Salmos 103
Argumento
Este salmo pede mais devoção do que exposição; é um excelente salmo de louvor e de uso geral. Nele, o salmista:
I. Desperta a si mesmo e sua própria alma para louvar a Deus (v. 1, 2), pelo favor de Deus para com ele em particular (vv. 3-5), pelo favor concedido à igreja em geral e a todas as pessoas de bem, para com as quais Deus é e será justo, bondoso e constante (vv. 6-18), e por seu governo sobre o mundo, v. 19.
II. Deseja a ajuda dos santos anjos e de todas as obras de Deus para louvá-lo, vv. 20-22. Ao cantar este salmo, devemos cuidar especialmente de que nosso coração seja tocado pela bondade de Deus e se amplie em amor e gratidão.
Louvor Alegre.
Versículos 1 a 5
Um Salmo de Davi.
Davi tem comunhão aqui com o próprio coração; quem fala consigo mesmo dessa maneira e estimula a própria alma ao bem não é insensato. Observe:
I. Como ele se desperta para o dever do louvor, v. 1, 2:
É o Senhor que deve ser bendito e de quem se deve falar bem, pois ele é a fonte de todo bem, quaisquer que sejam os canais ou reservatórios. É ao seu nome, seu santo nome, que devemos consagrar nosso louvor e dar graças ao recordar sua santidade.
É a alma, e tudo que há em nosso interior, que deve empenhar-se em bendizer a Deus. Nossas práticas religiosas de nada valem se não as fazemos de coração, se aquilo que há em nós, ou melhor, tudo que há em nós, não se dedica a elas. Essa obra exige o homem interior, o homem inteiro, e mesmo tudo isso mal basta.
Para louvar a Deus em resposta a seu favor, precisamos lembrar com gratidão as misericórdias que dele recebemos: “Não te esqueças de nenhum de seus benefícios.” Se não lhe agradecemos por eles, nós os esquecemos. Isso revela injustiça, assim como falta de bondade, pois todos os favores de Deus contêm muita coisa digna de ser lembrada.
“Ó minha alma! Para tua vergonha, é preciso dizer que esqueceste muitos de seus benefícios. Certamente, porém, não esquecerás todos, pois não deverias ter esquecido nenhum.”
II. Como encontra abundante matéria para louvor, capaz de tocar profundamente o coração: “Vem, minha alma, considera o que Deus fez por ti.”
- “Perdoou teus pecados (v. 3); perdoou e continua a perdoar todas as tuas iniquidades.” Isso é mencionado em primeiro lugar porque, pelo perdão do pecado, é removido aquilo que nos impedia de receber coisas boas, e somos restituídos ao favor de Deus, que nos concede coisas boas.
Considere qual foi a provocação: iniquidade, e ainda assim perdoada; quantas foram as provocações, e ainda assim todas perdoadas. Ele perdoou todas as nossas transgressões. É uma ação contínua: ele continua perdoando, assim como continuamos pecando e nos arrependendo.
- “Curou tua enfermidade.” A corrupção da natureza é a enfermidade da alma, é sua desordem e ameaça sua morte. Ela é curada na santificação. Quando o pecado é mortificado, a doença é curada; embora seja complexa, ainda assim toda ela é curada.
Nossos crimes mereciam a morte, mas Deus salva nossa vida ao perdoá-los. Nossas doenças eram mortais, mas ele salva nossa vida ao curá-las.
As duas coisas andam juntas, pois a obra de Deus é perfeita, não é feita pela metade. Se ele tira a culpa do pecado pela misericórdia que perdoa, quebrará seu poder pela graça que renova.
Quando Cristo é feito justiça para uma alma, é feito também santificação, 1 Coríntios 1:30.
- “Resgatou-te do perigo.” Uma pessoa pode correr risco de morte não apenas por seus crimes ou doenças, mas pelo poder de seus inimigos. Por isso, também nisso experimentamos a bondade divina: aquele que resgatou sua vida da destruição (v. 4), do destruidor, do inferno (segundo o texto caldeu), da segunda morte.
A redenção da alma tem grande valor. Não podemos obtê-lo e, por isso, devemos ainda mais à graça divina que o realizou, àquele que obteve em nosso favor a redenção eterna. Veja Jó 33:24, 28.
- “Não apenas te salvou da morte e da ruína, mas também te fez na verdade e completamente feliz, com honra, prazer e vida longa.”
(1.) “Deu-te honra verdadeira e grande, nada menos que uma coroa: coroa-te com sua benignidade e suas ternas misericórdias.” Que dignidade maior pode receber uma pobre alma do que ser elevada ao amor e ao favor de Deus? Todos os seus santos têm essa honra. Que é a coroa de glória, senão o favor de Deus?
(2.) “Deu-te prazer verdadeiro: satisfaz tua boca com coisas boas” (v. 5). Somente o favor e a graça de Deus podem satisfazer uma alma, corresponder à sua capacidade, suprir suas necessidades e atender a seus desejos.
Somente a sabedoria divina pode comprometer-se a encher seus tesouros (Provérbios 8:21). Outras coisas empanturrarão, mas não saciarão, Eclesiastes 6:7; Isaías 55:2.
(3.) “Deu-te a perspectiva e a garantia de vida longa: tua juventude se renova como a da águia.” A águia vive muito; segundo os naturalistas, perto dos cem anos, perde todas as penas, como de fato troca boa parte delas todos os anos na época da muda. Nascem-lhe penas novas, de modo que rejuvenesce.
Quando Deus, pelas graças e consolações de seu Espírito, restaura os seus do declínio e os enche de vida e alegria renovadas, que lhes servem de penhor da vida e da alegria eternas, pode-se dizer que voltam aos dias de sua juventude, Jó 33:25.
Versículos 6 a 18
A Bondade e a Compaixão de Deus.
Até aqui, o salmista havia olhado apenas para suas próprias experiências e delas extraído matéria para louvor. Aqui olha ao redor e repara também no favor de Deus para com outras pessoas.
Devemos alegrar-nos nesses favores e dar graças por eles, pois todos os santos são alimentados à mesma mesa e participam das mesmas bênçãos.
I. Na verdade, Deus é bom para com todos (v. 6): exerce justiça e juízo, não apenas em favor de seu próprio povo, mas em favor de todos os oprimidos.
Mesmo na providência comum, defende a inocência injustiçada e, de um modo ou de outro, defenderá a causa dos que sofrem injúrias contra seus opressores. Sua honra está em humilhar os orgulhosos e ajudar os indefesos.
II. De modo especial, é bom para com Israel, para com todo aquele que é israelita de fato, de coração puro e reto.
- Revelou-nos a si mesmo e sua graça (v. 7): “Fez conhecidos seus caminhos a Moisés” e, por meio dele, seus atos aos filhos de Israel. Não apenas pela vara de Moisés aos que então viviam, mas também por sua pena às gerações seguintes.
Repare: a revelação divina é um dos primeiros e maiores favores de Deus concedidos à igreja. Ao revelar-se a nós, Deus nos restaura à comunhão consigo; ao nos dar conhecimento, concede-nos todo o bem.
Deu a conhecer seus atos e caminhos, isto é, sua natureza e maneira de tratar os filhos dos homens, para que saibam tanto o que pensar dele quanto o que esperar dele, segundo o dr. Hammond.
Ou podemos entender por caminhos seus preceitos, a estrada pela qual exige que andemos, e por atos, ou desígnios, como a palavra significa, as promessas e propósitos relativos ao que fará conosco. Assim Deus nos trata com equidade.
- Nunca foi rigoroso nem severo conosco, mas sempre terno, cheio de compaixão e pronto a perdoar.
(1.) Isso faz parte de sua natureza (v. 8): “O Senhor é misericordioso e gracioso.” Deus revelou esse caminho a Moisés no monte Horebe ao proclamar seu nome (Êxodo 34:6, 7), em resposta ao pedido de Moisés (Êxodo 33:13): “Peço-te, mostra-me teu caminho, para que eu te conheça.” “Meu caminho”, diz Deus, “é perdoar o pecado”.
[1.] Ele não se ira depressa, v. 8. É “tardio em irar-se”: não marca de modo rigoroso cada uma de nossas falhas nem se apressa em usar essas faltas contra nós.
Suporta por muito tempo os que o provocam intensamente e adia o castigo para dar-lhes prazo para se arrependerem. Não executa depressa a sentença de sua lei.
Não poderia ser tão tardio em irar-se se não fosse abundante em misericórdia, o próprio Pai das misericórdias.
[2.] Não permanece irado por muito tempo, pois “não altercará sempre” (v. 9), embora o ofendamos sempre e mereçamos que ele alterque conosco. Embora mostre seu desagrado por nossos pecados nas repreensões da Providência e no descrédito que nossas próprias consciências lançam sobre nós, causando-nos dor, ainda assim terá compaixão.
Não nos manterá para sempre em sofrimento e terror, não, nem mesmo por nossos pecados, mas, depois do espírito de escravidão, concederá o espírito de adoção. Como se parecem pouco com Deus os que sempre altercam, aproveitam toda oportunidade para altercar e nunca sabem quando parar! O que seria de nós se Deus nos tratasse assim?
Ele não conservará para sempre a ira contra seu próprio povo, mas o reunirá com misericórdias eternas, Isaías 54:8; 57:16.
(2.) Constatamos isso em nossa experiência. Quanto a nós, devemos reconhecer que “não nos tratou segundo nossos pecados”, v. 10. A Escritura fala muito da misericórdia de Deus, e todos nós podemos atestar que o que ela diz é verdade, pois a experimentamos.
Se ele não tivesse sido um Deus de paciência, há muito teríamos ido para o inferno; mas “não nos retribuiu segundo nossas iniquidades”. Assim dirão os que sabem o que o pecado merece.
Não nos infligiu os juízos que merecíamos nem nos privou dos consolos aos quais perdemos o direito. Isso deve levar-nos a pensar pior do pecado, não melhor, pois a paciência de Deus deve conduzir-nos ao arrependimento, Romanos 2:4.
- Perdoou nossos pecados, não somente minha iniquidade (v. 3), mas nossas transgressões, v. 12. Embora devamos buscar consolo no benefício que recebemos da misericórdia de Deus que perdoa, ainda assim devemos glorificá-lo pelo benefício que outros recebem. Observe:
(1.) As riquezas incomparáveis da misericórdia de Deus (v. 11): “Como o céu está elevado acima da terra”, tão elevado que a terra não passa de um ponto diante de sua vastidão, assim a misericórdia de Deus está acima dos méritos até daqueles que mais o temem. A distância é tão grande que não há proporção alguma entre ambos.
Mesmo os maiores atos de obediência humana não podem exigir como dívida o menor sinal do favor de Deus. Por isso, toda a descendência de Jacó se unirá a ele para reconhecer que é indigna até da menor de todas as misericórdias de Deus, Gênesis 32:10.
Observe: essa misericórdia é grande para com os que o temem, não para com os que o tratam com leviandade. Devemos temer ao Senhor e à sua bondade.
(2.) A plenitude de seus perdões, que comprova as riquezas de sua misericórdia (v. 12): “Como está longe o Oriente do Ocidente”, as duas direções de maior extensão do mundo, por serem inteiramente conhecidas e habitadas, razão pela qual os geógrafos medem nesse sentido as longitudes, “assim afastou de nós nossas transgressões”.
Elas jamais serão lançadas contra nós nem se levantarão no juízo para nos acusar. Os pecados dos crentes não serão mais lembrados nem lhes serão mencionados; serão procurados, mas não encontrados. Se os abandonarmos por completo, Deus os perdoará por completo.
- Compadeceu-se de nossas tristezas, v. 13, 14. Observe:
(1.) De quem ele se compadece: dos que o temem, isto é, de todas as pessoas de bem. Neste mundo, elas podem necessitar de compaixão por causa das aflições para as quais não apenas nascem, mas também nascem de novo.
Ou isso pode se referir àqueles que ainda não receberam o espírito de adoção, mas ainda tremem diante de sua palavra. Deles ele se compadece, Jeremias 31:18, 20.
(2.) Como se compadece: como um pai se compadece de seus filhos e lhes faz o bem conforme a necessidade. Deus é Pai dos que o temem, reconhece-os como filhos e os trata com ternura paterna.
Um pai se compadece dos filhos quando lhes falta conhecimento e os instrui; compadece-se quando são teimosos e os suporta; compadece-se quando adoecem e os consola (Isaías 66:13).
Compadece-se quando caem e os ajuda a levantar; compadece-se quando o ofendem e, após se submeterem, os perdoa; compadece-se quando sofrem injustiça e lhes faz justiça. Assim o Senhor se compadece dos que o temem.
(3.) Por que se compadece: “Pois conhece nossa estrutura.” Tem motivo para conhecê-la, pois foi ele quem nos formou. Tendo feito o homem do pó, lembra-se de que ele é pó, não apenas por sua constituição, mas por sua sentença: “Pó és.”
Leva em conta a fragilidade de nossos corpos e a insensatez de nossas almas. Sabe quão pouco podemos fazer e ajusta sua expectativa a isso; sabe quão pouco podemos suportar e ajusta a isso o peso que nos impõe. Em tudo se manifesta a ternura de sua compaixão.
- Perpetuou a misericórdia de sua aliança e assim providenciou alívio para nossa fragilidade, vv. 15-18. Veja aqui:
(1.) Como é curta a vida humana e incerta sua duração. Assim é até a vida de pessoas grandes e boas; nem a grandeza nem a bondade podem mudar sua natureza: “Quanto ao homem, seus dias são como a erva”, que brota da terra, se ergue pouco acima dela, logo murcha e à terra retorna. Veja Isaías 40:6, 7.
Em sua melhor condição, o homem parece um pouco mais que erva: floresce e apresenta bela aparência. Mesmo então, porém, é apenas como uma flor do campo, que, embora se distinga um pouco da erva, murchará com ela.
A flor de jardim costuma ser mais preciosa e valiosa. Embora também murche por natureza, dura mais por estar protegida pelo muro e pelo zelo do jardineiro.
A flor do campo, à qual a vida humana é comparada aqui, não apenas murcha por natureza, mas fica exposta aos ventos frios e está sujeita a ser arrancada e pisada pelos animais do campo.
A vida do homem não se desgasta apenas por si mesma: mil acidentes podem antecipar seu fim. Quando a flor está em pleno esplendor, passa sobre ela um vento destruidor, invisível e inesperado, e ela desaparece.
Pende a cabeça, perde as folhas, volta a desaparecer no solo, e o lugar que se orgulhava dela já não a conhece.
Assim é o homem. Deus leva isso em conta e se compadece dele. Que o próprio homem também o considere, seja humilde, desapegue-se deste mundo e pense no outro.
(2.) Como é longa e duradoura a misericórdia de Deus para com seu povo (v. 17, 18). Ela continuará depois da vida deles e sobreviverá à sua condição presente. Observe:
[1.] A descrição daqueles a quem pertence essa misericórdia. São pessoas que temem a Deus e são, na verdade, religiosas por princípio. Primeiro, vivem uma vida de fé, pois guardam a aliança de Deus.
Depois de se apegarem a ela, mantêm-se firmemente apegadas e não a largam. Guardam-na como um tesouro e sua porção; por nada neste mundo abririam mão dela, pois é sua vida.
Em segundo lugar, vivem uma vida de obediência: lembram-se de seus mandamentos para cumpri-los; caso contrário, não guardam sua aliança. Somente aqueles que cumprem conscientemente os preceitos de Deus receberão o benefício de suas promessas.
Vejam quem tem boa memória e também bom entendimento (Salmos 111:10): os que se lembram dos mandamentos de Deus não para falar deles, mas para cumpri-los e deixar-se governar por eles.
[2.] A duração da misericórdia que pertence a essas pessoas. Ela durará mais do que a vida delas na terra. Portanto, não precisam perturbar-se, embora sua vida seja curta, já que nem a morte abreviará nem prejudicará sua felicidade. A misericórdia de Deus é melhor do que a vida, pois sobreviverá a ela.
Em primeiro lugar, alcança suas almas, que são imortais: para elas, “a misericórdia do Senhor é de eternidade a eternidade”, de eternidade em seus conselhos a eternidade em suas consequências, na eleição delas antes da criação do mundo e na glorificação delas quando este mundo já não existir.
Pois elas foram predestinadas para a herança (Efésios 1:11) e aguardam a misericórdia do Senhor, o Senhor Jesus, para a vida eterna.
Em segundo lugar, alcança sua descendência, que será preservada até o fim dos tempos (Salmos 102:28): “Sua justiça”, isto é, a fidelidade de sua promessa, alcançará os filhos dos filhos.
Se estes seguirem os passos da piedade de seus antepassados e guardarem sua aliança, como eles fizeram, a misericórdia será preservada para eles, até mil gerações.
Versículos 19 a 22
Louvor Alegre.
Aqui está: I. A doutrina da providência universal, v. 19. Deus assegurou a felicidade de seu povo particular por promessa e aliança; a ordem da humanidade e do mundo em geral, porém, ele assegura pela providência comum.
O Senhor tem um trono próprio, um trono de glória, um trono de governo. Quem fez tudo também governa tudo, e faz ambas as coisas por uma palavra de poder: “Preparou seu trono”, fixou-o e estabeleceu-o sem que possa ser abalado. Determinou de antemão todas as medidas de seu governo e faz tudo segundo o conselho de sua própria vontade.
Preparou seu trono nos céus, acima de nós e fora de nossa vista, pois encobre a face de seu trono e estende sobre ele uma nuvem (Jó 26:9); contudo, ele mesmo pode julgar através da nuvem escura, Jó 22:13.
Por isso se diz que os céus governam (Daniel 4:26). Somos levados a considerar essa verdade pela influência que até os céus visíveis exercem sobre a terra e pelo domínio deles, Jó 38:33; Gênesis 1:16.
Mas, embora o trono de Deus esteja no céu, onde ele mantém sua corte e para onde devemos dirigir-nos a ele (“Pai nosso, que estás nos céus”), ainda assim “seu reino domina sobre tudo”.
Ele toma conhecimento de todos os habitantes e de todos os assuntos deste mundo inferior e dispõe de todas as pessoas e coisas segundo o conselho de sua vontade, para sua própria glória (Daniel 4:35). Seu reino governa todos os reis e todos os reinos, e ninguém está fora de sua jurisdição.
II. O dever de louvor universal que disso decorre: se todos estão sob o domínio de Deus, todos devem prestar-lhe homenagem:
- Que os santos anjos o louvem (v. 20, 21): “Bendizei ao Senhor, vós seus anjos”; e novamente: “Bendizei ao Senhor, todos vós, seus exércitos, seus ministros.” Davi vinha despertando a si mesmo e a outros para louvar a Deus; agora, ao concluir, convoca os anjos a fazê-lo.
Não é que precisem de nosso estímulo para louvar a Deus, pois o fazem continuamente. Ao convocá-los, porém, Davi expressa sua elevada opinião de Deus como digno da adoração dos santos anjos. Também desperta a si mesmo e a outros para esse dever ao lembrar que é obra dos anjos.
Ao considerar sua própria fraqueza e suas falhas no cumprimento desse dever, consola-se ao lembrar que há um mundo de santos anjos que habitam a casa de Deus e estão sempre a louvá-lo. Em suma, os anjos benditos são gloriosos servidores do Deus bendito. Observe:
(1.) Como estão bem preparados para seu posto. São capazes, pois “sobressaem em força”; são poderosos em força, como diz a expressão, aptos para realizar grandes coisas e perseverar em seu trabalho sem se cansar.
Têm tanta disposição quanto capacidade. Desejam saber qual é seu trabalho, pois “escutam a voz de sua palavra”. Permanecem à espera de ordens e instruções de seu grande Senhor e contemplam sempre seu rosto (Mateus 18:10), para perceber logo o primeiro sinal de sua vontade.
Estão dispostos a realizar o trabalho: cumprem seus mandamentos (v. 20); fazem sua vontade (v. 21). Não contestam ordem divina alguma; antes, empenham-se prontamente em executá-las. Tampouco demoram; voam depressa.
Cumprem seus mandamentos ao ouvir, ou assim que ouvem a voz de sua palavra, segundo o dr. Hammond. Obedecer é melhor que sacrificar: os anjos obedecem, mas não sacrificam.
(2.) Qual é seu serviço. São seus anjos e ministros. São dele porque ele os criou e os criou para si; são dele porque os emprega, embora não precise deles; são dele porque é seu dono e Senhor. Pertencem-lhe e estão prontos a obedecer-lhe.
Todas as criaturas são servas de Deus, mas não do mesmo modo que os anjos, que assistem diante da presença de sua glória. Soldados, marinheiros e todos os bons súditos servem ao rei, mas não como as pessoas da corte, os ministros de Estado e os membros da casa real.
[1.] Ocasionalmente os anjos servem a Deus neste mundo inferior: cumprem seus mandamentos, vão em suas missões (Daniel 9:21), travam suas batalhas (2 Reis 6:17) e servem para o bem de seu povo, Hebreus 1:14.
[2.] Louvam-no continuamente no mundo superior. Começaram cedo a fazê-lo (Jó 38:7), e esse continua sendo seu trabalho, do qual não descansam de dia nem de noite, Apocalipse 4:8. É glória de Deus ter tais servidores; glória ainda maior é não precisar deles nem receber deles qualquer benefício.
- Que todas as suas obras o louvem (v. 22), todas elas, em todos os lugares de seu domínio. Pois, por serem suas obras, estão sob seu domínio; foram feitas e são governadas para que lhe tragam renome e louvor.
Todas as suas obras, isto é, todos os filhos dos homens, em todas as partes do mundo: que todos louvem a Deus. Sim, e ainda as criaturas inferiores, que são obras suas: que o louvem por aquilo que são, embora não possam louvá-lo conscientemente, Salmos 145:10.
Ainda assim, tudo isso não dispensará Davi de louvar a Deus; antes, o estimulará a fazê-lo com mais alegria, para participar desse concerto. Ele conclui como começou: “Bendize ao Senhor, ó minha alma!”, v. 1. Bendizer a Deus e dar-lhe glória devem ser o alfa e o ômega de todos os nossos serviços.
Ele começou com “Bendize ao Senhor, ó minha alma!”; depois de escrever e cantar esse excelente hino em honra de Deus, não diz: “Agora, ó minha alma, já bendisseste ao Senhor; senta-te e descansa.” Antes, diz: “Bendize ao Senhor, ó minha alma!”, ainda mais e mais.
Por mais que tenhamos feito no serviço de Deus, ainda assim devemos continuar a estimular-nos a fazer mais. O louvor a Deus é um assunto inesgotável; portanto, só quando chegarmos ao céu, onde esse trabalho prosseguirá para sempre, poderemos considerá-lo concluído.