Matthew Henry

Salmos 101

Argumento

Davi certamente escreveu este salmo, que tem em si o espírito genuíno do homem segundo o próprio coração de Deus. É um voto solene que ele fez a Deus ao assumir o encargo de uma família e do reino.

Não importa se foi escrito quando começou a governar, logo após a morte de Saul, como alguns pensam, ou quando passou a reinar sobre todo o Israel e fez subir a arca para a cidade de Davi, como outros pensam.

É um excelente plano ou modelo para o bom governo de uma corte, ou para preservar nela a virtude e a piedade e, por meio delas, a boa ordem. Mas também se aplica às famílias particulares: é o salmo do chefe de família.

Instrui todos os que exercem autoridade, numa esfera maior ou menor, a usá-la de modo que seja motivo de temor para os malfeitores, mas de louvor para os que fazem o bem.

Aqui estão: I. O alcance geral do voto de Davi, v. 1, 2. II. Seus pormenores: ele detestaria e desaprovaria toda espécie de perversidade (vv. 3-5, 7, 8) e favoreceria e animaria os virtuosos, v. 6.

Alguns pensam que isso pode ser apropriadamente aplicado a Cristo, o Filho de Davi, que governa a sua igreja, a cidade do Senhor, por essas regras e que ama a justiça e odeia a perversidade.

Ao cantar este salmo, as famílias, tanto os que as governam quanto os que são governados, devem ensinar, admoestar e comprometer a si mesmos e uns aos outros a andar segundo sua regra, para que haja paz sobre elas e a presença de Deus com elas.

Misericórdia e Juízo; a Piedosa Resolução de Davi.

Versículos 1 a 8

Salmo de Davi.

Davi traça aqui para si e para outros um modelo tanto de bom magistrado quanto de bom chefe de família. E, se ambos fossem zelosos em cumprir os deveres de sua posição, isso contribuiria muito para uma reforma universal. Observe:

I. O tema escolhido para o salmo (v. 1): “Cantarei a misericórdia e o juízo”, isto é:

  1. A misericórdia e o juízo de Deus. Nesse caso, o salmo olha para trás, para os atos da Providência relativos a Davi desde que foi ungido rei pela primeira vez.

Durante esse tempo, de um lado, ele enfrentou muitas repreensões e agruras; contudo, do outro, teve muitos livramentos maravilhosos realizados em seu favor e favores concedidos a ele. A respeito deles, cantará a Deus. Repare:

(1.) As providências de Deus relativas ao seu povo costumam ser mistas: misericórdia e juízo. Deus pôs uma em contraste com o outro e lhes designou dias de abril, com chuvas e sol. Assim foi com Davi e sua família: houve misericórdia no retorno da arca e juízo na morte de Uzá.

(2.) Quando Deus, em sua providência, nos prova com uma mistura de misericórdia e juízo, é nosso dever cantar, e cantar a ele, tanto sobre uma quanto sobre o outro. Devemos ser devidamente afetados pelos dois e fazer a Deus os devidos reconhecimentos por ambos.

É digna de observação a paráfrase caldeia desta passagem: “Se tu me concederes misericórdia ou se trouxeres sobre mim algum juízo, diante de ti, ó Senhor, cantarei meus hinos por tudo isso.”

Seja qual for nossa condição exterior, alegre ou triste, devemos continuamente dar glória a Deus e cantar-lhe louvores. Nem o riso de uma condição próspera nem as lágrimas de uma condição aflita devem tirar-nos do tom dos cânticos sagrados. Ou:

  1. Pode-se entender que se trata da misericórdia e do juízo de Davi. Neste salmo, ele prometeria ser misericordioso e justo, ou sábio, pois juízo muitas vezes significa discernimento. Agir com justiça e amar a misericórdia é a soma do nosso dever.

Davi faria uma aliança de praticá-las conscientemente no lugar e na relação a que Deus o havia chamado, considerando as diversas providências divinas que lhe haviam sucedido. Tanto as misericórdias quanto as aflições da família são chamados à religião no lar.

Davi pôs seu voto num cântico ou salmo para guardá-lo melhor na memória e repeti-lo com frequência, e para que pudesse ser mais bem transmitido a outros e preservado em sua família como modelo para seus filhos e sucessores.

II. A resolução geral de Davi de conduzir-se com zelo e consciência em sua corte, v. 2. Temos aqui:

  1. Um bom propósito quanto à sua conduta: quanto à conduta em geral, isto é, como se comportaria em tudo. Viveria segundo uma regra, não de modo desenfreado nem ao acaso. Embora fosse rei, obrigaria a si mesmo, por uma aliança solene, a comportar-se bem.

Esse propósito dizia respeito, particularmente, à sua conduta em família. Tratava não só de como andaria quando aparecesse em público, quando se sentasse no trono, mas também de como andaria dentro de casa, onde estava menos exposto aos olhos do mundo, mas continuamente se via sob os olhos de Deus.

Não basta revestir-nos de religião quando saímos e aparecemos diante dos homens; devemos também governar-nos por ela em nossa família. Os que ocupam posições públicas não ficam dispensados, por isso, do zelo no governo de suas famílias.

Ou melhor: estão mais empenhados em dar um bom exemplo de governar bem suas próprias casas, 1 Timóteo 3:4.

Quando Davi tinha as mãos cheias de assuntos públicos, contudo, voltou para abençoar sua casa, 2 Samuel 6:20. Ele resolve:

(1.) Agir com consciência e integridade, andar por um caminho perfeito, o caminho dos mandamentos de Deus. Esse é um caminho perfeito, pois a lei do Senhor é perfeita. Por ele andará com coração perfeito, com toda a sinceridade, sem dissimular nem diante de Deus nem dos homens.

Quando fazemos da palavra de Deus nossa regra e somos governados por ela, quando temos a glória de Deus por fim e a buscamos, andamos num caminho perfeito com coração perfeito.

(2.) Agir com reflexão e discernimento: “Procederei com sabedoria”; compreenderei ou me instruirei num caminho perfeito, segundo alguns. Andarei com cautela.

Repare: todos devemos resolver andar segundo as regras da prudência cristã nos caminhos da piedade cristã. Nunca devemos nos desviar do caminho perfeito sob o pretexto de proceder com sabedoria. Contudo, enquanto permanecemos no bom caminho, devemos ser prudentes como as serpentes.

  1. Uma boa oração: “Ó, quando virás a mim?” Repare: é desejável que um homem que tem sua própria casa receba nela a visita de Deus e que Deus ali habite. Os que andam com coração perfeito num caminho perfeito podem esperar a presença divina.

Se compararmos o relato que o historiador faz de Davi (1 Samuel 18:14), veremos como corresponde exatamente ao propósito e à oração dele e que nenhum dos dois foi em vão. Davi, conforme se propusera, procedia com sabedoria em todos os seus caminhos; e, conforme orara, o Senhor estava com ele.

III. Sua resolução particular de ele próprio não praticar mal algum (v. 3): “Não porei coisa perversa diante dos meus olhos; não terei em meu desígnio nem buscarei nada além do que for para a glória de Deus e o bem público.”

Ele nunca terá diante dos olhos enriquecer a si mesmo empobrecendo seus súditos, nem ampliar sua própria prerrogativa invadindo a propriedade deles.

Em todos os nossos negócios terrenos, devemos verificar que aquilo em que fixamos os olhos seja reto e bom, não um fruto proibido, e que nunca busquemos algo que não possamos obter sem pecar.

Uma característica de um homem bom é que ele fecha os olhos para não ver o mal, Isaías 33:15. “Ou melhor: odeio a obra dos que se desviam dos caminhos da equidade (Jó 31:7); não apenas a evito, mas a abomino; ela não se apegará a mim. Se alguma mancha de injustiça vier às minhas mãos, será lavada rapidamente.”

IV. Sua resolução ulterior de não manter servos maus nem empregar pessoas viciosas ao seu redor. Ele não as apoiará nem lhes mostrará favor, para não endurecê-las em sua perversidade e animar outros a imitá-las.

Ele próprio não terá comunhão com elas nem as admitirá na companhia de seus outros servos, para que não espalhem a infecção do pecado por sua família. Não confiará nelas nem lhes dará autoridade sob seu comando, pois os que odiavam ser reformados certamente impediriam tudo o que é bom.

Ao mencionar casos específicos, não fala de bêbados, adúlteros, assassinos ou blasfemos. Não corria o risco de receber em casa pecadores tão grosseiros, nem precisava fazer uma aliança específica de não ter comunhão com eles.

Antes, fala daqueles cujos pecados causavam menos escândalo, mas não eram menos perigosos. Em relação a eles, precisava manter a guarda com cautela e proceder com sabedoria. Ele nada terá que ver:

  1. Com pessoas maldosas e rancorosas, de índole ruim, que guardam ressentimento por muito tempo e não se importam com o dano que causam àqueles contra quem têm alguma implicância (v. 4).

“Um coração perverso (que se compraz em contrariar e ser perverso) se afastará de mim, por não ser adequado ao convívio, cujo vínculo é o amor.”

“Não conhecerei”, isto é, “não terei familiaridade nem comunhão, se puder evitá-lo, com uma pessoa tão perversa; pois um pouco do fermento de malícia e perversidade levedará toda a massa.”

  1. Com os caluniadores e os que se comprazem em ferir secretamente a reputação de seu próximo (v. 5): “Quem calunia seu próximo às escondidas, ou inventa ou espalha histórias falsas em prejuízo de seu bom nome, a esse eliminarei de minha família e corte.”

Muitos procuram alcançar o favor dos príncipes fazendo descrições injustas de pessoas e fatos, que julgam agradar ao seu príncipe. “Se um governante dá ouvidos a mentiras, todos os seus servos são perversos”, Provérbios 29:12.

Mas Davi não apenas deixará de ouvi-los; impedirá também que obtenham cargos aqueles que esperam conquistar seu favor dessa maneira. Punirá não só quem acusa falsamente outra pessoa em tribunal aberto, mas também quem a calunia às escondidas. Quem dera Davi tivesse se lembrado desse voto no caso de Mefibosete e Ziba.

  1. Com pessoas altivas, presunçosas e ambiciosas. Ninguém causa mais dano numa família, numa corte ou numa igreja, pois somente da soberba vem a disputa.

“Por isso, não tolerarei quem tem olhar altivo e coração orgulhoso; não terei paciência com os que estão continuamente ávidos por todos os cargos, pois é certo que não buscam fazer o bem, mas apenas engrandecer a si mesmos e suas famílias.” Deus resiste aos soberbos, e Davi também o fará.

  1. Com pessoas falsas e enganadoras, que não têm escrúpulos em mentir nem em cometer fraudes (v. 7): “Aquele que pratica o engano, embora possa insinuar-se na minha família, contudo, assim que for descoberto, não habitará em minha casa.”

Alguns poderosos sabem alcançar seus próprios fins por meio de pessoas hábeis em enganar, que lhes servem de instrumentos adequados. Davi, porém, não empregará tais pessoas como seus representantes: “Quem conta mentiras não permanecerá diante dos meus olhos”, mas será expulso de casa com indignação.

Nisso Davi foi um homem segundo o próprio coração de Deus, pois o olhar altivo e a língua mentirosa estão entre as coisas que Deus odeia. Ele também foi um tipo de Cristo, que, no grande dia, banirá de sua presença todos os que amam e praticam a mentira, Apocalipse 22:15.

V. Sua resolução de confiar cargos sob sua autoridade aos honestos e bons (v. 6): “Meus olhos estarão sobre os fiéis da terra.” Ao escolher seus servos e ministros de Estado, Davi restringia-se à terra de Israel e não queria empregar estrangeiros.

Somente israelitas de nascimento receberão cargos, e, dentre esses, aqueles que eram na verdade israelitas: os fiéis da terra. Pois mesmo naquela terra havia pessoas infiéis. Seus olhos estarão sobre esses fiéis para descobri-los e encontrá-los.

Eles eram modestos e não se aglomeravam na cidade para pleitear cargos, mas viviam retirados na terra, no interior, longe disso. Os mais aptos para postos de honra e confiança costumam ser os que menos os cobiçam.

Por isso, príncipes sábios procuram essas pessoas em seus lugares afastados e em sua vida reservada, chamando-as para morar consigo e servir sob sua autoridade. Quem anda num caminho perfeito, que pratica conscientemente o que diz e faz, me servirá.

É preciso procurar por todo o reino homens honestos para integrá-los à corte; e, se um homem for melhor que outro, deve receber preferência. Essa foi uma boa resolução de Davi. Contudo, ou ele não a cumpriu, ou seu julgamento foi iludido quando fez de Aitofel seu braço direito.

Todos os chefes de família devem ter zelo e esforçar-se, por causa deles mesmos e de seus filhos, para acolher em casa servos que tenham motivos para esperar que temam a Deus. Os olhos do Filho de Davi estão sobre os fiéis da terra; seu segredo está com eles, e eles habitarão com ele.

Saul escolheu servos por sua boa aparência (1 Samuel 8:16), mas Davi os escolheu por sua bondade.

VI. Sua resolução de estender seu zelo à reforma da cidade e do país, assim como da corte (v. 8): “Destruirei cedo todos os perversos da terra, todos os que forem descobertos e declarados culpados; a lei seguirá seu curso contra eles.”

Ele faria todo o possível para destruir todos os perversos, de modo que não restasse ninguém notoriamente perverso. Faria isso cedo: não perderia tempo nem pouparia esforços.

Seria diligente e zeloso em promover a reforma dos costumes e reprimir o vício; os que forem fazer algo efetivo nessa obra precisam levantar cedo.

Seu objetivo não era apenas assegurar o próprio governo e a paz do país, mas a honra de Deus na pureza de sua igreja: “Para que eu elimine todos os que praticam a perversidade da cidade do Senhor.”

Não apenas Jerusalém, mas toda a terra era a cidade do Senhor; assim também é a igreja do evangelho. É do interesse da cidade do Senhor ser expurgada dos que praticam a perversidade, que tanto a mancham quanto a enfraquecem.

Por isso, é dever de todos fazer o que puderem, em suas posições, por obra tão boa e empenhar-se zelosamente nela.

Vem o dia em que o Filho de Davi eliminará da nova Jerusalém todos os que praticam a perversidade, pois ninguém que pratique a iniquidade entrará nela.


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