezas, as insondáveis riquezas de Cristo.
II. Ele olha para a frente com a santa resolução de nunca deixar esfriar seu afeto pela palavra de Deus; o que faz, continuará a fazer, 2 Coríntios 11:12. Aqueles que encontraram prazer nos caminhos de Deus provavelmente prosseguirão e perseverarão neles:
- Ocupará muito seus pensamentos com eles, v. 15: “Meditarei nos teus preceitos”. Não apenas falava deles aos outros (muitos fazem isso somente para exibir conhecimento e autoridade).
Também dialogava com seu próprio coração a respeito deles e se esforçava para assimilar em seus próprios pensamentos o que já havia declarado, ou ainda teria de declarar, aos outros. Repare: as palavras de Deus devem ocupar muito os nossos pensamentos.
- Sempre os manterá diante dos olhos: “Atentarei para os teus caminhos”, como o viajante atenta para sua estrada, cuidando para não perdê-la e sempre procurando seguir por ela.
Não meditamos nos preceitos de Deus com proveito se não atentamos para eles como nossa regra e se nossos bons pensamentos não produzem boas obras, feitas com boas intenções.
- Terá prazer constante na comunhão com Deus e na obediência a ele. Não é só por algum tempo que se alegra nessa luz: “Continuamente, para sempre me deleitarei nos teus estatutos; não apenas pensarei neles, mas os praticarei com prazer”, v. 16.
Davi tinha mais prazer nos estatutos de Deus do que nos prazeres de sua corte ou nas honras de seu acampamento, mais do que em sua espada ou em sua harpa. Quando a lei está escrita no coração, o dever se torna prazer.
Nunca esquecerá o que aprendeu das coisas de Deus: “Não me esquecerei da tua palavra; não apenas não a esquecerei por completo, mas me lembrarei dela quando tiver ocasião de usá-la”. Aqueles que meditam na palavra de Deus e nela se deleitam não correm grande risco de esquecê-la.
GIMEL.
Versículo 17
Aqui nos é ensinado: 1. Que devemos nossa vida à misericórdia de Deus. Davi ora: Trate-me com generosidade, para que eu viva. Foi a generosidade de Deus que nos deu a vida, que nos deu esta vida; e a mesma generosidade que a deu continua a conservá-la e lhe concede todo o sustento e consolo.
Se essas coisas nos forem negadas, morremos ou, o que equivale a isso, nossa vida se torna amarga e nos cansamos dela. Se Deus nos tratar segundo a estrita justiça, morremos, perecemos, todos perecemos.
Se essas vidas a que perdemos o direito forem preservadas e prolongadas, é porque Deus nos trata com generosidade, segundo sua misericórdia, e não segundo o que merecemos. A continuidade até da vida mais útil se deve à generosidade de Deus, da qual precisamos depender continuamente.
- Que, portanto, devemos empregar nossa vida no serviço de Deus. A vida é uma misericórdia especial porque nos dá a oportunidade de obedecer a Deus neste mundo, onde tão poucos o glorificam. Era isso que Davi tinha em vista:
“Não para que eu viva e enriqueça, viva e me alegre, mas para que eu viva e guarde tua palavra, para que eu mesmo a observe e a transmita aos que vierem depois de mim; quanto mais eu viver, melhor farei isso”.
Versículo 18
Observe aqui: 1. Que há coisas maravilhosas na lei de Deus, que a todos nós importa contemplar e que devemos desejar ver: não só coisas inusitadas, muito surpreendentes e inesperadas, mas também coisas excelentes, dignas de grande estima e apreço, e coisas por muito tempo ocultas aos sábios e prudentes, mas que agora são reveladas às criancinhas.
Se havia maravilhas na lei, muito mais há no evangelho, onde Cristo é tudo em tudo e seu nome é Maravilhoso. Com razão nós, tão diretamente interessados, desejamos contemplar essas coisas maravilhosas, quando até os próprios anjos se inclinam para examiná-las, 1 Pedro 1:12.
Aqueles que querem ver as coisas maravilhosas da lei e do evangelho de Deus precisam suplicar que ele lhes abra os olhos e lhes dê entendimento. Somos cegos por natureza para as coisas de Deus, até que sua graça faça cair as escamas de nossos olhos.
Mesmo aqueles em cujo coração Deus disse “Haja luz” ainda precisam ser mais iluminados e devem continuar orando para que Deus lhes abra os olhos cada vez mais, para que aqueles que a princípio viam homens como árvores andando venham a ver todas as coisas claramente.
Quanto mais Deus nos abre os olhos, mais maravilhas vemos na palavra de Deus, maravilhas que antes não víamos.
Versículo 19
Aqui temos: 1. O reconhecimento que Davi faz de sua própria condição: “Sou estrangeiro na terra”. Todos nós o somos, e todas as pessoas piedosas confessam que o são, pois o céu é seu lar, e o mundo é apenas sua hospedaria, a terra de sua peregrinação.
Davi conhecia o mundo tão bem e era nele tão conhecido quanto a maioria dos homens. Deus lhe edificou uma casa e estabeleceu seu trono; estrangeiros se submeteram a ele, e povos que não conhecia o serviram. Seu nome era como o dos grandes homens e, ainda assim, ele se chama estrangeiro. Todos somos estrangeiros na terra e devemos nos considerar assim.
- O pedido que ele então faz a Deus: “Não escondas de mim teus mandamentos”. Ele quer dizer mais:
“Senhor, mostra-me teus mandamentos; que nunca me falte a palavra de Deus, mas, enquanto eu viver, concede-me crescer no conhecimento dela.”
“Sou estrangeiro e, por isso, preciso de guia, protetor, companheiro e consolador; permite que eu tenha teus mandamentos sempre diante dos olhos, pois serão tudo isso para mim, tudo o que um pobre estrangeiro pode desejar.”
“Sou estrangeiro aqui e logo terei de partir; que, por meio de teus mandamentos, eu seja preparado para minha partida daqui.”
Versículo 20
Davi havia orado para que Deus lhe abrisse os olhos, v. 18, e abrisse a lei, v. 19. Agora apresenta como apelo a intensidade de seu desejo de conhecimento e graça, pois é a oração fervorosa que muito pode.
- Seu desejo era insistente: “Minha alma se quebranta pelo anseio que tem pelos teus juízos”. Ou, como alguns leem: “Minha alma está tomada e inteiramente ocupada pelo anseio dos teus juízos; toda a corrente de seus desejos corre por esse canal.”
“Eu me consideraria completamente quebrado e arruinado se me faltasse a palavra de Deus, bem como a direção, a comunhão e o consolo que dela vêm.”
- Era constante: em todo tempo. Não era apenas de vez em quando, quando estava de bom humor, que ele amava tanto a palavra de Deus. Antes, é disposição habitual de toda alma santificada ter fome da palavra de Deus como seu alimento necessário, sem o qual não se pode viver.
Versículo 21
Aqui está: 1. O caráter miserável das pessoas perversas. A disposição interior delas é má. São soberbas; engrandecem-se acima dos outros. E isso ainda não é tudo: engrandecem-se contra Deus e põem sua vontade em disputa e oposição à vontade de Deus, como se o coração, a língua e tudo mais lhes pertencessem.
Há algo de soberba na raiz de todo pecado deliberado, e o curso de sua vida não é melhor: desviam-se dos mandamentos de Deus, como Israel, que sempre errava em seu coração. Erram no juízo e abraçam princípios contrários aos mandamentos de Deus.
Não admira, portanto, que errem na prática e se afastem deliberadamente do bom caminho. Esse é o efeito de sua soberba, pois dizem: “Quem é o Todo-Poderoso, para que o sirvamos?” Como o faraó: “Quem é o Senhor?”
- Sua condição miserável. Certamente estão sob maldição, pois Deus resiste aos soberbos; os que rejeitam os mandamentos da lei colocam-se sob sua maldição (Gálatas 3:10). Aquele que agora os vê de longe em breve lhes dirá: Vão, malditos.
Os pecadores soberbos abençoam a si mesmos; Deus os amaldiçoa. Embora os efeitos mais terríveis dessa maldição estejam reservados para o outro mundo, ainda assim, eles muitas vezes são severamente repreendidos já neste mundo.
A Providência os contraria e os aflige; naquilo em que agiram com soberba, Deus se mostra superior a eles. Essas repreensões são penhores de coisas piores.
Davi reparou nas repreensões que recaíam sobre os soberbos, e isso o levou a apegar-se mais firmemente à palavra de Deus e a orar com mais fervor para não se desviar dos mandamentos de Deus. Assim, os santos tiram proveito dos juízos de Deus sobre os pecadores.
Versículo 22
Aqui: 1. Davi ora contra o descrédito e o desprezo dos homens, pedindo que sejam removidos ou, como diz a palavra, rolados para longe dele. Isso indica que recaíam sobre ele e que nem sua grandeza nem sua bondade podiam protegê-lo de calúnias e sátiras.
Alguns o desprezavam e procuravam rebaixá-lo; outros o desacreditavam e tentavam torná-lo odioso. Muitas vezes coube àqueles que fazem o bem ouvir falar mal de si. Isso indica que o descrédito e o desprezo pesavam muito sobre ele.
Palavras duras e infames de fato não quebram ossos, mas são muito penosas para um espírito sensível e franco. Por isso Davi ora: “Senhor, afasta-as de mim, para que elas não me afastem do dever nem me desanimem nele.”
Deus tem em suas mãos os corações e as línguas de todos os homens; pode calar lábios mentirosos e levantar o bom nome pisoteado no pó.
Podemos recorrer a ele como defensor do direito e vingador da injustiça e confiar em sua promessa de fazer resplandecer nossa justiça como a luz, Salmos 37:6. O descrédito e o desprezo podem nos humilhar e nos fazer bem; então serão removidos.
- Ele apresenta como apelo seu apego constante à palavra e ao caminho de Deus: “Pois guardei os teus testemunhos”. Não alega apenas sua inocência e o fato de ter sido censurado injustamente, mas também:
(1.) Que foi escarnecido por fazer o bem. Era desprezado e maltratado por seu rigor e zelo na religião. Portanto, foi por causa do nome de Deus que sofreu descrédito e, por isso, podia pedir com mais confiança que Deus interviesse em seu favor.
O descrédito sofrido pelo povo de Deus, se não for removido agora, em breve se transformará em honra ainda maior.
(2.) Que o escárnio não o demoveu de fazer o bem: “Senhor, afasta o descrédito de mim, pois guardei os teus testemunhos apesar dele.” Se, num dia de provação, ainda mantivermos nossa integridade, podemos ter certeza de que tudo terminará bem.
Versículo 23
Veja aqui: 1. Como Davi foi tratado injustamente até por homens poderosos, que deveriam conhecer melhor seu caráter e sua situação e ter sido mais generosos: os príncipes se assentaram, assentaram-se em conselho, assentaram-se para julgar e falaram contra mim.
Nem mesmo o que dizem os príncipes é sempre correto; mas é triste quando o juízo se converte assim em absinto, quando aqueles que deveriam proteger os inocentes os traem. Nisso Davi era figura de Cristo, pois foram os príncipes deste mundo que difamaram e crucificaram o Senhor da glória, 1 Coríntios 2:8.
- Que meio usou para se manter tranquilo sob esses abusos: meditava nos estatutos de Deus, prosseguia no seu dever e não lhes dava atenção; como um surdo, não ouvia.
Quando falavam contra ele, encontrava na palavra de Deus aquilo que falava em seu favor e lhe trazia consolo; então nada disso o abalava. Os que têm prazer na comunhão com Deus podem facilmente desprezar as censuras dos homens, até mesmo dos príncipes.
Versículo 24
Aqui Davi explica sua meditação nos estatutos de Deus (v. 23), que tanto lhe serviu quando os príncipes se assentaram e falaram contra ele.
A aflição o entristeceu? A palavra de Deus o consolou e foi seu deleite, um deleite maior do que qualquer prazer da corte ou do acampamento, da cidade ou do campo. Às vezes se verifica que os consolos da palavra de Deus são os mais agradáveis a uma alma agraciada quando os outros consolos se tornam amargos.
Ela o deixou perplexo? Ficou sem saber o que fazer quando os príncipes falaram contra ele? Os estatutos de Deus eram seus conselheiros e o aconselharam a suportar isso com paciência e a confiar sua causa a Deus.
Os testemunhos de Deus serão os melhores conselheiros tanto para os príncipes quanto para as pessoas comuns. Eles são os homens do meu conselho; é isso que diz a palavra original. Haverá mais segurança e satisfação em consultá-los do que em consultar uma multidão de outros conselheiros.
Observe aqui: quem deseja ter os testemunhos de Deus por deleite deve tomá-los por conselheiros e seguir seu conselho; e quem os toma por conselheiros para andar em estreita comunhão deve tomá-los por deleite para andar com consolo.
- DALETH.
Versículo 25
Aqui está: I. A queixa de Davi. Teríamos imaginado sua alma elevando-se ao céu; mas ele próprio diz: Minha alma não apenas rola no pó, mas se apega ao pó. Essa é uma queixa: 1. Ou de suas corrupções, sua inclinação para o mundo e para o corpo (ambos são pó), e da consequência disso, a falta de vida para os santos deveres.
Quando queria fazer o bem, o mal estava presente com ele. Deus deu a entender que Adão não era apenas mortal, mas pecador, quando disse: “Pó és tu” (Gênesis 3:19). A queixa de Davi aqui se assemelha à de São Paulo acerca de um corpo de morte que carregava consigo. Os resquícios da corrupção que habita em nós são um fardo muito penoso para uma alma alcançada pela graça.
Ou 2. De suas aflições, seja perturbação da mente, seja tribulação exterior. Fora havia lutas; dentro, temores. Juntas, essas coisas o levaram até ao pó da morte (Salmos 22:15), ao qual sua alma se apegou inseparavelmente.
II. Sua súplica por alívio e seu apelo para reforçar essa súplica: “Vivifica-me segundo tua palavra. Por tua providência, dá vida aos meus assuntos; por tua graça, dá vida aos meus afetos; cura-me da falta de vida espiritual e torna-me cheio de vida em minha devoção.”
Repare: quando nos percebemos entorpecidos, devemos ir a Deus e pedir-lhe que nos vivifique. Davi tem em vista a palavra de Deus como meio de vivificação, pois as palavras que Deus fala são espírito e são vida para aqueles que as recebem.
Também a considera um motivo de ânimo para esperar que Deus o vivifique, pois Deus prometeu graça e consolo a todos os santos, e a Davi em particular. A palavra de Deus deve ser nosso guia e nosso apelo em toda oração.
Versículos 26 a 27
Temos aqui: 1. A grande intimidade e liberdade que havia entre Davi e seu Deus. Davi expusera a Deus sua situação e lhe abrira até o próprio coração: “Declarei meus caminhos e te reconheci em todos eles; levei-te comigo em todos os meus desígnios e empreendimentos”.
Assim Jefté proferiu todas as suas palavras, e Ezequias estendeu suas cartas, diante do Senhor.
“Declarei meus caminhos, minhas carências, meus fardos e tribulações que encontro pelo caminho; ou meus pecados, meus desvios (fiz deles uma confissão franca); e tu me ouviste, ouviste pacientemente tudo o que eu tinha a dizer e tomaste conhecimento da minha situação.”
É um consolo indizível para uma alma agraciada pensar na ternura com que um Deus gracioso recebe todas as suas queixas (1 João 5:14, 15).
- O desejo fervoroso de Davi pela continuidade dessa intimidade, não por visões e vozes do céu, mas pela palavra e pelo Espírito de maneira ordinária: “Ensina-me teus estatutos”, isto é, “Faze-me entender o caminho de teus preceitos”.
Quando soube que Deus ouvira sua declaração de seus caminhos, ele não disse: “Agora, Senhor, dize-me qual será minha sorte e faze-me saber qual será o desfecho”; mas: “Agora, Senhor, dize-me meu dever; faze-me saber o que queres que eu faça nas circunstâncias presentes”.
Repare: os que reconhecem a Deus em todos os seus caminhos podem orar com fé para que ele lhes dirija os passos pelo caminho certo. O meio mais seguro de manter nossa comunhão com Deus é aprender seus estatutos e andar com entendimento no caminho de seus preceitos. Veja 1 João 1:6, 7.
- O bom uso que ele faria disso para a honra de Deus e a edificação dos outros: “Concede-me bom entendimento do caminho de teus preceitos; dá-me conhecimento claro, distinto e metódico das coisas divinas; assim falarei com mais segurança e maior pertinência das tuas obras maravilhosas”.
Podemos falar com mais propriedade das obras maravilhosas de Deus, das maravilhas da providência e, especialmente, das maravilhas do amor redentor, quando entendemos o caminho dos preceitos de Deus e andamos nesse caminho.
Versículos 28 a 29
Aqui está: 1. A exposição de Davi de suas próprias dores: “Minha alma se derrete de tristeza”, o que tem o mesmo sentido do v. 25: “Minha alma se apega ao pó”. A tristeza faz o coração do homem derreter-se e escorrer como uma vela que se consome.
A alma arrependida se derrete em tristeza pelo pecado, e até a alma paciente pode derreter-se ao sentir a aflição. Então lhe convém derramar sua súplica diante de Deus.
- Seu pedido pela graça de Deus:
(1.) Que Deus o capacitasse a suportar bem sua aflição e o sustentasse por sua graça sob ela: “Fortalece-me com força em minha alma, segundo a tua palavra, que, como o pão da vida, fortalece o coração do homem para suportar tudo o que Deus tiver por bem infligir.”
“Fortalece-me para cumprir os deveres, resistir às tentações e suportar os fardos de um estado de aflição, para que o espírito não desfaleça. Fortalece-me segundo aquela palavra (Deuteronômio 33:25): ‘Como os teus dias, assim será a tua força’.”
(2.) Que Deus o guardasse de recorrer a quaisquer meios ilícitos e tortuosos para livrar-se de suas tribulações (v. 29): “Afasta de mim o caminho da mentira.” Davi tinha consciência de sua propensão a esse pecado; num aperto, usara de embuste com Aimeleque (1 Samuel 21:2) e com Aquis (1 Samuel 21:13; 27:10).
Grandes dificuldades são grandes tentações para atenuar uma mentira, revestindo-a da aparência de uma fraude piedosa e de uma autodefesa necessária. Por isso Davi ora para que Deus o impeça de cair outra vez nesse pecado, para que não se estabeleça no caminho da mentira.
Uma prática habitual de mentira, engano e dissimulação é algo que todo homem de bem teme e da qual todos nós devemos pedir a Deus que, por sua graça, nos preserve.
(3.) Que estivesse sempre sob a orientação e a proteção do governo de Deus: “Concede-me tua lei graciosamente; concede-me essa lei para me guardar do caminho da mentira.”
Davi tinha a lei escrita por sua própria mão, pois o rei era obrigado a transcrever uma cópia dela para uso próprio (Deuteronômio 17:18); mas ele ora para tê-la escrita no coração, pois então, e só então, nós a temos de fato e com proveito.
“Concede-me essa lei cada vez mais.” Os que conhecem e amam a lei de Deus não podem deixar de desejar conhecê-la mais e amá-la melhor.
“Concede-me essa lei graciosamente”; ele a pede como sinal especial do favor de Deus. Repare: devemos considerar a lei de Deus uma concessão, uma dádiva, uma dádiva inexprimível e, em conformidade com isso, prezá-la, orar por ela e dar graças por ela.
O código divino de instituições e preceitos é, de fato, uma carta de privilégios; e Deus é na verdade cheio de graça para com aqueles a quem torna cheios de graça ao lhes dar sua lei.
Versículo 30
Observe: I. Que aqueles que desejam que sua religião tenha efeito real precisam primeiro escolhê-la de modo sério e deliberado. Davi fez isso: “Escolhi o caminho da verdade”. Repare:
O caminho da piedade séria é o caminho da verdade; os princípios em que se fundamenta são verdades eternas, e ele é o único caminho verdadeiro para a felicidade.
Devemos escolher andar nesse caminho, não porque desconhecemos outro, mas porque não conhecemos caminho melhor; ou melhor, não conhecemos outro caminho seguro e bom. Escolhamos esse caminho como nosso caminho, para nele andarmos, ainda que seja estreito.
II. Que os que escolheram o caminho da verdade precisam ter consideração constante pela palavra de Deus como regra para seu andar: “Pus teus juízos diante de mim”.
Assim faz quem aprende a escrever, colocando diante de si o traçado a copiar para escrever conforme ele; assim faz o trabalhador, colocando seu modelo e sua planta diante de si para executar o trabalho com exatidão.
Assim como devemos ter a palavra no coração mediante a conformidade habitual a ela, também devemos tê-la diante dos olhos mediante a atenção efetiva que lhe damos em todas as ocasiões, para andarmos com exatidão e segundo a regra.
III. Que os que fazem da religião sua escolha e regra provavelmente permanecerão fiéis a ela: “Apeguei-me aos teus testemunhos com afeição inalterada e resolução inabalável; apeguei-me a eles em todo tempo e em todas as provações. Escolhi-os e, por isso, apeguei-me a eles.”
Repare: o cristão que escolhe provavelmente será o cristão constante; já os que são cristãos por acaso mudam de rumo quando o vento muda.
IV. Que os que se apegam à palavra de Deus podem, pela fé, esperar e pedir que Deus os aceite. É isso que Davi quer dizer ao rogar: “Senhor, não me deixes envergonhado; isto é, nunca me deixes fazer algo pelo qual eu mesmo me envergonhe e não rejeites meus serviços, pois isso me causaria o maior constrangimento.”
V. Que quanto mais consolo Deus nos dá, mais dever espera de nós, v. 32. Aqui temos: 1. Sua resolução de avançar vigorosamente na religião: “Correrei pelo caminho dos teus mandamentos”. Aqueles que se dirigem ao céu devem apressar-se para lá e continuar avançando.
Cabe-nos aproveitar o tempo, empenhar-nos e prosseguir em nossa tarefa com alegria. Corremos pelo caminho do dever quando estamos prontos a cumpri-lo, temos prazer nele e deixamos de lado “todo peso”, Hebreus 12:1.
- Sua dependência de Deus para receber graça e fazer isso: “Então abundarei na tua obra, quando alargares meu coração.” Deus, por seu Espírito, alarga o coração de seu povo quando lhe dá sabedoria, pois esta é chamada “largueza de coração”, 1 Reis 4:29.
Também o faz quando derrama o amor de Deus no coração de seu povo e ali põe alegria. A alegria de nosso Senhor deve servir de rodas à nossa obediência.
- HE.
Versículos 33 a 34
Aqui, I. Davi ora com fervor para que o próprio Deus seja seu mestre. Tinha ao redor profetas, sábios e sacerdotes, e ele mesmo era bem instruído na lei de Deus; ainda assim, pede que Deus o ensine, sabendo que ninguém ensina como ele (Jó 36:22). Observe aqui:
- O que deseja aprender: não as noções nem a linguagem dos estatutos de Deus, mas o caminho deles: “O modo de aplicá-los a mim e de me governar por eles. Ensina-me o caminho do meu dever, que teus estatutos prescrevem.”
“Em toda situação duvidosa, faze-me saber o que queres que eu faça. Deixa-me ouvir a palavra atrás de mim, dizendo: ‘Este é o caminho, andai por ele’” (Isaías 30:21).
- Como deseja ser ensinado: de um modo como nenhum homem poderia ensiná-lo: “Senhor, dá-me entendimento”. Como Deus da natureza, ele nos deu poderes e faculdades intelectuais.
Mas aqui nos é ensinado orar para que, como Deus da graça, nos dê entendimento para usar esses poderes e faculdades nas grandes coisas que pertencem à nossa paz, às quais somos avessos por causa da corrupção da natureza.
“Dá-me entendimento, um entendimento iluminado”; pois ter entendimento não santificado é tão inútil quanto não ter entendimento algum. Nem o espírito de revelação na palavra alcançará seu propósito se não tivermos o espírito de sabedoria no coração.
É a Cristo que devemos esse entendimento, pois “o Filho de Deus veio e nos deu entendimento” (1 João 5:20).
II. Ele promete fielmente que seria um bom aluno. Se Deus o ensinasse, tinha certeza de que aprenderia com proveito: “Guardarei a tua lei, o que jamais farei se Deus não me ensinar; por isso desejo ardentemente que me ensine”.
Se Deus, por seu Espírito, nos der entendimento correto e bom, seremos:
Constantes em nossa obediência: “Eu a guardarei até o fim, até o fim de minha vida, o que será a prova mais segura de sinceridade”. De nada adianta ao viajante seguir o caminho por algum tempo se não o seguir até o fim da jornada.
De coração em nossa obediência: “Eu a observarei de todo o coração”, com prazer e deleite, com vigor e resolução. Pelo caminho que todo o coração segue, segue também o homem inteiro; e esse deve ser o caminho dos mandamentos de Deus, pois guardá-los é a totalidade do homem.
Versículos 35 a 36
Antes ele havia pedido a Deus que iluminasse seu entendimento, para conhecer seu dever e não se enganar a respeito dele.
Aqui pede que Deus incline sua vontade e vivifique as faculdades ativas de sua alma, para que cumpra seu dever. Pois é Deus quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar, assim como o entender o que é bom (Filipenses 2:13). Tanto a boa cabeça quanto o bom coração vêm da boa graça de Deus, e ambos são necessários a toda boa obra. Observe aqui:
I. A graça pela qual ele ora: 1. Que Deus o torne capaz de cumprir seu dever: “Faze-me andar; fortalece-me para toda boa obra”. Como não somos suficientes por nós mesmos, devemos depender da graça de Deus, pois dele vem toda a nossa suficiência.
Deus põe seu Espírito em nós e, assim, nos faz andar em seus estatutos (Ezequiel 36:27); é isso que Davi pede aqui.
- Que Deus o torne disposto a cumprir o dever e, por sua graça, vença a aversão que naturalmente sente a ele: “Inclina meu coração para os teus testemunhos, para aquelas coisas que teus testemunhos prescrevem.”
“Não só me tornes disposto a cumprir meu dever, por ser algo que preciso fazer e de que, por isso, me empenho em tirar o melhor partido, mas faze-me desejar cumprir meu dever por ser conforme à nova natureza e realmente vantajoso para mim.”
O dever é cumprido com deleite quando o coração está inclinado a ele. É a graça de Deus que nos inclina; e, quanto mais relutantes nos percebemos para cumpri-lo, mais fervorosamente devemos pedir essa graça.
II. O pecado contra o qual ele ora é a cobiça. “Inclina meu coração a guardar teus testemunhos e refreia e mortifica a inclinação para a cobiça que existe em mim.”
Esse pecado se opõe a todos os testemunhos de Deus, pois o amor ao dinheiro é um pecado que constitui a raiz de muitos pecados, de todos os pecados. Portanto, os que desejam que o amor de Deus se enraíze neles devem arrancar de si, pela raiz, o amor ao mundo; pois a amizade do mundo é inimizade com Deus.
Veja como Deus trata as pessoas: não por coação, mas as atrai com cordas humanas, produzindo nelas inclinação para o bem e aversão ao mal.
III. Seu apelo para reforçar esta oração: “Senhor, conduze-me ao caminho de teus mandamentos e mantém-me nele, pois nele me deleito; por isso oro tão fervorosamente pela graça de andar nesse caminho.”
“Tu operaste em mim esse deleite pelo caminho de teus mandamentos; não operarás em mim a capacidade de andar neles e, assim, coroar tua própria obra?”
Versículo 37
Aqui: 1. Davi ora pela graça que refreia, para que seja impedido e mantido afastado daquilo que o atrapalharia no caminho de seu dever: “Desvia os meus olhos de contemplar a vaidade”.
As honras, os prazeres e os lucros do mundo são as vaidades cuja aparência e perspectiva desviam multidões dos caminhos da religião e da piedade.
O olho, quando se fixa nessas coisas, infecta o coração com amor por elas, e assim o coração se afasta de Deus e das coisas divinas.
Por isso, assim como devemos fazer uma aliança com nossos olhos e ordenar-lhes que não vagueiem atrás do que é perigoso, muito menos nele se fixem (Jó 31:1), também devemos orar para que Deus, por sua providência, mantenha a vaidade longe de nossa vista e, por sua graça, nos livre de nos enamorar dela ao vê-la.
- Davi ora pela graça que impulsiona, para que não apenas seja guardado de tudo o que obstruiria seu avanço rumo ao céu, mas também receba a graça necessária para avançar:
“Vivifica-me no teu caminho; vivifica-me para remir o tempo, aproveitar a oportunidade, avançar e cumprir todo dever com vivacidade e fervor de espírito.”
Contemplar a vaidade nos entorpece e retarda nosso passo; o viajante que se detém contemplando cada objeto que se apresenta a seus olhos não avançará pelo caminho; mas, se nossos olhos forem guardados do que nos desviaria, nosso coração será mantido voltado para o que nos estimulará.
Versículo 38
Aqui está: 1. O caráter de um homem bom, que é obra da graça de Deus nele: ele é servo de Deus, sujeito à sua lei e empregado em sua obra; isto é, devotado ao seu temor, entregue à sua direção e ao seu dispor, e ocupado com elevados pensamentos a respeito dele e com todos os atos de devoção que tendem à sua glória.
São na verdade servos de Deus aqueles que, embora tenham suas fraquezas e defeitos, são sinceramente devotados ao temor de Deus e têm todos os seus afetos e impulsos governados por esse temor; estão empenhados na religião e profundamente apegados a ela.
- A confiança que um homem bom tem em Deus, na dependência da palavra de sua graça para com ele. Os servos de Deus podem, com fé e humilde ousadia, orar para que Deus lhes estabeleça sua palavra, isto é, cumpra suas promessas para com eles no devido tempo e, enquanto isso, lhes dê certeza de que elas serão cumpridas.
Devemos orar por aquilo que Deus prometeu; não precisamos ser tão ambiciosos a ponto de pedir mais; não precisamos ser tão modestos a ponto de pedir menos.
Versículo 39
Aqui: 1. Davi ora contra o descrédito, como antes, no v. 22. Sabia que havia feito algo que poderia dar aos inimigos do Senhor ocasião de blasfemar, o que mancharia sua própria reputação e traria desonra à sua família.
Agora ele ora para que Deus, que tem nas mãos os corações e as línguas de todos os homens, tenha por bem impedir isso e livrá-lo de todas as suas transgressões, a fim de que não seja objeto do descrédito dos insensatos, o que ele temia (Salmos 39:8). Ou ele se refere ao descrédito de que seus inimigos injustamente o cobriam. Que sejam calados os lábios mentirosos deles.
- Ele apela para a bondade dos juízos de Deus: “Senhor, tu te assentas no trono, e teus juízos são retos e bons, justos e bondosos para com os que foram injustiçados; por isso recorro a ti contra as censuras injustas e sem bondade dos homens.” Pouco importa ser julgado pelo juízo humano enquanto quem nos julga é o Senhor.
Ou ainda: “Tua palavra, teus caminhos e tua santa religião são muito bons, mas os descréditos lançados contra mim recairão sobre eles; por isso, Senhor, afasta-os; não deixes que, ao me ferirem o flanco, firam a religião.”
Versículo 40
Aqui: 1. Davi professa o ardente afeto que tinha pela palavra de Deus: “Tenho ansiado por teus preceitos; não apenas os amei e me deleitei no que já alcancei, mas desejei ardentemente conhecê-los mais e cumpri-los melhor, e avanço continuamente rumo à perfeição”.
Experimentar a doçura dos preceitos de Deus só aumenta nosso anseio de conhecê-los mais intimamente. Davi recorre a Deus quanto a esse desejo intenso por seus preceitos: “Vê, assim tenho amado, assim tenho ansiado; tu sabes todas as coisas, sabes que assim me sinto”.
- Ele ora por graça que o capacite a corresponder a essa declaração: “Tu operaste em mim esse desejo que me consome; dá-me vida para que eu o leve adiante; vivifica-me em tua justiça, em teus caminhos justos, segundo tua justa promessa”.
Onde Deus operou o querer, operará o fazer; e onde operou o desejo, satisfará esse desejo.
- VAU.
Versículos 41 a 42
Aqui está: 1. A oração de Davi pela salvação do Senhor: “Senhor, tu és meu Salvador; em mim mesmo sou miserável, e só tu podes tornar-me feliz; venha a mim a tua salvação.”
“Apressa a salvação temporal para livrar-me das minhas angústias presentes, e apressa-me rumo à salvação eterna, dando-me as qualificações necessárias para ela e os penhores consoladores e antegozos dela.”
- A dependência de Davi da graça e da promessa de Deus para essa salvação. Esses são os dois pilares sobre os quais se edifica nossa esperança, e eles não nos falharão:
(1.) A graça de Deus: “Venham as tuas misericórdias, sim, a tua salvação.” Nossa salvação deve ser atribuída puramente à misericórdia de Deus, e não a qualquer mérito nosso. A vida eterna deve ser esperada como a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo (Judas 1:21).
“Senhor, pela fé tenho em vista as tuas misericórdias; que, pela oração, eu consiga o intento de fazê-las vir a mim.”
(2.) A promessa de Deus: “Que a salvação venha segundo a tua palavra, tua palavra de promessa. Confio na tua palavra e, por isso, posso esperar o cumprimento da promessa.” Não apenas nos é consentido confiar na palavra de Deus, mas nossa confiança nela é a condição para nos beneficiarmos dela.
- A expectativa de Davi da firme segurança que essa graça e promessa de Deus lhe dariam: “Assim terei com que responder àquele que lança descrédito sobre mim pela minha confiança em Deus, como se ela viesse a me enganar.”
Quando Deus salva aqueles que confiaram nele dos transtornos deles, cala efetivamente os que teriam envergonhado aquele conselho do pobre (Salmos 14:6), e seus descréditos serão silenciados para sempre quando a salvação dos santos estiver completa; então ficará evidente, sem contestação, que não foi em vão confiar em Deus.
Versículos 43 a 44
Aqui está: 1. O humilde pedido de Davi pela língua dos instruídos, para que soubesse falar uma palavra no tempo oportuno para a glória de Deus: “Não retires completamente de minha boca a palavra da verdade”.
Ele quer dizer: “Senhor, que a palavra da verdade esteja sempre em minha boca; concede-me a sabedoria e a coragem necessárias para me capacitar tanto a usar meu conhecimento na instrução de outros quanto, como o bom pai de família, a tirar do meu tesouro coisas novas e velhas e professar minha fé sempre que eu for chamado a fazê-lo.”
Precisamos orar a Deus para que nunca tenhamos medo ou vergonha de reconhecer suas verdades e seus caminhos, nem o neguemos diante dos homens. Davi percebia que às vezes ficava sem saber o que dizer: a palavra da verdade não lhe vinha tão prontamente quanto deveria.
Por isso ora: “Senhor, não permitas que ela me seja tirada por completo; deixa-me ter sempre à mão tanto dela quanto for necessário para cumprir devidamente meu dever.”
- Sua humilde declaração de ter um coração reto, sem o qual a língua dos instruídos, por mais útil que seja a outros, de nada nos servirá.
(1.) Davi declara sua confiança em Deus: “Senhor, torna-me pronto e poderoso nas Escrituras, pois tenho esperado nos juízos da tua boca e, se não os tiver à mão, meu apoio e minha defesa terão desaparecido.”
(2.) Declara sua resolução de permanecer fiel ao dever pela força da graça de Deus: “Assim guardarei continuamente a tua lei. Se tiver tua palavra não só no coração, mas também na boca, farei tudo o que devo fazer e permanecerei completo em toda a tua vontade.”
Assim o homem de Deus será perfeito, plenamente preparado para toda boa palavra e obra, 2 Timóteo 3:17; Colossenses 3:16. Observe como ele resolve guardar a lei de Deus:
[1.] Continuamente, sem leviandade. Deus deve ser servido num curso constante de obediência todos os dias e durante todo o dia.
[2.] Para todo o sempre, sem retroceder. Nunca devemos nos cansar de fazer o bem. Se o servirmos até o fim de nosso tempo na terra, o serviremos no céu pelas eras sem fim da eternidade; assim guardaremos sua lei para todo o sempre.
Ou assim: “Senhor, deixa-me ter a palavra da verdade em minha boca, para que eu confie esse depósito sagrado à geração que surge (2 Timóteo 2:2) e, por meio dela, ele seja transmitido às gerações seguintes; assim tua lei será guardada para todo o sempre”, isto é, de geração em geração.
É o que diz a promessa (Isaías 59:21): Minha palavra em sua boca não se afastará da boca de sua descendência nem da descendência de sua descendência.
Versículos 45 a 46
Podemos observar nestes versículos: 1. O afeto pela lei de Deus que Davi experimentava: “Busco teus preceitos, v. 45. Desejo conhecer e cumprir meu dever e, por isso, consulto tua palavra; faço tudo o que posso para compreender qual é a vontade do Senhor e descobrir as indicações de seu pensamento.”
“Busco teus preceitos, pois os tenho amado, v. 47, 48. Não apenas dou minha anuência a eles como bons, mas me deleito neles como bons para mim.” Todos os que amam a Deus amam seu governo e, por isso, amam todos os seus mandamentos.
- O que ele esperava disso. Aqui, apoiado na força da graça de Deus, promete a si mesmo cinco coisas: (1.) Ser livre e sentir-se à vontade em seu dever:
“Andarei em liberdade, livre daquilo que é mau, sem estar preso às amarras de minhas próprias corrupções, e livre para aquilo que é bom, praticando-o não por coação, mas de boa vontade.”
O serviço do pecado é perfeita escravidão; o serviço de Deus é perfeita liberdade. A libertinagem é servidão ao maior dos tiranos; a obediência conscienciosa é liberdade para o mais humilde dos prisioneiros (João 8:32, 36; Lucas 1:74, 75).
(2.) Ser ousado e corajoso no cumprimento do dever: “Falarei também de teus testemunhos diante dos reis.” Antes de Davi chegar ao trono, às vezes os reis eram seus juízes, como Saul e Aquis.
Mas, se fosse chamado à presença deles para dar a razão da esperança que havia nele, falaria dos testemunhos de Deus, professaria edificar sua esperança sobre eles e faria deles seus conselheiros, sua guarda, sua coroa e tudo para si.
Nunca devemos ter medo de professar nossa religião, mesmo que isso nos exponha à cólera dos reis. Devemos falar dela como daquilo segundo o qual viveremos e morreremos, como os três jovens diante de Nabucodonosor (Daniel 3:16; Atos 4:20).
Depois que Davi chegou ao trono, às vezes os reis eram seus companheiros; visitavam-no, e ele retribuía as visitas. Mas ele não falava de tudo, menos de religião, só para agradá-los, por receio de ofendê-los e tornar-lhes a conversa incômoda.
Não: os testemunhos de Deus serão o principal assunto de sua conversa com os reis, não apenas para mostrar que não se envergonhava de sua religião, mas também para instruí-los nela e atraí-los a ela.
É bom que os reis ouçam acerca dos testemunhos de Deus, e falar deles adornará a conversa dos próprios príncipes.
(3.) Ser alegre e satisfeito no cumprimento do dever (v. 47): “Eu me deleitarei em teus mandamentos, em ter comunhão com eles e em me conformar a eles. Nunca ficarei tão satisfeito comigo mesmo como quando fizer aquilo que agrada a Deus.”
Quanto mais deleite temos no serviço de Deus, mais nos aproximamos da perfeição a que aspiramos.
(4.) Ser diligente e vigoroso no cumprimento do dever. “Levantarei minhas mãos a teus mandamentos”, o que denota não apenas um desejo intenso por eles (Salmos 143:6): “Eu me agarrarei a eles como quem teme perdê-los ou deixá-los escapar”; mas uma aplicação atenta da mente à sua observância:
“Porei minhas mãos ao mandamento, não apenas para louvá-lo, mas para praticá-lo; ou melhor, levantarei minhas mãos a ele, isto é, empregarei toda a força que tenho para cumpri-lo.” As mãos que pendem por preguiça e desânimo serão erguidas (Hebreus 12:12).
(5.) Ser atento e ponderado no cumprimento do dever (v. 48): “Meditarei em teus estatutos; não apenas me entreterei pensando neles como assuntos de especulação, mas maquinarei como observá-los da melhor maneira.”
Assim ficará evidente que na verdade amamos os mandamentos de Deus, se aplicarmos a eles tanto a mente quanto as mãos.
- ZAIN.
Versículo 49
Davi apresenta aqui a Deus, em oração, duas razões para pedir a misericórdia e a graça que esperava segundo a palavra pela qual seus pedidos eram guiados:
- Que Deus lhe havia dado a promessa na qual punha sua esperança: “Senhor, não desejo nada além de que te lembres da tua palavra ao teu servo e faças como disseste”; veja 1 Crônicas 17:23.
“Tu és sábio e, por isso, levarás a cabo o que propuseste e não mudarás teu conselho. Tu és fiel e, por isso, realizarás o que prometeste e não quebrarás tua palavra.”
Os que fazem das promessas de Deus sua porção podem, com humilde ousadia, fazer delas seu apelo. “Senhor, não é essa a palavra que disseste? E não a cumprirás?” (Gênesis 32:9; Êxodo 33:12).
- Que Deus, que lhe havia dado a promessa na palavra, havia, por sua graça, operado nele uma esperança nessa promessa, capacitado Davi a depender dela e elevado suas expectativas de grandes coisas por meio dela.
Acaso Deus acendeu em nós desejos de bênçãos espirituais mais do que de quaisquer coisas boas temporais e não será bondoso o bastante para satisfazer esses desejos? Acaso ele nos encheu de esperanças por essas bênçãos e não será justo o bastante para realizar essas esperanças?
Aquele que, por seu Espírito, operou a fé em nós operará em nosso favor segundo a nossa fé e não nos decepcionará.
Versículo 50
Aqui está a experiência de Davi quanto ao benefício da palavra. 1. Como meio de sua santificação: “Tua palavra me vivificou.”
“Ela me deu vida quando estava morto no pecado; muitas vezes me tornou cheio de vida quando estava morto no cumprimento do dever; vivificou-me para o que é bom quando relutava e lhe era avesso, e vivificou-me na prática do bem quando estava frio e indiferente.”
- Por isso, como meio de seu consolo quando estava aflito e precisava de algo que o sustentasse: “Porque tua palavra me vivificou em outras ocasiões, ela me consolou então.”
A palavra de Deus contém muito que traz consolo na aflição; mas somente os que experimentaram, em alguma medida, o poder vivificador da palavra podem aplicá-la a si mesmos.
Se, pela graça, ela nos tornar santos, há nela o suficiente para nos dar tranquilidade em todas as situações e sob todos os desfechos.
Versículo 51
Davi nos diz aqui, e nos será útil saber: 1. Que foi alvo de zombaria por sua religião. Embora fosse um homem honrado, de grande prudência, e tivesse prestado serviços notáveis a seu país, ainda assim, por ser devoto e consciencioso, os orgulhosos faziam dele alvo de grande escárnio.
Eles o ridicularizavam, caçoavam dele e faziam tudo para expô-lo ao desprezo. Riam dele por orar e chamavam isso de fala religiosa afetada; por sua seriedade, que chamavam de melancolia; e por seu rigor, que chamavam de escrúpulo desnecessário. Eram os orgulhosos que se assentavam no assento do escarnecedor e se gabavam disso.
- Que, ainda assim, a zombaria não o havia afastado de sua religião: “Fizeram tudo o que puderam para me levar a abandoná-la por vergonha, mas nada disso me abala: não me desviei da tua lei apesar de tudo isso; mas, se isso é ser vil” (como disse quando Mical fez dele alvo de grande escárnio), “serei ainda mais vil”.
Ele não apenas não havia abandonado inteiramente a lei, mas nem sequer se havia desviado dela. Nunca devemos recuar de dever algum nem deixar escapar uma oportunidade de fazer o bem por medo do descrédito lançado pelos homens ou de suas vituperações.
O viajante segue seu caminho embora os cães ladrem para ele. Suportam bem pouco por Cristo aqueles que não conseguem suportar uma palavra dura por ele.
Versículo 52
Quando Davi era ridicularizado por sua piedade, não apenas se mantinha firme em sua integridade, mas também: 1. Consolava-se. Não apenas suportava o descrédito, mas o suportava com alegria.
O descrédito não perturbava sua paz nem interrompia o repouso de seu espírito em Deus. Consolava-o pensar que o suportava por causa de Deus e que seus piores inimigos não conseguiam encontrar contra ele nenhum motivo de acusação, a não ser na questão de seu Deus (Daniel 6:5).
Os que são ridicularizados por sua fidelidade à lei de Deus podem consolar-se com isto: o descrédito por causa de Cristo acabará sendo para eles uma riqueza maior do que os tesouros do Egito.
- Aquilo com que ele se consolava era a lembrança dos antigos juízos de Deus, dos atos de sua providência relativos a seu povo no passado, tanto de misericórdia em favor deles quanto de justiça contra seus perseguidores.
Devemos lembrar, para nosso consolo e ânimo no caminho de Deus, seus antigos juízos, tanto de nossos primeiros dias quanto dos dias de nossos pais, pois ele é continuamente o mesmo.
Versículo 53
Aqui está: 1. O caráter das pessoas ímpias; ele se refere às que são aberta e flagrantemente ímpias: elas abandonam a lei de Deus. Todo pecado é transgressão da lei, mas uma conduta e um caminho de pecado deliberado e assumido equivalem a abandonar a lei por completo e a lançá-la fora.
- A impressão que a impiedade dos ímpios causou em Davi: ela o assustou e o deixou atônito. Ele estremecia ao pensar na desonra causada por isso a Deus, na satisfação dada por isso a Satanás e nos danos causados por isso às almas dos homens.
Ele temia as consequências disso tanto para os próprios pecadores (e clamava: “Ó, não reúnas minha alma com pecadores! Que meu inimigo seja como o ímpio!”) quanto para os interesses do reino de Deus entre os homens, que ele receava que, por isso, fossem afundados e arruinados.
Ele não diz: “O horror se apoderou de mim por causa dos desígnios cruéis deles contra mim”, mas “por causa do desprezo que demonstram por Deus e por sua lei”. O pecado é algo monstruoso e horrível aos olhos de todos os santificados (Jeremias 5:30; 23:14; Oseias 6:10; Jeremias 2:12).
Versículo 54
Aqui está: 1. O estado e a condição de Davi: ele estava na casa de sua peregrinação. Isso pode referir-se ou a seu transtorno particular (muitas vezes era lançado de um lado para outro, levado às pressas e obrigado a fugir) ou a seu quinhão em comum com todos.
Este mundo é a casa da nossa peregrinação, a casa em que somos peregrinos; é nosso tabernáculo; é nossa hospedaria. Devemos reconhecer que somos estrangeiros e peregrinos na terra, que aqui não estamos em casa nem permaneceremos por muito tempo. Até o palácio de Davi era apenas a casa de sua peregrinação.
- Seu consolo nessa condição: “Teus estatutos têm sido meus cânticos, com os quais me entretenho aqui.” Assim os viajantes costumam afastar o pensamento do cansaço e aliviar um pouco o tédio da viagem cantando de vez em quando uma canção agradável.
Davi era o suave cantor de Israel, e aqui nos é dito de onde tirava seus cânticos: todos eram emprestados da palavra de Deus. Os estatutos de Deus lhe eram tão familiares quanto as canções que alguém costuma cantar; e ele mantinha comunhão com eles nas solidões de sua peregrinação.
Eram-lhe tão agradáveis quanto canções e punham em seu coração mais contentamento do que sentem os que cantam ao som da viola (Amós 6:5). Há, então, alguém aflito? Que cante os estatutos de Deus e veja se não consegue, cantando, afastar a dor (Salmos 138:5).
Versículos 55 a 56
Aqui: 1. A comunhão de Davi com a palavra de Deus. Ele a mantinha na mente e, a cada ocasião, voltava a se lembrar dela. O nome de Deus é a revelação que ele fez de si a nós em sua palavra e por meio dela.
Esse é seu memorial para todas as gerações; por isso, devemos conservá-lo sempre na memória: lembrá-lo à noite, quando estamos acordados na cama e conversamos com nosso próprio coração.
Enquanto os outros dormiam, Davi se lembrava do nome de Deus e, ao repetir essa lição, conhecia-o cada vez melhor; na noite da aflição, era disso que se lembrava.
- O zelo consciencioso que ele tinha de se conformar à palavra. A devida lembrança do nome de Deus, anteposto à sua lei, exerce grande influência sobre a observância dessa lei: Davi se lembrou do nome de Deus à noite e, por isso, foi zeloso em guardar sua lei durante todo o dia.
Como nos será consolador recordar isso, se nosso próprio coração puder testemunhar que assim nos lembramos do nome de Deus e guardamos sua lei!
- O benefício que recebeu disso (v. 56): “Isto tive porque guardei teus preceitos.” Alguns entendem isso de modo indefinido: “Isto tive” (isto é, tive o que me satisfazia; tive tudo o que é consolador) porque guardei teus preceitos.
Repare: todos os que fizeram da religião sua ocupação reconhecerão que ela lhes trouxe bom retorno e que ganharam com ela mais do que se pode dizer.
Outros relacionam a frase ao que vem imediatamente antes: “Tive o consolo de guardar tua lei porque a guardei.” Repare: a obra de Deus é seu próprio salário.
Um coração disposto a obedecer à vontade de Deus é uma recompensa valiosíssima pela obediência; e quanto mais fazemos, mais podemos e faremos no serviço de Deus. O ramo que dá fruto é tornado mais frutífero (João 15:2).
- CHETH.
Versículo 57
Podemos deduzir daqui o caráter de um homem piedoso: 1. Ele faz do favor de Deus sua felicidade: “Tu és minha porção, ó Senhor!” Outros põem sua felicidade nos bens e honras deste mundo.
Sua porção está nesta vida; não olham além; não desejam mais nada; esses são os seus bens (Lucas 16:25). Mas todos os santificados tomam o Senhor por porção de sua herança e de seu cálice, e nada menos os satisfará.
Davi pode apelar a Deus a esse respeito: “Senhor, tu sabes que te escolhi como minha porção e dependo de ti para me fazer feliz.”
- Ele faz da lei de Deus sua regra: “Eu disse que guardaria tuas palavras; e o que disse, pela tua graça, farei e permanecerei nisso até o fim.”
Repare: os que tomam Deus por sua porção devem tomá-lo por seu príncipe e jurar-lhe lealdade; e, tendo prometido guardar sua palavra, devemos lembrar-nos com frequência de nossa promessa (Salmos 39:1).
Versículo 58
No versículo anterior, Davi refletiu sobre suas alianças com Deus; aqui reflete sobre as orações que lhe fez e renova sua súplica. Observe:
- Pelo que orou. Tendo tomado Deus por sua porção, suplicou-lhe o favor, sabendo que o perdera por sua culpa, que era indigno dele e que, ainda assim, estaria arruinado sem ele, mas seria feliz para sempre se o alcançasse.
Não podemos exigir o favor de Deus como uma dívida, mas devemos suplicá-lo humildemente, pedindo que Deus não só se reconcilie conosco, mas também nos aceite e nos sorria.
Ele ora: “Tem misericórdia de mim, perdoando o que fiz de errado e dando-me graça para agir melhor no futuro.”
Como orou: de todo o coração, como alguém que sabia dar valor à bênção que pedia. A alma agraciada está inteiramente voltada para o favor de Deus e, por isso, o pede com insistência. “Não te deixarei ir se não me abençoares.”
Aquilo a que ele apelou: a promessa de Deus: “Tem misericórdia de mim, segundo a tua palavra. Desejo a misericórdia prometida e confio na promessa para recebê-la.”
Os que são governados pelos preceitos da palavra e estão resolvidos a guardá-los (v. 57) podem apelar às promessas da palavra e encontrar consolo nelas.
Versículos 59 a 60
Davi havia dito que guardaria a palavra de Deus, v. 57, e disse bem; agora nos conta como e por que método levou adiante essa resolução.
- Pensou em seus caminhos. Pensou de antemão no que deveria fazer, ponderando a vereda de seus pés, Provérbios 4:26, para andar com segurança e não ao acaso. Pensou depois no que havia feito, refletiu sobre a vida passada e recordou os caminhos por onde andara e os passos que dera.
A palavra indica um pensamento fixo e persistente. Alguns veem nela uma alusão aos que fazem bordados, muito exatos e zelosos em cobrir o menor defeito; ou aos que fazem as contas e calculam consigo mesmos: “Quanto devo? Quanto valho?”
“Não pensei em meus bens (como o avarento, Salmos 49:11), mas em meus caminhos; não no que tenho, mas no que faço”, pois o que fazemos nos seguirá até outro mundo, quando tivermos de deixar para trás o que possuímos.
Muitos são bastante críticos ao comentar os caminhos alheios, mas nunca pensam nos próprios; que cada um prove a própria obra.
- Voltou os pés para os testemunhos de Deus. Decidiu fazer da palavra de Deus sua regra e andar segundo essa regra. Desviou-se das veredas secundárias para as quais havia se desviado e voltou aos testemunhos de Deus.
Não voltou para eles apenas o olho, mas os pés; voltou suas afeições ao amor pela palavra de Deus e sua conduta à prática dela. O rumo e as inclinações de sua alma se dirigiam aos testemunhos de Deus, e sua conduta era governada por eles. As reflexões arrependidas devem produzir resoluções piedosas.
- Fez isso imediatamente e sem hesitação, v. 60: “Apressei-me e não demorei”. Quando somos convencidos do pecado, devemos bater enquanto o ferro está quente e não pensar, como Félix, em adiar para uma ocasião mais conveniente a ação que essas convicções exigem.
Quando somos chamados ao dever, não devemos perder tempo, mas começar hoje, enquanto se chama hoje.
Ora, esse relato que Davi faz de si pode referir-se ou à sua prática constante, todos os dias — à noite refletia sobre seus caminhos, pela manhã dirigia os pés aos testemunhos de Deus e fazia sem demora o que sua mão encontrava de bom para fazer —, ou ao seu primeiro contato com Deus e com a religião.
Foi quando começou a deixar de lado a vaidade da infância e da juventude e a lembrar-se de seu Criador; essa bendita mudança foi assim operada pela graça de Deus. Repare: (1.) A conversão começa na ponderação séria, Ezequiel 18:28; Lucas 15:17.
(2.) A ponderação deve terminar numa conversão sólida. De que nos serve ter pensado em nossos caminhos se não voltarmos os pés, com toda a pressa, para os testemunhos de Deus?
Versículo 61
Aqui está: 1. A malícia dos inimigos de Davi contra ele. Eram homens ímpios, que o odiavam por sua piedade. Havia bandos ou tropas deles coligados contra ele.
Eles lhe causaram todo o dano que puderam; roubaram-no; depois de tentarem tirar-lhe o bom nome (v. 51), lançaram-se sobre seus bens e o despojaram deles, ou por saque em tempo de guerra ou por multas e confiscos sob aparência de legalidade.
Saul (ao que parece) se apoderou de seus pertences, Absalão se apoderou de seu palácio, e os amalequitas saquearam Ziclague. Os bens mundanos são algo de que podemos ser roubados. Davi, embora fosse homem de guerra, não pôde conservar seus próprios bens. Os ladrões arrombam e furtam.
- O testemunho da consciência de Davi em seu favor, de que se mantivera firme em sua religião quando fora privado de tudo mais, assim como Jó quando os bandos dos caldeus e dos sabeus o haviam roubado: “Mas não me esqueci da tua lei.”
Nenhuma preocupação nem dor deve expulsar a palavra de Deus de nossa mente nem impedir o prazer consolador que nela encontramos e nossa comunhão com ela.
Tampouco devemos jamais ter pior conceito dos caminhos de Deus por qualquer transtorno que encontremos neles, nem temer que no fim saiamos perdendo por nossa religião, embora agora possamos perder por ela.
Versículo 62
Embora Davi se dedique muito à oração neste salmo, ainda assim não negligenciou o dever de dar graças; pois quem ora muito terá muitos motivos para agradecer. Veja:
- Quanto ele atentava para a mão de Deus em suas ações de graças. Não diz: “Darei graças pelos favores que me concedes, dos quais recebo consolo”, mas: “Por causa dos teus justos juízos, todo o dispor de tua providência com sabedoria e equidade, dos quais tu recebes a glória.”
Devemos dar graças pela afirmação da honra de Deus e pelo cumprimento de sua palavra em tudo o que ele faz no governo do mundo.
- Quanto o coração de Davi estava empenhado em suas ações de graças. Ele se levantava à meia-noite para agradecer a Deus. Pensamentos grandiosos e bons o mantinham acordado e o revigoravam em lugar do sono.
Era tão zeloso pela honra de Deus que, enquanto os outros estavam na cama, ele se ajoelhava em suas devoções. Não procurava ser visto pelos homens, mas dava graças em segredo, onde nosso Pai celestial vê.
Havia louvado a Deus nos átrios da casa do Senhor e, ainda assim, o fará em seu quarto. O culto público não nos dispensa do culto secreto.
Quando Davi percebia seu coração comovido pelos juízos de Deus, oferecia imediatamente esses afetos a Deus em atos concretos de adoração. Não adiava, para que não esfriassem.
Contudo, observe sua reverência: não continuava deitado enquanto dava graças, mas se levantava da cama, talvez no frio e no escuro, para fazê-lo com maior solenidade. E veja como administrava bem o tempo: quando não conseguia ficar deitado e dormir, levantava-se para orar.
Versículo 63
Davi muitas vezes havia expressado o grande amor que tinha por Deus; aqui expressa o grande amor que tinha pelo povo de Deus; e observe:
- Por que os amava: não tanto por serem seus melhores amigos, os mais firmes na defesa de sua causa e os mais prontos a servi-lo, mas por temerem a Deus e guardarem seus preceitos, honrando assim a Deus e ajudando a sustentar seu reino entre os homens.
Nosso amor pelos santos é então sincero quando os amamos por aquilo que vemos de Deus neles e pelo serviço que prestam a ele.
- Como demonstrava seu amor por eles: era companheiro deles. Não apenas tinha comunhão espiritual com eles na mesma fé e esperança, mas também participava com eles das santas ordenanças nos átrios do Senhor, onde se encontram ricos e pobres, o príncipe e o camponês.
Compartilhava suas alegrias e tristezas (Hebreus 10:33); conversava com eles com familiaridade, partilhava com eles as próprias experiências e consultava as experiências deles.
Não apenas tomava como companheiros os que temiam a Deus, mas se dignava a ser companheiro de todos, de qualquer um que o temesse, onde quer que os encontrasse.
Embora fosse rei, convivia com os mais pobres de seus súditos que temiam a Deus (Salmos 15:4; Tiago 2:1).
Versículo 64
Aqui: 1. Davi apela para o fato de que Deus é bom para com todas as criaturas conforme suas necessidades e capacidades; assim como o céu está cheio da glória de Deus, assim a terra está cheia de sua misericórdia, cheia de provas de sua compaixão e generosidade.
Não só a terra de Canaã, onde Deus é conhecido e adorado, mas também toda a terra está cheia de sua misericórdia, embora em muitas de suas regiões não lhe prestem homenagem.
Não apenas os filhos dos homens sobre a terra, mas até as criaturas inferiores experimentam a bondade de Deus. Suas ternas misericórdias estão sobre todas as suas obras.
- Por isso, ora para que Deus seja bom para com ele segundo sua necessidade e capacidade: “Ensina-me teus estatutos. Tu alimentas os filhotes dos corvos que clamam, dando-lhes o alimento apropriado; e não me alimentarás com o alimento espiritual, o pão da vida, de que minha alma precisa, pelo qual anseia e sem o qual não pode subsistir?”
“A terra está cheia da tua misericórdia; e o céu também não está? Não me darás, então, bênçãos espirituais nos lugares celestiais?” Um coração cheio de graça encontrará em qualquer coisa uma razão para reforçar um pedido de instrução divina. Certamente, quem não deixa suas aves sem alimento não deixará seus filhos sem ensino.
- TETH.
Versículos 65 a 66
Aqui: 1. Davi reconhece com gratidão a bondade com que Deus o tratou durante todo esse tempo: “Trataste bem o teu servo”. Seja como for que Deus nos tenha tratado, devemos reconhecer que nos tratou bem, melhor do que merecemos, sempre por amor e com o desígnio de promover nosso bem.
Em muitas ocasiões Deus nos fez bem além do que esperávamos. Fez bem a todos os seus servos; nenhum deles jamais se queixou de que Deus o tivesse tratado com dureza.
“Trataste-me bem, não só segundo tua misericórdia, mas segundo tua palavra.” Os favores divinos se mostram mais belos quando comparados com a promessa e vistos como procedentes dessa fonte.
- Com base nessas experiências, fundamenta um pedido de instrução divina: “Ensina-me bom juízo e conhecimento, para que, pela tua graça, eu possa retribuir em alguma medida conforme o benefício que me foi feito”.
“Ensina-me um bom gosto” (assim significa a palavra), um bom paladar, para discernir o que difere e distinguir a verdade da falsidade, o bem do mal; pois o ouvido prova as palavras como a boca saboreia o alimento.
Devemos orar a Deus por uma mente sadia, para que nossos sentidos espirituais sejam exercitados, Hebreus 5:14. Muitos têm conhecimento, mas pouco juízo; quem possui ambos está bem fortalecido contra as armadilhas de Satanás e bem equipado para servir a Deus e à sua geração.
- Esse pedido é reforçado com um apelo: “Pois tenho crido nos teus mandamentos, recebido-os, anuído que são bons e me submetido ao seu governo; por isso, Senhor, ensina-me”. Onde Deus deu um bom coração, pode-se pedir-lhe com fé também uma boa cabeça.
Versículo 67
Davi nos conta aqui o que experimentou: 1. As tentações de uma condição próspera: “Antes de ser afligido, quando eu vivia em paz e abundância e não conhecia tristeza, desviei-me de Deus e de meu dever.”
Pecar é desviar-se; e temos maior tendência a nos afastar de Deus quando estamos confortáveis e nos julgamos em casa no mundo.
A prosperidade é a infeliz ocasião de muita iniquidade; torna as pessoas presunçosas, indulgentes com a carne, esquecidas de Deus, apaixonadas pelo mundo e surdas às censuras da palavra. Veja Salmos 30:6.
É bom que, ao sermos afligidos, nos lembremos de como e em que nos desviamos antes da aflição, para que correspondamos ao propósito dela.
- O benefício da condição de aflição: “Agora tenho guardado tua palavra e assim fui trazido de volta dos meus desvios.” Deus muitas vezes usa as aflições como meio de trazer de volta a si os que se desviaram dele.
As aflições santificadas nos humilham por causa do pecado e nos mostram a vaidade do mundo; abrandam o coração e abrem o ouvido à disciplina. A angústia do filho pródigo o fez primeiro cair em si e depois voltar ao pai.
Versículo 68
Aqui: 1. Davi louva a bondade de Deus e lhe dá a glória por ela: “Tu és bom e fazes o bem”. Todos os que conhecem a Deus de algum modo e têm trato com ele reconhecerão que ele faz o bem e, por isso, concluirão que ele é bom.
As correntes da bondade divina são tão numerosas e correm com tal abundância e força para todas as criaturas que devemos concluir que sua fonte, no próprio Deus, é inesgotável. Não podemos conceber quanto bem nosso Deus faz a cada dia, muito menos quão bom ele é. Reconheçamos isso com admiração, amor santo e gratidão.
- Davi ora pela graça de Deus e pede para estar sob a direção e influência dessa graça: “Ensina-me os teus estatutos”. “Senhor, tu fazes o bem a todos, és o generoso benfeitor de todas as criaturas; este é o bem que te peço que me faças: instrui-me no meu dever, inclina-me a ele e capacita-me a cumpri-lo.”
“Tu és bom e fazes o bem; Senhor, ensina-me os teus estatutos, para que eu seja bom e faça o bem, tenha um bom coração e viva uma boa vida.” É um ânimo para os pobres pecadores esperarem que Deus lhes ensine o seu caminho, pois ele é “bom e reto”, Salmos 25:8.
Versículos 69 a 70
Davi nos conta aqui como reagiu aos soberbos e perversos ao seu redor: 1. Não temia a maldade deles nem deixou que ela o afastasse do dever. “Eles forjaram uma mentira contra mim.” Assim, pretendiam tirar-lhe o bom nome.
Ou melhor, tudo o que temos no mundo, até a própria vida, pode ser posto em perigo por quem não tem escrúpulos em forjar uma mentira. Os soberbos invejavam a reputação de Davi, porque ela os ofuscava, e por isso faziam tudo o que podiam para manchá-lo. Orgulhavam-se de pisoteá-lo.
Por isso, persuadiram-se de que não era pecado contar uma mentira deliberada, se ao menos pudesse expô-lo ao desprezo. Sua astúcia perversa forjou mentiras, inventou histórias sem a menor aparência de verdade, para servir a seus desígnios perversos.
E o que Davi fez quando assim mentiram a seu respeito? Ele suportará isso com paciência; guardará o preceito que o proíbe de retribuir insulto com insulto e, de todo o coração, ficará quieto em silêncio.
Prosseguirá em seu dever com constância e firmeza: “Que digam o que quiserem; guardarei teus preceitos e não temerei seu descrédito.”
- Não invejava a prosperidade deles nem deixou que ela o atraísse para longe do dever. “O coração deles é gordo como sebo.” Os soberbos viviam tranquilos (Salmos 123:4); estavam cheios do mundo, de suas riquezas e prazeres. Isso os tornava:
(1.) Irrefletidos, seguros de si e embrutecidos; já não sentiam nada. A expressão é usada assim em Isaías 6:10: “Engorda o coração deste povo.” Não percebiam o toque da palavra de Deus nem de sua vara.
(2.) Sensuais e dados aos prazeres: “Seus olhos saltam de tanta gordura” (Salmos 73:7); “eles se espojam nos prazeres dos sentidos e se contentam com eles como seu maior bem; que lhes façam bom proveito. Eu não trocaria de condição com eles.”
“Deleito-me em tua lei; firmo minha segurança nas promessas da palavra de Deus e encontro prazer suficiente na comunhão com Deus, infinitamente preferível a todos os prazeres deles.” Os filhos de Deus, que conhecem os prazeres espirituais, não precisam invejar os filhos deste mundo por seus prazeres carnais.
Versículo 71
Veja aqui: 1. Que tem sido a sorte dos melhores santos serem afligidos. Os orgulhosos e os ímpios viviam na pompa e no prazer, enquanto Davi, embora permanecesse junto de Deus e fiel ao seu dever, vivia continuamente em aflição. “Águas de um cálice cheio são espremidas” para o povo de Deus, Salmos 73:10.
- Que ser afligido tem sido proveitoso para o povo de Deus. Davi podia falar por experiência: “Foi bom para mim”. Por suas aflições, aprendera muitas boas lições e fora levado a cumprir muitos bons deveres; sem elas, as lições não teriam sido aprendidas nem os deveres cumpridos.
Por isso Deus o visitou com aflição, para que aprendesse os estatutos divinos; e a intenção se cumpriu: as aflições contribuíram para o aprimoramento de seu conhecimento e de sua graça. Quem o castigou o ensinou. “A vara e a censura dão sabedoria.”
Versículo 72
Esse é um motivo pelo qual Davi considerava que, quando aprendeu os estatutos de Deus por meio de suas aflições, o proveito compensou tão amplamente a perda que ele realmente saiu ganhando com elas; pois a lei de Deus, que ele conheceu por meio da aflição, era para ele melhor do que todo o ouro e a prata que perdera por causa dela.
- Davi tinha apenas uma pequena parte da palavra de Deus, em comparação com o que temos, mas veja quanto a estimava! Como somos indesculpáveis, então, nós que temos completos tanto o Antigo quanto o Novo Testamento e, ainda assim, os consideramos coisa estranha!
Observe: por isso ele estimava a lei, porque é a lei da boca de Deus, a revelação de sua vontade, sancionada por sua autoridade.
- Davi tinha muito ouro e prata em comparação conosco, mas veja quão pouco os estimava! Suas riquezas aumentaram e, ainda assim, ele não pôs nelas o coração, mas na palavra de Deus.
Ela era melhor para ele: proporcionava-lhe prazeres melhores, sustento melhor e herança melhor do que todos os tesouros de que era senhor.
Quem leu os Salmos de Davi e o Eclesiastes de Salomão, e crê neles, não pode deixar de preferir a palavra de Deus muito acima da riqueza deste mundo.
- JOD.
Versículo 73
Aqui: 1. Davi adora a Deus como o Deus da natureza e o autor de sua existência: “Tuas mãos me fizeram e me formaram”, Jó 10:8. Todo homem é, na verdade, obra das mãos de Deus assim como o primeiro homem foi, Salmos 139:15, 16.
“Tuas mãos não só me fizeram e me deram existência, sem o que eu jamais teria existido, mas também me formaram e me deram esta existência, esta existência nobre e excelente, dotada destes poderes e faculdades”; e devemos reconhecer que fomos feitos de modo assombroso e admirável.
- Davi se dirige a Deus como o Deus da graça e pede que seja o autor de sua existência nova e melhor. Deus nos fez para servi-lo e desfrutar dele; mas, pelo pecado, nós mesmos nos tornamos incapazes de servi-lo e indispostos a desfrutar dele. Precisamos de uma natureza nova e divina; do contrário, teríamos tido a natureza humana em vão.
Por isso Davi ora: “Senhor, já que me fizeste pelo teu poder para a tua glória, faz-me de novo pela tua graça, para que eu corresponda aos fins de minha criação e viva com algum propósito: Dá-me entendimento, para que eu aprenda os teus mandamentos”.
O meio pelo qual Deus recupera e assegura seu interesse nos homens é dar-lhes entendimento; pois por essa porta ele entra na alma e toma posse dela.
Versículo 74
Aqui está: 1. A confiança desse homem bom na esperança da salvação de Deus: “Esperei em tua palavra; e vi que não foi em vão. Ela não me falhou, nem foram frustradas as expectativas que nela depositei. É uma esperança que não envergonha, mas traz satisfação no presente e, por fim, pleno desfrute.”
- A participação de outros homens bons com ele na alegria dessa salvação: “Os que te temem se alegrarão quando me virem aliviado por minha esperança em tua palavra e liberto conforme minha esperança.”
Os consolos que alguns filhos de Deus têm nele e os favores que dele receberam devem ser motivo de alegria para os demais filhos de Deus. Paulo muitas vezes expressou a esperança de que fossem rendidas graças por muitos pela graça que Deus lhe concedera (2 Coríntios 1:11; 4:15).
Ou isso pode ser entendido de modo mais geral: as pessoas boas se alegram ao se ver umas às outras; agradam-se especialmente daquelas que se destacam por sua esperança na palavra de Deus.
Versículo 75
Davi continua em aflição e, nessa condição, reconhece: 1. Que seu pecado recebeu justa correção: “Sei, ó Senhor, que teus juízos são retos”; são a própria justiça.
De qualquer modo que Deus tenha por bem nos afligir, ele não nos faz injustiça, nem podemos acusá-lo de qualquer iniquidade; devemos, antes, reconhecer que isso é menos do que merecemos.
Sabemos que Deus é santo em sua natureza, sábio e justo em todos os atos de seu governo; por isso, não podemos deixar de saber, em termos gerais, que seus juízos são retos, embora em alguns casos particulares haja dificuldades que não conseguimos resolver facilmente.
- Que a promessa de Deus foi bondosamente cumprida. A primeira verdade pode nos calar sob as aflições e impedir nossas queixas, mas esta pode nos satisfazer e nos capacitar a alegrar-nos.
Pois as aflições fazem parte da aliança; por isso, não só não se destinam ao nosso prejuízo, mas visam de fato nosso bem: “Em fidelidade me afligiste, conforme o grande desígnio da minha salvação.”
É mais fácil reconhecer, em termos gerais, que os juízos de Deus são retos do que reconhecê-lo quando se trata do nosso próprio caso; mas Davi subscreve essa verdade ao aplicá-la a si: “Até minhas aflições são justas e bondosas.”
Versículos 76 a 77
Aqui está: 1. Um pedido fervoroso a Deus por seu favor. Quem reconhece a justiça de Deus em suas aflições (como Davi fizera, v. 75) pode, com fé e humilde ousadia, pedir com fervor a misericórdia de Deus e os sinais e frutos dessa misericórdia em meio à aflição.
Ele ora pela “bondade misericordiosa” de Deus (v. 76) e por suas “ternas misericórdias”, v. 77. Não pode exigir nada como direito seu; todos os seus amparos em meio à aflição devem vir da pura misericórdia e compaixão por alguém na miséria, alguém em necessidade.
“Que estas venham a mim”, isto é, “as evidências delas (torna claro para mim que tens bondade por mim e misericórdia reservada) e seus efeitos; que elas produzam meu alívio e livramento”.
- O benefício que Davi esperava para si da bondade amorosa de Deus: “Que ela venha a mim para meu consolo (v. 76); isso me consolará quando nada mais puder; isso me consolará, seja o que for que me cause dor”.
As almas agraciadas buscam todo o seu consolo no Deus da graça, fonte de toda felicidade e alegria: “Que ela venha a mim para que eu viva, isto é, para que eu reviva e minha vida se torne doce para mim, pois não tenho alegria nela enquanto Deus me desaprova. Em seu favor há vida; em seus olhares de reprovação, morte”.
Um homem bom só pode viver com satisfação enquanto tiver algum sinal do favor de Deus para com ele.
- Seus apelos pelos benefícios do favor de Deus. Ele apela para: (1.) A promessa de Deus: “Concede-me tua bondade, segundo tua palavra ao teu servo, a bondade que prometeste e porque a prometeste”. Nosso Mestre deu sua palavra a todos os seus servos de que será bondoso com eles, e eles podem invocá-la diante dele.
(2.) Sua própria confiança e satisfação nessa promessa: “Tua lei é o meu deleite; espero em tua palavra e me alegro nessa esperança”. Repare: Os que se deleitam na lei de Deus podem contar com o favor de Deus, pois esse favor certamente os fará felizes.
Versículos 78 a 79
Aqui Davi mostra:
I. Quanto pouco prezava a má vontade dos pecadores. Havia quem o tratasse perversamente, fosse irritadiço e maldisposto com ele, buscasse vantagens contra ele e interpretasse mal tudo o que dizia e fazia.
Mesmo os que tratam os outros com a maior retidão podem encontrar quem os trate perversamente. Mas Davi não fazia caso disso, pois: 1. Sabia que era sem causa e que, em troca de seu amor, eles eram seus adversários. O descrédito sem causa, como a maldição sem causa, pode ser facilmente desprezada; não nos prejudica e, por isso, não deve nos abalar.
Podia orar com fé para que se envergonhassem disso; o fato de Deus tratá-lo favoravelmente poderia fazê-los envergonhar-se ao pensar que o haviam tratado perversamente. “Que se envergonhem, isto é, que sejam levados ou ao arrependimento ou à ruína.”
Podia prosseguir no caminho de seu dever e encontrar consolo nisso. “Como quer que me tratem, meditarei em teus preceitos e neles me deleitarei.”
II. Quanto prezava a boa vontade dos santos, quanto desejava ter boa reputação aos olhos deles e conservar seu vínculo e sua comunhão com eles: “Voltem-se para mim os que te temem.”
Não quer dizer tanto que tomassem seu partido e pegassem em armas em sua causa quanto que o amassem, orassem por ele e se relacionassem com ele. Homens bons desejam a amizade e o convívio dos que são bons.
Alguns entendem que isso sugere que, quando Davi cometeu aquele pecado infame ao assassinar Urias, embora fosse rei, os que temiam a Deus se tornaram distantes dele e se afastaram dele, pois sentiam vergonha dele; isso o perturbou e, por isso, ele ora: “Senhor, faze que se voltem outra vez para mim.”
Deseja especialmente a companhia dos que eram não só honestos, mas também inteligentes, que “conheceram teus testemunhos”, têm boas cabeças assim como bons corações e cuja conduta será edificante. É desejável ter intimidade com pessoas assim.
Versículo 80
Aqui está: 1. A oração de Davi por sinceridade: que seu coração fosse conduzido aos estatutos de Deus e neles se mantivesse íntegro, não podre nem enganoso; que ele não se contentasse com a forma da piedade, mas conhecesse o poder dela e se sujeitasse a ele; que fosse dedicado de todo o coração e constante na religião, e que sua alma gozasse de saúde.
- Seu temor das consequências da hipocrisia: “Que eu não seja envergonhado.” A vergonha é a porção dos hipócritas, ou nesta vida, se dela se arrependerem, ou na vida futura, se não se arrependerem:
“Que meu coração seja íntegro, para que eu não caia em pecado escandaloso, não me afaste por completo dos caminhos de Deus e assim me envergonhe. Que meu coração seja íntegro, para que eu me aproxime com ousadia do trono da graça e possa erguer o rosto sem mancha no grande dia.”
- CAPH.
Versículos 81 a 82
Temos aqui o salmista:
I. Ansiando pela ajuda do céu: “Minha alma desfalece; meus olhos fraquejam”. Ele anseia pela salvação do Senhor e por sua palavra, isto é, pela salvação conforme a palavra.
Não está tão ávido pelas criações da fantasia, mas pelos objetos da fé: a salvação das calamidades presentes sob as quais gemia e das dúvidas e temores que o oprimiam.
Isso pode ser entendido como a vinda do Messias; nesse caso, ele fala em nome da igreja do Antigo Testamento. As almas dos fiéis chegavam a desfalecer pelo desejo de ver aquela salvação da qual os profetas testemunharam, 1 Pedro 1:10; seus olhos fraquejavam à espera dela.
Abraão a viu de longe, assim como outros; mas a distância era tão grande que precisavam forçar os olhos e não conseguiam vê-la com firmeza. Davi estava então dominado por abatimentos e assim vivia havia muito tempo; seus olhos clamavam: “Quando me consolarás? Consola-me com tua salvação, consola-me com tua palavra”.
Observe: 1. A salvação e a consolação do povo de Deus lhes são asseguradas pela palavra, que certamente se cumprirá em seu tempo. 2. A salvação e o consolo prometidos podem ser, e muitas vezes são, adiados por muito tempo, de modo que os fiéis ficam prestes a desfalecer e cair enquanto os esperam.
- Embora nos pareça longa a espera pela salvação e pelo consolo prometidos, ainda assim devemos manter continuamente os olhos naquela salvação e decidir não nos contentar com nada menos que ela. “Tua salvação, tua palavra, teu consolo são aquilo em que meu coração permanece fixo.”
II. Esperando essa ajuda, certo de que virá, e permanecendo à espera até que chegue: “Mas espero em tua palavra”; e, se não fosse a esperança, o coração se partiria. Quando os olhos fraquejam, a fé, porém, não deve fraquejar; pois a visão é para um tempo determinado e, ao fim, falará e não mentirá.
Versículo 83
Davi suplica a Deus que se apresse a consolá-lo: 1. Porque sua aflição era grande e, por isso, ele era objeto da compaixão de Deus: “Senhor, apressa-te a me ajudar, pois me tornei como um odre na fumaça”, um odre de couro que, se ficasse pendurado algum tempo na fumaça, não só escureceria de fuligem, mas também secaria, ficaria crestado e se enrugaria.
Davi estava assim consumido pela idade, pela doença e pela tristeza. Veja como a aflição faz definhar até os homens mais fortes e vigorosos! Davi tivera o rosto corado, viçoso como uma rosa; agora está murcho, perdeu a cor e tem as faces sulcadas.
Assim a beleza humana se consome sob as repreensões de Deus, como uma traça que rói uma veste. Um odre, quando assim enrugado pela fumaça, é jogado de lado e já não serve para nada. Quem poria vinho em odres tão velhos?
Assim Davi, em sua condição abatida, era visto como um vaso quebrado e desprezado, um vaso em que não havia prazer. Pessoas boas, quando abatidas e melancólicas, às vezes se julgam mais desconsideradas do que realmente são.
- Porque, embora sua aflição fosse grande, ainda assim não o afastara de seu dever; por isso, ele estava ao alcance da promessa de Deus: “Contudo, não me esqueço de teus estatutos.” Seja qual for nossa condição exterior, não devemos deixar que nossa afeição pela palavra de Deus esfrie nem permitir que ela nos saia da mente; nenhum zelo, nenhuma dor deve expulsá-la dali.
Assim como alguns bebem e se esquecem da lei (Provérbios 31:5), assim outros choram e se esquecem da lei; mas, em toda condição, tanto na prosperidade quanto na adversidade, devemos conservar na memória as coisas de Deus. Se nos lembrarmos dos estatutos de Deus, podemos orar e esperar que ele se lembre de nossas tristezas, embora por algum tempo pareça esquecer-se de nós.
Versículo 84
Aqui: I. Davi ora contra os instrumentos de suas tribulações, pedindo que Deus se apresse em executar juízo contra os que o perseguiam.
Não ora pedindo poder para vingar-se (não guardava maldade contra ninguém), mas para que Deus tome para si a vingança que lhe pertence e retribua (Romanos 12:19), como o Deus que se assenta no trono e julga com justiça.
Um dia se aproxima, e será grande e terrível, em que Deus executará juízo sobre todos os orgulhosos perseguidores de seu povo, trazendo tribulação aos que haviam atribulado os seus; Enoque o predisse (Judas 1:14), e talvez Davi tivesse aqui em vista sua profecia; e devemos aguardar esse dia e orar para que venha depressa. “Vem, Senhor Jesus, vem depressa.”
- Ele alega a longa duração de sua tribulação: “Quantos são os dias de teu servo? Os dias de minha vida são poucos” (assim entendem alguns); “portanto, não permitas que todos sejam miseráveis e, por isso, apressa-te a manifestar-te em meu favor contra meus inimigos, antes que eu parta daqui e não seja mais visto.”
Ou, antes: “Os dias de minha aflição são muitos; tu vês, Senhor, quantos são; quando voltarás a mim com misericórdia? Às vezes, por causa dos eleitos, os dias de tribulação são abreviados.”
“Ó, que os dias de minha tribulação sejam abreviados; sou teu servo e, por isso, assim como os olhos de um servo estão voltados para a mão de seu senhor, assim os meus estão voltados para ti, até que tenhas misericórdia de mim.”
Versículos 85 a 87
O estado de Davi, gravemente perseguido, foi nisto tipo e figura do estado tanto de Cristo quanto dos cristãos. Como muitos de seus salmos se queixam da perseguição, também o fazem muitos versículos deste salmo, como estes aqui. Observe aqui:
I. O relato que ele faz de seus perseguidores e da maldade deles contra ele:
Eram orgulhosos e, por orgulho, o perseguiam. Gloriavam-se de poder pisotear alguém tão celebrado e esperavam erguer-se sobre suas ruínas.
Eram injustos: perseguiam-no sem razão; longe de lhes dar qualquer provocação, ele se empenhara em agradá-los; mas, em troca de seu amor, eles eram seus adversários.
Eram rancorosos: abriram covas para ele. Isso indica que seus desígnios contra ele eram deliberados e que agiam com malícia premeditada; indica também que eram dissimulados e astutos, possuindo tanto a cabeça quanto o veneno da serpente.
Eram diligentes e não poupavam esforços para lhe causar dano; eram também traiçoeiros, armando-lhe laços em segredo, como caçadores capturam feras (Salmos 35:7). Assim tem sido a inimizade da descendência da serpente contra a descendência da mulher.
- Nisso mostraram sua inimizade contra o próprio Deus. As covas que abriram para Davi não estavam de acordo com a lei de Deus; ele quer dizer que eram muito contrárias a ela, que proíbe tramar o mal contra o próximo e diz expressamente: “Não toqueis no meu ungido.”
A lei designava que, se um homem abrisse uma cova que causasse algum dano, responderia por esse dano (Êxodo 21:33-34); quanto mais quando a cova fosse aberta com um desígnio de dano.
- Levaram seus desígnios contra Davi tão longe que quase o consumiram na terra; por pouco não arruinaram a ele e a todos os seus interesses. É possível que os que em breve serão aperfeiçoados no céu estejam, por ora, quase consumidos na terra.
É pelas misericórdias do Senhor — e, considerando a maldade de seus inimigos, por um milagre de misericórdia — que eles não são completamente consumidos. Mas a sarça em que Deus está, embora arda, não será consumida.
II. Sua súplica a Deus enquanto era perseguido:
- Reconhece a verdade e a bondade de sua religião, embora sofresse: “Seja como for, todos os teus mandamentos são fiéis; portanto, seja o que for que eu perca por observá-los, sei que não sairei perdendo com isso.”
A verdadeira religião, se vale alguma coisa, vale tudo e, portanto, vale sofrer por ela. “Os homens são falsos; assim os tenho encontrado; tanto os de baixa condição quanto os de alta condição o são; não se pode confiar neles. Mas todos os teus mandamentos são fiéis; neles posso confiar.”
- Pede que Deus fique ao seu lado e o socorra: “Eles me perseguem; ajuda-me tu; ajuda-me em minhas tribulações, para que eu as suporte com paciência e como convém, e continue firme em minha integridade; e, no tempo devido, ajuda-me a sair de minhas tribulações.”
“Deus me ajude” é uma excelente oração que abrange tudo; é lamentável que alguma vez seja usada levianamente, como mero bordão.
III. Sua fidelidade ao dever apesar de toda a maldade de seus perseguidores (v. 87): “Mas não abandonei teus preceitos.” O objetivo deles era amedrontá-lo para afastá-lo dos caminhos de Deus, mas não conseguiram seu intento.
Ele preferiria abandonar tudo o que lhe era caro neste mundo a abandonar a palavra de Deus; preferiria perder a vida a perder o consolo de cumprir seu dever.
Versículo 88
Aqui está: 1. O zelo de Davi em ser encontrado no caminho do dever. Seu desejo e seu desígnio constantes são guardar o testemunho da boca de Deus, ater-se a ele como sua regra e apegar-se a ele como sua confiança e porção para sempre. Devemos guardá-lo, seja o que for que percamos.
- Davi ora para que a graça divina o ajude nisso: “Vivifica-me segundo tua bondade amorosa (faz-me viver e torna-me cheio de vida), assim guardarei teus testemunhos”, o que implica que, de outro modo, não os guardaria.
Não podemos avançar nem perseverar no bom caminho, a menos que Deus nos vivifique e ponha vida em nós. Por isso nos é ensinado aqui a depender da graça de Deus para ter força de realizar toda boa obra e a depender dela como graça, como puro fruto do favor de Deus.
Davi já havia orado: “Vivifica-me na tua justiça” (v. 40); mas aqui ora: “Vivifica-me segundo tua bondade amorosa”. O sinal mais seguro da boa vontade de Deus para conosco é sua boa obra em nós.
- LAMED.
Versículos 89 a 91
Aqui: 1. O salmista reconhece a imutabilidade da palavra de Deus e de todos os seus conselhos: “Para sempre, ó Senhor! Tua palavra está firmada. Tu és para sempre tu mesmo (assim leem alguns); és o mesmo, e em ti não há variação, e esta é uma prova disso.”
“Tua palavra, pela qual os céus foram feitos, está ali firmada nas obras duradouras que produziu”; ou a firmeza da palavra de Deus no céu se opõe às mudanças e revoluções que há aqui na terra.
“Toda carne é erva; mas a palavra do Senhor permanece para sempre.” Ela está firmada no céu, isto é, no conselho secreto de Deus, oculto nele mesmo, muito acima e fora de nossa vista, e imóvel como montanhas de bronze.
E sua vontade revelada é tão firme quanto sua vontade secreta; assim como ele cumprirá os pensamentos de seu coração, assim nenhuma de suas palavras cairá por terra; pois aqui se segue: “Tua fidelidade se estende a todas as gerações”, isto é, a promessa é certa para cada época da igreja e não pode perder sua validade com a passagem do tempo.
As promessas que se estendem até um futuro muito distante serão cumpridas no devido tempo.
- Ele apresenta, como prova disso, a constância do curso da natureza: Você estabeleceu a terra para sempre, e ela permanece; ela é o que era quando foi feita no princípio e está onde foi posta no princípio.
Equilibrada pelo próprio peso e, apesar das convulsões em suas entranhas, das agitações do mar que se entrelaça com ela e das violentas comoções da atmosfera que a cerca, ela permanece imóvel.
“Eles” (os céus e a terra e todas as hostes de ambos) “continuam até hoje conforme tuas ordenanças; permanecem nos postos onde os puseste; ocupam todo o lugar que lhes foi designado e cumprem os propósitos para os quais foram destinados.”
A estabilidade das ordenanças do dia e da noite, do céu e da terra, é apresentada como prova da perpetuidade da aliança de Deus (Jeremias 31:35, 36; 33:20, 21).
É em virtude da promessa de Deus a Noé (Gênesis 8:22) que o dia e a noite, o verão e o inverno seguem um curso constante.
“Continuaram até hoje e ainda continuarão até o fim dos tempos, agindo segundo as ordenanças que lhes foram dadas no princípio; pois todos são teus servos; fazem tua vontade e manifestam tua glória, e em ambas as coisas são teus servos.”
Todas as criaturas, em seus lugares e conforme suas capacidades, prestam serviço a seu Criador e cumprem os fins para os quais foram criadas; e será o homem o único rebelde, o único que rompe sua lealdade ao Criador e o único fardo inútil da terra?
Versículo 92
Aqui está: 1. A grande angústia em que Davi se encontrava. Estava em aflição e prestes a perecer nela, não tanto por risco de morrer quanto de cair em desespero. Estava pronto para dar tudo por perdido e para se considerar afastado dos olhos de Deus.
Por isso admirava a bondade de Deus para com ele: não perecera, conservara a posse da própria alma e suas tribulações não o haviam levado a perder o juízo. Sobretudo, Deus o capacitara a permanecer junto dele, e as tribulações não o haviam afastado de sua religião.
Embora não sejamos preservados da aflição, ainda assim, se somos preservados de perecer nela, não temos motivo para dizer: Limpamos nossas mãos em vão; ou: Que proveito há em termos servido a Deus?
- Seu amparo nessa angústia. A lei de Deus era seu deleite: (1.) Fora assim anteriormente, e a lembrança disso o consolava, pois lhe oferecia boa prova de sua integridade.
(2.) Era assim também agora, em sua aflição; a lei lhe oferecia abundante conteúdo de consolo e, dessas fontes de vida, ele tirava águas vivas quando as cisternas da criatura estavam quebradas ou secas.
Sua comunhão com a lei de Deus e suas meditações nela eram o entretenimento em que se deleitava na solidão e na tristeza. Uma Bíblia é companhia agradável a qualquer momento, se assim quisermos.
Versículo 93
Aqui está: 1. Uma resolução muito boa: “Nunca me esquecerei de teus preceitos, mas guardarei sempre na memória tua palavra e a respeitarei como minha regra.” É uma resolução para sempre, que jamais deve ser alterada. Repare: a melhor prova de nosso amor pela palavra de Deus é nunca esquecê-la.
Devemos decidir que nunca, em tempo algum, rejeitaremos nossa religião e nunca, em ocasião alguma, poremos nossa religião de lado, mas seremos constantes nela e nela perseveraremos.
- Um motivo muito bom para isso: “Pois por meio deles tu me vivificaste; não apenas são vivificantes, mas:”
(1.) “Foram assim para mim; foi assim que os experimentei.” Falam melhor das coisas de Deus aqueles que falam por experiência e podem dizer que, por meio da palavra, a vida espiritual foi iniciada neles, mantida e fortalecida, estimulada e consolada neles.
(2.) “Tu os tornaste assim”; por si só, sem a graça de Deus, a palavra não nos vivificaria. Os ministros só podem profetizar sobre os ossos secos; não podem pôr vida neles; mas, normalmente, a graça de Deus age por meio da palavra e a usa como meio de vivificar.
Esse é um bom motivo para nunca nos esquecermos dela, mas darmos grande valor àquilo que Deus honrou tanto e amarmos profundamente aquilo de que já recebemos tanto benefício e esperamos ainda recebê-lo.
Veja aqui qual é a melhor ajuda para a memória fraca: boas afeições. Se a palavra nos vivifica, jamais a esqueceremos; ou melhor, a palavra que realmente nos vivifica para o dever e no seu exercício não é esquecida. Ainda que as expressões se percam, se as impressões permanecerem, estará bem.
Versículo 94
Aqui: 1. Davi reivindica seu vínculo com Deus: “Sou teu, dedicado a ti e reconhecido por ti como teu, teu por aliança”. Ele não diz: “Tu és meu” (como observa o Dr. Manton), embora isso decorra naturalmente, pois seria uma reivindicação mais elevada.
Em vez disso, diz: “Sou teu”, expressando sua entrega de modo mais humilde e obediente. Tampouco diz: “Sou assim”, mas: “Sou teu”; não invoca alguma boa qualidade ou aptidão própria, mas o direito de propriedade de Deus sobre ele: “Sou teu, não pertenço a mim mesmo nem ao mundo”.
Ele prova sua reivindicação: “Busquei teus preceitos; investiguei cuidadosamente qual era meu dever e me empenhei diligentemente em cumpri-lo.” Essa será a melhor prova de que pertencemos a Deus; todos os que são dele, embora não tenham alcançado a perfeição, a buscam.
Ele tira proveito de sua reivindicação: “Sou teu; salva-me; salva-me do pecado, salva-me da ruína.” Os que sinceramente se entregaram a Deus para lhe pertencer podem ter certeza de que ele os protegerá e os preservará para o seu reino celestial, Malaquias 3:17.
Versículo 95
Aqui: 1. Davi se queixa da maldade de seus inimigos: “Os ímpios” (e ninguém além de gente assim seria inimigo de um homem tão bom) “ficaram à minha espera para me destruir.”
Eles eram muito cruéis e não visavam a nada menos que sua destruição; eram muito astutos e procuravam todas as oportunidades de lhe causar dano; e estavam confiantes (eles esperavam, como alguns leem) de que o destruiriam; consideravam sua presa garantida.
- Ele se consola na palavra de Deus como sua proteção: “Enquanto maquinam minha destruição, considero teus testemunhos, que me asseguram minha salvação.” Os testemunhos de Deus, então, tendem a ser nosso apoio quando os consideramos e nos demoramos em pensar neles.
Versículo 96
Aqui temos o testemunho de Davi, tirado de sua própria experiência: 1. Da vaidade do mundo e de sua incapacidade de nos fazer felizes: “Vi o fim de toda perfeição.” Pobre perfeição aquela cujo fim se pode ver! No entanto, assim são todas as coisas deste mundo tidas por perfeições.
Em seu tempo, Davi vira Golias, o mais forte, vencido; Asael, o mais veloz, alcançado; Aitofel, o mais sábio, ludibriado; Absalão, o mais belo, desfigurado. Em suma, vira o fim da perfeição, de toda perfeição.
Viu isso pela fé; viu-o pela observação. Viu o fim da perfeição da criatura tanto quanto à suficiência — ela era escassa e defeituosa; há algo que precisa ser feito em nosso favor e que a criatura não pode fazer — quanto à duração.
Ela não durará tanto quanto nós, pois não durará pela eternidade, como nós necessariamente duraremos. A glória do homem é apenas como a flor da erva.
- Da plenitude da palavra de Deus e de sua suficiência para nos satisfazer: mas seu mandamento é amplo, extremamente amplo. A palavra de Deus alcança todos os casos e todos os tempos.
A lei divina impõe limites ao homem inteiro e se destina a santificar-nos inteiramente. Em cada mandamento, muita coisa é exigida e proibida.
A promessa divina (pois ela também é ordenada) estende-se a todos os nossos fardos, carências e aflições; contém aquilo que será nossa porção e nossa felicidade quando tivermos visto o fim de toda perfeição.
- MEM.
Versículo 97
Aqui está: 1. O amor inexprimível de Davi pela palavra de Deus: “Ó, como amo tua lei!” Ele declara seu afeto pela palavra de Deus com santa veemência.
Encontrou em seu coração um amor por ela que, ao considerar a corrupção de sua natureza e as tentações do mundo, não podia deixar de admirar, assim como a graça que produzira esse amor nele.
Ele não só amava as promessas, mas também amava a lei, e nela se deleitava segundo o homem interior.
- Uma prova incontestável disso. Amamos pensar naquilo que amamos; por isso se via que Davi amava a palavra de Deus: ela era sua meditação.
Ele não só lia o livro da lei, mas digeria em seus pensamentos o que lia e era entregue a ela como a um molde.
Ela era sua meditação não só à noite, quando estava calado e sozinho e não tinha mais nada para fazer, mas também de dia, quando tinha muitos afazeres e muita companhia; ou melhor, o dia inteiro; alguns bons pensamentos se entrelaçavam com seus pensamentos comuns, tão cheio estava ele da palavra de Deus.
Versículos 98 a 100
Temos aqui um relato do aprendizado de Davi, não o dos egípcios, mas o dos que são de fato israelitas.
I. O bom método pelo qual o adquiriu. Na juventude, ocupava-se de seus deveres no campo como pastor; desde a juventude, ocupava-se de seus deveres na corte e no acampamento militar. Como, então, poderia adquirir muito conhecimento?
Ele nos conta como o obteve: veio de Deus, seu autor — Você me tornou sábio. A verdadeira sabedoria vem toda de Deus. Ele a adquiriu por meio da palavra de Deus, o instrumento, por meio de seus mandamentos e testemunhos.
Esses podem nos tornar sábios para a salvação e equipar o homem de Deus para toda boa obra: 1. Davi os tomou por companheiros constantes: “Estão sempre comigo, sempre em minha mente, sempre diante de meus olhos.”
O homem bom leva consigo a Bíblia aonde quer que vá; se não nas mãos, ao menos na cabeça e no coração.
Tomou-os como o agradável tema de seus pensamentos; eram sua meditação, não apenas como assuntos de especulação para seu entretenimento, como estudiosos meditam em suas ideias, mas como assuntos de interesse prático para orientar bem sua conduta, como homens de negócios pensam em seus negócios para conduzi-los da melhor maneira.
Tomou-os como regras imperativas de todas as suas ações: “Guardo teus preceitos”, isto é, faço questão de cumprir meu dever em tudo.
O melhor modo de progredir no conhecimento é permanecer e abundar em todas as práticas da piedade séria; pois, se alguém fizer a vontade de Deus, conhecerá a doutrina de Cristo e a conhecerá cada vez mais (João 7:17). O amor à verdade prepara para a luz dela; os puros de coração verão Deus já aqui.
II. A grande excelência que alcançou nesse conhecimento. Ao estudar e praticar os mandamentos de Deus e tomá-los por regra, aprendeu a conduzir-se sabiamente em todos os seus caminhos (1 Samuel 18:14):
- Foi mais astuto que seus inimigos; por esses meios, Deus o tornou mais sábio para frustrar e derrotar os desígnios deles contra ele do que eles foram para traçá-los. A sabedoria celestial acabará por vencer a astúcia carnal.
Ao guardar os mandamentos, garantimos Deus ao nosso lado e o fazemos nosso amigo; nisso, certamente somos mais sábios do que aqueles que o tornam seu inimigo.
Ao guardar os mandamentos, preservamos em nós a paz e a tranquilidade de espírito que nossos inimigos querem nos roubar; assim agimos com mais sabedoria para nosso bem do que eles para o deles, tanto neste mundo quanto no outro.
- Superou seus mestres e teve mais entendimento do que todos eles. Ele pode referir-se aos que pretendiam ser seus mestres, censuravam sua conduta e se propunham a prescrever-lhe o que fazer.
Ao guardar os mandamentos de Deus, ele conduziu seus assuntos de tal modo que, no desfecho, ficou claro que tomara as medidas certas, enquanto eles tomaram as erradas.
Ou pode referir-se aos que deviam ter sido seus mestres: os sacerdotes e levitas, que se sentavam na cadeira de Moisés e cujos lábios deviam guardar o conhecimento, mas negligenciavam o estudo da lei e se ocupavam de suas honrarias, rendas e apenas das formalidades de sua religião.
Davi, porém, mantinha constante contato com as Escrituras e assim se tornou mais instruído do que eles.
Ou pode referir-se aos que tinham sido seus mestres quando ele era jovem: edificou tão bem sobre o fundamento que lançaram que, com a ajuda de sua Bíblia, se tornou capaz de ensiná-los, de ensinar a todos eles.
Já não era uma criancinha que precisava de leite, mas tinha os sentidos espirituais exercitados (Hebreus 5:14). Não é demérito para nossos mestres, mas antes uma honra para eles, progredirmos a ponto de realmente superá-los e já não precisarmos deles.
Ao meditar, pregamos a nós mesmos e assim chegamos a entender mais do que nossos mestres, pois compreendemos nosso próprio coração, o que eles não podem fazer.
- Superou os antigos, seja os de sua época — ele era jovem, como Eliú, e eles muito velhos, mas guardar os preceitos de Deus lhe ensinou mais sabedoria que a multidão dos anos deles (Jó 32:7, 8) —, seja os de épocas anteriores.
Ele próprio cita o provérbio dos antigos (1 Samuel 24:13), mas a palavra de Deus lhe deu a compreender as coisas melhor do que poderia pela tradição e por todo o saber transmitido pelas gerações anteriores.
Em suma, a palavra escrita é guia mais seguro para o céu do que todos os doutores e pais, mestres e antigos da igreja; as Escrituras sagradas, guardadas e seguidas, nos ensinarão mais sabedoria do que todos os escritos deles.
Versículo 101
Aqui está: 1. O zelo de Davi em evitar os caminhos do pecado: “Refreei meus pés dos caminhos maus para os quais estavam prestes a se desviar. Contive-me e recuei assim que percebi que estava entrando em tentação.”
Embora fosse um caminho largo, um caminho verdejante, um caminho agradável e um caminho percorrido por muitos, ainda assim, por ser um caminho pecaminoso, era um caminho mau; ele refreou os pés para não segui-lo, antevendo o fim desse caminho.
E seu zelo era universal; evitava todo caminho mau. Pelas palavras de seus lábios, guardei-me dos caminhos do destruidor (Salmos 17:4).
- Seu zelo em ser encontrado no caminho do dever: “Para que eu guardasse tua palavra”, e nunca a transgredisse.
Sua abstenção do pecado era: (1.) Uma prova de que ele de fato procurava conscienciosamente guardar a palavra de Deus e fizera dela sua regra.
(2.) Era um meio de guardar a palavra de Deus nas práticas religiosas; pois não podemos servir a Deus nos deveres santos com nenhum consolo ou ousadia, de modo a neles guardar sua palavra, enquanto estivermos sob culpa ou seguindo algum caminho desviado.
Versículo 102
Aqui está: 1. A constância de Davi em sua religião. Ele não se afastara dos juízos de Deus; não escolhera outra regra além da palavra de Deus nem se desviara deliberadamente dessa regra. A adesão constante aos caminhos de Deus em tempos de provação será boa prova de nossa integridade.
- A causa de sua constância: “Pois tu me ensinaste; isto é, eram divinas as instruções que aprendi; fiquei convencido de que a doutrina vinha de Deus e, por isso, me apeguei a ela.” Ou melhor: “Foi a graça divina em meu coração que me capacitou a receber essas instruções”.
A todos os santos é ministrado ensino por Deus, pois é ele quem dá o entendimento; e aqueles, e somente aqueles, a quem Deus ministra ensino permanecerão até o fim naquilo que aprenderam.
Versículos 103 a 104
Aqui está: 1. O prazer e o deleite maravilhosos que Davi encontrava na palavra de Deus: ela era doce ao seu paladar, mais doce que o mel.
Há um paladar espiritual, um sabor interior das coisas divinas e um gosto íntimo por elas, uma prova delas para nós mesmos, pela experiência, que não podemos transmitir aos outros. “Nós mesmos o ouvimos” (João 4:42).
Para esse paladar das Escrituras, a palavra de Deus é doce, muito doce, mais doce que qualquer uma das satisfações dos sentidos, até as mais deliciosas.
Davi fala como se lhe faltassem palavras para expressar a satisfação que sentia com as revelações da vontade e da graça divinas; nenhum prazer se comparava a essa satisfação.
- O proveito e a vantagem inexprimíveis que obteve pela palavra de Deus. (1.) Ela o ajudou a ter uma boa cabeça: “Por teus preceitos obtenho entendimento para discernir entre a verdade e a falsidade, o bem e o mal, de modo a não errar nem na condução de minha própria vida nem ao aconselhar outros.”
(2.) Ela o ajudou a ter um bom coração: “Portanto, porque obtive entendimento da verdade, odeio todo caminho falso e estou firmemente decidido a não me desviar para ele.”
Observe aqui: [1.] O caminho do pecado é um caminho falso; ele engana e arruinará todos os que nele andam; é o caminho errado e, contudo, “parece certo a um homem” (Provérbios 14:12).
[2.] É característica de todo homem bom odiar o caminho do pecado e odiá-lo por ser falso; ele não só refreia seus pés de entrar nele (v. 101), mas o odeia, sente antipatia e pavor por ele.
[3.] Os que odeiam o pecado por ser pecado odiarão todo pecado, odiarão todo caminho falso, porque todo caminho falso leva à destruição.
E, [4.] Quanto mais entendimento obtemos pela palavra de Deus, mais arraigado será nosso ódio ao pecado (pois “afastar-se do mal, isso é entendimento”, Jó 28:28); e quanto mais versados somos nas Escrituras, tanto mais munidos estamos de respostas à tentação.
- NUN.
Versículo 105
Observe aqui: 1. A natureza da palavra de Deus e a grande intenção de dá-la ao mundo: ela é lâmpada e luz.
Revela-nos, acerca de Deus e de nós mesmos, o que de outro modo não poderíamos saber; mostra-nos o que está errado e será perigoso; dirige-nos em nosso trabalho e caminho. Sem ela, o mundo seria de fato um lugar escuro.
É uma lâmpada que podemos colocar ao nosso lado e tomar nas mãos para nosso próprio uso particular, Provérbios 6:23. “O mandamento é uma lâmpada” mantida acesa pelo óleo do Espírito; é como as lâmpadas do santuário e a coluna de fogo para Israel.
- O uso que devemos fazer dela. Não deve ser apenas luz para nossos olhos, para agradá-los e encher nossa cabeça de especulações, mas luz para nossos pés e nosso caminho.
Ela nos orienta na devida ordenação de nossa conduta, tanto na escolha do caminho em geral quanto nos passos específicos que damos nele, para que não tomemos um caminho errado nem demos um passo errado no caminho certo.
Percebemos então na verdade a bondade de Deus para conosco ao nos dar tal lâmpada e luz quando fazemos dela guia para nossos pés, para nosso caminho.
Versículo 106
Aqui está: 1. A ideia que Davi tinha da religião: ela consiste em guardar os justos juízos de Deus. Os mandamentos de Deus são seus juízos, os ditames da sabedoria infinita. São juízos justos, em harmonia com as regras eternas da equidade, e é nosso dever guardá-los com cuidado.
- O compromisso que aqui assumiu de ser religioso, obrigando-se por sua própria promessa àquilo a que o preceito divino já o obrigava — e mesmo tudo isso mal bastava. “Jurei (ergui minha mão ao Senhor e não posso voltar atrás); por isso, devo seguir adiante: cumprirei o que jurei.” Repare:
(1.) É bom nos obrigarmos por juramento solene a sermos religiosos. Devemos jurar ao Senhor como súditos juram lealdade ao soberano, prometendo fidelidade, recorrendo a Deus como testemunha de nossa sinceridade nessa promessa e reconhecendo que estaremos sujeitos à maldição se não a cumprirmos.
(2.) Devemos recordar com frequência os votos feitos a Deus que nos obrigam e lembrar-nos de que juramos.
(3.) Devemos cuidar conscienciosamente de cumprir ao Senhor nossos juramentos (o homem honesto cumprirá a palavra dada); não juramos para nosso próprio prejuízo, mas sofreremos prejuízo indescritível se não cumprirmos.
Versículo 107
Aqui está: 1. O retrato que Davi faz da triste condição em que se encontrava: “Estou muito aflito”, aflito no espírito; ao que parece, é sobretudo isso que ele quer dizer. Ele sofria sob muitos desânimos; por fora havia lutas, por dentro, temores. Essa é muitas vezes a sorte dos melhores santos; portanto, não estranhemos se, às vezes, for também a nossa.
- Seu recurso a Deus nessa condição; ele suplica por sua graça: “Vivifica-me, ó Senhor! Torna-me cheio de vida, torna-me alegre; vivifica-me por meio das aflições para maior diligência em meu trabalho. Vivifica-me, isto é, livra-me das minhas aflições; isso será como vida dentre os mortos.”
Ele apela para a promessa de Deus, orienta por ela seus desejos e nela fundamenta suas esperanças: “Vivifica-me segundo tua palavra.” Davi resolvera cumprir as promessas que fizera a Deus (v. 106) e, por isso, podia pedir-lhe, com humilde ousadia, que cumprisse a palavra que lhe dera.
Versículo 108
Aqui nos é ensinado que devemos orar por duas coisas relativas às nossas práticas religiosas: 1. A aceitação delas. É a isso que devemos visar em tudo o que fazemos na religião: que, presentes ou ausentes, sejamos aceitos pelo Senhor.
Davi ora fervorosamente para que sejam aceitas as ofertas voluntárias, não de sua bolsa, mas de sua boca: suas orações e seus louvores.
“Os bezerros dos nossos lábios” (Oseias 14:2) e “o fruto dos nossos lábios” (Hebreus 13:15) são as ofertas espirituais que todos os cristãos, como sacerdotes espirituais, devem oferecer a Deus.
Elas devem ser ofertas voluntárias, pois devemos oferecê-las abundantemente e com alegria; e é essa disposição voluntária que é aceita.
Quanto mais espontaneidade e boa vontade houver no serviço de Deus, mais agradável esse serviço será a ele.
- Auxílio nelas: “Ensina-me teus juízos”. Não podemos oferecer a Deus coisa alguma que tenhamos motivo para pensar que ele aceitará, senão aquilo que ele tem por bem nos ensinar a fazer; e devemos pedir com tanto fervor a graça de Deus em nós quanto o favor de Deus para conosco.
Versículo 109
Aqui está: 1. Davi em perigo de perder a vida. Há apenas um passo entre ele e a morte, pois os ímpios lhe armaram uma cilada; Saul fez isso muitas vezes, porque odiava Davi por sua piedade.
Onde quer que estivesse, encontrava um ou outro desígnio tramado contra ele para lhe tirar a vida, pois era a isso que visavam. O que não podiam realizar pela força às claras esperavam conseguir por traição, o que o levou a dizer: “Minha alma está continuamente em minha mão.”
Era assim com ele não só como homem (e isso vale para todos nós: onde quer que estejamos, ficamos expostos aos golpes da morte; o que carregamos nas mãos pode facilmente ser arrancado de nós pela violência ou, se for arenoso como nossa vida, escorre facilmente por si só entre nossos dedos).
Mas também era assim como homem de guerra, soldado que muitas vezes arriscava a vida nas alturas do campo de batalha, e sobretudo como homem segundo o coração de Deus e, como tal, odiado e perseguido, sempre entregue à morte (2 Coríntios 4:11), morto o dia inteiro.
- Davi não corre perigo de perder sua religião apesar disso: está, assim, em risco a cada hora e, ainda assim, permanece constante a Deus e ao seu dever. Nenhuma dessas coisas o abala; pois: (1.) Não esquece a lei e, por isso, provavelmente perseverará.
Em meio à multidão de preocupações com sua própria segurança, encontra espaço na cabeça e no coração para a palavra de Deus e a mantém na mente tão fresca como sempre; e, onde ela habita em abundância, será um poço de água viva.
(2.) Ele ainda não se desviou dos preceitos de Deus e, por isso, pode-se esperar que não venha a se desviar. Havia resistido a muitos golpes e mantido sua posição, e certamente a graça que o ajudara até então não lhe falharia, mas continuaria a evitar seus desvios.
Versículos 111 a 112
O salmista, aqui, de modo muito afetuoso, como israelita de fato, resolve apegar-se à palavra de Deus e viver e morrer por ela.
I. Decide tomá-la por sua porção e nela buscar sua felicidade, ou melhor, desfrutá-la nela: “Tomei teus testemunhos (as verdades, as promessas de tua palavra) por herança para sempre, pois são a alegria de meu coração.”
O prazer presente que encontrava neles demonstrava que, a seus olhos, as boas coisas neles contidas eram as melhores e o tesouro em que pusera o coração:
- Esperava felicidade eterna nos testemunhos de Deus. A aliança que Deus fizera com ele era uma aliança eterna; por isso, ele a tomou por herança para sempre. Se ainda não podia dizer “Eles são minha herança”, ainda assim podia dizer “Eu os escolhi para minha herança; e nunca me contentarei com uma porção nesta vida” (Salmos 17:14, 15).
Os testemunhos de Deus são herança para todos os que receberam o Espírito de adoção; pois, se filhos, então herdeiros. São herança para sempre, o que nenhuma herança terrena é (1 Pedro 1:4); todos os santos os aceitam como tal, tomam-nos para si, vivem deles e assim podem contentar-se com bem pouco deste mundo.
- Desfrutava neles de satisfação presente: “São a alegria de meu coração”, porque serão minha herança para sempre. É preciso o coração de um homem bom para enxergar sua porção na promessa de Deus, e não nas posses deste mundo.
II. Decide governar-se por ela e dela tirar a medida de sua conduta: Inclinei meu coração a cumprir seus estatutos. Quem deseja receber as bênçãos dos testemunhos de Deus deve submeter-se às amarras de seus estatutos.
Devemos buscar consolo somente no caminho do dever, e esse dever deve ser cumprido: 1. Com plena anuência e satisfação: “Eu, pela graça de Deus, inclinei meu coração a ele e venci a aversão que sentia por ele.”
Um homem bom põe o coração em seu trabalho, e então o trabalho é bem feito. Uma disposição nascida da graça para fazer a vontade de Deus é o princípio aceitável de toda obediência.
Com constância e perseverança. Ele cumpriria os estatutos de Deus sempre, em todas as ocasiões, no dever de cada dia, numa caminhada santa e constante, e isso até o fim, sem se cansar. Isso é seguir plenamente o Senhor.
SAMECH.
Versículo 113
Temos aqui: 1. O pavor de Davi diante do surgimento do pecado e de seus primeiros indícios: “Odeio os pensamentos vãos”. Não quer dizer que os odiasse nos outros, pois neles não podia discerni-los, mas que os odiava no próprio coração.
Todo homem bom faz dos próprios pensamentos uma questão de consciência, pois para Deus eles são palavras. Os pensamentos vãos, por mais que a maioria faça pouco caso deles, são pecaminosos e nocivos; por isso devemos considerá-los odiosos e temíveis.
Eles não só desviam a mente do bem, mas abrem a porta para todo mal, Jeremias 4:14. Embora Davi não pudesse dizer que estava livre de pensamentos vãos, ainda assim podia dizer que os odiava; não os aprovava nem os acolhia, mas fazia o que podia para mantê-los fora ou ao menos subjugá-los. O mal que faço, não o aprovo.
- O deleite de Davi na regra do dever: “Mas amo a tua lei”, que proíbe esses pensamentos vãos e pronuncia ameaças contra eles.
Quanto mais amamos a lei de Deus, mais obteremos domínio sobre nossos pensamentos vãos, mais odiosos eles se tornarão para nós, por contrariarem toda a lei, e mais vigilantes seremos contra eles, para que não nos afastem daquilo que amamos.
Versículo 114
Aqui está: 1. O zelo de Deus por Davi, para protegê-lo e defendê-lo; nisso Davi se consolava quando seus inimigos eram muito maldosos com ele: “Tu és meu esconderijo e meu escudo”. Quando Saul o perseguia, Davi muitas vezes se refugiava em lugares escondidos; na guerra, protegia-se com seu escudo.
Deus era para ele ambas as coisas: esconderijo para preservá-lo do perigo e escudo para preservá-lo em meio ao perigo; preservava sua vida da morte e sua alma do pecado. As pessoas boas estão seguras sob a proteção de Deus.
Ele é sua força e seu escudo, seu auxílio e seu escudo, seu sol e seu escudo, seu escudo e sua grande recompensa, e aqui seu esconderijo e seu escudo.
Pela fé, podem recolher-se a ele e repousar nele como em seu esconderijo, onde ficam guardadas em oculto. Pela fé, podem opor o poder dele a toda a força e maldade de seus inimigos, como seu escudo para extinguir todo dardo inflamado.
- A confiança de Davi em Deus. Ele está seguro e, por isso, tranquilo sob a proteção divina: “Espero em tua palavra, que me fez conhecer-te e me deu certeza de tua bondade para comigo”. Os que dependem da promessa de Deus terão o benefício de seu poder e serão recebidos sob sua proteção especial.
Versículo 115
Aqui está: 1. A resolução firme e inabalável de Davi de viver uma vida santa: “Guardarei os mandamentos do meu Deus.” Que resolução corajosa! Como um santo, como um soldado; pois a verdadeira coragem consiste numa resolução perseverante contra todo pecado e em favor de todo dever.
Aqueles que desejam guardar os mandamentos de Deus precisam renovar com frequência suas resoluções de fazê-lo: “Eu os guardarei.”
“Façam os outros o que fizerem, é isto que farei; ainda que eu seja o único, ainda que todos ao meu redor sejam malfeitores e me abandonem; seja o que for que eu tenha feito até aqui, daqui em diante andarei perto de Deus.”
“São mandamentos de Deus, do meu Deus, e por isso os guardarei. Ele é Deus e pode ordenar-me; é meu Deus e não me ordenará nada senão o que for para meu bem.”
- Sua despedida da má companhia, conforme essa resolução: “Apartai-vos de mim, malfeitores.”
Embora Davi, como bom magistrado, fosse um terror para os malfeitores, ainda assim havia muitos deles, até mesmo na corte, intrometendo-se em sua presença; aqui ele os rejeita e decide não ter comunhão com eles.
Repare: Aqueles que resolvem guardar os mandamentos de Deus não devem ter convívio com malfeitores; pois a má companhia é um grande obstáculo para uma vida santa. Não devemos escolher pessoas ímpias como companheiras nem ter intimidade com elas; não devemos fazer como elas fazem nem fazer o que querem que façamos (Salmos 1:1; Efésios 5:11).
Versículos 116 a 117
Aqui está: 1. Davi ora pela graça que o sustenta; por essa graça suficiente ele suplicou duas vezes ao Senhor: “Sustenta-me”; e, de novo: “Ampara-me”. Ele vê que não só é incapaz de prosseguir em seu dever por qualquer força própria, mas também corre o risco de cair em pecado se não for impedido pela graça divina.
Por isso pede com tanto fervor essa graça, para que o sustente em sua integridade (Salmos 41:12), o impeça de cair e o livre de se cansar, de modo que não se desvie para a prática do mal nem se canse de fazer o bem. Só permanecemos de pé enquanto Deus nos sustenta e não avançamos além de onde ele nos leva.
- Ele suplica com fervor por essa graça. (1.) Apela para a promessa de Deus, sua dependência dessa promessa e o que espera dela: “Sustenta-me conforme a tua palavra, palavra na qual espero; e, se ela não se cumprir, serei envergonhado por minha esperança e chamado de tolo por minha credulidade”.
Mas os que esperam na palavra de Deus podem ter certeza de que ela não lhes falhará e, portanto, sua esperança não os envergonhará.
(2.) Ele apela para sua grande necessidade da graça de Deus e a grande vantagem que ela lhe traria: “Sustenta-me, para que eu viva”, dando a entender que não poderia viver sem essa graça.
Cairia no pecado, na morte e no inferno se Deus não o amparasse; mas, sustentado pela mão dele, viverá. Sua vida espiritual será preservada e será um penhor da vida eterna.
“Ampara-me, e estarei seguro”, livre do perigo e do medo do perigo. Nossa santa segurança se alicerça nos auxílios divinos.
(3.) Ele apela para sua resolução de prosseguir no dever pela força dessa graça: “Ampara-me, e então atentarei continuamente para os teus estatutos e jamais desviarei deles os olhos nem os pés”. “Eu me ocuparei com teus estatutos” (segundo alguns); “eu me deleitarei em teus estatutos” (segundo outros).
Se a mão direita de Deus nos sustentar, devemos prosseguir em nosso dever na força dele, tanto com diligência quanto com prazer.
Versículos 118 a 120
Aqui está: I. O juízo de Deus sobre os ímpios, sobre os que se desviam de seus estatutos, que tomam outras regras por medida e não querem que Deus reine sobre eles. Todo abandono dos estatutos de Deus é certamente um erro e se revelará fatal.
Esses são os ímpios da terra: ocupam-se das coisas terrenas, ajuntam seus tesouros na terra, vivem nos prazeres da terra e são estranhos e inimigos do céu e das coisas celestiais. Veja agora como Deus lida com eles, para que você não os tema nem os inveje:
Ele os pisa a todos. Leva-os à ruína, à ruína completa, à ruína vergonhosa; faz deles o estrado de seus pés. Por mais elevados que sejam, ele pode abatê-los (Amós 2:9); já o fez muitas vezes e o fará, pois resiste aos orgulhosos e triunfará sobre os que se opõem ao seu reino. Os perseguidores orgulhosos pisoteiam seu povo, mas, mais cedo ou mais tarde, ele os pisoteará.
Ele os afasta a todos como escória. Os ímpios são como a escória, que, embora esteja mesclada ao bom metal no minério e pareça ser da mesma substância que ele, precisa ser separada dele.
Aos olhos de Deus, são coisas sem valor, a escuma e o refugo da terra, e não podem ser comparados aos justos, assim como a escória não pode ser comparada ao ouro fino.
Virá um dia que os afastará do meio dos justos (Mateus 13:49), de modo que não terão lugar na congregação deles (Salmos 1:5), e os lançará no fogo eterno, o lugar mais apropriado para a escória.
Às vezes, neste mundo, os ímpios são afastados como escória pelas censuras da igreja, pela espada do magistrado ou pelos juízos de Deus (Provérbios 25:4, 5).
II. Os motivos desses juízos.
Deus os rejeita porque se desviam de seus estatutos — quem não se submete aos mandamentos da palavra sentirá suas maldições — e porque seu engano é falsidade, isto é, porque enganam a si mesmos ao estabelecer falsas regras contra os estatutos de Deus, dos quais se desviam, e tentam enganar outros com suas alegações hipócritas de bondade e seus projetos astutos de dano.
Sua astúcia é falsidade, segundo o dr. Hammond. O máximo de sua sagacidade é traição e perfídia; o Deus da verdade odeia isso e o punirá.
III. O proveito que Davi tirou desses juízos. Ele reparou neles e recebeu instrução deles. A ruína dos ímpios ajudou a aumentar: 1. Seu amor à palavra de Deus. “Vejo o que resulta do pecado; por isso amo teus testemunhos, que me advertem a tomar cuidado com esses caminhos perigosos e me guardam das veredas do destruidor.”
Vemos a palavra de Deus cumprida em seus juízos contra o pecado e os pecadores e, por isso, devemos amá-la. 2. Seu temor da cólera de Deus: “Minha carne treme de temor diante de ti.” Em vez de insultar os que caíram sob o desagrado de Deus, ele se humilhou.
O que lemos e ouvimos sobre os juízos de Deus contra os ímpios nos levaria: (1.) A reverenciar sua majestade terrível e a ter temor dele: “Quem pode ficar de pé diante deste santo Senhor Deus?” (1 Samuel 6:20). (2.) A temer que o ofendamos e fiquemos expostos à sua cólera.
Os homens bons precisam ser refreados do pecado pelos terrores do Senhor, especialmente quando o juízo começa pela casa de Deus e os hipócritas são desmascarados e afastados como escória.
- AIN.
Versículo 121
Davi recorre aqui a Deus: 1. Como sua testemunha de que não havia cometido injustiça; ele podia na verdade dizer: “Pratiquei juízo e justiça, isto é, tive o cuidado, por dever de consciência, de dar a todos o que lhes era devido e não privei ninguém de seu direito pela força ou pela fraude.”
Considere-o como rei: exerceu juízo e justiça para com todo o seu povo (2 Samuel 8:15). Considere-o em sua condição particular: podia recorrer ao próprio Saul, dizendo que não havia mal nem transgressão em sua mão (1 Samuel 24:11). Repare: A honestidade é a melhor política e será motivo de nossa alegria no dia mau.
- Como seu Juiz, para que não sofresse injustiça. Tendo feito justiça a outros que eram oprimidos, suplica que Deus lhe faça justiça e o vingue de seus adversários: “Sê fiador do teu servo para o bem; assume minha defesa contra os que querem abater-me e arruinar-me.”
Ele tem consciência de que não pode sustentar sua causa por si mesmo e, por isso, suplica que Deus se manifeste em seu favor. Cristo é nosso fiador diante de Deus; e, se ele o é, a Providência será nossa fiadora contra o mundo inteiro. Quem ou o que poderá nos prejudicar se o poder e a bondade de Deus estiverem empenhados em nossa proteção e livramento?
Ele não prescreve a Deus o que deve fazer em seu favor; pede apenas que seja para o bem, da maneira que a Sabedoria Infinita julgar melhor; “apenas não me deixes entregue aos meus opressores.”
Embora Davi tivesse praticado juízo e justiça, ainda assim tinha muitos inimigos; mas, tendo Deus como amigo, esperava que eles não conseguissem impor sua vontade contra ele; e, nessa esperança, orou novamente: “Não deixes que os soberbos me oprimam.”
Davi, um dos melhores homens, era oprimido pelos soberbos, aos quais Deus contempla de longe; portanto, a condição dos perseguidos é melhor que a dos perseguidores, e assim se revelará por fim.
Versículo 123
Davi, oprimido, espera e deseja aqui a salvação do Senhor, que lhe daria alívio. 1. Ele não pode deixar de pensar que ela tarda: “Meus olhos desfalecem pela tua salvação”. Seus olhos estavam voltados para ela havia muito tempo.
Ele esperava socorro do céu (e nos enganamos se o procuramos por qualquer outro meio), mas esse socorro não veio tão cedo quanto esperava. Por isso seus olhos começaram a desfalecer, e às vezes ele estava prestes a se desesperar e a pensar que, por não ter vindo quando a esperava, a salvação jamais viria.
É frequente até os homens bons mostrarem a fraqueza de se cansar de esperar o tempo de Deus quando o tempo deles já se esgotou.
- Ainda assim, ele não pode deixar de esperar que ela certamente venha, pois aguarda a palavra da justiça de Deus e nenhuma outra salvação senão a que essa palavra assegura. Ela não pode cair por terra, porque é palavra de justiça.
Embora nossos olhos desfaleçam, ainda assim a palavra de Deus não desfalece; por isso os que edificam sobre ela, embora agora desanimados, verão, no devido tempo, a salvação dele.
Versículos 124 a 125
Aqui está: 1. A petição de Davi por instrução divina: “Ensina-me teus estatutos; dá-me a conhecer todo o meu dever; quando eu estiver em dúvida e não souber ao certo qual é meu dever, dirige-me e torna-o claro para mim; agora que estou aflito, oprimido, e meus olhos estão prestes a desfalecer à espera da tua salvação, faze-me saber qual é meu dever nesta condição”.
Em tempos difíceis, devemos desejar mais que nos digam o que temos de fazer do que o que podemos esperar; e devemos orar mais para sermos conduzidos ao conhecimento dos preceitos das Escrituras do que ao das profecias das Escrituras. Se Deus, que nos deu seus estatutos, não nos ensinar, jamais os aprenderemos.
A maneira como Deus ensina está implícita na petição seguinte: “Dá-me entendimento” (um entendimento renovado, apto a receber a luz divina) “para que eu conheça teus testemunhos”. É prerrogativa de Deus dar entendimento, aquele entendimento sem o qual não podemos conhecer os testemunhos de Deus.
Os que mais conhecem os testemunhos de Deus desejam conhecê-los ainda mais e continuam a pedir com fervor que Deus os ensine, sem jamais pensar que já sabem o bastante.
- Seus apelos para reforçar essa petição. (1.) Ele apela para a bondade de Deus para com ele: “Trata-me segundo a tua misericórdia”. Os melhores santos consideram esta seu melhor apelo para pedir qualquer bênção: “Que eu a receba segundo a tua misericórdia”; pois não merecemos nenhum favor de Deus nem podemos reivindicar algum como dívida.
Temos, porém, a maior possibilidade de ficar tranquilos quando nos lançamos sobre a misericórdia de Deus e a ela nos confiamos. Em especial, quando nos aproximamos dele em busca de instrução, devemos pedi-la como misericórdia e considerar que, quando nos é ensinado, somos bem tratados.
(2.) Ele apela para sua relação com Deus: “Sou teu servo e tenho trabalho a fazer para ti; por isso, ensina-me a fazê-lo e a fazê-lo bem”. O servo tem motivo para esperar que, se não souber como fazer seu trabalho, seu senhor o ensine e, se estiver em seu poder, lhe dê entendimento.
“Senhor”, diz Davi, “desejo servir-te; mostra-me como”. Se alguém resolver fazer a vontade de Deus como servo dele, será levado a conhecer seus testemunhos, João 7:17; Salmos 25:14.
Versículo 126
Aqui está: 1. Uma queixa da ousada impiedade dos ímpios. Davi, tomado de santa indignação diante dela, apresenta-a humildemente a Deus: “Senhor, há os que anularam tua lei, desafiaram a ti e ao teu governo e fizeram tudo o que podiam para cancelar e invalidar a obrigação de teus mandamentos.”
Os que pecam por fraqueza transgridem a lei, mas os pecadores presunçosos, na prática, anulam a lei, dizendo: Quem é o Senhor? Que é o Todo-Poderoso, para que o temamos?
É possível que um homem piedoso peque contra o mandamento, mas o ímpio pecaria para abolir o mandamento, revogaria as leis de Deus e daria força de lei às próprias cobiças. Essa é a pecaminosidade do pecado e a malignidade da mente carnal.
- Um desejo de que Deus se manifeste para defender sua própria honra: “É tempo de agires, Senhor, de fazeres algo para a refutação eficaz dos ateus e incrédulos e para calar os que erguem a boca contra os céus.” O tempo de Deus agir é quando o vício se torna mais ousado e a medida da iniquidade está cheia.
“Agora me levantarei”, diz o Senhor. Alguns o leem, e o original admite essa leitura: “É tempo de trabalhar por ti, ó Senhor!” É tempo de cada um, em sua posição, manifestar-se do lado do Senhor — contra o avanço ameaçador da profanidade e da imoralidade.
Devemos fazer o que pudermos para sustentar os interesses da religião que estão afundando e, depois de tudo, devemos suplicar a Deus que tome a obra nas próprias mãos.
Versículo 127
Davi aqui, como tantas vezes neste salmo, declara o grande amor que tinha pela palavra e pela lei de Deus; e, para evidenciar a sinceridade desse amor, observe: 1. O grau de seu amor. Amava sua Bíblia mais do que amava seu dinheiro — acima do ouro, sim, e ainda: acima do ouro fino.
Ouro, ouro fino, é aquilo em que a maioria dos homens põe o coração; nada os encanta nem deslumbra seus olhos tanto quanto o ouro. É ouro fino, algo fino aos olhos deles; arriscam sua alma, seu Deus e tudo quanto têm para obtê-lo e conservá-lo.
Mas Davi percebeu que a palavra de Deus atende a todos os propósitos melhor do que o dinheiro, pois torna a alma rica para com Deus. Por isso a amava mais que ao ouro: ela fizera por ele o que o ouro não podia fazer e lhe valeria quando as riquezas do mundo lhe faltassem.
- O fundamento de seu amor. Amava todos os mandamentos de Deus porque os considerava retos, todos razoáveis e justos, e adequados ao fim para o qual foram feitos.
Todos são como devem ser, e não se pode achar defeito neles; e devemos amá-los porque trazem a imagem de Deus e são revelações de sua vontade. Se assim anuirmos à lei, reconhecendo que ela é boa, teremos prazer nela segundo o homem interior.
O fruto e a prova desse amor: Odiava todo caminho falso. O caminho do pecado, por ser diretamente contrário aos preceitos de Deus, que são retos, é um caminho falso; por isso aqueles que têm amor e estima pela lei de Deus o odeiam e não se reconciliarão com ele.
PE.
Versículo 129
Veja aqui como Davi se sentia em relação à palavra de Deus. 1. Ele a admirava por sua extraordinária excelência em si mesma: “Teus testemunhos são maravilhosos”. A palavra de Deus nos dá revelações admiráveis a respeito de Deus, de Cristo e de outro mundo, e provas admiráveis do amor e da graça divinos.
A majestade do estilo, a pureza do conteúdo e a harmonia das partes são todas maravilhosas. Seus efeitos sobre as consciências dos homens, tanto para convencer quanto para consolar, são maravilhosos; se não os admiramos, é sinal de que não conhecemos os testemunhos de Deus ou não os entendemos.
- Ele se apegava à palavra por lhe ser constantemente útil: “Por isso minha alma os guarda, como um tesouro de valor inestimável, do qual não posso abrir mão”. De nada adianta guardá-los se nossa alma não os guarda.
É nela que devem ser depositados, como as tábuas do testemunho na arca; é nela que devem ocupar o lugar mais íntimo e mais elevado. Os que reconhecem a palavra de Deus como admirável lhe darão grande valor e a preservarão com zelo, pois dela esperam grandes coisas.
Versículo 130
Aqui está: 1. O grande uso a que se destina a palavra de Deus: dar luz, isto é, dar entendimento, fazer-nos compreender o que nos será útil em nossa jornada por este mundo; ela é o meio externo e ordinário pelo qual o Espírito de Deus ilumina o entendimento de todos os que são santificados.
Os testemunhos de Deus não são apenas maravilhosos por sua grandeza, mas também úteis, como luz em lugar escuro.
- Sua eficácia para esse propósito. Ela cumpre admiravelmente esse fim, pois: (1.) Até a entrada da palavra de Deus dá luz.
Se começarmos pelo princípio e a tivermos diante de nós, veremos que os primeiros versículos da Bíblia nos oferecem revelações surpreendentes e, contudo, satisfatórias sobre a origem do universo, acerca da qual, sem ela, o mundo está em completa escuridão.
Assim que a palavra de Deus entra em nós e encontra lugar em nós, ela nos ilumina; percebemos que começamos a enxergar quando começamos a estudar a palavra de Deus.
Os próprios primeiros princípios dos oráculos de Deus, as verdades mais simples, o leite designado para as criancinhas, trazem grande luz à alma; muito mais a alma será iluminada pelos mistérios sublimes que ali se encontram.
“A exposição ou explicação da tua palavra dá luz”; então ela é mais proveitosa quando os ministros fazem sua parte ao dar o sentido, Neemias 8:8. Alguns entendem que se refere ao Novo Testamento, que abre ou desdobra o Antigo e que daria luz acerca da vida e da imortalidade.
(2.) Ela daria entendimento até aos simples, aos de capacidade mais limitada; pois nos mostra um caminho para o céu tão claro que os caminhantes, mesmo insensatos, não se perderão nele.
Versículo 131
Aqui está: 1. O desejo que Davi tinha pela palavra de Deus: “Ansiava pelos teus mandamentos.” Quando sofria um afastamento forçado das ordenanças de Deus, ansiava por ser restituído a elas de novo.
Quando desfrutava das ordenanças, sugava avidamente a palavra de Deus, como as criancinhas recém-nascidas desejam o leite. Quando Cristo é formado na alma, surgem anseios produzidos pela graça, inexplicáveis para quem é estranho a essa obra.
- A intensidade desse desejo, manifesta nas expressões que lhe deu: “Abri a boca e arquejei”, como alguém vencido pelo calor, ou quase sufocado, arqueja por uma golfada de ar fresco. Tão fortes e tão fervorosos devem ser nossos desejos por Deus e pela lembrança de seu nome (Salmos 42:1, 2; Lucas 12:50).
Versículo 132
Aqui está: 1. O pedido de Davi do favor de Deus para si mesmo: “Olha para mim com benevolência; deixa-me receber teus sorrisos e a luz do teu rosto. Atenta para mim e para os meus assuntos, e tem misericórdia de mim; deixa-me provar a doçura de tua misericórdia e receber os dons de tua misericórdia.”
Veja quão humilde é sua súplica. Não pede as intervenções da mão de Deus, apenas os sorrisos de seu rosto; um olhar favorável basta; e, para isso, não alega mérito, mas implora misericórdia.
- Seu reconhecimento do favor de Deus a todo o seu povo: “Como costumas fazer aos que amam teu nome.” Isso é ou: (1.) Um apelo por misericórdia: “Senhor, sou um dos que amam teu nome, que amam a ti e a tua palavra, e costumas ser bondoso para com os que assim fazem; e me tratarás pior que aos outros do teu povo?”
Ou, (2.) Uma descrição do favor e da misericórdia que desejava: “aquilo que costumas conceder aos que amam teu nome, o favor que tens para com teus escolhidos” (Salmos 106:4, 5).
Não deseja mais nem melhor que a porção do próximo, e não se contentará com menos; olhares comuns e misericórdias comuns não lhe bastam, mas só os favores reservados aos que o amam, coisas que “o olho não viu” (1 Coríntios 2:9).
Repare: O modo como Deus trata os que o amam é tal que ninguém precisa desejar ser tratado melhor, pois ele os fará felizes na verdade e eternamente. E, enquanto Deus não nos tratar de modo diferente daquele com que costuma tratar os que o amam, não teremos motivo para nos queixar (1 Coríntios 10:13).
Versículo 133
Aqui Davi ora por duas grandes bênçãos espirituais e, neste versículo, deseja com tanta intensidade a boa obra de Deus nele quanto, no versículo anterior, a boa vontade de Deus para com ele. Ele ora:
- Pela direção nas veredas do dever: “Ordena meus passos segundo a tua palavra; tendo-me conduzido ao caminho certo, que cada passo que eu der nele esteja sob a direção da tua graça”.
Devemos andar segundo uma regra; todos os movimentos da alma devem não só ficar dentro dos limites prescritos pela palavra, sem transgredi-los, mas também seguir as veredas prescritas pela palavra, sem percorrê-las com leviandade. Por isso devemos suplicar a Deus que, por seu bom Espírito, ordene nossos passos assim.
- Pela libertação do poder do pecado: “Não permitas que iniquidade alguma tenha domínio sobre mim, a ponto de obter minha anuência ao pecado e de eu ser levado cativo por ela”.
O domínio do pecado é algo que cada um de nós deve temer e pedir a Deus que afaste. Se orarmos sinceramente contra ele, podemos receber como resposta à oração aquela promessa (Romanos 6:14): “O pecado não terá domínio sobre vós”.
Versículo 134
Aqui: 1. Davi ora para levar uma vida tranquila e pacífica e para não ser atormentado e perturbado pelos que se empenhavam em importuná-lo: “Livra-me da opressão do homem — homem que Deus pode controlar e cujo poder é limitado.”
“Que eles saibam que são apenas homens (Salmos 9:20) e que eu seja livrado das mãos dos meus inimigos, para que eu sirva a Deus sem medo; assim guardarei teus preceitos.”
Não que ele deixasse de guardar os preceitos de Deus, ainda que continuasse sob opressão; “mas assim guardarei teus preceitos com mais alegria e com mais largueza de coração, com minhas amarras desatadas.” Então podemos esperar bênçãos temporais quando as desejamos tendo em vista poder servir melhor a Deus.
Versículo 135
Davi aqui, como tantas vezes em outras passagens, chama a si mesmo servo de Deus, título do qual se gloriava, embora fosse rei; agora, como convinha a um bom servo: 1. Deseja muito o favor de seu Mestre, considerando-o sua felicidade e seu bem supremo.
Não pede trigo e vinho, nem prata e ouro, mas pede: “Faze resplandecer teu rosto sobre teu servo; que eu seja aceito por ti e saiba que o sou. Consola-me com a luz do teu semblante em todo dia nublado e escuro. Se o mundo franzir o cenho para mim, ainda assim sorri tu para mim.”
- É muito cuidadoso com a obra de seu Mestre, considerando-a sua ocupação e sua principal preocupação. Nela desejava ser instruído, para poder fazê-la, e fazê-la bem, de modo a ser aceito ao fazê-la: “Ensina-me teus estatutos.”
Repare: Devemos orar com tanto fervor por graça quanto por consolo. Se Deus esconde de nós o rosto, é porque temos sido negligentes em guardar seus estatutos; e, por isso, para estarmos aptos a receber de novo seu favor, devemos orar por sabedoria para fazer nosso dever.
Versículo 136
Aqui vemos Davi tomado de tristeza: 1. É uma grande tristeza, a ponto de ele chorar rios de lágrimas. Em geral, onde há um coração cheio de graça, há um olho que chora, em conformidade com Cristo, que era homem de tristezas e familiarizado com a dor.
Davi havia orado por consolo no favor de Deus (v. 135); agora apela para o fato de que reunia as condições para esse consolo e precisava dele, pois era um dos que pranteavam em Sião, e os que assim fazem serão consolados (Isaías 61:3).
- É uma tristeza piedosa. Ele não chorava por suas tribulações, embora fossem muitas, mas pela desonra causada a Deus: “Porque não guardam tua lei”; ou porque meus olhos não guardam tua lei, segundo alguns (o olho é a porta de entrada e saída de muito pecado e, por isso, deve ser um olho que chora); ou, melhor, “eles”, isto é, “os que me rodeiam” (v. 139). Repare:
Os pecados dos pecadores são as tristezas dos santos. Devemos lamentar o que não podemos corrigir.
- TZADDI.
Versículos 137 a 138
Aqui está: 1. A justiça de Deus, a retidão e a perfeição infinitas de sua natureza. Assim como ele é o que é, assim é o que deve ser, e em tudo age como lhe convém; nada falta nem há nada de errado em Deus. Sua vontade é a regra eterna da equidade, e ele é justo, pois faz tudo de acordo com ela.
- A justiça de seu governo. Ele governa o mundo por sua providência, segundo os princípios da justiça, e nunca fez nem jamais poderá fazer injustiça a qualquer de suas criaturas: “Retos são os teus juízos”, suas promessas, suas ameaças e a execução de ambas.
Toda palavra de Deus é pura, e ele será fiel a ela; conhece perfeitamente os méritos de cada causa e julgará de acordo com eles.
- A justiça de seus mandamentos, que ele deu para serem a regra de nossa obediência: “Os teus testemunhos que ordenaste, sustentados por tua autoridade soberana e aos quais exiges nossa obediência, são sobremodo justos e fiéis, a própria justiça e fidelidade”.
Assim como Deus age de acordo com quem ele é, assim sua lei exige que ajamos de acordo com quem somos e com quem ele é, que sejamos justos para conosco mesmos e para com todos com quem lidamos, fiéis a todos os compromissos que assumimos tanto com Deus quanto com os homens.
Aquilo que nos é ordenado praticar é justo; aquilo que nos é ordenado crer é fiel. Para nossa fé e obediência, é necessário que estejamos convencidos disso.
Versículo 139
Aqui está: 1. O grande desprezo que os ímpios demonstram pela religião: “Meus inimigos se esqueceram das tuas palavras”.
Eles as ouviram muitas vezes, mas lhes deram tão pouca atenção que logo as esqueceram; esqueceram-nas de propósito: não só as deixaram escapar da mente por descuido, mas também maquinaram como lançá-las para trás das costas.
Isso está na raiz de toda a maldade dos ímpios e, em especial, de sua malignidade e inimizade contra o povo de Deus; esqueceram as palavras de Deus, caso contrário elas refreariam suas práticas pecaminosas.
- O grande cuidado que os homens piedosos demonstram pela religião. Davi considerava inimigos seus aqueles que se esqueciam das palavras de Deus, pois eram inimigos da religião, com a qual ele firmara um pacto ofensivo e defensivo.
Por isso seu zelo chegava a consumi-lo ao observar as impiedades deles. Ele sentia uma indignação tão intensa diante da maldade deles que ela lhe corroía as forças, chegando a devorá-las (como o zelo de Cristo, João 2:17), engolia todas as considerações secundárias e o fazia esquecer-se de si mesmo.
“Meu zelo me impeliu ou me constrangeu” (assim lê o Dr. Hammond), Atos 18:5. O zelo contra o pecado deve nos constranger a fazer o que pudermos contra ele no âmbito que nos cabe, ao menos a nos empenharmos tanto mais na religião, nós mesmos. Quanto piores forem os outros, melhores devemos ser.
Versículo 140
Aqui está: 1. A grande afeição de Davi pela palavra de Deus: “Teu servo a ama.” Todo homem bom, sendo servo de Deus, ama a palavra de Deus, porque ela lhe dá a conhecer a vontade de seu Mestre e o orienta na obra de seu Mestre. Onde quer que haja graça, há um apego ardente à palavra de Deus.
- O fundamento e o motivo dessa afeição: ele via que a palavra era muito pura e, por isso, a amava. Nosso amor pela palavra de Deus é então prova de nosso amor a Deus quando a amamos por causa de sua pureza, porque ela traz a imagem da santidade de Deus e se destina a nos fazer participantes de sua santidade.
Ela ordena pureza e, assim como ela própria está depurada de toda mistura corrupta, assim, se a recebermos à luz dela e com amor por ela, ela nos depurará da escória do mundanismo e da mentalidade carnal.
Versículo 141
Aqui está: 1. Davi piedoso e, ainda assim, pobre. Era um homem segundo o próprio coração de Deus, alguém a quem o Rei dos reis tinha prazer em honrar, e, no entanto, pequeno e desprezado tanto a seus próprios olhos quanto aos olhos de muitos outros.
A excelência dos homens nem sempre pode protegê-los do desprezo; ou melhor, muitas vezes os expõe ao escárnio dos outros e sempre os torna pequenos a seus próprios olhos. Deus escolheu as coisas insensatas do mundo, e a sorte habitual de seu povo tem sido ser um povo desprezado.
- Davi pobre e, ainda assim, piedoso, pequeno e desprezado por causa de sua piedade rigorosa e séria; contudo, sua consciência pode testemunhar a seu favor que ele não se esquecia dos preceitos de Deus.
Não quis abandonar sua religião, embora ela o expusesse ao desprezo, pois sabia que isso se destinava a pôr à prova sua constância. Quando somos pequenos e desprezados, precisamos ainda mais nos lembrar dos preceitos de Deus, para tê-los como apoio sob as pressões de uma condição humilde.
Versículo 142
Observe: 1. Que a palavra de Deus é justiça, uma justiça eterna. Ela é a regra do julgamento de Deus, está em consonância com seus conselhos desde a eternidade e dirigirá sua sentença por toda a eternidade.
A palavra de Deus nos julgará, ela nos julgará em justiça, e por ela será determinado nosso estado eterno. Isso deve nos encher de uma reverência muito grande pela palavra de Deus: ela é a própria justiça, o padrão da justiça, e é eterna em suas recompensas e punições.
- Que a palavra de Deus é lei e que essa lei é verdade. Veja a dupla obrigação que temos de nos deixar governar pela palavra de Deus. Somos criaturas racionais e, como tais, devemos ser governados pela verdade, reconhecendo sua força e seu poder.
Se os princípios são verdadeiros, as práticas devem estar de acordo com eles; caso contrário, não agimos racionalmente. Somos criaturas e, portanto, súditos, e devemos ser governados por nosso Criador; tudo o que ele ordena somos obrigados a obedecer como lei.
Veja como essas obrigações estão aqui entrelaçadas, essas cordas de um homem. Aqui a verdade é levada ao entendimento, para ali ocupar o primeiro lugar e dirigir os movimentos do homem inteiro; mas, para que a autoridade da verdade não enfraqueça por causa da carne, aqui há uma lei para prender a vontade e submetê-la.
A verdade de Deus é uma lei (João 18:37) e a lei de Deus é a verdade; certamente não podemos separar palavras como essas.
Versículos 143 a 144
Estes dois versículos são quase uma repetição dos dois anteriores, mas com aprofundamento. 1. Davi declara mais uma vez sua constante adesão a Deus e ao dever, apesar das muitas dificuldades e dos desânimos que enfrentou. Ele dissera (v. 141): Sou pequeno e desprezado e, ainda assim, permaneço fiel ao meu dever.
Aqui ele se vê não só insignificante, mas também miserável, até onde este mundo podia fazê-lo assim: “Tribulação e angústia se apoderaram de mim” — tribulação por fora, angústia por dentro; elas o surpreenderam, agarraram-no e mantiveram-no preso.
As tristezas são muitas vezes a sorte dos santos neste vale de lágrimas; eles ficam abatidos por diversas provações. Antes ele dissera: “Contudo, não me esqueço dos teus preceitos”; aqui ele leva sua constância muito mais longe: “Contudo, os teus mandamentos são minhas delícias”.
A tribulação e a angústia não lhe tiraram o gosto pelas consolações da palavra de Deus; ele ainda podia saboreá-las e encontrar nelas a paz e o prazer de que todas as calamidades do tempo presente não podiam privá-lo.
Há deleites, uma variedade de deleites, na palavra de Deus, dos quais os santos muitas vezes desfrutam com a maior doçura quando estão em tribulação e angústia, 2 Coríntios 1:5.
- Ele reconhece novamente a justiça eterna da palavra de Deus, como antes (v. 142): A justiça dos testemunhos de Deus é eterna e não pode ser alterada; quando essa justiça é acolhida com seu poder numa alma, torna-se ali um princípio permanente, um poço de água viva, João 4:14.
Devemos meditar muito e com frequência sobre a equidade e a eternidade da palavra de Deus. Aqui ele acrescenta, como inferência: (1.) Sua oração por graça: “Dá-me entendimento”. Os que conhecem muito da palavra de Deus ainda devem desejar ardentemente conhecer mais, pois há mais a conhecer.
Ele não diz: “Dá-me uma revelação ulterior”, mas: Dê-me um entendimento ulterior; devemos desejar compreender o que foi revelado e conhecer melhor o que já sabemos, e devemos recorrer a Deus para receber um coração capaz de conhecer.
(2.) Sua esperança da glória: “Dá-me esse entendimento renovado, e então viverei, viverei para sempre, serei eternamente feliz e, por ora, serei consolado pela perspectiva disso”. Isto é a vida eterna: conhecer a Deus, João 17:3.
- KOPH.
Versículos 145 a 146
Temos aqui: I. As boas orações de Davi, com as quais buscou misericórdia junto a Deus; ele as menciona não para se gloriar nelas nem para confiar em algum mérito nelas, mas para recordar com consolo que havia seguido o caminho designado para o consolo. Observe aqui:
Que ele tinha comunhão íntima com Deus na oração; orava com o coração, e a oração só é aceitável na medida em que o coração a acompanha. O trabalho dos lábios, se for só isso, é trabalho perdido.
Ele era insistente para com Deus na oração; clamava como quem estava inteiramente empenhado, com fervor de afeto, santa veemência e vigor de desejo. Clamava de todo o coração; todas as faculdades de sua alma não só estavam mobilizadas e empregadas, mas também eram exercidas ao máximo em suas orações. É então provável que tenhamos êxito quando assim contendemos e lutamos na oração.
Que ele dirigia sua oração a Deus: “Clamei a ti.” Para onde deveria ir o filho, senão a seu pai, quando algo o aflige?
Que a grande coisa pela qual orava era a salvação: “Salva-me.” Uma oração curta (pois nos enganamos se pensamos que seremos ouvidos por muito falar), mas abrangente: “Não apenas livra-me da ruína, mas torna-me feliz.”
Não precisamos desejar mais que a salvação de Deus (Salmos 50:23) e as coisas que a acompanham (Hebreus 6:9).
- Que ele desejava intensamente uma resposta; e não apenas erguia os olhos em suas orações, mas continuava a erguê-los depois delas, para ver o que delas resultaria (Salmos 5:3): “Senhor, ouve-me e faz-me saber que me ouves.”
II. Os bons propósitos de Davi, pelos quais se obrigava ao dever enquanto buscava misericórdia. “Guardarei teus estatutos; estou decidido que, por tua graça, os guardarei”; pois, se desviarmos o ouvido de ouvir a lei, não podemos esperar uma resposta de paz às nossas orações (Provérbios 28:9).
Esse propósito é apresentado como um humilde apelo (v. 146): “Salva-me dos meus pecados, das minhas corrupções, das minhas tentações, de todos os obstáculos que estão em meu caminho, para que eu guarde teus testemunhos.”
Devemos clamar por salvação, não para obter o alívio e o consolo que ela traz, mas para ter a oportunidade de servir a Deus com mais alegria.
Versículos 147 a 148
Davi prossegue aqui relatando como abundara no dever da oração, com grande consolo e proveito para si: clamava a Deus, isto é, oferecia-lhe seus sentimentos piedosos e devotos com toda a seriedade. Observe:
I. As servas de sua devoção: os dois grandes exercícios que acompanhavam suas orações e as ajudavam eram:
A esperança na palavra de Deus, que o animava a persistir assiduamente na oração, embora a resposta não viesse imediatamente: “Clamei e esperei que por fim fosse atendido, porque a visão é para um tempo determinado e, no fim, falará e não mentirá. Esperei em tua palavra, que eu sabia que não me falharia.”
A meditação na palavra de Deus. Quanto mais intimamente temos comunhão com a palavra de Deus e quanto mais nela nos detemos em nossos pensamentos, mais capazes seremos de falar a Deus em sua própria linguagem e melhor saberemos pelo que orar, como convém. Ler a palavra não basta; precisamos meditar nela.
II. As horas de sua devoção. Ele precedia o amanhecer ou melhor, e as vigílias da noite. Veja aqui: 1. Que Davi era madrugador, o que talvez contribuísse para sua eminência. Ele não era dos que dizem: “Ainda um pouco de sono.”
Que começava o dia com Deus. A primeira coisa que fazia de manhã, antes de se ocupar de qualquer assunto, era orar, quando sua mente estava mais fresca e mais bem disposta. Se nossos primeiros pensamentos da manhã forem sobre Deus, ajudarão a conservar-nos no temor dele durante todo o dia.
Que sua mente estava tão cheia de Deus e dos zelos e deleites de sua religião que pouco sono lhe bastava. Mesmo nas vigílias da noite, quando acordava do primeiro sono, preferia meditar e orar a virar-se e voltar a dormir.
Ele estimava as palavras da boca de Deus mais que seu descanso necessário, do qual podemos prescindir tão pouco quanto do alimento (Jó 23:12).
- Que resgatava tempo para os exercícios religiosos. Seu dia inteiro estava cheio de afazeres, mas isso não dispensa ninguém da devoção particular; é melhor tirar tempo do sono, como Davi fez, do que deixar de encontrar tempo para orar.
E este é nosso consolo quando oramos à noite: nunca chegamos em hora inoportuna ao trono da graça, pois podemos ter acesso a ele a qualquer hora. Baal pode estar dormindo, mas o Deus de Israel jamais cochila, nem há horas em que não se possa falar com ele.
Versículo 149
Aqui está: 1. Davi recorre a Deus em busca de graça e consolo com muita solenidade. Suplica a Deus que ouça sua voz: “Senhor, tenho algo a dizer-te; obterei uma audiência benevolente?”
Bem, o que ele tem a dizer? Qual é sua petição e qual é seu pedido? Não é longo, mas diz muito em poucas palavras: “Senhor, vivifica-me; desperta-me para o que é bom e torna-me vigoroso, cheio de vida e alegre nisso. Que os hábitos da graça sejam postos em prática”.
- Ele se anima a esperar que obterá seu pedido, pois confia: (1.) Na bondade amorosa de Deus: “Ele é bom; por isso será bom para comigo, que espero em sua misericórdia. Sua bondade amorosa manifestada a mim ajudará a vivificar-me e a infundir vida em mim”.
(2.) No juízo de Deus, isto é, em sua sabedoria (“Ele sabe do que preciso e o que é bom para mim e, por isso, me vivificará”), ou em sua promessa, a palavra que ele proferiu, a misericórdia assegurada pela nova aliança: Vivifique-me segundo o teor dessa aliança.
Versículos 150 a 151
Aqui está: I. A apreensão de Davi diante do perigo vindo de seus inimigos:
Eram muito maliciosos e diligentes em levar adiante seus desígnios maliciosos: “Andam atrás do mal”, de qualquer mal que pudessem fazer a Davi ou a seus amigos; não deixariam escapar oportunidade alguma nem abandonariam qualquer investida que pudesse prejudicá-lo.
Eram muito ímpios e não tinham temor de Deus diante dos olhos: “Estão longe da tua lei”, pondo-se tão longe quanto podem do alcance de sua força de convencimento e de suas ordens.
Os perseguidores do povo de Deus fazem pouco caso do próprio Deus; por isso podemos estar certos de que Deus tomará o partido de seu povo contra eles.
- Seguiam Davi de perto, e ele estava prestes a cair em suas mãos: “Eles se aproximam”, mais perto do que antes, de modo que ganhavam terreno sobre ele. Estavam no encalço dele, quase às suas costas.
Deus às vezes permite que os perseguidores obtenham grande vantagem contra seu povo, de modo que, como Davi disse (1 Samuel 20:3), há apenas um passo entre eles e a morte.
Talvez isso apareça aqui como motivo pelo qual Davi era tão fervoroso na oração (v. 149). Deus nos leva a perigos iminentes, como fez com Jacó, para que, como ele, lutemos por uma bênção.
II. A certeza que Davi tinha da proteção em Deus: “Eles se aproximam para me destruir, mas tu estás perto, ó Senhor, para me salvar! És não só mais poderoso do que eles e, portanto, capaz de me ajudar contra eles, mas também mais perto do que eles e, portanto, pronto a me ajudar.”
É a felicidade dos santos que, quando a tribulação está perto, Deus está perto, e nenhuma tribulação pode separá-los dele. Nunca precisamos buscá-lo longe: ele atende quando o chamamos, e os meios de nos socorrer atendem ao chamado dele (Deuteronômio 4:7).
“Todos os teus mandamentos são verdade.” Os inimigos pensavam frustrar as promessas que Deus fizera a Davi, mas ele estava certo de que isso estava fora do poder deles; elas eram inviolavelmente verdadeiras e se cumpririam infalivelmente.
Versículo 152
Isto confirma o que ele dissera no fim dos versículos anteriores: “Todos os teus mandamentos são verdade”; ele se refere à aliança, à palavra que Deus ordenou a mil gerações. Ela é firme, tão verdadeira quanto a própria verdade. Pois: 1. Deus a fundamentou assim; moldou-a para durar para sempre.
Sua estrutura é tal, e ela é tão bem ordenada em todas as coisas, que não pode deixar de ser segura. As promessas estão fundadas para sempre, de modo que, quando o céu e a terra tiverem passado, cada iota e cada til da promessa permanecerão firmes (2 Coríntios 1:20).
- Davi havia constatado que era assim, tanto pela obra da graça de Deus em seu coração (que gerou nele plena convicção da verdade da palavra de Deus e o capacitou a confiar nela com plena satisfação) quanto pelas obras da providência de Deus em favor dele, que cumpriram a promessa além do que esperava.
Assim ele sabia desde longa data, desde os dias de sua juventude, desde que começou a voltar-se para Deus, que a palavra de Deus é aquilo em que se pode arriscar tudo. Essa certeza foi confirmada pelas observações e experiências de toda a sua própria vida e dos outros que o haviam precedido nos caminhos de Deus.
Todos os que alguma vez se relacionaram com Deus e confiaram nele reconhecerão que o acharam fiel.
- RESH.
Versículos 153 a 154
Aqui está: I. Davi ora por socorro na aflição. Alguém está aflito? Que ore; que ore como Davi faz aqui. 1. Ele tem em vista a compaixão de Deus e ora: “Considera minha aflição; leva-a em conta, com todas as suas circunstâncias, e não fiques sentado à margem como alguém indiferente”.
Deus nunca se esquece das aflições de seu povo, mas quer que as tragamos à sua memória (Isaías 43:26), exponhamos nosso caso diante dele e então o deixemos à sua consideração compassiva, para que aja a respeito dele conforme, em sua sabedoria, julgar apropriado, em seu tempo e à sua maneira.
Ele tem em vista o poder de Deus e ora: “Livra-me”; e de novo: “Livra-me; considera minhas tribulações e tira-me delas”. Deus prometeu livramento (Salmos 50:15), e podemos orar por ele, submetendo-nos à sua vontade e tendo em vista sua glória, para que possamos servi-lo melhor.
Ele tem em vista a justiça de Deus e ora: “Defende a minha causa; sê meu patrono e advogado, e toma-me por teu cliente”. Davi tinha uma causa justa, mas seus adversários eram muitos e poderosos, e ele corria o risco de ser esmagado por eles; por isso pede a Deus que demonstre sua integridade e silencie as falsas acusações deles.
Se Deus não defender a causa de seu povo, quem a defenderá? Ele é justo, e os seus se entregam a ele; portanto, defenderá a causa, e o fará com eficácia, Isaías 51:22; Jeremias 50:34.
(4.) Ele tem em vista a graça de Deus e ora: “Vivifica-me. Senhor, sou fraco e incapaz de suportar minhas tribulações; meu espírito tende a abater-se e a afundar. Ah, se me reanimasses e consolasses até que se realize o livramento!”
II. Ele invoca sua dependência da palavra de Deus e sua consideração obediente pelas orientações dela: “Vivifica-me e livra-me segundo tua palavra de promessa, pois não me esqueço dos teus preceitos”.
Quanto mais firmemente nos apegarmos à palavra de Deus, tanto como nossa regra quanto como nosso apoio, maior certeza poderemos ter do livramento no devido tempo.
Versículo 155
Aqui está: 1. A descrição dos homens ímpios. Não só deixam de cumprir os estatutos de Deus, como nem sequer os buscam; não se familiarizam com eles, nem sequer desejam conhecer seu dever, nem fazem o mínimo esforço para cumpri-lo.
São de fato ímpios aqueles que não acham que valha a pena investigar a lei de Deus, mas a desconsideram por completo, decididos a viver sem restrições e a andar no caminho do próprio coração.
- Sua condenação: A salvação está longe deles. Não podem, com fundamento sólido algum, prometer a si mesmos livramento temporal. “Não pense esse homem que receberá coisa alguma do Senhor.”
Como podem esperar buscar com êxito o favor de Deus na adversidade aqueles que nunca buscaram seus estatutos na prosperidade? Mas a salvação eterna certamente está longe deles.
Lisonjeiam-se com a ideia de que ela está perto e de que estão indo para o céu; mas se enganam: está longe deles. Afastam-na de si ao afastarem de si o Salvador; ela está tão longe que não a podem alcançar, e quanto mais tempo persistem no pecado, mais distante ela fica.
Ou melhor: enquanto a salvação está longe deles, a perdição está perto; ela não dorme. “Eis que o Juiz está diante da porta.”
Versículo 156
Aqui: 1. Davi admira a graça de Deus: “Grandes são as tuas ternas misericórdias, ó Senhor!” Assim como a bondade da natureza de Deus é sua glória, assim também é a alegria de todos os santos.
Suas misericórdias são ternas, pois ele é cheio de compaixão; são muitas, são grandes, uma fonte que nunca se esgota. Ele é rico em misericórdia para com todos os que o invocam.
Davi falara da miséria dos ímpios (v. 155); mas Deus continua bom apesar disso; nele havia misericórdias ternas suficientes para tê-los salvo, se não tivessem desprezado as riquezas dessas misericórdias.
Os que são libertos da condenação do pecador ficam para sempre obrigados a reconhecer a grandeza das misericórdias de Deus que os libertaram.
- Ele pede a graça de Deus, graça que reanima e vivifica, segundo seus juízos, isto é, segundo o teor da nova aliança (a regra estabelecida pela qual ele age ao dispensar essa graça), ou segundo seu modo, seu costume ou sua prática com os que amam seu nome (v. 132).
Versículo 157
Aqui está: 1. Davi cercado de dificuldades e perigos: “Muitos são os meus perseguidores e os meus inimigos”. Quando o rei Saul era seu perseguidor e inimigo, não admira que muitos outros também o fossem: multidões seguirão os caminhos perniciosos de uma autoridade exercida abusivamente.
Davi, por ser uma pessoa pública, tinha muitos inimigos, mas também muitos amigos, que o amavam e lhe desejavam o bem; que ele contraponha uns aos outros. Nisso Davi era tipo tanto de Cristo quanto de sua igreja. Os inimigos e perseguidores de ambos são muitos, muitíssimos.
- Apesar disso, Davi firme no caminho de seu dever: “Contudo, não me desvio dos teus testemunhos, pois sei que, enquanto me apegar a eles, Deus é por mim; e então pouco importa quem esteja contra mim”. Quem permanece firme no caminho do dever, embora tenha muitos inimigos, não precisa temer nenhum deles.
Versículo 158
Aqui está: 1. A tristeza de Davi pela impiedade dos ímpios. Embora vivesse muito recolhido em casa, ainda assim às vezes olhava para fora e não podia deixar de ver os ímpios andando por toda parte.
Ele observava os transgressores, cujos pecados estavam patentes diante de todos, e se entristecia ao vê-los desonrar a Deus, servir a Satanás, corromper o mundo e arruinar as próprias almas; ao vê-los tão numerosos, tão ousados, tão descarados e tão empenhados em atrair almas instáveis para suas armadilhas.
Tudo isso só pode entristecer quem tem alguma consideração pela glória de Deus e pelo bem-estar da humanidade.
- A razão dessa tristeza. Ele se entristecia, não porque o importunassem, mas porque provocavam a Deus: “Eles não guardaram tua palavra.” Os que de fato odeiam o pecado odeiam-no como pecado, como transgressão da lei de Deus e violação de sua palavra.
Versículo 159
Aqui está: 1. O apelo de Davi a Deus a respeito de seu amor pelos preceitos divinos: “Senhor, tu sabes todas as coisas; sabes que eu os amo; considera isso, então, e trata-me como costumas tratar os que amam tua palavra, que exaltaste acima de todo o teu nome”.
Ele não diz: “Considera como cumpro teus preceitos”; tinha consciência de que em muitas coisas ficava aquém; mas diz: “Considera como os amo”. Nossa obediência só agrada a Deus e só é agradável a nós mesmos quando brota de um princípio de amor.
- Sua petição em consequência disso: “Vivifica-me para cumprir meu dever com vigor; reanima-me, conserva-me vivo, não segundo algum mérito meu, embora eu ame tua palavra, mas segundo tua bondade amorosa”.
É a essa bondade que devemos nossa vida; ou melhor, ela é melhor do que a própria vida. Não precisamos desejar ser vivificados além da medida em que a bondade amorosa de Deus nos vivificará.
Versículo 160
Davi aqui se consola com a fidelidade da palavra de Deus, para animar a si mesmo e aos outros a confiar nela. 1. Até aqui ela sempre se mostrou fiel e nunca falhou a quem se aventurou a apoiar-se nela; ela é verdadeira desde o princípio.
Desde que Deus começou a revelar-se aos filhos dos homens, tudo o que disse era verdadeiro e digno de confiança. A igreja, desde o seu princípio, foi edificada sobre esta rocha.
Ela não adquiriu sua validade com o passar do tempo, como muitos governos, cuja melhor alegação é a prescrição e o longo uso: Quod initio non valet, tractu temporis convalescit — Aquilo que, a princípio, carecia de validade, adquiriu-a com o passar do tempo.
O princípio da palavra de Deus, porém, era verdadeiro (assim alguns a leem); seu governo foi assentado sobre um fundamento seguro. Além disso, todos os que, em cada época, receberam a palavra de Deus com fé e amor acharam cada declaração nela fiel e plenamente digna de toda aceitação.
Ela se mostrará fiel até o fim, porque é justa: “Cada um de teus juízos permanece para sempre inalterável e de obrigação perpétua, determinando o destino eterno dos homens”.
SCHIN.
Versículo 161
Davi nos mostra aqui: 1. Como o temor dos homens o desanimava em seu dever: os príncipes o perseguiam. Viam-no como traidor e inimigo do governo e, sob essa ideia, procuravam tirar-lhe a vida e mandavam-no ir servir outros deuses (1 Samuel 26:19).
Serem perseguidos tem sido a sorte comum dos melhores homens; a situação é pior quando os príncipes são os perseguidores, pois não só têm a espada nas mãos e, portanto, podem causar mais dano, mas também têm a lei do seu lado e podem agir com prestígio e aparência de justiça.
É triste que o poder que os magistrados recebem de Deus e deveriam usar em favor dele seja empregado contra ele. Mas “não te maravilhes do caso” (Eclesiastes 5:8). Era um consolo para Davi que, quando os príncipes o perseguiam, pudesse dizer com verdade que era sem causa; nunca lhes dera provocação alguma.
- Como, apesar disso, permanecia no dever pelo temor de Deus: “Eles pretendem fazer-me temê-los e temer a palavra deles, para que eu faça o que me mandam; mas meu coração teme tua palavra, e estou resolvido a agradar a Deus e a manter-me em sua amizade, seja quem for que se desagrade de mim e rompa comigo.”
Toda alma alcançada pela graça teme a palavra de Deus, a autoridade de seus preceitos e o terror de suas ameaças; para aqueles que assim fazem, nada no poder e na ira humana parece de modo algum temível.
Devemos obedecer a Deus antes que aos homens e assegurar-nos do favor de Deus, ainda que nos lancemos sob os olhares de desaprovação do mundo inteiro (Lucas 12:4, 5). O coração que teme a palavra de Deus está armado contra as tentações que nascem da perseguição.
Versículo 162
Aqui está: 1. O prazer que Davi tinha na palavra de Deus. Ele se alegrava nela; alegrava-se porque Deus fizera tal revelação de sua vontade, porque Israel fora abençoado com essa luz enquanto outras nações permaneciam nas trevas, e porque ele próprio fora admitido à compreensão dela e experimentara seu poder.
Tinha prazer em lê-la, ouvi-la e meditar nela, e tudo o que nela encontrava lhe era agradável. Acabara de dizer que seu coração tremia de reverência diante da palavra de Deus, mas aqui declara que se alegrava nela. Quanto mais reverência tivermos pela palavra de Deus, mais alegria nela encontraremos.
- A intensidade desse prazer: como alguém que encontra grande despojo. Isso pressupõe uma vitória sobre o inimigo. É em meio a muita oposição que a alma chega a alegrar-se na palavra de Deus.
Mas, além do prazer e da honra da conquista, o saque do campo de batalha traz grande proveito, o que aumenta muito a alegria. Pela palavra de Deus nos tornamos mais que vencedores, isto é, obtemos ganhos indizíveis.
Versículo 163
O amor e o ódio são os afetos predominantes da alma; se estiverem bem orientados, os demais se moverão de acordo. Aqui os vemos bem orientados em Davi.
- Ele tinha uma aversão arraigada ao pecado; não suportava sequer pensar nele: “Odeio e abomino a mentira”. Isso pode ser entendido como referência a todo pecado, visto que, por meio dele, agimos traiçoeira e perfidamente com Deus e enganamos a nós mesmos.
A hipocrisia é mentira; a falsa doutrina é mentira; a quebra da palavra empenhada é mentira.
A mentira, nos negócios ou nas conversas, é um pecado que todo homem bom odeia e abomina, odeia e odeia em dobro, pois, entre as sete coisas que o Senhor odeia, uma é a língua mentirosa e outra, a falsa testemunha que profere mentiras (Provérbios 6:16).
Todos odeiam que lhes contem uma mentira; mas devemos odiar ainda mais contar uma mentira, pois, no primeiro caso, apenas recebemos uma afronta dos homens; no segundo, fazemos uma afronta a Deus.
- Ele tinha uma afeição arraigada pela palavra de Deus: “Amo a tua lei”. Por isso abominava a mentira, pois ela é contrária a toda a lei de Deus; e a razão pela qual amava a lei de Deus era a verdade dela. Quanto mais virmos da amável beleza da verdade, mais veremos da detestável deformidade da mentira.
Versículo 164
Davi, neste salmo, está cheio de queixas; contudo, elas nem afastaram seus louvores nem o fizeram perder o tom para oferecê-los. Em qualquer condição em que esteja um filho de Deus, não lhe falta motivo para louvor e, portanto, não lhe deveria faltar coração para isso.
Veja aqui: 1. Com que frequência Davi louvava a Deus: “Sete vezes ao dia”, isto é, com muita frequência; não apenas todos os dias, mas muitas vezes a cada dia. Muitos pensam que uma vez por semana basta, ou uma ou duas vezes por dia, mas Davi louvava a Deus pelo menos sete vezes ao dia.
O louvor a Deus é um dever que devemos cumprir em abundância. Devemos louvar a Deus em cada refeição, louvá-lo em todas as ocasiões e, em tudo, dar graças. Devemos louvar a Deus sete vezes ao dia, pois o assunto nunca se esgota e nossos afetos nunca devem se cansar. Veja o v. 62.
- Pelo que ele louvava a Deus: “por causa dos teus justos juízos”. Devemos louvar a Deus por seus preceitos, todos justos e bons, por suas promessas e ameaças, e pelo cumprimento de ambas em sua providência. Devemos louvar a Deus até por nossas aflições, se, pela graça, delas tiramos proveito.
Versículo 165
Aqui está um relato da felicidade dos homens bons, que são governados por um princípio de amor à palavra de Deus, fazem dela sua regra e são regidos por ela.
- Eles têm sossego e uma santa serenidade; ninguém desfruta mais da vida do que eles: grande paz têm os que amam a lei de Deus, abundante satisfação em cumprir seu dever e prazer em refletir sobre ele.
A obra da justiça é paz (Isaías 32:17), uma paz que o mundo não pode dar nem tirar. Podem enfrentar grandes tribulações fora e, ainda assim, desfrutar de grande paz por dentro, sat lucis intus — abundância de luz interior.
Os que amam o mundo têm grande inquietação, pois ele não corresponde à expectativa deles; os que amam a palavra de Deus têm grande paz, pois ela supera a expectativa deles, e nela encontram terreno firme.
- Eles estão seguros e têm uma santa segurança: “Nada os fará tropeçar”; nada lhes será escândalo, laço ou pedra de tropeço, de modo a enredá-los seja em culpa, seja em dor.
Nenhum desfecho da providência será para eles uma tentação invencível ou uma aflição intolerável; mas seu amor à palavra de Deus os capacitará tanto a conservar firme sua integridade quanto a preservar sua tranquilidade.
Eles tirarão o melhor proveito do que há e não se queixarão de nada que Deus fizer. Nada os fará tropeçar nem lhes causará prejuízo, pois tudo cooperará para o bem deles e, por isso, lhes agradará; eles se conformarão com isso.
Aqueles em quem reina esse santo amor não serão propensos a se perturbar com escrúpulos desnecessários nem a se ofender com seus irmãos (1 Coríntios 13:6, 7).
Versículo 166
Aqui está todo o dever do homem; pois somos ensinados: 1. A manter os olhos no favor de Deus como nosso fim: “Senhor, tenho esperado pela tua salvação, não só pela salvação temporal, mas também pela eterna.”
“Tenho esperado por ela como minha felicidade e nela acumulei meu tesouro; tenho esperado por ela como tua, como uma felicidade que preparaste e prometeste e que consiste em estar contigo. A esperança disso me elevou acima do mundo e me sustentou sob todos os meus fardos neste mundo.”
- A manter os olhos na palavra de Deus como nossa regra: “Tenho cumprido teus mandamentos”, isto é, tomei por dever de consciência conformar-me à tua vontade em tudo. Observe aqui como Deus uniu essas duas coisas, e que ninguém as separe.
Não podemos, com bons fundamentos, esperar pela salvação de Deus, a menos que nos dediquemos a cumprir seus mandamentos (Apocalipse 22:14).
Mas os que sinceramente procuram cumprir seus mandamentos devem conservar boa esperança da salvação; e essa esperança tanto empenhará como dilatará o coração no cumprimento dos mandamentos. Quanto mais viva for a esperança, mais viva será a obediência.
Versículo 167
A consciência de Davi dá aqui testemunho a seu favor:
I. Que suas práticas eram boas:
Ele amava os testemunhos de Deus; amava-os intensamente. Nosso amor pela palavra de Deus deve ser um amor supremo (devemos amá-la mais que as riquezas e os prazeres deste mundo) e um amor vitorioso, capaz de subjugar e mortificar nossos desejos pecaminosos e extirpar os afetos carnais.
Ele os guardava; sua alma os guardava. O exercício do corpo pouco aproveita na religião; precisamos fazer dela um trabalho do coração, ou nada alcançaremos com ela. A alma precisa ser santificada e renovada, e entregue ao molde da palavra; deve ocupar-se em glorificar a Deus, pois ele quer ser adorado em espírito.
Devemos guardar tanto os preceitos quanto os testemunhos: os mandamentos de Deus, por nossa obediência a eles, e suas promessas, por nossa confiança nelas.
II. Que nisso era governado por um bom princípio: “Por isso, guardei os teus preceitos, porque, pela fé, sempre vi teu olhar sobre mim; todos os meus caminhos estão diante de ti; tu conheces cada passo que dou e observas rigorosamente tudo quanto digo e faço.”
“Tu vês e aceitas tudo de bom que digo e faço; tu vês e te desagradas de tudo de errado que digo e faço.” Observe: a consideração de que o olhar de Deus está sobre nós em todo tempo deve tornar-nos muito cuidadosos em tudo para guardar seus mandamentos (Gênesis 17:1).
- TAU.
Versículos 169 a 170
Aqui temos, I. Um pedido geral para ser ouvido, repetido: “Chegue perto de ti o meu clamor”; e, novamente: “Chegue à tua presença a minha súplica”. Ele chama sua oração de clamor, o que indica seu fervor e sua veemência, e de súplica, o que indica sua humildade.
Devemos chegar a Deus como mendigos chegam à nossa porta em busca de esmola. Ele se preocupa em fazer sua oração chegar diante de Deus e aproximar-se dele; isto é, em ter graça e força para elevar suas orações com fé e fervor, sem que culpa alguma se interponha para barrá-las e separá-lo de Deus.
Também deseja que Deus receba benignamente suas orações e lhes dê atenção. Seu pedido para que a súplica chegasse diante de Deus implicava um profundo senso de sua indignidade e um santo temor de que a oração ficasse aquém ou falhasse, por não ser digna de chegar diante de Deus.
Nenhuma de nossas orações teria tido acesso a Deus se Jesus Cristo não se tivesse aproximado dele como advogado em nosso favor.
II. Dois pedidos específicos, que ele se empenha em apresentar: 1. Que Deus, por sua graça, lhe dê sabedoria para agir bem em meio às tribulações: “Dá-me entendimento”. Ele se refere à sabedoria do prudente, que consiste em entender seu caminho: “Dá-me conhecimento de ti, de mim mesmo e do meu dever para contigo”.
- Que Deus, por sua providência, o resgate de suas tribulações: “Livra-me”; isto é, que, juntamente com a tentação, abra uma saída (1 Coríntios 10:13).
III. O mesmo apelo geral para sustentar os pedidos: segundo a tua palavra. Isso orienta e limita seus desejos: “Senhor, dá-me o entendimento que prometeste e o livramento que prometeste; não peço outro”. Também anima sua fé e expectativa: “Senhor, aquilo pelo que oro é o que prometeste; não serás fiel à tua palavra?”
Versículo 171
Aqui está: 1. Um grande favor que Davi espera de Deus: que lhe ensine seus estatutos. Muitas vezes, neste salmo, ele orou por isso e reforçou seu pedido com diversos argumentos; agora, ao aproximar-se do fim do salmo, fala desse favor como algo certo.
Os que, com humildade, buscam sinceramente a Deus por sua graça e resolvem, como Jacó, não deixá-lo ir sem que os abençoe com bênçãos espirituais podem ter a humilde confiança de que, por fim, obterão aquilo que pedem com tanta insistência. O Deus de Israel lhes concederá o que lhe pedem.
- A gratidão que promete por esse favor: “Meus lábios proferirão louvor quando me tiveres ensinado.” (1.) Então terá motivo para louvar a Deus. Os ensinados por Deus têm muitos motivos para agradecer, pois esse ensino é a base de todas essas bênçãos espirituais, as melhores de todas e a garantia das bênçãos eternas.
(2.) Então saberá como louvar a Deus e terá disposição de coração para fazê-lo. Todos os que são ensinados por Deus aprendem essa lição; quando Deus abre o entendimento, abre o coração e, assim, abre os lábios, é para que a boca anuncie seu louvor. Se não aprendemos a louvar a Deus, nada aprendemos de proveitoso.
(3.) Por isso, ele insiste tanto em receber instruções divinas: para poder louvar a Deus. Os que oram pela graça de Deus devem ter em vista a glória de Deus (Efésios 1:12).
Versículo 172
Observe aqui: 1. O bom conhecimento que Davi tinha da palavra de Deus; ele a conhecia tão bem que estava pronto a reconhecer, com a máxima satisfação, que todos os mandamentos de Deus não são apenas justos, mas a própria justiça, a regra e o padrão da justiça.
- O bom uso que resolveu fazer desse conhecimento: “Minha língua falará da tua palavra”, não só para proferir louvor por ela, para a glória de Deus, mas também para discorrer sobre ela, para a instrução e edificação de outros, como aquilo de que ele próprio estava cheio (pois da abundância do coração a boca falará).
Também desejava que outros se enchessem dela. Quanto mais percebemos a justiça dos mandamentos de Deus, mais diligentes devemos ser em levar outros a conhecê-los, para que sejam regidos por eles.
Devemos sempre submeter nossa fala ao governo da palavra de Deus, de modo a jamais transgredi-la por fala pecaminosa ou silêncio pecaminoso; e muitas vezes devemos fazer dela o assunto de nossa fala, para que a palavra alimente a muitos e ministre graça aos ouvintes.
Versículos 173 a 174
Aqui, 1. Davi ora para que a graça divina opere em seu favor: “Que tua mão me ajude”. Ele descobre que suas próprias mãos não lhe bastam e que nenhuma criatura pode estender-lhe uma mão útil; por isso, ergue os olhos a Deus, esperando que a mão que o fez o ajude.
Pois, se o Senhor não nos ajudar, de onde poderá vir a ajuda de alguma criatura? Toda a nossa ajuda deve ser esperada da mão de Deus, de seu poder e de sua generosidade.
- Ele alega o que a graça divina já havia operado nele como garantia de mais misericórdia, sendo isso uma qualificação para recebê-la. Alega três coisas:
(1.) Que havia feito da religião sua escolha séria e deliberada: “Escolhi teus preceitos. Tomei-os por minha regra, não porque não conhecesse outra, mas porque, depois de examiná-los, não conheci melhor”.
São bons e fazem o bem de fato aqueles que são bons e fazem o bem, não por acaso, mas por escolha; e os que assim escolheram os preceitos de Deus podem contar com sua mão auxiliadora em todos os serviços que prestam e sob todos os seus sofrimentos.
(2.) Que seu coração estava voltado para o céu: “Tenho ansiado pela tua salvação”. Quando Davi chegou ao trono, encontrou no mundo o bastante para atraí-lo a permanecer aqui e fazê-lo dizer: “É bom estar aqui”; mas continuava olhando mais além e ansiando por algo melhor em outro mundo.
Há uma salvação eterna pela qual todos os santos anseiam e, por isso, oram para que a mão de Deus os ajude a avançar no caminho até ela.
(3.) Que tinha prazer em cumprir seu dever: “A tua lei é meu deleite. Não apenas me deleito nela, mas ela é meu deleite, o maior deleite que tenho neste mundo”.
Os que são alegres em sua obediência podem pedir com fé a ajuda de Deus para prosseguir em sua obediência; e os que esperam pela salvação de Deus devem deleitar-se em sua lei, e suas esperanças devem aumentar seu deleite.
Versículo 175
O coração de Davi continua voltado para o louvor a Deus; por isso: 1. Ele ora para que Deus lhe conceda tempo para louvá-lo: “Deixa viver a minha alma, e ela te louvará; isto é, prolonga minha vida, para que eu viva para a tua glória.”
A razão pela qual um homem bom deseja viver é poder louvar a Deus na terra dos viventes e fazer algo para a honra dele. Não: “Deixa-me viver e servir ao meu país, viver e prover minha família”; mas: “Deixa-me viver para que, ao fazer isso, eu possa louvar a Deus aqui, neste mundo de conflito e oposição.”
Quando morremos, esperamos ir para um mundo melhor a fim de louvá-lo, e isso nos é mais agradável, embora sejamos mais necessários aqui. Por isso, ninguém deveria desejar viver além do tempo em que ainda pode prestar algum serviço a Deus aqui.
“Deixa viver a minha alma”, isto é, “que eu seja santificado e consolado”, pois a santificação e o consolo são a vida da alma; então “ela te louvará”. Nossa alma deve ocupar-se em louvar a Deus, e devemos orar por graça e paz para sermos capacitados a louvá-lo.
- Ele ora para que Deus lhe dê forças para louvá-lo: “Que teus juízos me ajudem; que todas as ordenanças e todas as providências” (ambas são juízos de Deus) “me estimulem a glorificar a Deus; que sejam tema do meu louvor e me ajudem a preparar-me para essa obra.”
Versículo 176
Aqui está: 1. Uma confissão penitente: “Andei desgarrado, ou vagueio de um lado para outro, como uma ovelha perdida”. Assim como os pecadores não convertidos são como ovelhas perdidas (Lucas 15:4), também os santos fracos e inconstantes são como ovelhas perdidas (Mateus 18:12, 13).
Somos propensos a vaguear como ovelhas e, quando nos desgarramos, muito pouco capazes de reencontrar o caminho. Ao nos desgarrarmos, perdemos o consolo dos pastos verdejantes e nos expomos a mil danos.
- Uma petição de fé: “Busca teu servo”, assim como o bom pastor busca uma ovelha errante para trazê-la de volta (Ezequiel 34:12). “Senhor, busca-me, como eu costumava buscar minhas ovelhas quando se desgarravam”; pois o próprio Davi fora um pastor terno.
“Senhor, reconhece-me como um dos teus; pois, embora eu seja uma ovelha desgarrada, trago tua marca; cuida de mim, manda buscar-me pela palavra, pela consciência e pelas providências; traz-me de volta por tua graça.”
“Busca-me”, isto é, “encontra-me”; pois Deus nunca busca em vão. “Faze-me voltar, e voltarei.”
- Uma alegação de obediência: “Embora eu me tenha desgarrado, ainda assim não me afastei perversamente; não me esqueço de teus mandamentos”. Assim ele conclui o salmo com a consciência penitente do próprio pecado e a dependência cheia de fé da graça de Deus.
Com ambas, um cristão devoto concluirá seus deveres, concluirá sua vida; viverá e morrerá arrependendo-se e orando. Observe aqui:
(1.) É característica das pessoas boas não esquecerem os mandamentos de Deus, pois estão bem satisfeitas com suas convicções e bem firmadas em suas resoluções.
(2.) Mesmo os que, pela graça, se lembram de seu dever não podem deixar de reconhecer que em muitas ocasiões se desviaram dele.
(3.) Os que se desviaram de seu dever, se continuarem atentos a ele, podem, com humilde confiança, entregar-se ao cuidado da graça de Deus.