Matthew Henry

Salmos 10

Argumento

A tradução da Septuaginta une este salmo ao nono e faz dos dois um só; o texto hebraico, porém, faz dele um salmo distinto, e o propósito e o estilo certamente são diferentes.

Neste salmo, I. Davi se queixa da maldade dos ímpios, descreve o terrível grau de impiedade a que chegaram, para grande desonra de Deus e prejuízo de sua igreja e de seu povo, e observa a demora de Deus em manifestar-se contra eles, vv. 1-11.

II. Ele ora para que Deus se manifeste contra eles em alívio de seu povo e se consola com a esperança de que Deus o fará no devido tempo, vv. 12-18.

Versículos 1 a 11

O Caráter dos Ímpios; O Caráter dos Perseguidores.

Davi revela nestes versículos:

I. Um afeto muito grande por Deus e por seu favor. Em tempos de aflição, aquilo de que ele se queixa com mais sentimento é a retirada da presença graciosa de Deus (v. 1): “Por que permaneces longe, como alguém indiferente às afrontas feitas ao teu nome e aos danos causados ao teu povo?”

Repare: a retirada de Deus é muito penosa para seu povo em qualquer época, mas especialmente em tempos de aflição. O livramento exterior está distante e oculto de nós; então pensamos que Deus está distante e, por isso, carecemos de consolo interior.

Mas a culpa é nossa, pois julgamos pela aparência exterior. Nós nos afastamos de Deus por nossa incredulidade e depois nos queixamos de que Deus está longe de nós.

II. Uma indignação muito grande contra o pecado, contra os pecados que tornaram perigosos aqueles tempos (2 Timóteo 3:1). Ele contempla os transgressores e se entristece, fica espantado e leva ao Pai celestial o relato de suas maldades.

Não o faz por vanglória, gabando-se diante de Deus de não ser como aqueles publicanos (Lucas 18:11), muito menos para dar vazão a ressentimentos, melindres ou paixões pessoais. Faz isso como alguém que leva a sério o que ofende a Deus e a todos os homens bons, e deseja ardentemente uma reforma dos costumes.

Invectivas apaixonadas e satíricas contra homens maus causam mais dano que benefício. Se quisermos falar de sua maldade, falemos dela a Deus em oração, pois só ele pode torná-los melhores.

Esta longa descrição da maldade dos ímpios se resume em suas primeiras palavras (v. 2): “O ímpio, em seu orgulho, persegue o pobre”. Duas coisas são postas na conta deles: orgulho e perseguição; a primeira causa a segunda.

Os orgulhosos querem que todos ao redor pensem como eles, professem sua religião, digam o que dizem, se submetam ao seu domínio e aceitem suas determinações. Aqueles que os ofuscam ou não cedem a eles são alvo de sua malícia e de seu ódio inveterado.

A tirania, tanto no Estado como na igreja, tem sua origem no orgulho. Depois de começar essa descrição, o salmista logo insere uma breve oração, entre parênteses, que ajuda a compreender o sentido, sem prejudicá-lo: “Sejam apanhados, como muitas vezes acontece aos orgulhosos, nas tramas que imaginaram” (v. 2).

Que seus planos sejam virados de cabeça para baixo e que eles mesmos caiam de cabeça por causa desses planos. Esses dois pontos da acusação são desenvolvidos aqui.

  1. São orgulhosos, muito orgulhosos, e extremamente presunçosos. Com razão, portanto, ele se admirava de que Deus não se manifestasse depressa contra eles, pois Deus odeia o orgulho e resiste aos orgulhosos.

(1.) O pecador se gloria orgulhosamente em seu poder e sucesso. Ele se gaba do desejo de seu coração, de poder fazer o que lhe agrada, como se nem o próprio Deus pudesse detê-lo, e de ter tudo o que desejou e alcançado seu objetivo.

Efraim disse: “Tornei-me rico, encontrei riquezas para mim” (Oseias 12:8). “Agora, Senhor, convém à tua glória permitir que um homem pecador alegue, dessa maneira, a soberania e a felicidade de um Deus?”

(2.) Ele contradiz orgulhosamente o juízo de Deus, que, sabemos, é conforme a verdade; pois bendiz o avarento, a quem o Senhor abomina. Veja como Deus e os homens diferem no que pensam das pessoas:

Deus abomina os mundanos avarentos, que fazem do dinheiro seu deus e o idolatram. Considera-os seus inimigos e não terá comunhão com eles. A amizade do mundo é inimizade contra Deus.

Mas os perseguidores orgulhosos os bendizem e aprovam suas palavras (Salmos 49:13). Aplaudem como sábios aqueles que Deus declara insensatos (Lucas 12:20); justificam como inocentes aqueles que Deus condena como profundamente culpados diante dele.

E admiram como felizes, por terem sua porção nesta vida, aqueles que Deus declara verdadeiramente miseráveis por esse motivo: “Tu recebeste, em tua vida, os teus bens”.

(3.) Ele afasta orgulhosamente os pensamentos de Deus e toda dependência e devoção a ele (v. 4): “O ímpio, pela altivez de seu rosto”, orgulho do coração que aparece até no semblante (Provérbios 6:17), não buscará a Deus nem acolherá pensamentos a respeito dele.

“Deus não está em todos os seus pensamentos”, isto é, não está em nenhum deles. Todos os seus pensamentos dizem que Deus não existe. Veja aqui:

[1.] A natureza da impiedade e da irreligião: não buscar a Deus nem tê-lo em nossos pensamentos. Não se pergunta por ele (Jó 35:10; Jeremias 2:6), não há desejo de ir a ele nem comunhão com ele, mas um desejo secreto de não depender dele nem lhe dever coisa alguma.

Os ímpios não buscam a Deus, isto é, não o invocam. Vivem sem oração, e isso é viver sem Deus. Têm muitos pensamentos, projetos e planos, mas em nenhum deles atentam para Deus, se submetem à sua vontade ou visam à sua glória.

[2.] A causa dessa impiedade e irreligião é o orgulho. Os homens não buscam a Deus porque julgam não precisar dele: suas próprias mãos lhes bastam.

Consideram a religião indigna deles, porque as pessoas religiosas são poucas, de condição humilde e desprezadas, e porque as restrições da religião lhes pareceriam uma diminuição de seu prestígio.

(4.) Ele despreza orgulhosamente os mandamentos e juízos de Deus (v. 5): “Seus caminhos são sempre penosos”. É muito ousado e obstinado em seus caminhos pecaminosos; insiste em seguir seu rumo, por mais cansativo que seja para ele e desagradável para os outros.

Trabalha penosamente em seus caminhos perversos; ainda assim, seu orgulho o torna voluntarioso e obstinado neles. Os juízos de Deus, o que ele ordena e o que ameaça fazer a quem desobedece às suas ordens, estão muito acima, fora de seu alcance visual.

Ele não percebe seu dever pela lei de Deus nem seu perigo pela cólera e pela maldição de Deus. Fale-lhe da autoridade de Deus sobre ele, e responderá que nunca viu Deus e, portanto, não sabe se Deus existe: Deus está nas alturas do céu, e quæ supra nos nihil ad nos, “nada temos a ver com as coisas que estão acima de nós”.

Fale-lhe dos juízos de Deus que serão executados sobre os que persistem em suas transgressões, e ele não se convencerá de que são reais. Estão muito acima, fora de seu campo de visão; por isso, julga que são meros espantalhos.

(5.) Ele despreza orgulhosamente todos os seus inimigos e os considera com o maior desdém. Bufa de desprezo diante daqueles que Deus prepara para serem seu açoite e sua ruína, como se pudesse frustrá-los a todos e enfrentá-los com êxito.

Mas, assim como é imprudente desprezar um inimigo, também é ímpio desprezar qualquer instrumento da cólera de Deus.

(6.) Ele desafia orgulhosamente a aflição e confia que sua prosperidade continuará (v. 6). Disse em seu coração, agradando-se desse pensamento: “Não serei abalado; meus bens estão guardados para muitos anos, e nunca passarei por adversidade”.

É como Babilônia, que disse: “Serei senhora para sempre” (Isaías 47:7; Apocalipse 18:7). Os mais próximos da ruína são aqueles que a consideram mais distante.

  1. São perseguidores, perseguidores cruéis. Para satisfazer seu orgulho e sua avareza, e em oposição a Deus e à religião, oprimem duramente todos os que estão ao seu alcance. Observe, a respeito desses perseguidores:

(1.) São muito amargos e maliciosos (v. 7): “Sua boca está cheia de maldição”. Mesmo contra aqueles a quem não conseguem causar dano real, cospem seu veneno e exalam ameaças de morte que não conseguem executar.

Assim, os fiéis adoradores de Deus têm sido anatematizados e amaldiçoados, com sino, livro e vela. Onde há um coração cheio de malícia, costuma haver também uma boca cheia de maldições.

(2.) São muito falsos e traiçoeiros. Há dano planejado, mas ele fica escondido debaixo da língua, sem ser percebido, pois “sua boca está cheia de engano e vaidade”. Aprendeu com o diabo a enganar para, assim, destruir; com isso encobre seu ódio (Provérbios 26:26).

Não se importa com as mentiras que conta, os juramentos que quebra nem os artifícios de dissimulação que emprega para alcançar seus objetivos.

(3.) São muito astutos e ardilosos ao executar seus desígnios. Sabem combinar meios e maneiras de levar a cabo o que pretendem com maior eficácia.

Como Esaú, aquele caçador astuto, ele se senta em lugares de emboscada, em lugares secretos, e seus olhos vigiam às escondidas para causar dano (v. 8). Não é por ter vergonha do que faz; se corasse, haveria alguma esperança de que se arrependesse.

Também não é por temer a cólera de Deus, pois imagina que Deus nunca lhe pedirá contas (v. 11). Age assim porque teme que a descoberta de seus desígnios os frustre.

Talvez se refira especialmente a ladrões e salteadores de estrada, que ficam à espreita dos viajantes honestos para se apoderarem deles e de seus bens.

(4.) São muito cruéis e bárbaros. Sua malícia se volta contra o inocente, que nunca os provocou, e contra o pobre, que não pode lhes resistir e sobre quem triunfar não lhes traria glória alguma.

Perderam completamente todo senso de honestidade e honra aqueles de cujos desígnios danosos nem a inocência nem a pobreza podem proteger alguém. Os que têm poder deveriam proteger o inocente e prover para o pobre; estes, porém, destroem aqueles de quem deveriam ser guardiões.

E que pretendem? Apanhar o pobre e arrastá-lo para sua rede, isto é, colocá-lo em seu poder não apenas para despojá-lo, mas também para matá-lo. Caçam a vida preciosa.

É o povo pobre de Deus que perseguem, contra o qual alimentam ódio mortal por causa daquele a quem esse povo pertence e cuja imagem traz. Por isso ficam à espreita para matá-lo: ele espera como leão sedento de sangue, que se alimenta da presa com prazer.

O diabo, de quem ele é agente, é comparado a um leão que ruge e procura não o que, mas a quem possa devorar.

(5.) São vis e hipócritas (v. 10): “Ele se agacha e se abaixa”, como fazem as feras para que a presa entre em seu alcance.

Isso indica que o espírito sórdido de perseguidores e opressores se rebaixará a qualquer coisa, por mais vil que seja, para realizar seus desígnios perversos. São testemunho disso as práticas vergonhosas de Saul ao caçar Davi.

Indica também que encobrem seus desígnios maliciosos sob a aparência de mansidão, humildade e bondade para com aqueles a quem pretendem causar o maior dano. Parecem se humilhar para reparar nos pobres e se interessar por suas preocupações, quando sua intenção é derrubá-los e fazer deles sua presa.

(6.) São muito ímpios e ateus (v. 11). Não poderiam violar dessa maneira todas as leis da justiça e da bondade para com os homens se antes não tivessem abandonado todo senso de religião e se rebelado contra a luz de seus princípios mais sagrados e evidentes: “Ele disse em seu coração: Deus se esqueceu”.

Quando a própria consciência o repreendeu pelas consequências de seus atos e perguntou como responderia por eles ao justo Juiz do céu e da terra, ele a calou com isto: “Deus abandonou a terra” (Ezequiel 8:12; 9:9).

Isso lança descrédito blasfemo: [1.] Sobre a onisciência e a providência de Deus, como se ele não pudesse ou não quisesse ver o que os homens fazem neste mundo inferior.

[2.] Sobre sua santidade e a retidão de sua natureza, como se, embora visse, ainda assim não reprovasse as perversidades mais contrárias à natureza e à humanidade, mas estivesse disposto a fechar os olhos para elas.

[3.] Sobre sua justiça e a equidade de seu governo, como se, embora visse e reprovasse a maldade dos ímpios, ainda assim jamais lhes pedisse contas ou os punisse, fosse porque não pudesse, não ousasse ou não quisesse fazê-lo.

Que os que sofrem nas mãos de opressores orgulhosos esperem que Deus se manifeste por eles no devido tempo, pois os que os maltratam também afrontam o Deus Todo-Poderoso.

Ao cantar este salmo e fazer dele nossa oração, devemos sentir no coração uma santa indignação contra a maldade dos opressores, terna compaixão pelas misérias dos oprimidos e zelo piedoso pela glória e honra de Deus, crendo firmemente que ele, no devido tempo, reparará os danos dos ofendidos e pedirá contas aos ofensores.

Versículos 12 a 18

Oração contra os Perseguidores.

Davi, com base na descrição anterior da desumanidade e da impiedade dos opressores, dirige-se a Deus. Observe:

I. O que ele pede. 1. Que o próprio Deus se manifeste (v. 12): “Levanta-te, ó Senhor!” “Ó Deus, ergue a tua mão, manifesta tua presença e tua providência nos assuntos deste mundo inferior. Levanta-te, ó Senhor, para confundir os que dizem que ocultas o rosto.”

“Manifesta teu poder e emprega-o para defender tua própria causa; ergue a mão para desferir um golpe fatal contra esses opressores; desnuda teu braço eterno.”

  1. Que Deus se manifeste em favor de seu povo: “Não te esqueças dos humildes, dos aflitos, que são pobres, que se tornaram ainda mais pobres e que são pobres de espírito. Seus opressores, em sua presunção, dizem que te esqueceste deles; e eles, em seu desespero, estão prestes a dizer o mesmo.”

“Senhor, mostra que ambos estão enganados.” 3. Que Deus se manifeste contra os perseguidores de seu povo, v. 15. (1.) Que lhes tire a capacidade de causar dano: “Quebra o braço do ímpio, tira-lhe o poder, para que o hipócrita não reine e o povo não caia em armadilha” (Jó 34:30).

Lemos sobre opressores cujo domínio foi retirado, mas cuja vida foi prolongada (Daniel 7:12), para que tivessem tempo de se arrepender. (2.) Que Deus lhes peça contas pelo dano que causaram: “Procura a maldade dele; traz à luz tudo o que ele pensou que ficaria para sempre oculto.”

“Pede contas de tudo aquilo que ele julgou que ficaria para sempre impune. Continua até não encontrares mais nada”, isto é, até que nenhum de seus atos maus fique sem que se exijam contas por ele, nenhum de seus desígnios perversos sem derrota e nenhum de seus partidários sem destruição.

II. O que ele apresenta para animar sua própria fé ao fazer esses pedidos:

  1. Ele apresenta as graves afrontas que esses opressores orgulhosos fazem ao próprio Deus: “Senhor, é por tua própria causa que suplicamos que te manifestes.” “Os inimigos fizeram dela tua causa; portanto, não convém à tua glória deixá-los impunes” (v. 13).

“Por que o ímpio despreza a Deus?” Ele o despreza, pois diz: “Não pedirás contas disso; nunca nos chamarás a prestar contas do que fazemos”. Não poderiam fazer maior afronta ao Deus justo.

O salmista fala aqui com espanto: (1.) Diante da maldade dos ímpios: “Por que falam de modo tão ímpio, tão absurdo?” É grande aflição para os homens bons pensar no desprezo que o pecado dos pecadores lança sobre o Deus santo, seus preceitos, promessas, ameaças, favores e juízos.

Tudo é desprezado e tratado com pouco caso. Por que os ímpios desprezam a Deus dessa maneira? Porque não o conhecem.

(2.) Diante da paciência e tolerância de Deus para com eles: “Por que lhes é permitido desprezar a Deus assim? Por que ele não se defende imediatamente e se vinga deles?” Porque ainda virá o dia do acerto de contas, quando estiver completa a medida de sua iniquidade.

  1. Ele apresenta o conhecimento que Deus tem da impiedade e da iniquidade desses opressores (v. 14): “Os perseguidores se animam com a fantasia infundada de que nunca verás isso? Que os perseguidos se animem com a fé bem fundamentada de que não só viste, mas continuas vendo tudo.”

“Vês todo o dano causado pelas mãos desses opressores e todo o rancor e a malícia ocultos em seus corações.” “Tudo é conhecido e observado por ti.” “Ou melhor: não só viste e continuas vendo, mas também lhes darás a devida retribuição, fazendo-a recair sobre o peito deles com tua mão justa e vingadora.”

  1. Ele apresenta a dependência que os oprimidos têm de Deus: “O pobre se entrega a ti; cada um deles o faz, inclusive eu. Confiam em ti como seu defensor e protetor; submetem seu caso a ti como seu Juiz, aceitam tua decisão e se põem à tua disposição.”

“Entregam-se a ti”, segundo a leitura de alguns, “sem ditar o que fazer, mas concordando com tua sabedoria e vontade.” “Assim te honram tanto quanto os opressores te desonram.” “São teus súditos voluntários e se colocam sob tua proteção; portanto, protege-os.”

  1. Ele apresenta a relação que Deus tem por bem manter conosco: (1.) Como grande Deus. Ele é “Rei para todo o sempre” (v. 16). É dever do rei administrar a justiça para refrear e amedrontar os malfeitores e para proteger e louvar os que fazem o bem.

A quem os súditos lesados recorreriam senão ao soberano? “Ajuda-me, meu senhor, ó rei! Vinga-me do meu adversário.” “Senhor, que todos os que te prestam homenagem e tributo como Rei se beneficiem de teu governo e encontrem em ti seu refúgio.”

“Tu és Rei eterno, ao contrário de todos os príncipes terrenos. Por isso podes e hás de distribuir, por um juízo eterno, recompensas e punições num estado eterno, quando o tempo já não existir. A esse juízo os pobres submetem seu caso.”

(2.) Como bom Deus. Ele é “o ajudador dos órfãos” (v. 14), daqueles que não têm ninguém para ajudá-los e têm muitos para prejudicá-los. Ele designou os reis para defenderem os pobres e os órfãos (Salmos 82:3); com muito mais razão o fará pessoalmente.

Pois adotou, entre os títulos de sua honra, o de “Pai dos órfãos” (Salmos 68:5), ajudador dos desamparados.

  1. Ele apresenta a experiência que a igreja e o povo de Deus tinham da prontidão divina em manifestar-se por eles. (1.) Deus dispersara e exterminara seus inimigos (v. 16): “Os pagãos pereceram de sua terra”.

Os remanescentes dos cananeus, as sete nações destinadas à destruição, que por muito tempo haviam sido espinhos nos olhos e aguilhões nos lados de Israel, agora enfim foram inteiramente arrancados.

Isso nos anima a esperar que Deus, do mesmo modo, quebre o braço dos israelitas opressores, que em alguns aspectos eram piores que os pagãos. (2.) Deus ouvira e respondera às suas orações (v. 17): “Senhor, muitas vezes ouviste o desejo dos humildes e nunca disseste a um suplicante aflito: ‘Busca-me em vão’.”

“Por que não poderíamos esperar a continuação e a repetição das maravilhas e dos favores de que nossos pais nos falaram?”

  1. Ele apresenta as expectativas que têm de Deus em vista do que já experimentaram dele: “Tu ouviste; portanto, farás teus ouvidos ouvir”, como em Salmos 6:9.

“Tu és o mesmo; teu poder, tua promessa e tua relação com teu povo são os mesmos; e a obra e as operações da graça neles são as mesmas. Por que, então, não esperar que aquele que foi um Deus que ouve orações continue sendo e sempre seja assim?” Mas observe:

(1.) De que maneira Deus ouve a oração. Primeiro ele prepara o coração de seu povo e depois lhe dá uma resposta de paz. Não devemos esperar sua resposta graciosa a não ser dessa maneira; assim, a ação de Deus em nós é a melhor garantia de sua ação em nosso favor.

Ele prepara o coração para orar, despertando desejos santos, fortalecendo nossa santíssima fé, firmando os pensamentos e elevando os afetos; então aceita graciosamente a oração.

Prepara também o coração para a própria misericórdia de que carecemos e pela qual oramos, tornando-nos aptos a recebê-la e usá-la bem; então nos concede essa misericórdia.

A preparação do coração vem do Senhor, e devemos buscá-la nele (Provérbios 16:1) e reconhecê-la como favor inicial. (2.) O que Deus fará em resposta à oração (v. 18):

[1.] Defenderá a causa dos perseguidos, fará justiça ao órfão e ao oprimido, julgará em favor deles, manifestará sua inocência, lhes devolverá os consolos e os recompensará por todas as perdas e danos que sofreram.

[2.] Dará fim à fúria dos perseguidores. Até aqui poderão chegar, mas não mais adiante; aqui serão detidas as ondas orgulhosas de sua malícia. Serão tomadas medidas eficazes para que o homem da terra não volte a oprimir.

Veja como o salmista agora faz pouco caso do poder daquele perseguidor orgulhoso que vinha descrevendo neste salmo e como fala dele com desdém depois de considerar a soberania de Deus.

Primeiro, ele é apenas um homem da terra, um homem saído da terra, como diz a expressão, nascido da terra e, portanto, insignificante, fraco e a caminho de voltar à terra.

Por que, então, deveríamos temer a fúria do opressor, se ele é apenas um homem que morrerá, um filho do homem que será como a erva? (Isaías 51:12). Aquele que nos protege é o Senhor do céu; aquele que nos persegue é apenas um homem da terra.

Segundo, Deus o mantém preso por uma corrente e pode facilmente conter o restante de sua cólera, de modo que ele não consiga fazer o que deseja. Quando Deus der a ordem, Satanás não enganará mais por meio de seus agentes (Apocalipse 20:3) nem oprimirá mais.

Ao cantar estes versículos, devemos entregar a Deus a causa justa, embora lesada, da religião, como pessoas sinceramente interessadas em sua honra e em seus interesses, crendo que ele, no devido tempo, a defenderá com zelo.


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