Salmos 116
Argumento
Este é um salmo de ação de graças. Não se sabe ao certo se Davi o compôs por alguma ocasião específica ou ao rever em geral os muitos livramentos misericordiosos que Deus lhe concedera, de seis tribulações e de sete.
Esses livramentos lhe arrancam muitas expressões muito vivas de devoção, amor e gratidão; com sentimentos piedosos semelhantes, nossas almas devem ser elevadas a Deus ao cantar este salmo. Observe:
I. A grande aflição e o perigo em que o salmista se encontrava, que quase o levaram ao desespero, v. 3, 10, 11. II. Seu recurso a Deus nessa aflição, v. 4. III. Sua experiência da bondade de Deus em resposta à oração: Deus o ouviu (v. 1, 2), teve compaixão dele (v. 5, 6) e o livrou, v. 8.
IV. Seu zelo quanto ao reconhecimento que deveria expressar pela bondade de Deus para com ele, v. 12: 1. Amará a Deus, v. 1. 2. Continuará a invocá-lo, v. 2, 13, 17. 3. Descansará nele, v. 7. 4. Andará diante dele, v. 9. 5. Cumprirá seus votos de ação de graças, reconhecendo neles o terno cuidado de Deus para com ele, e o fará publicamente, vv. 13-15, 17-19.
Por fim, continuará a ser servo fiel de Deus até o fim da vida, v. 16. Esses são suspiros de uma alma santa que a revelam muito feliz.
Versículos 1 a 9
Reconhecimentos Agradecidos.
Nesta parte do salmo temos:
I. Um relato geral da experiência de Davi e de suas resoluções piedosas (v. 1, 2), que resumem o salmo inteiro e dão uma ideia dele:
- Ele havia experimentado a bondade de Deus para com ele em resposta à oração: “Ele ouviu minha voz e minhas súplicas”. Em meio às dificuldades, Davi pedira misericórdia a Deus com humildade e fervor, e Deus o ouvira: acolhera bondosamente sua oração, tomara conhecimento de sua situação e lhe dera uma resposta de paz.
“Inclinou seu ouvido para mim.” Isso indica que está pronto e disposto a ouvir a oração: ele aproxima o ouvido, por assim dizer, da boca de quem ora, para ouvi-la, ainda que seja sussurrada em gemidos inexprimíveis. Ele escuta e ouve, Jeremias 8:6.
Mas indica também como é admirável a condescendência de Deus ao ouvir a oração: ele inclina o ouvido. Senhor, que é o homem para que Deus se abaixe tanto até ele?
- Em vista disso, Davi decidiu dedicar-se inteiramente a Deus e à sua honra:
(1.) Amará ainda mais a Deus. Começa o salmo um tanto abruptamente, declarando aquilo de que seu coração estava cheio: “Amo ao Senhor” (como em Salmos 18:1). Convém que comece assim, em conformidade com o primeiro e grande mandamento e com o propósito de Deus em todos os dons de sua generosidade para conosco.
“Amo somente a ele; nada além dele, a não ser aquilo que amo por causa dele.” O amor compassivo de Deus por nós exige, com justiça, que tenhamos nele um amor de deleite.
(2.) Amará ainda mais a oração: “Por isso o invocarei”. As experiências que tivemos da bondade de Deus para conosco em resposta à oração nos dão grande ânimo para continuarmos orando. Tivemos bom resultado apesar de nossa indignidade e de nossas fraquezas na oração; por que não o teríamos de novo?
Deus responde à oração para nos fazer amá-la e espera isso de nós em retorno por seu favor. Por que recolheríamos espigas em outro campo, depois de termos sido tão bem tratados neste?
Ou melhor: “Eu o invocarei enquanto viver” — no hebraico, “em meus dias” —, todos os dias, até o último. Repare: enquanto vivermos, devemos continuar orando. Devemos manter esse fôlego até nosso último suspiro, pois então nos despediremos da oração; até lá, temos necessidade constante dela.
II. Um relato mais específico do trato bondoso de Deus com ele e das boas impressões que isso lhe causou:
- Deus, no trato com ele, mostrou ser um Deus bom; por isso, Davi dá este testemunho e o deixa registrado (v. 5): “Gracioso é o Senhor, e justo. Ele é justo e não cometeu injustiça contra mim ao me afligir; é gracioso e foi muito bondoso ao me sustentar e livrar”.
Falemos todos de Deus conforme o temos conhecido. Acaso alguma vez o achamos diferente de justo e bom? Não: nosso Deus é misericordioso, misericordioso para conosco, e é por sua misericórdia que não somos consumidos.
(1.) Relembremos as experiências de Davi:
[1.] Ele passou por grande aflição e tribulação (v. 3): “As angústias da morte me cercaram”, isto é, angústias que provavelmente lhe causariam a morte, consideradas como as próprias agonias da morte. Talvez a intensidade da dor física, ou a perturbação mental, seja aqui chamada de dores do inferno: o terror da consciência que nasce do sentimento de culpa.
Repare: as angústias da morte são grandes angústias, e as dores do inferno, grandes dores. Portanto, esforcemo-nos para nos preparar para as primeiras, a fim de escapar das últimas. Elas o cercaram por todos os lados, prenderam-no e o dominaram, de modo que ele não podia fugir. Por fora, lutas; por dentro, temores.
“Encontrei tribulação e tristeza; não foram apenas elas que me encontraram, mas eu também as encontrei.” Os melancólicos encontram por si mesmos muita tristeza, criam para si muita tribulação ao dar livre curso à imaginação e à paixão; às vezes essa foi uma fraqueza de homens bons. Quando a providência de Deus torna difícil nossa condição, não a agravemos por nossa própria imprudência.
[2.] Em sua tribulação, recorreu a Deus com oração fiel e fervorosa, v. 4. Ele nos conta que orou: “Então invoquei o nome do Senhor”. Foi então, quando chegou ao extremo, que recorreu a ela, não como último remédio, mas como o antigo e único remédio, no qual encontrara bálsamo para toda ferida.
Também nos conta qual foi sua oração. Era breve, mas ia direto ao ponto: “Ó Senhor, rogo-te, livra minha alma; salva-me da morte e salva-me do pecado, pois é ele que mata a alma”. Tanto a humildade quanto o fervor dessa oração estão nas palavras: “Ó Senhor, rogo-te”.
Ao nos aproximarmos do trono da graça, devemos vir como mendigos que pedem uma esmola, o alimento necessário. As palavras seguintes (v. 5), “Gracioso é o Senhor”, podem ser entendidas como parte de sua oração, um apelo para fortalecer o pedido e animar sua fé e esperança: “Senhor, livra minha alma, pois tu és gracioso e misericordioso; só disso dependo para obter socorro”.
[3.] Em resposta à oração, Deus veio socorrê-lo em tempo oportuno e com eficácia. Pela experiência, Davi descobriu que Deus é gracioso e misericordioso e, em sua compaixão, preserva os simples, v. 6.
Por serem simples — sinceros, retos e sem dolo —, Deus os preserva, assim como preservou Paulo, cuja conduta no mundo não se guiava pela sabedoria carnal, mas pela simplicidade e sinceridade piedosa.
Embora sejam simples — fracos, desamparados e incapazes de se virar sozinhos, sem astúcia nem desígnio —, ainda assim, Deus os preserva, porque se entregam a ele e não confiam na própria capacidade. Os que pela fé se colocam sob a proteção de Deus estarão seguros.
(2.) Deixemos Davi relatar sua própria experiência:
[1.] Deus o sustentou em meio às tribulações: “Fui abatido, fui mergulhado nas profundezas da miséria, e então ele me ajudou: ajudou-me tanto a suportar o pior quanto a esperar o melhor; ajudou-me a orar, senão meu desejo teria falhado; ajudou-me a esperar, senão minha fé teria falhado”.
“Eu era um dos simples que Deus preservou, o pobre homem que clamou e que o Senhor ouviu”, Salmos 34:6. Repare: o povo de Deus nunca é rebaixado tanto que os braços eternos não estejam por baixo dele; quem é sustentado assim não pode afundar. Ou melhor, Deus escolhe ajudar justamente na hora da necessidade, no limite das forças, Deuteronômio 32:36.
[2.] Deus o livrou de suas tribulações (v. 8): “Tu livraste”, o que significa ou que impediu a aflição em que Davi estava prestes a cair, ou que o recuperou da aflição em que já estava. Deus o livrou bondosamente:
Primeiro, livrou sua alma da morte. Repare: é grande misericórdia de Deus estarmos vivos; essa misericórdia é ainda mais palpável se estivemos à porta da morte e, mesmo assim, fomos poupados e levantados, já a caminho da destruição e, contudo, mandados de volta.
É um milagre de misericórdia que uma vida tantas vezes perdida por direito e tantas vezes exposta ao perigo ainda seja prolongada. O livramento da alma da morte espiritual e eterna deve ser reconhecido especialmente por todos os que agora são santificados e em breve serão glorificados.
Segundo, livrou seus olhos das lágrimas, isto é, seu coração da dor excessiva. É grande misericórdia sermos preservados das causas da tristeza, do mal que produz a dor, ou, pelo menos, de sermos engolidos por tristeza demasiada.
Quando Deus consola os abatidos, solta o pano de saco dos enlutados e os cinge de alegria, livra seus olhos das lágrimas. Isso, porém, só será feito plenamente quando chegarmos ao mundo onde Deus enxugará todas as lágrimas de nossos olhos.
Terceiro, livrou seus pés da queda, da queda no pecado e, assim, na miséria. É grande misericórdia, quando nossos pés estão quase escorregando, que Deus nos segure pela mão direita (Salmos 73:2, 23), de modo que, embora entremos em tentação, ainda assim, não sejamos vencidos nem derrubados por ela. Ou: “Tu livraste meus pés de cair na sepultura, quando eu já tinha um pé lá”.
- Davi, ao corresponder a Deus com gratidão, mostrou ser um homem bom. Deus fizera tudo isso por ele; por isso:
(1.) Ele viverá uma vida de prazer em Deus (v. 7): “Volta ao teu descanso, ó minha alma!”
[1.] “Descansa, fica tranquila e não te agites com temores inquietos e desconfiados, como às vezes fizeste. Aquieta-te e então desfruta de tua paz. Deus te tratou com bondade; portanto, não precisas temer que algum dia te trate com dureza.”
[2.] “Descansa em Deus. Volta para ele como teu descanso e não busques nas criaturas o descanso que só nele se encontra.” Deus é o descanso da alma; somente nele ela pode habitar em paz. Portanto, deve recolher-se a ele e alegrar-se nele.
Ele nos tratou com generosidade, proveu suficientemente nosso consolo e refrigério e nos animou a recorrer a ele para desfrutá-los, em todo tempo e em toda ocasião. Contentemo-nos, portanto, com isso.
Volte àquele descanso que Cristo dá aos cansados e sobrecarregados, Mateus 11:28. Volte ao seu Noé — seu nome significa descanso —, como a pomba que, sem encontrar repouso, voltou à arca.
Não conheço palavras mais adequadas do que estas para fecharmos os olhos à noite, ao dormir, nem para fechá-los na morte, aquele longo sono: “Volta ao teu descanso, ó minha alma!”
(2.) Ele viverá uma vida de dedicação a Deus (v. 9): “Andarei diante do Senhor na terra dos viventes”, isto é, “neste mundo, enquanto eu continuar a viver nele”. Repare:
[1.] É nosso grande dever andar diante do Senhor: fazer tudo como convém em sua presença e sob seus olhos; mostrar-nos aprovados diante dele como Deus santo pela conformidade com ele, como nosso Senhor soberano pela submissão à sua vontade e, como Deus todo-suficiente, pela alegre confiança nele.
“Eu sou o Deus todo-poderoso; anda diante de mim” (Gênesis 17:1). Devemos andar de modo digno do Senhor, agradando-lhe em tudo.
[2.] Saber que estamos na terra dos viventes deve levar-nos e animar-nos a agir assim. Somos poupados e mantidos nessa terra pelo poder, pela paciência e pela terna misericórdia de nosso Deus; portanto, devemos cumprir conscienciosamente nosso dever para com ele.
A terra dos viventes é terra de misericórdia, pela qual devemos agradecer; é terra de oportunidades, que devemos aproveitar. Canaã é chamada terra dos viventes (Ezequiel 26:20), e aqueles a quem coube viver em tal vale de visão têm motivo especial para manter o Senhor sempre diante de si.
Se Deus livrou nossa alma da morte, devemos andar diante dele. Uma nova vida deve de fato ser uma vida nova.
Versículos 10 a 19
Reconhecimentos Agradecidos; Resoluções Piedosas.
A Septuaginta e algumas outras versões antigas fazem destes versículos um salmo distinto, separado do anterior. Alguns o chamaram de salmo do Mártir, suponho que por causa do v. 15. Davi faz aqui três confissões:
I. Sua fé (v. 10): “Cri, por isso falei”. Essas palavras são citadas pelo apóstolo (2 Coríntios 4:13) com aplicação a si e aos seus companheiros de ministério que, embora sofressem por Cristo, não se envergonhavam de reconhecê-lo.
Davi cria na existência, na providência e na promessa de Deus, em especial na garantia que Deus lhe dera por Samuel de que trocaria seu cajado de pastor por um cetro. Passou por muitas agruras crendo nisso; por isso falou: falou com Deus em oração (v. 4) e louvor, v. 12. Quem crê em Deus se dirigirá a ele.
Falou consigo mesmo: porque cria, disse à alma: “Volta ao teu descanso”. Falou com outros: contou aos amigos qual era sua esperança e em que se apoiava, embora isso irritasse Saul contra ele e lhe trouxesse grande aflição.
Repare: quem crê com o coração deve confessar com a boca, para a glória de Deus, o ânimo de outros e a comprovação da própria sinceridade, Romanos 10:10; Atos 9:19, 20. Os que vivem na esperança do reino da glória não devem temer nem se envergonhar de reconhecer sua dívida para com aquele que o comprou para eles, Mateus 10:22.
II. Seu temor (v. 11): “Fui muito afligido” e então “disse na minha precipitação” — de modo um tanto precipitado e irrefletido; “no meu espanto”, segundo alguns, quando estava consternado; “na minha fuga”, segundo outros, quando Saul o perseguia —: “Todos os homens são mentirosos”.
Ele se referia a todos com quem tinha de lidar: Saul e todos os seus cortesãos. Os amigos que julgava que o apoiariam o abandonaram e renegaram quando ele caiu em desgraça na corte.
Alguns pensam que isso é sobretudo uma crítica a Samuel, que lhe prometera o reino, mas o enganara, pois Davi dissera: “Um dia perecerei pela mão de Saul”, 1 Samuel 27:1. Observe:
A fé dos melhores santos não é perfeita nem sempre igualmente forte e ativa. Davi creu e falou bem (v. 10), mas agora, por incredulidade, falou mal.
Quando passamos por aflições grandes e dolorosas, especialmente se duram muito tempo, tendemos a nos cansar, a desanimar e quase a perder a esperança de um bom desfecho. Portanto, não sejamos severos ao censurar os outros, mas vigiemos cuidadosamente a nós mesmos quando estivermos em tribulação, Salmos 39:1-3.
Se os homens bons falam mal, é por precipitação, surpreendidos por uma tentação, não de propósito e premeditadamente, como o perverso que se assenta na roda dos escarnecedores (Salmos 1:1), se assenta e fala contra o irmão, Salmos 50:19, 20.
O que dissermos de errado por precipitação devemos desdizer mediante o arrependimento (como Davi, Salmos 31:22); então isso não nos será imputado.
Alguns não consideram essas palavras de Davi precipitadas. Ele foi muito afligido e forçado a fugir, mas não confiou no homem nem fez da carne seu braço. Não: disse: “Todos os homens são mentirosos; assim como os de baixa condição são vaidade, os de alta condição são mentira; portanto, minha confiança estava somente em Deus, e nele não posso ser decepcionado”.
Nesse sentido, parece que o apóstolo as entende, Romanos 3:4: seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso, em comparação com Deus. Todos os homens são volúveis e inconstantes, sujeitos à mudança; deixemos, portanto, de confiar no homem e apeguemo-nos a Deus.
III. Sua gratidão, v. 12, etc. Deus o tratara melhor do que seus temores lhe faziam esperar e o livrara bondosamente de suas aflições. Em vista disso:
- Pergunta que retribuição dará (v. 12): “Que darei ao Senhor por todos os benefícios que me fez?” Ele fala aqui:
(1.) Como alguém consciente de ter recebido muitas misericórdias de Deus: todos os seus benefícios. Parece que este salmo foi composto por causa de um benefício específico (v. 6, 7), mas nesse benefício Davi viu muitos outros, e aquele lhe trouxe muitos à memória.
Por isso agora pensa em todos os benefícios de Deus para com ele. Repare: ao falar das misericórdias de Deus, devemos engrandecê-las e falar delas com apreço.
(2.) Como alguém atento e empenhado em expressar gratidão: “Que darei ao Senhor?” Não que julgasse poder dar algo proporcional ou de valor equivalente ao que recebera. Não podemos alegar que somos capazes de recompensar a Deus, assim como não podemos merecer nenhum favor dele.
Mas desejava oferecer algo aceitável, algo que agradasse a Deus como reconhecimento de um coração grato. Pergunta a Deus: “Que darei?” Pergunta ao sacerdote, pergunta aos amigos; ou melhor, pergunta a si mesmo e reflete sobre isso em seu próprio coração. Repare: tendo recebido muitos benefícios de Deus, devemos perguntar que retribuição lhe daremos.
- Decide que retribuição dará:
(1.) Oferecerá a Deus louvores e orações com a maior devoção e solenidade, v. 13, 17.
[1.] “Tomarei o cálice da salvação, isto é, oferecerei as libações designadas pela lei em sinal de gratidão a Deus e me alegrarei com meus amigos pela bondade de Deus para comigo.” Chama-se cálice do livramento porque é bebido em memória de seu livramento.
Os judeus piedosos às vezes tinham um cálice de bênção em suas refeições particulares. O chefe da família bebia dele primeiro, dando graças a Deus, e todos à mesa bebiam com ele.
Alguns, porém, entendem que não é o cálice que Davi apresentaria a Deus, mas aquele que Deus lhe colocaria nas mãos. “Receberei”:
Primeiro, o cálice da aflição. Muitos bons intérpretes o entendem como esse cálice amargo que, contudo, é santificado para os santos, de modo que se torna para eles cálice de salvação. Filipenses 1:19: “Isso resultará em minha salvação”; é um meio de saúde espiritual.
Os sofrimentos de Davi prefiguravam os de Cristo; nos nossos, temos comunhão com os dele, e seu cálice era de fato um cálice de salvação. “Deus me concedeu tantos benefícios que tomarei prontamente qualquer cálice que puser em minhas mãos, sem contestá-lo; acolherei sua santa vontade.”
Nisso Davi falou a linguagem do Filho de Davi. João 18:11: o cálice que meu Pai me deu, não o tomarei e beberei?
Segundo, o cálice da consolação: “Receberei os benefícios que Deus me concede como vindos de sua mão e neles provarei seu amor, como a porção não apenas de minha herança no outro mundo, mas de meu cálice neste”.
[2.] “Oferecer-te-ei o sacrifício de ação de graças”, as ofertas de gratidão exigidas por Deus, Levítico 7:11, 12, etc. Repare: aqueles cujo coração é na verdade grato expressarão sua gratidão com ofertas de ação de graças.
Devemos primeiro entregar-nos a Deus como sacrifícios vivos (Romanos 12:1; 2 Coríntios 8:5) e depois empregar o que temos em sua honra em obras de piedade e caridade. Fazer o bem e repartir são sacrifícios que agradam a Deus (Hebreus 13:15, 16), e isso deve acompanhar as graças que damos ao seu nome.
Se Deus foi generoso conosco, o mínimo que podemos fazer em retorno é ser generosos com os pobres, Salmos 16:2, 3. Por que ofereceríamos a Deus algo que nada nos custa?
[3.] “Invocarei o nome do Senhor.” Ele havia prometido isso (v. 2) e aqui o repete, v. 13, e novamente no v. 17.
Se recebemos uma bondade de alguém semelhante a nós, dizemos que esperamos nunca mais incomodá-lo. Deus, porém, tem prazer em considerar as orações de seu povo uma honra e uma alegria para si, não um incômodo. Portanto, em gratidão pelas misericórdias passadas, devemos recorrer a ele em busca de outras e continuar a invocá-lo.
(2.) Terá sempre bons pensamentos sobre Deus, que cuida com grande ternura da vida e dos consolos de seu povo (v. 15): “Preciosa é à vista do Senhor a morte de seus santos”. Tão preciosa que ele não satisfará Saul, Absalão nem qualquer outro inimigo de Davi com sua morte, por mais ardentemente que a desejem.
Davi se consolara com essa verdade no auge de sua aflição e do perigo. Como o desfecho a confirmou, agora consola com ela outros que talvez se encontrem igualmente expostos.
Deus tem um povo, mesmo neste mundo, que são seus santos, seus misericordiosos, ou homens de misericórdia: receberam misericórdia dele e a demonstram por amor a ele.
Os santos de Deus são mortais e morrem; ou melhor, há quem deseje sua morte e faça tudo o que pode para apressá-la, às vezes conseguindo matá-los. Mas ela é preciosa à vista do Senhor. A vida deles também o é (2 Reis 1:13); seu sangue também, Salmos 72:14.
Deus muitas vezes impede de modo admirável a morte de seus santos quando apenas um passo os separa dela. Tem zelo especial pela morte deles, ordenando todas as suas circunstâncias para o melhor.
Quem os matar, por menos importância que dê a isso, será obrigado a pagar caro quando for feita a investigação do sangue dos santos, Mateus 23:35. Embora ninguém leve a sério a morte dos justos, Deus mostrará que a leva a sério.
Isso deve nos dispor a morrer, até mesmo por Cristo se formos chamados a isso, sabendo que nossa morte será registrada no céu. Aquilo que é precioso para Deus também deve ser precioso para nós.
(3.) Ele se obrigará a ser servo de Deus todos os seus dias. Depois de perguntar “Que darei?”, entrega a si mesmo, o que valia mais que todos os holocaustos e sacrifícios (v. 16): “Ó Senhor, na verdade sou teu servo”. Aqui está:
[1.] A relação que Davi declara ter com Deus: “Sou teu servo; escolho sê-lo, decido sê-lo; viverei e morrerei a teu serviço”. Ele chamara o povo de Deus, que lhe é querido, de seus santos; mas, ao falar de si, não diz “Na verdade sou teu santo” — título que considerava elevado demais para si —, e sim “Sou teu servo”.
Davi era rei e, mesmo assim, gloriava-se de ser servo de Deus. Ser servo do Deus do céu não diminui, antes honra, até os maiores reis da terra.
Davi não fala com Deus por mera formalidade, como é comum entre os homens dizer: “Sou seu servo, senhor”. Não: “Senhor, na verdade sou teu servo; tu sabes todas as coisas e sabes que o sou”.
E repete isso, pois se alegrava em pensar nessa relação e estava decidido a permanecer nela: “Sou teu servo, sou teu servo. Que os outros sirvam ao senhor que quiserem; na verdade sou teu servo”.
[2.] O fundamento dessa relação. Os homens se tornavam servos de duas maneiras:
Primeiro, por nascimento. “Senhor, nasci em tua casa; sou filho de tua serva e, portanto, pertenço a ti.” É grande misericórdia ser filho de pais piedosos; isso nos obriga ao dever e pode ser apresentado a Deus como apelo ao pedir misericórdia.
Segundo, por redenção. Quem obtinha a libertação de um cativo tomava-o por servo. “Senhor, soltaste minhas amarras; livraste-me das angústias da morte que me cercavam. Portanto, sou teu servo, tenho direito à tua proteção e estou obrigado a te servir.” “As mesmas amarras que soltaste me prenderão mais firmemente a ti.” Patrick.
(4.) Cumprirá conscienciosamente seus votos e aquilo que prometeu. Não apenas oferecerá os sacrifícios de louvor que havia prometido trazer; cumprirá também todos os demais compromissos assumidos com Deus no dia de sua aflição (v. 14): “Cumprirei meus votos”; e, novamente (v. 18), “agora na presença de todo o seu povo”.
Repare: votos são dívidas a serem pagas, pois é melhor não prometer do que prometer e não cumprir. Davi cumprirá seus votos:
[1.] Imediatamente. Não adiará seu cumprimento nem pedirá mais prazo, como maus devedores; antes: “Eu os cumprirei agora”, Eclesiastes 5:4.
[2.] Publicamente. Não esconderá seus louvores num canto; prestará o serviço que deve a Deus na presença de todo o seu povo, não por ostentação, mas para mostrar que não se envergonha de servir a Deus e para que outros sejam convidados a acompanhá-lo.
Cumprirá seus votos nos átrios do tabernáculo, onde havia uma multidão de israelitas reunidos, no meio de Jerusalém, a fim de dar à devoção maior reconhecimento público.