Salmos 100
Argumento
Com razão muitos cantam este salmo com grande frequência em suas reuniões religiosas, pois ele é muito apropriado tanto para expressar quanto para despertar sentimentos piedosos e devotos para com Deus em nossa aproximação dele nas ordenanças sagradas. E, se nosso coração acompanhar as palavras, nele entoaremos uma melodia ao Senhor.
Os judeus dizem que ele foi escrito para ser cantado com suas ofertas de ação de graças; talvez tenha sido. Mas dizemos que, assim como nada nele é peculiar à dispensação deles, assim seu início, com um chamado a todas as terras para louvarem a Deus, claramente o estende à igreja do evangelho. Aqui:
I. Somos chamados a louvar a Deus e a nos alegrar nele, v. 1, 2, 4.
II. Recebemos matéria para o louvor; devemos louvá-lo, considerando seu ser e sua relação conosco (v. 3), bem como sua misericórdia e sua verdade, v. 5. Essas são coisas claras e comuns e, portanto, ainda mais apropriadas como matéria da devoção.
Exortações Insistentes ao Louvor de Deus; Motivos para Louvar a Deus.
Versículos 1 a 5
Um Salmo de Louvor.
Aqui: I. As exortações ao louvor são muito insistentes. Este salmo realmente corresponde ao título “Um salmo de louvor”; começa com o chamado que encontramos diversas vezes recentemente (v. 1): “Celebrai com júbilo ao Senhor, todas as terras”, ou toda a terra, todos os habitantes da terra.
Quando todas as nações forem feitas discípulas e o evangelho for pregado a toda criatura, esse chamado será plenamente atendido.
Se, porém, entendermos o salmo anterior (como o expusemos) como um chamado à igreja judaica para se alegrar na administração do reino de Deus, sob o qual vivia (assim como os quatro salmos anteriores a ele se destinavam aos dias do Messias), talvez este salmo tenha sido destinado aos prosélitos que vieram de todas as terras para a religião dos judeus.
Seja como for, temos aqui: 1. Um forte convite para adorar a Deus. Não porque Deus precise de nós ou de algo que tenhamos ou possamos fazer, mas porque é sua vontade que sirvamos ao Senhor, que nos dediquemos ao seu serviço e nele nos ocupemos.
Devemos não apenas servi-lo em todas as formas de obediência à sua lei, mas também comparecer diante dele nas ordenanças que instituiu e nas quais prometeu manifestar-se (v. 2); entrar por suas portas e em seus átrios (v. 4); servi-lo entre seus servos e permanecer onde ele mantém sua corte.
Em todos os atos de culto religioso, quer em secreto, quer em família, comparecemos diante de Deus e o servimos; mas é sobretudo no culto público que entramos por suas portas e em seus átrios.
Ao povo não era permitido entrar no lugar santo; ali só os sacerdotes entravam para ministrar. Mas que o povo seja grato por seu lugar nos átrios da casa de Deus, aos quais era admitido e nos quais comparecia.
- Grande incentivo nos é dado para adorar a Deus com alegria (v. 2): “Servi ao Senhor com alegria”. Isso sugere uma predição de que nos tempos do evangelho haveria motivo especial de alegria e prescreve uma regra para o culto: que Deus seja servido com alegria.
Por meio da santa alegria realmente servimos a Deus; alegrar-nos nele é honrá-lo, e devemos servi-lo com santa alegria. Os adoradores da época do evangelho devem ser adoradores alegres; se servimos a Deus com retidão, sirvamo-lo com alegria.
Devemos estar dispostos e prontos para isso, alegres quando somos chamados a subir à casa do Senhor (Salmos 122:1), considerando um consolo para nossa vida ter comunhão com Deus.
Devemos ter prazer e bom ânimo nesse serviço e dizer: “É bom estar aqui”, aproximando-nos, em cada dever, de Deus, nossa alegria suprema, Salmos 43:4.
Devemos comparecer diante dele com cânticos, não só cânticos de alegria, mas também cânticos de louvor. “Entrai por suas portas com ações de graças”, v. 4. Não devemos apenas consolar a nós mesmos, mas também glorificar a Deus com nossa alegria e dar-lhe o louvor daquilo de que recebemos o prazer.
“Sede gratos a ele e bendizei seu nome”; isto é: (1.) Devemos considerar um favor ser admitidos em seu serviço e dar-lhe graças por termos a liberdade de acesso a ele, por termos ordenanças instituídas e por continuar a haver oportunidade de comparecer perante Deus nessas ordenanças.
(2.) Devemos entremeiar louvor e ações de graças em todos os nossos serviços. Esse fio de ouro deve atravessar cada dever (Hebreus 13:15), pois esse é o trabalho dos anjos. Em todas as coisas, deem graças, em cada ordenança, assim como em cada providência.
II. A matéria do louvor e os motivos para ele são muito importantes, v. 3, 5. Saibam o que Deus é em si mesmo e o que ele é para vocês. Repare: O conhecimento é a mãe da devoção e de toda a obediência; sacrifícios cegos jamais agradarão a um Deus que vê.
“Saibam disso; considerem-no e apliquem-no, e então vocês serão mais próximos e constantes, mais íntimos e sérios em sua adoração.” Conheçamos, então, estas sete coisas acerca do Senhor Jeová, com quem lidamos em todos os atos de culto religioso:
- Que o Senhor é Deus, o único Deus vivo e verdadeiro; que ele é um Ser infinitamente perfeito, autoexistente e autossuficiente, a fonte de toda existência. Ele é Deus, e não um homem como nós. É um Espírito eterno, incompreensível e independente, a primeira causa e o fim último.
Os pagãos adoravam uma criatura de sua própria imaginação; os artífices a fizeram, portanto ela não é Deus. Nós adoramos aquele que nos fez e fez todo o mundo. Ele é Deus, e todas as outras alegadas divindades são vaidade e mentira, sobre as quais ele triunfou.
- Que ele é nosso Criador: “É ele quem nos fez, e não nós mesmos”. Constato que existo, mas não posso dizer: “Eu sou o que sou”; por isso, preciso perguntar: “De onde venho? Quem me fez? Onde está Deus, meu Criador?” E é o Senhor Jeová.
Ele nos deu a existência, deu-nos esta existência; é tanto o formador de nossos corpos quanto o Pai de nossos espíritos. Não fizemos nem poderíamos fazer a nós mesmos. É prerrogativa de Deus ser sua própria causa; nossa existência é derivada e dependente.
- Que, portanto, ele é nosso proprietário de direito. Os massoretas, alterando uma letra no hebraico, leem: “Ele nos fez, e somos dele”, ou “a ele pertencemos”. Juntando as duas leituras, aprendemos que, porque Deus nos fez, e não nós mesmos, não pertencemos a nós mesmos, mas a ele.
Ele tem direito incontestável sobre nós e sobre todas as coisas, que são sua propriedade. Somos dele, para ser movidos por seu poder, dispostos segundo sua vontade e dedicados à sua honra e glória.
- Que ele é nosso governante soberano: somos seu povo ou súditos, e ele é nosso príncipe, nosso regente ou governador, que nos dá leis como agentes morais e nos pedirá contas do que fazemos. O Senhor é nosso juiz; o Senhor é nosso legislador.
Não temos liberdade para fazer o que queremos, mas devemos sempre considerar questão de consciência cumprir o que nos é ordenado.
- Que ele é nosso benfeitor generoso. Não somos apenas suas ovelhas, às quais tem direito, mas as ovelhas de seu pasto, das quais cuida; o rebanho que ele alimenta (assim se pode ler); portanto, as ovelhas de sua mão, sujeitas ao seu dispor porque são as ovelhas de seu pasto, Salmos 95:7.
Aquele que nos fez nos sustenta e nos dá abundantemente todas as coisas boas para desfrutarmos.
- Que ele é um Deus de infinita misericórdia e bondade (v. 5): “O Senhor é bom” e, portanto, faz o bem; “sua misericórdia é eterna”; é uma fonte que nunca se esgota.
Os santos, que agora são vasos santificados de misericórdia, serão, por toda a eternidade, monumentos glorificados da misericórdia.
- Que ele é um Deus de verdade e fidelidade invioláveis: “Sua verdade dura por todas as gerações”, e nenhuma de suas palavras cairá por terra como ultrapassada ou revogada. A promessa é certa para toda a descendência, de era em era.